Migalhas Quentes

A fuga e a Constituição

Respeito às instituições e cumprimento das decisões judiciais devem estar acima de interesses pessoais e conveniências políticas.

28/10/2026
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Vivemos num Estado Democrático de Direito. Não é expressão ornamental da Constituição, mas fundamento da República. Nele, as instituições devem ser respeitadas, as decisões judiciais cumpridas e a soberania popular reconhecida. Ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei.

A fuga de Flávio Bolsonaro, ontem, constitui episódio de extraordinária gravidade. Quem, até anteontem, pretendia governar 215 milhões de brasileiros não pode comportar-se como quem procura escapar ao alcance da Justiça. A Constituição que desejava jurar não pode ser a mesma que agora decide afrontar.

E há algo ainda mais espantoso. Segundo se anuncia, o senador pretende, em solo americano, contestar o resultado das urnas brasileiras. Ora, eleições brasileiras se discutem nas instituições brasileiras, não nos salões de Washington. A confirmar-se a manobra, a alegada cruzada democrática não passará de pretexto para fugir às consequências dos próprios atos. Pretende salvar a própria pele, ainda que à custa da imagem do país que ambicionava governar. Curioso patriotismo: quando convém, a pátria acima de tudo; quando aperta o cerco, a própria pele acima da pátria.

A fuga não afasta o dever de responder à Justiça e respeitar a Constituição.(Imagem: Imagem gerada por IA)

Aos quase 60 milhões de brasileiros que nele depositaram sua confiança, sobretudo aos mais esclarecidos, cabe uma reflexão. Há um dever moral de repudiar o despautério. Quem não quiser fazê-lo pode, ao menos, guardar silêncio. O que não se pode é emprestar respeitabilidade à afronta. A fidelidade a um candidato jamais deve valer mais que a fidelidade à República.

E não se perca de vista o essencial: ninguém abandona assim o próprio país, descumprindo uma ordem judicial, sem razões que mereçam esclarecimento. Flávio Bolsonaro conhece as suas. A sociedade ainda não. Quando os fatos vierem à luz, talvez se compreenda a pressa da partida.

Na literatura, Sófocles já nos ensinava que nem sempre se escapa ao destino tomando o caminho da fuga. Édipo fugiu para evitar uma profecia e, fugindo, cumpriu-a. Há fugas que não afastam a verdade. Apenas antecipam o encontro com ela.

Por ora, um conselho aos que cogitam embarcar nessa aventura: não confundam lealdade com cumplicidade.

Há naufrágios que começam antes mesmo de o navio deixar o porto. E esta nau, ao que tudo indica, já saiu fazendo água.

Quanto a este nosso Migalhas, seguirá no rumo de sempre, tendo por bússola a Constituição. Porque, fora da lei, não há salvação.

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