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Autoridades internacionais debatem futuro da advocacia sem fronteiras

Painel internacional reuniu representantes da Europa, Índia e Emirados para debater os rumos da profissão.

4/9/2026
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A inteligência artificial está transformando o trabalho dos advogados, mas não elimina a importância do julgamento profissional, da confiança e da compreensão das diferenças culturais entre sistemas jurídicos.

Diante desse cenário, a formação contínua deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser condição para o exercício da advocacia em um mercado cada vez mais internacionalizado.

A avaliação marcou o painel "Advocacia sem Fronteiras: Perspectivas Internacionais sobre Habilitação, Mobilidade e Educação Continuada", realizado nesta quarta-feira, 2, durante o Europe-Brazil Legal Summit, em Lugano, na Suíça.

Mediada por Bruno Barata, membro do Conselho da ALPS Academy e do World Law & Justice Forum, a mesa reuniu representantes de entidades jurídicas da Europa, Índia, Emirados Árabes Unidos e Brasil, além de Matthias Ruth, vice-reitor e provost da American University of Sharjah.

Bruno Barata, Matthias Ruth, Jörg Menzer, Prashant Kumar, Adil Fakhir, Murillo de Aragão e Diego Corrado discutiram impactos da IA e da internacionalização na advocacia.(Imagem: Migalhas/Redação)

Independência e inteligência artificial

Vice-presidente da International Bar Association, Jörg Menzer afirmou que a advocacia enfrenta pressões em duas frentes: de um lado, ameaças políticas e econômicas à independência profissional; de outro, a transformação tecnológica provocada pela inteligência artificial.

Para ele, a formação dos novos profissionais precisa reforçar que a advocacia não é apenas uma atividade econômica, mas uma função vinculada à defesa da Justiça e da independência.

"As considerações financeiras são importantes, mas muito mais importante é defendermos a Justiça e a independência."

Ao tratar da IA, Menzer destacou que tarefas tradicionalmente atribuídas a jovens advogados, como revisão de contratos e due diligence, já podem ser executadas por ferramentas tecnológicas.

A mudança, segundo ele, cria um desafio para os escritórios: se clientes deixam de pagar pelo trabalho que tradicionalmente servia de aprendizado aos profissionais em início de carreira, será necessário encontrar novas formas de formação prática.

Menzer, porém, afirmou acreditar que a tecnologia também poderá permitir que as novas gerações avancem mais rapidamente e adquiram conhecimentos que antes demandavam anos de experiência.

Novo valor do advogado

O advogado indiano Prashant Kumar também afirmou que a advocacia não continuará funcionando nos moldes tradicionais.

Segundo ele, startups e jovens empreendedores já chegam aos escritórios com estruturas, contratos e informações produzidos por ferramentas de inteligência artificial. Com isso, procuram o profissional para validar o material, identificar lacunas e acrescentar aquilo que a tecnologia não consegue oferecer.

"O próprio escopo dos serviços jurídicos vai se transformar."

Para Kumar, a existência de ferramentas capazes de produzir documentos jurídicos não torna o advogado dispensável, mas altera onde está seu valor.

"Hoje, quem é você como advogado? Você é um construtor de confiança."

Segundo ele, uma ferramenta de IA pode elaborar a estrutura de um contrato, mas não consegue construir confiança entre pessoas de culturas diferentes ou compreender integralmente as particularidades envolvidas na relação.

Nesse contexto, defendeu que a educação continuada deixe de ser vista apenas como requisito formal para manutenção da habilitação profissional.

Aprender a trabalhar com IA

Adil Fakhir, advogado dos Emirados Árabes Unidos, defendeu que advogados e escritórios incorporem a inteligência artificial à rotina profissional.

Segundo ele, não basta acessar as ferramentas: é preciso aprender a formular adequadamente as perguntas, compreender seu funcionamento e capacitar as equipes para utilizá-las.

"Continuem aprendendo. Ensinem a si mesmos e ensinem suas equipes."

Fakhir ressaltou, porém, que uma resposta gerada por inteligência artificial não deve ser simplesmente repassada ao cliente.

Para ele, cabe ao advogado revisar, conferir e validar o conteúdo antes de utilizá-lo profissionalmente, mantendo a responsabilidade humana sobre a orientação prestada.

Também afirmou que a tecnologia pode facilitar a atuação entre jurisdições, permitindo ao profissional compreender mais rapidamente regras e procedimentos estrangeiros, embora não substitua a necessidade de conhecer as particularidades locais.

Mobilidade profissional

Advogado italiano, Diego Corrado afirmou que atuar internacionalmente significa mais do que obter autorização formal para exercer a profissão em outro país.

"A verdadeira mobilidade exige adaptação e não apenas reconhecimento."

Segundo Corrado, a experiência da União Europeia demonstra que o reconhecimento das qualificações é apenas uma etapa. O advogado também precisa compreender o processo local, o idioma, a cultura profissional, as regras éticas e as expectativas dos clientes.

Ele destacou ainda a necessidade de princípios profissionais compartilhados entre diferentes jurisdições, como independência, confidencialidade, sigilo e responsabilidade.

"A mobilidade só funciona se a confiança viajar junto com o advogado."

Nesse processo, Corrado atribuiu papel relevante às Ordens e associações profissionais, que devem não apenas disciplinar o exercício da profissão, mas promover intercâmbio, formação e compreensão entre diferentes sistemas jurídicos.

O italiano também ressaltou a importância da atualização permanente.

"A formação contínua já não é um complemento da vida profissional. Ela se torna parte da própria competência profissional."

Sobre a inteligência artificial, alertou que a facilidade de acesso à informação não reduz a responsabilidade do advogado.

"A tecnologia não reduz a necessidade de julgamento profissional. Ela aumenta."

Ponte entre países

Presidente do Instituto Brasileiro de Direito Legislativo, o advogado Murillo de Aragão afirmou que a internacionalização tende a ganhar força no Brasil e exigirá profissionais capazes de compreender não apenas leis estrangeiras, mas também diferentes culturas.

"O advogado é a ponte de confiança entre as nações."

Segundo Aragão, a confiança necessária para ampliar negócios e relações internacionais não depende exclusivamente dos contratos.

"A confiança é construída pelas instituições, e não apenas pelos contratos."

Para ele, contratos distribuem riscos, enquanto instituições públicas e privadas criam o ambiente necessário para que investimentos ocorram. Nesse grupo, incluiu tribunais, governos, Ordens de advogados, universidades e entidades profissionais.

Aragão também classificou a educação continuada como questão de soberania. Segundo ele, profissionais brasileiros precisam adquirir conhecimento suficiente para dialogar em igualdade de condições com agentes estrangeiros e evitar uma espécie de "colonização jurídica".

Formação para uma carreira inteira

Matthias Ruth, vice-reitor e provost da American University of Sharjah, concentrou sua exposição nas transformações necessárias à educação profissional.

Segundo ele, a velocidade das mudanças no mercado exige que profissionais se tornem aprendizes durante toda a vida.

"Precisamos ser aprendizes ao longo de toda a vida."

Ruth defendeu uma formação voltada não apenas à aquisição de habilidades técnicas, mas ao desenvolvimento de pensamento crítico, comunicação, julgamento, sensibilidade cultural e capacidade de adaptação.

"Não queremos preparar nossos alunos apenas para o primeiro emprego. Queremos prepará-los para continuar bem-sucedidos no 40º ano de suas carreiras."

O acadêmico também defendeu maior participação dos próprios profissionais na construção dos programas de educação continuada. Para ele, advogados podem contribuir para currículos, governança universitária e programas capazes de responder às necessidades concretas do mercado.

Por fim, destacou a proteção da liberdade acadêmica e comparou sua função à independência assegurada à advocacia: ambas, afirmou, não existem apenas em benefício individual de professores ou advogados, mas como instrumentos necessários ao funcionamento da sociedade.

Ao tratar da internacionalização do ensino, Ruth alertou ainda para programas que oferecem pouco conteúdo efetivo e se aproximam de um “turismo disfarçado de oportunidade de estudo”. Para ele, experiências internacionais devem efetivamente desenvolver competências culturais, pensamento crítico e capacidade de enfrentar problemas complexos.

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