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Arnesto, do samba de Adoniran Barbosa, era advogado; conheça a história

Imortalizado na canção da sambista, Ernesto Paulella iniciou carreira jurídica aos 60 anos e advogou por cerca de três décadas.

13/2/2026
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"O samba tem por si o condão de enfeitiçar nossas vidas. O balanço do samba é místico. Não se concebe que nós, brasileiros, vivamos num ambiente ausente de samba. É como nos tirar o ar para respirar."

A fala é de Ernesto Paulella, advogado, que, em 2013, um ano antes de morrer, sintetizou, em depoimento ao grupo musical Trem das Onze, sua visão sobre o samba e sobre Adoniran Barbosa.

Não por acaso. Foi Ernesto Paulella quem entrou para a história da música popular brasileira como o "Arnesto", personagem de um dos sambas mais conhecidos do compositor paulista, o "Samba do Arnesto".

"Isso me encheu de orgulho, de amor próprio, me deu ânimo e disposição para enfrentar as vicissitudes da vida de quem está ligado ao canto, à música, à diversão e à arte", disse Paulella na entrevista.

Eternizado na canção, Ernesto exerceu a advocacia por cerca de 30 anos, mesmo tendo iniciado a carreira jurídica já na maturidade, aos 60.

A amizade com Adoniran

Segundo reportagem do Jornal do Advogado da OAB/SP, de 2011,  a amizade entre Ernesto Paulella e Adoniran Barbosa surgiu ainda nos anos 1930, em São Paulo, na porta da Rádio Record, no centro da capital, para onde Paulella havia sido levado por Nhá Zefa, cantora de música caipira bastante conhecida à época.

Paulella tocava violão como acompanhante em programas de rádio e em restaurantes, conciliando a atividade com o trabalho como vendedor da Recorde S.A. Indústrias Químicas.

Ele costumava ressaltar que nunca foi boêmio, já que precisava acordar cedo para vender a "Cera Recorde".

Entre rádios e ambientes musicais, Paulella e Adoniran tornaram-se amigos de encontros esporádicos e admiração mútua.

O convívio foi suficiente para que o compositor transformasse o nome do amigo em personagem de um samba que atravessou gerações.

Relembre a canção:

A história narrada na música, contudo, não corresponde a fatos reais.

Segundo registrou a reportagem da OAB/SP, Paulella sempre fez questão de esclarecer que o enredo era fruto da imaginação do compositor, assim como a grafia "Arnesto", adotada por Adoniran para dar musicalidade e reproduzir a oralidade popular característica de suas composições.

"A troca do ‘E’ pelo ‘A’ deve-se ao estilo único do Adoniran. Tinha de ser Arnesto, com ‘A’, senão não dava samba. Já a história contada na música é fruto de sua mente fértil e prodigiosa de compositor: eu nunca convidei ninguém para um samba em minha casa no Brás!", disse à época.

Advocacia tardia, exercício intenso

Paulella ingressou no curso de Direito nas Faculdades Integradas de Guarulhos, em 1975, passando a advogar principalmente na área cível, com ênfase em Direito de Família.

Exerceu a profissão de forma contínua até os 90 anos, quando problemas de saúde o afastaram da rotina forense.

A dedicação ao estudo marcou toda a sua vida.

Segundo o Jornal do Advogado, mesmo após deixar a advocacia, o causídico manteve o hábito de leitura e o interesse por diferentes áreas do conhecimento, incluindo obras jurídicas e línguas clássicas.

Ernesto Paulella morreu em 2014, aos 99 anos.

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