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Castelo de José Rico: O paradoxo da herança ilíquida

O castelo de José Rico vale R$ 15 milhões. Está penhorado, foi a leilão três vezes sem comprador e agora enfrenta desapropriação. O caso ilustra o paradoxo da herança grande e ilíquida.

22/7/2026
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José Rico morreu em agosto de 2015. O castelo que construía há 24 anos em Limeira - mais de cem quartos, 48 mil metros quadrados, avaliado em R$ 15 milhões - nunca foi terminado. Onze anos depois, o imóvel ainda pertence ao espólio.

Em dezembro de 2025, a Justiça do Trabalho penhorou o castelo para garantir uma dívida trabalhista. O credor é um músico que trabalhou com a dupla Milionário & José Rico entre 2009 e 2015 sem registro em carteira - sem horas extras, 13º salário, férias ou FGTS.

O bem foi levado a leilão três vezes, inclusive com a área inteira ofertada em 2023. Nenhum comprador apareceu.

Em 26 de maio de 2026, a prefeitura de Limeira decretou utilidade pública sobre 10.249 metros quadrados do imóvel - a porção onde o castelo está construído. O objetivo declarado é transformar o espaço em polo de música sertaneja, com recursos estaduais, federais e privados. Sem verba municipal prevista.

A fila dos credores

Quando um imóvel penhorado é desapropriado, a indenização não vai diretamente para os donos. Vai primeiro para quem tem preferência legal sobre o bem.

Pelo art. 31 do decreto-lei 3.365/1941, os ônus reais sobre o bem desapropriado migram para o valor da indenização - a penhora trabalhista, portanto, se transfere do castelo para o dinheiro. O credor trabalhista fica na frente. Os herdeiros recebem o que sobrar. Há uma complicação no caso concreto. A prefeitura declarou utilidade pública de apenas 10.249 metros quadrados - não do imóvel inteiro.

A indenização é calculada sobre a área expropriada. Se o crédito trabalhista superar o valor dessa fração, o saldo continua perseguindo o espólio. Os herdeiros perdem a área desapropriada sem ver a indenização, e o restante do castelo continua penhorado. A aritmética exata depende de avaliação pericial ainda não produzida.

O ITCMD - O custo que corre desde 2015

Independente de desapropriação e penhora, há um custo que cresce desde agosto de 2015: o ITCMD.

Sobre um patrimônio avaliado em R$ 15 milhões, o imposto estadual paulista incide à alíquota de 4%, conforme a lei 10.705/2000 - R$ 600 mil de imposto base. O valor venal para fins fiscais é apurado pela Fazenda Estadual e pode diferir do valor de mercado declarado; os números servem como estimativa de ordem de grandeza.

A multa por não abertura do inventário no prazo legal é de 20% sobre o imposto quando o atraso supera 180 dias (lei 10.705/2000, art. 21): mais R$ 120 mil sobre a base. Total antes de qualquer correção: R$ 720 mil.

Sobre esse total, incide correção monetária pela variação da UFESP desde agosto de 2015 até o pagamento. A UFESP acumulou variação de aproximadamente 81% entre 2015 e 2026, o que eleva a estimativa total para cerca de R$ 1,3 milhão.

Esse custo corre independente de desapropriação, penhora ou disputas com credores. É o custo direto e calculável do tempo.

O paradoxo da herança ilíquida

O castelo foi avaliado em R$ 15 milhões - e não encontrou um comprador sequer em três leilões. Essa distância entre valor de avaliação e liquidez real é o problema central de heranças concentradas em ativos grandes e pouco divisíveis.

Os custos da sucessão - ITCMD, emolumentos, honorários - vencem em dinheiro. O ITCMD precisa ser recolhido antes da lavratura da escritura de inventário. Os herdeiros precisariam vender o bem para conseguir pagar - mas não conseguem vender sem a escritura que o inventário ainda não produziu. O bem não gera caixa enquanto está em espólio. A multa já está aplicada desde os primeiros meses após o falecimento - travada em 20% sobre o imposto base. O que corre desde então é a correção da base de cálculo pela variação da UFESP, tornando a dívida tributária maior a cada ano sem pagamento.

No caso do castelo, o problema é amplificado: imóvel inacabado, titularidade em espólio, penhora ativa. Qualquer arrematante com assessoria jurídica básica enxerga esse conjunto e passa para o próximo lote. R$ 15 milhões em avaliação, zero em liquidez.

O problema não é exclusivo de castelos. Qualquer herança concentrada em imóvel único de grande valor, fazenda ou participação em empresa familiar pode replicar a mesma dinâmica - com patrimônio menor e consequências igualmente reais.

Conclusão

O castelo de José Rico pode virar museu. Para os herdeiros, o desfecho prático depende de três valores ainda desconhecidos - o valor da indenização pela área desapropriada, o montante exato da dívida trabalhista e o ITCMD acumulado desde 2015.

Os credores aparecem no final. O problema começa muito antes, quando o patrimônio cresce sem um plano de transmissão.

O castelo foi construído por 24 anos. O plano para transmiti-lo não existia.

Autor

Filippe Libardi Neves Advogado especialista em inventário extrajudicial, planejamento sucessório e holding familiar. À frente da Libardi Neves Advocacia.

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