O Carnaval brasileiro, espaço consagrado de crítica social, memória e exaltação nacional, também já abriu alas para o pensamento jurídico e intelectual do país.
Em diferentes épocas, a Avenida transformou juristas, escritores e instituições do Direito em personagens de samba, aproximando a lei, a literatura e a cidadania da cultura popular.
Entre esses nomes estão Rui Barbosa e Machado de Assis. O primeiro, advogado, jurista e tribuno da República; o segundo, cronista atento das engrenagens do poder e das contradições sociais.
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"A São Clemente comemora e traz Rui Barbosa para os braços do povo"
Em 1999, a escola São Clemente levou Rui Barbosa à Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.
O samba-enredo transformou o jurista baiano em protagonista de uma narrativa popular, cantada em versos que exaltavam igualdade, liberdade e reformas sociais.
À época, o Jornal do Brasil registrou que a escolha do personagem dialogava com a atuação internacional de Rui Barbosa na Conferência da Paz de Haia, em 1907, quando defendeu a igualdade entre as nações, reforçando a dimensão liberal e republicana de sua trajetória.
A reportagem destacou ainda que o samba evocava diferentes facetas do homenageado - o abolicionista, o jornalista e o intelectual - inserindo sua figura no imaginário popular como símbolo de liberdade e cidadania.
A homenagem, no entanto, não foi consensual. O periódico apontou que a escolha de Rui Barbosa como personagem central do enredo dividiu opiniões no meio carnavalesco.
Houve resistência, inclusive, dentro do próprio universo do samba, sob o argumento de que a figura do jurista e intelectual seria distante da tradição popular da festa.
Veja a letra completa:
"Vem recordar ser mais felizA São Clemente exalta o meu paísMinha escola faz a festaTraz para o povo um baiano genialDefensor da igualdadeA liberdade, o seu idealUma luta pioneiraNossa bandeira um país melhorReformas sociais ele pediuQue agitaram esse meu BrasilIdeias liberais, aboliçãoE Rui Barbosa orgulha essa naçãoO amor à pátria ele fez valerÁguia de haia nos faz vencerA luz de um novo amanhã viráSeu nome nunca mais vai se apagarMesmo exiladoJamais abandonou seus ideaisO jornalista consagradoQue a família amou demaisJurista e diplomata se fez imortalTornou-se um brasileiro sem igualUm líder nacionalO exemplo vai ficarA luta não pode acabarOs jovens vão lembrarO sonho irá brilhar"
"Clube Literário – Machado de Assis e Guimarães Rosa… Estrela em poesia!"
Em 2009, a Mocidade Independente de Padre Miguel, também do RJ, celebrou dois autores centrais da formação intelectual do país.
Machado, cronista atento das engrenagens do poder e das contradições sociais, e Guimarães Rosa, diplomata e intérprete do Brasil profundo, surgem como vozes que, assim como Rui Barbosa, ajudaram a pensar o Estado, a cidadania e o país para além da letra fria da lei.
No samba, romances, personagens e sentimentos "despertam das páginas do tempo".
Confira:
"Reluzente, estrela de um encontro divinalRisca o céu em poesiasTraz a magia pra reger meu carnavalDespertam das páginas do tempoRomances, personagens, sentimentosMachado de Assis que fez da vida sua inspiraçãoUm literário iluminadoAs obras, um destino a superaçãoNos olhos da arte, reflete o legadoO gênio imortal, do bruxo amadoQue deu ao jornal, um tom verdadeiroApaixonado pelo Rio de JaneiroA canção do meu sarau, te faz sonharA emoção vai te levarA estrela adormece, na paz do amorAbençoado um novo sol brilhouO vento traz Rosa de MinasRosas do mundo pra te encantarPalavras que tocam a almaFascinam e tem poder de curarPelas veredas do sertão, a fé, o povo em oraçãoPedindo a santa em romaria, pra chover em nosso chãoMistérios na vida desse escritorRevelam histórias de um sonhadorBrasil de tantas artes, nas letras sedução.Herança em cada coraçãoMocidade, a sua estrela sempre vai brilharUm show de poesia, em nossa academiaSaudade em verso e prosa vai ficar."
"A Velha Academia Berço de Heróis"
Em 1984, a escola paulista Rosas de Ouro levou à Avenida Tiradentes o samba-enredo "A Velha Academia Berço de Heróis", em homenagem à Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
À época, o Estado de S.Paulo destacou que o enredo buscava contar a história da Faculdade do Largo São Francisco desde as origens, ressaltando o papel da instituição na formação de lideranças nacionais e na consolidação das ideias liberais no Brasil.
A proposta do desfile era apresentar a faculdade como espaço de produção de pensamento, resistência e protagonismo político, associando sua trajetória aos principais momentos da história nacional.
A letra percorre personagens e símbolos ligados às Arcadas, citando figuras históricas como Rui Barbosa, o Barão do Rio Branco e o Visconde de Ouro Preto, ao mesmo tempo em que exalta o papel da Faculdade de Direito do Largo São Francisco na formação de presidentes, juristas e lideranças políticas do país.
O refrão menciona o 11 de agosto - Dia do Advogado - e faz referência ao tradicional hábito do "pendura", prática histórica associada às comemorações da data.
O samba rendeu à agremiação o bicampeonato do Grupo Especial, a principal divisão do Carnaval paulistano.
"Lá no largo são franciscoBem no centro de cidadeDia 11 de agostoPendura na faculdadeRosas de ouroPara o povo vem mostrarHá muito tempoUm conventoFoi se transformarEm faculdade que formouExpoentes da naçãoOuro Preto o viscondeRui BarbosaRio Branco o barãoZingarelaSaudações para os palmaresNavegando em verdes maresVem chegando o rei da velaArcadasO seu nome está presenteNos deu tantos presidentesComandando a nossa terraArcadasPrima em todo movimentoAlerta em todo momentoNa paz e na guerraBadalarÉ movimento e tradiçõesBadalarDo sino em nossos corações."
"Hoje a Restinga se encanta e faz a festa com você – 75 anos Viva a OAB"
Já em 2006, no Carnaval de Porto Alegre, a escola Estado Maior da Restinga cantou os 75 anos da Ordem dos Advogados do Brasil.
O desfile campeão trouxe para o abre-alas a figura de Themis, deusa da Justiça, e transformou a trajetória da OAB em samba, celebrando a atuação institucional como expressão de liberdade e cidadania.
"Sou de Direito, advogado, bacharelEu sou da tinga no samba sou menestrelEu quero ver a zona norte balançarQuando a tricolor da zona sul passarHoje com democracia, liberdade e justiçaRestinga em alto estilo vem contarUm grande marco na história brasileiraQue no Império começou a despontarPor decreto de Dom PedroSurgiram os primeiros cursos de Direito no paísCom a revolução de 30 Getúlio Vargas deu inícioA Ordem dos Advogados do BrasilBate o martelo, dá o veredictoFaz a luta pelo nosso cidadãoA OAB vai festejarSetenta e cinco anos vêm comemorarNo Estado Novo, tortura e repressãoPrisão de advogados, medidas de exceçãoA sua queda o país comemorouE a bossa nova prosperouTem Carmem Miranda indo para HollywoodCinema Novo o Brasil mostrou tambémPorém pra manchar a históriaUm duro golpe foi armadoE a ditadura tentou se perpetuar"Diretas já" é solução"Cara pintada" da naçãoHomenageamos neste dia tão felizOs paladinos da justiça no país"
"Advocacia – Dos primórdios à OAB, nosso direito de sambar em verde e rosa"
Mais recentemente, em 2018, a Vitória Régia, do Amazonas, apresentou enredo que percorreu a história da advocacia, da formação das leis na Europa à criação das faculdades de Direito no Brasil, chegando à atuação contemporânea dos advogados e às tensões políticas do país.
"Vitoria Régia pisa forte na avenidaBate no peito a mãe do samba chegouNo laço cultural com a OAB decantarO nosso direito de sambarViajando no tempoEncontramos a origem das leisMesopotâmia, Atena e RomaCivilizações da criaçãoJustiça social e liberdadeA verde e rosa clama pela igualdadeDireitos da humanidadeEm nome do pai, oremos, amém!As leis de Deus é bom seguir tambémE hoje, com a OAB a desfilarDe terno e gravata feliz e sambarPega na barra da saia, baianaE roda com alegriaAmor, que euforia!O berço do samba encantaBalança o meu coraçãoVerde e rosa tu és minha paixãoNo mundo novoDe Coimbra em Portugal a Olinda no BrasilE no Largo de São FranciscoOs primeiros bacharéisCélebres imortais das leis e dos direitosSentinelas fiéis da justiçaEm Manaus, a faculdade pioneiraÉ patrimônio, a velha jaqueiraNo carnaval, certifico e dou féPraça 14 raiz, comunidadeDe fato e de direito, a nossa bateriaÉ a verdadeira universidade"
Entre a lei e a folia
Os enredos mostram que o Carnaval, além de festa, também funciona como espaço de memória histórica.
Ao transformar Rui Barbosa, Machado de Assis, instituições jurídicas e a própria advocacia em personagens de samba, as escolas levaram à Avenida debates sobre liberdade, cidadania, justiça e formação do Estado brasileiro.