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Eleições aceleram busca da imprensa por especialistas jurídicos

Ex-integrante da comunicação do TSE, Fernanda Quintanilha analisa os desafios de traduzir o Direito Eleitoral no ritmo do hard news.

2/10/2026
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A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, o noticiário político e eleitoral entra em seu período de maior intensidade. Decisões judiciais, movimentações de candidatos e partidos, denúncias, propaganda eleitoral e novas regras passam a exigir das redações acompanhamento praticamente em tempo real.

Nesse cenário, a velocidade da notícia impõe também um desafio: compreender rapidamente as repercussões jurídicas de cada novo fato.

Fernanda Quintanilha, CEO da Q Comunicação, conhece essa dinâmica por diferentes perspectivas. Durante quase oito anos, atuou na comunicação do TSE e acompanhou de dentro da instituição a cobertura das eleições. Hoje, à frente de agência especializada em comunicação jurídica e responsável pela assessoria de imprensa da ABRADEP - Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, trabalha na interlocução entre jornalistas e especialistas.

"Quem vive uma eleição por dentro entende a dimensão dessa operação. Os jornalistas e as redações trabalham em estado permanente de atenção. São atualizações em segundos, decisões, bastidores, offs, apuração e checagem enquanto os acontecimentos continuam".

CEO explica desafios da cobertura jurídica e a relação entre imprensa e especialistas.(Imagem: Divulgação/Q Comunicação)

Direito Eleitoral além da disputa nas urnas

Segundo Fernanda, a cobertura jurídica das eleições vai muito além das disputas entre candidatos e partidos.

Propaganda eleitoral, inteligência artificial, desinformação, pesquisas, financiamento, direito de resposta e crimes eleitorais dividem espaço com questões relacionadas às empresas, às relações de trabalho e às plataformas digitais.

"Existe uma capilaridade enorme de assuntos. O Direito Eleitoral não interessa apenas aos candidatos, partidos ou à Justiça. A eleição atravessa empresas, relações de trabalho, plataformas, comunicação, negócios e, evidentemente, a vida do cidadão".

É nesse ambiente que os especialistas passam a ocupar papel importante na apuração jornalística. Diante de uma decisão recém-publicada ou de uma controvérsia surgida durante a campanha, muitas vezes não basta à imprensa saber o que aconteceu: é preciso compreender o alcance jurídico do fato.

Especialista também vive o hard news

Para Fernanda, a velocidade da cobertura exige que a fonte jurídica esteja preparada para responder no tempo da notícia.

"Não adianta ter a fonte perfeita amanhã se a matéria precisa ser publicada agora. É preciso ter o especialista certo, na hora certa, atualizado sobre aquele acontecimento e capaz de esclarecer com precisão o que está em discussão".

Essa contribuição pode ocorrer em uma entrevista, declaração, análise ou mesmo em um esclarecimento técnico durante a apuração.

Mas rapidez, ressalta, não pode significar perda de rigor. Para ela, cabe ao especialista distinguir informação jurídica, interpretação e opinião, especialmente em um ambiente marcado pela disputa política.

"O papel do especialista não é dizer ao cidadão o que pensar, muito menos entrar na disputa política. É oferecer conhecimento. Explicar a regra, contextualizar uma decisão, mostrar o que juridicamente pode ou não ser afirmado e também reconhecer quando ainda não existe uma resposta definitiva".

A fonte certa, na hora certa

O ritmo eleitoral também exige preparação das assessorias de imprensa. Mais do que manter uma relação de especialistas disponíveis, é necessário conhecer as áreas de atuação e a experiência de cada fonte para identificar rapidamente quem pode contribuir com determinada pauta.

Na ABRADEP, que reúne mais de 500 integrantes de diferentes regiões do país, esse trabalho envolve o mapeamento das especialidades e áreas de conhecimento dos profissionais.

"Não existe simplesmente um especialista em Direito Eleitoral para falar sobre tudo. Precisamos saber quem domina determinado assunto, quem acompanha aquela frente e quem efetivamente pode acrescentar algo à pauta".

Segundo Fernanda, essa organização permite tanto responder a demandas urgentes quanto identificar assuntos em que uma contribuição técnica pode auxiliar a apuração jornalística.

E nem toda colaboração, observa, precisa resultar em exposição.

"Às vezes é uma entrevista, às vezes uma análise e às vezes é só um toque. Uma informação que pode ou não ser usada pelo jornalista. A contribuição vem antes da exposição".

Informação antes da autoridade

Para Fernanda, a cobertura eleitoral também ajuda a inverter uma lógica comum da comunicação jurídica: em vez de procurar um assunto para inserir determinado especialista, o ponto de partida deve ser a necessidade de informação.

"Durante as eleições, não se trata de procurar um assunto para colocar determinado especialista. O movimento é inverso: o que está acontecendo e quem possui conhecimento que realmente pode contribuir para que aquilo seja melhor compreendido?"

Nesse processo, reputação e autoridade tornam-se consequência da contribuição oferecida, e não sua finalidade.

"A autoridade vem da escuta e da transmissão do conhecimento. É entender primeiro o que o jornalista precisa, o que aquela pauta exige e qual informação podemos oferecer".

Depois de acompanhar eleições de dentro do TSE e, atualmente, atuar na interlocução entre imprensa e especialistas, Fernanda resume a experiência como uma engrenagem formada por diferentes atores.

À Justiça Eleitoral cabe exercer suas competências; à imprensa, apurar, questionar e informar; aos especialistas, contribuir com conhecimento técnico; e ao cidadão, formar livremente sua própria compreensão.

"Em uma eleição, percebemos que fazemos parte de uma engrenagem muito maior. Conseguir uma entrevista ou uma publicação não pode ser a medida final de sucesso. Existe uma sociedade que precisa compreender o que está acontecendo e uma imprensa trabalhando sob enorme pressão para fazer essa informação chegar".

Para Fernanda, é justamente nesse ponto que a comunicação jurídica encontra sua função durante o processo eleitoral: aproximar conhecimento técnico e informação em um momento em que velocidade e precisão precisam caminhar juntas.

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