A IA não nasceu ontem. Em 1950, o matemático inglês Alan Turing já se perguntava se uma máquina poderia pensar. Em 1956, na pequena cidade de Hanover, nos EUA, quatro cientistas se reuniram na Conferência de Dartmouth e cunharam, pela primeira vez, o termo inteligência artificial. A IA tem, portanto, setenta anos. É mais velha que a nossa Constituição. O que mudou nas últimas duas décadas não foi a idéia, foi o poder de cálculo dos computadores. O ChatGPT, que assustou o mundo em 2022, é só a ponta visível de um iceberg que vem se formando há três gerações.
Há quem compare o momento à Revolução Industrial, e a comparação ajuda, mas só pela metade. Quando o tear mecânico chegou à Inglaterra no fim do século XVIII, deslocou tecelões adultos com ofícios consolidados. Foi duro, mas o degrau de aprendizado das novas profissões continuou ali: o filho do tecelão virou operário, o neto, engenheiro. A revolução da IA inverte essa lógica. Ela não ataca o veterano de profissão. Devora o primeiro degrau da escada. O recém-formado é a vítima silenciosa dessa transição, e poucos estão falando sobre isso.
Os números já apareceram. Um estudo de Stanford, de 2025, mostrou que o emprego de programadores entre 22 e 25 anos caiu quase 20% nos EUA desde o final de 2022, enquanto a mesma profissão cresceu 9% para a faixa de 35 a 49 anos. Em Yale, o desemprego entre recém-formados americanos chegou a 6%, contra 4% da média geral. No Reino Unido, as vagas de tecnologia para graduandos caíram 46% em um único ano. O Brasil vai sentir com atraso, como sempre, mas vai sentir.
Não se trata de demonizar a ferramenta. A IA é, hoje, um benefício concreto. Na medicina, mamografias analisadas com auxílio de algoritmos detectam até 17,6% mais casos de câncer de mama em comparação à leitura humana isolada. A FDA, agência reguladora americana, já aprovou mais de 115 algoritmos de IA radiológica.
Na advocacia, dados do CNJ mostram que 45,8% dos tribunais brasileiros já usam IA generativa, com 178 projetos ativos em 2024 e regulamentação pela resolução CNJ 615/25. Na engenharia, plataformas de cálculo estrutural assistido reduzem em semanas o que antes levava meses. Para o cidadão comum, isso significa fila menor, processo mais rápido, exame mais preciso, mas tudo tem um preço.
A mesma ferramenta que cura, porém, também vigia. O sistema ABIS, da Polícia Federal, pretende cadastrar dados biométricos de até 200 milhões de brasileiros, quase toda a população. O decreto 10.046, de 2019, instituiu o Cadastro Base do Cidadão e autorizou o compartilhamento de informações entre órgãos federais. A China oferece o exemplo extremo, com seu sistema de crédito social que já impediu 23 milhões de cidadãos de comprar passagens aéreas ou ferroviárias por baixa pontuação. A União Europeia foi para o lado oposto e, pelo seu AI Act, proibiu o reconhecimento facial em tempo real no espaço público. O Brasil está no meio do caminho. O PL 2338/23, que pretende ser o nosso marco regulatório da IA, segue em tramitação sem nenhuma urgência. Cada mês de atraso é mais um mês em que o estado avança sobre o cidadão sem regra clara. Eficiência sem fronteira definida tem nome, e esse nome é vigilância.
Diante desse cenário, ganha tração no debate público a ideia de uma renda mínima universal financiada pelo Estado, eventualmente custeada por tributação sobre empresas de automação, o velho "imposto sobre robôs" defendido por Bill Gates em 2017. A lei 10.835, sancionada em 2004, já institui a renda básica de cidadania, mas jamais foi regulamentada. O debate é legítimo e merece análise séria, mas o custo fiscal é alto: pagar uma renda básica modesta a cada brasileiro consumiria cerca de 11% do PIB. Não é solução simples, e a discussão merece coluna própria. Por ora, basta registrar que essa pauta entrou na conversa porque o problema do trabalho do futuro entrou na conversa.
Aos colegas advogados, aos médicos e aos engenheiros que leem este texto, fica o recado direto. A IA não vai substituir vocês. Vai substituir quem não souber usá-la. O profissional que recusar a ferramenta perderá espaço para aquele que dominar e entregar trabalho melhor, mais rápido e mais preciso. Quem revisa contrato no escritório, quem lê tomografia no hospital, quem calcula estrutura no canteiro de obra, todos têm hoje, na palma da mão, um assistente que ontem custaria uma equipe inteira. O uso da IA é dever profissional. Ignorá-lo é escolher a obsolescência. O tear mecânico levou cinquenta anos para mudar a Inglaterra. O ChatGPT mudou o mundo em três. Quem compreender que IA é ferramenta, não milagre nem ameaça, sairá na frente.
E que o cidadão comum exija dos seus representantes aquilo que ainda falta: regra clara, fronteira definida, debate honesto. Os tribunais já usam. Os hospitais já usam. A Polícia Federal já cadastra. A pergunta que resta é se vamos discutir o futuro, ou apenas descobrir, depois, o que foi decidido a nosso respeito.