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Meio de campo

Textos sobre Direito Esportivo e mercado.

Rodrigo R. Monteiro de Castro
Olivia e João nasceram em 2008 e 2010, respectivamente. Por influência paterna, ambos convivem com as referências da década de 1980: ouvem, com regularidade, os álbuns da segunda fase do Iron Maiden e do AC/DC, frequentam exposições dos artistas que integraram a Casa 7 (Antonio Malta, Carlito Carvalhosa, Fabio Miguez, Nuno Ramos, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade) e idolatram a seleção brasileira de 1982. Não sei afirmar se as relações são totalmente espontâneas; talvez não. Mas o interesse dos dois vem se intensificando desde o surgimento da série Stranger Things (disponível na plataforma Netflix). A trama se ambienta justamente naquela década, em uma pequena cidade imaginária chamada Hawkins, Indiana, Estados Unidos. De modo inesperado, a população se depara com o enigmático sumiço de um menino local. A busca pelo seu paradeiro desnuda a existência de um mundo invertido (que, fazendo um paralelo com a realidade atual, pode ser comparado à internet e demais mídias que a seguiram), criado no laboratório nacional, sediado na cidade. Além da participação de excelentes artistas, como Winona Ryder, Caleb Mclaughin e Millie Bobby Brown, a série também brilha pelo resgate de símbolos pop dos anos 1980, como: os filmes Karate Kid, A História Sem Fim e De Volta Para o Futuro; a série Cheers; e músicas de Scorpions (Rock you like a Hurricane), The Clash (Should I Stay or Should I Go) e Tangerine Dream (Exit). O conjunto referencial cria um sentimentalismo nostálgico no âmbito de narrativa ficcional, com elementos de suspense e terror. A mesma sensação o torcedor são-paulino sente - ou deveria sentir -, do ponto de vista argumentativo, ao deparar-se com as entrevistas dos candidatos Roberto Natel e Julio Casares, à edição de 25 de setembro da Folha, pois lá se enfrentam problemas contemporâneos com métodos antigos (e ultrapassados). Roberto Natel teria afirmado que "o problema é que o São Paulo deixou de seguir a sua história de vanguarda". Mas não indica quando e de que forma houve a ruptura, e muito menos o que fará para reparar os supostos desvios históricos. Apesar de não enfrentar o fato de que vanguarda não é um atributo intrínseco, mas decorrente da vontade e da materialização de projetos inovadores (que até agora não foram apresentados em sua campanha), perde-se na tentativa de personificação da responsabilidade pela situação dificílima vivida pelo clube: "as pessoas que hoje estão à frente [do clube] ao invés de trabalhar para o São Paulo, trabalham para elas".   Não é por aí que o São Paulo voltará a ostentar o papel de protagonista; a solução passa pela implementação de mudanças profundas, de natureza estrutural - sugeridas à exaustão nesta coluna -, que não são abordadas, nem de perto - ao menos por enquanto - pelo candidato. Julio Casares, com experiência no mercado e que tem consciência (apesar de negá-la) de que a única forma de recolocar o time no topo do planeta é a restruturação do modelo de propriedade e a criação de uma companhia - nos moldes europeus - deverá optar pelo caminho confortável do reinado clubístico, caso se consagre vencedor. Será uma espécie de coroação pelo tempo investido no clube, que ele disfrutará, aparentemente, afastando-se dos choques inerentes aos movimentos transformacionais. Mesmo em relação ao estádio, que é um tema-tabu e que poderia, se bem manejado, fazer parte de um projeto grandioso e bilionário, o candidato afirma querer colocar, para geri-lo, um "gerente com uma visão de shopping center". Essa simples movimentação, pelo que se extrai de sua entrevista, fará com que o tempo volte a andar. Portanto, um suposto movimento vanguardista. Aliás, o tempo perdido também será buscado, conforme indica o candidato, pela convivência de diretoria executiva de futebol com câmaras setoriais clubísticas, que dariam "conforto para que o [diretor executivo] possa exercer o seu plano de gestão". E ainda, por "(...) normas de compliance [que] vão impedir que regras muito claras se confundam". Além do emprego de frases ou termos vazios, e de ideias tortuosas (sobre a diversificação de gênero, afirma que "[é] fundamental a inclusão da mulher dentro da gestão e do espírito da gestão. (...) Ela toma conta da criança, cuida da gestão de uma casa e ainda trabalha fora como executiva. O homem, se você dá muita tarefa, ele se perde"), não sobra qualquer proposta relacionada à revisão do modelo de propriedade, necessária para que o São Paulo possa financiar a empresa futebolística e voltar a ser reconhecido como gosta de ser - e realmente foi: vanguardista. Aproximam-se, pois, mudanças de pessoas, e não de ideias, e, com as novas pessoas, a afirmação de ultrapassadas convicções; as mesmas que, no mundo contemporâneo, contribuem para arranhar a linda história tricolor. 
quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Por que maltratam o futebol?

A canção Homem na Estrada, do grupo de rap Racionais MC's, não perde, infeliz e dramaticamente, a atualidade. Construída sobre uma base que remete à canção Ela Partiu, de Tim Maia, narra a trajetória de um ex-presidiário negro que, após recuperar a liberdade, pretende reconstruir sua vida e dizer ao crime nunca mais. As condições para reconstrução revelam-se, no entanto, inexistentes. Além da falta de estrutura para iniciação de uma vida digna, como moradia e saneamento básico, foge-lhe o essencial: a compreensão e a compaixão; sentimentos que deveriam nortear qualquer relação humana. A narrativa também serve para lembrar e relembrar fatos históricos - apesar de nefastos -, que permanecem expostos e corroem o tecido social. A Lei Áurea não foi capaz de oferecer igualdade material, apenas formal. Aliás, quando se reavaliam as forças que a impulsionaram, conclui-se que não era mesmo o seu propósito. Assim, a partir do ideal burguês de liberdade, escravos foram largados, em geral, à própria sorte, sem recursos, eventualmente sem roupas, sem comida, sem apoio, sem trabalho e sem perspectiva de inserção social; enfim, sem compreensão e envolvimento do sistema. Mas estavam livres para concorrer com os bem formados integrantes das classes dominantes. Respeitadas as peculiaridades, encontram-se, porém, similitudes nos dramas do escravo liberto e do presidiário libertado: a manutenção da estratificação colonialista, não como fato político, mas sociológico (e econômico). Essa constatação também ajuda a explicar o preconceito da sociedade brasileira com o futebol e a resistência a transformá-lo em instrumento de inserção. Não custa relembrar, mesmo que o tema tenha sido tratado recentemente nesta coluna, que a origem do esporte, em sua forma contemporânea, não tem nada a ver com o brasileiro: organizou-se em países europeus, sobretudo na Inglaterra, como atuação elitista, hermética e de natureza amadora. Foi a indesejada popularização que forçou a profissionalização, atraindo pessoas que identificaram na prática futebolística uma forma de sobrevivência - além, eventualmente, do amor ao jogo - e passaram a se dedicar com exclusividade à evolução física e tática. A história do futebol no Brasil apresenta certa semelhança. Após sua introdução por representantes das classes dominantes, caiu rapidamente no gosto popular e se transformou, em decorrência de espontâneo movimento antropofágico, em paixão nacional. Por quais motivos, então, deixou de ser introduzido na agenda prioritária do Estado e permaneceu fora do radar dos governos - independentemente da ideologia política -, exceto para aparelhar medidas populistas ou oportunistas? O ponto de partida é a Constituição Federal. O modelo de autonomia associativa, que deveria servir como proteção aos excessos estatais cometidos durante a ditadura, revelou, inversa e rapidamente, sua disfunção: a apropriação do futebol - e do futebolista - pela classe cartolarial, encastelada e protegida por argumentos constitucionais. A tentativa de reparação do equívoco foi relativamente rápida, inicialmente por ocasião da Lei Zico, introdutora da permissividade à transformação do clube em empresa ou da criação de empresa pelo clube, e, na sequência, da Lei Pelé, que foi além, passando da permissão à obrigatoriedade. A contrarreação também não tardou: a lei "não pegou" e, na esteira de sua ineficácia, foi reformada para reintrodução de norma meramente permissiva. Com isso, manteve-se o sistema de privilégios e de dominação gerencial (ou cartolarial), responsável pela decadência, no País, de atividade que atrai, no planeta, aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas e movimenta dezenas de bilhões de dólares. Ocorre que a situação falimentar dos clubes e do esporte não condiz com os benefícios extraídos pelos agentes que sustentam e dominam o sistema: poder, prestígio, fama, contatos, acesso a eventos e pessoas, viagens e, eventualmente, dinheiro. Expõe-se, portanto, o conflito de interesses, que se intensifica (ou solidifica) porque o cargo de cartola representa um valioso ativo subjetivo, que contribui para manutenção de poderes locais ou para ascensão política e social. Mesmo assim, os donos do futebol o maltratam desavergonhadamente. A aparente contradição se explica, com alguma facilidade, pelas lentes da história: o ativo ser humano (objeto da escravidão) também era maltratado, dele extraindo-se a maior utilidade possível enquanto mantivesse energia para, depois, ser descartado - quem não se lembra, aliás, sob outro prisma, da tortura laboral imposta pelo porco Napoleão ao cavalo Sansão, na obra crítica do comunismo, Animal Farm, escrita por George Orwell? Pois é a mesma ideia: extrair, usar e explorar ao máximo o clube e o futebol durante o mandato, sem preocupação com as consequências - e com o seu futuro. Aí se encontram os motivos do maltrato; e aí, também, o modelo confessa seu esgotamento.
O arquiteto Paulo Mendes da Rocha é um gênio. Integra a lista de brasileiros que orgulham - ou que deveriam orgulhar - qualquer pessoa que ostenta a sua nacionalidade. A genialidade se exprime não apenas em suas obras, como também em suas falas ou atitudes, que revelam sua natureza e suas preocupações humanísticas; característica, aliás, que não se expressa em todo gênio. Autor de realizações emocionantes, como o MUBE - Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, o Estádio Serra Dourada, as intervenções na Praça do Patriarca e na Pinacoteca, o Museu dos Coches e o Sesc 24 de Maio, foi reconhecido mundialmente com as atribuições do Prêmio Pritzker1 - o mais importante da arquitetura -, do Leão de Ouro da Bienal de Veneza e do Prêmio Imperial do Japão.   Certa vez um renomado advogado carioca, que comprara uma cobertura duplex nos Jardins, bairro sofisticado da cidade de São Paulo, pediu ao arquiteto orientação a respeito do que fazer na parte superior do imóvel, e teria obtido a surpreendente (e genial) opinião - segundo ele me narrou: a derrubada da construção existente, o plantio de uma mangueira e a instalação de um banco sob a árvore, para contemplar a cidade. A imagem é sublime; mas a sugestão não foi acatada. Essa história condiz com as suas posições, defendidas ao longo de décadas: para ele, a arquitetura não é feita para ver, mas para vivê-la - apesar do resultado visual (ou estético), não gratuito, de seus projetos. Neste sentido, Paulo Mendes da Rocha afirma que a suprema obra de arquitetura, ou da arquitetura, como forma de conhecimento, seria a cidade, que não se sabe que desenho, ou que forma tem. Ela seria um acontecimento riquíssimo sob todos os aspectos imagináveis2 (e que poderia, acrescenta-se, ser lindamente contemplada do topo de um arranha-céu, com o perfume de mangas). A coragem e a coerência marcam sua trajetória, sempre avessa a qualquer forma de submissão, seja a padrões estéticos impostos pelas nações predominantes - e colonialistas -, seja a forças políticas do momento. Daí a perplexidade causada pela notícia da doação de seu acervo pessoal, composto de mais de 9.000 itens, a uma jovem instituição privada portuguesa, sem tradição ou acervo relevante. A comunidade intelectual e artística reagiu, inicialmente, de modo crítico. Na sequência, uma carta-manifesto, assinada por mais de duas centenas de pessoas, apoiou a decisão. O debate, de todo modo, faz-se necessário. José Lira, Professor titular da FAU-USP, em texto publicado na Folha (ed. de domingo, 13 de setembro, p. A3), após lembrar que foi em São Paulo que Paulo Mendes da Rocha "se tornou uma liderança para centenas de profissionais, estudantes e professores, parceiro de projeto de muitos deles e esteio de pranchetas, sala de aula, pesquisas e debates Brasil afora", indaga se sua obra "restará compreensível aos que tiverem a ventura - além do interesse e do dinheiro - de examinar seus traços e margens em Matosinhos" (pequena cidade lusitana, onde se localiza a Casa da Arquitectura, instituição que acolherá o patrimônio doado). E vai além: pergunta se "o fabuloso desfalque documental não abalará também o julgamento e a preservação de sua obra". Não pretendo, aqui, entrar em debate para o qual não me sinto qualificado; apesar de parecer-me que a obra de Paulo Mendes da Rocha está posta, perenizada, mesmo que interesses obscuros venham, num futuro que já não se pode desconsiderar, demoli-la em benefício de propósitos especulativos - como se tentou, aliás, com a magnífica construção que abriga o MUBE. O distanciamento do material de trabalho, que de resto sempre foi privado e inacessível ao público em geral, não tornará Paulo Mendes da Rocha menor; exceto por meio de um eventual (e condenável) processo de destruição ideológica, desnecessário num país pródigo em não reconhecer seus realizadores, seus feitos e seus valores. Daí surge a relação com o futebol. O esporte veio para o Brasil pelas mãos - ou pés - de classes favorecidas, colonizadoras e expropriadoras. Mas não tardou a ser absorvido pelas classes subjugadas, trabalhadoras e viabilizadoras da extração dos lucros pretendidos pelos expatriados e suas empresas transnacionais. Operou-se, portanto, o que, anos depois, viria a ser um dos motes do modernismo brasileiro: a antropofagia. Nada, realmente nada, expressa de modo mais preciso o ideal antropofágico, do que o futebol: após apropriação pelos negros e mestiços, foi devolvido ao mundo com características e linguagens próprias, tornando-se referência e objeto de veneração. Apesar disso, o Estado e a sociedade civil o tratam maleficamente: ora como instrumento de sustentação de projetos políticos, inclusive ditatoriais, ora como meio de alienação das massas - ou, no melhor dos casos, como atividade futilizada e imprestável para viabilizar necessário movimento de inserção e desenvolvimento social. Os resultados, que se colhem há anos (ou melhor, não se colhem), decorrentes, pois, da ausência de políticas públicas e do descaso dos brasileiros com algo que se tornou parte de sua simbologia, são desalentadores: falta de estrutura; falência das entidades organizativas da prática futebolística; subsídios estatais e desperdício de recursos públicos, para manutenção de uma casta cartolarial desqualificada para o exercício de sua função; transformação de meninos em coisas, para exportação ainda em fase de desenvolvimento; destruição da relação entre o povo e seus "heróis"; etc. Não à toa que o Brasil, no plano futebolístico, passou de desenvolvedor de tecnologia (ou de produto de ponta - e de sonho) à posição de fornecedor de matéria-prima, própria de país terceiro-mundista, que o caracteriza, aliás, por imposição externa ou subserviência, desde as invasões europeias, notabilizadas a partir do início século XVI. Com isso, o futebol e as atividades conexas, como serviços, hotelaria, turismo, medicina do esporte, educação física, construção, licenciamento de produtos, direitos de imagem, advocacia esportiva, dentre outras, deixaram de ser estruturados como vias de inserção social e de desenvolvimento econômico sustentável, atreladas a um projeto educacional de dimensão nacional. A entrega voluntária, sem contrapartida, do acervo de Paulo Mendes da Rocha, ao país que, direta ou indiretamente, extraiu as riquezas naturais locais, apesar de dolorida, sobretudo por partir de quem partiu - e que sempre manteve um discurso anticolonialista -, talvez seja o recado, intencional e necessário, de que as bases institucionais devem ser revistas. Ao declarar à Folha, na edição de 15 de setembro, que sua decisão representava um ato de liberdade, o arquiteto reafirma o inconformismo com o capitalismo tupiniquim: despreocupado com o ser humano, com o meio-ambiente e com valores sociais; e denuncia, ao mesmo tempo, a insustentabilidade do modelo de Estado brasileiro, que se revela incapaz de preservar e defender os princípios consagrados na Constituição Federal - bem como de zelar por um "simples" acervo de ideias arquitetônicas. Assim como também não consegue preservar e defender o futebol, expressão máxima de nossa cultura, que vem sendo entregue e jogado na Europa; sem que contra isso, contudo, alguém se insurja. __________ 1 Feito antes atingido apenas por Oscar Niemayer - e, desde então, por nenhum outro brasileiro, apesar da qualidade dos arquitetos e arquitetas das gerações seguintes, a exemplo de Angelo Bucci (que possivelmente também atingirá a façanha). 2 Arquitetura para quê? - Ocupação Paulo Mendes da Rocha (2018).
quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Mais fichas sobre o tapete verde

O mês de agosto trouxe, além do início do Brasileirão 2020, a assinatura do decreto presidencial que qualifica as apostas esportivas de quota fixa no PPI (Programa de Parcerias de Investimento) com a sua inclusão no PND (Plano Nacional de Desestatização), criando assim condições para a futura regulamentação de uma nova fonte de receita que, se bem gerida, pode compor com perenidade os orçamentos dos clubes. Claro, esse foi apenas o "pontapé inicial"; até o alcance de uma modelagem, a sua complexa implementação e a percepção de dividendos, tem muito jogo pela frente, nada é tão simples em ambientes como o futebolístico e o estado brasileiro, mas se trata de uma rubrica com grande potencial de incremento, na casa do bi, acredite-se...   De uma tacada só, além das potencialidades de ganho advindas do mercado de apostas, temos também outras fichas sobre o pano verde, como a procurada convergência entre dois projetos de lei que versam sobre organização empresarial das associações esportivas e a MP dos direitos de transmissão, proposições que ao lado do que tratam seu pano de fundo, trazem o relevante fato de jogar luz nos acontecimentos, ao menos combatendo a letargia e instigando movimentação.  Com o futebol agora vivendo, a exemplo do país, ligado no modo "dane-se", para todos e para tudo o "novo normal" se acomoda com as restrições, mudanças de hábitos e costumes, aperto financeiro, num jeito disfarçado de se ver a vida como sendo novidade, a partir daquilo que no momento nos é disponível. Mas o passado, ah, o passado... este nos é sempre indissociável. Cartolas de início atordoados pelas circunstâncias, em verdade encontraram suas bengalas com a deflagração da crise, e enquanto curam pela própria sobrevivência amparados por força dessa justificativa "lato" para tudo, deparam-se no horizonte com uma miríade: MP 984, decreto das apostas, clube empresa, liga, o recorrente tema do "profissionalismo"...   Claro que a crise atual afetou, mas não proporcionalmente ao estrago que já existia no caótico modelo de gestão associativo, refletido fundamentalmente no estrangulamento dos caixas e na incapacidade de investimentos, mazelas que tocam toda a cadeia de agentes (clubes), desde as maiores e mais performáticas receitas até os menores orçamentos; a pandemia pode ter ferido de morte, mas é fato inequívoco que já não havia desde antes aptidão financeira para nenhum clube do Brasil satisfazer minimamente suas obrigações. Estando em voga neste momento temas como reflexão, reposicionamento, enfrentamento e superação de adversidades, evidencia-se oportunidade propícia para que os clubes de forma coletiva se cotizem, no sentido literal do verbo, em busca do encontro de modelos e soluções. O primeiro passo, pois, seria os clubes conjuntamente concluir, sem esforço, que nosso futebol não tem solução de curto prazo. Ponto. Eventual planejamento estratégico, nestas condições, tem que ser idealizado para médio e longo prazos. Um bom marco, "de trás para frente", poderia ser considerado o vencimento dos direitos de transmissão em 2024, para então se definir passo a passo até aquela data, de maneira programada e planificada, como seria viável evoluir para a consolidação de um mercado futebolístico que traga na prática um modelo sustentável e exitoso para o negócio sob todos os aspectos, seja esportivo, social ou financeiramente falando. Para tanto, e aí o segundo passo, há de se buscar respostas para indagações nunca enfrentadas à saciedade, entre as quais: mas afinal, qual é esse mercado? E seu tamanho? Até pode parecer aqui uma provocação simplista, mas não é! Não terá chegado a hora de uma vez por todas ser perquirido de modo efetivo um valuation do negócio "pra valer", para que se possa entender de qual mercado estamos falando, de quanto ele vale, e sobretudo qual é a participação de cada um (clubes) no seu contexto? Sim, para ficar fácil a visualização, quando se fala em comprar um imóvel, por exemplo, antes do preço não procuramos sempre saber qual é a sua avaliação? "Mutatis mutandis", é isso que estamos propondo: podemos cravar com convicção que a análise verdadeira do segmento traduzirá a pedra de toque para qualquer encaminhamento posterior, tanto nos casos individuais como coletivos, com o fito da defesa dos interesses das associações esportivas em face de contratos, direitos, organização de competições, novos negócios, etc.. O processo de valoração, antes de tudo, significa ampla compilação de dados, levantamento de informações estratégicas e classificação de receitas, identificando os requisitos necessários para a possível transformação, na acepção jurídica do termo, do regime associativo para o modelo empresarial (seja ele qual for); além disso, a consolidação dos pontos de aderência permitirá melhor assimilação deste mercado por toda a comunidade futebolística, servindo também como elemento motriz para o processo de conhecimento necessário ao enfrentamento das questões domésticas, como reformas estruturais e estatutárias a ser desafiadas por cada qual dos clubes. O terceiro passo, pois, será "organizar a conversa", o que deve se dar individualmente nos seus ambientes internos e sobretudo em grupo para estabelecimento de posições destinadas a todas as frentes passíveis de negociação, afinal, não se vira uma empresa operacional sem a prática de uma sequência de atos e adoção de diversas providências no tempo, aqui sós, nem tampouco sem a definição do mercado real para desenvolver e performar o negócio, aqui em conjunto. Vale lembrar que estudos e conclusões serão ainda veículos para atender todas as interlocuções necessárias (em alguns casos obrigatórias) com grupos econômicos, entidades, federações, imprensa, especialistas, além, principalmente, daquelas que serão travadas no seio das próprias coletividades integradas por associados, torcedores, conselheiros e diretores.  A tarefa interna é árdua, não olvidemos... esbarra em uma série de resistências, a começar pela própria questão cultural: como foi tão bem pontuado por Franklin Foer em seu "Como o Futebol Explica o Mundo", os norte-americanos chamam os seus clubes desportivos de "franquias", os brasileiros jamais tolerariam o uso desse termo; tem muitas associações com organizações comerciais, como cadeias de lanchonetes e lavanderias... em vez disso, os brasileiros chamam seus times de clubes, pois a maioria deles realmente o é (*); sim, o torcedor e as coletividades em geral sabem exatamente o quanto o "clube é e sempre será seu", mas não conseguirá dizer o mesmo de uma empresa, daí a primeira dificuldade no processo de convencimento. À luta! Falar em impossibilidade no curto prazo em meio a pandemia é algo mais do que palatável, na medida em que o "normal" está adiado; o médio prazo, termo inicial para as mudanças, está logo ali, enquanto o longo prazo pode ter tudo para ser breve, racional e profícuo, mas demanda ações imediatas que só poderão ser inauguradas com o efetivo "conhecimento do problema". O tempo, como já diz o velho brocardo e todos nós tão bem sabemos, é o "Senhor da Razão"! (*) Como o Futebol Explica o Mundo, Franklin Foer, JZE Editora, 2004, pág. 106. *Savério Orlandi é advogado em SP, pós-graduado em Direito Empresarial pela PUC/SP, onde também se graduou. Membro do CD e do COF da Sociedade Esportiva Palmeiras e da ABEX.
No livro Guns, Germs, and Steel - The Fates of Human Societies, Jared Diamond, ganhador do Prêmio Pulitzer, desenvolve importante teoria a partir de uma aparente simples pergunta, formulada por certo jovem político de Nova Guiné, com o qual manteve rápida conversação no início da década de 1970. Yali - o interlocutor - queria saber o motivo pelo qual as sociedades brancas desenvolviam tanta mercadoria ("cargo") e a desovavam na ilha em que ele vivia, mas a população negra local detinha tão pouca mercadoria própria, para consumo ou para comercialização. A dúvida se estenderia, segundo o autor - e com razão -, à formação do mundo moderno, dominado pelos povos europeus, leste-asiáticos e norte-americanos. A dominação, aliás, também abrangeria os povos que, outrora colonizados, lograram expulsar os colonizadores, mas permaneceram - e permanecem - dependentes, econômica, política e sanitariamente, sejam dos antigos, sejam de novos dominadores. O problema, enfim, se colocaria, com outras palavras, da seguinte forma: por que a riqueza ("wealth") e o poder são distribuídos com as características atuais, e não de outra maneira, mais igualitária ou com a inversão dos eixos de influência? O autor investiga diversos motivos, tais como (i) iniciação prematura do processo de desenvolvimento político e tecnológico de determinados povos, (ii)  inevitabilidade da teoria eurocêntrica, (iii) seleção natural e supremacia do mais forte, (iv) genética e (v) influências climáticas (povos sujeitos ao frio, por exemplo, precisariam se dedicar ao desenvolvimento de soluções que lhes permitiriam enfrentar os rigores da natureza e, por ficarem mais tempo abrigados, dedicar-se-iam, com maior intensidade, ao pensamento e à solução de problemas cotidianos). A partir das provocações do autor, uma constatação se torna inevitável: a produção e o acúmulo de mercadorias - ou o controle de capitais, de patentes farmacêuticas e de tecnologias, em geral -, que servem para afirmar as posições dos povos dominantes, viabilizam-se justamente pela dominação e apropriação das riquezas naturais ou da força de trabalho dos dominados (mesmo que levem à dizimação de povos nativos ou à situação análoga à escravidão de trabalhadores espalhados por regiões periféricas). Foi assim, com sequelas milenares, desde o advento do Império Romano, passando por todos os que o seguiram, até os mais contemporâneos, com destaque para os imperialistas ingleses e, hodiernamente, norte-americanos. No mesmo sentido, o Brasil sempre foi, desde a invasão portuguesa, fornecedor passivo. Entregou o pau-brasil, o ouro, os diamantes, o café, a borracha e as riquezas amazônicas, e, em contrapartida, adquiriu - e adquire - produtos acabados. A cápsula de café, produzida por empresa transnacional, com insumos importados de países subdesenvolvidos, e exportada para todo o globo, que a consome como símbolo de status, é bom exemplo das absurdas inversões promovidas pelas desigualdades políticas e econômicas mundiais. O futebol pode ser inserido nesse contexto. Apesar de não ser uma criação brasileira, foi por aqui que evoluiu como (i) atividade (ou produto) indissociável da imagem de um povo e (ii) atributo de brasilidade. Integrou-se, assim, a uma rede de relacionamentos fundamentais nos planos sociais e econômicos, a partir, não se pode negar, da (i) formação de instituições, sem fins lucrativos, que assumiram a organização da prática futebolística e do (ii) surgimento, sobretudo por meios espontâneos, de jogadores em todos os cantos do País. Reuniram-se, assim, os elementos necessários, em seu tempo, para fixação de relações inquebrantáveis com o povo e com o torcedor, que, pela importância, deveriam ter sido aproveitadas para fixação de uma necessária política de Estado, definidora da essencialidade do futebol como indutor da redução de desigualdades e do desenvolvimento social e econômico. Aliás, quando os europeus perceberam essas potencialidades - que estavam e estão à disposição da sociedade brasileira -, passaram a investigar alternativas para suprir os arcaicos métodos históricos de organização, que se mantiveram no Brasil, e, mais importante, para mapear e explorar - para o bem e para o mal - o principal elemento de toda a indústria: o jogador. Portanto, assim como fizeram com outros produtos encontrados nas terras invadidas desde a intensificação das grandes navegações, que se tornaram objeto de extração, exploração e desvio para cultivação em outros locais - criando-se, assim, um ambiente concorrencial de fornecimento de matéria-prima -, também o fazem com o futebol. O jogador brasileiro passou à condição de commodity, negociado pelo seu formador (o clube associativo) ainda em estágio de incompletude, que será desenvolvido para se tornar produto de ponta europeu - ou seja, novamente para afirmar a supremacia dos povos dominantes. As cifras que envolvem quaisquer movimentações de jogadores como Neymar e Messi - dentre muitos outros - confirmam a proposição. Na verdade, não apenas o jogador, mas, em relação ao Brasil, seus times (ou clubes) se inseriram nesse sistema, ao assumirem a posição terceiro-mundista de meros fornecedores de "pé-de-obra", ao invés de se posicionarem como agentes transformadores e criadores de tecnologia. Por trás (e à frente) desse modelo, persistem os coronéis do atraso, integrantes da oligarquia cartolarial, interessada na preservação do seu poder, à conta do patrimônio material e imaterial do Brasil. A história se repete, pois. Dessa vez, porém, não é o pau-brasil, o ouro ou a borracha que se entrega, sem a justa contrapartida; mas o futebol e os futebolistas.  
quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Futebol, pão e circo

A Folha de São Paulo promoveu, na edição de sábado, 22 de agosto, debate escrito em torno da seguinte provocação: "com atletas contaminados e jogos suspensos, o Brasileirão deveria ser paralisado?". Respondeu afirmativamente o jornalista Juca Kfouri, segundo o qual "nem deveria ter começado". Em sentido contrário, manifestaram-se os dirigentes do Corinthians, Vicente Cândido e Ivan Grava, os quais entendem que a "retomada ocorreu após inúmeras discussões entre especialistas". Não se pretende, aqui, invadir a polêmica, que nem deveria existir, diante do quadro de incertezas e de falta de estrutura do futebol brasileiro para oferecer a necessária proteção a jogadores que se distribuem e se deslocam por um território de dimensões continentais - e, não raro, em condições precárias de transporte, alimentação e higiene. Chama atenção, no entanto, a argumentação da dupla corintiana, apresentada no mencionado texto: "(a)pesar dos obstáculos a serem superados, acreditamos fortemente que, com os devidos cuidados, podemos, para além da retomada econômica, ser também um veículo de mensagem positiva e de entretenimento para milhares de brasileiros que admiram e desfrutam o futebol". Aparentemente inofensiva, a mensagem é, a um só tempo, incoerente e assustadora. Quisesse a casta cartolarial apresentar-se, ou melhor, apresentar o futebol como referência e veículo de algo positivo para o País, já teria, há muito tempo, reconhecido a degeneração do modelo associativo como núcleo organizacional e proprietário da atividade futebolística. Teria feito mais, aliás: a promoção da necessária reformulação, visando à sua sustentabilidade, para, aí sim, oferecer, além de um ambiente integrativo, produtos e espetáculos de qualidade. Lembre-se, a propósito, que os principais clubes brasileiros acumulam endividamento bilionário, causado justamente pelos cartolas que se aproveitam da paixão do torcedor e da natureza não econômica das associações, visto que elas não podem requerer recuperação judicial ou falir, e agem de modo irresponsável e consoante propósitos pessoais. Não à toa que os beneficiários (e mantenedores) do sistema resistem a participar da luta encabeçada pelos Congressistas Rodrigo Pacheco (Senador da República, DEM/MG) e Pedro Paulo (Deputado Federal, DEM/RJ), que trabalham na convergência de um novo marco regulatório organizacional do futebol, cujo conteúdo reabilitador não tem precedentes na história do Brasil - e, até onde se conhece, também sem comparação com qualquer modelo implementado em países ocidentais. Ademais, a mensagem contida naquela proposição assusta pelo reconhecimento - provavelmente involuntário, assim se espera - de que, apesar da potencialidade econômica e social do futebol, os seus donos, i.e., os dirigentes eleitos por motivos político-associativos, que dominam as relações no interior dos clubes ou federações,  tratam-no (ou buscam tratá-lo), na verdade, como meio de (i) realização de negócios, não necessariamente ligados ao interesse da coletividade e (ii) contenção e manipulação das massas, à conta dos jogadores. Por isso, como afirma a dupla de dirigentes, "em casa, cumprindo o isolamento social, esses torcedores terão também no seu cardápio uma boa opção de lazer e de combate ao estresse". Na Roma antiga, como se sabe, gladiadores eram expostos a outros rivais, eventualmente a animais ferozes, para satisfação e entretenimento geral; eventos de confronto compunham, pois, o leque (ou o cardápio) de medidas relacionadas à manutenção da ordem e ao aliviamento do estresse social, à conta de seres humanos que se batiam pelas suas vidas - e pelo relaxamento das ansiedades alheias. É verdade que o texto publicado na Folha pretende demonstrar, sem atingir seu objetivo, que as medidas preventivas, impostas pelas entidades organizadoras do futebol, evitarão, justamente, a atração e o alastramento de doenças - logo, que vidas não estão - ou estarão - em jogo. Evitando-se, novamente, a entrada no debate, fato é que ele faz emergir a natureza desumana da relação do cartolariado com o objeto que cartolaria. Nele se afirma, a propósito, que "a absoluta necessidade de sobrevivência levou uma maioria alargada dos dirigentes do futebol a defender a volta dos jogos sem público o quanto antes, já que este setor da economia praticamente não contou com nenhuma ajuda do poder público (...) Daí a necessidade de dar continuidade aos certames". A ausência de preocupação com o principal motivo da existência do futebol, o jogador, é inaceitável. De resto, vale reforçar que, em primeiro lugar, o Estado e a sociedade em geral ajudam e subsidiam os clubes associativos há mais de um século, com imunidades, isenções, parcelamentos, leniências, patrocínios e outros meios, e recebem, em troca, dívidas, má administração, falta de transparência e ausência de investimento efetivo na formação de um ambiente sustentável, capaz de reduzir desigualdades e inserir crianças, jovens e adultos, desfavorecidos economicamente. Em segundo, a necessidade de sobrevivência clubística só se revela absoluta, se tiver um fim social, e daí econômico, concatenado com certos valores, que pressupõem o enaltecimento do ser humano - e não a sua coisificação, justificadora, aliás, das péssimas condições de trabalho da absoluta (aqui a expressão é válida) maioria dos atletas profissionais, empregados em clubes sem expressão nacional. Em terceiro, mas não menos importante, a crise sistêmica não foi causada pela pandemia, que a potencializou, sem dúvida, mas a precede, em décadas, e muito menos pelos jogadores, que lutam, bravamente, pela dignidade profissional. O discurso, enfim, em defesa da inevitabilidade da entrega de lazer e entretenimento à população infeliz, pela via do futebol, afirma, apenas, a sua utilização, manipulada, pelos seus donos: a casta cartolarial.  
As eleições no São Paulo Futebol Clube (SPFC) se aproximam. Enfim, os dois nomes que se enfrentarão, pela eleição ao cargo de presidente, estão definidos: Julio Casares (JC) e Roberto Natel (RN), ambos membros do conselho de administração do clube. RN, aliás, cumula a vice-presidência executiva, apesar de ter rompido publicamente com o atual presidente, Leco. JC já estava definido como representante de uma coligação situacionista - integrada por grupos de distintas matizes, incluindo desafetos internos -, que poderia ser definida como uma espécie de centrão. Bem articulado e experiente nas relações clubísticas, JC também atua de modo ativo no ambiente corporativo. Sabe muito bem que a condição para a sobrevivência, o desenvolvimento e o crescimento de qualquer atividade empresarial é o acesso a capitais. Ele também sabe, pelos cargos que exerceu e exerce na estrutura administrativa são-paulina, que o modelo atual de associação sem fins lucrativos está saturado e é incapaz de gerar as receitas necessárias para tornar o time competitivo no plano internacional (e mesmo local). Mas não pode admitir a realidade, pública e internamente, nos meandros do Morumbi, pois desagradaria sua base de sustentação: políticos (ou politiqueiros) clubísticos que se apropriam da esperança da enorme torcida tricolor. JC é um candidato da elite, representativa do poder concentrado em conselhos deliberativos e consultivos - fato que, em si, não implica ilegitimidade ou ilegalidade. Daí sua posição negacionista do inegável, que se manifesta sobretudo por meio da repetição de falácias. A principal delas consiste na afirmação da desnecessidade de reestruturação do modelo de propriedade e, consequentemente, de governação e controle da atividade do futebol (conforme, respeitando-se as características próprias, fizeram todos os clubes relevantes do planeta, com duas exceções: Real Madrid e Barcelona). Assim, caso JC se eleja, os torcedores deverão aguardar o decurso do prazo de seu mandato - 3 anos - para voltar a sonhar com uma estrutura compatível com a grandeza da história do time. Dizia-se, até o último sábado (15/8/20), que seu opositor seria Marco Aurélio Cunha (MAC). Apesar da relação deste com a torcida, pelos bons serviços prestados, nunca foi um agente político atuante no clube. Contava, por outro lado, com a retórica populista. Era, assim, o preferido do torcedor. Não deu. Foi vencido por RN, em (surpreendente) convenção oposicionista, que escancarou a natureza estritamente política do processo. De toda forma, MAC também representava, pelas suas convicções pessoais, o continuísmo da falida estrutura associativa como agente administrador do futebol. Achava que, com pessoas capacitadas e bem intencionadas, por ele conduzidas, poder-se-ia afirmar o clube social, no meio de poderosos oponentes endinheirados, como via adequada de titularidade e exercício da empresa futebolística. Mesmo assim, a sua exclusão da corrida presidencial reforça o intransponível hiato entre o desejo dos torcedores e o hermético sistema cartolarial. RN, o candidato escolhido pela oposição para duelar com JC, é fruto da estrutura clubística - e não uma opção da massa torcedora. Vive nela e parece ter o apreço da base associativa. Representa o desejo do associado, que, aliás, não votará para presidente, pois a escolha é prerrogativa do conselho deliberativo. Ele, ao contrário de JC, acredita na ideia de que estrutura clubística e futebol se confundem; também no engano de que as glórias do passado podem ser retomadas a partir (simplesmente) de uma nova direção. RN carrega, em seu nome, o peso da tradição tricolor, proveniente de seu tio, Laudo Natel. Também o marcam - ou deveriam marcar - os feitos transformadores de seu parente, que muito contribuíram para que o time se tornasse uma referência nacional e mundial, justamente pelos exemplos de pioneirismo e de coragem, refletidos em decisões vanguardistas. RN vem manifestando insatisfação pública com a política interna. Pretende apresentar-se, ao menos formalmente, como alternativa ao que devia ter sido feito, e não foi. Porém, seus objetivos aparentam coincidir com os de JC, mesmo quando implicam um descumprimento do estatuto do SPFC. Lembre-se, a propósito: por ocasião da primeira e da segunda eleições do Presidente Leco, o tema central, badalado à exaustão pela imprensa esportiva, envolvia a transformação da estrutura associativa, refletida em Seção e cláusulas estatutárias, que se impõem à diretoria e ao conselho de administração. Portanto, a submissão, aos órgãos internos e aos associados, do estudo de viabilidade da segregação entre (i) futebol e (ii) atividades sociais, não representa um devaneio isolado - ou uma ideia externa -, mas uma obrigação, derivada da vontade da assembleia geral. A inobservância consiste, aliás, em falta gravíssima. RN, se eleito, não poderia evitar esse cenário, e, para honrar a história familiar, deveria cumprir a vontade dos associados - que aparentemente o apoiam em seu propósito presidencial -, manifestada em deliberação assemblear. O problema é que, tanto ele como JC, ao que parece, preferirão destruir o presente - e o futuro - do São Paulo sustentando a soberania associativa - e a desnecessidade de respeito ao estatuto.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Ditadura do Associativismo

Texto de autoria de José Francisco C. Manssur "Uma virtude simulada é uma impiedade duplicada: à malícia une-se a falsidade" Santo Agostinho. Ditadura do associativismo é daquelas expressões que têm a qualidade de nos fazer enxergar, em poucas palavras, situações que demandariam longas e, muitas vezes, pouco eficazes explicações. O consultor Fernando Ferreira cunhou o termo e acertou na mosca. O termo aplicado aos nossos grandes e tradicionais clubes de futebol brasileiros reflete o mais absoluto domínio exercido em nossos times, não por seus milhões de torcedores, mas por duzentos ou trezentos conselheiros eleitos por dois ou três mil associados do clube associativo. É uma ditadura, porque suprime dos verdadeiros donos dos times de futebol qualquer participação no processo decisório das associações, salvo raras e honrosas exceções. Como toda ditatura, é sustentada por uma oligarquia, uma pequena elite dominante que impõe seu julgo em desfavor da maioria dos torcedores que não são associados. No caso, uma cartoligarquia. Nossos grandes times de futebol são, no mais das vezes, uma das - ou a única - atividade realizada pelas associações desportivas que são os clubes. É preciso diferenciar o clube associativo do time de futebol que o clube detém dentre as suas atividades. O clube associativo tem seus associados, donos de títulos patrimoniais, que lhes dão o direito de frequentar o clube e realizar as atividades esportivas recreativas e culturais. O time de futebol transcende os muros do clube, reúne, em alguns casos, dezenas de milhões de torcedores que, em muitos casos, passarão a vida toda dedicando sua paixão pela equipe de futebol, sua camisa, suas cores, seus símbolos, mesmo sem nunca terem sequer conhecido a sede social, frequentado a piscina ou comparecido à festa junina. Os associados são os donos do clube e o poder é por ele exercido, na forma definida no Estatuto, com seus diretores e conselheiros. Já os donos dos times de futebol são seus milhões de torcedores, que geram as receitas essenciais para a sua subsistência, pagando os valores dos ingressos para os jogos, o que gera as receitas de bilheteria, ou o assistindo nas diversas mídias, o que produz o recebimento dos direitos de transmissão, assim como, consumindo notícias sobre o time nos sites, blogs e jornais, dando visibilidade às marcas dos patrocinadores que pagam ao clube por isso. Os associados/conselheiros, com suas contribuições associativas, ajudam a manter a área social do clube (não do time) "e olhe lá", já que, no mais das vezes, a sede social é deficitária e necessita de aportes vindos das receitas do futebol - aquelas geradas pelo torcedor - para se sustentar. Logicamente que há uma maioria de associados e conselheiros que também ostentam a condição de torcedores e, como tal, exercem os dois papeis. Porém, somente em sua condição de conselheiros/associados, exercem em toda sua magnitude o poder político responsável pela gestão do clube associativo e também do time de futebol, alijando totalmente os torcedores não associados. Nesse sentido, chega a ser infantil acreditar que um clube que substitui a eleição dos dirigentes pelos conselheiros, para eleição direta pelos associados passa a ser "democrático". Falácia. Continuam sendo três ou quatro mil regendo a paixão de dezenas de milhões. De quando em quando, a cartoligarquia aceita pequenas e pontuais mudanças, para mostrar um certo ar de modernidade, seguindo a orientação lampedusiana de mudar, para deixar tudo como está. Assim, permitem, como se fosse grande concessão, que profissionais dirijam algumas áreas do clube como o marketing, a comunicação e as finanças e o próprio futebol profissional ou de formação. No mais dos casos, o fazem a contragosto e em postura de boicote ressentido, com duras e constantes críticas aos profissionais que atuam nos clubes. O cartoligarca, muitas vezes, enxerga o profissional do futebol como um "impuro", conspurcado pelo "pecado" de trocar sua força de trabalho pela justa remuneração. São, assim, os sucessores dos velhos coronéis do interior do Brasil ou barões das capitais, donos de terra ou herdeiros, que nossa literatura colonial retrata tão bem, em punhos de renda e tratando os trabalhadores como "gente menor". O futebol brasileiro estaria muito melhor, se muitos dos magnânimos dirigentes tivessem a repulsa a alguns dirigentes pseudovoluntários, que sangram os cofres dos clubes cobrando comissões polpudas pela participação nos negócios realizados pelos clubes e não àqueles que trabalham e são justa e formalmente remunerados por isso. Ouvi um dia, com esses ouvidos que a terra há de comer, de um dos grandes próceres da oligarquia clubística brasileira, ainda vivo, que "esse negócio de contratar treinador é bobagem, deveríamos juntar quatro ou cinco conselheiros e nós escalaríamos o time..." E já estávamos entrados no século XXI, quando testemunhei o propalar dessa "pérola". Para além do absurdo folclórico, é comum ouvir pelos corredores dos clubes que conselheiros que defendem que a diretoria de futebol deva ser ocupada por quatro ou cinco conselheiros abnegados, que depois de seus afazeres diários iriam, no final do dia, dar "expediente" na sede e resolver todas as suas pendências. Como se fosse possível administrar futebol, marketing, finanças, comunicação de entidades com receitas maiores do que R$ 100 milhões, das 18:30 às 22:00 horas... não é por falta de sorte que o futebol brasileiro decaiu tanto nos últimos tempos. A mais recente luta dos oligarcas é contra a separação da área social do clube do futebol profissional e a constituição de empresa para gerir o futebol profissional. Resistem com todas suas forças e poder político à percepção, cada vez mais assentada na sociedade, que sem essa modernização o futebol brasileiro não evoluirá. Seus métodos ditatoriais impedem, em alguns clubes, que até mesmo seja o tema discutido, como se fosse um dogma insuperável, em atitude típica das ditaduras que escondem as mensagens que lhes são desfavoráveis, não sem antes baterem no arauto. Ainda assim, usam, como bem usa toda ditadura, das mais reprováveis estratégias de disseminação de falácias para convencer os associados a rejeitarem a mudança real. A mais recente e mais reprovável dessas mentiras é aquela por meio da qual os cartoligarcas avisam, como velhos oráculos, que "quem defende a empresa para gerir o futebol quer vender nossos clubes." Vender como, Sr. Barão, se no momento da criação da empresa o clube associativo é dono de 100% das ações da empresa que irá gerir o futebol e somente poderá permitir a compra de ações por terceiros se assim, o próprio clube, desejar e permitir de acordo com as normas previstas no Estatuto Social que os próprios Senhores Conselheiros & Associados aprovaram? Há clubes, como o Botafogo de Ribeirão Preto e o São Paulo Futebol Clube, no qual o Estatuto Social prevê, expressamente, que o clube associativo sempre terá de deter, sempre a maioria do capital social no caso da constituição de empresa para gerir o futebol profissional. Isso só poderia mudar se o estatuto do clube permitisse e, somente os associados do clube, podem alterar seus estatutos. Logo a tese do "vão vender nosso clube" é mentirosa, fake news, que só serve para jogar areia nos olhos de quem se interessa pelo debate, em favor da manutenção de velhos poderes. Ao invés de "vender", acreditamos que o termo correto para definir a evolução do futebol dos nossos grandes clubes, para que sejam geridos por companhias seria "devolver", assim entendido, como sendo o ato pelo qual se retira o poder de quem o exerce com abuso, para devolver em sua plenitude aos verdadeiros donos. Para além da evolução por meio da qual os torcedores poderão vir a serem titulares de capital acionário dos times de futebol constituídos como empresa, já num primeiro momento, a gestão que substitui as barganhas e pressões políticas, pela resposta aos anseios do torcedor-consumidor democratiza e legitima a gestão. No futebol-empresa, os resultados financeiros resultarão da satisfação que o torcedor-consumidor manifestará em relação a forma como o clube é dirigido e aos resultados esportivos e financeiros alcançados. O dirigente eleito por acordos políticos realizados pelos cartoligarca e cumpre mandato, somente se retirando ao seu final, exceção aos casos graves e raros que ensejam impeachment. O dirigente profissional, do clube-empresa, pode ser substituído a qualquer tempo, se os torcedores, seus verdadeiros patrões, não estiverem satisfeito com a condição do trabalho. Cada vez mais, graças ao debate que se consegue fazer à margem dos muros dos grandes clubes, o ecossistema do futebol - atletas, treinadores, torcedores, imprensa e, por que não dizer, diversos conselheiros e associados dos clubes - passam a entender ditadura do associativismo, que restringe à uma pequena elite o exercício pleno do poder nos clubes associativos e, por conseguinte, nos times de futebol que os clubes detêm, é o fator preponderante para que a gestão do futebol brasileiro não evolua e se modernize, como deve, para fazer frente aos grandes clubes do Mundo. Porém, por paradoxal que possa parecer, somente uma maioria de conselheiros e associados poderá mudar e modernizar a gestão em cada um dos clubes. Esses são os poderes que estatutos de clube e as leis criadas para manter o status quo legaram em favor dos cartoligarca e contra os interesses daqueles que acreditam na modernização real do futebol brasileiro. Mesmo com os projetos que tramitam atualmente no Senado, de estímulo à constituição de empresas para gestão dos times de futebol de nossos clubes para criação de companhias para gerir futebol dos clubes, tal mudança fundamental somente poderá ser implementada a partir da aceitação, por parte daqueles que exercem o poder, de que as mudanças são necessárias para melhoria de suas instituições. Será preciso apelar para o torcedor que existe em cada dirigente. A História mostra que muitas ditaduras caíram, quando seus próceres abriram mão dos anéis, para salvar os dedos. No caso, abrir mão do pequeno poder, para salvar os grandes times de futebol do Brasil. Que assim seja! Abaixo a ditadura!
O futebol não deveria ser tratado, no Brasil, apenas como um jogo. Muito menos como um instrumento de alienação das massas. À esquerda ou à direta, pouco importa, o desprezo (ou o preconceito) pela atividade que atrai, com maior ou menor intensidade, aproximadamente 140 milhões de brasileiros e 4,5 bilhões de terráqueos, é inaceitável. A inaceitabilidade se intensifica - e avança para o campo do inconformismo - ao se constatar que, a partir de uma suposta relação de reverência, outros países passaram a extrair as riquezas locais - jogadores, muitos em fase de formação -, transformá-las e, com elas, dominar a indústria futebolística mundial. Antes uma referência, o futebol brasileiro vem se transformando, assim, em fornecedor de matéria primária e em mantenedor da obsolescência organizacional e da mediocridade sistêmica. Não se trata apenas de fruto da incompetência cartolarial ou dos equívocos legislativos; decorre, também, de movimentos históricos, de natureza patrimonialista, despreocupados com a distribuição de riqueza e a popularização do conhecimento. Sim: o futebol poderia oferecer condições únicas de atração de crianças para sala de aula, de inserção social e de contribuição para o desenvolvimento econômico da Nação; mas é isso o que a maior parte da elite, independentemente da filiação ou da convicção política, não quer. Como também não quer que outras formas de manifestação artística - igualmente desafiadoras dos padrões elitistas - se disseminem e se transformem em movimentos de contestação de um modelo falido de sociedade. Apenas por esse prisma se justifica a falta da devida atenção do Brasil para com a banda Sepultura, formada em Belo Horizonte na década de 1980, e que se transformou, há muito tempo, em fenômeno mundial. A provocação não é irrelevante. Lembre-se que, na Coreia do Sul, a música pop local (K-pop) tornou-se tema de Estado - ou ao menos de Governo. Desde a formação do Sepultura, foram gravados mais de 20 discos (incluindo lp's, ep's e gravações ao vivo), vendidas dezenas de milhões de cópias, visitados em torno de 80 países com as suas turnês e colecionados discos de ouro em vários deles, como Portugal, Estados Unidos, Austrália, Canadá, França e Inglaterra. Além dos números - ou mais do que eles -, saltam aos olhos as atitudes e as mensagens. Mencionam-se alguns exemplos. Em 1993, a banda abalou a crítica musical com a força (e violência) do álbum Chaos A.D. A primeira faixa, denominada Refuse/Resist, escancarava a revolta com os abusos cometidos em nome de Estados. Aliás, o refrão Refuse/Resist poderia, não sem autoridade, ser incorporado à lista de passagens musicais manifestadoras de indignação contra atos autoritários, a exemplo de "Apesar de você" e "Bella Ciao". Anos depois, em 1996, a banda lançou outro álbum, chamado Roots, que não apenas estabeleceu um novo padrão mundial para o estilo musical, como reverenciou algumas das raízes brasileiras, com as participações de Carlinhos Brown (e a poderosa percussão afro-baiana) e de uma tribo indígena Xavante, com a qual gravou a faixa Itsári: uma fusão sonora que, se fosse promovida por um músico escandinavo ou norte-americano, certamente seria aclamada. Dois anos depois, um dos fundadores e vocalista, Max Cavalera, deixou a banda. No lugar de um homem branco, com longos cabelos castanhos, proveniente da classe média, que apresentava todas as características de um frontman desejadas por uma grande gravadora, os membros remanescentes tomaram uma decisão improvável para os padrões de mercado: integraram um cantor negro, desconhecido e que atuava, naquele momento, como segurança de bar. Passados mais de 20 anos, Derrick Green ainda troveja erudição e indignação incontida com a intolerância. Dando-se um salto cronológico, recentemente, no início de 2020, o Sepultura, sempre comandado pelo guitarrista Andreas Kisser - pessoa conscientíssima de sua importância e da importância da banda -, lançou novo álbum: o excepcional Quadra, que foi recepcionado pelo jornalista e crítico Gastão Moreira como expressão absoluta da contemporaneidade; portanto, referência de música e de arte contemporânea. Nele, aliás, descortina-se uma impressionante combinação de influências que vão - no meio de tanto peso e velocidade - da música clássica ao hard rock, passando pelo jazz e o rock progressivo; além, como já se indicou, dos ritmos brasileiros. Uma obra técnica, aberta, tolerante, democrática e desprovida de preconceitos. Por todos esses motivos a comparação com o futebol não é descabida. Mesmo tendo sido criado por nobres, para deleite próprio e exclusivo, a disseminação foi rápida e se expandiu para todo o planeta e todas as classes. Não há país em que não se pratique o jogo. Basta um objeto redondo, produzido a partir de qualquer material que role, como meias, para que se inicie uma partida épica entre seus participantes. No Brasil, em particular, o futebol se tornou, para muitas crianças ou famílias, um sopro de esperança; um caminho, ou um sonho, de uma vida diferente, inserida, social e economicamente. Nele, aliás, se expõe o verdadeiro Brasil, que não é branco e tampouco pródigo em oportunidades; mas um funil, pelo qual poucos passam. Uma atividade que pode contribuir para inversão, portanto, da estratificação imposta desde a invasão portuguesa, ocorrida há mais de 500 anos. Essa perspectiva indica um necessário ambiente de tolerância e de afirmação de conquistas humanitárias que não podem existir apenas no texto da Carta Constitucional. É aí que surge a verdadeira questão: se o futebol, organizado como um mercado sustentável, respeitador do patrimônio cultural imaterial, dos direitos dos jogadores e dos agentes econômicos que dele fizerem parte (clubes, clubes transformados em empresa, investidores, etc), ostenta tamanha vocação transformacional, qual o motivo de tanta resistência? A resposta parece evidente: a resistência, no caso, não parte do mesmo inconformismo inspirador - na opinião deste articulista - da canção do Sepultura, pois construída, ao contrário, para manutenção de poderes e privilégios. Talvez os mesmos interesses e privilégios que se ameaçam com as poderosas mensagens proferidas pela banda brasileira.
quarta-feira, 29 de julho de 2020

Os cartolas que não querem mudar o futebol

No filme o homem que mudou o jogo (disponível nas plataformas Now e Apple TV), Brad Pitt faz o papel de Billy Beane, que fora uma promessa do baseball nos Estados Unidos da América, mas que acabou frustrando as expectativas dos times pelos quais passou - e dos torcedores daquele país, que apostavam no surgimento de uma nova estrela. Quando percebeu que jamais seria um grande jogador - pois as habilidades que abundavam eram insuficientes para superar as travas psicológicas - Billy Beane resolveu, não sem sofrimento, mudar de carreira e, com o tempo, tornou-se o gerente geral (general manager) de um time californiano participante da Major League Baseball, o Oakland Athletics. O enredo se passa por ocasião da temporada de 2002. Ele administrava uma estrutura sem recursos e não tinha condições de montar um elenco competitivo. Ao pedir mais investimentos ao proprietário da franquia, recebeu um irredutível não. Sem alternativa, o gerente retomou o convencional e viciado processo de troca de jogadores. Ao reunir-se com a administração de outro time, o Cleveland Indians, deparou-se com um jovem atípico para os padrões do esporte: Peter Brand, economista formado em Yale1. Intrigado com a importância que o staff esportivo e administrativo conferia ao garoto, Billy Beane o assediou e descobriu uma formulação teórica inovadora, consistente na avaliação de jogadores a partir de algoritmos estatísticos. O administrador comprou a ideia, contratou Peter Brand, enfrentou a resistência interna em Oakland, sobretudo dos tradicionais olheiros, peitou o técnico do time e iniciou o processo de contratação e escalação de jogadores a partir de dados compilados pelo programa. Os movimentos iniciais foram sequencialmente intrigantes e frustrantes: jogadores desprezados ou esquecidos substituíram os principais ídolos e os resultados não vieram. Com o tempo, porém, as peças se encaixaram e o time engatou uma sucessão histórica de vitórias. Ao fim da temporada - não se indicará, aqui, se alcançou o título do campeonato, para não tirar ao leitor o prazer da descoberta -, Billy Beane foi considerado o mais inovador (e revolucionário) dos administradores da liga. A façanha lhe valeu uma proposta milionária do proprietário da tradicionalíssima franquia Red Sox, de Boston, que pretendia internalizar os seus métodos para, com um time eficiente e barato, trazer a taça para Fenway Park - o que viria de fato a ocorrer apenas dois anos depois. Mudou-se, ou melhor, aperfeiçoou-se, assim, pela via administrativa, um jogo que já era profissionalizado e disseminado na cultura norte-americana. Vive-se, no Brasil, atualmente, uma situação que sugere alguma forma de comparação. O modelo de propriedade do futebol e sua inconsequente administração seguem padrões do século retrasado, forjados em época em que ainda se discutia sobre a abolição da escravidão. De lá para cá, algumas poucas técnicas foram absorvidas por meia-dúzia de clubes associativos, menos com o intuito de impor-lhes transformações reais - ou revoluções -, mas sobretudo para simular mudanças superficiais necessárias à manutenção do sistema e da classe cartolarial. A introdução de certas palavrinhas, que nas bocas da cartolagem soam como palavrões, tais como governança e compliance, somada ao aprimoramento do processo comunicacional, instrumentalizaram o encantamento das massas. Trata-se, porém, de armamento idealizado para resistir ao crescente movimento de revisão do associativismo como forma única de administração da empresa futebolística. A resistência às mudanças persiste e se viabiliza, historicamente, pela construção e propagação de dogmas incompatíveis com o estrago produzido pelos resistentes (tais como: "nós somos diferentes", "o futebol é nosso", "investidor e resultado esportivo são incompatíveis" e "a inviabilidade da tributação da empresa futebolística"). A verdade é que, por trás do escudo do associativismo, preservam-se pessoas e centros de privilégio e de poder. Reminiscências do colonialismo e da institucionalização da desigualdade existencial - e racial. Agora, para sustentá-lo, tenta-se criar novo dogma, consistente na crítica ao que seria a obsessão pelo clube-empresa (e pela sociedade anônima do futebol). A técnica argumentativa é perigosa e inverídica, pois, ao contrário, pretende-se, apenas, oferecer a possibilidade de escolha - entre o próprio associativismo e a empresa, como formas alternativas de organização da atividade futebolística. Tenta-se, assim, neste país de poucos privilegiados, sustentar, de modo dissimulado, a "ditadura do associativismo e da cartolagem" - expressão que costuma ser utilizada por José Francisco Manssur. É isso: trava-se um embate histórico entre o retrocesso e o avanço, o obscurantismo e a ciência, os privilégios e uma sociedade futebolística menos desigual, a concentração e a distribuição de oportunidades. A apatia - ou a resistência - cartolarial em relação ao processo de convergência dos projetos de lei 5.082/16, relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e 5.516/19, de autoria do senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), em curso no Senado Federal, que resultará num marco legal revigorante e salvador, sem precedentes no Brasil e no planeta, revela, ademais, o hiato entre os Estados Unidos da América, nação concebida para ser grandiosa - a despeito da acidental eleição de Donald Trump -, e o Brasil, o qual, apesar de sua grandeza territorial, insiste em ser pequeno e essencialmente patrimonialista. __________ 1 Personagem inspirado em Paul DePodesta, o harvardiano que apresentou a Billy Beane os conceitos adotados a partir da temporada de 2002.
Texto de autoria de Tiago Gomes e Marcel Belfiore Um bom contrato de patrocínio esportivo - porque há muitos maus contratos de patrocínio, em que não se busca qualquer alinhamento entre as identidades de patrocinador e patrocinado - é um típico exemplo de associação entre as marcas do patrocinador e do atleta ou entidade patrocinada. Ao associar a sua marca à de um atleta ou entidade esportiva, o patrocinador busca uma identidade afetiva com seus consumidores por meio de seus ídolos. É como se a marca patrocinadora destacasse a sua identificação com um estilo de vida saudável, com o talento, a superação, o desportismo, e, naturalmente, com as glórias. Obviamente, com isso, busca também identificar-se com as paixões que o esporte suscita e sempre suscitou em seus adeptos e admiradores ao redor de todo o mundo. Por outro lado, o atleta ou entidade, ao associar a sua marca à de uma empresa patrocinadora declara que aquela é uma marca que tem valores similares aos seus. Que compartilha de seus valores. Não à toa, em inglês, os contratos de patrocínio são chamados endorsements. Ou seja, por meio dos contratos de patrocínio, marcas e atletas endossam um ao outro, reforçando aos seus respectivos consumidores ou fãs o mútuo apoio e confiança que conferem um ao outro. Em se tratando de uma associação de marcas há exemplos de relações simbióticas, como a parceria entre Michael Jordan e a Nike, em que uma marca praticamente não pode ser dissociada da outra, e ambas se fortaleceram com a relação. Mas há, também, o risco de associações tóxicas, que podem estragar a reputação de um patrocinador ou de um patrocinado. Detentor de incríveis 12 medalhas olímpicas, um dos poucos a vencer Michael Phelps em provas individuais em Jogos Olímpicos, recordista mundial, jovem, bonito, Ryan Lochte era um queridinho dos fãs e, consequentemente, dos patrocinadores. Até que, durante os Jogos de 2016, no Rio de Janeiro, alegou ter sido vítima de um assalto para justificar uma baderna em um posto de gasolina. A repercussão mundial que se seguiu foi devastadora para sua imagem, e, por consequência, para a de seus patrocinadores. Para prevenir situações deste tipo, a partir de conceitos que foram inicialmente construídos para a indústria do cinema, os contratos de patrocínio esportivo nos Estados Unidos passaram a estabelecer o que se convencionou denominar de "cláusula moral". Em função de referida cláusula, caso o patrocinado viesse a praticar qualquer ato que contrariasse aos valores e normas defendidas pela patrocinadora, esta poderia vir a rescindir o contrato, sem o pagamento de qualquer multa pela rescisão, ou, em certos casos, inclusive mediante a cobrança de indenização da parte infratora. Em um mundo globalizado, com marcas atuando em todo o planeta, e patrocinando atletas de todo o mundo, essa cláusula passou a se tornar cada vez mais comum em contratos regidos pela lei brasileira. E, embora ainda padeçam de uma mais detida análise da jurisprudência acerca de sua licitude à luz do artigo 122 do Código Civil, à medida em que podem condicionar a eficácia de um contrato ao arbítrio de uma das partes, seu emprego passará a ser cada vez mais comum também no Brasil, e as discussões ao redor de sua aplicação passarão a ser também relevantes por aqui. Diante disso, a experiência internacional demonstra uma série de questões que merecem atenção. Destacam-se dois pontos que recentemente vêm preocupando patrocinadores e patrocinados em relação à invocação de referida cláusula. O primeiro é a exposição em redes sociais. Atletas e equipes esportivas costumam atrair em suas redes sociais um enorme contingente de pessoas. A possibilidade de alcançar um universo de pessoas diretamente interessado nas áreas de atuação do atleta ou equipe torna essas redes sociais um poderoso instrumento de marketing para marcas e patrocinadores. Não é por outro motivo que esses canais passaram a ser, possivelmente, a maior fonte de receitas de uma grande quantidade de atletas e equipes esportivas. O outro lado da moeda é que o amplo alcance dessas ferramentas também pode servir para estragar reputações. Em um mundo extremamente polarizado, imagens e comentários fora de contexto podem ser suficientes para ferir suscetibilidades e contaminar, para uma parcela da população, tudo o que está associado àquele perfil. Acontece que marcas normalmente anseiam se comunicar com todos os espectros políticos e isto pode ser tornar um problema de imagem. No mesmo campo da possibilidade de arruinar reputações, há as situações absurdas que desagradam a todos. Parece ser o caso recente do comentário do CEO da Crossfit, Inc, Greg Glassman, que comparou o assassinato policial de um homem negro nos EUA à pandemia de coronavírus. O resultado imediato foi a perda de uma série de contratos de patrocínio, inclusive o da gigante de artigos esportivos, Reebok, longamente associada ao sistema de prática esportiva criado por Glassman. O segundo ponto de atenção diz respeito à possibilidade de atletas ou entidades esportivas também utilizarem a cláusula moral a seu favor contra seus patrocinadores, para proteger suas reputações, um ativo que lhes é tão caro quanto o é para as patrocinadoras. É célebre a disputa entre o time de beisebol Houston Astros para rescindir o contrato de patrocínio de seu estádio com a Enron, que, dois anos após firmar o contrato de naming rights com a equipe, se tornou mundialmente infame, em uma associação absolutamente indesejada para os texanos. Mais recentemente o tenista Roger Federer viu-se em uma situação embaraçosa com um de seus mais longevos patrocinadores, o Credit Suisse, ao ser instado pela ativista sueca Greta Thunberg a "acordar" para os impactos globais causados por investimentos em energias fósseis e não renováveis promovidos pelo banco. O tenista suíço, que é amplamente conhecido por seu desportismo e pelas causas sociais que defende, mostrou-se tão hábil com as palavras quanto o é com a raquete: reafirmou publicamente sua responsabilidade como indivíduo e atleta, e se comprometeu a utilizar a sua influência e privilégio para dialogar sobre o tema com seus patrocinadores. Demonstrando alinhamento com o tenista, o Credit Suisse, por sua vez, afirmou estar comprometido em auxiliar seus clientes na transição para modelos energéticos mais sustentáveis e anunciou não mais investir em novas usinas de carvão. Mas suponha-se que o atleta e seu patrocinador não tivessem chegado a um discurso comum? Poderia Federer, para preservar sua reputação, desejar o rompimento unilateral do seu contrato de patrocínio com base em uma cláusula moral? Como se vê da experiência internacional, há diversas questões que podem ser suscitadas a partir da invocação das cláusulas morais como forma de preservação da reputação de uma das partes envolvidas em um contrato de patrocínio esportivo. A sua difusão no direito brasileiro requererá atenção de juristas, mas também das partes envolvidas, de forma a se adaptarem à sua aplicação, especialmente em terrenos incertos daquilo que pode ou não afetar a reputação de uma das partes. *Tiago Gomes é formado em Direito e mestre em Direito Comercial pela USP. Sócio do escritório Ambiel, Manssur, Belfiore, Malta, Gomes, Hanna Advogados. **Marcel Belfiore é formado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sócio do escritório Ambiel, Manssur, Belfiore, Malta, Gomes, Hanna Advogados.
O Club de Regatas Vasco da Gama foi - o tempo verbal é relevantíssimo - vanguarda. Mais do que isso: protagonizou situações importantes e pioneiras desde a implantação do regime republicano. Conforme se extrai, aliás, do sítio eletrônico oficial, o clube, fundado em 1898 por brasileiros e portugueses, com o propósito de fomentar a prática do remo, elegeu, em 1904, o primeiro presidente não branco: Cândido José de Araujo. O futebol tardou algum tempo a fazer parte de sua estrutura. Foi em 1915 que se autorizou a prática do esporte que, rapidamente, passou a, de algum modo, confundir-se com a então curta existência clubística, a partir, talvez, do primeiro grande feito: o título do campeonato carioca de 1923. Importante: ao contrário dos eternos rivais, Flamengo, Fluminense e Botafogo - lembrando que rivalidade não significa inimizade -, oriundos de zonas nobres e frequentados pela elite branca, o Vasco continha em sua gênese a vocação à tolerância e à inserção social. De seu elenco campeão participavam negros, mulatos e brancos. A relevância dessa postura pode, talvez, ser comparada ao movimento que, na década de 1880, resultou na profissionalização do futebol na Inglaterra, com a aceitação, não sem resistências, da participação de times que contavam com jogadores remunerados em seus elencos (e, daí, a consequente superação do modelo amadorístico, conforme se retrata na Série English Game, disponível na Netflix). Poucos anos depois do título inédito, o Vasco inaugurou um estádio de porte monumental para a época, conhecido como São Januário; que se tornou, aliás, palco de discursos do presidente Getúlio Vargas - como os proferidos no dia do trabalho nos anos de 1940, 1941, 1945, 1951 e 1952. A construção contou com a participação ativíssima dos torcedores, muitos dos quais, conforme relatos emocionados de descendentes daqueles idealistas, emprestavam o pouco tempo livre à atividade construtiva do futuro palco de glórias futebolísticas. De lá para cá, com efeito, as glórias não são poucas: títulos locais, nacionais e internacionais; o orgulho de ter vestido Pelé e Garrincha com o seu manto; a revelação de Marta - eleita por 6 vezes a melhor jogadora do mundo; o milésimo gol de Romário; e, mais importante do que tudo, a formação de uma nação de aproximadamente 10 milhões de torcedores - número semelhante ao de habitantes de Portugal. O problema é que o processo evolutivo foi interrompido, não apenas pela rejeição de novas técnicas organizativas adotadas nos principais centros de prática do futebol, como pelo apego ao passado de conquistas, que se produziram em outros tempos - evidentemente. O dilema vascaíno, como também de outros clubes tradicionais, reside, em outras palavras, no quase intransponível individualismo e na preservação do (destrutivo) modelo associativo-politiqueiro, que se concentra em poucas dezenas de associados-conselheiros, e que serve, no final das contas, aos próprios interesses pessoais desses agentes que dominam as relações internas; modelo que, por definição, se contrapõe a um Vasco moderno, grandioso, cumpridor dos designíos sebastianistas para os quais, aparentemente, foi concebido, por imigrantes que escolheram essas terras para irradiar feitos humanistas - e, no caso, esportistas e futebolísticos. São Januário, aliás, poderia ter um papel central no resgate do histórico processo transformacional. Sua revitalização, respeitadas as características arquitetônicas - que devem ser preservadas e enaltecidas -, permitiria o impulsionamento do entorno, com a melhoria do comércio local e o surgimento de novas opções de serviços e moradias. A partir daí, toda a comunidade se beneficiaria, pelo Vasco. Tal movimento, no entanto, jamais se consolidará se pensado de modo isolado e dissociado de um projeto maior, que envolve a reformulação das bases carcomidas, por meio de um movimento aparentemente brusco, mas que, na prática, serve para preservar a história e o patrimônio e para garantir o futuro sustentável: a passagem do clube de dono do futebol à posição de dono de uma companhia que seria, ela, a dona do futebol. Logo, empregando-se um simples raciocínio lógico, para preservar o próprio clube como dono indireto do bem maior: o futebol. Além do controle societário - que jamais será abalado ou modificado, exceto pela vontade da assembleia geral de associados do clube -, do poder de indicação dos membros dos órgãos de administração e do direito de fiscalização das atividades internas, o clube ainda teria direito ao recebimento de dividendos, correspondentes à parcela do lucro anual, para emprego na melhoria do patrimônio associativo. Se os conselheiros e associados se lembrassem da história de seus antepassados mais longínquos - eu, neto de português, lembro-me bem -, não hesitariam em evitar os erros dos Reis de Portugal, que insistiram na preservação do modelo patrimonialista e de manutenção do monopólio real das empresas marítimas (no caso do Vasco, clubística), mesmo sem recursos para financiá-las. As consequências foram fatais: perda do controle dos oceanos e das rotas orientais para países como a Inglaterra e a Holanda, que passaram a financiar os mesmos empreendimentos com recursos mistos (e depois privados), a partir da constituição de companhias - como as das índias orientais ou ocidentais - e do apelo às poupanças local e internacional. Situação similar se apresenta, guardadas as características, as peculiaridades e as proporções, em relação ao Vasco: o protagonismo lhe vem escapando, apesar dos sinais inequívocos que foram - e são - desconsiderados por uma sucessão de dirigentes, de modo que se impõe, infeliz ou felizmente, aos gestores atuais, o dever de tomar, rapidamente, as decisões certas, e, assim, interromper o processo reducionista, a despeito do gigantismo de sua torcida e de sua história. Ainda é possível recuperar o tempo perdido, desde que interesses ou sentimentos pessoais sejam preteridos pelo bem coletivo, pelo bem do Vasco.
Texto de autoria de Rodrigo R. Monteiro de Castro e José Francisco C. Manssur Há pouco mais de 10 anos, o Flamengo, de acordo com as palavras de seu então presidente, Marcio Braga, estava sem dinheiro. Apesar de a declaração ter sido proferida em contexto que envolvia esportes amadores, a verdade é que o clube, como um todo, ostentava situação financeira precária, que comprometeu o rendimento nos anos seguintes. Aliás, sobretudo por esse motivo, os títulos importantes minguaram e se conheceu algo que não condiz com a sua história: a irrelevância. De 2010 a 2015, o Flamengo terminou o campeonato brasileiro nas seguintes posições: 14º, 4º, 11º, 16º, 10º e 12º, respectivamente. Depois de Marcio Braga, veio uma presidente de matiz essencialmente político-clubístico, Patricia Amorim, que, após um mandato pouco iluminado, foi sucedida por Eduardo Carvalho Bandeira de Mello. Bandeira de Mello expressa um arranjo de percurso; ou uma solução engendrada apenas para cobrir a impossibilidade de lançamento de outro candidato, que era preferido pela sua própria base política de sustentação. Por isso, ele deveria ter sido uma espécie de Rainha da Inglaterra, mas se afeiçoou imediatamente pelo cargo e pela perspectiva de conduzir o time mais popular do Brasil. Envolveu-se, assim, em disputas internas motivadas por sentimentos de traição, desconsideração e ressentimento; mas cumpriu, com dignidade, seus dois mandatos - sim, foi reeleito para segundo termo. Mesmo que não fosse a primeira opção de seu grupo, Bandeira de Mello não era - e não é - uma pessoa despreparada; ao contrário, construiu sólida carreira no BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. E, a partir de sua presidência, iniciou-se - a verdade deve ser reconhecida - uma transformação interna no Flamengo que rompeu, ao menos aos olhos dos espectadores externos, com a forma exclusivamente politiqueira de administração clubística. Em outras palavras, foram introduzidos conceitos e técnicas extraídos do mundo corporativo e afastados, não sem dificuldade, cardeais políticos e os seus asseclas parasitários. Isso não significa - é importante ressaltar - que houve rompimento com o modelo político-associativo; mas, dentro dessa matriz, passou a preponderar outro tipo de agrupamento - também político, é verdade, capitaneado por empresários e burocratas (na acepção positiva do vocábulo) -, que se aproveitou - e se aproveita - da fragilidade institucional para empreender um take over (ou uma dominação) da empresa-futebolística flamenguista. Bandeira de Mello, pelo seu perfil burocrático - novamente, não se pretende, com isso, fazer-lhe crítica, mas apenas ressaltar essa sua característica -, conduziu o seu clube também de modo burocrático. A burocracia, no caso, foi benéfica e justifica, pelo menos em parte, o processo recuperacional financeiro e econômico, que se refletiu em campo. De 2016 a 2019, o time terminou o campeonato brasileiro nas seguintes posições: 3º, 6º, 2º e 1º. O título de 2019, que não se obtinha desde 2009, foi levantado por seu sucessor, Rodolfo Landim. Apesar dos acertos em relação às contratações no primeiro ano de seu mandato, o atual presidente assumiu um clube aparentemente saneado e com capacidade para realização de investimentos e movimentos dignos do tamanho de sua torcida. Ao contrário de seu antecessor, o conhecimento das burocracias estatal e empresarial não reflete a sua natureza. Mesmo tendo passado mais de duas décadas na Petrobras e alguns anos na presidência da Petrobras Distribuidora, o contato com as entranhas da empresa pública e do Estado proporcionaram a Landim o substrato para ascender na iniciativa privada. Eike Batista o convidou para "integrar a távola do sol eterno", e o fez presidente de algumas de suas companhias. A relação terminou em litígio. Atualmente, Landim é maior do que o ex-patrão (que, aliás, chegou a ser o indivíduo mais rico do país): sim, ele preside aproximadamente 40 milhões de pessoas, número maior do que a população somada dos países do Benelux e de Portugal, e sabe que tem nas mãos uma preciosidade: a maior mina do Brasil - e talvez do mundo -, ainda subaproveitada e subvalorizada. Para o seu melhor aproveitamento, Landim comanda (i) a reaproximação e a cumplicidade do Estado, (ii) o afrouxamento da influência do único agente que tolhe a ambiciosa pretensão dominadora - a Globo - e (iii) o engendramento de um pacto com a entidade administradora do futebol - a CBF -, que se protege e de algum modo se fortalece com as condutas individualistas flamenguistas, afiançadas pela Presidência da República. Esses movimentos, por ora precisos e bem sucedidos, apequenam os demais clubes brasileiros, que são incentivados, pelo próprio presidente do Flamengo, a lutarem pelo escandaloso PL 2.125/2020, que oferece mais um programa de salvamento e premiação da irresponsabilidade cartolarial. Por trás do incentivo, esconde-se a necessidade de existência de sparrings que ofereçam alguma resistência, desde que não seja ameaçadora, e que legitimem a regência absoluta. E, para que o poder econômico se estabilize, ou se intensifique - e sobretudo para que os seus planos de conquista não fiquem adstritos à América Latina - Landim e sua trupe sabem que, em algum momento próximo, deverão aplicar aquilo que sempre fizeram - e que sabem fazer - em suas atuações no mercado. Ou seja, lançarem-se num projeto de empresarialização das atividades do clube, seja pelo futebol, seja por elementos que gravitam ao seu redor (como o programa de sócio torcedor), como via inaugural de acesso aos ilimitados recursos de investidores locais ou internacionais1. Apenas por essa via é que poderão ser reduzidas as desigualdades que ridicularizam os times brasileiros - dentre eles o próprio Flamengo -, como revelou o jornalista Mauro Cezar Pereira, ao constatar que o festejado - e com razão - anúncio do fechamento de contrato de patrocínio do Banco Regional de Brasília (um banco estatal que despeja milhões em único time de futebol) -, equivale à cifra recebida, por patrocínio semelhante, pelo Burnley, inexpressivo time inglês que ostenta o 18º orçamento entre os 20 times da Premier League2. Quando aquilo acontecer, a direção flamenguista, além de dar um passo fundamental para estabilização do poder empresarial, estará, pela miopia dos dirigentes dos demais clubes - com raras exceções -, executando o movimento final de dominação do futebol no Brasil. O hiato, que já é expressivo, tornar-se-á praticamente insuperável. O associativismo, que o Flamengo defende publicamente, não passa de um escudo para que empreenda, de maneira silenciosa, uma revolução individual e egoísta, sem rivalidade ou ameaça - apenas eventual, de algum time que se beneficie do mecenato de um ou uns torcedores bilionários. E, de quebra, se ocorrer durante a gestão do atual presidente, Landim ainda poderá mandar um bilhete ao seu antigo patrão e dizer-lhe que Rá - o Deus do Sol - é, na verdade, ele próprio. __________ 1 Esse caminho é apresentado de modo expresso em matéria do Jornalista da Folha, Carlos Petrocilo. 2 Clique aqui.
Texto de autoria de Savério Orlandi "A coisa que é a mais importante entre as coisas menos importantes" das vidas de milhões de brasileiros está sobrestada, e nem poderia ser diferente... Ainda que vejamos isoladamente a petulância do futebol carioca, verdade é que não há clima para a disputa, vemos hospitais de campanha lindeiros a praças esportivas, vidas ceifadas, cenários de flagrante indefinição. Mesmo sem bola, muita coisa está em jogo fora do eixo sempre óbvio e estático da discussão sobre o calendário, o profissionalismo, o flair play financeiro, etc., até porque imperiosa, antes de tudo, a necessidade dos clubes já combalidos pré-crise se recomporem do "soco no estômago", em face do abalo substancial na geração de suas receitas orçadas para o exercício de 2020. Na "mesa", são as seguintes as cartas postas: a MP 984, recém-editada, concernente (em especial) à mudança na regra do direito de arena, e três Projetos de Lei em tramitação, sendo um deles destinado ao socorro circunstancial do PROFUT, além de outros dois que cuidam da forma de organização da atividade futebolística através da adoção de modelos empresariais. Quanto ao PL 2.125/20, com os ajustes que sofrerá pelo processo legislativo, trata em verdade de norma concebida e cingida pela circunstância da crise atual, versando uma ação antecipatória e benevolente do Poder Público em favor das associações no enfrentamento dos seus problemas (pré-existentes, diga-se) para o cumprimento das obrigações contraídas quando de suas adesões ao PROFUT, isto é, em nada que de fato importe além da dilação temporária do "cheque especial", ou nada além de uma situação presente que insiste em reinventar o passado. Por outro lado, no tocante às discussões abarcadas pelos demais temas atualmente submetidos ao crivo legislativo, deparamo-nos com matérias que veiculam formas de financiamento dos deficitários clubes e que poderiam, em tese, funcionar como vetores para a transformação do mercado futebolístico, adquirindo feição de miríade e demandando atenção ou envolvimento. A MP 984 carrega de partida o descrédito de ter sido editada sob açodamento e sem consulta aos atores envolvidos, além de identificada como se carimbada por uma associação esportiva, bem assim com o aparente interesse de retaliação direcionada pelo Chefe do Executivo ao grupo detentor da maior parte dos direitos de transmissão; mas o debate fica raso se consideradas apenas tais ilações, sem incidirmos no seu pano de fundo, de suma importância, que pode servir de lastro para disciplinar novas relações comerciais, com enorme potencial de êxito econômico. É possível admitir que este assunto específico tratado na MP é revestido do caráter de urgência e relevância, todavia, não na sua acepção jurídica como fundamento para autorizar o permissivo legal do artigo 62 da Constituição Federal; sim, é relevante, já que altera o "status quo" e fornece meios para uma nova e sadia realidade, é urgente, pois clubes mendicantes reclamam receitas! Talvez um debate amplo e mais acurado, contando com os agentes lotados em todas as pontas da cadeia, fosse mais profícuo... recomendável também que as associações esportivas tivessem desde logo um denso entendimento do "instituto", das suas oportunidades e consequências, validando entre si o denominador comum mínimo para após sair a mercado tendo no horizonte a formação de um bloco (ou a sonhada Liga), criando também nesta formatação os mecanismos indispensáveis à defesa dos interesses de todos, sejam maiores ou menores, através de escalas definidas e objetivas, sempre observando condições de visibilidade, performance, percentual de venda, entre outros afetos; esse debate deve ainda se conectar com os geradores de conteúdo e transmissão partindo do primado de respeito aos atos jurídicos perfeitos, de tal sorte que, pela própria complexidade inerente, não pode e nem deve realizar-se em sede de Medida Provisória. A "lenda viva" do formato empresarial, tratada nos dois outros projetos de lei aqui citados, pode encontrar guarida para seu avanço na reunião das duas propostas em um texto normatizador único, com plena capacidade de significar o desejado marco de regulação deste novo mercado. De um lado, a SAF - Sociedade Anônima Futebolística, de outro o Clube Empresa, através de variados modelos societários, além de outras disposições catalogadas em cada um dos projetos. Importante reconhecer, para fins de conceituação e encaminhamento, que as proposições não são entre si excludentes, sendo certo que para a futura adoção da classe empresarial, se o caso, será lícito à cada associação definir, segundo critério de conveniência e oportunidade, qual será o formato a ser escolhido; caberá aos clubes no seu exclusivo interesse e sintonizados com suas coletividades compostas de conselheiros, associados e aficionados, a opção, seja pela sociedade anônima com o rigor das suas obrigações de transparência, da sua governação disciplinada e demais ônus incidentes, ou de outro modelo, que pode ser até mesmo o mais singelo obtido por exemplo com um contrato social padrão e um acordo escrito qualquer feito em separado, o que se chama pela alcunha de "contrato de gaveta": quer se dizer, cada um vai decidir o que melhor lhe aprouve, a decisão tanto pela sociedade de capital aberto com acesso ao mercado de ações, sujeito às publicações legais e as demonstrações cristalinas de resultado, como algum tipo de sociedade fechada, gerida até mesmo como se uma "confraria" fosse. Enfim... cada clube sabe por si só melhor do ninguém, "onde é que o seu calo aperta". Assim, é evidente que os clubes devam peremptoriamente decidir quem são, o que pretendem ser, e em qual mercado intencionam operar no futuro: o CNC - Conselho Nacional dos Clubes, de aparição fugaz e propósito louvável no início desta crise, aos olhos do grande público revelou-se como efêmero, traduzindo-se mais como um guarda-chuva que "curou dos seus" em ato de solidariedade recíproca diante do pânico criado, com os seus participantes, assimilado o susto, voltando-se novamente aos seus problemas domésticos, ao modo particular de dar um "jeito aqui e outro ali", em resumo, aos seus vícios e vicissitudes... Com a pretensão de ser o que deseja, o CNC precisa mostrar a que veio, e aqui atrevo-me de plano a afastar o eufemismo de vocábulos como pauta ou agenda e sugerir que seja imposta uma verdadeira "Ordem do Dia" que possa tratar, além da pandemia, de como pode ser aperfeiçoado e adiante adotado o novo modelo do direito de arena com percepção de futuro quanto aos meios sociais, e reivindicar o pronto estabelecimento de um marco regulatório, para o qual o mais aconselhável seria a fusão dos dois projetos em curso, que dispõem sobre o "clube empresa" e as suas derivações. Como vimos, o maior desafio dos clubes neste momento de reflexão, não bastasse a superação dos problemas financeiros e esportivos, é o de promover o seu reposicionamento de mercado com a criação de um novo habitat, através de formulações para o futuro que alterem efetiva e irreversivelmente o estado das coisas, a fim de permitir às associações clubísticas que deixem de ter que esperar passivamente, ano após ano, pela ocorrência de eventos miraculosos... ou de ter que se valer dos expedientes de antecipar receitas, realizar precocemente seus ativos, judicializar passivos, faltar com compromissos. A pandemia feriu quase de morte o exercício financeiro de 2020 e certamente irá transcendê-lo alcançando o ano de 2021, seguindo-se em 2022, dentro de condições normais, um ano de Copa do Mundo onde pouco se faz e/ou produz (em geral e no próprio futebol, excetuado o torneio); então, mesmo com a premência de superar o estrago atual, o "projeto" do futebol brasileiro há de ser contemplado a médio e longo prazo, mormente pois deve se conjugar uma série de ações e modificações para as quais é preciso um certo decurso de tempo, contudo, deve ser pensado e implementado desde o presente, vale dizer, a partir de amanhã! Como afirmou Alex Bellos, sendo o Brasil "o único país a ter participado de todas as Copas, o estado nação é passível de ser conferido em saltos de quatro anos"1; fica assim por derradeiro a última sugestão, qual seja, para que o trabalho se inaugure e tenha como horizonte, no limite, a época do Mundial na América do Norte a ser realizado em 2026, quem sabe tenhamos até lá esse novo mercado estruturado e vigente. Vamos ver... ou melhor, será que quem viver, verá? Savério Orlandi é advogado militante em SP, sócio filiado e consultor jurídico da ABEX (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol), membro vitalício do Conselho Deliberativo, Membro Efetivo do Conselho de Orientação e Fiscalização e ex-diretor de Futebol Profissional 07/10 da Sociedade Esportiva Palmeiras, pós-graduado em Direito Empresarial pela PUC/SP, onde também se graduou. __________ 1 "Futebol: O Brasil em campo", trad. de Jorge Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003, p.57.
quarta-feira, 24 de junho de 2020

Futebol brasileiro à deriva?

Desde 2016, com o surgimento do projeto de lei 5.082, de autoria do então deputado Federal Otavio Leite (PSDB/RJ), debate-se o novo - e revigorante - marco regulatório do futebol brasileiro. Apesar da relevância do tema, o interesse midiático revelou-se, com mais intensidade, apenas depois, nos momentos de confrontação ou de comparação entre outros dois projetos: o 5.516/19, de autoria do senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), que tramita no Senado Federal; e o novo 5.082/16, oriundo de substitutivo relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), projeto que, após aprovação na Câmara dos Deputados, foi remetido, em dezembro de 2019, ao Senado Federal, por onde também tramita atualmente. Nem mesmo a anunciada (e histórica) iniciação do processo político de convergência entre esses dois projetos recebeu a atenção e o espaço merecidos; e a cobertura desse processo - que caminha, é verdade, em ritmo mais lento do que o desejado - desapareceu da imprensa. É ali, de todo modo - e, por enquanto, de forma relativamente silenciosa -, que se engenha a obra fundamental que envolve a estrutura do futebol brasileiro - e que não abrange, portanto, a atividade futebolística em si, resguardada em outro plano. No dia 18 de junho de 2020, por outro lado, o país foi surpreendido com a adoção, pelo presidente da República, da Medida Provisória 984 ("MP") que, em resumo, altera o art. 42 da Lei Pelé com o propósito de atribuir apenas ao clube mandante de espetáculo desportivo (portanto, de partida de futebol) o respectivo direito de arena, consistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir, sem a participação do time adversário, a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens do espetáculo. Nos dias que se seguiram à publicação da MP, produziram-se, talvez, mais textos sobre o assunto do que, em quase meia década, a respeito do novo marco regulatório da estrutura do futebol. A euforia decorre da natureza do conteúdo da medida, que afeta, diretamente, o dia a dia dos agentes futebolísticos, os interesses dos meios de comunicação e o acesso do torcedor em geral ao conteúdo esportivo; mas que não resolve, definitivamente, as mazelas estruturais do futebol brasileiro (incluindo-se o modelo de propriedade, a necessária adoção de formas societárias na posição de agentes titulares do exercício da atividade empresarial-futebolística, o implemento de modelo adequado de governação ou a observância das técnicas de controle e publicização de atos internos; temas que, aparentemente, são menos atraentes ao grande público). Sobre a MP em si, colecionam-se manifestações, independentemente do enfoque que se dê, antagônicas e divergentes, revelando a controvérsia não apenas do seu conteúdo, como também da forma adotada. Apesar da relevância do objeto, que merece, sim, olhares e soluções contemporâneos, e, mais importante, que poderia resultar no reconhecimento efetivo de um ativo expressivo - o direito relacionado aos mandos de jogos -, a forma adotada é ilegítima; daí porque geradora de insegurança e de incerteza. Com efeito, a adoção de medida provisória pressupõe relevância e urgência: características que não se apresentam no caso concreto; pior, resulta, aparentemente, da demanda solitária - e egoística - de determinado clube associativo e da intenção presidencial de atacar certo grupo econômico. Lembre-se, ademais: de acordo com o art. 62 da Constituição Federal, uma medida provisória perde eficácia, desde a sua edição, se não for convertida em lei no prazo de 60 dias, prorrogável apenas uma vez por igual período, e o Congresso Federal haverá de disciplinar, por decreto legislativo, as relações jurídicas dela decorrentes. Se o decreto não for editado até 60 dias após a rejeição ou perda de eficácia da medida provisória, as relações jurídicas constituídas e decorrentes de atos praticados durante a vigência de medida provisória conservar-se-ão por ela regidas. Entre aqueles dois eventos - ou seja, o início do processo de convergência dos projetos 5.516/19 e 5.082/16, de um lado, e a adoção da MP, de outro -, foi apresentado à Câmara dos Deputados outro projeto de lei (2.125/2020), de autoria do deputado Artur Maia (DEM/BA), que pretende, ao contrário das propostas que tramitam no Senado Federal, oferecer, simplesmente, mais um socorro às entidades clubísticas que, nas últimas décadas, sugaram bilhões de reais dos cofres públicos, sem reverterem, à sociedade, a devida contrapartida - afinal, a mera sobrevivência do clube não cumpre, definitivamente, as funções sociais, educacionais e econômicas consagradas pela Constituição Federal. O fundamento dissimulado do projetil de 2020, que atende apenas aos interesses cartolariais e ao salvamento do hermético e conflitado associativismo (que corrói o futebol brasileiro), é o impacto da pandemia - motivo apresentado, aliás, em inúmeras demandas oportunistas, de distintas naturezas. Enquanto tudo isso se desenrola na capital Federal, a CBF - entidade que detém o monopólio da organização do futebol no Brasil, por força de uma norma autorreguladora - se mantém, no Rio de Janeiro, aparentemente inerte, passiva, como se as propostas legislativas não tivessem nada a ver com ela. Excetua-se dessa apenas aparente letargia, o lançamento do que, quem sabe, virá a ser reconhecido no futuro como o embrião do banco CBF, por meio da abertura de uma linha de crédito total de R$ 100 milhões para times da série A, com limite individual de R$ 5 milhões, em troca de garantias que, diz-se por aí, vários dos beneficiários não terão capacidade para apresentá-las. Conquanto não tenha obrigação jurídica de dispor de seu patrimônio para colaboração com os times afetados - e todos, sem exceção, o foram -, a ausência de ação externa poderia gerar reações indesejadas e questionadoras do sistema existente; mesmo que, também aparentemente, sem alarde, ela apoiasse o PL 2.125/2020 e, com ele, mais um programa de subsídio estatal, à conta do contribuinte, para reanimar, por algum tempo, a atual estrutura de poder. Engana-se, no entanto, quem acredita que os movimentos, em geral, sejam aleatórios ou impensados. De todo modo, como consequência, calculada ou não, grupos de interesse movimentam-se para barrar ou defender a MP; outros para alterá-la, esvaziando-a ou a ampliando; também, para simplesmente aprovar a proposta de novo socorro imediato; ou, ainda, para envolver (e confundir) todos os projetos em mesmo debate, fingindo que, por ostentarem o vocábulo futebol, revelam a mesma natureza. Enfim, posições poderão ser abaladas ou, a depender dos resultados, reforçadas. Em qualquer cenário, conflitos, políticos e judiciais, aproximam-se. Isso tudo no momento em que o futebol brasileiro vive a sua maior crise e o país caminha - ou precisa caminhar - para o provimento do marco regulatório transformacional que, este sim, é urgente. Espera-se, pois, que o Congresso Nacional - sobretudo, na atual fase do processo legislativo, o Senado Federal -, não se deixe desviar de sua missão constitucional e evite a contaminação temática e política; contaminação essa que, ao que parece, é o resultado desejável pelos "antis" (na linguagem moderna da internet), que defendem a manutenção ou a imposição de interesses dissociados do verdadeiro interesse do torcedor brasileiro.
Texto de autoria de Tiago Gomes e José Francisco Manssur A concessão de pedido de recuperação judicial ajuizado pelo Grupo Cândido Mendes, composto de duas associações civis sem fins lucrativos - a Associação Sociedade Brasileira de Instrução e o Instituto Cândido Mendes -, em decisão de primeira instância proferida pela 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, tem suscitado debates sobre a possibilidade de sua extensão aos clubes de futebol, majoritariamente constituídos no Brasil sob a forma associativa. Na recuperação judicial do Grupo Cândido Mendes, entendeu-se que não haveria proibição às associações de beneficiarem-se do disposto na Lei de Recuperação e Falências. E, no caso concreto da referida instituição de ensino, entendeu-se que "desempenha verdadeira atividade empresária, a teor do art. 966 do Código Civil, pois realiza atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços, gera empregos e arrecadação para o Estado". Entendendo que os clubes de futebol também exercem atividade empresária, a despeito de sua formatação institucional, tem-se defendido a aplicação análoga do precedente para justificar a concessão de recuperação judicial a tais associações, que já tinham suas finanças bastante abaladas, antes mesmo de terem quase que a totalidade de suas receitas afetadas pela pandemia de Covid-19. Embora a possibilidade de recuperação judicial seja um dos benefícios de se estruturar o futebol sob a forma empresária, uma ideia que há anos defendemos, e, neste momento de gravíssimos impactos sofridos por quase todos os clubes de futebol, medidas extremas para tentar salvar essas instituições centenárias pareçam tentadoras, gostaríamos de suscitar algumas preocupações que nos ocorrem em relação a esta teoria, observada a legislação atualmente vigente. A primeira delas tem relação com a questão tributária, pois, como se sabe, a teor do artigo 186 do Código Tributário Nacional, os créditos tributários não se submetem à recuperação judicial. Acontece que, conquanto os clubes de futebol gozem de uma ampla extensão de isenções fiscais relativas a vários tributos nos âmbitos federal, estadual e municipal, quando analisados os balanços dos 20 (vinte) maiores clubes brasileiros referentes ao exercício de 2019, percebe-se que ao menos 07 (sete) deles declararam uma dívida tributária total superior a R$ 200 milhões. Para clubes como Corinthians, Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Fluminense e Atlético Mineiro, por exemplo, a dívida fiscal equivale a pelo menos 40% do total do endividamento líquido declarado. Ou seja, para esses clubes, ao menos 40% do valor de suas dívidas não pode ser equacionado pela recuperação judicial. E esta não é a única preocupação tributária decorrente dessa interpretação. Como já dito, em decorrência de sua estrutura institucional associativa, os clubes de futebol gozam de uma série de isenções fiscais que vêm sendo questionadas há anos pelas autoridades tributárias que se amparam justamente no argumento de que essas associações exercem atividade empresarial, devendo prevalecer o substrato material sobre a forma de organização. Como não se pode ter o melhor de dois mundos, pleitear a recuperação judicial alegando que são associações que exercem atividade empresarial pode implicar no reconhecimento de que suas atividades não podem gozar das isenções fiscais típicas das associações benemerentes. Imagine-se o impacto para alguns desses clubes que faturaram, alguns, mais de R$ 400 milhões em 2019, se forem forçados a reconhecer a necessidade de recolher, por exemplo, Imposto de Renda de Pessoa Jurídica sobre a totalidade de seus faturamentos. É aliás a impossibilidade de se ter o melhor de dois mundos que nos gera a terceira e mais importante preocupação acerca da possibilidade de aplicação dos efeitos da Lei de Recuperação e Falências aos clubes de futebol atualmente constituídos sob a forma de associação. Pois, se podem ser beneficiadas pela recuperação judicial, também podem ter suas recuperações convoladas em falência, conforme estabelece o artigo 73 da Lei de Recuperação e Falências. Ou seja, se um clube de futebol requer sua recuperação judicial, passa a se submeter, como qualquer devedor, aos rigores da lei. E um deles é a possibilidade de ter a sua falência decretada, seja pela rejeição do plano no âmbito da assembleia geral de credores, seja porque o devedor não pode cumprir qualquer das disposições contidas no plano aprovado. Estarão os clubes dispostos a correr o risco de terem sua falência decretada ao submeterem um plano de recuperação aos bancos - que fizeram suas avaliações de risco de crédito supondo que estes não poderiam requerer recuperação judicial - e à coletividade de credores trabalhistas - em sua maioria jogadores, a maioria com créditos bastante significativos e, portanto, com maior poder de barganha do que a regra dos credores trabalhistas de empresas em recuperação judicial? Ainda mais quando uma parte substancial das suas dívidas está excluída da recuperação, e há ainda o risco de surgirem outras dívidas substanciais pelo reconhecimento da submissão ao regime empresarial de sua atividade? Por fim, e em especial, preocupa-nos que, dado o cenário legal atual, os clubes de futebol estariam, em verdade, no pior de dois mundos. É que um dos principais meios de recuperação judicial é a alienação de unidade produtiva isolada do devedor. No caso dos clubes de futebol, a saída seria justamente a constituição de uma empresa para a qual seriam vertidos os ativos dedicados ao futebol, e, alienados livres de qualquer passivo, nos termos do artigo 60 da LRF. Com a atual legislação, embora a formação de tal sociedade seja possível, ela é extremamente improvável. Porque o artigo 27, §2º, da Lei Pelé, requer a aprovação pela maioria absoluta dos associados para que uma clube de futebol integralize seus bens na constituição de uma sociedade. Em associações centenárias, com milhares de associados, é praticamente impossível reunir 50% + 1 desses associados em uma única assembleia. Ou seja, infelizmente, sob o atual enquadramento, parece-nos que recorrer à recuperação judicial ao abrigo de uma possível extensão da interpretação do precedente da Cândido Mendes aos clubes de futebol, embora extremamente tentador, pode não ser uma solução aos graves e urgentes problemas enfrentados pelo futebol brasileiro. A solução pode até envolver a possibilidade de se permitir a recuperação judicial das entidades destinadas à prática do futebol, associações incluídas. No entanto, tal solução requer um correto enquadramento legislativo, com construções sistêmicas que tratem da realidade específica da indústria do futebol. Como no caso do projeto de lei 5.516/2019, do Senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), que, no seu art. 15, acrescenta parágrafo único ao art. 971 do Código Civil, para que também as associações que realizam a prática do futebol profissional possam se inscrever no Registro Público de Empresas Mercantis, equiparando-se à sociedade empresária, o que lhes permitiria o requerimento de recuperação judicial, mas lhe imporia as demais implicações decorrentes de tal condição, inclusive no âmbito tributário e falimentar. *Tiago Gomes é graduado em Direito e mestre em Direito Societário pela USP. Sócio do escriório Ambiel, Manssur, Belfiore, Malta, Gomes e Hanna Advogados. **José Francisco Manssur é graduado em Direito pela PUC/SP. Sócio do escriório Ambiel, Manssur, Belfiore, Malta, Gomes e Hanna Advogados.
quarta-feira, 10 de junho de 2020

Nobreza, imoralidade e futebol

O vocábulo nobreza não denota apenas um estado de estratificação social ou o reconhecimento de que a desigualdade deriva de um desígnio divino. Dele também se extrai um significado ético que vem faltando ao ser humano, de modo globalizado. Evoca retidão, consideração, aceitação e dignidade. A decadência e a abolição de casas reais nos séculos passados associam-se, de algum modo, à percepção popular de que essas características se perderam no tempo - ou eventualmente nunca existiram. A notável resistência centenária da coroa inglesa, por outro lado, não se deve apenas à convicção espiritual dos súditos; hodiernamente, decorre também de convenção política de que ela cumpre um papel diferenciador em relação às demais nações. Não só isso, aliás: de que a sua propagação gera, além de sentimento de convicção na tradição e na grandiosidade do reino, dividendos. Transformou-se, portanto, em instrumento de contenção das massas e de política econômica. Mesmo assim, não se pode negar à coroa, intrinsicamente, falta de nobreza; ao contrário, seus integrantes podem ser exemplares de seres humanos que, não raro, entregam suas vidas para preservar a continuidade ritualística, mesmo à conta de seus desejos pessoais ou da felicidade. A série the crown, disponível na Netflix, faz um recorte histórico para contar, a partir da Rainha Elizabeth II, fatos ligados a seus antecessores mais próximos e aos seus sucessores - e a ela também, evidentemente. O evento que envolve seu tio, o Rei Edward VIII, é marcante. Sucessor direto do Rei George V, morto em 1936, tem reinado curtíssimo, iniciado em 20 de janeiro e finalizado em 11 de dezembro do mesmo ano, em decorrência de ato abdicatório, que abalou o Império. O monarca preteriu a posição mais elevada que um ser humano poderia ostentar - ao menos naquela época, em que os Estados Unidos ainda não haviam se confirmado como país hegemônico e, assim, seu presidente se tornado a pessoa mais poderosa do planeta -, por uma mulher, que fora rejeitada moral e legalmente pela coroa, pelo fato de colecionar dois divórcios. A cena da coroação de sua sobrinha, Elizabeth, ocorrida anos depois, na esteira do passamento do pai dela, o Rei George VI, revela o torturante dilema que envolveu a decisão do então Rei Edward VIII. Ele acompanha a cerimônia pela televisão, em uma villa situada no Bois de Boulogne; ao seu redor, dezenas de convidados aos quais explicava a liturgia. Em certo momento, narra a relevância do mais santo, sagrado e solene dos rituais da coroação: a unção; um ritual que, no caso, transformaria uma jovem inexperiente e, segundo ele, de pouca imaginação, em uma deusa. Confrontado por um dos convivas sobre eventual arrependimento em relação à abdicação, ele responde que optara por algo ainda maior: o amor. Nobreza, em sentido ético - e moral -, é o que parece faltar aos comandantes do futebol brasileiro e aos agentes por eles escolhidos para, num momento de inegável aflição coletiva, lançarem-se numa aventura oportunista com o propósito de impor aos jogadores e à sociedade - e, de modo indireto, aos próprios times que deveriam proteger e zelar - a conta do atraso e do fracasso de um modelo que, todos já sabem, é inviável e insustentável. Com indisfarçado desprezo pelo movimento de resgate e redefinição do novo marco regulatório do futebol - iniciado em 2016 com a propositura, pelo então Deputado Federal Otavio Leite (PSDB/RJ), do PL 5.082/16, que foi seguido, em ordem cronológica, pelo PL 5.516/19, de autoria do Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG) e pelo PL 5.082-A, de relatoria do Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), os quais, aliás, passam, há algumas semanas, por dedicado e necessário processo de convergência -, tentou-se avançar na Câmara dos Deputados, dias atrás, em regime emergencial, com o Projeto de lei 2.125/20 ("PL 2.125"), de autoria do Deputado Federal Artur Maia (DEM/BA), que acabou sendo retirado de pauta pelo seu conteúdo inapropriado, sobretudo pela violação aos direitos dos trabalhadores especiais, que são os jogadores de futebol. A fim de tentar amenizar o equívoco propositivo, o Relator do PL 2.125, Deputado Federal Marcelo Aro (PP/MG), teria afirmado que era contra, na verdade, ao supersalário, e que queria combater jogadores milionários que se escoram em contrato1 - como se a observância de contrato celebrado pelos clubes (hiper suficientes, na relação com seus jogadores) fosse ilegal ou imoral. De todo modo, o debate deve ser redirecionado para que se atinja um desfecho apropriado aos interesses do torcedor e do povo brasileiro. Isso porque não há nada que se salve no PL 2.125, quando analisado isoladamente. Trata-se, apenas, de mais um avanço sobre o erário, conforme outros que se praticaram no passado recente, e que viabilizará, desta vez, o término de mandatos de determinados dirigentes ou que preparará o ambiente para que, em poucos anos, novo socorro coletivo seja formulado - e concedido pelo Estado. Aliás, com a iminente derrota relacionada à tentativa de distribuição da conta aos jogadores, milionários ou não - que representa a única novidade propositiva - tenta-se, agora, criar um ambiente de legitimação da transferência do ônus da crise futebolística aos contribuintes, por meio da defesa ou da diminuição de resistências sobre os demais aspectos do PL 2.125, que não comovem a opinião pública, tais como suspensão de pagamentos e parcelamentos de dívidas tributárias. O encaminhamento é igualmente indefensável e imoral. Tivessem alguma nobreza de espírito - e se realmente amassem seus times -, os agentes que comandam o futebol, e que sabem de sua inviabilidade estrutural, deixariam de reincidir em propostas que se assemelham à compra de garrafinhas de água mineral para purificar o rio tietê e apoiariam as propostas que, seguindo a mesma figura de linguagem, solucionarão a causa da contaminação e, de modo efetivo, limparão o ambiente. Elas estão bem ali, no Congresso, em estágio avançado - e quase prontas para, uma vez superada a ritualística congressual, cumprir, nobremente, suas funções social, educacional e econômica. __________ 1 Deputado mira supersalários em debate por direitos após rescisão.
quarta-feira, 3 de junho de 2020

The English Game e o jogo brasileiro

A série The English Game, disponível na Netflix, narra, a partir de fatos reais, o que seria a origem do futebol moderno: a tensão, na década de 1880, entre a nobreza e a classe trabalhadora, e a surpreendente conscientização do primeiro astro do futebol - Arthur Kinnaird, filho do 10o Lord Kinnaird, controlador do banco Bouverie & Co - de que o esporte bretão não se confinaria ao seu ciclo criador, mas se espalharia pelo império e por todos os continentes e funcionaria como instrumento de inserção e reparação social - e desenvolvimento econômico. Kinnaird jogava pelo tradicional Old Etonians, time amador que contava, em suas fileiras, com o presidente da Football Association. Participavam da associação, como espécies de sacos de pancada, dois times formados por trabalhadores industriais, o Darwen e o Blackburn, cujos jogadores dispunham de pouco tempo para treinar, pois se dedicavam a longas e duras rotinas de labuta. A hegemonia elitista começa a ser subvertida quando o patrão e patrono do Darwen contrata o jogador escocês Fergus Suter, pagando-lhe pela transferência e pela atuação - fato que talvez o tenha transformado no primeiro jogador profissional de futebol da história e que expressava uma heresia aos padrões convencionais. Apesar do investimento, o propósito não é alcançado e, após duas temporadas - ou a participação em duas Copas da Inglaterra -, a supremacia nobiliárquica se confirma. O fracasso motiva o patrono do Blackburn, que reconhecia em Fergus Suter o futuro do futebol, a oferecer-lhe mais dinheiro para mudar outra vez de time. O episódio consiste em duplo escândalo: a evidência do profissionalismo, que era proibido, e a transferência do jogador a um time rival - pois, apesar da mesma origem operária, ambos cultivavam declarada hostilidade um pelo outro. A estratégia funciona e o Blackburn vai à final da Copa, contra o Old Etonians, de Kinnaird. Aí as estruturas de poder começam a agir - ou reagir. Em reunião da (e na) Football Association, sem a presença de Kinnaird, o colegiado delibera a expulsão dos dois times envolvidos nas negociações do jogador profissional, por conta das ofertas e pagamentos de remuneração em contrapartida à atuação esportiva. Por trás da decisão, revelavam-se duas motivações: o temor do que a força trabalhadora representava (ou poderia representar) e a tentativa de preservar o esporte como prática da elite. Naquele momento, porém, Kinnaird já havia se conscientizado da relevância e da função do futebol, e encontra um meio legítimo para tentar reverter a deliberação; convicto de sua missão, atinge seu propósito, impondo uma derrota aos seus pares. O Blackburn é confirmado na final e, em partida assistida por nobres e proletários, sagra-se campeão pela primeira vez (com gols de Fergus Suter, para o campeão, e de Kinnaird, para o vice). O feito marca o fim da preponderância amadorística na Inglaterra. Ali se plantaram, pois, as sementes para que, mais de um século depois, aproximadamente 4 bilhões de pessoas, espalhadas por todos os países do planeta, praticassem ou acompanhassem o futebol. Respeitadas as diferenças - inclusive por motivos temporais - o jogo brasileiro se encontra num momento comparável: a estrutura cartolarial, sustentáculo da perseverança associativa, é defendida não pelas suas qualidades atuais, mas por interesses egoísticos, e resiste, indignamente, em seu projeto de poder. Porém, a realidade do futebol não é mais a brasileira. A supremacia transformou-se em lenda e, agora, caminha, assim como o país, para o desprezo. O 7x1, apesar de que provavelmente nunca mais ocorra, não foi um evento fortuito; tratou-se de um sintoma. É isso, infelizmente: os times brasileiros, em sua grande maioria, estão quebrados, e se organizam como exportadores de pé-de-obra; os jovens atravessam o oceano atlântico ainda em fase de formação e são transformados (ou formados) por lá; o campeonato brasileiro interessa apenas aos locais, não atraindo atenção mundial; a CBF convoca seus jogadores junto a times europeus (todos, ou quase todos, constituídos sob a forma de empresa), o que justifica, em parte, sua timidíssima atuação na construção de uma solução sistêmica; os transmissores de jogos apostam apenas na manutenção do espetáculo circense, que satisfaz as massas duas ou mais vezes por semana e não se preocupam com a qualidade do ambiente; e a classe cartolarial, no topo dessa cadeia destrutiva, alimenta-se do caos e de seus dogmas. A defesa que determinados agentes ou agrupamentos fazem da estrutura do futebol atenta contra os brasileiros e contra o Brasil. É desonesta porque ludibria e dissimula a preservação (ou o atingimento) de interesses pessoais ou de pequenos e poucos grupos político-clubísticos. É desastrosa, portanto, ao jogo brasileiro. E ainda pior: não pode ser comparada ao dilema inglês do século XIX. Naquele momento, apesar de equivocada, a crença elitista realmente pretendia a preservação do futebol; havia ao menos nobreza - não no sentido classista, mas sim do próprio sentimento - em sua essência. Mesmo assim, não se obstaculizou o curso da história e o desenvolvimento de uma atividade vocacionada à integração, à inserção e à geração de oportunidades; ao contrário do que, no Brasil, se vem defendendo - e fazendo -, com intensidade e intransigência, desde a década de 1990.
Nesse momento de crise aguda, não bastasse a agregação de novos dramas e novas dificuldades a um país marcado pela desigualdade e pela corrupção, surge a necessidade de criação de mecanismos de proteção da coisa pública contra os oportunistas que pretendem se aproveitar de diferentes situações para obter benefícios pessoais ou para oportunizar ganhos aos grupos de interesses que representam. No futebol, a situação é a mesma; e se manifesta, atualmente, sob duas perspectivas. Numa, os agentes que dominam o ambiente político-clubístico empregam suas energias na reincidência de práticas parasitárias que objetivam transferir ao Estado e ao contribuinte o ônus da incompetência estrutural na gestão do futebol, pela via do perdão, do parcelamento e/ou do diferimento de obrigações tributárias; noutra, pretendem manipular o encaminhamento das reformas que tramitam no Congresso para lucrar com a introdução de mecanismos que, isoladamente, não modificarão o núcleo do poder - e gerarão, sobretudo, contratos e status. O futebol, no Brasil, sempre foi marginalizado pela política oficial. A marginalização não decorre da ausência de relevância do esporte, mas da intencional manipulação daquilo que é um poderoso instrumento de comunicação com as massas e acaba servindo também como meio de apropriação de suas fontes de riqueza. Trata-se, ademais, de atividade global, bilionária (em receitas, fãs, praticantes e outras referências) e que poderia - ou poderá - funcionar como (i) indutora de inserção educacional, (ii) catalisadora de transformações sociais e (iii) meio de desenvolvimento econômico; características que são, aliás, os princípios formadores do PL 5.516/19, de autoria do Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG) - que passa, nesse momento, por necessário e legítimo processo de convergência com o PL 5.082-A, de relatoria do Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ). O potencial da atividade mais seguida no país - são aproximadamente 145 milhões de pessoas que a acompanham com maior ou menor intensidade o futebol, número que nem mesmo a eleição presidencial atinge - se revela na façanha de um clube outrora considerado regional, mas que, pelas suas competências, parece caminhar para o ápice do ranking latino-americano. Se o Manchester City, time sem grande tradição, cuja verdadeira importância se resumia a uma rivalidade local com o Manchester United, transformou-se numa das cinco ou seis maiores forças mundiais (em 2017/2018, alcançou a quinta maior receita do planeta e, em 2018/2019, a sexta, de acordo com o relatório Football Money League, produzido pela Deloitte), o Club Athletico Paranaense ("Athletico"), a partir do momento que tiver acesso ao mercado de capitas, pode se transformar numa das cinco principais forças do futebol latino-americano (ou muito mais, até) - e, na minha opinião, somente não o será se outros times considerados grandes ou tradicionais (tais como São Paulo, Santos, Vasco, Botafogo, Fluminense, Inter, Grêmio, Atlético e Cruzeiro) imprimirem uma improvável e profunda transformação em seus modelos de propriedade da empresa futebolística e de governação. Os resultados do Athletico no plano econômico já são notórios, e motivaram o Jornalista Juca Kfouri a publicar texto denominado "Athletico deixa Corinthians e São Paulo para trás", no qual se indica, com referência aos estudos realizados pela Pluri Consultoria, que 2019 foi o ano mais expressivo do time paranaense, com a produção da 6a maior receita do país (R$ 390.173.000,00). O que talvez pouca gente conheça é que a estrutura comandada pelo presidente do Conselho Administrativo, Mario Celso Petraglia, também está comprometida com um programa social, que vai do assistencialismo à responsabilidade educacional. Por meio da Fundação Athletico Paranaense ("Funcap"), operam-se 211 escolinhas de futebol no Brasil e no exterior, muitas delas sem fins lucrativos, e, ainda mais relevante, caminha-se para conclusão, em 2022, da construção de uma escola profissionalizante, com ensino bilíngue, que (i) atenderá as crianças e os jovens integrantes das categorias de base, (ii) se estenderá aos mesmos grupos da comunidade em que ela (a escola) estará localizada e (iii) adotará, de acordo com Roberto Bonnet, diretor executivo da Funcap, sistema de ensino semelhante ao Waldorf. Os resultados econômicos e os projetos inclusivos do Athletico, alcançados mesmo no âmbito de um ambiente jurídico forjado no século XIX e desconectado de seu tempo, reforçam a importância e a urgência das proposições de determinados incentivos, por meio de iniciativa legislativa em tramitação no Senado Federal, que poderão alçar a atividade futebolística brasileira a patamar de relevância condizente com os tamanhos de sua história, de sua mística e de seu público. Nesse sentido, a Seção I do Capítulo II do PL 5.516/19 cria a debênture-fut: valor mobiliário a ser regulado pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM, que poderá ser emitida e ofertada ao público em geral pelo clube-empresa constituído sob a forma de sociedade anônima do futebol (SAF), e sujeitará os rendimentos auferidos por pessoas naturais residentes no País a imposto com alíquota zero, e por pessoas jurídicas ou fundos de investimento domiciliados no País ou por qualquer investidor residente ou domiciliado no exterior, a imposto com alíquota de 15%. Em paralelo, a Seção II do mesmo Capítulo do referido PL institui o programa de desenvolvimento educacional pelo futebol, que autoriza a dedução, do lucro tributável auferido pela SAF, de montante equivalente ao dobro das despesas comprovadamente realizadas em determinado ano base, desde que empregadas em convênios devidamente aprovados que tenham como propósito (i) o incentivo à assiduidade dos alunos matriculados em escolas públicas, (ii) o envolvimento e o interesse dos alunos nas atividades educacionais promovidas pela escola pública e (iii) a contribuição para formação e capacitação dos alunos de escolas públicas. Tais incentivos, inseridos num sistema arquitetado para construção de um modelo sustentável, eficiente, transparente e gerador de empregos, rendas e arrecadação, poderiam intensificar e acelerar o processo de nacionalização ou de internacionalização, conforme o caso, de times como o próprio Athletico, a partir da adoção de tipos societários viabilizadores do acesso a recursos financeiros locais e internacionais, e resgatar, pelos mesmos meios, os clubes regionais ou nacionais, pequenos ou grandes, que se transformaram, por conta dos equívocos e do sistema cartolarial, em administradores de massas falidas, e que resistem, sem cumprir suas funções sociais, educacionais e econômicas, apenas pela força de suas torcidas; situação incondizente, pois, com a magnitude ou com as potencialidades que deveriam expressar.
quarta-feira, 20 de maio de 2020

O que os números nos dizem

Texto de autoria de Savério Orlandi Tristes números A velha máxima, em tempos atuais, nos remete diretamente à miserável condição de identificar dados, observar gráficos, quantificar perdas, difícil não enxergar o mundo dissociado da pandemia, com a força implacável das estatísticas que nos conduzem a um estado de desengano... Aqui, não obstante, tratamos de outros números indicadores, quais sejam, aqueles que a grande maioria dos clubes apresentou no final de abril em seus balanços do exercício de 2019, vale dizer, as suas demonstrações financeiras relativas ao período anterior, frise-se, vivido sob absoluta condição de normalidade, sendo que no caso das equipes da Série A do Brasileirão, por exemplo, apenas 4 associações esportivas (isto é, 20% delas) não o fizeram. Os números são superlativos! Com efeito, as receitas dos clubes somadas alcançaram a cifra de quase 6,8 bilhões de reais, contra os pouco mais de 5,7 bilhões do ano anterior, representando um aumento de cerca de 18% na taxa de crescimento*, o que não pode deixar de ser um fato digno de nota e extremamente positivo. Este incremento é resultante das negociações havidas com a televisão no exercício passado, da elevação geral das premiações pela disputa das competições (tem sido a tônica nos últimos anos), em alguns casos pela valorização dos contratos de patrocínios, pela venda de atletas em um período aparentemente proveitoso, circunstâncias que poderiam sinalizar solidez nos fundamentos econômicos do segmento. Só que não... A par de exuberância, falta aos números consistência, e assim sugerem atenuações no rigor dos lançamentos, interpretações largas, apropriações discutíveis, leia-se, balanços patrimoniais que mesmo não expressos em peças ficcionais, seguramente não traduzem a realidade na prática. A frieza dos números São identificadas diversas rubricas de receitas para os clubes, contudo, as existentes ainda são mal performadas e não refletem de modo fidedigno a real condição financeira (caixa) dos clubes; como se não bastasse, não se vislumbra um ideário consistente para criação conjunta de novas receitas, que poderia se dar com a afluência de recursos do mercado de capitais, ávido (em épocas normais, claro) para participar e auferir lucro no setor. "Descendo um degrau", vemos sem esforço a fragilidade da atual matriz econômica e o modo como a inoperância para maximizá-la se exterioriza; as negociações dos direitos de transmissão, por exemplo, representaram 35% das receitas dos clubes, porém, apesar de vultosas, são verticais e pouco cristalinas, determinam dependência, impedem a diversificação, impõem um produto envelopado e pouco atrativo, incapaz de se revigorar e despertar, a título ilustrativo, o interesse comercial do mercado externo de entretenimento esportivo, como vimos nas desordenadas ações nestes últimos anos nas tentativas de negociá-los. As operações envolvendo direitos dos atletas, que alcançam 25% do total das receitas, parecem destinadas unicamente ao socorro na cobertura dos compromissos operacionais dos clubes, sendo cada vez mais precoces e sem a necessária maturação dos ativos, que poderia inclusive render aos clubes melhores posições de retorno, até de modo faseado - p. ex. no ato do negócio e na participação sobre a venda futura, já no exterior. Programas de sócios torcedores e arrecadações, rubricas que contribuem juntas com pouco mais de 10% e são sazonais pela própria natureza, não foram otimizadas no limite de suas possibilidades, questões estruturais, econômicas e por vezes culturais inibem seus aumentos (vide má gestão das carteiras, dificuldades na precificação, falta de estratégia para os jogos de menor apelo e/ou que sejam "dobrados" pela transmissão ao vivo, etc.). A questão mais sensível que se apresenta é o estrangulamento dos fluxos de caixa, fato é que as associações operam em absoluta falta de liquidez, ou seja, insuficiência de recursos disponíveis para o cumprimento de suas obrigações de curto e curtíssimo prazo, basta nos indagarmos de forma simplista, por exemplo, quantos clubes brasileiros dispõem de uma folha salarial em caixa "para solver uma emergência": Parece fácil? Não é... Os números falam por si só... Aspecto crítico e negativo é a elevação dos custos com departamentos de futebol, que dispararam sem administração eficaz dos gestores superando os 4,7 bilhões em 2019, em contrapartida aos 3,8 bilhões de 2018, o que fez galopar a totalidade de dívidas dos clubes, com a elite do nosso futebol devendo cerca de 8 bilhões, segundo nos informa o mesmo estudo (*). É nítida a falta de controle dos gestores que levaram a grande maioria dos clubes ao dispêndio de percentuais muito mais do que os recomendáveis para o custeio dos seus departamentos de futebol... não perceberam que os contratos especiais de trabalho dos atletas são longos, que as opções em repatriar são onerosas, que "mensalizando" luvas do atleta "que veio sem custo" está armando uma bomba relógio, entre tantas situações que carreiam um custo operacional fixo gigantesco, impossível de suportar! O descontrole flerta com o absurdo quando vemos que em alguns clubes brasileiros figuram como credores os seus próprios patrocinadores, em uma insólita e inadequada relação comercial quanto ao cumprimento de direitos e obrigações entre as partes. Bem mais comum do que se imagina! As vendas, como já citado, são realizadas basicamente para cobrir o fluxo de caixa, num modo ainda bastante empírico e sem adoção de estratégias, em especial com métodos mais científicos, para ser contemporâneo... os clubes, premidos pelas suas necessidades de caixa, tem que enfileirar as operações e não desenvolvem meios de se preparar para o momento certo da realização dos ativos, nunca antes da primeira transição da base para o elenco profissional, se possível já com esta feita e provada (o Flamengo tem sido bom exemplo disso, sabe-se lá se por sorte ou por modelação). Pois é. Em caráter absoluto, os números sinalizam o insucesso do nosso mercado futebolístico, vemos que os déficits totalizados superam a quantia de 250 milhões, enquanto as dívidas acrescidas dos clubes beiram o valor dos 8 bilhões, portanto, ultrapassando a própria somatória do resultado conjunto das associações esportivas no exercício passado. Afinal, o que nos dizem os números? Primeiro, para que não sejamos tolos... por mais que sejam consideráveis, como de fato são, em verdade nos entregam um mercado pouco eficiente, que sem a adoção de novas receitas e meios de financiamento somente fará perenizar o embuste, senão colapsar. Por ora, posto que irremediável, para que possa validar os benefícios que serão originados pelo PL 2125/20, o qual deve ser caracterizado como sendo a aberração natural de um estorvo, e "carimbada" com o expresso alerta para que os gestores o recebam como derradeiro, fruto exclusivo de uma circunstância de absoluta excepcionalidade. Pela frente, no sentido de sua insuficiência, como indicação que somente a inversão do capital de mercado poderá criar um modelo de negócio novo, que seja capaz não apenas de se auto sustentar e expandir, como também de obter resultado econômico e propiciar desenvolvimento social. Por fim, para a urgência de se cravar um marco regulatório renovador a partir da adoção do modelo empresarial, quiçá através de um "golden goal" que poderá ser feito pelo Congresso Nacional mediante a reunião, debate e aprovação de um texto normativo oriundo da consolidação das propostas contidas nos projetos de lei do deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ) e do senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), na perspectiva da retomada. Enfim, os números podem ser expressivos, porém desnudam um mercado à míngua. Os números têm vida, e com ela podem guiar tantas outras. *Savério Orlandi é advogado militante em SP, pós-graduado em Direito Empresarial pela PUC/SP, onde também se graduou. Membro do CD e do COF da Sociedade Esportiva Palmeiras. __________ (*) SportsValue, Finanças dos Clubes Brasileiros em 2019 (maio/20), Amir Somoggi e equipe.
Texto de autoria de Carlos Eduardo Ambiel Nos últimos dias circularam diversas notícias a respeito de recentes decisões judiciais reconhecendo a possibilidade de atletas profissionais usufruírem vantagens típicas de trabalhadores comuns, como o direito de descansar um dia na semana ou receber remuneração pelo trabalho noturno, em valor superior ao diurno. E as reações foram as mais diversas: (i) atletas parabenizaram colegas pelo reconhecimento de vantagens conquistadas; (ii) torcedores reclamaram do "oportunismo" dos antigos ídolos, que rapidamente passaram a ser vistos como "ingratos", apenas porque tiveram a ousadia de demandar em face dos antigos clubes; (iii) dirigentes bradaram a necessidade de nova mudança da legislação, além de pedirem para suas equipes não mais serem escaladas para atuar em jogos aos domingos ou após as 22 horas. Diante de tantas reações, alguns poderão imaginar que estamos diante de uma grande transformação nas regras, a ponto de impedir que se volte a assistir jogos de futebol aos domingos ou nas tradicionais rodadas de quarta-feira à noite. Mas, afinal, há realmente algo de novo na legislação capaz de exigir transformações nos antigos padrões de comportamento ou uma redefinição nos horários e dias em que poderemos voltar a assistir jogos de futebol? A resposta é negativa. No Brasil, como regra geral, os atletas profissionais são empregados. Sendo assim, gozam de todos os direitos previstos no artigo 7º da Constituição Federal, além das disposições constante da CLT e da legislação previdenciária, exceção feita apenas aos dispositivos que forem incompatíveis com as prescrições específicas da Lei Pelé. Há diversas especificidades que são cabíveis apenas para os atletas empregados, não se aplicando aos trabalhadores comuns, tais como a obrigação de os contratos de trabalho terem prazo determinado, a previsão de multas rescisórias muito acima da obrigação contratada, além da possibilidade de empregados atletas serem trocados ou emprestados livremente entre seus empregadores, a ponto de um atleta emprestado poder competir licitamente contra o próprio clube que o contratou e que paga seus salários, algo impensável sob a lógica da fidúcia que deve pautar a tradicional relação de emprego. Por outro lado, também há uma equivocada percepção de que todos os atletas profissionais assinam contratos com valores milionários, têm fama mundial e fazem muito sucesso. Como diz a letra famosa: "quem não sonhou em ser um jogado de futebol". É diante desse irreal imaginário que pode soar incompatível a um atleta, com potencial de receber milhões a cada ano, ainda pretender receber hora extra, descanso semanal ou adicional noturno. Isso explica parte da revolta ou surpresa de alguns. No entanto, quando se analisa a questões estritamente sob ótica jurídica não há novidade alguma no fato de atletas empregados também se beneficiarem de alguns dos mais tradicionais direitos trabalhistas. O descanso semanal, por exemplo, é uma antiga conquista presente em várias Constituições nacionais, que há décadas garantem o direito de todos os empregados poderem gozar um dia completo de descanso a cada semana, sem prejuízo da remuneração. A Constituição de 1988 consagrou esse direito no inciso XV, do seu artigo 7º, declarando que o descanso será preferencialmente aos domingos. Dessa forma, aqueles que exercem atividades tradicionalmente realizadas aos domingos, poderão trabalhar nesse dia, mas deverão ter o descanso concedido em outro dia da mesma semana. A legislação especial do atleta profissional não ignorou as peculiaridades das atividades desportivas e a tradição dos jogos nos fins de semana. Por isso, adaptando a regra da Carta Magna, reiterou o direito de o atleta profissional gozar de um dia de descanso, mas indicou que este será preferencialmente no dia seguinte à realização das partidas. Portanto, desde muito tempo os atletas têm direito a usufruir um dia de descanso na semana, mas sem qualquer prejuízo para a regular realização dos jogos agendados para os domingos. Afinal, os atletas que atuarem no domingo poderão gozar do descanso na segunda-feira ou em outro dia da semana, sempre após as partidas. O clube que pretender não atuar mais em jogos aos domingos, sob alegada preocupação com o direito ao descanso dos atletas, não foi capaz de compreender a lógica legislativa. Afinal, a grande dificuldade não está em se marcar partidas aos domingos, mas sim em viabilizar um calendário de competições e jogos mais saudável e racional, que permita aos clubes conceder regularmente um dia de folga aos seus atletas. No Brasil, muitos atletas já discutiram esse direito nos tribunais, havendo jurisprudência reconhecendo e negando a pretensão, muito conforme as variações dos fatos e o ônus da prova aplicável a cada caso. Também há discussões envolvendo a possibilidade de os treinos regenerativos, geralmente realizados no dia seguintes aos jogos, poderem ser considerados hipótese especial de descanso, pois realizado em proveito do organismo do próprio trabalhador, sem que o atleta fique à disposição do trabalhador. Em outros casos, analisa-se a quem pertence o ônus de provar a efetiva concessão dos descansos, bem como a validade dos sistemas de controle coletivo, como as planilhas semanais com horários programados de treinos, jogos, viagens e descansos a cada semana. Enfim, o reconhecimento ou não das pretensões formuladas dependerá muito mais da situação fática vivida em cada clube e do ônus da prova, do que do próprio direito ao descanso. Quando o descanso não puder ser concedido, haverá necessidade de pagamento de indenização, equivalente ao valor de um dia de trabalho, em dobro. Alguns contratos poderão ser negociados já prevendo o pagamento de parte do valor como indenização pelo descanso não concedido, mas sempre com o cuidado de não caracterizar salário complessivo. Alternativas para resolver eventuais dificuldades na concessão do descanso semanal certamente passará pela negociação coletiva, com a busca de soluções aplicáveis à necessidade e ao calendário de cada empregador, tudo com respaldo no art. 611-A da CLT. Quanto aos jogos realizados em horário noturno, a Constituição Federal também garante remuneração pelo trabalho noturno em valor superior ao diurno. Como as competições desportivas ocorrem no ambiente urbano e não há qualquer disposição diversa constante da Lei Pelé, temos que o horário noturno dos atletas seria o mesmo aplicável aos demais trabalhadores urbanos, ou seja, das 22h às 5h da manhã. Parte da doutrina1 entende que o pagamento de adicional para jogos que adentrarem no horário noturno seria inafastável, graças à expressa determinação constitucional2. No entanto, há respeitável doutrina3 e jurisprudência que afastam a aplicação do adicional noturno justamente pela especificidade da atividade do atleta e pelo fato de o trabalho em horário noturno, muitas vezes, ser menos desgastante para o atleta que os jogos diurnos. Ora, se o objetivo do instituto é compensar o maior esforço daquele empregador que se ativa a noite, em comparação com os que trabalham durante o dia, demonstrado que o desgaste de um atleta que joga partida a noite é menor que o desgaste durante o dia, desaparece o sentido da proteção. Além disso, há inúmeras outras situações em que os efeitos do horário noturno foram relativizados nas relações desportivas, como ocorreu nos casos de atletas menores de 18 anos, que atuaram normalmente em partidas noturnas, apesar de a Constituição Federal expressamente proibir o trabalho noturno para menores de 18 anos. Ou seja, a questão está longe de ser pacificada, variando o entendimento conforme cada juízo e cada situação fática. Como sugestão ao legislador poder-se-ia fixar um horário distinto para caracterizar o trabalho noturno relacionado com a prática do desporto, que fosse capaz de respeitar a tradição dos horários dos jogos noturnos no Brasil. Outra hipótese, sempre desejável, seria novamente buscar soluções negociadas com os sindicatos. Como se observa, as questões são antigas e a melhor solução, para que atletas tenham respeitados seus direitos e que clubes não sejam onerados com cobranças retroativas, esta na busca de soluções negociadas ou na racionalização do calendário, de modo que haja espaço suficiente para a concessão dos descansos. E mais importante, sem qualquer necessidade de alteração das datas e horários dos jogos ou sem que clubes precisem exigir que suas partidas sejam agendadas em outros períodos. *Carlos Eduardo Ambiel é advogado. Sócio do escritório Ambiel, Manssur, Belfiore, Malta, Gomes e Hanna Advogado. Professor de Direito do Trabalho e Direito Desportivo da Faculdade de Direito da FAAP/SP. __________ 1 FILHO, Álvaro Melo. Nova Lei Pelé: avanços e impactos. p. 204-205. Rio de Janeiro. ed. Maquinária, 2011. 2 GIORDANI, Francisco Alberto da Motta Peixoto. Revista Brasileira de Direito Desportivo. Vol. 21. Ano 11. p 270. São Paulo. ed. Revista dos Tribunais. 2012. 3 ZAINAGHI, Domingos Sávio. Os atletas profissionais de futebol no Direito do Trabalho. São Paulo, ed. LTr, 1998.
quarta-feira, 6 de maio de 2020

Raí e a política do futebol

No campo das artes, movimentos que sugerem uma revisão de suposta monotonia criativa e que são recepcionados, de algum modo, pelo mainstream resultam na formulação de proposições que decretam o fim de técnicas clássicas. Declarou-se, assim, a morte da pintura, da escultura e de outras manifestações consideradas, em determinados momentos, ultrapassadas ou conservadoras; como também se antecipou, pelos mesmos motivos, o desaparecimento de estilos musicais e de agrupamentos. A obra - ou o objeto - denominada Fountain, encaminhada em 1917 por Marcel Duchamp ao Salão dos Artistas Independentes de Nova York, recusada como criação artística pela organização do evento, é, nesse sentido, um caso emblemático1. Apesar da influência daquele artista sobre as gerações seguintes, sentida até os dias atuais, as técnicas subjugadas, em si, não apenas resistiram, como recobraram sua reputação e o seu valor. A história (ou a estória), porém, passou a ser revista ou reescrita, e contribuiu para o desenvolvimento do debate acerca das funções éticas e estéticas da arte. É disso, respeitadas as diferenças, que se trata no presente texto. O futebol, como manifestação esportiva e cultural - e artística -, não deixará, pois, de existir. Aliás, José Miguel Wisnik, em seu fundamental Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008), demonstra que, ao contrário, a existência do futebol, sob formas etéreas ou rudimentares, precede, em séculos, a sua concepção contemporânea. Os movimentos reformadores serviram, então, como indutores da evolução sistêmica. A grandiosidade da indústria futebolística mundial confirma a proposição. No Brasil, todavia, a atividade do futebol, por motivos endógenos e exógenos, ainda se encontra em estágio de subdesenvolvimento, apesar da riqueza de seus componentes, o que intensificou a certeza a respeito da necessidade imediata de reformulações - que são resistidas pelos beneficiários do sistema cartolarial, em nome da (falaciosa) defesa da preservação do interesse popular. O problema consiste no fato de que o continuísmo implica um preço muito alto à sociedade - melhor dizendo, impagável, diante da impotência do povo perante os movimentos indevidos de apropriação e esvaziamento dos cofres públicos -, e atende apenas aos interesses individuais de um pequeno grupo de agentes que se apoderou da coisa coletiva e dela extrai os seus elementos vitais, a ponto de quebrá-la, reiterada e descaradamente, e externalizar os seus efeitos e os seus custos. Daí porque o debate ético é, neste momento, realmente tão ou mais essencial do que aqueles que embalaram as transformações - e evoluções - promovidas no campo das artes. Sempre houve uma tentativa de enquadramento político do futebolista. Cabe a ele jogar e se pronunciar sobre temas relacionados ao jogo, conforme padrões invariáveis; quando muito, sua imagem ou opinião serve a propósitos políticos alheios. Apesar da construção de uma espécie de redoma, o Brasil é relativamente pródigo na geração de atletas que não se sujeitam aos padrões estabelecidos: Tostão, Paulo César Caju, Afonsinho, Sócrates, Casagrande e Paulo André são alguns exemplos. No plano dos clubes, a subserviência também marca a relação com o poder. Isso quando não se confundem as pessoas que comandam a política clubística para, em benefício próprio, assumirem papeis relevantes nas estruturas de governos. Esse pacto, que não é benigno, forjou a criação de uma casta que, apesar de integrar, do ponto de vista jurídico, algum órgão estatutário do clube, na prática age de modo parasitário. O futebol e o próprio clube se tornaram, assim, vias de sobrevivência (ou trampolim) para realização dos verdadeiros projetos pessoais de dirigentes. O estado econômico-financeiro de quase todos os clubes brasileiros é fruto desse modelo que, mesmo em tempos de pandemia, vem sendo defendido; antes de forma dissimulada, agora escancarada e organizadamente, por via política (o PL 2.125/20, recebido dia atrás pela Câmara dos Deputados em caráter de urgência, é o mais novo produto do movimento reacionário). Não se pretende, com ele, salvar o futebol, os jogadores ou os clubes; luta-se, sem pudor, pela preservação de uma classe. A mesma classe que se horroriza quando um jogador - uma vez jogador, sempre jogador - e atualmente diretor profissional, rompe com o código de silêncio e se pronuncia sobre temas essenciais à Nação. A coragem de Raí, ao expor sua opinião em uma sociedade intencionalmente dividida, é inversamente proporcional à covardia dos agentes que pretendem se utilizar do fato para enquadramento não apenas do Capitão - é assim que a torcida do PSG ainda o reverencia, é assim que a torcida são paulina o deve reverenciar -, mas de toda a categoria de jogadores e ex-jogadores. A reação organizada à fala de Raí se dirige, pois, a todos os agentes produtivos que integram o sistema e que pretendem, de algum modo, discutir as suas mazelas e propor modificações evolutivas. Talvez se esteja presenciando o mais relevante momento na história da política do futebol: ao mesmo tempo em que se avança na perspectiva consolidadora de um projeto reformador e salvador, oriundo das propostas do deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ) e do senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), escancara-se a defesa do mencionado novo projétil de lei2, que, esse sim, tem como propósito o fim da construção de um marco regulatório sustentável e dignificante. É no meio dessa tensão que a fala de Raí foi proferida; e por causa dela, também, que reações interessadas se articularam e manterão o ímpeto silenciador. Mas a história reservará o devido lugar aos idealistas (e justos) e será implacável com os oportunistas. __________ 1 V. a propósito.   2 A expressão foi cunhada pelo Prof. de Direito da USP, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes França.
Rodrigo R. Monteiro de Castro e José Francisco C. Manssur A sociedade brasileira respondeu a uma suposta exigência reformadora da estrutura política, mandando para casa pessoas associadas às velhas formas de atuação e convocando, em substituição, outras que se apresentavam como adeptas do que se alcunhou de novo. O novo, no imaginário de parcela da população, significaria reformulação, revalorização e transformação das bases e das condutas sociais. Aliás, para certo contingente, ainda mais: uma revolução (apesar das rupturas que esse tipo de ação costuma produzir). Contudo, na prática, por enquanto, novo significou apenas um lema apropriado para troca de agentes políticos. Quem saiu, levou a pecha de velho e quem entrou vestiu a carapuça da novidade, pelo simples fator cronológico; como se, de 2 em 2 anos, não se promovessem, de modo alternado, nas esferas municipais, estaduais ou federais, movimentos mais ou menos inovadores, resultantes da vontade popular. Assim, enquanto não se promover uma necessária reforma política, tudo será, de certo modo, como antes e o futuro será projetado a partir de construções do passado, sob a forma de coalizações evidentes ou improváveis, como bem explica Sérgio Abranches1. Parece que a estrutura de poder do futebol brasileiro sempre soube disso. Mantém-se discreta, tanto nos momentos de euforia com as novidades, como nos de princípio de suspeição com o tal novo. Monitora propostas, sem assumir posições, e age ou reage, pontualmente, para preservar interesses, muitas vezes dissociados do interesse coletivo. Sobrevive, pois, a todas as tendências, mantendo os centros - e os agentes - de poder. A classe cartolarial, que exerce o poder no âmbito clubístico, beneficia-se, nesse sentido, da histórica apatia estatal em relação à verdadeira importância social e econômica da atividade e da equivocada percepção coletiva de que o futebol nada mais é do que a mais importante das coisas menos importantes. De Sarney a Bolsonaro, incluindo Fernando Henrique e Lula, nenhum presidente, até agora, promoveu a devida inserção e, mais importante, imposição de um realmente novo modelo, sustentável, eficiente, inclusivo e que cumpra suas funções social e econômica. Tampouco acertou o Poder Legislativo nas medidas instituídas desde o advento da Constituição de 1988. A situação da indústria futebolística, no Brasil, confirma, aliás, essas proposições. Daí a falsa sensação de dependência do futebol brasileiro ao modelo de clube associativo, composto de estrutura amadora, politizada e subsidiada pelo Estado, sob o também falso argumento de preservação do interesse coletivo. Se o debate maniqueísta sobre a incompatibilidade entre novo e velho realmente valesse, nele a estrutura organizacional e a ineficiência do futebol seriam a ilustração do atraso preservado desde o final do século XIX, período que, não custa lembrar, coincide com as lutas pela abolição da escravidão e pela instituição do regime republicano. Enquanto isso a população, que sofre, neste momento, com as privações da pandemia, paga e poderá ser chamada a pagar, mais uma vez, a conta das irresponsabilidades históricas e recorrentes, sob a forma isolada de mais benefícios a clubes que, em 2015, foram beneficiados por um agressivo programa de salvamento e que, em 2 ou 3 anos, voltarão a pedir novo socorro ao Estado - e, consequentemente, aos contribuintes. Já se disse aqui, neste espaço, e se repete, novamente, que o futebol é muito mais importante, social ou economicamente, do que a sociedade, em geral, foi capaz de apreender. Porém, seus atributos, que contribuíram para formação da imagem do país, e que poderiam contribuir de modo efetivo para a inserção social de crianças e jovens desfavorecidos e para o desenvolvimento econômico da Nação, se dissipam com intervenções emergenciais oportunistas e ineficazes, que servem para preservar as velhas estruturas. E esse se revela um problema ainda mais grave sobretudo em função da falta de entrega de um marco regulatório adequado que, a um só tempo, preserve o futebol como expressão cultural máxima e bem coletivo, e, tão importante quanto, viabilize a atração de investimentos privados, locais ou internacionais. A entrega pelo Poder Legislativo desse marco regulatório revigorador - que, aliás, depende apenas da consumação da convergência dos projetos em trâmite no Senado Federal, de autoria do deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ) e do senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG) que, conjugados, podem expressar, sem exagero, o modelo mais avançado e moderno existente entre todos os países ocidentais -, refletiria, de fato, o novo, no sentido magnânimo do vocábulo, mesmo que, em virtude da pandemia, se demandasse a combinação, circunstancial, com instrumentos de distribuição ou de assunção de parte do problema. O velho, por outro lado, sobretudo pela forma e pelo propósito preservacionista de uma estrutura de poder incorrigível - e que sangra há décadas os cofres públicos -, está refletido na proposição de mais um pacote isolado de benefícios - que se convertem, no tempo, em espécies de perdões, pois jamais são efetivamente cobrados -, inserido no PL 2.125/2020, que tramitará em regime de urgência na Câmara dos Deputados, e que contempla, dentre outras velharias, apenas: (i) a suspensão de pagamentos do Profut pelos clubes durante o período de calamidade pública e de mais 180 dias, após o seu encerramento; (ii) a redução de 50% sobre os juros devidos pelos clubes, conforme o Profut, a cada uma das 12 primeiras parcelas a serem pagas após o encerramento do período de calamidade pública; (iii) a inclusão dos tributos não recolhidos nos períodos de calamidade e de 180 dias posteriores, no parcelamento ordinário do Profut; (iv) a reabertura de prazo para novo requerimento de parcelamento do Profut até 180 dias do encerramento da vigência da calamidade pública; (v) a suspensão dos efeitos do art. 31 da Lei Pelé - ou seja, rescisão de contrato especial de trabalho desportivo decorrente de determinados inadimplementos - caso sejam inadimplidos os recolhimentos de FGTS e contribuições previdenciárias vinculados aos salários de atletas profissionais durante a vigência da calamidade pública e nos 180 dias subsequentes; (vi) a redução, em 50%, do piso da cláusula compensatória desportiva, devida pelo clube ao atleta profissional - cuja base atual é o valor total de salários mensais a que teria direito o atleta até o término do seu contrato -, aplicável, inclusive, a contratos em vigor; e (vii) o pagamento parcelado da cláusula compensatória desportiva pelo prazo em que o contrato rescindido estaria vigente. Mais do mesmo, sem qualquer novidade, de fato, à conta do Estado, do contribuinte e, desta vez, dos atletas profissionais. Espera-se, enfim, que o Poder Legislativo saiba, neste momento de agonia social, conter movimentos oportunistas, sagazmente empacotados como meras carências, pois a única solução viável consiste num modelo reformador - e, portanto (sem qualquer conotação política), novo e inovador. __________ 1 V., a propósito, do autor: Presidencialismo de coalização: Raízes e evolução do modelo político brasileiro. Companhia das Letras, 2018.
quarta-feira, 22 de abril de 2020

Sobre remédios, médicos, futebol e política

Determinado paciente, acometido por moléstia grave, recusa os remédios prescritos por seu médico e, abusando do seu poder de persuasão, negocia a aplicação de substâncias paliativas, incapazes de atacar a causa da doença. O médico cede e aplica doses esporádicas do produto, que ele não prescreveu e sabe que será ineficaz. A aplicação resolve, assim, os efeitos da doença por curtos períodos, mas não ataca o motivo. Oferece, pois, uma sensação efêmera de conforto, que arrefece com o tempo, enquanto a causa, que fora apenas abafada pela droga, se alastra. Ao cabo do prazo de ação da substância, o problema se revela mais agudo. Para evitar a dor - e esconder, novamente, a moléstia - o médico sugere nova dose. A dependência da rotina alonga os anos de vida do paciente, mas não melhora o sofrimento e não reverte a debilidade orgânica. Ao longo do mórbido processo, o doente contrai outra doença, causada por vírus, a qual pode ser fatal. O médico tem que tomar decisões rápidas. Se ignorar a nova enfermidade, não terá paciente para cuidar; ele não resistirá. Porém, se exagerar na formulação das soluções imediatas, a moléstia principal criará formas de resistência e as medicinas disponíveis serão insuficientes para enfrentá-la. Apesar da mudança de cenário, abalado por elemento exógeno - o vírus -, o doente tenta se impor novamente sobre o seu médico e determinar-lhe as condutas apropriadas para situação, imputando-lhe, ademais, os ônus e as responsabilidades pelo procedimento e pelo resultado. Constrangido pela sua subserviência histórica, o médico ensaia uma conduta científica; o molestado ameaça insurgir-se. A insurgência poderá matá-lo. Mesmo assim o tom ameaçador se amplifica. O médico, então, tem dois caminhos a seguir: a manutenção do percurso anterior, que lhe manterá refém da chantagem emocional - e que poderá abalar sua reputação; ou o desvio de rota, que implicará o encaminhamento conforme seus conhecimentos técnicos e sua responsabilidade - ou consciência - profissional. Guardadas as devidas diferenças, esse é o panorama do futebol brasileiro. Trata-se de atividade relevantíssima, renegada, historicamente, pelos governantes, que a ela se associam, em momentos especiais, para fins também específicos ou eleitoreiros, e que está doente - muito doente. Como envolve, porém, a paixão popular, não pode perecer. A solução para esse "filho problemático" se repete no tempo: a injeção de recursos, diretos ou indiretos, que amenizam, enquanto duram, as cobranças ou mesmo evitam a convivência. Ou seja: as soluções meramente paliativas, propostas até hoje, resolvem apenas os sintomas do momento, mas nunca atacam a causa, que se torna mais complexa (ou irreversível), de modo que as intervenções subsequentes passam a demandar ajudas mais onerosas e doloridas. A sociedade brasileira paga, há mais de século, essa conta. A insistência com o doente tem justificativa, porém: o futebol é a mais intensa e importante manifestação cultural do país e o mais valioso patrimônio coletivo. Não pode mesmo morrer. Terá o doente (por meio dos seus dirigentes, no caso do futebol), agora, capacidade para reconhecer os equívocos dos tratamentos anteriores e delegar ao médico o encaminhamento dos procedimentos e medicamentos necessários para, além da enfermidade inesperada, resolver o quadro crônico? Pelo que se lê na imprensa, parece que não. Novamente, ao doente, ou melhor, aos doentes sugerem-se soluções imediatas, algumas quase fantasiosas - como a antecipação de receitas de loteria, as quais, além de inexpressivas, estão, por ora, comprometidas -, ou outras de legalidade questionável, como o acesso (ou a expropriação) ao patrimônio de entidades privadas (no caso, a CBF). Medidas imediatas e emergenciais - tem-se repetido nessa coluna - não podem ser descartadas, nesse momento de pandemia; mas a sociedade não pode mais aceitar o ônus da fatura permanente. A partir de agora, a solução deve ser também estrutural e conduzida pelo médico. E o médico, neste caso, é o Poder Legislativo. Em outras palavras, como bem diz José Luiz Portella, o encaminhamento da cura definitiva tem natureza política - e não cartolarial (a parte final da frase é por conta do autor, e não do ilustre citado). Feliz ou infelizmente, o desafio, que não é pequeno, nem simples, caiu no colo da atual legislatura. Seus líderes - presidentes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre - e em especial os congressistas que têm se preocupado com o problema e produziram propostas sobre o tema - nomeadamente, deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ) e senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG) -, saberão superar obstáculos que se pronunciaram no passado recente para, enfim, convergir em relação a um encaminhamento salvador, de amplitude estrutural e nacional, para o futebol brasileiro. Aliás, democratas e republicanos que são, não se esquecerão do magnífico pronunciamento de Thomas Jefferson, ao assumir a presidência dos Estados Unidos da América, em 1801, no sentido de aproximar-se das ideias de Alexander Hamilton: "toda diferença de opinião não é uma diferença de princípio"1. A adequada ação não pode tardar; o futebol não aguantará. O povo brasileiro, por outro lado, agradecerá a atuação patriótica. __________ 1 Greenspan, Alan; Wooldridge, Adrian. Capitalismo na América: uma história; trad. de Catharina Pinheiro, revisão técnica de Ricardo Doninelli - 1a ed. - Rio de Janeiro: Record, 2020, p. 74.
Texto de autoria de Rodrigo R. Monteiro de Castro e José Francisco C. Manssur Em mais um belo filme protagonizado por Ricardo Darin - que nele vem a ser um medíocre jogador de futebol aposentado, cujo grande feito fora um gol, no final de determinada partida, sobre o (glorioso) Chacarita Juniors -, um grupo de cidadãos comuns, formado, em sua maioria, por trabalhadores que amealharam alguns punhados de dólares durante toda a vida (os giles), reúne-se para, somando suas economias a doação de uma empresaria entristecida, tentar adquirir silos abandonados e, a partir deles, desenvolver uma cooperativa. O sonho e, num primeiro momento, frustrado pelo golpe empregado por um banqueiro (ou bancário) e um advogado, que se aproveitam do acesso a informações sigilosas para convencer o personagem de Ricardo Darin a depositar os recursos do grupo em uma instituição financeira no dia antecedente ao bloqueio de saques que seria imposto pelo Governo argentino. Após um relativamente longo período de incredulidade e estupefação, os giles - expressão traduzida ao português como tontos - descobrem, no entanto, serem capazes de ações e realizações impensáveis para pessoas que, independentemente do nível de instrução, costumavam se submeter aos comandos centrais, mesmo que dissociados das necessidades das gentes. O torcedor brasileiro vive, há décadas, a sua odisseia de tontice, sem que chegue perto de insurgir-se contra os poucos oportunistas que se apropriaram do futebol, patrimônio nacional. A apropriação, aliás, transmite-se, historicamente, dentro de grupos herméticos, mesmo que opositores no ambiente associativo, mas que se sustentam, uns aos outros, com a leniência do Estado. Sim, a situação do futebol brasileiro também decorre de uma sucessão de políticas públicas equivocadas, comissivas ou omissivas, e, em (quase) todas elas, prevalece a parceria entre o público e o privado, na preservação do modelo associativo, originado no século retrasado. O maior erro, dentre todas as concepções, talvez tenha sido cometido por uma assembleia que teve em sua composição alguns notáveis, a Constituinte, que forjou o art. 217 da Constituição Federal de 1988, fundamento para prática de abusos que são cometidos desde a promulgação do atual texto constitucional. Com efeito, a defesa da autonomia das entidades desportivas dirigentes e associativas, quanto a sua organização e ao seu funcionamento, vem sendo utilizada como barreira a implementação de reformas que ameacem o status quo, mas, por outro lado, não evita as recorrentes demandas de salvamento estatal as custas da sociedade e do contribuinte, sem as devidas contrapartidas. A justificativa para a evidente contradição costuma ser a mesma: a suposta preocupação com o torcedor, um contingente de aproximadamente 140 milhões de pessoas, e sua paixão; justamente com o torcedor, integrante do grupo de interesse mais prejudicado e menos beneficiado pelo sistema cartolarial. Antes da covid-19, a crise futebolística já estava posta, e já se formava consenso - exceto entre os beneficiários daquele sistema - a respeito da inviabilidade do modelo brasileiro. Havia, sim, justificados debates e divergências, em relação a estrutura substitutiva, mas não se negava que a arquitetura de um novo marco jurídico era condição para (i) a introdução de formas contemporâneas de governação da atividade, ou melhor, da empresa futebolística, (ii) a captação de recursos com investidores privados nacionais ou estrangeiros e, assim, (iii) a superação da crise sistêmica. Não se pode negar que, agora, a situação mudou, para muito pior, e que, como ensina a história, não haverá saída, não apenas para o futebol, mas também para vários outros setores da economia, sem uma enérgica participação do Estado. A diferença, no entanto, entre outras atividades e a futebolística, reside no fato de que a pandemia não causou a crise do futebol, que já era patente, mas a intensificou - e provavelmente a terá alçado a níveis sem precedentes. Daí a conclusão de que quaisquer movimentos emergenciais devem, em respeito ao torcedor e ao contribuinte brasileiros, levar em conta o histórico do setor e ser atrelados a mudanças estruturais, que evitem o continuísmo do modelo associativo que sangra o País. O enfrentamento da situação não será simples e exigira, além de criatividade, idealismo dos agentes públicos, para evitar a sucumbência a apelos interessados, que se transformarão em plataformas políticas - ou politiqueiras; mas o esforço será louvável: o futebol faz parte da cultura brasileira e somente não ocupa papel mais relevante na economia e na contribuição para redução do abismo social por conta das erráticas políticas que se instituíram após a promulgação da Constituição Federal de 1988. Assim, no âmbito da crise que assola o planeta, a participação do Estado na arquitetura de uma solução está mais do que justificada, desde que não se resuma a conferir mais dinheiro público, por via direta ou indireta, para manutenção de um sistema indesejável (e inviável), mantido sobre os pilares (i) da irresponsabilidade, (ii) do não recolhimento de obrigações tributárias e da (iii) falta de transparência. Nesse sentido, movimentos que envolvam (i) um novo profut, (ii) a revisão do profut existente, para permitir o reenquadramento de desenquadrados, a adesão de novos participantes, o dilatamento de prazos ou o diferimento de obrigações pecuniárias, ou ainda (iii) linhas de crédito subsidiadas, de instituição de fomento, como o BNDES - dentre outros mecanismos possíveis -, não deveriam ser implementados sem as necessárias afetação e contribuição dos agentes responsáveis pela origem do problema, e, como já repetido de modo exaustivo, sem a imposição de reformas estruturais, que contemplem a mudança do modelo de propriedade do futebol e a introdução de novo sistema de governação - dentre outros aspectos -, que estão no Senado a espera de um necessário e rápido movimento de convergência. A conclusão do processo legislativo - que depende de pequeno esforço político - deveria ser a condição necessária para que o torcedor e o povo brasileiro não se insurgissem contra nova malversação (e desperdício) de recursos públicos.
Texto de autoria de Savério Orlandi A sociedade experimenta angustiada o ineditismo de uma situação onde se encontra com protagonismo no desenrolar de uma página dentro da história da humanidade, para a qual a responsabilidade de cada um de nós se traduz em fazer a sua parte e somar esforços, pois não há espaço para divisão, caracterizada por qualquer diferença, que possa ser conjugada em circunstâncias como as atuais. O mundo em compasso enfrenta aturdido a crise diante de um cenário que põe todos no mesmo barco, tornando os entes civis ao mesmo tempo credores e devedores de direitos e obrigações. O abalo no negócio dos esportes será da ordem de U$ 15 bilhões, segundo estudo da Sports Value, sendo certo que o futebol, levado à reboque ao encontro de tempos mais do que difíceis, se verá confrontado por problemas de diversas ordens, urgência no reposicionamento de médio e longo prazo em face da nova realidade inimaginável e de consequências ainda incalculáveis, e também sugerindo, ainda que supletivamente, a identificação de algumas oportunidades. Enfim, o momento reclama muita sabedoria. Nenhuma demanda ordinária do mal estruturado futebol brasileiro tem lugar nesse momento. Não há nada de "dantes" que importe agora. Os debates sobre o calendário, a adoção do "fair play" financeiro, modelos para clubes empresa, ficam temporariamente sobrestados em face dos desafios prementes, afinal, muitas questões mediatas, das mais variadas espécies recorrentes no dia a dia dos cubes, hão de ser solvidas. Os clubes que dispõem de equipamentos e atividades sociais, tem por um lado a necessidade de considerar o seu custeio, contudo, não se esquecendo do impedimento quanto à fruição plena pelos seus membros associados, o que poderia garantir a possibilidade de adesão a diferimentos de contribuições sociais com alguma carência, além de forma e data para retomada dos pagamentos razoavelmente determinada, pensando ainda em eventual redução para todos os associados por breve hiato temporal, aderentes ou não, para compensar a suspensão do uso. Programas de "sócio torcedor" dos clubes podem ser até um fator de reação, as coletividades em geral, se convocadas, buscarão como sempre meios para responder, devendo para tanto serem contemplados diferimentos e benefícios, seja na manutenção como na adesão dentro de um período futuro a ser estipulado; pela via oblíqua, cria-se a oportunidade para o incremento ou resgate de programas repaginados que possam se revelar, na prática, em verdadeiro "jogo de ganha-ganha", sentido existencial dessa natureza de relacionamento. Questão complexa envolverá a afluência do torcedor, seja quanto ao consumo de produtos dos clubes que será diretamente impactado, como especialmente no tocante a situações derivadas da diminuição de bilheteria e a forma da futura precificação adotada no retorno, que devem ser previamente imaginadas pelos gestores considerados os dados objetivos já existentes como a evidente redução do número de jogos e a evasão de presença como consequência de questões econômicas e preventivas relacionadas à saúde, e também quanto às variáveis, entre elas a eventual originação, ainda que transitória, de um novo meio social que imponha, por exemplo, a limitação do número de espectadores por partida e, via de consequência, do público pagante. Um aspecto que notadamente afetará de modo negativo os clubes de futebol serão os contratos em geral derivados dos relacionamentos "comerciais" em sentido amplo, neles incluídos os seus patrocinadores, a televisão, as competições, entre outros... as relações no Brasil, em sua quase totalidade, são muito verticais, deixando pouca margem de manobra, devendo se priorizar as negociações em bloco perante os entes federativos e os detentores dos direitos de transmissão, tratando-se em separado os ajustes individuais com os respectivos patrocinadores, a quem se recomenda aos dirigentes deles pleitear a sempre manifestada condição de "parceiro do clube". Naquilo que se relaciona às obrigações fiscais e trabalhistas em geral, como nem poderia ser diferente, os administradores e suas assessorias certamente hão de se valer dos atos normativos que vem sendo (e ainda serão) publicados em profusão, destinados às várias regulamentações necessárias para ultrapassar um quase estado de exceção, excluindo-se aqui, a título sugestivo, os "contratos especiais de trabalho" dos jogadores profissionais de futebol. Efetivamente, trata-se de um tema bastante espinhoso, a uma porque os encargos com o elenco compõem a principal rubrica de despesa dos clubes e, a duas, pela sensibilidade necessária para construir um entendimento com os jogadores sem ferir direitos e/ou suscetibilidades entre as partes... ouve-se, isoladamente e a distância, a alegada disponibilidade do atleta, que entende estar apto à entrega da sua parte, impedido porém pelas circunstâncias; ora, será esse conceito absoluto ou deve (e pode) ser relativizado? Apresenta-se neste aspecto, a ideia que sim, o que permitiria, dando legitimidade, as reduções de vencimentos por determinado lapso temporal. Como já temos visto em casos análogos ao redor do mundo e em alguns por aqui, não aparenta qualquer desacerto se tentar trilhar consensualmente esse caminho até o alcance de acordo coletivo validado, sendo imperioso às duas partes da relação contratual, neste momento, ter a convicção de que a redução configura solução justa, oportuna e adequada à hipótese. Contratos, em sua essência, materializam a parte instrumental de uma operação econômica servindo-lhe como veículo, e justamente por externar seu conteúdo, se baseiam em sua origem no equilíbrio das prestações que através deles são e serão devidas, bem como na previsão das margens de ganho e perda para cada qual dos contratantes. Assim, o equilíbrio contratual pode ser rompido pela frustação da previsão inicial tornando uma prestação de obrigação, no momento da execução, flagrantemente mais gravosa do que era no momento em que surgiu, o que academicamente se denomina "onerosidade excessiva", desde que por consequência de fato superveniente à formação do contrato, de caráter extraordinário e imprevisível à conjugação das partes no momento em que se deu a contratação, evidenciando o fato que a doutrina caracteriza como teoria da imprevisão, vale dizer, exatamente a "curva" em que tais contratos se encontram hoje. Nesta condições, revestidos de legitimidade técnica e moral que permitem confortável modo de aplicação, pode então ser idealizados os modelos para redução, por exemplo, "fechada" para os clubes onde não exista grandes distorções salariais, ou então não lineares para os clubes onde se verifique tal disparidade, casos em que uma opção razoável poderia ser a elevação gradual dos percentuais com observância da capacidade contributiva de cada atleta, de forma crescente e escalonada em relação aos valores dos seus vencimentos. Existem as alternativas, ainda que sobrem as contingências; o quadro requer massa pensante, exigindo das diretorias serenidade, inteligência e adoção coordenada de muitas providências. Que tenham coragem, tenacidade e um pouco de sorte... E, ao final, que tenham sucesso! Savério Orlandi é advogado militante em SP, sócio filiado e consultor jurídico da ABEX (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol), membro vitalício do Conselho Deliberativo, membro efetivo do Conselho de Orientação e Fiscalização e ex-diretor de Futebol Profissional 07/10 da Sociedade Esportiva Palmeiras, pós graduado em Direito Empresarial pela PUC/SP, onde também se graduou.
Texto de autoria de Rodrigo R. Monteiro de Castro e José Francisco C. Manssur A Confederação Brasileira de Futebol - CBF, de acordo com o seu estatuto social, é uma associação de direito privado, de caráter desportivo, com organização e funcionamento autônomos, e tem personalidade jurídica e patrimônio próprios. Ela é filiada à Fédération Internationale de Football Association - FIFA e à Confederación Sudamericana de Fútbol - CONMEBOL e, em decorrência dessas afiliações, é a única entidade autorizada a dirigir e controlar o futebol no território brasileiro. Ela detém, portanto, o monopólio organizacional do futebol. No âmbito de sua atuação monopolista, compete-lhe, dentre outras atribuições, previstas no estatuto, (i) dirigir, organizar e ordenar, no território brasileiro, todos os assuntos e questões relacionados com o futebol, de forma independente, prevenindo quaisquer ingerências políticas ou de terceiros, (ii) aperfeiçoar constantemente o futebol e promovê-lo em todo o território nacional, (iii) elaborar marcos regulatórios destinados a disciplinar e regulamentar o futebol e garantir sua aplicação, (iv) controlar todos os tipos de prática formal do futebol, adotando todas as medidas adequadas para evitar a violação do seu estatuto, assim como das regras do jogo, (v) organizar o calendário anual de eventos e competições oficiais do futebol brasileiro e (vi) decidir, com exclusividade, sobre a organização, promoção, regulamentação, qualificação de acesso, operação e quaisquer atividades relacionadas às competições interestaduais, regionais ou nacionais de futebol, sejam oficiais ou amistosas empreendidas pelas entidades estaduais de administração, de prática do futebol ou pelas ligas, porventura reconhecidas, estabelecendo diretrizes, critérios, condições e limites, sem prejuízo de manter a privatividade de autorização para que tais entes desportivos possam participar de competições de caráter internacional, sendo esta atribuição intransferível, em parte ou na totalidade. Do ponto de vista prático, a CBF se ocupa, sobretudo, de dois grandes grupos de atividades (ou produtos): uma que envolve a seleção nacional e, outra, os campeonatos e copas locais. Ela também se ocupa, evidentemente, de sua organização interna e de sua saúde financeira. Em relação a essa organização, não se pode negar que a entidade vem sendo eficiente e bem-sucedida. Vejam-se alguns números, extraídos das demonstrações financeiras relativas ao exercício de 2018, aprovadas em 2019 - não se adotam as de 2019 porque ainda não estão disponíveis sem seu sítio eletrônico -, que a enquadrariam, se adotasse a forma societária, no conceito de empresa de grande porte, nos termos da lei 11.638, de 28 de dezembro de 2007. Em 31 dezembro ela dispunha em caixa (ou em equivalentes de caixa) do montante de R$ 516 milhões, os quais, somados a outras contas, alcançavam a cifra de ativos circulantes da ordem de R$ 616 milhões. Naquele ano, a CBF registrou uma receita bruta em torno de R$ 616 milhões e um resultado (ou lucro) antes da apuração de impostos de R$ 96 milhões1. A importância da análise de seus números não para por aí. Suas principais receitas advêm de patrocínios, direitos de transmissão e comerciais, e bilheteria e premiação das seleções. Por outro lado, seus maiores custos estão alocados na conta de contribuição ao fomento do futebol nos estados e competições (R$ 178 milhões). Ou seja, para CBF, a seleção é um bom negócio - e justifica a sua riqueza - enquanto os campeonatos, além de não contribuírem de modo significativo à composição de sua receita, afeta o seu resultado. Por outro lado, é notório o fato de que a situação dos clubes brasileiros, em sua grande maioria, é dramática - e o drama se intensificará por conta da pandemia do coronavirus. Ao final de 2018, a dívida do Botafogo, o mais endividado, era de R$ 672 milhões e a do Grêmio, o 10º mais endividado, de R$ 429 milhões. Assumindo-se que a CBF não poupa recursos para viabilizar um de seus próprios produtos - o futebol nos estados e as competições -, com o dispêndio anual de milhões de reais, e mesmo assim não consegue contribuir para reversão da crise sistêmica, talvez se chegue à conclusão de que o problema seja do modelo e, consequentemente, de que o modelo deva ser repensado (ou reestruturado). O (re)pensamento envolve, aliás, uma oportunidade histórica de construção de uma estrutura jurídico-financeira, envolvendo a segregação das atividades principais, com a retenção de todos os temas relacionados às seleções e a disposição dos campeonatos, a ser pilotada pela própria CBF - afinal, se ela não quiser, não haverá solução sem ruptura -, que contribuísse para geração de riqueza patrimonial aos times e para formação de um modelo de futebol espelhado nos bem-sucedidos exemplares europeus. A crise está aí e talvez sirva, quiçá, para que se pavimente o caminho para superação das dificuldades que cairão sobre todos. __________ 1 Em notícia disponibilizada em seu sítio eletrônico, a CBF indica que obteve, em 2019, receita total de R$ 957 milhões e superávit no exercício de R$ 190 milhões.
Deveria ter ocorrido em Brasília, no dia 19 de março, um importante debate idealizado pela OAB, a respeito do novo marco regulatório do futebol. Pretendia-se apresentar os dois modelos que tramitam no Congresso Nacional, um proveniente da Câmara dos Deputados, relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e outro do Senado, de autoria do senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG). O evento teria sido utilíssimo para definição do caminho legislativo que se ofereceria à organização e ao manejo do futebol no Brasil. Desde o anúncio do debate, divulgado pela OAB, até o seu cancelamento, motivado pela crise do Covid 19 - e sobretudo até o dia de hoje -, muita coisa mudou, não apenas no plano local, como internacional também. O que se debateria há uma semana - assim como o que vinha sendo debatido, desde 2016, com a apresentação do PL 5.082/16, de autoria do então deputado Federal Otavio Leite, na Câmara dos Deputados -, deve ser ajustado às inevitáveis consequências que abalarão- ou melhor, já abalam - os agentes que integram o sistema futebolístico. Mais do que isso: é fundamental que se crie uma ampla frente de apoio e ajuda ao futebol brasileiro, com o propósito de oferecer-lhe instrumentos para superar o agravamento de uma situação que já beirava a insustentabilidade. O Congresso Nacional, nessa frente, deve, a partir de agora, assumir o protagonismo. Do ponto de vista legislativo, a proposta do deputado Federal Pedro Paulo fora construída sobre três pilares: (i) a criação de condições especiais para quitação acelerada de débitos e para parcelamento especial de dívidas de clubes perante a União; (ii) a recuperação judicial; e (iii) o regime de centralização das execuções no âmbito da Justiça do Trabalho. O aproveitamento do tripé dependeria da adoção, pelo clube, de alguma forma societária, prevista na legislação (sociedade anônima, comandita em ações, limitada etc.). Ademais, à empresa (ou ao clube-empresa, conforme nomenclatura do projeto) se ofereceria um regime especial permanente de tributação, que previa o pagamento unificado de 5% da receita mensal, correspondente a determinados tributos federais (IRPJ, CSLL, COFINS, PIS/Pasep). O projeto de autoria do senador Rodrigo Pacheco foi por outro caminho, propondo a criação de um novo sistema - ou uma nova ordem - no futebol, arquitetado sobre quatro pilares: (i) a introdução de um tipo societário especial, a sociedade anônima do futebol (SAF); (ii) a previsão de um modelo de governança e de técnicas de controle e publicidade dos atos da SAF e de seus administradores; (iii) a criação de instrumentos específicos para o financiamento da atividade futebolística, como a debênture-fut; e (iv) o programa de desenvolvimento da educação por meio do futebol. A SAF conviveria com as outras formas societárias previstas na legislação, mas a sua adoção seria condição para aproveitamento dos elementos integrantes do sistema que se criaria. Dentro desse sistema, aliás, também se contempla um regime tributário, de natureza transitória, que autoriza a SAF, durante determinado período, a promover o recolhimento unificado de 5% da receita mensal, correspondente a determinados tributos federais. Apesar de intersecções, os projetos tinham - ou ainda têm - propósitos distintos (os quais foram amplamente expostos), construídos, no entanto, a partir de situações e de premissas que foram radicalmente modificadas - para pior. As modificações indicam que o futebol brasileiro precisará de ajuda, que os clubes precisarão de ajuda, que os atletas precisarão de ajuda e que os demais agentes que vivem do futebol precisarão de ajuda - como, aliás, a sociedade brasileira precisará de ajuda. Neste momento de crise agudíssima, emerge a importância, ou melhor, a imprescindibilidade do Estado, como agente executor de medidas necessárias à preservação das bases da sociedade, à preservação de direitos sociais e individuais, à estimulação da economia e à fixação de políticas públicas que nortearão os caminhos a serem trilhados nos próximos anos. É disso, pois, que o futebol passou a necessitar como nunca em mais de um século de prática neste país: do reconhecimento de que se trata de um tema fundamental ao (e do) seu povo, com enorme potencial social, educacional e econômico, e da determinação de uma política pública que enfrente os problemas imediatos, amplificados pela epidemia do Covid-19, bem como dos mediatos, que permitirão a formação de um novo ambiente, sustentável, transparente e eficiente. Assim, dentro de uma ampla frente de apoio e ajuda ao futebol, que deveria envolver a CBF, os clubes, os jogadores, os patrocinadores, a televisão e outros meios de comunicação etc., o Congresso Nacional também tem, agora, uma missão fundamental - e histórica - nas mãos, sobretudo, dos Presidentes de suas Casas, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, e de duas novas lideranças, o Senador Rodrigo Pacheco e o Deputado Federal Pedro Paulo. A convergência, pelas características dos projetos em tramitação, deveria viabilizar a fixação do marco regulatório adequado para enfrentamento da crise sistêmica e para construção do novo ambiente do futebol brasileiro.
Texto de autoria de José Francisco Cimino Manssur Não há, no momento, outro tema de maior relevância do que a pandemia causada pelo Convid 19. A disseminação do vírus e a possibilidade de contágio sem restrição territorial ou de qualquer outra natureza coloca à prova nossa evolução enquanto Humanidade. Estão sendo, e ainda serão, colocadas à prova diversas características que diferenciam mulheres e homens das outras espécies existentes no planeta. Nossa capacidade cognitiva para recebermos, absorvermos em seu real sentido e transmitirmos de forma correta aos demais as informações verdadeiras e necessárias para a criação de uma rede global de ações para o combate à pandemia, além da capacidade do ser humano de se sensibilizar e ajudar aquele em maiores dificuldades, não abandonando o próximo "pelo caminho", são valências que foram utilizadas pela espécie humana para crescer e multiplicar-se ao longo dos tempos, assumindo a condição de animal dominante dentre todas as formas de vida na Terra. Serão tais características que, utilizadas na proporção que a crise exige, nos farão superar o momento e retomar o curso normal do nosso desenvolvimento. Roguemos para que tais qualidades estejam sempre e mais presentes em todos e cada um de nós. O esporte é fator de congregação universal em torno de valores positivos que corroboram elementos de desenvolvimento da Humanidade. E, como diversas e tantas outras atividades, o esporte também teve de se adaptar diante dos reais e seríssimos riscos de contágio pelo Convid 19. Eventos esportivos, tais como: os maiores torneios de futebol do mundo, a Liga Norte-Americana de Basquete - NBA, o Mundial de Fórumla 1, as competições esportivas estaduais e nacionais de praticamente todas as modalidades praticadas no Brasil e o circuito ATP de tênis, entre tantos outros, estão suspensos sine die. Mesmo a Olimpíada 2020 em Tóquio corre o risco de ser adiada ou cancelada. A suspensão dos eventos esportivos visando evitar o aumento do contágio em face da aglomeração e contato inapropriado (nesse momento) entre pessoas, é sem dúvida medida acertada, recomendada pelas autoridades especializadas nas questões de saúde e, como tal, sequer enseja maiores dúvidas ou discussões dentre aqueles que, como já dito, têm capacidade de realizar as sinapses nervosas que originam a capacidade cognitiva, mesmo que em nível mínimo. Seja como for, pandemia é um fato que gera repercussão nas relações jurídicas, como sói acontecer, dentre as quais aquelas que decorrem das práticas esportivas. A suspensão das atividades esportivas em face da proliferação do Convid 19, ao nosso ver, caracteriza, em tese e em termos gerais, hipótese de caso fortuito ou força maior1, previsto em suas causas e consequências em diversos ramos do Direito, como no caso, no Código Civil, no Direito do Trabalho e no Direito do Consumidor. As competições esportivas realizadas no Brasil definem em seus regulamentos as datas de início e fim, as fórmulas de disputa, equipes participantes e diversas outras regras. A publicidade e cumprimento dos regulamentos das competições esportivas atende às disposições contidas na lei 10.671/03 ("Estatuto do Torcedor"). Já no momento em que é determinada a proibição da presença de público nas arenas das competições esportivas, há descumprimento de norma regulamentar (se houver) sobre esse tema. No caso específico, não se pode negar que tal descumprimento deriva de fato impossível de prever e com repercussões relevantes - caso fortuito ou força maior - que justificaria a inexistência de ilicitude em tais práticas. Mudanças na fórmula das competições, especialmente nos critérios de classificação para uma ou outra etapa ou mesmo definição de campeões e rebaixados também encontrariam justificativa legal diante da mais absoluta excepcionalidade da situação verificada. Porém, as mudanças regulamentares deverão sempre estar calcadas na medida do elemento fundamental da razoabilidade. Devem estar estritamente justificadas pelas limitações decorrentes da pandemia e afastadas de motivações subjetivas ou subalternas. Para ilustrar: uma equipe que estava em 15º lugar em determinada competição não deve, sem justificativa objetiva e razoável atinente ao momento excepcional, ser declarada campeã, sendo que para tal decisão não haveria qualquer nexo causal em face da crise de saúde. O parâmetro da razoabilidade e os critérios objetivos certamente serão examinados em caso de eventuais questionamentos acerca das mudanças regulamentares propostas. O que hoje não é prioridade que motivaria a maioria das pessoas em realizar questionamentos, pode se transformar em diversas ações judiciais no futuro, quando a vida retomar seu curso normal. É preciso estar atento para evitar abusos e justificar condenações judiciais. Ao mesmo tempo, haverá as limitações de calendário no momento em que tais competições puderem, cedo ou tarde, serem retomadas. O primeiro aspecto a ser abordado diz respeito à tomada de decisão sobre mudar a fórmula de determinada competição a fim de possibilitar seu encerramento em tempo hábil, observados critérios esportivos de definição de vencedores e vencidos, ou a decisão pela alternativa do simples cancelamento definitivo de competições que já estiverem em curso no momento da sua suspensão. Ao passo que a primeira medida, nos parece, pode ser realizada desde que observada a razoabilidade e a objetividade mencionadas acima, o cancelamento de competições em curso para privilegiar a realização de outras que sequer começaram deve ser visto com muita cautela pelos organizadores dos eventos esportivos, sob pena do risco de grave exposição jurídica. É de se observar que, para as competições em curso, o torcedor-consumidor que pagou ingresso ou adquiriu, nas mais diversas plataformas, a possibilidade de assistir aos eventos do campeonato adquiri, como sucedâneo, o direito de ver a conclusão do campeonato, com a definição da classificação dos participantes. Relação esta que, na maioria dos casos, não está caracterizada para as competições que sequer se iniciaram. Os cancelamentos de competições em curso, certamente, podem ocorrer, mas devem ser vistos como medida extrema justificada de forma inequívoca diante de eventuais desdobramentos da pandemia, o que todos esperamos que não ocorra em tal nível de gravidade. A simples opção por iniciar competições novas em detrimento daquelas que foram suspensas quando em curso nos parece arriscada, mesmo que possa ser justificada caso a caso. Ainda sob a questão da adaptação das competições suspensas ao calendário, há ainda a gravíssima questão relacionada com os impactos nos contratos entre atletas e demais profissionais e as entidades de prática desportiva. Há, nas mais diferentes modalidades, casos em que os atletas têm a duração de seus contratos vinculada com a data de término das competições previstas no calendário da modalidade. Com o adiamento do final das competições para data posterior, equipes e atletas ficarão a descoberto com relação ao término dos contratos. E mesmo na hipótese de prorrogação, haverá equipes com graves problemas orçamentários para arcar com a prorrogação da remuneração para além do que fora inicialmente convencionado. Esse tema, complexo e amplo - mais complexo e mais amplo que o espaço que a ainda disponho para concluir esse texto - deixo para o exame de outro colega, nesse espaço ou em outro, para que desenvolva e proponha as soluções, certamente com muito maior capacidade do que eu teria para tratar de temas atinentes às relações trabalhistas. Ps: Enquanto escrevo esse texto, na tarde de 17 de março de 2020, recebo a notícia de que as competições de basquete na Ásia estão, aos poucos, sendo retomadas. Uma notícia do esporte que revela uma ponta de esperança e otimismo para todos de que, exercitando em sua plenitude nos valores humanos, poderemos, mais cedo ou mais tarde, tratar o Convid 19 como um fato marcante de nossa História, lembrando e lamentando o sofrimento daqueles que foram afetados e absorvendo as lições que a grave crise nos deixará. __________ 1 Nesse caso, para fins de desenvolvimento deste texto vamos adotar a conclusão da corrente doutrinária que não diferencia caso fortuito de força maior, aplicando a ambos a condição de sinônimos atribuíveis dos mesmos efeitos jurídicos.
quarta-feira, 11 de março de 2020

Futechanchada paraguaia

A enrascada em que Ronaldinho Gaúcho se meteu talvez venha a ser esclarecida; ou não. Qualquer que seja o desfecho, no entanto, marcas indeléveis serão deixadas nele, no seu entorno e no país. Afinal, ele é, oficialmente, um embaixador do turismo e, pelo que fez em campo - conforme opinião de Tostão, trata-se do jogador que mais se aproximou de Pelé -, um herói do mítico futebol brasileiro. Neymar, outro jogador que já cravou seu nome na história, protagoniza e coleciona polêmicas que abalam sua postulação a príncipe do futebol. Aliás, o padrão errático de conduta contribui para formação de uma imagem antipática e despreocupada com a sua posição de embaixador natural do futebol brasileiro e do país. Adriano abandonou seu posto de imperador, no auge da carreira - mas ainda longe, muito longe de seu fim -, e abraçou a vida que, provavelmente, a dura rotina de treinos o privara na juventude. Esses são apenas alguns exemplos de atletas que, apesar de seus problemas privados ou públicos, conseguiram - e conseguem -, por vias distintas, manter, de algum modo, a força de seus nomes. Todos eles poderiam - e no caso de Neymar, ainda pode - ser maiores do que foram - ou são. Há outros grupos de jogadores que, mesmo tendo alcançado a fama, inclusive internacional, sucumbiram às tentações que lhes surgiram e, com o esgotamento da capacidade de atuação profissional, não souberam preservar as conquistas acumuladas ao longo da carreira. Muller, o atacante que coleciona três títulos mundiais - dois pelo São Paulo e um pela seleção brasileira - e duas Libertadores, ilustra, infelizmente, essa situação, que se repete, com assustadora frequência, em todos os níveis do futebol. Aliás, episódio análogo foi narrado com melancólica poesia por Ugo Giorgetti, em seu fundamental Boleiros: lá, o personagem Paulinho Majestade, ex-jogador de destaque do Santos e, ao mesmo tempo, pródigo, chega ao final da carreira apenas com a sua dignidade, tendo perdido, para a vida, todas as conquistas materiais. Não se pode negar que há, na carreira, exemplos de pessoas que foram tão bem ou melhor sucedidas fora do que dentro de campo. Mesmo assim, e evitando-se o fácil subterfúgio da padronização, também não se pode negar que, ao contrário do que ocorre em outras carreiras, a demanda social, em relação ao nível educacional do esportista, em geral, é bem diferente - e reduzida. O problema é que, nesse setor de atividade, o versículo bíblico se encaixa como em nenhum outro, talvez: com efeito, muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos. Os renegados, em geral, não planejam situações alternativas; o futebol consiste na única solução. Os que persistem, por outro lado, justamente pelo direcionamento de todas as energias para único objetivo, são absorvidos pelo sistema e, daí, tornam-se, como regra, peças de um jogo em relação ao qual não têm condições - ou interesse - de resistir. O maior exemplo da passividade e da inércia da classe é o desfecho de um importante movimento de valorização da profissão, que se tornou página da história: o bom senso, idealizado e capitaneado pelo à época jogador Paulo André. Chega-se, assim, ao cerne da questão: o ambiente futebolístico, talvez mais do que os demais ambientes que compõem a tessitura social, carece de um programa educacional que, mais do que simples atletas, forme cidadãos; cidadãos que possam lidar com as decepções, sem dúvida, mas que também tenham preparo para enfrentar o sucesso. A ação, num país com as características e as desigualdades que possui o Brasil, não será motivada, definitivamente, pelos agentes privados - dentre eles os próprios clubes - os quais, aliás, se aproveitam, por um lado, da assimetria educacional e, de outro, tornaram-se reféns (e estimuladores) do sistema, geralmente em benefício próprio. Não cabe ao Estado, é importante frisar, interferir nas regras do jogo, tampouco atuar como financiador, por meio de subsídios, de uma atividade inegavelmente econômica. Mas lhe compete, sim, estabelecer políticas públicas, voltadas à formação e à educação de parcela relevante da população que, direta ou indiretamente, aposta todas as suas esperanças numa carreira ligada ao futebol. É isso, pois: o esporte, sobretudo o futebol, pode, com uma política adequada, transformar-se no catalisador das transformações sociais e econômicas de que o país precisa para firmar-se como Nação.