O V Tribunal do Júri da capital recebeu denúncia do Ministério Público de São Paulo contra Geraldo Neto, tenente-coronel da Polícia Militar, acusado de matar a esposa Gisele Alves, também policial militar, em fevereiro deste ano, na região do Brás, na capital paulista.
A acusação, apresentada pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva, imputa ao oficial a prática de feminicídio qualificado, no contexto de violência doméstica e familiar, com agravantes como motivo torpe e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Também foi incluído o crime de fraude processual, em razão da suposta alteração da cena do crime.
Segundo o MP, mensagens extraídas do celular do acusado indicam relação marcada por controle e comportamento possessivo.
Na denúncia, o oficial é descrito como tendo postura “tóxica, autoritária e possessiva”, sendo apontado que defendia um modelo de relacionamento em que o homem seria provedor e a mulher deveria ser “submissa”.
Mensagens atribuídas ao oficial, obtidas no curso da investigação, indicariam uma relação marcada por controle e imposição de regras à vítima.
Em um dos trechos, o militar descreve o modelo de relacionamento que defendia, afirmando tratar a esposa com “autoridade de macho alfa”, associando o papel feminino à submissão. As conversas também revelariam restrições impostas à vítima, como limitações quanto a cumprimentos a terceiros e à forma de se vestir.
Em outras mensagens, o acusado reforça a ideia de que a dinâmica do relacionamento deveria seguir regras estabelecidas por ele, vinculadas ao fato de ser o provedor da casa.
Para a acusação, o conjunto das mensagens reforça o contexto de violência doméstica e controle, apontado como elemento relevante para a caracterização do feminicídio.
O caso
A vítima, Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada ferida no apartamento do casal e levada ao Hospital das Clínicas, onde morreu em decorrência de traumatismo craniano causado por disparo de arma de fogo.
Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita após inconsistências identificadas na dinâmica do ocorrido. Laudos periciais e a reconstituição dos fatos afastaram a hipótese inicial, levando à conclusão de que o disparo não seria compatível com autolesão.
Com base nesses elementos, a Justiça autorizou a prisão preventiva do tenente-coronel, realizada no mesmo dia em que foi decretada, em São José dos Campos. O militar também responde a procedimento na Justiça Militar, onde já houve reconhecimento da acusação de fraude processual.