Há uma ironia quase irresistível na notícia que surpreendeu o mundo jurídico nesta quarta-feira, 28. Um dos mais importantes escritórios de advocacia dos Estados Unidos, especializado em recuperar empresas à beira da falência, anunciou que pretende encerrar suas próprias atividades.
Fundado em 1931, em Nova York, o Weil, Gotshal & Manges, responsável por algumas das maiores reestruturações empresariais da história americana, prepara sua dissolução depois de 95 anos de existência.
E não se trata de uma banca em dificuldades financeiras convencionais. Em 2025, o Weil faturou aproximadamente US$ 2,1 bilhões, figurando entre os 30 maiores escritórios dos Estados Unidos. Sua estrutura reúne cerca de 1.200 advogados e aproximadamente mil outros funcionários.
O problema, desta vez, não foi exatamente a falta de dinheiro. Foi a falta de sócios dispostos a permanecer.
Após uma sucessão de deserções, uma crise de liderança e negociações frustradas de fusão, a administração recomendou aos integrantes da sociedade o encerramento organizado das operações.
Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, a direção informou que, depois de examinar alternativas estratégicas, concluiu que a dissolução seria o caminho recomendado. A proposta ainda deverá ser submetida à votação dos sócios nos próximos dias.
Até lá, o escritório promete continuar atendendo os clientes e apoiando seus profissionais durante o processo de encerramento, previsto para ocorrer ao longo dos próximos meses.
O escritório que enfrentou as maiores falências americanas
O Weil não era apenas mais um nome entre os grandes escritórios de Wall Street.
Sua reputação foi construída sobretudo na área de reestruturação empresarial, em especial nos processos conduzidos sob o Chapter 11, mecanismo da legislação americana que permite a reorganização de empresas em dificuldades financeiras.
Um dos responsáveis por essa projeção foi Harvey Miller, advogado que ingressou no escritório em 1969 e se tornou uma referência internacional em direito falimentar. A atuação de Miller ajudou a consolidar o Weil como protagonista da moderna indústria de recuperação de empresas.
Na extensa relação de clientes figuram alguns dos personagens mais conhecidos da história econômica americana.
O escritório atuou nos processos envolvendo Enron, empresa de energia cujo colapso, em 2001, abalou o mercado financeiro; Lehman Brothers, banco de investimentos cuja quebra, em 2008, simbolizou a crise financeira mundial; e General Motors, que passou por uma reorganização judicial em 2009.
Também participou de casos envolvendo American Airlines, Sears e a companhia de energia PG&E.
Fora do universo das falências, teve atuação destacada em fusões, aquisições e litígios empresariais. Entre as operações de grande repercussão esteve a aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft, anunciada por US$ 68,7 bilhões.
Era, portanto, um escritório habituado a negociar cifras bilionárias e a encontrar soluções para crises aparentemente insolúveis.
A debandada dos sócios
Os problemas que culminaram no anúncio desta quarta-feira se agravaram ao longo de 2026.
O mercado americano de advocacia empresarial vive uma intensa disputa por profissionais capazes de atrair clientes e gerar receitas elevadas. Esses sócios, conhecidos como rainmakers, são frequentemente disputados mediante propostas milionárias.
O Weil passou a perder profissionais importantes para concorrentes que vinham crescendo rapidamente, especialmente nas áreas de fusões e aquisições e de investimentos privados.
Entre os destinos dos advogados que deixaram o escritório estiveram Paul, Weiss, Simpson Thacher, Sullivan & Cromwell e Cravath.
Um dos episódios decisivos ocorreu em setembro, quando Michael Aiello, poderoso chefe da área societária do Weil, anunciou sua saída para o tradicional Cravath, Swaine & Moore, acompanhado de outros cinco sócios.
A movimentação teve efeito significativo. Aiello não era apenas um advogado com clientes relevantes. Participava diretamente da estrutura de poder da banca e do processo de escolha de sua futura liderança.
Outras saídas se sucederam.
Segundo levantamento divulgado pela Bloomberg Law, pelo menos sete integrantes do comitê de administração deixaram o escritório ou tiveram suas saídas noticiadas desde o fim de 2024.
O fenômeno alimentou um círculo vicioso. A saída de profissionais importantes provocava insegurança entre os remanescentes, que passavam a considerar suas próprias alternativas de carreira.
A sucessora que desistiu de suceder
À crise de talentos somou-se uma delicada questão sucessória.
Barry Wolf, que comandava o Weil havia cerca de 16 anos, preparava sua aposentadoria como sócio, prevista para o fim de 2027.
Em março deste ano, o escritório havia anunciado oficialmente a escolha de Ramona Nee para sucedê-lo como principal executiva, a partir de janeiro de 2027.
Nee era uma profissional de destaque na área de private equity, integrante da administração e uma das principais responsáveis pelas operações da banca em Boston.
A sucessão parecia encaminhada.
Entretanto, diante da deterioração do ambiente interno, Nee desistiu de assumir o cargo. A informação, conhecida por um grupo mais amplo de sócios no último fim de semana, aprofundou a crise de confiança.
O escritório que já perdia seus principais profissionais descobriu que também estava perdendo a pessoa escolhida para conduzir seu futuro.
A fusão que poderia evitar o desfecho
Enquanto a crise se agravava, a direção tentou encontrar uma saída por meio da união com outro escritório.
Foram iniciadas conversas com o também tradicional Willkie Farr & Gallagher, sediado em Nova York.
A operação poderia resultar em uma das maiores sociedades de advocacia dos Estados Unidos, com faturamento conjunto superior a US$ 4 bilhões.
As negociações, entretanto, não prosperaram.
A perda de sócios relevantes, as dúvidas sobre a estabilidade do Weil e as dificuldades para construir um consenso sobre o futuro da organização contribuíram para o fracasso da tentativa.
Sem uma fusão capaz de preservar sua estrutura, a administração contratou profissionais do Davis Polk & Wardwell, outro importante escritório americano, para examinar alternativas jurídicas e financeiras.
Entre os especialistas envolvidos estava Brian Resnick, com experiência em reestruturações.
A conclusão da administração foi pela recomendação de dissolução ordenada.
Uma dissolução sem falência?
Talvez este seja o aspecto mais curioso do episódio.
Segundo informações divulgadas pelo Financial Times e pela Bloomberg, o Weil possui baixo endividamento e acredita ser possível encerrar as operações de maneira solvente, sem recorrer a um processo judicial de falência.
Há, evidentemente, obrigações a administrar. Contratos de locação de escritórios em diversos países, compromissos trabalhistas, previdenciários, pagamentos a profissionais e responsabilidades perante clientes e credores precisarão ser equacionados.
A dissolução de uma sociedade de advocacia dessa dimensão é especialmente complexa porque envolve a transferência de processos, a continuidade do atendimento a clientes e a definição das obrigações financeiras dos sócios.
No caso do Weil, o processo deverá ocorrer durante os próximos meses. Ainda não há definição pública completa sobre o destino dos profissionais e das unidades internacionais.
De acordo com a Bloomberg Law, associados e funcionários foram informados de que continuariam recebendo salários e benefícios por 90 dias, havendo também possibilidade de pagamento de bônus aos que permanecerem até as datas previstas. A informação foi atribuída pela publicação a pessoas familiarizadas com a comunicação interna.
O impacto concreto da dissolução, entretanto, ainda depende das medidas que serão adotadas e da votação dos sócios.
Uma advertência para a advocacia
O encerramento anunciado pelo Weil tem repercussão que ultrapassa os Estados Unidos.
A história mostra como grandes escritórios, mesmo com receitas bilionárias e reputações construídas durante décadas, podem se tornar vulneráveis quando perdem profissionais estratégicos.
No modelo de sociedade de advocacia, diferentemente de outros setores empresariais, parcela importante do patrimônio econômico está diretamente vinculada às pessoas que integram a organização.
Clientes podem acompanhar seus advogados. Equipes inteiras podem migrar para concorrentes. E a expectativa de novas saídas pode acelerar a própria desagregação da sociedade.
O caso também expõe os desafios de governança, planejamento sucessório e distribuição de resultados, questões cada vez mais relevantes em um mercado no qual profissionais de destaque recebem propostas de remuneração extraordinárias.
Não é a primeira vez que um grande escritório americano desaparece. Em 2012, o Dewey & LeBoeuf protagonizou um dos mais conhecidos colapsos da advocacia internacional. Mais recentemente, em 2023, o Stroock & Stroock & Lavan também encerrou sua trajetória após sucessivas perdas de sócios e tentativas frustradas de preservar suas atividades.
Mas o caso do Weil possui uma dimensão singular, tanto pelo faturamento quanto pela reputação que acumulou na especialidade de reorganizar empresas.
Depois de quase um século ajudando clientes a enfrentar crises, o escritório descobriu que nem toda crise pode ser resolvida pelos melhores especialistas em recuperação empresarial.
Desta vez, os advogados da reestruturação terão de cuidar da própria casa.