"Eu não tinha caneta, não tinha papel, não tinha voz". Foi dentro do sistema prisional, em meio à escassez e à perda, que Cleo Santos começou a escrever.
Na época, ela sabia ler, mas ainda tinha dificuldades com a escrita. Papel e caneta também não estavam facilmente ao alcance. O suporte encontrado foram as tampas das quentinhas servidas no cárcere.
A literatura surgiu depois de uma das notícias mais dolorosas que recebeu durante o período em que esteve presa: a morte da mãe.
Cleo não pôde comparecer ao enterro.
Ao olhar para aquilo que, até então, seria apenas descartado, encontrou uma possibilidade.
"Eu olhei a tampa das quentinhas e lembrei da minha história, do meu passado, e vi que, quando eu descobri que era filha adotiva e que fui jogada no lixo, eu olhei para aquilo e disse: é ali que vai nascer a escritora."
Do lugar para onde todos olhavam como lixo, ela decidiu retirar palavras.
"Onde todos iam ao lixo, eu vi uma oportunidade, a minha liberdade."
Em entrevista ao Migalhas, Cleo Santos falou sobre a prisão, a descoberta da escrita, a relação com o filho, as dificuldades enfrentadas após deixar o cárcere e o projeto que criou para oferecer a outras mulheres as oportunidades que um dia também lhe faltaram.
Quando nasce a escritora
A escrita de Cleo começou cerca de 13 meses depois de sua entrada no sistema prisional.
Até então, segundo conta, sabia ler, mas não propriamente escrever. Dentro da prisão, passou a trocar alimentos e aquilo que tinha à disposição por papel, caneta e ajuda das outras mulheres.
Pouco a pouco, encontrou nas palavras uma maneira de organizar a própria história.
"Ali eu vi um momento de poder fazer uma narrativa, contar a minha própria história."
A primeira delas surgiu justamente após a morte da mãe.
No sistema prisional, explica, havia diferentes chamadas ao longo do dia. Foi durante uma delas que um agente a informou da morte e também de que ela não poderia comparecer ao enterro.
Da experiência nasceu seu primeiro poema, "A Última Chamada".
"Foi onde eu fiz um verso para minha mãe."
As lembranças da mãe abriram caminho para outras memórias. Assim começou a construção de "Das Grades à Liberdade", obra em que Cleo narra parte de sua trajetória.
"Foi através [sic] da minha mãe, de memórias, que eu comecei a escrever o meu livro."
Uma história antes das grades
A prisão não é o início da história que Cleo procura contar.
Antes dela, houve uma relação amorosa que, vista hoje, a escritora identifica como marcada também pela violência psicológica.
Ela conta que se envolveu com um homem usuário de drogas e que, à época, estava completamente apaixonada.
"Eu não percebi que, naquele momento, estava sofrendo também uma violência, porque era psicológica. Eu só pude perceber isso depois."
Quando foi presa, afirma, ele a abandonou.
"Nunca mandou uma carta, não me escreveu."
A experiência também fez com que Cleo voltasse o olhar para sua própria história familiar. Filha adotiva, ela conta que foi encontrada no lixo e criada pela mãe que a acolheu.
A perda daquela mãe durante o período de prisão transformaria, anos depois, a dor em literatura.
Mãe e filho atrás das grades
Entre as experiências mais difíceis do cárcere, Cleo não hesita ao apontar uma.
"Ficar distante do meu filho. O meu filho, o grande amor da minha vida."
Segundo a escritora, o jovem estava em casa no momento em que ela foi presa. Ele havia completado 18 anos pouco mais de um mês antes.
Cleo afirma que os dois acabaram levados e posteriormente condenados.
"O meu filho não tinha nada a ver com o crime. Nada a ver."
Ela cumpriu pena em regime fechado. O filho, segundo relata, teve acesso ao semiaberto e, durante as saídas, conseguiu visitá-la.
Foram necessários mais de dois anos para que mãe e filho pudessem se abraçar novamente.
"Nosso primeiro encontro foi dentro do cárcere. Infelizmente, foi dentro do cárcere."
"O cárcere não ressocializa ninguém"
Ao falar sobre o período de prisão, Cleo rejeita qualquer tentativa de romantização da experiência.
"O sistema prisional não é para ser romantizado, porque lá é pura escassez."
Para ela, o aprisionamento não termina necessariamente quando uma pessoa deixa a unidade prisional.
Depois das grades físicas, aparecem outras barreiras.
"Quando você sai de dentro do sistema prisional, também tem o que é a sociedade, que são portas fechadas, janelas fechadas e aquele acolhimento que, infelizmente, não vem."
Cleo resume a experiência em uma frase que passou a orientar também sua trajetória depois do cárcere: "Meu passado não me define".
A escrita tornou-se parte desse processo. Antes sem papel, caneta ou espaço para ser ouvida, ela passou a utilizar a própria história como forma de recuperar uma voz que considerava perdida.
"Também nós, que somos aprisionadas, temos as nossas histórias."
A liberdade do lado de fora
Sair da prisão, porém, não significou encontrar imediatamente um lugar na sociedade.
Cleo descreve a volta como um período difícil, marcado pela necessidade de encontrar pessoas dispostas a enxergá-la para além do cárcere.
O primeiro apoio veio, segundo ela, de pessoas que lhe ofereceram uma oportunidade de trabalho.
Entre elas estava uma cabeleireira chamada Luciana, a quem procurou pouco depois de deixar a prisão.
Quando saiu, conta, seu cabelo estava tão embaraçado que pensou em raspá-lo. Durante o atendimento, acabou contando sua história.
Luciana posteriormente a indicou a Fabiano Dourado, que trabalhava com produtos voltados ao público feminino e buscava pessoas interessadas em empreender.
"Foi a primeira pessoa que acreditou em mim, que me acolheu."
Depois surgiram outras oportunidades. Cleo começou a vender produtos e tornou-se empreendedora.
A experiência de quem precisou que alguém lhe abrisse uma porta também ajudaria a definir o trabalho que desenvolveria mais tarde.
Da própria história para outras mulheres
De volta à comunidade, Cleo percebeu que outras mulheres carregavam uma sensação que conhecia bem: a de não serem ouvidas.
"Eu senti que as mulheres eram silenciadas, assim como eu fui um dia."
Começou, então, a escutá-las.
Histórias de sofrimento, perdas e falta de oportunidades fizeram surgir a ideia de criar um projeto de acolhimento. Faltava, no entanto, um espaço.
A solução nasceu dentro de casa.
Cleo pediu ao marido que algumas paredes fossem retiradas para transformar parte da residência em um lugar onde aquelas mulheres pudessem se encontrar.
Assim surgiu o projeto Empodera Mulher.
A iniciativa oferece atividades em áreas como manicure, empreendedorismo, literatura e culinária.
Parte das participantes é formada por mulheres egressas do sistema prisional. Outras vêm da própria comunidade.
Para Cleo, os dois universos não estão separados.
"Quando você fala do sistema prisional, você também fala da periferia, da comunidade, que tem mulheres batalhadoras."
A escritora vê no projeto uma forma de oferecer a outras mulheres algo que foi decisivo em sua própria trajetória: uma oportunidade.
Hoje, a mulher que começou a escrever porque não tinha papel, caneta ou voz procura criar espaço para que outras encontrem as próprias palavras.
"São essas mulheres que precisam ser ouvidas, precisam ser acolhidas, para que elas entendam que também há espaço para elas."
Se a primeira narrativa de Cleo nasceu dentro das grades, escrita sobre aquilo que seria descartado, a história que ela conta hoje tem outra direção.
Raio-x da obra
Das grades à liberdade
Em sua obra autobiográfica, Cleo Santos revisita a própria trajetória, marcada por violência, encarceramento, perdas e reconstrução. O livro aborda também maternidade, exclusão social e os desafios enfrentados por quem deixa o sistema prisional e tenta reconstruir a vida em liberdade.