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Inteligência artificial vs. imprevisibilidade humana: O desafio preditivo no Direito

A pergunta que faz a espinha de dez em cada dez advogados gelar é clássica: “qual é a nossa chance de êxito?”.

16/9/2026
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Em plena era de IA, precedentes vinculantes e análise preditiva, responder a isso não deveria parecer uma consulta à bola de cristal. Mas por que ainda hesitamos? A resposta curta é: a imprevisibilidade do Judiciário. Geralmente essa imprevisibilidade é justificada pelo "caso concreto", a "produção de provas" ou o "livre convencimento".

O Prêmio Nobel Daniel Kahneman define como "ruído" a variabilidade indesejada em julgamentos que deveriam ser idênticos. Se dois juízes diante das mesmas regras entregam decisões opostas, ou se o humor do dia altera o resultado de uma sentença, estamos diante de ruído puro. E quando esse fenômeno opera em um sistema com um estoque de cerca de 75 a 80 milhões de processos pendentes e taxa de congestionamento acima de 70% (como aponta o relatório Justiça em Números do CNJ), a escala do caos se torna inevitável.

Recentemente, vivenciei um caso que testou até a paciência dos algoritmos. Um grupo de empregados ajuizou ações com um pedido idêntico: a validade de uma cláusula de PLR em norma coletiva. A conta parecia simples e binária: válida ou inválida.

Na primeira instância, vieram decisões conflitantes, o que é compreensível para um tema interpretativo. O nó cego surgiu quando identificamos que o mesmo juiz proferiu sentenças procedentes e improcedentes para a exata mesma tese, fundamentando ambas puramente no Direito.

No Tribunal, a roleta continuou: na mesma sessão de julgamento, uma turma composta por quatro desembargadores decidiu, por unanimidade, que a cláusula era válida e, minutos depois, também por unanimidade, declarou a mesma cláusula inválida. A sustentação oral do advogado na sessão impediu essa incongruência, alertando sobre a incongruência, mas isso não ocorreria se os julgamentos não fossem no mesmo dia, ao argumento de que “a decisão está posta, cabe agora apresentar recurso”.

Casos assim mostram que a jurimetria não falha por falta de dados, mas sim quando tenta encontrar lógica em padrões muitas vezes caóticos. A análise preditiva é indispensável para provisionamento, gestão de acordos, impactos e variabilidade de carteiras de processo, mas o "fator humano" do Judiciário ainda insiste em desafiar a estatística.

Se o próprio Judiciário diverge de si mesmo em uma única tarde, a jurimetria não pode ser vendida como uma bola de cristal que prevê o futuro. O verdadeiro valor dos dados no Direito não é eliminar a incerteza, mas sim aprender a mensurá-la. Enquanto tratarmos a jurimetria como um oráculo e não como gestão de risco, estaremos apenas automatizando nossa própria ilusão. O futuro da advocacia estratégica não é adivinhar a sentença é governar o caos para garantir a eficiência do negócio.

Autor

Clarisse Rozales Advogada da área trabalhista no escritório Andrade Maia Advogados.

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