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Meio de campo

Textos sobre Direito Esportivo e mercado.

Rodrigo R. Monteiro de Castro
Em outubro de 2019, com pouco mais de oito meses no exercício de seu primeiro mandato como Senador da República, Rodrigo Pacheco (DEM/MG) apresentou o projeto que criava o novo Sistema do Futebol Brasileiro, "mediante tipificação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e previsão de um sistema tributário transitório". Composto por apenas dezesseis artigos, o projeto pretendia, em sua simplicidade estrutural, prover o instrumental necessário para transformação da atividade futebolística: de um passivo coletivo a uma via de desenvolvimento esportivo, social e econômico. Propunha-se, talvez pela primeira vez, um modelo legislativo que a um só tempo (i) rompia com a tradição secular de colocar o Estado a serviço do salvamento de clubes associativos - geridos para satisfazer interesses e planos de dirigentes irresponsáveis (especialmente nos sentidos jurídico e econômico do termo) - e (ii) criava meios para atrair financiadores (e investidores) para a empresa do futebol; e isso tudo sem ignorar a necessidade de preservação cultural do futebol brasileiro e de seus times.   A proposta foi bem recebida por agentes que, de algum modo, participam do sistema: imprensa, jogadores, dirigentes, reguladores, magistrados, possíveis investidores, dentre outros. Afinal, convivia-se, até então, com uma curva descendente que não indicava mudança de direção, mesmo dispondo-se, no Brasil, de todos os elementos para formação de uma estrutura comparável - ou superior - às estruturas dos principais países europeus. Apesar das perspectivas que se abriam, ainda havia um caminho a percorrer. Porém, a partir de abril de 2020, surgiu um obstáculo inesperado, de magnitude global: a pandemia. Com o Congresso focado em temas emergenciais, o debate a respeito do futebol voltou ao segundo (ou menor) plano - exceto quando tratado em medida provisória inesperada e oportunista (a despeito da relevância do mérito)1. E assim se encerrou o ano; mas com a notícia de que o autor do PL 5.516/19, o Senador Rodrigo Pacheco, poderia apresentar seu nome à disputa da presidência da Casa. A juventude e o pouco tempo a serviço do País, na função senatorial - pois antes já cumprira mandato de deputado federal -, não o impediram de ganhar a disputa. Aliás, ganhou o País, pois concebeu uma nova liderança, caracterizada pelo diálogo e pela defesa dos ideais democráticos. Ao tomar posse, reafirmou a relevância do futebol, não apenas como manifestação esportiva, mas como vetor de integração e de desenvolvimento, e o apontou como uma de suas prioridades. Escalou, para relatoria do seu projeto, o também jovem e recém-chegado Senador Carlos Portinho (PP-RJ), que acabara de assumir a posição em decorrência do óbito do titular do mandato, Senador Arolde de Oliveira, por complicações decorrentes do vírus causador da pandemia. O Relator conhecia - e conhece - o tema: além de advogado especializado em direito esportivo, fora Vice-Presidente Jurídico do Flamengo. Ao assumir o encargo, promoveu, no prazo de 45 dias úteis, 26 reuniões com a participação, conforme consta de seu Relatório2, de aproximadamente 1.650 pessoas. Além disso, deparou-se com 31 emendas, apresentadas por seus colegas senadores, com os mais diversos propósitos, tendo sido acatadas, parcial ou totalmente, 14 delas. Ao final, manifestou-se favoravelmente ao Projeto, com "alterações pontuais e inclusão de temas correlatos que, materializados na forma de Substitutivo (...), somarão para o ecossistema do ambiente de negócios do futebol".   Submetido, enfim, ao Plenário, o PL 5.516/19, de autoria do Senador Rodrigo Pacheco, foi aprovado, no dia 10 de junho, de forma unânime. No âmbito dos debates, o Senador Romário (PL-RJ) afirmou que se tratava de um marco na profissionalização e gestão do futebol. O Senador Álvaro Dias (Podemos-PR) sustentou que a era do amadorismo precisava acabar e que aquele dia - da aprovação - marcava uma data muito importante para o futebol brasileiro. E o Senador Jean Paul Prates (PT-RN) qualificou a iniciativa de "transformadora".3 Encaminhado à Câmara dos Deputados, aguarda-se, agora, que essa casa congressual renove o reconhecimento da relevância do conteúdo e dos impactos sociais e econômicos que o novo mercado do futebol trará ao País - como, aliás, já reconheceu, em 2019 -, e vote o Projeto com a celeridade que a dramática situação da maioria dos times brasileiros demanda.   __________ 1 Ou quando se aventava a possibilidade de convergência do PL 5.516/19 com o PL 5.082/16, conforme substitutivo apresentado pelo Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ) ao projeto original de autoria do Deputado Otavio Leite (PSDB/RJ). 2 Disponível aqui.  3 Disponível aqui.
quarta-feira, 9 de junho de 2021

Ópera e futebol

Num país em que se afirma que o livro - e, portanto, a leitura - são objeto e costume das elites, o que se dirá, então, da ópera (gênero artístico que, em sua estrutura moderna, criado na Itália renascentista, reúne música, teatralização, literatura, dança, história e mitologia). A percepção talvez tenha fundamento. Não porque, em sua essência, a ópera fora concebida com aquele propósito, mas pelo que se transformou. Flavia Furtado, diretora executiva do Festival Amazonas de Ópera, afirmou, em vídeo disponível no youtube1, que as apresentações operísticas, no seu auge criativo, atraiam pessoas de distintas classes sociais, algumas delas reunidas nas galerias, para as quais levavam sua alimentação e bebida para acompanhar horas de espetáculo, e que se manifestavam, vivamente, após árias ou interlúdios, quase como torcedoras da "geral", aplaudindo, ovacionando ou mesmo vaiando as atuações que apreciavam ou não. A partir, no entanto, do momento em que a produção do espetáculo passou a ter um papel tão ou mais relevante do que a própria obra de arte, as necessidades de financiamento tiveram, como contrapartida, o aumento de ingressos e, assim, o afastamento do povo - e a consequente elitização cultural. No Brasil, talvez outros fatores tenham contribuído para a identificação do gênero com posturas e manifestações elitistas. O Theatro Amazonas, por exemplo, nasceu da vontade de uma burguesia emergente, surgida nos ciclos da borracha, de, além de expressar sinais de riqueza, revelar conteúdo e preocupação culturais. O que é louvável, aliás. Assim se importaram aço, mármore, lustres, escadas, estátuas e colunas da Europa, para formação e reprodução de uma experiência clássica europeia, aqui (ou lá) no trópico. Os belos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde muitas das principais montagens são apresentadas, também se construíram com a opulência comparável a algumas das mais importantes casas europeias. A verdade é que, em sua essência, pela sua abrangência temática, a ópera poderia (ou deveria) servir como espécie de porta de entrada à massificação cultural. Não à toa que a China, como afirma Flavia Furtado, tem realizado pesados investimentos no setor e, de algum modo, movimentado o ambiente no plano mundial. Além disso, também poderia contribuir com o desenvolvimento econômico e social das cidades brasileiras que abrigam aproximadamente 150 teatros com fossos - número surpreendente e expressivo -, como de fato vem contribuindo para afirmação de Manaus - e do Estado de Amazonas (onde gera mais empregos do que alguns setores industriais beneficiados com incentivos da Zona Franca). Curiosamente, semelhanças podem ser traçadas em relação ao futebol. Apesar de ter nascido como prática das elites inglesas, e com essa característica chegado ao Brasil, tornou-se a mais popular das atividades humanas. Após longo período de popularização, ou democratização, voltou, recentemente, a se submeter a um processo global (e não apenas local) de elitização, simbolizado pelas arenas contemporâneas - nas quais bem-comportados e abastados torcedores pagam pequenas fortunas para acompanhar espetáculos que, dia após dia, tornam-se menos inacessíveis ao trabalhador comum e seus familiares. Esse mesmo movimento também gerou superpotências no plano esportivo, componentes de duopólios ou oligopólios regionais e internacionais, responsáveis pelo sufocamento dos demais times, concorrentes. Até mesmo no Brasil, em que a natureza amadora e associativa resiste aos séculos, as demandas mercadológicas globais - e midiáticas locais - incentivam o surgimento de supertimes (como Flamengo, Palmeiras e Galo - sendo que, os dois últimos, desprovidos da mesma estabilidade estrutural que o primeiro, e beneficiários de modelos não replicáveis, apoiados no financiamento por torcedores abastados) que, em pouco tempo, deverão abrir distância insuperável sobre os demais. O maior sintoma desse processo é revelado pelo afastamento (e, até, pelo estranhamento) do brasileiro de sua própria seleção, outrora símbolo máximo da união e da integração de populações tão díspares quanto, como simples exemplos, a baiana e a catarinense, ou a paranaense e a amazonense. Ocorre que, apenas no Brasil - e aqui se refuta qualquer pretensão ufanista - reúnem-se as características de um sistema completo: formação espontânea de jogadores, mais de duas dezenas de times com torcida superior a um milhão de torcedores, uma competitividade que abrange praticamente todos os times que disputam o principal campeonato nacional, o interesse (mesmo que esporádico) de aproximadamente 70% da população, uma seleção que encantou o planeta, e o protagonismo das negociações mundiais envolvendo jogadores - dentre outros aspectos. Por esses motivos, o futebol, assim como a ópera, deve ser acessível ao povo, que o faz grande e mais interessante, aliás. Não se pretende, é óbvio, o retorno ao amadorismo; muito pelo contrário. Também não se posiciona, por princípio, contra os confortos e as experiências proporcionadas pelas arenas; ao contrário, novamente. Mas, sim, a favor da reintegração do torcedor comum e da necessidade de emancipação (ou libertação) dos times de futebol da estrutura associativa e de seus dirigentes irresponsáveis, como meios de construção de um sistema sustentável, seguro juridicamente e atrativo do ponto de vista econômico, e, mais ainda, que contemple, em seus modelos, a democratização do acesso ao espetáculo.   Apenas com o ingresso de capitais, para aplicação na formação de jogadores-cidadãos e no desenvolvimento da empresa futebolística, o movimento de elitização despudorada, paradoxalmente, poderá ser interrompido. Porque, aí sim, deixar-se-á de administrar uma massa falida e, com recursos - e união em torno de um projeto comum -, times (e administradores profissionais) poderão passar a ter mais influência sobre suas decisões, seus modelos organizacionais e suas associações, inclusive para assumir, sem demagogia, ações que privilegiem, também, o torcedor comum. __________ 1 Disponível aqui.
O legislador constitucional entendeu por oportuno e necessário inserir na Carta de 1988 dispositivo específico, contido no artigo 217, I1, cuja finalidade é resguardar a autonomia das entidades esportivas, quanto a sua organização e funcionamento. Em 1998, quando a Constituição completou seu décimo aniversário, entrou em vigor a Lei 9.615/98 ("Lei Pelé") que, no seu artigo 27 - conforme a redação original de então - teria desafiado a autonomia constitucional, ao condicionar a participação das entidades de prática em competições profissionais, à adoção de um dos tipos empresariais previstos no Código Civil. Na oportunidade, prevaleceu o entendimento de que o texto do artigo 27 da Lei Pelé, ao obrigar os clubes a abandonarem o modelo das associações e adotarem a forma das empresas, conflitaria com o artigo 217, I, da Constituição. Tal capitulação do dispositivo infraconstitucional não foi imposta a partir de questionamento levado ao Supremo Tribunal Federal à época, mas sim, por iniciativa das próprias casas legislativas que, pouco tempo depois, impingiram alterações na Lei Pelé, para tornar facultativa - e, até mesmo bastante dificultada - a constituição dos clubes-empresas. Somente a partir do ano 2000, o tema da autonomia constitucional das entidades esportivas teve a oportunidade, por assim dizer, de vir a receber modulação pelo Supremo Tribunal Federal. Primeiro, no julgamento da ADI 2937 em 2012, que limitou o alcance da autonomia ao decidir pela constitucionalidade de diversos dispositivos da Lei 10.617/03 ("Estatuto do Torcedor"). E, mais recentemente, no julgamento da ADI 5450, em 2019 que, por sua vez, declarou inconstitucional, também por ferir a autonomia, dispositivo inserido posteriormente no texto do Estatuto do Torcedor, que previa rebaixamento para outra divisão de time de futebol pela não quitação de dívidas. Atualmente, portanto, o operador do direito que se depara com o tema constata que, estando em vigor o texto do artigo 217, I da Constituição Federal exatamente como em sua versão original, há duas decisões do Supremo Tribunal Federal, uma de 2012 e outra de 2019, com entendimentos até certo ponto divergentes acerca do alcance, abrangência e limitações da autonomia constitucional das entidades esportivas. Já o Projeto de lei 5.516/2019, que prevê a criação da Sociedade Anônima do Futebol - SAF e dá outras providências, de autoria do Senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG) e, atualmente, tramitando no Senado Federal sob a relatoria do Senador Carlos Portinho (PL/RJ), não oferece qualquer risco de questionamento acerca de sua constitucionalidade à luz do artigo 217, I, da CF, dado que prevê que a transformação ou criação da SAF pelos clubes de futebol profissional se dá, no texto proposto, de maneira FACULTATIVA. Para além de evitar mais um round de questionamentos sobre abrangência e limites da autonomia constitucional, interessante notar que os autores do texto do PL 5.516/2019, ao preverem a adoção facultativa da SAF, não o fizeram apenas para "driblar" a discussão acadêmica que, diga-se, em alguns momentos foi utilizada de forma oportunista, com a finalidade de atravancar a modernização e o desenvolvimento do esporte de alto rendimento no Brasil. A preocupação primordial refletida no texto do PL 5.516/2019 diz respeito à sobrevivência de boa parte dos aproximadamente 700 times de futebol existentes no País atualmente. Muitos desses times não reúnem, no momento, condições econômicas para adotarem o tipo das sociedades anônimas. Obrigá-los a constituir SAF, desde logo, seria submetê-los à cruel "seleção natural", o que os autores do projeto não ousariam impor, até porque, pequenos ou grandes, todos têm sua importância, uma coletividade que lhes destina o afeto e, como tal, merece todo respeito. A SAF, que é, sem dúvida, um caminho para a obtenção de novas receitas, modernização, desenvolvimento e aprimoramento para uma boa gama de clubes grandes e médios do Brasil, não poderia ser imposta aos menores ao custo de redundarem, em muitos casos, no seu desaparecimento. Não seria justo, não seria oportuno para a melhoria do ecossistema do futebol e formação de novos atletas, tampouco os autores do texto arvorar-se-iam em tal ousadia e pretensão. Por isso, e principalmente, o PL 5.516/2019 não impõe a obrigatoriedade da constituição da SAF por todos os times, tampouco pretende aplicar sanções àqueles que, por vontade de sua coletividade, pretenderem seguir adotando a forma das associações. Nesse mesmo contexto, se inserem os questionamentos sobre a conveniência de o PL 5.516/2019 não ter importado do marco regulatório alemão a norma que, por aquelas bandas, determina que o time que vier a constituir a companhia para gerir as atividades do futebol profissional deverá sempre manter 50%+1 (cinquenta por cento mais uma) ação da empresa futebolística, preservando o controle acionário. Primeiramente, seria de se questionar se uma norma que viesse a delimitar o controle acionário da SAF também não afrontaria a autonomia das entidades esportivas - já deixando de lado, por absoluta inconsistência e carência de interpretação histórica e sistemática, qualquer entendimento que pudesse vir a pretender advogar que a autonomia constitucional do artigo 217, I seria aplicável apenas aos clubes organizados como associações. Porém, novamente, não foi o receio do questionamento sobre a constitucionalidade que motivou os autores do texto do PL 5.516/2019 a evitarem importar a regra alemã do 50%+1 para o nosso texto. Mas sim, foi a percepção de que cada clube tem seu contexto e suas necessidades e, como tal, devem ser livres para escolher a melhor forma de gestão, sem amarras ou impeditivos legais excessivamente invasivos e desnecessários. De modo que, se um time tradicional do futebol brasileiro, com milhões de torcedores, pretende inserir regra que jamais lhe permita deixar de ter o controle acionário, representado por 50% +1 das ações, estará livre para fazê-lo no âmbito do seu Estatuto Social, aprovado pelos associados. Se outro, contudo, preferir ceder o controle ao investidor, como forma de obter volume maior de receitas, e essa for a vontade de sua coletividade, também poderá realizar tal intento. Até porque, haverá investidores que exigirão ter o controle acionário da SAF para assegurar seus investimentos. Se o clube que constitui a SAF assim o permitir, torna-se um negócio em que as duas partes, plenamente capacitadas, acordaram sobre o modelo, não cabendo ao Estado impor condições ou limitações. Novamente, trata-se do livre exercício da autonomia, desta feita, auferida no binômio esportivo-negocial. O Projeto da SAF acredita na livre iniciativa e na capacidade de cada entidade esportiva em definir para si o melhor modelo, a melhor forma de controle e gestão. O que o PL 5.516/2019 pretendeu dispor em favor dos times que pretendam utilizar, foram mecanismos para proteção de suas tradições enquanto elemento intangível de valor imensurável para o clube e sua coletividade. O artigo 2º do PL contempla a emissão de ações ordinárias classe A, que serão detidas pelo clube que constituiu a SAF e conferirão poder de veto em qualquer deliberação que venha a discutir temas como: mudança de nome, símbolos, local de sua sede, uso de seu estádio, ou mesmo cisão, fusão, incorporação, alienação de bens ou liquidação da SAF. Todavia, mesmo nesse ponto, o clube que constituiu a SAF somente poderá fazer uso do voto afirmativo enquanto detiver determinados percentuais das ações ordinárias classe A. Mais uma vez, caberá à entidade esportiva decidir se pretende manter, ou não, o direito de veto em tais temas. Ninguém tem mais interesse e legitimidade para preservar, ou dispor em seu proveito, das tradições de entidades esportivas, do que elas mesmas. Eis o PL 5.516/2019, o Projeto da SAF, aquele, dentre todos apresentados a partir da Constituição de 1988, que mais primou e respeitou a autonomia das entidades esportivas, não somente para evitar a prevalência da discussão acadêmica em face do interesse maior de modernizar e melhor o futebol brasileiro, mas também, por acreditar que é chegado o momento de os clubes se livrarem da relação umbilical com o Estado, seja por serem capazes de se manter sem os seculares subsídios de dinheiro público, mas também por adquirirem maturidade, definindo o melhor modelo para sua gestão, passarão a, enfim, tomarem para  si as rédeas do seu destino. __________ 1 Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observados: I - a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento;
quarta-feira, 26 de maio de 2021

Salve o tricolor paulista

O São Paulo Futebol Clube (SPFC), maior campeão de competições internacionais do país, enfim, quebrou longo jejum e conquistou o Campeonato Paulista de 2021. O título, que no passado recente seria relativamente menosprezado, foi recepcionado, nas palavras de diretores e jogadores, como uma "copa do mundo". Não é momento para menosprezo. Ao contrário. Deve-se celebrar a conquista. Vale lembrar que Corinthians, em 1977, e Palmeiras, em 1993, também reencontraram a glória, após 23 e 17 anos, respectivamente, com o mesmo título que, hoje, é são-paulino. Talvez se afirme que, naquelas épocas, era um feito importante. Com certeza mais do que atualmente. Mas alguma importância ainda tem. Daí o plano da atual diretoria de, mesmo sabendo de que se trata de um êxito efêmero, realizar uma aposta de curtíssimo prazo. E nisso foi bem-sucedida. Alcançou a meta. Para alcançá-la, fez movimentos acertados: contratou um realmente muito promissor comando técnico (Hernán Crespo exala, olhando de fora, confiança, sobriedade, conhecimento e erudição) e novos jogadores que se encaixaram ao elenco montado por Raí (nele incluídos o fundamental Daniel Alves e o sempre enérgico e decisivo Luciano), em especial o formidável zagueiro e capitão, Miranda. O resultado foi merecido, pois. E agora? Essa é a pergunta que se deve fazer porque, como bem sabe a Diretoria, presidida por Julio Casares - que ganhou algum tempo para reprogramação dos próximos passos -, a situação ainda é dificílima. Eis o ponto: pouco mudará, financeira ou estruturalmente, por conta do título estadual - além do nível de felicidade ou de aliviamento da torcida e dos próprios jogadores, que afastaram o peso de insatisfações acumuladas após quase dez anos de jejum de taças. Mais do que isso: a estrutura associativa ainda é um impeditivo para que o SPFC se financie adequadamente; e o sistema político uma prisão que há muito cobra seu preço - e reduz a sua importância. Não se trata de afirmação aleatória. O relatório da EY evidencia que, em vários referenciais, o clube já se planta em um nível intermediário no cenário nacional. Listam-se alguns exemplos. Entre 23 clubes analisados, o SPFC obteve apenas (i) a sexta maior receita geral (R$ 365 milhões), (ii) a sexta maior receita recorrente (R$ 213 milhões), (iii) a quinta maior receita proveniente de direitos de transmissão e premiação (R$ 127 milhões), (iv) a quinta maior receita oriunda de transferência de jogadores (R$ 151 milhões), (v) a décima maior receita produzida no matchday (R$ 18 milhões) e a (vi) a sexta maior receita comercial (R$ 34 milhões). As referências medianas não param por aí: no acumulado de 5 anos (2016/2020), a receita geral também ficou em quinto lugar (R$ 2.047 bilhões), atrás de Flamengo, Palmeiras, Corinthians e Grêmio. E as negativas são igualmente preocupantes: o SPFC ostenta o nono maior endividamento líquido (R$ 575 milhões) e obteve o quarto pior resultado do exercício (prejuízo de R$ 130 milhões). Sob outro ângulo, como fará para competir, nos planos nacional e sul-americano,  com Flamengo, que obteve, em 5 anos, receita de R$ 3.321 bilhões (R$ 1.274 bilhão a mais), ou mesmo com o Palmeiras, que acumulou R$ 2.836 (R$ 789 milhões a mais)? Ou para competir contra times europeus, que, num passado já não tão recente, se dobraram diante do próprio SPFC (nada mais, nada menos do que Barcelona e Real Madrid, em 1992, Milan, em 1993, e Liverpool, em 2005)? Essa comparação, apesar de menos técnica, também serve, de algum modo, para ilustrar o retrocesso: sobretudo nos 1990, times brasileiros, em especial o SPFC, podiam, apesar de menos abastados financeiramente, enfrentar e superar os principais times do planeta. O hiato não era tão expressivo. Dentre os motivos que criaram a desigualdade, o principal foi o reconhecimento da natureza empresarial da atividade futebolística e a consequente adoção de regimes jurídicos aptos à criação de oportunidades para financiamento da empresa do futebol. Não se trata, pois, de coincidência o fato de apenas dois dentre todos os maiores times da atualidade - Real Madrid e Barcelona, ambos em crise, aliás - manterem a natureza associativa.   A insistência no modelo engendrado no século retrasado, que acomodou interesses puramente amadores e recreativos, apesar de legítimo do ponto de vista jurídico, tornou-se imprestável para o enfrentamento da realidade local e global. A sua manutenção, nos tempos atuais, sobretudo pelos clubes que, com menor ou maior intensidade, poderiam acessar vias modernas de financiamento e de organização administrativa e societária, assemelha-se à utilização da Estrada Velha de Santos como via de acesso ao litoral paulista, em detrimento da moderna pista descendente da Rodovia dos Imigrantes.  E para que o São Paulo volte a ser grande, deve almejar mais, muito mais do que a própria limitação da estrada física: haverá de saltar num avião e alçar voos ambiciosos. Novamente: a Diretoria tricolor fixou um objetivo de curtíssimo prazo e o alcançou. Por isso, os efeitos do título terão a mesma validade: prazo curto. Mas pode ter oferecido a oportunidade de iniciação da necessária reforma que recolocará o time na vanguarda (como, aliás, sempre esteve, até que seus dirigentes se embriagaram, como o personagem de Oscar Wilde, Dorian Gray, com a ilusão da própria soberania): a passagem ao modelo societário como meio de organização e controle da empresa do futebol. Julio Casares - que é, sem dúvida, um profissional inteligente e preparado - sabe disso. Resta saber se terá vontade de fazer o que deve (e sabe que deve) fazer. E, assim, salvar - estruturalmente - o Tricolor Paulista.
Os norte-americanos dominam o entretenimento global. Por onde se circula, sempre se encontra alguma referência voluntária ou involuntariamente proveniente de sua cultura. No plano esportivo - aí está um tema a ser compreendido, aliás -, o projeto expansionista não atingiu o mesmo resultado. Modalidades como baseball ou futebol americano, apesar de terem seguidores internacionais, não se infiltraram, com raras exceções, de maneira estrutural, em outros locais. É verdade que o esforço hercúleo de expansão protagonizado pela NBA gera frutos. Na temporada 2017-2018, por exemplo, seus jogos atingiram 1 bilhão de pessoas e 35% dos acessos ao seu sítio eletrônico partiram de fora do país1. Mas ainda é pouco quando se compara com os números do futebol - especialmente porque campeonatos locais, como a Premier League inglesa, competem com outros campeonatos europeus, ou de outras proveniências, enquanto a NBA, de certo modo, monopoliza o mercado global. Apenas a mencionada Premier League, a propósito, alcançou, no período entre agosto de 2018 e maio de 2019, audiência acumulada de 3,2 bilhões de pessoas2. Outros números revelam a relevância da atividade futebolística: a final da Copa do Mundo de 2018 (apenas uma partida, portanto) atraiu 1,12 bilhão de expectadores e se estima que 4,5 bilhões de pessoas acompanham com maior ou menor intensidade, e de algum modo, o futebol. Não à toa os Estados Unidos sonham - um dos poucos sonhos que, por lá, não se realizam - em se apropriar e dominar a prática e a organização do futebol. Lembre-se a tentativa, nos anos 70, com a importação de Pelé, maior jogador da história, pelo Cosmos, de Nova York, e de outras lendas, como Franz Beckenbauer; e os recentes esforços que culminaram na contratação, anos atrás, de grandes ídolos como Kaká e David Beckham. Essa pequena introdução serve como alerta para a oportunidade (ou para o tempo) que se perde no Brasil, que é o maior ganhador de Copas do Mundo da história e que colabora com aproximadamente 10% de todas as negociações planetárias envolvendo jogadores. Apenas essa conjunção, sem levar em conta outros fenômenos locais - como a existência de pelo menos 20 times com mais de 1 milhão de torcedores -, já deveria ser suficiente para que o Estado - e seus Governos - percebessem o tamanho da riqueza nacional e as perspectivas que se abririam com a superveniência de um marco regulatório arquitetado para formar o novo mercado do futebol. A formação desse novo mercado, que se anuncia com a iminente votação do "Projeto Rodrigo Pacheco" (PL 5.516/19), com relatoria do Senador Carlos Portinho (PL/RJ), pressupõe, para o bem do País, a (necessária e emergencial) superação de certos dogmas que, a um só tempo, servem para (i) preservar o ultrapassado (e daninho) sistema cartolarial e (ii) impedir o desenvolvimento da atividade (e da empresa) futebolística. Dentre os dogmas, destaca-se a incorreta percepção de que a propositura de um regime tributário especial, de natureza transitória (ou não), implicaria renúncia prevista (ou a prever) em lei orçamentária. Ao contrário.   Há 120 anos o futebol é subsidiado pelo Estado, que oferece imunidades, isenções, parcelamentos, distribuição por meio de loterias, patrocínios diretos ou indiretos; e, quando não há mais nada a fazer, surge a mão judiciária, por via de decisões que contribuem para manter tudo como está (a exemplo do afastamento da incidência de normas do Profut em clubes inadimplentes). Mesmo assim, com tanto favorecimento à conta do contribuinte (ou seja, do trabalhador brasileiro), o resultado é assustador: conforme levantamento da EY, o endividamento financeiro dos 23 principais clubes soma R$ 10,3 bilhões, dos quais R$ 3,3 bilhões de natureza tributária. Ou seja: além das isenções, o fisco nem sequer arrecada as retenções realizadas pelos clubes, nos termos da lei; e cuja inobservância, aliás, pode configurar, juridicamente, crime de apropriação indébita. As perspectivas de recebimento do estoque de créditos tributários também são pouco animadoras. Mesmo antes da pandemia, gestores clubísticos já mandavam o compromisso com as obrigações fiscais para o fim da fila, pois sabiam - e sabem - que, em algum momento, surgirá novo movimento político para oferecer mais um programa de salvamento. Portanto, como já se afirmou, neste mesmo espaço, sob qualquer ângulo, inclusive do Estado, o futebol, que deveria ser tratado como uma benção, tornou-se um fardo à sociedade; fardo, aliás, ainda incompreendido: note-se, neste sentido, que, em 2015, a Presidente Dilma Rousseff, com apoio em equivocadas justificativas, vetou a criação de um regime tributário especial, pois "embora o estímulo à adoção do formato empresarial pelos clubes de futebol possa ser desejável, as alíquotas e parâmetros propostos carecem de análise mais aprofundada, além da respectiva estimativa de impacto financeiro". O problema era muito maior: inexistia, naquela proposta, o conjunto de instrumentos aptos à formação de um novo mercado, de modo que o que se propunha, talvez sem intenção, era a renovação do fracassado modelo imposto pela Lei Pelé, que criou comandos puramente formais, sem oferecimento dos meios para que clubes sem fins lucrativos pudessem passar de modo organizado e seguro ao modelo empresarial; e, mais importante, sobreviver. Aí está, a propósito, a diferença essencial do Projeto Rodrigo Pacheco em relação aos demais: considerou-se, para sua formulação, não apenas os principais equívocos (e eventuais acertos) das leis que se seguiram à promulgação da Constituição Federal, mas também determinados aspectos dos modelos internacionais bem-sucedidos. E é justamente a partir da perspectiva criadora desse mercado que não apenas clubes, jogadores, torcedores, patrocinadores, fornecedores, investidores e transmissores, dentre outros, poderão atuar em um ambiente jurídico e econômico seguro, transparente e com maior previsibilidade, mas, também o fisco, que se beneficiará pela ocorrência, dentro desse mercado, de centenas (ou milhares) de negócios que passarão a atrair a incidência da norma tributária.  Mais do que isso: o Projeto Rodrigo Pacheco poderá ser o embrião da formação de um hub continental, viabilizador da manutenção de times e da construção de marcas globais, capazes de investir na formação e no desenvolvimento da atividade mais praticada no Brasil, e facilitador do acesso ao mercado de capitais - evitando-se, assim, que a riqueza local vaze por intermédio de negociações prematuras de jovens talentos (que são triangulados ou adaptados em outros países, por onde a segunda e grande negociação ocorre) ou pela insolvência dos clubes locais. __________ 1 Disponível aqui. 2 Disponível aqui.
Mais do que o samba - sem qualquer demérito, ao contrário - o futebol se tornou, de modo involuntário, a maior manifestação cultural do Brasil. Porém, o que deveria ser motivo de orgulho - também sem qualquer pretensão ufanista -, transformou-se num fardo. O endividamento dos clubes brasileiros soma bilhões de reais; e isso após mais de um século de subvenções e apoios estatais de todas as naturezas (isenção e imunidade tributárias, parcelamento e perdão de dívidas, patrocínios diretos e indiretos, financiamentos, dentre outros).   Alguns motivos, já exaustivamente abordados neste espaço (e que, portanto, não serão agora repisados), explicam as causas da crise. Mas vale lembrar que: (i) a atividade futebolística no Brasil, por mais que se tente apresentar algum verniz de modernidade, ainda é amadora, ineficiente e determinada por movimentos político-associativos; (ii) o sistema cartolarial construiu uma série de dogmas, responsáveis pelo afastamento (ou mesmo pelo sentimento preconceituoso) da sociedade em relação ao futebol e pela percepção (equivocada, aliás) de que se tratava - ou se trataria - de atividade supérflua, ou mesmo alienante, sem (ou com pouca) relevância econômica ou social; e (iii) por servir a interesses mesquinhos - tais como plataformas de lançamento de dirigentes à vida pública e política, dentre muitos outros eventualmente mais condenáveis -, criaram-se barreiras impeditivas ao surgimento (e à coexistência) de modelo alternativo de organização e propriedade da empresa do futebol e, como consequência, de atração de financiadores locais ou internacionais. Forjou-se, assim, um sistema quase ideal para quem dele se beneficia: afinal, por envolver a paixão popular, passou a ter o Estado como cúmplice e, mais do que isso, como fornecedor de soluções imediatistas e conjunturais - sem preocupação estrutural e reformadora - para os desmandos voluntários e involuntários, criadores do mencionado endividamento (e dos demais males). Daí, sempre que a situação se torna insustentável, os donos do futebol (ou seja, a classe cartolarial), como sabem que governantes evitarão o peso político da quebra de clube com torcida relevante, entoam, com adaptações, a bela canção de Alcione: "Não deixe o samba morrer / Não deixe o samba acabar / O morro foi feito de samba / De samba para gente sambar". Em outras palavras, já se acostumaram a, de tempos em tempos, implorar ao Estado para que não deixe o futebol morrer, para que não deixe o futebol acabar, pois sabem que o governo da vez escalará, como sempre escalou, o contribuinte para pagar a conta dos clubes brasileiros. Assim como se está tentando fazer, atualmente, no Município de São Paulo, com o movimento que almeja a obtenção de perdão de dívidas de clubes, oriundas do não recolhimento de determinados tributos municipais (v., a propósito, ver aqui)1. Além de imoral, consiste em vantagem injustificável em um ambiente esportivo que deveria garantir condições equânimes aos seus participantes - sim, pois, São Paulo, Corinthians e Palmeiras receberão (caso vingue o movimento comentado acima) uma ajuda estatal que a Santos, Inter, Grêmio, Athletico, Galo, Fluminense, Botafogo etc., não será concedida. O que não deixa de ser, no jargão futebolístico, uma espécie de doping. Por outro lado - e aí sim uma perspectiva alvissareira -, convive-se com a iminência da votação, no Senado Federal, do PL 5.516/19, de autoria do seu atual Presidente, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Este PL tem como propósito, ao contrário de todos os projetos (ou leis) que lhe antecederam, arquitetar uma nova forma de encarar, organizar, gerir, financiar, publicizar e deter a propriedade do futebol no País do Futebol; que consiste em atividade de abrangência nacional, com potencial (como nenhuma outra) para contribuir à redução de desigualdades e à inserção social, e, não menos relevante, para ocupar espaço relevante no necessário plano de desenvolvimento econômico. O "Projeto Rodrigo Pacheco" olha para o presente e para frente (sem recusar as lições do passado), e oferece, com efeito, soluções sistêmicas, por meio da "tipificação da Sociedade Anônima do Futebol, do estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, da instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e da previsão de um sistema tributário transitório". Tudo indica, a propósito, que nas próximas semanas - ou nos próximos dias - será pautado e, enfim, votado no Senado Federal, à luz do Relatório a ser apresentado pelo Senador Carlos Portinho (PL/RJ) - que deve propor ajustes pontuais. A expectativa é grande; grande como deveria ser o futebol brasileiro (local e mundialmente). Não apenas pelas oportunidades que se abrirão - abordadas em diversos textos neste mesmo espaço -, mas também porque talvez, como nunca, encontrem-se reunidos os elementos e as pessoas, nas posições certas, com condições para impedir que se desperdice mais uma (e possivelmente a última) chance de construção de um grandioso projeto futebolístico nacional. Ou como diria o personagem de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, na obra Il Gattopardo, para impedir que as mudanças ocorram para ficar tudo como está. __________ 1 Após o fechamento do texto, a Câmara Municipal de São Paulo noticiou a aprovação de "PL que permite parcelamento de débitos tributários" e que "concede benefício fiscal às determinadas entidades esportivas, templos religiosos e agremiações carnavalescas". (Disponível aqui)
No último domingo, dia 2 de maio de 2021, centenas de torcedores do Manchester United promoveram manifestações nos arredores do estádio e, após invadirem o campo de jogo, impediram a realização da partida entre Manchester United x Liverpool, que poderia definir o campeão inglês da temporada e, como tal, seria assistida por milhões de torcedores espalhados por todo o mundo. Os torcedores, cujo protesto foi condenado pelo Governo Inglês e investigado pela polícia em face da violência de alguns atos1, manifestaram sua contrariedade com a gestão do time controlada, desde 2005, por uma bilionária família norte-americana de sobrenome Glazer. As cores verde e amarela se fizeram presentes, como já vinha acontecendo, nas roupas e na fumaça produzida pelos sinalizadores portados pelos torcedores. O verde-amarelo remete ao uniforme dos primeiros anos de existência do clube, quando, pertencendo aos operários "Lancashire and Yorkshire", uma companhia ferroviária local, o time usava as cores da marca da empresa. Parece que aquele grupo de torcedores, que se dispôs a impedir a realização do jogo, entende que o modelo de gestão implantado pelos Glazer prioriza os resultados financeiros de uma empresa de abrangência global, como é hoje o United, em detrimento de aspectos relacionados à paixão do torcedor e algumas tradições seculares do time. Daí até uma forçada interpretação de que haveria um grupo de torcedores ingleses ansiando por um suposto "retorno" dos seus clubes ao modelo associativo similar ao que se pratica no Brasil, vai "um oceano" de distância. Até porque, ninguém retorna para onde nunca esteve. Os clubes ingleses nunca foram associações. Visto sob diversas camadas de análise, a adoção pelo futebol inglês do obsoleto modelo brasileiro de gestão, no qual os clubes passariam a ser geridos pelo tipo de entidade que se caracteriza pela "união de pessoas que se organizem para fins não econômicos" - conceito de associação contido no artigo 53 do Código Civil Brasileiro - foge completamente do histórico modelo inglês de desenvolvimento da atividade econômica. Os ingleses sempre tratam negócios como negócios e, desde a sua criação, os times locais foram geridos como empresas. Mesmo quando, muitos deles, se caracterizavam pela reunião de operários para participarem de competições de futebol, repita-se, nunca foram associações. E assim segue sendo, até os dias de hoje, nos quais a prática do esporte mais popular do Mundo movimenta cifras em torno de alguns bilhões de libras no Reino Unido e os resultados de diversos times na rodada do final de semana podem influenciar no valor de suas ações disponibilizadas em bolsa de valores, logo na segunda-feira pela manhã. No caso particular, é essencial conhecer o contexto histórico da evolução da gestão do Manchester United para se ter a exata e completa compreensão dos movimentos de agora. No ano de 2001, o FGV/EAESP publicou Relatório de Pesquisa de autoria do Professor Antônio Carlos Kfouri Aidar, com o título: "A Transformação do Modelo de Gestão no Futebol II"2. O Relatório de Pesquisa contém uma preciosidade atemporal, para quem pretenda realmente entender o que se passa com o Manchester United. Há, no estudo, alguns capítulos que explicam, com riqueza de dados e informações, a evolução da gestão dos Reds ao longo dos anos, para mostrar como o clube dos operários da ferrovia se tornou O caso de gestão bem-sucedida no futebol mundial, principalmente nas décadas de 1990 e 2000. É um texto que vale muito a pena ser lido ou, relido vinte anos depois, como no caso do autor deste artigo, que a ele recorreu porque interessado em entender os movimentos dos últimos dias. O saboroso relato sobre a evolução histórica do modelo de gestão do United aponta que o time sempre teve dono e, sem embargo, uma torcida que "transbordou" do Noroeste Inglês, para se tornar Mundial, com grande número de aficionados no Sudeste Asiático, por exemplo. Uma coisa jamais impediu a outra. Kfouri Aidar conta que, sob o controle de Mat Busby, que assumiu logo após a II Guerra Mundial, os Reds consolidaram sua identidade, já com uma gestão que tinha um olho na prospecção de talentos e implantação de um modelo próprio de jogo e outro no equilíbrio entre despesas com salários e resultados esportivos. Em determinado momento, porém, Busby procurou um sócio e assim vieram os Edwards, empresários locais, que assumiram a gestão e colocaram o clube, primeiro, entre os grandes da Inglaterra. Sob o controle de Martin Edwards, filho de Louis, o time fez seus movimentos mais ousados: venceu as resistências da Federação Inglesa para distribuir dividendos, lançar ações em bolsa - o que só foi possível após o Relatório Taylor muito bem explicado no Relatório - e, ao mesmo tempo, entre o final dos anos 90 e começo dos anos 2000, conquistou títulos e mais títulos sob a batuta do lendário manager Sir. Alex Ferguson. Foi então, que Relatório de Pesquisa adotou, coberto de razão à época, o Manchester United como modelo a ser seguido. O estudo pretendia propor um norte para o futebol brasileiro, usando o United como exemplo. Por aqui, até hoje não prosperou. Espera-se, ansiosamente, que com a aprovação do PL 5.516/2019, de autoria do Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), crie-se, enfim, um caminho, mas isso é assunto para outro texto, como foi de tantos anteriores. O fato é que clubes europeus, inclusive o rival local do Manchester, seguiram, em muitos aspectos, conceitos trazidos pelo United e, como sói poderia ser, voltaram a competir com ele de igual para igual, ou mesmo, como o futebol é eminentemente cíclico, suplantá-lo nas competições. Os Glazer administram hoje um time que não vive mais um dos seus períodos de glória, certamente. Apesar de, de dois anos para cá, mostrar alguns indícios de retomada e reação. Esse quadro reforça os argumentos dos "torcedores-raiz", que protestam mesmo porque o time não ganha como já ganhou, mas alegam incômodo causado a partir da percepção de que seu time, sua "paixão", teria sido "vendida" a um fundo familiar norte-americano que, para reforçar os estigmas, também é dono do atual campeão da NFL, e, por inegáveis dificuldades de comunicação, em várias situações, não consegue se mostrar realmente engajado em temas essenciais ao torcedor, como tradição, conquistas de títulos e uma paixão abnegada - e, no mais das vezes romântica e infelizmente irreal - que suplantaria a busca pelo lucro. "O time pode até ser um negócio para Você, desde que Você mostre que o ama como eu, torcedor, amo". Esse é o grito da torcida-raiz do United, pequena em relação aos milhões pelo mundo, mas barulhenta e, porque não dizer, relevante. Falta aos Glazer entenderem que o futebol como negócio só prospera quando o gestor compreende que é um "vendedor de emoções" e, como tal, jamais venderá seu produto se ele vier "frio, sem gosto ou sem alma". Portanto, como acontece em tantas empresas, os protestos devem levar os Glazer a refletir e redefinir sua comunicação com toda gama de torcedores, os mais modernos que vestem a camisa vermelha e assiste aos jogos pela TV no interior do Vietnã, ou aqueles operários descendentes dos fundadores do clube que protestam de verde e amarelo. Sem isso, não prosperarão à frente do United e, por conseguinte, também perderão muito dinheiro. Trata-se, pois, de um ajuste fino e, ao mesmo tempo, indispensável que os atuais donos precisam fazer para que o torcedor se sinta ouvido. E isso não é pouca coisa nem de menor importância. Porém, daí até se pretender interpretar que o que está sob discussão não é a gestão dos Glazer, mas sim o consolidado modelo empresarial que é a força motriz da prosperidade do futebol inglês, repita-se, vai enorme distância. Para ilustrar, vale voltar à História. Esta nos conta que o time dos operários "Lancashire and Yorkshire" faliu e só seguiu suas atividades porque foi comprado por um rico produtor de cerveja que, como o time era muito novo, entendeu por bem adotar a cor vermelha, de suas marcas, no uniforme. Hoje, os Reds conquistaram fama e milhões de torcedores nos quatro cantos do Planeta e cogitar qualquer mudança na cor do United soaria como uma hecatombe monumental. Particularmente, duvido muito que a imensa torcida dos Reds, mesmo os saudosistas que protestam de verde amarelo, prefeririam contar a história de um clube da Cidade que acabou no começo do século XX e usava essas cores, a terem vivido todas as emoções das inúmeras conquistas que a, desde sempre, empresa Manchester United celebrou trajado de vermelho. __________ 1 Disponível aqui. 2 Disponível aqui.
Em obra fundamental do pensamento ocidental - O homem despertado: imaginação e esperança (Civilização Brasileira, 2020) - Roberto Mangabeira Unger afirma que o pragmatismo se tornou "a filosofia da nossa era". Nas mãos de muitos de seus devotos, continua o pensador, "transformou-se em outra versão da senilidade mascarada como sabedoria". E arremata: "eles acham que cresceram. Na verdade, decaíram". Mais adiante, no mesmo capítulo inaugural da mencionada obra, oferece uma espécie de alento, ou de esperança: "nunca é tarde para mudar o rumo. (...) Imaginação e esperança serão os nossos guias gêmeos". Apesar das múltiplas e, na maioria das vezes, fracassadas definições do termo pragmatismo, até porque invariavelmente amparadas em conceitos (ou preconceitos) morais ou políticos (ou de outras naturezas), o filósofo Arthur Oncken Lovejoy formulou uma esquematização de formas pragmáticas, apresentada de modo suscinto no Dicionário de Filosofia, de José Ferrater Mora (Martins Fontes, 1993). Interessa, para os propósitos deste texto, a forma definida como "teorias pragmatistas do critério de validade de um juízo", a partir da qual deriva o seguinte postulado: "são verdadeiras as proposições gerais que viram realizadas na experiência passada as predições implicadas, não havendo outro critério da verdade de um juízo" (idem). Em uma análise superficial - e carregada de uma voluntária ou involuntária opção pela alienação -, talvez se pudesse afirmar que a atual situação do futebol brasileiro decorre de uma opção histórica pelo pragmatismo, qualquer que seja o sentido que se pretenda dar-lhe (e mesmo que dissimule a defesa de posições ou de privilégios). Afinal, de sua origem aristocrática, o esporte importado da Inglaterra amalgamou-se às classes operárias, que passaram a produzir os principais protagonistas do jogo, transformando-o em referência planetária. Não só isso: pela secular via organizacional associativa, também viabilizou uma série de títulos sul-americanos e mundiais, obtidos por clubes nacionais, e 5 copas do mundo, conquistadas pela seleção. Mas isso foi obra do passado. Um passado que ainda haverá de ser reavaliado porque, apesar de sua idealização (e romantização, a partir do ponto de vista do usurpador), construiu um sistema de ganhos isolados (e egoísticos) e nada propenso à inserção e à distribuição. O problema é que o modelo fraquejou, não apenas em terras brasileiras, como em todos os principais centros de prática do esporte. Aliás, mais do que isso: foi superado pela introdução, sobretudo em países europeus, de formas jurídicas ou societárias compassadas com a realidade tecnológica e a necessidade de financiamento de uma atividade global e competitiva.   Ocorre que, apesar de todos os sinais internos e externos, uma - e a principal - característica organizacional não se abalou, neste nosso país: os donos do poder mantiveram-se onde estavam (e ainda estão), revezando-se, entre correntes político-clubísticas, que resistem às transformações econômicas, e se antagonizam, em regra, não pela divergência ideológica, e, sim, pelo acesso e domínio dos ativos materiais e imateriais do futebol. As palavras de Raymundo Faoro se encaixam, assim, com precisão, no sistema implementado no século retrasado, no âmbito dos clubes sem fins lucrativos, proprietários dos times de futebol brasileiros: "a comunidade política (no caso, a comunidade cartolarial) conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados (no caso, como negócios próprios) seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. (...) Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo, cuja legitimidade assenta no tradicionalismo - assim é porque sempre foi" (Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, Globo, 2001). Em outras palavras, o principal argumento de sustentação do sistema associativo, como via única de detenção da propriedade da empresa futebolística, se ampara num argumento pseudo-pragmático, que afirma a suposta viabilidade atual do que foi viável no passado, desconsiderando-se todas as descobertas, evoluções e novas técnicas de financiamento e gestão do futebol, adotadas sobretudo a partir dos anos 1980. Longe de ser uma simples manifestação esportiva ou um passatempo lúdico, o futebol passou a ser um poderoso meio de criação e distribuição de riquezas e de desenvolvimento social, motivando sua inclusão em pautas de governos (e mesmo de estados) estrangeiros.  Paradoxalmente, o Brasil, maior gerador de jogadores do planeta (que representam em torno de 10% de todas as negociações globais), detentor de todos os elementos que comporiam, se existisse incentivo ao financiamento da empresa do futebol, um ecossistema equilibrado - história, tradição, formação de jogadores, times locais, regionais e nacionais, campeonatos competitivos, seleção mais vencedora da história -, não se preocupava, ou melhor, desprezava, a sua potencialidade. O desprezo talvez decorresse (e decorra) do discurso da classe cartolarial, que prosperou com base em mentiras que são apresentadas e repetidas como verdades: a inviabilidade empresarial da atividade do futebol e a posição clubística, como meio de salvaguardar o patrimônio esportivo-cultural. Patrimônio que os próprios cartolas delapidaram. Se não houver mudança de rumo; aliás, mais do que isso: se o novo rumo não for adequado (e sucumbir à filosofia do poder), o país terá perdido possivelmente a última chance de resgatar uma atividade que é acompanhada, com menor ou maior intensidade, por aproximadamente 140 milhões de pessoas - e que poderia se expandir para centenas de milhões de pessoas, espalhadas por outros países. Portanto, o que está agora em jogo (com o perdão do trocadilho), no Senado Federal, com o PL 5.516/19, de autoria do Presidente Rodrigo Pacheco (DEM/MG), e que aparentemente será pautado nos próximos dias (aguardando-se, apenas, a conclusão do relatório do Relator, Senador Carlos Portinho - PL/RJ), é justamente a revisão (e correção) da distorção organizacional e patrimonial, responsável pela falência sistêmica e pela transformação de uma fonte (inesgotável) de riqueza (em sentidos econômico, social e educacional) em uma (praticamente) mera via de exportação de pé-de-obra. Daí a esperança que se deposita no Senado Federal (e no Congresso Nacional).
Não sou comentarista de futebol. Mas foi um prazer enorme assistir ao jogo entre Flamengo e Palmeiras, pela disputa da Supercopa do Brasil. Tanto prazer que, em vários momentos, dava para esquecer que, ali, enfrentavam-se dois rivais do meu time de coração. O problema é que aprendemos a nos contentar com pouco. Sim: um ou outro jogo de alto nível, dentre centenas de outros sofríveis, realizados nos planos estaduais ou nacional. Mesmo aquele raro momento de prazer futebolístico não deve turvar a visão em relação à situação local: recentemente, ambos os times, que são atualmente os dois melhores do país - aos quais talvez venha a se juntar o Galo, ao menos enquanto mecenas se dispuserem a empregar tempo e recursos para alimentar suas paixões -, não conseguiram demonstrar, diante de times europeus, o mesmo vigor. O Flamengo, é verdade, passou à final do mundial em 2019; já o Palmeiras, em 2020, voltou sem sequer passar das semifinais (caindo contra o Tigres, do México). Os fracassos descortinam, pois, a realidade: os mais fortes do Brasil não têm lugar entre os melhores times do planeta. O que se dirá, então, dos demais, outrora campeões mundiais, que se afundam em seus problemas: o São Paulo, que disputa um paulistinha como se fora um mundial; o Santos, que foi esmagado pelo Barcelona anos atrás; o Grêmio, que se apequenou diante do Real Madrid; o Inter, que passou, recentemente, uma temporada na segunda divisão; e o Corinthians, que recebeu de determinada torcida uniformizada uma sugestão para que se organizasse uma vaquinha com intuito de levantar dinheiro para enfrentamento das suas dívidas. Enquanto o associativismo, como forma de detenção da propriedade do futebol, preponderou mundo afora, o Brasil foi grande; mas agora que todos os principais protagonistas (exceto dois), de todos os países relevantes, reformularam seus modelos (e impuseram novos meios de detenção da propriedade e de exercício da empresa futebolística), o distanciamento entre os times brasileiros e os europeus intensifica-se a cada dia - e tende a se tornar inalcançável, se o movimento correto não for realizado de modo imediato. Lembremos. O São Paulo teve lugar de destaque, sobretudo entre os anos 1980 e 2000, servindo como referência nacional. Sua hermética política interna, controlada por poucos cardeais, foi a mesma que o levou a um processo autodestrutivo, causado pela multiplicação de partidos e pela sobreposição de interesses particulares sobre o bem maior. O movimento do Palmeiras seguiu sentido inverso. A turma da corneta não desapareceu; mas uma sucessão de fatores - inaugurados com o salvador projeto de construção de uma arena de padrão mundial, encabeçada pelo então presidente Luiz Gonzaga Belluzo, que facilitou, anos depois, a realização de uma presidência relativamente diferenciada por Paulo Nobre (que fundiu gestão com paixão), até se chegar à dominação de Leila Pereira (com a aparente imposição de um modelo semelhante ao são-paulino dos tempos vitoriosos, no sentido de resolver, interna e hermeticamente, os problemas políticos e esportivos) - viabilizou o sucesso atual. O problema é que, para dar passos maiores, que atendam aos sonhos reprimidos de sua torcida, os recursos de uma pessoa (ou de suas empresas), sob a forma de empréstimos, não serão suficientes. Para ombrear os grandes do planeta, os movimentos deverão ser mais ambiciosos - e somente se praticarão com estruturas sofisticadas e um projeto empresarial sustentável. Por isso que o Palmeiras (e não que seja pouco, nos dias de hoje), sob a forma como se organiza, bateu no teto, chegou no seu limite. Teto esse que, no Flamengo, é mais alto. Por vários motivos: tem a maior torcida do país, é o time não-oficial do Estado brasileiro (que sempre o apoiou, direta ou indiretamente, por diversos meios, inclusive patrocínios) e, por esses e outros fatores, favorece-se de um espaço midiático que não se estenderá a qualquer rival. Mesmo assim, quase conseguiu quebrar, por volta dos anos 2010. O processo de recuperação, iniciado com Eduardo Bandeira de Mello e seu grupo, viabilizou, em pouco mais de 6 anos, a construção de uma estrutura que, apesar da tensão política interna, vem se sustentando e, desde 2019, acumula, sob a presidência de Rodolfo Landim, 10 títulos1. É muito, mas é, ao mesmo tempo, pouco. Com as suas características, o Flamengo deveria almejar, no mínimo, a presença entre os 10 maiores do planeta - e não apenas o protagonismo regional, nacional ou meramente continental (não se podendo renegar, ainda, as forças de times como os argentinos Boca Junior e River Plate, por exemplo - os quais poderiam ser superados, em muito, pelo Flamengo). Ao contrário do Palmeiras, seu salto ainda não o fez bater no teto; mas não está muito longe. Para que rompa essa barreira e confirme sua aptidão à internacionalização, também precisará mais do que uma receita anual da ordem de 1 bilhão de reais, que, em euros, representa menos do que a receita obtida pelo Eintracht Frankfurt (20º maior time avaliado pelo critério de receita, de acordo com o Finance Football, com base em relatório da Deloitte2). Mas o sintoma mais preocupante, dentre os times mencionados neste artigo, é apresentado pelo Corinthians, que detém a segunda maior torcida do país e a maior renda per capita. Além disso, teve a oportunidade de, a partir de 2013, assim como o Flamengo, introduzir um modelo preparatório para acessar o mercado de capitais e para se internacionalizar. Seguiu o caminho errado e, atualmente, ao invés de flertar com receita bilionária, como se prometia, é assombrado com uma dívida de mesma magnitude. Pior, tem que se sujeitar a uma proposta que, mesmo que formulada com boa intenção, não se coaduna com os modernos meios de financiamento da atividade futebolística: uma espécie de vaquinha entre seus torcedores. Isso não condiz com o tamanho (tampouco o potencial) do Corinthians. Resumo desse estado de coisas: os times brasileiros, dos mais vitoriosos aos mais desesperados, dos maiores aos menores, dos nacionais aos regionais - portanto, não apenas os citados no texto - carecem de meios para resgate, desenvolvimento, financiamento e crescimento sustentável, com perspectivas locais e globais. Aliás, de um modelo que viabilize a um só tempo caminhos distintos, que se acomodem aos propósitos e às características de cada clube e de cada sociedade anônima do futebol que se constituirá, conforme projetos definidos, internamente, por seus próprios associados. É isso o que oferece o PL 5.516/19, de autoria do atual Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG): um marco regulatório, ou uma espécie de moldura legislativa, e os instrumentos para que, dentro desse marco, cada time escreva, com orgulho, os novos capítulos de sua história. Daí a necessidade e a urgência de votação e inserção do PL no sistema.   __________ 1 Disponível aqui. 2 Disponível aqui.
O título deste artigo pode parecer paradoxal, em vista do momento absolutamente singular de retração econômica causada pela maldita pandemia. O economista Cesar Grafietti, enquanto aguardamos ansiosamente a edição deste ano do seu "Análise Econômico-Financeiro dos Clubes de Futebol Brasileiros", traz, em coluna publicada no site Infomoney no último dia 3 de abril de 2021, com o título "Clube do Bilhão: o que fazer para evitar que seu clube faça parte"1, spoiler bastante preocupante sobre a condição financeira de nossos clubes. Vale a pena ler o artigo de Grafietti com muita atenção. Em apertadíssima síntese, ele demonstra que, ao passo que alguns clubes brasileiros projetaram, em anos anteriores, entrarem, em alguns anos, no grupo dos que receberiam 1 bilhão de reais em receitas anuais, alguns balanços recém-publicados demonstram que, na verdade, alguns dos nossos times estão realmente batendo 1 bilhão de reais, porém, em dívidas. A tendência natural diante do quadro é sugerir "apertar os cintos", cortar gastos, investir menos. E é aqui que se pretende fazer o contraponto: os clubes brasileiros, em geral, podem até gastar mal, mas, certamente, não gastam muito. Até porque, não têm receitas suficientes para tanto. Logicamente, que no caso de um clube preocupantemente endividado, localizar gastos malfeitos, geralmente, em contratações que não trazem retorno técnico, tampouco possibilidade de receita com transferência futura, é ação salutar. Porém, não haverá saída definitiva para a crise do futebol brasileiro, se a prioridade das ações se concentrar apenas no corte de gastos e não na geração de receitas e realização de novos investimentos. Em suas palestras, outro economista, o Professor Gabriel Galípolo, entre brilhantes lições, cita pensamento de John Maynard Keynes quando da grande depressão de 1929: "abster-se de gastar em um momento de depressão é desperdiçar máquinas e trabalhadores disponíveis, é falhar com a sociedade e promover a miséria." Examinando especificamente o tema sob a ótima da gestão dos clubes de futebol, Galípolo complementa: "Em uma economia que o gasto é financiado pelo crédito, os balanços refletem uma ponte para o futuro, entre compromissos contraídos e as perspectivas de receitas. Medidas debilitadoras da capacidade atual solapam o futuro que sustenta o presente. A imposição de um limite linear e genérico ao gasto, pode deteriorar ainda mais a situação financeira. Despesas com custeio apresentam tendência mais autônoma de crescimento. Por exclusão, investimentos assumem o papel de despesas discricionárias. Os investimentos, já baixos e insuficientes, podem ser comprimidos ainda mais com a imposição de um limite genérico, empurrando a gestão financeira para uma espiral negativa: quanto mais corta, mais caí. A gestão que pretenda reverter este ciclo vicioso, necessariamente deve enfrentar a composição das despesas e estimular aquelas que edificarão o futuro." O futebol brasileiro precisa inverter o ciclo e parar de promover a miséria. Se já há quem diga que os jogos das principais divisões dos campeonatos pelo Brasil são tecnicamente inferiores àquilo que as TVs nos mostram dos torneios na Europa, com menos investimento, o desnivelamento técnico só fará aumentar, afastando o interesse do torcedor, diminuindo audiência, repelindo o mercado publicitário, até o momento em que nossos clubes perceberem que não haverá mais gastos a cortar, porém, sua situação financeira não apresentou melhora significativa. Esse é o círculo vicioso. O fim da crise financeira de boa parte dos clubes brasileiros deve até passar pelo corte dos gastos ruins, porém, a solução mesmo, sólida e consistente, somente virá com o aumento da capacidade dos clubes de obterem receitas que permitam aumento de investimento na atividade. Só assim, seremos capazes de reter os talentos que revelamos por mais tempo, contratar outros, inclusive estrangeiros e aumentar o interesse pelos jogos e campeonatos. A receita é aumentar o investimento, para produzir um ciclo virtuoso. Também por isso, é tão importante para o futebol brasileiro a aprovação do PL 5.516/2019, hoje em trâmite no Senado, que regulamenta a possibilidade de constituição pelos clubes de futebol brasileiros da Sociedade Anônima do Futebol - SAF. Porque o Projeto da SAF, que tramita no Senado, tendo sido apresentado pelo Senador Rodrigo Pacheco e, hoje, relatado pelo Senador Carlos Portinho, tem como principal objetivo oportunizar aos clubes aumento das receitas que hoje eles não alcançam, em muitos casos, porque organizados na forma de associações. Se perguntarem aos autores qual o objetivo central do Projeto da SAF, a resposta seria automática: "aumentar a capacidade dos clubes em obter receitas e de investir na empresa futebolística". Esse é o efeito principal pretendido, todos os demais são secundários. O Projeto da SAF trabalha na polaridade positiva. Não é contra ninguém. É um projeto "a favor": a favor da possibilidade de os clubes brasileiros receberem "dinheiro novo", seja com novas linhas de financiamento que, organizados na forma de sociedade anônima, os clubes terão acesso, seja pela emissão das Debêntures FUT. O futebol brasileiro pode até estar em crise, também, porque os clubes gastam mal. Porém, só vai sair da crise se investir mais. E, de há muito, entendemos que a inexistência de marco regulatório para criação de um mercado consistente para o futebol brasileiro, com a possibilidade de adoção de outra forma societária para os times, que não a das obsoletas associações esportivas, é obstáculo ao desenvolvimento da atividade. O ciclo virtuoso só virá com aumento de receitas e mais investimento. A criação da SAF certamente será o estímulo do qual o futebol brasileiro precisa. __________ 1 Íntegra aqui.
Paul Beatty é um escritor norte-americano, vencedor do Man Booker Prize. Dentre suas obras de destaque, relacionam-se as seguintes: The White Boy Shuffle; Tuff; Slumberland; e The Sellout.   No Brasil, é editado pela Todavia, que lançou, dentre outras, O Vendido (com tradução de Rogério Galindo). Não é uma obra fácil. Ao contrário. Nela, o autor trata de temas essenciais, como racismo, preconceito, educação e segregação. E de outros mais. A narrativa choca, em certas passagens, pela forma como Paul Beatty, que é negro, aborda, (apenas) aparentemente com tolerância e conivência, a suposta inevitabilidade da supremacia das classes dominantes (e brancas), a partir da história do protagonista e do desaparecimento político (e do mapa) de Dickens, a cidade em que mora, para atender a propósitos especulativos e imobiliários. O primeiro parágrafo do livro, nesse sentido, confunde as impressões a respeito do caminho que se seguirá: "[p]ode ser difícil acreditar vindo de um negro, mas eu nunca roubei nada. Nunca soneguei impostos nem trapaceei no baralho. Nunca entrei no cinema sem pagar nem fiquei com o troco a mais dado por um caixa de farmácia indiferente às regras do mercantilismo e às expectativas do salário mínimo (...)". Merece realmente ser lido. O motivo de mencioná-lo em artigo que pretende tratar da relevância do modelo do novo marco regulatório do futebol - que o Senado Federal em breve, ao que tudo indica, deverá pautar -, é a semelhança com certo debate que o autor apresenta em relação à universalidade do modelo educacional norte-americano: "Olha, a gente tentou de tudo: salas com menos alunos, mais horas de aula, ensino bilíngue, monolíngue e sublingual, inglês afro, inglês fonético e hipnose. Esquemas de cores projetados para criar o ambiente ideal para o aprendizado. Mas não importa quais tonalidades do morno para o quase frio você coloque nas paredes, no fim das contas são professores brancos usando metodologia branca e tomando vinho branco e algum administrador branco metido a besta ameaçando colocar um interventor na sua escola (...). Nada funciona." Curioso, mas descreve o momento do futebol brasileiro: nada, ou quase nada funciona como deveria - exceto para quem o controla (e, sob enfoque patrimonialista, para quem dele se apropriou, sem nada pagar em contrapartida). Já se debateu sobre tudo, sob todos os ângulos e justificativas, com ou sem a participação de governos, e sempre, sempre mesmo, partiu-se e chegou-se (ou não se chegou) a soluções, que não eram soluções - apenas paliativos - para preservar tudo como estava (e assim permanece) sob o controle das mesmas pessoas ou dos mesmos grupos cartolariais que destruíram a riqueza nacional, e que sempre quiseram, e ainda querem, que o Estado, mais uma vez, os salve, à conta do contribuinte; e, ao final, possam, com passes de mágica legislativa, começar novos ciclos de dominação - e apropriação. Por isso que, enquanto o Brasil se encolhe em revoltante insignificância, países europeus, outrora reverentes, tornaram-se mais relevantes, econômica e esportivamente, e passaram a olhar-nos com certo desprezo (e como meros provedores de pé-de-obra). Aliás, os europeus souberam separar os problemas e as soluções: de um lado, temas típicos de direito esportivo; de outro, temas de direito societário e de mercado. Em relação a estes, não foram a fundo, é verdade, como foi o PL 5.516/19, de autoria do Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Mas produziram leis que tiveram o mérito de reverter cenários complexos - e eventualmente caóticos. Pois bem. Talvez, pela primeira vez, se consiga, com a proposta do Presidente do Senado Federal, desmembrar a discussão - e tratá-la, menos no âmbito das páginas esportivas, e mais nas páginas econômicas. A propósito, é sempre bom lembrar: essa confusão conceitual - ou temática -, que agora se evita, marcou (talvez de modo intencional) a Lei Pelé e a impediu de atingir os propósitos almejados. Não se pretende, pois, com o PL 5.516/19, regular a atividade esportiva - que merece, sim, ser repensada e eventualmente reformada, mas no âmbito de uma reforma setorial -, mas criar o novo mercado do futebol. A bola, agora, está com o Senador Carlos Portinho (PL/RJ), que conhece profundamente o direito esportivo, e teve a sorte - que é um atributo a ser festejado e agradecido - de ser o escolhido, pelo Presidente Rodrigo Pacheco, para relatar o mencionado PL 5.516/19, com as características indicadas acima, no momento mais delicado da história do futebol brasileiro. E, assim, possui a chance de participar da necessária e emergencial construção do marco legislativo que poderá resgatar e recolocar o futebol brasileiro em posição condizente com a importância esportiva que já teve.
Os efeitos da desesperada (e daí muitíssimo criativa) batalha do Figueirense, popular clube de futebol catarinense, para ser reconhecido como empresa, apesar de ter sido constituído e sempre operado como associação civil, projetar-se-á sobre o universo dos clubes brasileiros e os envolverá em um ambiente de incontornável incerteza e insegurança. A solução individualista poderá, é verdade, dar algum fôlego ao clube para esticar sua agonia, à conta de credores; mas não o tornará saudável, sustentável e competitivo. Há apenas uma saída (para o Figueirense e para as centenas de endividados clubes brasileiros): um novo marco regulatório, que crie o novo mercado do futebol, com a regulação (i) da sociedade anônima do futebol, (ii) de técnicas próprias de governação e controle das práticas gerenciais, (iii) de vias de recuperação, tratamento de passivos e financiamento da empresa futebolística, e (iv) de um sistema racional (e transitório) de tributação. A partir dessas proposições, explica-se, inicial e brevemente, o Caso Figueirense; na sequência, serão apresentados os riscos de seus desdobramentos; e ao final sugere-se e se aborda a solução sistêmica, de natureza legislativa. O Caso No dia 11 de março, o Figueirense Futebol Clube ("Clube"), constituído sob a forma de associação civil, requereu, em conjunto com o Figueirense Futebol Clube Ltda. ("Empresa"), concessão de Tutela Cautelar em Caráter Antecedente, Preparatória de Pedido de Recuperação Empresarial ("Requerimento"). O Clube e a Empresa são entidades distintas, controladas por pessoas ou estruturas também distintas. A Empresa, formada em 2014, celebrou, em 2017, uma série de negócios que resultaram, pelo que se depreende do Requerimento, na transferência ou cessão de ativos originalmente detidos pelo Clube. Anunciou-se, à época, que a parceria envolveria, dentre outros aspectos, (i) a assunção, pelo investidor - que teria por trás um fundo de investimentos internacional, cuja identidade jamais foi revelada -, de dívidas da ordem de R$80 milhões e (ii) o controle de atividades primárias e essenciais do futebol. Apesar da existência de relações jurídicas contratuais entre ambas as entidades, não haveria coincidência de comando, dependência ou vinculação. Portanto, cada uma atuaria de modo independente - e correndo seus próprios riscos. Ressalta-se, aqui, a falta de transparência e de informações sobre a estrutura original do negócio e, em especial, sobre a identidade do beneficiário final (ou seja: o idealizador e suposto provedor de recursos para a Empresa) e seus propósitos1.  Mas essas características foram, diante da inexistência de um marco regulatório adequado, admitidas pelos associados do Figueirense, que aprovaram o negócio. Como se antevia, com base no histórico de negociações obscuras ocorridas desde o advento da Lei Pelé, os resultados se revelaram muito diferentes dos prometidos: seja por incompetência ou por má-fé na gestão da parceria e dos gestores (e controladores) das partes envolvidas, o endividamento aumentou de modo relevante (estima-se que seja, atualmente, da ordem de R$165 milhões2), as obrigações deixaram de ser honradas e o time amargou vergonhoso rebaixamento à terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Em outras palavras, presenteou-se a coletividade de torcedores do Figueirense com a ruína e o caos. Os Riscos do Requerimento Para tentar sair do caos individual, o Clube e a Empresa trouxeram uma nova modalidade de conduta individualista, tornando ainda mais complexa a caótica situação da atividade (ou da indústria) futebolística.   Explica-se. Clubes de futebol se organizam, historicamente, como associações sem fins econômicos. Associações não ostentam natureza empresarial - e, sim, civil -, não distribuem seus excedentes (lucros) aos associados, existem para cumprir as finalidades (não empresariais) para as quais foram criadas e se beneficiam de regimes tributários diferenciados. Uma - senão a principal - consequência de sua natureza não econômica é a inaplicabilidade - para o bem e para o mal - das normas próprias do empresário, dentre elas as contidas na lei 11.101, de 9 de fevereiro de 2005 ("Lei de Recuperações e Falências"). A propósito, o art. 1º dessa lei - recentemente alterada pela lei 14.112, de 24 de dezembro de 2020 -, não foi modificado para estender aos "agentes econômicos" a legitimidade para requerer recuperação empresarial e falência. Assim, manteve-se sua abrangência ao empresário e à sociedade empresária. Portanto, se, por um lado, o clube, ao assumir a natureza civil - e não empresarial - se priva do acesso aos instrumentos de financiamento de atividades produtivas disponíveis no mercado aos empresários em geral, por outro, protege-se das vicissitudes da própria atividade empresarial, que é, por definição, uma opção pelo risco, dentre elas a falência. O Clube Figueirense empreende, nesse momento, batalha para ter sua natureza empresarial reconhecida porque, isoladamente, a recuperação da Empresa Figueirense não resolve o problema da marca, do futebol, da atividade (e dos torcedores). Apenas a extensão dos efeitos recuperacionais ao Clube poderá prover alguma esperança. Assim, se tiver êxito em sua empreitada, terá, por via transversa, subvertido (talvez de modo involuntário, ou não) 120 anos de um regime protetivo, que vem sendo defendido com todas as forças pelos dirigentes que se sucedem no comando de clubes associativos (porque, em última análise, induziu e viabilizou - como ainda induz e viabiliza - a gestão irresponsável e temerária, e a obtenção de vantagens pessoais, que levaram ao acúmulo de uma dívida da ordem de R$ 7 bilhões).    Os motivos da subversão são os seguintes: primeiro, se um clube associativo desenvolve atividade empresarial, e pode requerer recuperação, também poderá, nesta hipótese, vê-la convolada em falência, se o plano não for aprovado ou executado. Segundo (decorrente do primeiro), se o clube está autorizado a requerer recuperação, também estarão os milhares de credores das centenas de clubes devedores autorizados a requerer falência das entidades associativas, operadoras de empresas do futebol. Terceiro, e não menos relevante, a decisão do Figueirense, obtida em notável esforço intelectual de seus advogados, poderá não se reproduzir em outros foros ou tribunais, criando um ambiente de incerteza e insegurança jurídica ao já debilitado futebol brasileiro. Portanto, mesmo que a decisão ofereça fôlego imediato a um agente específico, em função de um caso também específico e concreto, não criará o ambiente sistêmico necessário ao resgate da atividade do futebol, que pressupõe normas e técnicas institucionalizadas, aptas a oferecer confiança e segurança. A Solução  A decisão no Caso Figueirense é proferida de modo casuístico. Ao beneficiar um agente de modo isolado, desconsidera os efeitos econômicos, não computados no caminho individual escolhido pelo Clube. O seu deslinde não significa que os demais poderão, ao segui-lo, atingir o mesmo resultado. E muito menos que, ao obterem uma decisão autorizativa de iniciação de um processo concursal, atrairão bons investidores ou a aceitação de credores. Pode se revelar, assim, o princípio da falência. Mais o do que isso, aliás: significa, sob outro ângulo (na verdade, o outro lado da mesma moeda), que foi aberta a possibilidade de credores, com base na mesma tese, requererem a falência de seus devedores: os mais de 700 clubes brasileiros.   Ou seja, a conta decorrente da falta de preocupação generalizada com uma solução sistêmica para o Brasil, que vem sendo rebaixado à posição de exportador terceiro-mundista de commodity, será distribuída aos demais clubes, os quais, a partir de agora, além de não poderem acessar instrumentos adequados de financiamento da empresa futebolística, podem, a depender da "corrente" de pensamento do magistrado que analisará o caso concreto, falir. Os dirigentes, donos do futebol brasileiro, conseguiram o que parecia impossível: apequenaram a importância da atividade para o País, manipularam os legisladores, distanciaram os torcedores, construíram dívidas bilionárias e instituíram o caos. Por tudo isso, não haverá solução fora de uma remodelação sistêmica, que trate, inclusive, do problema do endividamento. É esse, aliás, o esforço que vem sendo empreendido pelo Presidente do Senado Federal, Senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), autor do PL 5.516/19, que, além de outros temas prioritários e emergenciais - o principal deles o enfrentamento da crise pandêmica e a solução para vacinação da população - afirma, desde a sua posse, a intenção de pautar, com brevidade, a votação do novo marco do futebol. O Presidente Rodrigo Pacheco nomeou o Senador Carlos Portinho (PL/RJ) para relatoria. Desde a nomeação, o Relator vem dialogando com os agentes envolvidos e interessados no futebol. Faz bem. É o pressuposto do regime democrático. Espera-se, porém, que saiba, em sua relevante função, produzir um relatório que atenda aos interesses do Brasil - e do torcedor brasileiro -, e não de herméticos grupos de poder, que, além de terem destruído a riqueza nacional, defenderam - e defendem - posições egoísticas e interessadas, divorciadas das causas grandiosas - como é a causa do futebol, sob os prismas social, econômico, esportivo e educacional. As expectativas são, portanto, muito grandes, como grande foi o futebol brasileiro, que poderá voltar a ostentar a mesma - ou maior - dimensão, se o bom caminho, no plano legislativo, for, enfim, pavimentado. __________ 1 Esta coluna publicou, em 2017, texto com o título "E agora, torcedor do Figueirense?". Nele, além de apontar a falta de clareza em relação ao negócio que se anunciava, questionou-se a viabilidade do sonho que se prometia e se afirmou que "[e]nquanto não se refundar a estrutura do futebol brasileiro, as iniciativas - mesmo que, na essência, bem intencionadas - isoladas e pouco transparentes continuarão a estimular a sensação - ou a certeza - de que se mantém o aviltamento do patrimônio futebolístico nacional. Torçamos, entretanto, para que, um dia, não se perceba, subitamente, que 'a festa [ou o jogo] acabou, a luz apagou, o [investidor ou a torcida] sumiu''". Disponível aqui. 2 Figueirense é primeiro time a ter legitimidade de recuperação judicial.
Não se pode brincar com a situação pandêmica que assola o planeta - e seus habitantes. Comparações com outras atividades correm o risco de desrespeitar a dor coletiva, as pessoas que se foram, as que ficaram com feridas insuperáveis e as que, de outras maneiras, perderam parcelas de suas vidas úteis. Mas referências, além de inevitáveis, podem ser pertinentes. Aliás, choca, nesse cenário, a postura de parte da população - sobretudo das classes mais favorecidas, supostamente bem informadas - que se rendeu ao (pseudo) isolamento, e mesmo assim sem convicção, somente após a ameaça de congestionamento no acesso a leitos dos hospitais particulares. Esse padrão de conduta não é, infelizmente, inovador. Na atual conjuntura de crise sistêmica, o individualismo da sociedade brasileira talvez emerja com mais intensidade, mas esteve presente desde o assentamento das populações europeias, criadoras, aqui e em qualquer outro território colonizado, de culturas essencialmente patrimonialistas. Daí a sensação de normalidade em relação a práticas anormais, como as bolhas condominiais (que se fecham às cidades), a blindagem automobilística e o congestionamento aéreo de helicópteros (símbolo extremo do distanciamento das realidades das gentes). Fato é que, no Brasil, vive-se uma série de situações com potencial devastador (inclusive, em alguns casos, superior ao da Covid-19): miséria, fome, ausência de saneamento básico, déficit educacional, preconceito, racismo e feminicídio. Nesse mesmo sentido, a importância do futebol também vem sendo detonada, voluntária ou involuntariamente, por conta da falta de preocupação (ou do desprezo) com uma atividade que, nascida elitista, tornou-se popular e passou a simbolizar uma das poucas vias de mobilidade social. Ao contrário da crise sanitária que se espalhou, em curto prazo, por todas as regiões do planeta, a crise do futebol brasileiro é antiga e longeva. E não se revelou, até agora, aptidão para, conforme se verificou em outros países, reagir e antever soluções regulatórias adequadas à formação de um ambiente resiliente e saudável, além de relevante social e economicamente. Esse é o ponto. Não se trata, o futebol, de tema irrelevante ou com finalidade apenas recreativa ou lúdica. Aliás, se caracteriza justamente por oferecer diferentes perspectivas, das mais singelas às realmente transformadoras. A verdade é que preponderou - e ainda prepondera - a sensação e o discurso de certa irrelevância sistêmica. Não à toa, costuma-se afirmar que o futebol é a mais importante das coisas menos importantes. O lema - inverídico - é sustentado justamente pelos donos do futebol: cartolas que se sucedem no comando de associações sem fins lucrativos, politizadas e nada transparentes; e repetido por pouquíssimos agentes que se beneficiam da estrutura concentrada de poder - e das mazelas internas e externas. Há motivo para essa insistência retórica: com ela, a sociedade distanciou-se de atividade que já foi associada ao ser brasileiro, e passou a considerar com naturalidade a decadência de times e da própria seleção nacional, abandonando a sua própria identidade.   O cenário de terra arrasada inibiu - como ainda inibe - movimentos transformacionais, e permitiu o encastelamento da classe cartolarial.  O problema é que se atingiu tal nível de destruição, que afeta, de modo estrutural, a capacidade generalizada de formação de jovens jogadores, de geração de renda e riquezas, de incremento da perspectiva tributária do Estado, de atração de patrocínios, de criação de um sistema sustentável e colaborativo, e de afirmação de uma atividade social e economicamente relevante. A sensação, com efeito, nessa terra arrasada, é que cada um busca se salvar como puder e preservar o (pouco) que ainda tem - depois de ter participado e contribuído para tais resultados -, e assim incentiva a autodestruição coletiva. Infelizmente, clubes tradicionais como o Cruzeiro, o Botafogo e o Vasco, rebaixados à segunda divisão; o pífio rendimento do Palmeiras - uma das duas maiores potências atuais do futebol brasileiro - na Copa Mundial de Clubes; e, ainda, a desesperada tentativa do Figueirense, time mais popular de Santa Catarina, de tentar se salvar por via da criatividade jurídica, mediante futuro pedido de recuperação judicial; reforçam todos os argumentos apresentados.   Resgatando-se, novamente, o cenário pandêmico - e com as escusas pela comparação -, assim como não haverá solução sem vacina, no plano do futebol também não se construirá um caminho salvador sem um novo marco regulatório, que traga confiança aos agentes que dele fizerem ou pretenderem fazer parte. A esperança está depositada no presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), que, ao que tudo indica, pretende enfrentar e contribuir para solucionar ambos os problemas: a viabilização política de caminhos para aquisição de vacinas e a vacinação coletiva, e a criação de um novo marco regulatório, instituidor do novo mercado do futebol. Torçamos para que os dois se resolvam, com muita rapidez, em benefício do País e de seu povo.
Shogun, a épica (e maravilhosa) novela sobre o Japão, escrita por James Clavell, trata, obviamente, do país asiático, e de muito mais: dentre outros temas, da evolução e da involução humana, sob prismas culturais, sociais, econômicos, comerciais, políticos e religiosos. Situada no início do século XVII, oferece um panorama riquíssimo a respeito da geopolítica mundial naquele tempo e da hegemonia ibérica, sobretudo lusitana, no comércio com o Japão; e da forma como a ganância e a intolerância criaram o ambiente para mudanças determinantes na construção de novas ordens de influência e de poder (que levariam à decadência de ambos os impérios europeus e ao surgimento de inigualável potência colonizadora: a Inglaterra). Os ibéricos cometeram, ao longo da história, erros que os privaram da manutenção de posições hegemônicas: um deles foi a insistência no modelo estatal de conquista e exploração das colônias. Enquanto ingleses e holandeses, como exemplos, financiavam as empresas marítimas com capitais híbridos (públicos e privados), e assim dispunham de recursos para emprego em atividades essencialmente estatais, o patrimonialismo português e espanhol, caracterizado pela confusão entre o monarca e o reino (e suas riquezas), dependia da obtenção de financiamentos externos para manutenção dos excessos da corte e para expansão colonial e defesa das terras conquistadas. O problema é que a conta um dia sempre chega. E chegou sob a forma de transferência de poder a outra nação e, de certo modo, de abdicação de soberania sobre políticas expansionistas e tarifárias. Portugal e Espanha jamais se recuperaram - e jamais voltarão a dominar e a dividir o planeta, como fizeram no passado. No plano do futebol, Portugal, até Cristiano Ronaldo, nunca teve real expressão (apesar de ter produzido alguns excelentes jogadores, como Figo: melhor do mundo em 2001). O período de Eusébio também foi marcante, sem dúvida, mas não o suficiente para consagrar o país como uma potência. Na Espanha, a história é diferente: o insucesso quase secular de sua seleção, que não merecia a fama que a enquadrava como potência até a conquista do Mundial de 2010 (sua primeira aparição em uma final de Copa do Mundo, aliás), não obstaculizou a construção, no plano clubístico, de projeto hegemônico, a partir da fissura que ainda hoje ameaça a sua unidade política. Foi assim que se forjaram Real Madrid, símbolo da força unificante de uma nação, e Barcelona, retrato da orgulhosa resistência catalã. Criou-se, ali, um duopólio: de 1929 a 2020, ambos levantaram 60 títulos do principal campeonato espanhol (atualmente, observadas mudanças históricas, reconhecido como "la liga"). A desigualdade de forças e de tratamento que se atribuiu apenas aos dois clubes resultou, em relação aos demais, na inviabilidade sistêmica, o que exigiu a atuação estatal, por meio do advento de um marco regulatório indutor da passagem dos moribundos clubes-associativos para sociedades anônimas desportivas (SAD). O modelo adotado não enfrentou e não resolveu a estrutura de privilégios concedidos a Real Madrid e Barcelona - que se mantiveram organizados sob a forma associativa - e, ao mesmo tempo, impediu o desenvolvimento empresarial de todos (ou praticamente todos) os demais times, transformados em SAD. Durante anos, as contratações milionárias e os títulos de ambos os times esconderam a podridão e a corrupção internas - bem como o desacerto do modelo. Não à toa, no Brasil, tornaram-se símbolos de justificação do sistema existente e de sua viabilidade, sob a dominação da classe cartolarial. Mas a farsa espanhola está em vias de ruir. No caso do Barcelona, além das dívidas bilionárias - que, apesar de pagáveis, exigirão esforços e reestruturações que afetarão a capacidade de, no curto prazo, competir em alto nível -, seus dirigentes estão envolvidos em acusações de práticas de atos de corrupção (dentre outros crimes). Para complementar o cenário desastroso, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) acaba de reconhecer a ilegalidade do tratamento tributário diferenciado a clubes associativos, que se beneficiam de uma vantagem competitiva derivada de lei. O que isso tudo tem a ver com o Brasil? Ora, caiu o último argumento dos donos do futebol, de que a força espanhola demonstrava a viabilidade da preservação do clube, como via de organização da atividade futebolística, apesar do endividamento e da insolvência generalizada e da incapacidade do futebol brasileiro de, sob o sistema atual, reagir ao processo autodestrutivo. Agora, não há mais a que se agarrar. As mudanças, que já eram inevitáveis - e não ocorriam pela influência de cartolas que defendiam seus interesses, e não dos times, dos torcedores ou dos brasileiros - revelam-se, mais do que nunca, necessárias e emergenciais. Daí a esperança de que o Senado Federal, enfim, conforme manifestação de seu presidente, senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), autor do projeto de lei 5.516/19, que cria o "Sistema do Futebol Brasileiro, mediante tipificação da Sociedade Anônima do Futebol, estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e previsão de um sistema tributário transitório", vote, nas próximas semanas, o modelo que poderá iniciar o processo de salvamento do patrimônio cultural e esportivo nacional e do recobro da esperança de 140 milhões de torcedores.
quarta-feira, 3 de março de 2021

A hora da maior virada do gigante Vasco da Gama

O Clube de Regatas Vasco da Gama é um GIGANTE. Como diz a letra do samba-enredo que celebrou seu centenário é "campeão de terra e mar". Nas regatas teve sua origem e tantas conquistas do seu remo "imortal". No atletismo, o "braço", foi o Clube ao qual estava vinculado Adhemar Ferreira da Silva quando do seu segundo ouro olímpico, em Melbourne 1956. Porém, foi com os inesquecíveis times de futebol que o Vasco arrebatou os corações de dezenas de milhões de torcedores "norte e sul, norte e sul desse país", mercê de suas inúmeras vitórias em competições nacionais e internacionais. Atualmente, porém, a modalidade principal do Vasco não é mais o futebol, nem o remo, nem o atletismo ou o basquete. O "esporte" que mobiliza atenções e energias de associados e conselheiros é o "jogo da política". Para quem dela se ocupa, a política do Vasco é entretenimento de primeira: tem lances de House of Cards, com pitadas de romances de tribunal de John Grisham e, às vezes, a ação descamba para o MMA ou para o Western, quando os casos são levados para o clima noir das delegacias dos livros do inesquecível Vascaíno Rubem Fonseca. Porém, para as dezenas de milhões de torcedores absolutamente excluídos e alijados das tramas dos corredores de São Januário, a política transmite a clara mensagem de total descompromisso com a evolução e modernização da Instituição. Não é só no Vasco, é claro. Mas o tema aqui é o Gigante da Colina Histórica. A estrutura associativa sequestrou o Vasco e nada indica que os "cartoligarcas abnegados" pretendam deixar suas épicas batalhas internas, para devolver o Almirante aos seus verdadeiros donos, os torcedores, que acompanham tudo de longe, com justificada aflição. Na última eleição, votaram pouco mais de dois mil associados, em um processo recheado de voltas e reviravoltas, cassações e confirmações judiciais, enfim, na última eleição os políticos do Vasco se superaram no quesito insegurança e instabilidade institucional. Como em vários outros clubes, o Vasco tem seus grupos políticos que nada propõem de diferente entre si e só existem para tornar as pelejas mais "sofisticadas". Gasta-se muito mais energia para elaborar acordos e coligações para a tomada do poder, do quem em planos de longo prazo, planejamentos estratégicos, ações de marketing e medidas econômicas para devolver o Gigante da Colina aos seus dias de glória nos campeonatos de futebol. Quando o presidente vence a eleição, tem de "dividir" os cargos de direção com os representantes dos tais grupos políticos que o apoiaram, ou que pretenda cooptar. Desnecessário ter poderes sobrenaturais de adivinhação para constatar que tantos e quantos treinadores já perderam seus cargos por pressão de tais grupos, que ameaçam retirar seu apoio se não tiverem atendidas suas reinvindicações. Teria sido Ramon Menezes um desses que caíram por pressão dos "partidos políticos" de São Januário? Seja como for, deu no que deu, como já tinha dado outras vezes antes. Muitos conselheiros de clube de futebol, em grande parte deles, ainda pensam que conhecem mais do jogo de bola do que os profissionais do esporte com formação e experiência específica para esse tipo de trabalho. Padece o futebol brasileiro, que um dia teve seus clubes disputando palmo a palmo com os europeus nas finais dos mundiais de clube. Ficamos no passado. Eis que, resignados, assistimos ao quarto rebaixamento do Clube de Regatas Vasco da Gama para a Série B do Campeonato Brasileiro. Estou convencido de que a constante ebulição política na Rua General Almério de Moura, 131, contribuiu para esse final que, mais uma vez, machuca o coração do vascaíno. É a nova queda de um Gigante. Porém, jamais terá sido a queda definitiva. O Vasco pode ser muito mais do que é hoje. Para alguém que se dedica ao estudo da questão do futebol-empresa, parece bastante lógico sugerir ao Vasco da Gama a separação da gestão do futebol do clube social, de modo que o futebol profissional venha a ser administrado como uma sociedade anônima, o que poderá despertar interesse de investidores que venham a aportar, com segurança e sem decisões calcadas no "mecenato", dinheiro novo para reerguer o time. Tais recursos dificilmente serão obtidos em ambiente político tão instável e conturbado como o que se vê hoje, no associativismo obsoleto da política dos poucos - se comparados com o número de torcedores - conselheiros e associados. O Vasco da Gama seria um caso especial de clube-empresa, com grandes chances de êxito. Por uma razão específica: o time da virada tem uma torcida enorme e de abrangência nacional. Além de ter dado, nos últimos tempos, demonstração de um vínculo fortíssimo com o Clube, como no caso do sucesso arrebatador do plano de sócio torcedor e arrecadação para construção de um centro de treinamento. O torcedor do Vasco da Gama já mostrou que está louco para contribuir para o reerguimento do time do seu coração. Basta que lhe seja apresentado um projeto viável e confiável e, principalmente, blindado contra a instabilidade da política interna. O amor da numerosa torcida é o maior indício de que, com o futebol bem gerido, de forma profissional e moderna, com bons planos de marketing, finanças saneadas e bom desempenho em campo, o clube-empresa para gerir o futebol pode devolver o Gigante aos seus dias de glória. O time da virada pode sim dar a grande virada de sua História. O Clube que é símbolo da inclusão racial no esporte do Brasil e, só fosse só por isso, já mereceria de todos nós respeito e admiração, pode se afastar do modelo antigo e superado e ser vanguarda de novo. Basta que os poderes do Clube o queiram e tenham coragem, vontade política e desprendimento para fazer acontecer. Para que sua imensa torcida volte a ser bem feliz.
Quincy Jones é um desses seres humanos que justificam a criação. Nasceu paupérrimo e viveu a infância, nos anos 1930, na violenta zona sul de Chicago. Nesse período chegou a flertar com o crime pela falta de referência e perspectiva (queria ser um gangster), até encontrar um piano abandonado. Ao tocar e ouvir o som do instrumento, entendeu que se tratava de um chamado. Foi estudar música e se tornou multi-instrumentista; mas deu prioridade ao trompete. A partir dos 14 anos já rodeava músicos como Count Basie e Clark Terry. Aos 18 ingressou na banda de Lionel Hampton e passou a chamar atenção dos principais jazzistas dos Estados Unidos. Ainda muito jovem, produziu e conduziu - contra a vontade da gravadora - o álbum de Dinah Washington, chamado For Those in Love, e se tornou uma referência, iniciando parcerias com outros grandes nomes, como Louis Armstrong, Charlie Parker, Sarah Vaughan e Dizzy Gillespie. Com alguns baixos e muitos altos, construiu, a partir dali, uma carreira fenomenal, conforme se indica no documentário Quincy (2008), disponível na plataforma Netflix: gravou mais de 300 álbuns e 2.900 músicas; fez 51 trilhas de filmes e programas de televisão; foi indicado 79 vezes e ganhou 27 prêmios Grammy; também levou os prêmios Oscar, Emmy e Tony; e orquestrou e arranjou para os maiores nomes da música, como Frank Sinatra - que o venerava -, Ray Charles e Miles Davis. E não foi só: aventurou-se pelo cinema, com a produção, por exemplo, de A Cor Púrpura (película dirigida por Steven Spielberg e estrelada por Danny Glover e Whoopi Goldberg).   "Q", como seus admiradores o chamam, também soube compreender os movimentos musicais e comportamentais que se formavam, com o início da massificação da imagem e do som, e transformou Michael Jackson no maior fenômeno pop da história: primeiro com o álbum Off the Wall e, depois, com Thriller, o mais vendido de todos os tempos. Nos anos 1980, protagonizou mais um evento histórico: emocionou o mundo ao conduzir estrelas da música em canção que tinha como propósito levantar recursos para população faminta de países africanos: We Are the World; aliás, esse também se consagrou como o single mais vendido de todos os tempos. Ficou riquíssimo, constituiu empresas e fundações ao redor de seu nome e ideias, e continuou a ser reverenciado no mundo das artes, da política e em outros segmentos. O mencionado documentário (Quincy) mostra o tamanho de sua influência: convidado para comandar o evento de abertura do Smithsonian's Museum of African American History and Culture, ele preparou uma lista de personagens que gostaria que estivessem presentes: de Barack e Michelle Obama a Colin Powell, de Oprah Winfrey a Robert DeNiro, de Herbie Hancock a John Legend. Todos atenderam o seu chamado. E de onde veio tanto respeito e reverência? De suas qualidades musicais ou comunicativas, apenas? Não. Pois, nesses quesitos, outros personagens podem - e foram - maiores do que ele (não no conjunto da obra, mas em características isoladas). A grandiosidade de sua existência - e de seu papel na sociedade - se afirmam com a convicção de que também poderia - e deveria - atuar para construção de um mundo menos injusto e desigual. Direcionado, em especial, a temas ligados às lutas das populações negras, envolveu-se em tentativa de pacificação de guerras entre rappers e suas gangues, bem como em campanhas sociais de arrecadação de recursos para população carente da África do Sul. Pelo que fez (e pelo que é), líderes da envergadura do Papa João Paulo II e Nelson Mandela, músicos do tamanho de Bono Vox e Paul McCartney, e artistas da importância de Sidney Poitier e Tom Hanks, o festejaram (ou festejam). Enfim, cumpriu, e ainda cumpre sua missão neste mundo, mesmo que tivesse como alternativa o gozo isolado ou privativo da fama e da riqueza adquiridas com seu esforço e talento. Isso tudo me faz refletir sobre a oportunidade de Rogério Caboclo, presidente da CBF. Aliás, em texto publicado neste espaço, em agosto de 2019 (o título era A grande oportunidade da CBF - e de Rogério Caboclo), escrevi o seguinte: "Mais importante do que a instituição de instrumentos formais, que podem ter efeito prático, ou não - e que são adotados com frequência em companhias para legitimar discursos vazios -, a CBF se depara, agora, com a rara, raríssima oportunidade de apresentar-se ao Brasil como uma entidade que está materialmente comprometida com o desenvolvimento do futebol, dos times e de seus jogadores e, em última análise, do país. E Rogério Caboclo é premiado com a oportunidade de se consagrar como o presidente que liderará o processo de reconquista do protagonismo do futebol brasileiro num ambiente globalizado e extremamente competitivo. Poucas pessoas tiveram oportunidade tão grandiosa." De modo ainda mais intenso, aquela impressão - ainda não realizada - se renova. Rogério Caboclo é inteligente, muito bem formado e preparado (intelectual e tecnicamente). Antes de assumir um dos mais importantes cargos que um brasileiro pode almejar (é o que eu penso), vivenciou a realidade interna de um grande clube - o São Paulo - e da Federação Paulista de Futebol. Ele conhece, como poucos, a estrutura do futebol brasileiro. O que faz e fará com tudo isso, o diferenciará - ou não - dos demais homens e mulheres que passaram pelo esporte, mesmo os que tiveram fama e poder (e dinheiro), mas que não deixaram nada para a sociedade - e, assim, a história cuidará de colocá-los em seus devidos lugares (se é que terão algum lugar na história). Eis, portanto, o seu dilema: seguir o caminho da burocracia cartolarial ou tornar-se um líder, reconhecido e admirado (e, de algum modo, imortalizado). Mais do que ninguém, Rogério Caboclo sabe que o modelo atual de administração clubística é insustentável: nada mais, nada menos do que 5 campeões brasileiros disputarão a série B1 em 2021, um recorde negativo histórico; e grande parte dos clubes que disputam as séries A e B está, tecnicamente, insolvente (ou beira a insolvência). E o problema vai além: os jogadores brasileiros se tornaram coadjuvantes e os clubes, por sua vez, meros exportadores terceiro-mundistas de commodities.   Mesmo a seleção brasileira, que continua a ser um sucesso empresarial (por conta dos patrocínios, amistosos, licenciamentos, receitas e lucros), deixou de ter o peso reverencial que encantava as gentes. Todos esses sinais decorrem de um mesmo problema, consistente, como já se apontou, no esgotamento do modelo puramente político-associativo, inaugurado no século XIX, e que já foi superado nos demais países relevantes que concorrem com o Brasil. Por tudo isso, a milionária CBF administra e organiza um sistema interno falido (mas que a alimenta); sistema que clama por uma solução salvadora, concebida a partir do princípio do alinhamento de interesses, perspectivas e resultados.   Mas a oportunidade (e a sorte) insistem em bater à porta do presidente da CBF: novamente em seu mandato, e de modo robusto e amadurecido, o País se aproxima do advento de um novo marco regulatório, criador do novo ambiente do futebol, de autoria do Senador e, hoje, Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Esse marco regulatório encaminha a via para atração de capitais (nacionais e internacionais), para recuperação das empresas futebolísticas, para preservação da tradição e da importância dos times brasileiros, para melhoria da formação e das condições dos jogadores, para criação de empregos, e para contribuir com o desenvolvimento social e econômico da nação. E o que é mais relevante: essas oportunidades surgem no âmbito de uma atividade global; aliás, muito mais global do que a música, porque, ao contrário desta, que é segmentada - um ídolo de jazz não se comunica com um fã de k-pop, assim como, para ficar apenas em mais um exemplo, um ídolo de heavy metal não dialoga com o seguidor de bossa-nova - o futebol é uno e universal, e congrega aproximadamente 4,5 bilhões de seguidores. Eis a oportunidade de Rogério Caboclo: apoiar e contribuir, e, no âmbito de atuação da instituição que preside, liderar, como autoridade máxima nacional, o projeto de salvamento, recuperação e desenvolvimento do futebol e dos times brasileiros, em benefício de 140 milhões de torcedores. __________ 1 O Vasco ainda ostenta chances de permanecer, mas depende de uma combinação milagrosa de resultados.
Pelé, em campo, foi uma entidade que se confundiu - e se confunde - com outra, o futebol. Sem ele (Pelé), o futebol não seria o que é. Daí não fazer sentido qualquer tentativa de compará-lo a outro jogador, passado ou presente. Listagens ou enquetes especulativas a respeito de quem foi ou é maior e melhor valem para jogadores mundanos, eventualmente heróis, mas não para divindades. Quero dizer: para divindade, porque o esporte mais praticado e acompanhado do planeta é monoteísta e reconhece, portanto, apenas um Deus. Fora de campo, paradoxalmente, Pelé talvez seja mais falível do que a média dos mortais; porque, na verdade, não se trata do futebolista, mas do ser humano, com as suas incertezas e as suas idiossincrasias. O elo (ou a tensão) entre ambos, o Deus e o homem, se revelou, publicamente, por ocasião do milésimo gol de Pelé, ocorrido em 19 de novembro de 1969, no Maracanã, diante do Vasco da Gama - o mesmo e outrora poderoso time que, na atual temporada do campeonato brasileiro, está diante de mais um (e humilhante) rebaixamento à segunda divisão. Foram, dentre outras, as seguintes as palavras proferidas naquele momento histórico: "[p]elo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das criancinhas, as criancinhas pobres, as casas de caridade. Vamos pensar nisso. Não vamos pensar só em festa. (...) Essa camisa aqui [a do Santos] eu agradeço a todos vocês terem apoiado. Essa camisa aqui e essa bola do jogo de hoje eu vou oferecer para a minha filha (...). Em nome da minha filha, quero oferecer esse milésimo gol a todas as crianças do mundo". Esperava-se mais do ídolo: um discurso incisivo contra a ditadura. Mas era demais para Edson. Décadas após a criticada fala, dela se pode extrair, no entanto, um clamor, incompreendido - mesmo que involuntário -, dirigido menos à população e muito mais ao Governo, num primeiro plano, e ao Estado brasileiro, em plano mais elevado. Sim, pois a educação era, e ainda é, um artigo de luxo, ostentado pelos filhos privilegiados das classes médias e altas, e o futebol, prática marginalizada e desprezada pelas elites - exceto como forma de passatempo ou de imposição de projetos de poder -, indicava (e ainda indica) a via de aproximação, para milhares ou milhões de crianças, entre os mundos dos ricos e dos pobres. Com efeito, em países "em desenvolvimento" (melhor seria, naqueles que foram invadidos, expropriados e usurpados pela sanha e pelo poderio europeus), como os africanos e sul-americanos, o futebol se transformou, sobretudo a partir da década de 1970, na esperança salvadora e iluminadora de crianças e de suas respectivas famílias. No plano legislativo, o Brasil não soube reconhecer e aproveitar a riqueza que sua gente lhe deu. Desde, pelos menos, os anos 1950, políticos e governantes se aproveitam da popularidade do futebol apenas para bancar campanhas oportunistas ou populistas. Pelé - é verdade -, na esteira de tentativa anterior, formulada por outro grande jogador, Zico, tentou, mas fracassou. Aliás, ambos fracassaram, menos - acho eu -, por falta de boa intenção, do que pelos respectivos momentos político-econômicos. Quando fizeram, cada um a seu tempo, parte do Governo, o País se abria para o mundo, o mercado local ainda não se firmara, a estabilização econômica, com Fernando Henrique Cardoso, engatinhava e a afirmação democrática se apresentava como uma incógnita. Depois daquelas tentativas (consubstanciadas nas Leis Zico e Pelé, respectivamente), reformas ocorreram, ora para reforçar posições dos grupos de interesses predominantes, ora para oferecer meios ineficazes de ajuda financeira ao combalido sistema futebolístico, sempre à conta da população e dos tributos que pesam sobre os seus ombros. O resultado, todos já sabem, se expressa pela falência do futebol brasileiro, retratado, em especial, pelas situações de Botafogo e Vasco, no Rio de Janeiro, Cruzeiro, em Minas Gerais, e Santos e Corinthians, em São Paulo. Isso para não falar da decadência do São Paulo e do Fluminense, do endividamento do Atlético Mineiro, do drama do Bahia, e das mazelas dos demais clubes brasileiros.   Esse estado de coisas revela o desprezo ou a incompreensão que se tinha - e se tem - pelo futebol. Mas há luz no fim do túnel. Em outubro de 2019, o senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), após longos e profundos debates sobre a relevância social e econômica do futebol, apresentou o PL 5.516/19, que "cria o Sistema do Futebol Brasileiro, mediante tipificação da Sociedade Anônima do Futebol, o estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, a instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e a previsão de um sistema tributário transitório". Desde então, muitos esforços são empregados para transformar o projeto em lei. Agora, na posição de presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco dispõe da prerrogativa de pautar o tema e, assim, do ponto de vista legislativo, presentear o País com o marco regulatório adequado para iniciar o processo de salvamento da tradição e da relevância cultural do futebol e construir uma indústria pujante, geradora de oportunidades e de riquezas. É aí que Pelé e Rodrigo Pacheco se encontram: um fez o milésimo gol e gritou pelas criancinhas; o outro pode encaminhar e viabilizar o mais ambicioso (e necessário) projeto legislativo, direcionado ao futebol, da história do país.
Quando terminei e publiquei o primeiro texto sobre o jogador de futebol Daniel Alves, há pouco mais de duas semanas, achava que o tema se esgotaria ali. No dia seguinte, iniciei, por acaso, a releitura de "Não verás país nenhum", obra-prima da literatura brasileira, e, ao terminá-la, três dias depois, surgiu novo texto, chamado "Ignácio de Loyola Brandão, Daniel Alves, futebol e o futuro da sociedade". Ali, não me restava dúvida de que partiria para outro assunto, deixando Daniel Alves para trás - como de fato parti. Até que me deparasse, na edição de domingo, 7 de fevereiro, do caderno Ilustríssima, da Folha, com o texto "A onda negra", da jornalista Ana Maria Bahiana. Ao ver a lista de títulos que marcaram os lançamentos cinematográficos de 2020, ano emblemático pela "presença de artistas negros no cinema, seja protagonizando, escrevendo ou dirigindo filmes", um deles, "The United States vs. Billie Holiday", do diretor Lee Daniels, reacendeu a vontade - e a necessidade - de insistir na situação envolvendo Daniel Alves - e, assim, de escrever o derradeiro texto que compõe singela e despretensiosa trilogia. Lembre-se, antes, que Billie Holiday cantou pela primeira vez, em 1939, Strange Fruit: canção que viria a ser classificada, por determinado crítico, como"o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo"1. Nessa canção, a mais dramática e profunda (e, ao mesmo tempo, bela) voz feminina da história da música popular protesta contra os linchamentos de negros no sul de seu país, que ocorriam pelos mais fúteis motivos, diante e para deleite de plateias brancas.  Billie Holiday, que não era uma ativista, chacoalhou até os intelectuais progressistas; mesmo ali, no Café Society, em Nova York, ponto de encontro da intelligentsia, onde a canção foi apresentada, convicções se abalaram. Não à toa, Ana Maria Bahiana transcreve, em seu texto para Folha, a seguinte fala de Lee Daniels: "Billie Holiday era perigosíssima, ao ponto de o governo norte-americano ter medo dela, segui-la, gravar suas conversas (...) Quando se fala na luta pelos direitos civis (...) lá estava Billie no começo de tudo, com sua voz e sua música, destemida, complicada, uma cantora divina (...) E com esse poder todo, um poder tão grande que as autoridades temiam". Aí surge a deixa para falar de futebol e de Daniel Alves. Um dos mais bem sucedidos jogadores da história do futebol, vencedor com todos os times de que participou - exceto o São Paulo -, e riquíssimo, encarou e bravamente, com certa idade para os padrões futebolísticos, o desafio de comandar um time que vivia - e ainda vive - crise sem precedentes em sua vencedora história. Importante lembrar: clube outrora referência nacional (e internacional) nos planos organizacionais e esportivos, que não soube lidar com sua própria magnitude e poder, e, de soberano, foi se transformando, por conta de deus dirigentes, em soberbo. Desde a injustificável reforma estatutária promovida em 2011, com o propósito exclusivo de permitir um terceiro mandato ao então Presidente Juvenal Juvêncio, a política (ou a politicalha) e pessoas se sobrepuseram ao futebol, ao time e à instituição; profissionais da política interna criaram uma espécie de centrão clubístico e assumiram o protagonismo que sempre foi atribuído ao que realmente importa: o time e seus jogadores. Com a aposentadoria de Rogerio Ceni, um mito dentro de campo, mas que foi instrumentalizado pela (e ao mesmo tempo beneficiário da) estrutura de coalização corrosiva de uma história vencedora, formava-se o ambiente ideal para que o baixo-clero, ávido, há décadas, por espaço e oportunidades, dominasse o Esquema interno (para quem não leu o segundo texto da série, o significado do vocábulo esquema pode ser apreendido no livro de Ignácio de Loyola Brandão). Raí e Lugano não apenas ameaçaram as pretensões "baixocleristas", como atrasaram os planos de dominação. Mas foi a chegada de Daniel Alves e o estabelecimento natural de sua liderança que aumentaram a barreira entre as pretensões cartolariais e o vestiário. Mesmo tendo arregimentado o melhor elenco dos últimos anos, como Lugano sempre afirmava, o time de 2020, marcado pela ascendência de talentosos meninos formados em Cotia, mais por contingência do que por planificação, dependia de Daniel Alves, dentro e fora de campo. Foi ele, aliás, quem se expôs, pouco antes da arrancada que conduziu o time à liderança (e a torcida ao sonho de dois títulos relevantes), para defender e sustentar a importância de Raí, como diretor, e de Fernando Diniz, como técnico. Dupla que, não é segredo para ninguém, nunca fez parte dos planos da então chapa candidata (e posteriormente vencedora) à presidência do São Paulo; e que, pela função que exercia e pelo desgaste que carregava, poderia ser dispensada com certa facilidade. O maior obstáculo era mesmo Daniel Alves. Mas ele ofereceu aos algozes o motivo que pediam: apesar de não ser um ativista - como Billie Holiday também não era -, ele cantou a sua strange fruit e ousou afirmar que o trabalho do então treinador era grande, dentre outros motivos, porque ele não se preocupava "só em criar grandes jogadores, mas sim grandes serem humanos, que vão sair melhores do que eram aqui (...); [ele, Fernando Diniz] no dia em que não estiver mais aqui, vai deixar uma grande base, não só monetária, mas pessoal também para o São Paulo. Serão pessoas que vão influenciar outras a não serem omissas". Aí está, portanto - dentre outros que não importam neste texto -, um dos motivos para o linchamento moral, técnico e esportivo de um gigante do futebol. Um gigante que enriqueceu a história do Mais Querido time brasileiro sem ter ganhado um título - menos por sua culpa, e muito mais, ou exclusivamente, pelo sistema político-associativo interno que se transformou num devorador (ou linchador) de homens e de almas.  __________ 1 Margolick, David. Strange Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção. - São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.22.
Em obra fundamental da literatura nacional, Ignácio de Loyola Brandão, titular da cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras, escreve o seguinte sobre a árvore: "[d]ebaixo da terra é a treva, repousa o escuro profundo. Como antes da criação do mundo (...). Acima da terra é a luz. A árvore é a união desses dois mundos. Leva a luz ao vazio tenebroso. Leva para o fundo da terra o ar que ele necessita para se refazer e fornecer a vida."1 A proposição, que bem merecia se tornar lema ou hino de uma geração que parece (apenas parece) acordar para as criminosas ações contra a natureza - e, em última análise, contra a humanidade -, encontra-se, sem dúvida de maneira involuntária, nas palavras do jogador de futebol Daniel Alves; palavras que se tornaram motivo de linchamento público, semanas atrás. Antes de resgatá-las, vale lembrar que defendo, desde que me envolvi com o estudo do futebol, não se tratar tal atividade apenas de manifestação lúdico-esportiva. Num país como o Brasil, marcado pela desigualdade social e econômica - logo, também desigual em oportunidades -, e em cujo território centenas de milhares de crianças sonham o sonho salvador de uma vida melhor por meio do futebol, o Estado, os governantes e a sociedade deveriam levá-lo a sério, como meio de inserção e desenvolvimento social. A propósito, certa vez ouvi de um líder comunitário que um candidato a cargo político lhe prometera melhorias das condições escolares em sua região. Para surpresa geral de seus interlocutores, ele esnobou a perspectiva porque, apesar de iniciativa necessária, a estrutura de influência local, em sua opinião, não permitiria o desenvolvimento da comunidade apenas por meio da educação formal, adequada aos padrões dos filhos dos integrantes das classes média e mais altas. Disse mais: o sonho de uma vida melhor, por meio da dedicação ao estudo, era um sonho essencialmente burguês (pequeno a grande burguês), de crianças sorteadas com condições mínimas de manutenção de vida relativamente estável. E logo exemplificou, referindo-se a certo menino: joga muita bola; mas mal tem onde dormir; o pai o abandonou; a mãe acorda de madrugada, pega algumas conduções, para ganhar um salário mínimo; volta destruída; o filho passa o dia na rua; sua referência não é o pai e não quer a vida sacrificada da mãe; não se interessa pela escola; o futebol, como meio de sobrevivência, está longe de seu alcance; mas talvez o futebol pudesse ser um atrativo para que se sentisse atraído pela escola, só não sei como; enquanto pensamos em solução, ele foi cooptado; seu objetivo é a ilusória ostentação imediata de um smartphone, de um tênis da moda e outras coisas semelhantes. O livre arbítrio, que vocês tanto defendem - prosseguiu -, que de fato é um ideal a ser perseguido, deveria pressupor, no entanto, uma sociedade igualitária (e justa). Não será, pois, pelo envio de um professor mais qualificado, pela reforma do prédio escolar ou pela chegada de alguns livros, que se salvarão, em massa, crianças dessa quebrada; uma ou outra, algumas, na melhor hipótese, mas não como solução sistêmica. O problema - ele concluiu - é estrutural e envolve a formação da sociedade, desde a sua origem, séculos atrás: quem tem, não se preocupa com quem não tem, exceto sob a forma de esmola, caridades ou de outras ações aliviadoras do peso de consciência. Aí entra a preocupação quase profética do acadêmico Ignácio de Loyola Brandão com o meio-ambiente; aí também entram, e com isso se resgata o eixo central do presente texto, o futebol e uma das mais relevantes manifestações recentes de um jogador brasileiro. Daniel Alves afirmou, apesar da dor carregada há pelo menos uma década pela torcida tricolor - dor que parece furar o coração, em fenômeno comparável ao que se sucede com o furo na mão de Souza -, que o trabalho do técnico Fernando Diniz seria elogiável, espetacular mesmo, porque "(...) [ele] teve que potencializar, ensinar, encorajar jogadores que estavam desacreditados por todos a serem melhores do que eram, a performar bem, a serem alguém respeitado na vida. O trabalho do Diniz não se resume em criar grandes jogadores, mas grandes seres humanos, conceitualmente, em vários aspectos". Tivessem essas considerações sido proferidas após a consagração de um título, estampariam as primeiras páginas de jornais pelo mundo, e o futebol, por dois ou três dias, seria debatido, no Brasil, em programas de rádio e de televisão, sob as perspectivas educacionais e culturais - até se perderem em cartões amarelos e vermelhos, impedimentos e contratações. Mas, ao menos, serviriam como plantio de uma semente essencial à reconstrução de um modelo sustentável, social e economicamente. Como, infelizmente, foram ditas no auge de uma crise futebolística - a maior da história do São Paulo -, além de ridicularizadas, caíram rapidamente no esquecimento, para tranquilidade do Esquema. Assim se mantêm os propósitos "subdesenvolvimentistas" dos donos do futebol, que não se preocupam com a formação de cidadãos, desde a base até a aposentadoria (basta ver a situação de centenas, ou melhor, milhares de jogadores aposentados que vivem, não raro, à beira da miséria). Não só isso (como se já não fosse muito): os mesmos donos apostam, apenas, no resultado esportivo, imediatista, para que, enquanto titulares de mandatos político-esportivos, possam usufruir do pequeno (grande) poder que somente um sistema clubístico, de origem contemporânea à escravidão, lhes proporciona. O futebol poderia contribuir para conexão entre as perspectivas das gentes menos favorecidas com as das mais privilegiadas, e promover a integração humanística que, desde a invasão portuguesa, não se realizou. O problema é que a união desses dois mundos, adotando-se as palavras do acadêmico, implicaria, na míope (ou egoísta) visão de quem olha para seus interesses (ou de seus comparsas), a pavimentação ou a iluminação de um caminho de igualdade, de questionamento e de mudança. Por esses motivos as palavras de Daniel Alves incomodam. Não se quer formar cidadão; apenas jogador, para satisfação dos anseios das massas, as mesmas que normalmente o esquecem ao final do contrato esportivo com o clube. E por esses motivos Daniel Alves vem sendo - e continuará a ser - fuzilado pelo Esquema. Ah, e para que não se façam ilações sobre o sentido ou o emprego do vocábulo esquema, a resposta está no livro Não verás país nenhum. __________ 1 Não verás país nenhum. - 28. ed. - São Paulo: Global, 2019, p. 142.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Daniel Alves

Daniel Alves é um fenômeno. Foi campeão pelo Bahia (Copa do Nordeste), pelo Sevilla (Copa da Uefa, Supercopa da Uefa, Copa do Rei e Supercopa da Espanha), pelo Barcelona (La Liga, Supercopa da Espanha, Copa do Rei, Supercopa da Uefa, Champions League e Mundial de Clubes), pela Juventus (Campeonato Italiano e Copa da Itália) e pelo PSG (Campeonato Francês, Copa da França, Copa da Liga e Supercopa da França). Também conquistou títulos com a seleção brasileira: Copa das Confederações (duas vezes) e Copa América (outras duas). Reverenciado e admirado, surpreendeu o mundo futebolístico, ano retrasado (2019), ao escolher o caminho mais difícil para sua carreira naquele momento: a pressão e a tensão existencial de seu time de coração, que não vencia havia mais de uma década um título prioritário - a Copa Sul-Americana é, sim, importante, mas não é e jamais deveria ser prioridade para o São Paulo -, ao invés de um time milionário de um país secundário (Estados Unidos, China etc.), que lhe daria status local e muito, muito dinheiro - mais, aliás, do que recebe de seu atual empregador. Aos 36 anos, Daniel Alves passou a ser, então, a esperança do reencontro Tricolor com as glórias do passado. A expectativa sobre ele e as deficiências do plantel o obrigaram a se reinventar, algo que eventualmente ocorre com jogadores, com idade mais avançada, de nível técnico assemelhado, mas não em campeonatos ultracompetitivos como o brasileiro e a libertadores.  Além de fenomenal, Daniel Alves é corajoso. Passou, assim, a ocupar a posição mais importante em campo, o que lhe exigiu e ainda exige um esforço físico compatível com o de um jovem em início de carreira. Nessa nova função, ele pode até errar - como, aliás, todos os jogadores, sem exceção, erram -, mas não se entrega. Acerta muito, muito mais do que erra. Luta, corre e quer, vê-se em suas atitudes, a vitória, sempre a vitória. Desde que o São Paulo embalou no campeonato brasileiro, quando ele não joga ou quando joga mal, o time se fragiliza (técnica e psicologicamente). Não por má-fé ou má vontade - creio eu, com convicção -, mas porque Daniel Alves se tornou essencial, dentro e fora de campo. Sim: passa por Daniel Alves o amadurecimento, o crescimento e a aquisição de segurança de jovens promessas de Cotia, alçadas precocemente à titularidade por contingência (e não por planejamento), e que, contra a convicção de certos cartolas, da torcida e da imprensa, tornaram-se, em menor ou maior grau, revelações da competição. Com efeito, quase ninguém acreditava no time de Daniel Alves no início do campeonato. Mas a reverência festiva começou a se transformar em crítica venenosa (rancorosa, raivosa e, talvez, vingativa) com a derrota para o Grêmio, na primeira partida das semifinais da Copa do Brasil - outra disputa em que o São Paulo se saía muito bem, com êxitos sobre adversários badalados e reputados favoritos. Passados poucos dias - ou horas - daquele resultado negativo, ninguém mais se lembrava de que, além de ter jogado muito mais do que o adversário, o São Paulo poderia ter saído de lá com resultado positivo se Brenner não perdesse gol que não costumava perder (e, aqui, não se faz uma crítica ao jovem atacante); gol feito, realmente feito, desses que até a minha avó faria, graças ao passe irretocável de quem? De Daniel Alves. E se Luciano - jogador que dá orgulho de assistir -, também não tivesse desperdiçado outra oportunidade, quase tão imperdível como a mencionada anteriormente, criada por quem? Daniel Alves - ele, de novo.  Apesar de ser o coração e o cérebro do time - além do mais bem sucedido, esportiva e financeiramente -, Daniel Alves jamais, ao menos publicamente, apontou o dedo a um ou outro companheiro; porta-se, com nobreza, ao lado de Tchê Tchê, Gabriel Sara e Vitor Bueno, como se estivesse ombreando Messi, Iniesta e Xavi. Daniel Alves vem demonstrando, mesmo diante das adversidades - que também são internas, pois é sabido, desde as campanhas eleitorais no Morumbi, que a atual diretoria não o considerava, e não o considera, em seus planos -, que tem o brio e a alma Tricolores. Nos últimos 11 anos, quase nenhum time são paulino chegou tão perto de um grande título. Nesse período, fracassaram dezenas de (ex) jogadores e treinadores, alguns dos quais, hoje, são apontados como soluções para um problema que não é conjuntural - mas, unicamente, estrutural -, e se reflete nos vestiários e em campo. O último grande herói, desde 2008, foi Hernanes, que não levantou taça, mas salvou o São Paulo do rebaixamento, em 2017. Tanto Hernanes, naquela temporada, como Daniel Alves, lideraram elencos inferiores - talvez muito inferiores - aos de seus rivais, como, para citar 3 no atual campeonato, os de Flamengo, Palmeiras e Galo. Daniel Alves tem, ao seu redor, pois, um grupo que, sem ele, já teria, há muito tempo, ficado para trás na competição - se é que, em algum momento, alcançaria o protagonismo nacional, com vitórias acachapantes sobre Flamengo e Galo. Ele não é, portanto, o problema, mas parte da solução. Se não para o campeonato de 2020 - que findará em 2021 -, ao menos para dar continuidade e estrutura ao de 2021 e dos anos seguintes, tanto como jogador, enquanto tiver disponibilidade para enfrentar o insano calendário de jogos a que se submetem times e jogadores brasileiros, quanto, depois, na função de dirigente. Infelizmente, a mesma estrutura que, há anos, vem destruindo o que parecia indestrutível - o maior campeão internacional do Brasil -, precisa, nesse momento de crise aguda, entregar alguém à turba enfurecida para se mostrar messianicamente salvadora.   O São Paulo, de clube referencial - que foi até capaz de oferecer os últimos suspiros a Adriano, o Imperador -, passou, há algum tempo, a destruidor (e detrator) de grandes boleiros - e seres humanos. E isso sob a égide de uma mesma estrutura e um mesmo eixo de poder. Esse caminho não isentará - e já não isenta - o clube de consequência: quem o escolherá, como primeira opção, sabedor da forma como seus jogadores - e ídolos - são tratados, sem proteção de sua própria gente? Na narrativa dramática tricolor, Daniel Alves seria Jesus Cristo - que me perdoem os cristãos -, enquanto, para Judas, o papel serviria a uma vintena de pequenos a "grandes" cartolas.
Longe de mim, num momento de arroubos obscurantistas como o que se vive atualmente, produzir um texto ou defender uma ideia que possa parecer ofensiva à liberdade de imprensa. O propósito deste texto é o oposto. Porém, se pretende, a partir dele, fazer uma provocação: a estrutura do futebol já poderia ter mudado se uma pequena parte do tempo que se dedica ao tratamento de impedimentos e lances polêmicos de campo fosse atribuída ao debate, pela grande mídia, de modo recorrente e insistente, dos temas da propriedade, governação e controle da atividade futebolística. É verdade que a imprensa escrita se debruça, com alguma frequência - mas não de modo organizado ou planejado -, e há muito tempo, sobre tais temas. O problema não é de censura, pois. Parece ser, por outro lado, de interesse - ou de prioridade; ou melhor, da falta deles. Não se nega que, quando um evento ou um fato político, atrelado ao futebol, exsurge, a reação é imediata. Foi assim com a apresentação, pelo então Deputado Federal Otavio Leite (PSDB/RJ), do PL 5.082/16, que criava a sociedade anônima do futebol (SAF). Também foi assim com os movimentos do Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), indicado para relatar e apresentar substitutivo àquele projeto, que resultaram no PL 5.082/16-A, aprovado pela Câmara dos Deputados em novembro de 2019 (e na sequência remetido ao Senado Federal). E não foi diferente com o PL 5.516/19, que inaugura o Sistema do Futebol Brasileiro, mediante a tipificação da SAF, o estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, a instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e a previsão de um sistema tributário transitório, apresentado em outubro de 2019 pelo Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Porém, após repercussões imediatas, ou algumas um pouco mais resilientes, o acompanhamento arrefece ou desaparece, para deleite dos pouquíssimos agentes que mandam, há décadas, no futebol brasileiro - e o querem fragilizado, exatamente como está.   De volta, pois, à cobertura cotidiana das relações internas e externas de times e jogadores, e sobretudo de jogos, copas e campeonatos; torcedores e a sociedade em geral se deparam com crises localizadas e generalizadas, que abalam a confiança e a credibilidade sistêmica. Mesmo quando aparece um evento excepcional - como ocorreu recentemente com o Palmeiras, inundado de recursos interessados na formação de um time protagonista, ou com o Flamengo, que estarreceu o País com receitas da ordem do bilhão de reais e a conquista de quase todos os títulos que podia conquistar em uma temporada -, não se cria, desafortunadamente, um movimento de ajustamento estrutural. E aí se revela o óbvio: a efemeridade de tais períodos de dominação resultam de fatores conjunturais, que o tempo cuida de corroer. O efeito corrosivo provoca a sensação da perda de oportunidade de adotar um novo modelo, que pudesse, de algum modo, aproximar as práticas locais das mais desenvolvidas e reconhecidas práticas adotadas nos países europeus. Trata-se, apenas, de sensação; afinal, a lamentação é rapidamente esquecida pelo noticiário esportivo. Times em crise profunda, como Cruzeiro e Botafogo, para citar apenas dois dentre dezenas, com tradição regional ou nacional, também suscitam, sempre que um fato negativo se sobrepõe, os equívocos passados e a necessidade de mudanças. Nesses momentos, de crise extrema, o interesse coletivo costuma se avolumar, para logo recobrar o esquecimento. O clube cruzeirense, para usá-lo como exemplo, não se pode esquecer, passou de protagonista máximo, uma máquina de ganhar títulos, às páginas de notícias criminais, e, como símbolo da podridão que se expandia, durante inclusive os anos de glória - uma alusão ao personagem Dorian Gray, de Oscar Wilde, parece inevitável -, caiu à segunda divisão, onde luta para se manter com alguma dignidade.  Em um ou dois anos deverá voltar à série principal e aí, seguindo-se o padrão recorrente, narrativas se construirão para exaltar a superação e os ídolos que terão participado do processo de soerguimento. Mas, internamente, a podridão, extensível a praticamente todos os demais times, persistirá. Assim tem sido, aliás, desde sempre; e é disso que o presente texto, talvez sem muito êxito, pretendia tratar. O sistema brasileiro apodreceu e não há, tal como estruturado, remédio que o recupere. Seu salvamento depende de uma nova estrutura, que substitua os alicerces carcomidos por décadas de desmandos, irresponsabilidades, confusões patrimoniais ou de personalidades, e outras coisas mais. E seria o salvamento do futebol irrelevante ou pouco interessante, para sociedade e torcedores em geral? A existência, apenas no Brasil, de aproximadamente 150 milhões de seguidores (incluindo os eventuais), não deveria motivar uma outra relação com essa prática esportiva? Os atributos que o alçariam a vetor de desenvolvimento econômico e social, como, talvez, nenhuma outra atividade humana, não justificariam uma política de Estado, a ser implementada e continuada por governos, no interesse do povo e da Nação? Esses elementos todos, reunidos, não mereceriam uma cobertura permanente da mídia brasileira? Se a sociedade não exigir respeito ao que lhe pertence, se o torcedor não exaltar a preocupação com a necessidade de um sistema sadio e gerador de riquezas (esportivas e econômicas, que alimentarão o próprio sistema e contribuirão para o incremento de resultados e experiências) e se a imprensa não se interessar, como se interessa, pelos sinais exteriores da indústria, não haverá reversão do processo de desmanche ou desmantelamento do futebol brasileiro. Partindo-se, assim, da premissa de que reina a determinação por um modelo inclusivo, capaz de corrigir distorções e de reinaugurar uma atividade pujante, não se consegue entender os motivos pelos quais, desde o surgimento dos primeiros sinais de aproximação e convergência entre os projetos de lei 5.082-A/16 e o 5.516/19, a reverberação não correspondeu à importância do fato (que poderia ser histórico). Talvez se trate mesmo de uma batalha "brancaleônica", ou de uma utopia, pois combatida contra as estruturas mais retrógradas e dissimuladas, remanescentes do período pré-republicano. Mas de nada adiantará reclamar, no presente ou no futuro, das mazelas do futebol, se se continuar a ignorar a relevância do tema - e de suas soluções. E não adiantarão também as lágrimas do torcedor, pela decadência (e eventual insignificância esportiva) de seus times.
Diego Lugano exerceu o segundo cargo público mais importante do Uruguai: a capitania da seleção nacional de futebol, honraria atribuída ao cidadão (sim, cidadão, antes do jogador) que representa, talvez mais até do que o Presidente daquele país, o estado de espírito integrativo que incorpora a determinação por uma sociedade, apesar de plural, una. No Brasil, a posição do capitão da seleção não tem a mesma importância - ou dela se foi tirando a relevância, por motivos pragmáticos ou políticos. Aí está, aliás, um tema a ser estudado, em especial quanto à prática do rodízio, entre os atletas, da faixa de capitão. Isso faz incidir sobre pessoas que, às vezes, sequer possuem a aptidão do comando, o peso simbólico de liderar a equipe, subtraindo, assim, dos verdadeiros comandantes, o protagonismo da liderança que lhes é inerente. Não apenas por isso - mas esse não deixa de ser um reflexo -, a relação do povo com o time nacional vem se tornando cada vez mais pálida e a indiferença atinge níveis preocupantes.   Preocupa porque, como diz Diego Lugano, o futebol é um esporte democrático, para cuja prática basta um objeto redondo - eventualmente produzido com meias, até - que se transforma em bola, e uma criança sonhadora ou um bando delas, que corre sobre qualquer superfície - mesmo que seja um apertado corredor de apartamento residencial ou um terreno acidentado. Diante de uma bola, ricos e pobres, brancos e negros, ou quaisquer diferentes se igualam, ou, mais ainda, invertem, constante e pacificamente, as posições que costumam ocupar na segregada sociedade brasileira. Em países marcados pela desigualdade - como a maioria, senão todos, os sul-americanos -, o enfraquecimento do futebol implica a redução, em mesma proporção, da perspectiva real de ascensão de pessoas de classes menos favorecidas econômica e socialmente, que somente poderiam competir, com os mais favorecidos, de forma igualitária, no campo de jogo. Essa perspectiva assusta e justifica o esforço empregado pelos donos do futebol para tentar ocultar ou minar a importância social e econômica daquele esporte, mantendo-o sob secular dominação. No ambiente futebolístico, a liberdade e a igualdade são princípios que costumam ser corrompidos com o propósito de preservar privilégios. E quando gênios, como Diego Maradona ou Sócrates, ameaçam transgredir o sistema, acabam sendo transformados, involuntariamente, em peças indesejadas, mas necessárias ao próprio sistema, apesar de, aparentemente, representarem o antissistema.    Assim se descobre o motivo da inexistência de políticas públicas efetivas que projetem o futebol à condição de um dos pilares da sociedade brasileira. Não se trata, portanto, de aversão à disseminação de uma atividade que se presta, supostamente, à alienação do povo, mas de imposição de obstáculos ao oferecimento de vias redutoras de desigualdade e de falta de oportunidades. Algumas referências demonstram a relevância do tema - e como o futebol se insere na sociedade contemporânea e como poderia contribuir para o desenvolvimento do País: no plano mundial, é acompanhado por aproximadamente 4,5 bilhões de pessoas; o campeonato inglês (Premier League) arrecadou, na temporada encerrada em 2019, 5,845 bilhões de euros1, além de seus clubes participantes terem movimentado, apenas com reforços, o montante de de 831 milhões de euros2; segundo o relatório "Football Money League" da Deloitte3, em sua edição publicada neste ano, o Barcelona obteve, em 2018/2019, o maior faturamento do planeta, da ordem de 841 milhões de euros, aproximadamente; e de todos os negócios com jogadores realizados na janela de transferências até julho de 2020, mais de 11%(!) envolveram jogadores brasileiros4. No plano local, os números também são expressivos: a seleção brasileira foi a única a se classificar para todas as Copas do Mundo e ainda ostenta o título de maior campeã de todos os tempos (pentacampeã); o maior jogador da história é brasileiro: Pelé, o rei; a maior jogadora também: Marta, a rainha; o Brasil é o único país do planeta, com dimensões continentais, que tem tradição no esporte; os times considerados grandes nacionalmente, e os vários grandes regionais, além de tradição, possuem potencial para se tornarem líderes de mercado (partindo do país ao continente, e do continente para o mundo): afinal, têm torcida, camisa e receptividade de um fiel público consumidor, além do espectador eventual, formando um contingente em torno de 150 milhões de pessoas. E o que se tem feito para preservar esse patrimônio (material e imaterial) e transformá-lo, enfim, em riqueza e distribuição de renda? Ou para concorrer no bilionário mercado global? Nada. Absolutamente, nada. Ao contrário, tem-se empreendido há mais de um século um esforço político, à conta do contribuinte e do torcedor, para manter a concentração de poder nas mãos de uma casta cartolarial que se sucede e se protege e, ao mesmo tempo, simboliza o desprezo à inclusão e à distribuição. Não há mais espaço para que tão poucos - algumas dezenas de pessoas, dentre milhões - concentrem tanto privilégio, em desfavor de uma Nação inteira. A conivência não se justifica em uma Democracia, como a brasileira, que, apesar de ferida, por conta de tantos ataques sofridos nos últimos anos - sobretudo a partir da temerária (e irresponsável) instrumentalização e politização da Lava-Jato, que consumiu empresas e milhões de empregos -, resistiu por meio da resiliência de suas instituições (e do seu povo). Agora, chegou a vez de o Congresso Nacional, um dos pilares do Estado de Direito, escrever mais uma página do necessário movimento de revisão de desajustes que se sustentam, desde a proclamação da República, e impedem a construção de um País realmente justo. Isso será feito, no plano futebolístico, por meio da rápida e necessária convergência entre o PL 5.082/16, relatado na Câmara dos Deputados, pelo deputado Federal  Pedro Paulo (DEM/RJ), e o PL 5.516/19, de autoria do Senador da República, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Algo que, ao que tudo indica, poderá ocorrer ainda este ano - e, justamente num ano tão complicado, virá a ser um presente ao torcedor brasileiro.  __________ 1 Premier League faturou R$ 33 bilhões e foi campeonato mais rico de 2019, mas tem ameaça bilionária com Covid-19. 2 Mercado da Bola movimenta R$ 18,8 bi: veja os 10 campeonatos mais gastões. 3 Football money league 2020. 4 Mercado da Bola já movimentou R$ 8 bi; conheça os 10 brasileiros mais caros.
quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Raí

Não se pode negar a influência da subjetividade quando se tenta determinar quem foi o (ou a) melhor ou maior em determinada profissão (técnica, artística, esportiva ou de outra natureza). Além dos aspectos subjetivos, a determinação das premissas que norteiam eventual avaliação (supostamente) objetiva também pode afetar resultados, de modo que, ao final, a depender de quem as define, também se incorporarão subjetividades (ou direcionamentos) ao processo. Feitas essas considerações, Raí foi o maior jogador da história do São Paulo. Raí liderou o time em conquistas históricas como o Paulista de 1991 (com três gols no jogo final contra o Corinthians), o Brasileiro de 1991 (título que resgatou o Mestre Telê Santana), o Paulista de 1992 (com mais três gols na final contra o Palmeiras), as Libertadores de 1992 e 1993, o Mundial de 1992 (com dois gols sobre o Barcelona), e o Paulista de 1998 (novamente contra o Corinthians, com um gol de cabeça, na única partida de que participou, ao ser contratado justamente às vésperas do confronto). Há muito mais: em 1992, capitaneou o São Paulo em duas goleadas, também históricas, de 4x1 sobre Barcelona e 4x0 sobre o Real Madrid, com dois gols na primeira e um na segunda - que resultaram nas conquistas dos troféus Teresa Herrera e Ramón de Carranza. Com Raí, portanto, a torcida tricolor realizou seus maiores sonhos - as conquistas da América e do Mundo -, e cresceu, local e nacionalmente, de modo exponencial, atingindo a terceira colocação no País - atrás apenas de Flamengo e Corinthians. Mas não se pode esquecer que, no início, a vida de Raí no São Paulo não foi fácil. Passou por diversas provações, uma delas a comparação com Sócrates, de quem era o irmão mais jovem (mas que, com o tempo, a relação se inverteu, e, de Raí, Sócrates passou a ser o irmão mais velho). Além do peso comparativo, recaiu sobre ele o temor (ou a desconfiança) da incompatibilidade com o modo de jogo são paulino à época. Sim: o torcedor e a imprensa ainda tinham como referência a velocidade do elenco campeão brasileiro de 1986 (integrado por jogadores como Careca, Muller, Silas e Sidney), e estranhavam a aparente lentidão de Raí. Nada mais injusto, aliás, como veio a demonstrar ao longo de sua carreira, com suas arrancadas e infiltrações determinantes - a exemplo da que abriu a goleada em 1991, contra o Corinthians. Raí superou os obstáculos e os venceu, soberanamente. Ao partir para Paris, em 1993, para vestir a camisa do PSG, também enfrentou, no início, dificuldades. Chegou a amargar, por algum tempo, a desconfiança e o banco de reservas. A situação motivou o assédio do Palmeiras - que tinha, à época, recursos ilimitados, fornecidos por determinado patrocinador -, e do próprio São Paulo, que planejou sua repatriação. Mas o jogador avisou: somente deixaria o PSG pelas portas da frente. O resultado todos conhecem: títulos do campeonato francês, da copa da França, da liga, da supercopa e da Recopa Europeia, e a eleição, por ocasião da celebração do 50º aniversário do time, como o maior jogador de sua história. Faço, aqui, um pequeno desvio na narrativa, para relatar um caso que revela a idolatria da torcida parisiense. Jantei, certa vez, na casa do diretor geral de um banco secular europeu. Rapidamente a conversa enveredou para o futebol. Ele era torcedor fanático do PSG. Quando lhe falei que conhecia Raí, o poderoso executivo reagiu com teatral agressividade: não minta, Raí não é humano, é uma entidade inacessível a nós, mortais - disse ele. O jantar transcorreu sem embates, com o francês se regozijando das atuações do ídolo com a camisa parisiense - que são (já que tenho, neste texto, a palavra final) incomparáveis à magia produzida com o manto tricolor. Anos após o encerramento da carreira de jogador, e depois de se dedicar aos estudos da administração do futebol, Raí foi indicado para compor o conselho de administração do São Paulo. De lá, do conselho, poderia liderar os debates a respeito da necessária - e essencial - constituição de uma companhia, para desenvolver a empresa futebolística de forma separada da gestão do clube. Esse parecia, aliás, o seu destino - e teria, talvez, precipitado a transformação do modelo brasileiro de detenção da propriedade do futebol. Mas foi "tentado" pelo convite para dirigir o departamento de futebol tricolor. Aceitou o desafio (que, ele sabia, seria complexo, e que, sob qualquer ângulo, poderia lhe trazer mais ônus do que bônus). Ao longo dos anos de atuação diretiva, acertou, errou, acertou, errou novamente, corrigiu e acertou. Seu maior erro talvez tenha sido a dispensa de Aguirre, que pareceu, ao espectador externo, tê-lo deixado sem rumo. Seu maior acerto (ou um deles), foi recobrar o norte e apostar em Fernando Diniz, mesmo quando, após uma derrota inexplicável no paulista de 2020 e um começo preocupante no brasileiro do mesmo ano, a torcida, as cornetas e a imprensa (com poucas exceções) pediam a sua cabeça. Também acertou ao, antes de Diniz, apostar em Daniel Alves, um jogador realmente excepcional. A adaptação (ou o aprendizado) talvez tenha levado mais tempo do que se imaginava - e do que ele próprio gostaria; mas ele se adaptou e aprendeu. Aliás, não se duvide: São-Paulino que é, deve ter sofrido, calada e isoladamente, como ou mais do que qualquer outro torcedor. Fosse ele dirigente em outro setor da economia, o tempo da adaptação e do aprendizado estaria na conta. Por se tratar de futebol, no entanto, a pressa, mesmo para quem se diz moderno e progressista, se sobrepõe - e se sobrepôs - ao verniz discursivo. Mas Raí é um vencedor. Um predestinado. E vencerá também como diretor. Como são-paulino, só me resta resgatar o cântico entoado tantas vezes pela torcida: fica, Raí, aqui (ou aí) no Morumbi!
quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Uma Terra Prometida

Uma Terra Prometida" é o título em português do livro de memórias do ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama.  Com a irresponsabilidade de alguém que ainda não leu o livro - e nem poderia, pois foi lançado no dia em que escrevo este artigo -, me dou o direito de imaginar, pelo título confrontado com o que conhecemos sobre a trajetória do primeiro Presidente Preto da História dos Estados Unidos, que a narrativa haverá de nos levar, novamente, à conclusão sobre a "beleza do caminho", ou seja, sobre como a vida vale a pena quando a atravessamos lutando pelos ideais nos quais acreditamos.  Mesmo que a caminhada seja feita com constância ao longo de todos os dias, há momentos cruciais no contexto de uma trajetória que chega à "Terra Prometida". Aquele momento aponta se cada um, e suas circunstâncias, irão prosseguir em linha reta rumo ao objetivo traçado, ou irão rodar em círculos. Estou ansioso para conhecer qual o momento que Obama classifica como sendo aquele que foi decisivo para que a sua História tenha tido o desfecho que teve.  Por aqui, o curso da caminhada daqueles que lutam pela modernização do futebol brasileiro, pelo incremento de sua capacidade de obter receitas, pela melhoria das condições dos nossos times em manter por mais tempo seus principais jogadores, pela fidelização dos jovens torcedores, para que venham a vestir a camisa dos nossos clubes e não só dos europeus, poderá ter um momento crucial ainda neste mês de novembro de 2020.  Há fundada expectativa de que o Senado Federal irá levar à votação o Projeto 5.082/16, que trata da criação de um ambiente favorável à constituição de sociedades empresárias para gestão das equipes de futebol profissional do Brasil, logicamente, daquelas que assim o quiserem.  O momento da aprovação do Senado é fundamental. O Projeto deverá ganhar a amplitude resultante da convergência entre o modelo de constituição do clube-empresa, proposto pelo Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e o ambiente para criação da Sociedade Anônima do Futebol - SAF, concebida pelo Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Trará, assim, um caminho viável de modernização para nossos combalidos clubes centenários, reféns dos obsoletos modelos associativos, herança do início do Século XX.  Tendo sido apresentado em 2016, graças à sensibilidade de vários formadores de opinião que foram capazes de enxergar o quanto o tema é relevante para a evolução do futebol e, por conseguinte, do conteúdo cultural do País, o Projeto tem sido discutido ao longo dos últimos quatro anos com o viés de um tema em trâmite no Congresso Nacional. Houve muito debate, em especial, a partir de 2019, quando o Presidente da Câmara incumbiu o Deputado Pedro Paulo de estudar uma solução para a situação gravíssima enfrentada pelos nossos clubes, e o Senador Rodrigo Pacheco apresentou o seu projeto.  Porém, desde muito antes o tema da constituição societária dos clubes de futebol do Brasil está em pauta, sendo divulgado e debatido. Desde a edição da Lei 8.672 ("Lei Zico") no distante ano de 1993, passando pela Lei 9615 ("Lei Pelé") em 1998, com suas diversas alterações ao longo do tempo, e, de lá para cá, todas as posições e argumentos sobre o assunto foram trazidos à mesa.  O fato é que nenhum texto legislativo trazido ao nosso ordenamento até aqui foi capaz de criar um mercado, um ecossistema favorável à revisão do modelo associativo. Em paralelo, nossos clubes foram perdendo relevância no cenário internacional e agravando sobremaneira sua situação financeira, a ponto de alguns dos mais tradicionais correrem risco real de fecharem as portas, a despeito de terem milhões de torcedores.  Pela primeira vez, se está diante de uma proposta legislativa, oriunda da convergência dos dois projetos, realmente capaz de promover um movimento sólido de revisão do modelo associativo, com seus processos políticos caóticos e absolutamente repelentes ao recebimento de investimento externo.  A hora é agora!  Um tema que desperta o interesse de aproximadamente 150 milhões de brasileiros que alegam torcer para algum clube de futebol, movimenta bilhões de reais na economia e emprega centenas de milhares de pessoas não pode nunca ser considerado irrelevante. E não é. A Câmara Federal deu tratos à bola em 2019, agora é a vez do Senado Federal.  Nas próximas semanas, os senadores da república irão decidir se o futebol brasileiro poderá seguir em linha reta no caminho rumo à "Terra Prometida" ou continuará rodando em círculos. 
quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Lei Áurea, lei Pelé e a lei do clube-empresa

A partir de 1850, foram promulgadas, no Brasil, leis que refletiam pressões internas e externas para abolir a nefasta prática da escravidão. As promulgações a conta-gotas revelaram, no entanto, a resistência imposta pelas classes dominantes, proprietárias de escravos e que se veriam espoliadas de valiosos ativos. Consumiram-se, assim, quase quatro décadas, desde a lei proibidora do tráfico humano, passando pela lei do ventre livre, de 1871, e pela lei do sexagenário, de 1885, para que, enfim, se abolisse a escravatura. Com efeito, a lei 3.353, de 13 de maio de 1888, conhecida como Lei Áurea, estabeleceu, em seu art. 1º, a extinção da escravidão no Brasil. O segundo e último artigo do diploma, sancionado pela Princesa Isabel, revogava as disposições em contrário. A singeleza do texto legal também revela a natureza formal - e a displicência (ou melhor, o reflexo da inevitabilidade, decorrente de pressões mundiais) - da iniciativa. Apesar da libertação de centenas de milhares de pessoas, faltavam, no texto legal, a diretriz e a intenção de recepcionar e inserir os libertados na sociedade. As consequências daquela política se projetaram por muitos e muitos anos; aliás, ainda são sentidas, nos tempos atuais, sob diversas formas, como no relacionamento desigual entre as classes economicamente privilegiadas e as menos favorecidas. No futebol, as tensões se iniciaram logo na sequência dos embates humanísticos que marcaram a virada do século retrasado. Em sua origem, tratava-se de atividade elitista e amadora, mas igualmente segregacionista em relação, primeiro, às pessoas oriundas de classes trabalhadoras e, depois, aos atletas profissionais que entregavam o suor em troca de recursos para sustento próprio ou familiar.   À medida em que a prática futebolística se popularizava e não se havia como impedir a sua propagação, clubes associativos se organizaram ou se reestruturaram para competir em níveis mais elevados. No topo das organizações situaram-se, em geral, os herdeiros das classes mais abastadas, que comandavam os filhos, netos ou bisnetos, diretos ou mestiçados, daquela gente libertada anos (ou décadas) atrás.   Por obra do modelo organizacional mundial, adotou-se, também no Brasil, sistema que reproduzia, sob a proteção institucional, uma espécie de escravidão esportiva, caracterizada pela vinculação inquebrantável do atleta com o próprio clube. Novamente, o ser humano foi coisificado, e ativado na contabilidade clubística, também com base legal. Apenas em 1998, 110 anos após a Lei Áurea, uma nova lei libertadora, dessa vez assinada por um negro, Pelé, pôs fim ao chamado "passe": instrumento impeditivo da livre circulação de profissionais por iniciativa de seus donos. Venceu-se, assim, mais uma etapa do processo de humanização da sociedade brasileira, iniciado, por vias legislativas, como se apontou acima, em 1850. Ocorre que, se a Lei Áurea não refundou as bases da sociedade brasileira (como deveria ter feito, caso tivesse implementado uma verdadeira libertação, equalizadora das graves mazelas que castigaram aqueles que antes eram escravizados pela lei, e hoje o são pela sociedade), a Lei Pelé também não abalou a estrutura político-clubística, que logo se acomodou, cercada de negociantes de jogadores, sob a suposta proteção constitucional da autonomia organizativa absoluta das associações. Essa fórmula vem se revelando fatal para o futebol - e para o País. O caminho para reversão consiste no aprimoramento (e correção) das iniciativas iniciadas com Zico, em 1993, e continuadas por Pelé, em 1998. Mas é sempre bom registrar: ambas as leis foram dotadas de comandos meramente formais, e desprovidas de conteúdo apto à formação de um novo sistema, preservador do futebol (como expressão máxima de nossa cultura) e, ao mesmo tempo, atrativo ao investidor. Nesse sentido, abusou-se de um falso dilema, que consistia na obrigatoriedade, ou não, de transformação do clube em empresa, e com isso se evitou o verdadeiro problema, que era a proposição e criação do ambiente adequado para recepção dos clubes transformados - via natural, aliás, de expurgo do cartolismo. Foi por esses motivos que os donos do futebol puderam, publicamente, apoiar algo que, sabiam, não daria certo; e, logo após a promulgação de cada uma das leis, empreenderam esforços para, diante da ineficácia, reformar as ideias progressistas nelas contidas. Passadas algumas décadas, durante as quais o Brasil assistiu, apático, à transformação da estrutura organizacional dos principais times de futebol do planeta - e foi conivente com a apropriação de sua riqueza por uma casta despreocupada com a sociedade e com os torcedores, e preocupada sobretudo com a satisfação de interesses particulares -, ecoam do Congresso Nacional notícias realmente animadoras. Parece mesmo que se aproxima, enfim, o necessário processo de convergência entre os Projetos de Lei 5.082/16, do Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e 5.516/19, de autoria do Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), ambos em tramitação no Senado Federal, em consonância, ao que tudo indica, com a preocupação também externada pelos Presidentes de ambas as casas Congressuais, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, com o futuro do futebol brasileiro.  Essa lei, com as convergências que se projetam - que criará um sistema sem precedentes no planeta, e terá, em seu núcleo, o clube-empresa, expressão adotada para designar a sociedade limitada, a sociedade anônima e a sociedade anônima do futebol (SAF), e ao seu redor instrumentos de recuperação e financiamento da empresa futebolística, regime tributário transitório, técnicas de parcelamento de obrigações, forma de administração unificada do passivo trabalhista, mecanismos de estímulo à educação por meio do futebol, e modelos progressivos de governança e controle - poderá libertar o futebol de um aprisionamento indefensável e injustificável sob qualquer prisma. Exceto o prisma dos cartolas, que ainda tentam - apesar da destruição que causaram - se apresentar como guardiões dos interesses dos torcedores, para, na verdade, preservar seus privilégios seculares.
quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Para o torcedor brasileiro sonhar - e comemorar

Jorge Ben Jor compôs Fio Maravilha em homenagem a João Batista de Sales, jogador imprevisível, que entortava marcadores com a mesma facilidade que, dizem, perdia gols feitos. Em partida disputada no Maracanã, em 1972, o atacante saiu do banco para fazer o único tento do confronto que opôs o Flamengo ao Benfica. Maravilhado com a façanha, o compositor (flamenguista) imortalizou-a: "Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa / E a magnética agradecida se encantava (...) / Fio Maravilha, nós gostamos de você / Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê (...) / E novamente ele chegou com inspiração / Com muito amor, com emoção, com explosão e gol / Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo / Depois de fazer uma jogada celestial em gol (...)" A composição ajuda a explicar o fascínio que o futebol exerce sobre as gentes, que o tomam, a depender da relação estabelecida com os times (ou seleções nacionais) de preferência, como (i) simples esporte, (ii) manifestação contemporânea de enfrentamento (ou ato de guerra), (iii) arte, (iv) entretenimento, (v) veículo de inserção social e econômica e/ou (vi) instrumento de alienação das massas. O futebol é tudo isso e muito mais (e pode ser instrumentalizado para um ou mais desses propósitos). Daí a dificuldade de formulação de uma explicação abrangente do fenômeno, ao menos no plano factual. De lá, também decorre o fracasso de qualquer tentativa de enquadrar (ou domar) algo que, por natureza, mantém-se em permanente processo de expansão. A aceitação dessa proposição apazigua a alma - assim como também se sente em paz a pessoa que aceita Deus, mesmo sem conseguir demonstrar cientificamente sua presença (ou existência); ou aquela que, confrontando-se com milagres inexplicáveis do ponto de vista científico, assume deliberadamente a impossibilidade do Ser divino. O fato de o futebol ser grandioso e inexplicável não significa que não possa ser, de algum modo, atacado ou prejudicado - ou mesmo destruído. Nesse sentido, a destruição imposta pelo ser humano (no Brasil ou no exterior) a determinados ambientes - ou ecossistemas - revela a urgência de reversão do processo destrutivo do futebol brasileiro, pois, a partir de determinados pontos de destrutividade, a reversibilidade se torna inviável, por motivos naturais ou econômicos. Pois bem. Historicamente, apesar de algumas vozes dissonantes, o establishment futebolístico aproveitou-se da inadequação legislativa e do pouco interesse dos grandes grupos midiáticos para perpetuar práticas que, por coincidência ou não, são contemporâneas ao colonialismo escravocrata. Por isso, deve-se sempre lembrar: a Casa Grande não nutria afeto ou apreço pela Senzala, que era explorada para geração de lucros ou para satisfação de interesses egoísticos. No futebol, afastadas as diferenças temporais (e estruturais), o Cartolismo - sistema criado para justificar e preservar o controle dos ativos futebolísticos por pessoas que não detêm a sua propriedade - recorre a dogmas seculares para evitar a reformulação estrutural e a revisão de práticas que já se demonstraram insustentáveis nos planos esportivo, social e econômico. Não à toa o estado calamitoso em que os clubes se encontram. Não à toa, também, o fato de o Brasil ter passado à condição de exportador terceiro-mundista de matéria prima (no caso, de pé-obra), em detrimento da adoção de uma política de desenvolvimento e disseminação de tecnologia do futebol (como, também não por acaso, adotou-se nos países europeus protagonistas - os mesmos, aliás, que, no passado, extraíram as riquezas naturais encontradas no território brasileiro). Esse ambiente, de certa forma entreguista, pode, enfim, começar a mudar. Do Senado Federal chegam notícias alvissareiras: o senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG) postou, semana passada, o seguinte: "é prioritária a edição da lei do clube empresa no Brasil, seja com o projeto que veio da Câmara, seja como o de minha autoria, no Senado. Na próxima semana (...) iniciarei o debate dessa matéria para chegarmos a um consenso sobre o melhor texto para o futebol brasileiro".     Na sequência, soltou nota pública em que ele, autor "do projeto de lei que cria a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), em tramitação no Senado (...) que, além de criar a SAF, estabelece regras específicas, normas de governança, controle e transparência (...)", pretende, considerando também a tramitação, no Senado Federal, do projeto do clube-empresa, do deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), "ampliar o debate dos dois projetos para, se houver consenso, construir um texto único, com critérios mais transparentes, seguros e que estimulem o funcionamento dos clubes de futebol no país". Essa é a senha, ao que tudo indica, para consumação de um processo realmente republicano de convergência em torno de um marco regulatório, derivado de ambos os projetos, sem precedentes em qualquer país ocidental, visando à reconstrução de uma atividade associada à brasilidade e à capacidade de uma Nação - sem qualquer pretensão ufanista - de se afirmar (ou reafirmar). Enfim, o torcedor brasileiro deve torcer, de modo unificado, sem divisão clubística, para que a atual legislatura seja merecedora da placa mais relevante da história do Congresso Nacional (relacionada ao futebol, evidentemente).
quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Senado com a bola, na cara do gol

De Brasília, chegam notícias dando conta de que o Senado Federal deverá, enfim, votar, no começo do mês de novembro, o novo marco regulatório do futebol, que compreende a convergência dos PL 5.082/2016 (relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo - DEM/RJ) e 5.516/2019 (de autoria do senador da República Rodrigo Pacheco - DEM/MG), que cria uma série de condições favoráveis para que os clubes de futebol do Brasil possam, se assim o quiserem, optar pela constituição de companhias para gerir as atividades do futebol profissional. A torcida composta por aqueles que querem a evolução do futebol brasileiro, a melhoria das nossas competições, que os nossos times voltem a se colocar no mesmo patamar dos principais times europeus, mantendo por aqui, por mais tempo, nossos melhores jogadores e que nossas crianças voltem a passear usando as camisas dos nossos times, está em pé nas arquibancadas, ansiosa para soltar o grito de gol. O tema da criação de um ambiente favorável à constituição de empresas para gerir o futebol profissional foi trazido ao Congresso Nacional em 2016, quando o então deputado Federal Otávio Leite propôs a versão original do PL 5.082/2016. Tal iniciativa colocou a questão relacionada ao modelo societário na pauta dos debates sobre o que podemos fazer em prol da evolução do nosso futebol. A pergunta: "por que nossos clubes ainda se mantêm no modelo antigo das associações, como quando foram fundados no começo do século XX, e de que maneira isso atrapalha o desenvolvimento do esporte no Brasil?" passou a ser feita e respondida nos mais diversos fóruns. De um lado, o modelo associativo, remanescente do século passado, com suas disputas políticas resolvidas por uma elite de associados, estando o torcedor, que gera as receitas que mantêm os clubes a duras penas, absolutamente excluído das decisões mais relevantes, em detrimento de um modelo que incentiva a eterna disputa entre "grupos e partidos" políticos dos clubes, que só gera ambiente de constante instabilidade, falta de critérios técnicos nas nomeações de dirigentes e, no mais das vezes, cenário caótico e imprevisível, afastando investidores que poderiam estar interessados em aportar recursos no futebol. De outro, a possibilidade de gestão moderna, empresarial, com a adoção de critérios de governança e capacitação técnica na distribuição das funções diretivas, com a obrigação dos gestores de entregarem resultados objetivos e prestarem satisfação aos acionistas - a aos torcedores -, com projetos seguros e de longo prazo, além da possibilidade de inserção dos torcedores nos processos internos, por meio de oferta pública de ações. Fácil escolher, não? Não necessariamente. Em especial, quando aqueles poucos que exercem o poder em alguns dos nossos clubes se aferram, com unhas e dentes, à tentativa de manter seus status. A defesa do grande adversário do futebol brasileiro ainda reúne suas últimas energias para se articular de modo a tentar repelir o ataque do time da profissionalização, da modernização, da evolução das nossas instituições centenárias. E tudo isso com um componente fundamental: em nenhum momento, o novo marco impõe, ou obriga, qualquer clube a adotar o modelo empresarial. De modo que fica absolutamente claro que quem resiste à sua promulgação quer impor ou obrigar nossos clubes a permanecerem reféns do modelo associativo atual, que é excludente, obsoleto e limitado. Defende-se, assim, verdadeira ditadura do associativismo. Não custa lembrar: como resultado da mera proposição do Projeto de Lei 5.082/2016 e dos debates que dela resultaram, surgiram movimentos de modernização da gestão em diversos clubes. Isso já é um mérito de per si. Mesmo sem um ambiente favorável, (poucos) dirigentes visionários, que ousaram sair do lugar comum, passaram a considerar a possibilidade da constituição de empresas para gestão do futebol profissional como instrumento de melhoria das condições de seus clubes. De 2016 para cá, nasceram alguns clubes-empresa, com casos de sucesso em sua maioria, como acontece em qualquer segmento de mercado. Ano passado, um clube-empresa venceu a Série B e ascendeu para Série A do Campeonato Brasileiro. E outro parece estar próximo de repetir o feito, liderando a Série B deste ano. Foi em 2019 que o Projeto de Lei 5.082/2016 ganhou dois impulsos fundamentais: um, quando o deputado Pedro Paulo resolveu adotar a causa como uma das prioridades de seu mandato e conseguiu, em novembro daquele ano, a aprovação do seu Substitutivo na Câmara dos Deputados, com ampla maioria. Então, o tema seguiu para o Senado, onde tramita hoje, em vias de convergir com outro PL, de autoria do senador Rodrigo Pacheco; responsável, aliás, pelo outro impulso, ao apresentar ao Senado Federal, em outubro do mesmo ano, o mencionado PL 5.516/19, que propõe a criação do novo sistema do futebol brasileiro, mediante a tipificação da sociedade anônima do futebol - SAF, o estabelecimento de normas sobre governança, controle e transparência, e a instituição de meios de financiamento da atividade futebolística. A convergência dos dois projetos resultará na alternativa viável que estará pronta para ser levada a plenário nos próximos dias. Os congressistas que participarem do processo de aprovação poderão se orgulhar do bem que farão ao nosso futebol, patrimônio cultural da Nação, e ao país. O que está em jogo, pois, é a definição, pela sociedade brasileira, por seus representantes, sobre o futuro do futebol: em outras palavras, se o futebol brasileiro, com sua capacidade de atrair centenas de milhões de torcedores e revelar os jogadores mais talentosos do Mundo, perderá (mais essa) oportunidade de receber investimentos, em favor de times europeus com muito menos tradição, menos torcedores e sediados em países com mercados consumidores muito menores que o nosso. Falta ao Brasil o marco regulatório que traga segurança ao investidor, o que eles lá na Europa já têm há alguns anos. O Senado Federal pode fazer o gol que nos recolocará no jogo: aprovar o PL 5.082/2016, com a emenda resultante da convergência com o PL 5.516/2019, a tempo e modo de garantir a possibilidade do nosso futebol receber investimentos que, atualmente, se concentram em países europeus. Tudo indica que deve acontecer nos próximos dias. Por aqui, seguimos ansiosos e esperando a rede balançar, para "correr pro abraço".
Toni Morrison (1931-2019) foi a primeira mulher negra a ser agraciada com o prêmio Nobel de literatura, feito ocorrido em 1993. Pelas suas origens, teve que abrir portas e mais portas para atingir a glória, sem que a abertura implicasse, desafortunadamente, uma via de acesso para outras pessoas que, depois dela, tentassem trilhar o mesmo (ou semelhante) caminho. Sua luta, aliás, sintetiza-se, com as suas próprias palavras, extraídas do livro "A origem dos outros", da seguinte forma: "(...) dar continuidade ao projeto humano, que é permanecer humano e impedir a desumanização e a exclusão dos outros"1. Sua obra e seus propósitos não poderiam ser mais atuais. Poucos foram os momentos - e ainda assim geralmente marcados por hostilidades declaradas (i.e., guerras, externas ou internas) - em que o desprezo pelo destino do próximo incorporou-se, sem acanhamento, ao discurso oficial, como ocorre atualmente. Ademais, supostos representantes do povo, eleitos por ele e para implementar suas vontades (do povo, portanto), usurpam o poder e atuam em benefício pessoal - e de seu círculo íntimo - sem uma verdadeira preocupação com o ser humano ou com o planeta. Não à toa, o editorial do New York Times anotou, em relação ao Presidente Donald Trump, que ele "has subsumed the public interest to the profitability of his business and political interests"2. Às favas, assim, com os outros, exceto se forem úteis para alcançar propósitos pessoais. Daí ele ter revelado, continua o periódico, "breathtaking disregard for the lives and liberties of Americans" (e ainda muito maior pelas dos estrangeiros, esses outros que nada valem para o presidente estadunidense, se não proporcionarem uma contrapartida lucrativa).  Diante desse cenário de coisificação das pessoas, ou dos outros - que também se revela no Brasil pandêmico -, a indignação silenciosa ou passiva deve dar lugar à indignação transformadora, por vias institucionais, de modo a afastar condutas, que não são novas, mas que se descortinaram ou se expuseram, sem disfarces, nos tempos atuais. Essa narrativa, como um todo, se estende ao futebol. A começar pelo histórico preconceito, tanto em relação à sua identificação com as coisas do povo, quanto com a supremacia negra ou mestiça em sua prática (que contrasta com a propriedade da empresa futebolística, exercida quase que exclusivamente por homens brancos; talvez não por coincidência, mas reflexiva de posições históricas que resistem no tempo).   Mesmo que um jogador seja reverenciado pelos seus feitos esportivos, sua inserção na sociedade preponderantemente branca, caso ocorra, costuma ser implacavelmente revisada e rejeitada ao menor sinal de fraqueza. Neymar, neste sentido, jamais teve a aceitação que merece, por não se submeter aos requisitos idealizados pela elite econômica e cultural. A falta de preocupação com o jogador, ou com o ser humano, exceto enquanto animador das tardes de domingo, também se expressa pela ausência proposital de políticas públicas efetivas, associada à falsa percepção de riqueza coletiva entre os praticantes do esporte. Nada mais irreal. Com efeito, apesar de relatório da FIFA3, contendo os números de transações ocorridas em 2019, indicar que: (i) do total de 18.042 negócios, 1.988 envolveram brasileiros (mais do dobro do segundo colocado, os argentinos, com 946); e (ii) geraram US$ 925 milhões; a remuneração do jogador em atividade no Brasil apresenta as seguintes características4: (a) 55% recebem até R$ 1.000,00; (b) 33% recebem entre R$ 1.001 e R$ 5.000 (c) 5% recebem entre R$ 5.001 e R$ 10.000; (d) 4% recebem entre 10.001 e R$ 50.000; (e) 1% recebe entre R$ 50.001 e R$ 100.000; (f) 1% recebe entre R$ 100.001 e R$ 200.000; (g) 1% recebe entre R$ 200.001 e R$ 500.000; e (h) 0,1%5 recebe acima de R$ 500 mil.  Se, de um lado, os clubes dependem daqueles negócios - exportação de jogadores - para não terem contas de luz e telefone cortadas, de outro se mascara, na verdade, um subproduto, facilitador de transações e comissões milionárias, que não se revertem ao sistema. O futebol brasileiro pertence a poucos, os mesmos poucos que se beneficiam da incapacidade daquela atividade de se tornar relevante econômica e socialmente. Pior: os donos do futebol tentam reforçar suas posições com projetos de lei oportunistas, que envolvem desde novos programas de ajuda financeira à conta dos recursos dos contribuintes, até a famigerada MP do mandante (idealizada apenas para armar determinado clube, em guerra com certo grupo midiático). Em um país como o Brasil, abençoado pelo atributo futebolístico, que poderia funcionar como instrumento de inserção social e distribuição de renda, o povo não pode mais silenciar. Assim como o Congresso Nacional não pode fazer de conta que o tema é irrelevante. Não é. Ao contrário: abrange aproximadamente 150 milhões de torcedores, dentre os eventuais e os permanentes, que se encontram curvados diante de um modelo desumano e excludente. A relevância justifica, pois, o esforço republicano de convergência e consolidação dos projetos de Lei 5.082/16, relatado pelo Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e 5.516/19, de autoria do Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), ambos em tramitação no Senado Federal, para entrega, ao povo - e não à casta cartolarial -, do novo marco regulatório organizacional do futebol brasileiro. E, assim, devolver ao povo o que é do povo. __________ 1 A origem dos outros: Seis ensaios sobre racismo e literatura; tradução Fernanda Abreu; prefácio Ta-Hehisi Coates. - 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 62.  2 Disponível aqui. 3 Cf. FIFA Global Transfer Market Report 2019. Disponível aqui. 4 Cf. Relatório de Impacto do Futebol Brasileiro (CBF/EY). 5 Esse número deve reduzir os anteriores, para arredondamento da centena. 
O poeta Rainer Maria Rilke nasceu no ano de 1875, em Praga, estudou na Alemanha, impressionou-se pela Rússia, morou em Paris, onde trabalhou com Auguste Rodin, mudou-se para Trieste, depois voltou a morar na Alemanha e, por fim, estabeleceu-se na Suíça. Influenciou autores das gerações seguintes, como o espanhol Enrique Vila-Matas, nascido em Barcelona, em 1948, que manteve intensa atuação como jornalista, mas se notabilizou como escritor - sobretudo ficcionista. Na sedutora obra "Paris não tem fim", o catalão cita ou transcreve o poeta em algumas oportunidades. Numa delas, para apresentar versos dedicados por Rilke à artista Paula Modersohn-Becker, morta precocemente aos 31 anos, intitulada "Réquiem para uma amiga". A composição é inspiradora: "há em algum lugar uma antiga inimizade entre a vida e a grande obra...". O livro, aliás, narra o prelúdio da carreira de um jovem espanhol que, pretendendo consagrar-se como escritor, muda-se para Paris e lá estabelece, no início da década de 1970, contato com algumas das figuras, francesas ou não, que marcavam a cena intelectual (trata-se, pois, de uma espécie de fusão entre ficção e autobiografia). A narrativa não se restringe aos contemporâneos, flutuando, com elegância, por outras personalidades que transitaram, anos ou décadas antes, pela cidade - como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Ao lembrar Marcel Proust - autor parisiense, criador da monumental "Em busca do tempo perdido" -, anota que, para ele, o "passado (...) não só não é fugaz, como não se move de lugar. Com Paris se passa o mesmo, jamais saiu de viagem. E ainda por cima não tem fim, não acaba nunca". Ao lado da beleza arquitetônica, da fartura gastronômica e da luminosidade, os notáveis que habitaram aquela cidade contribuíram - e ainda contribuem - para mitificá-la, tornando-a, no plano do desejo, infindável - e insuperável. Assim, quem vai à capital francesa busca mais do que ela pode entregar em seu tempo; também procura alguma Paris eternizada na literatura, na pintura, na poesia ou no cinema (ou todas elas, como o fez Woody Allen em seu delicioso "Meia Noite em Paris"). Era sobre isso, pois, que Proust escrevia: a impossibilidade do fim lírico, ou poético, por conta do movimento preservacionista e ao mesmo tempo renovatório imposto pelas gentes; e não o desaparecimento físico de uma metrópole que, somente em decorrência de evento apocalíptico, seria varrida do mapa. É justamente nesse ponto que se pode formular uma comparação com o futebol brasileiro. A riqueza de sua história, envolvendo times e jogadores (muitos míticos, como o Botafogo de 1957, o Santos de 1963, o Internacional de 1979, o Flamengo de 1981, o São Paulo de 1992; ou Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé, Rivelino, Zico, Sócrates, Careca, Raí, Romário e os dois Ronaldos), contribui para que, ao se falar do que se joga na atualidade, e por quem se joga, sobrevenha uma nostálgica e importante carga histórica, como que para relembrar a responsabilidade das pessoas que aceitaram manter a tradição. Entende-se, pois, por futebol brasileiro, a soma das experiências pretéritas, que se inserem num processo evolutivo e renovatório contínuo, revelador e afirmador das práticas atuais.   Ocorre que, com o advento de novas técnicas de (i) detenção da propriedade futebolística e (ii) financiamento empresarial, adotadas sobretudo pelos países europeus, a formação espontânea de jogadores e a viabilidade competitiva dos clubes associativos foram colocadas à prova e, conforme os resultados em competições multicontinentais indicam, reprovadas. Não apenas isso, aliás: a própria situação financeira e patrimonial dos clubes locais também reforça a inviabilidade do modelo defendido, de maneira conflituosa, justamente pelas pessoas que pretendem mantê-lo. Apesar desse diagnóstico, que ninguém se habilita a refutar, a nova ordem do futebol, implementada nos principais centros mundiais, continua a ser resistida no Brasil. Chegou-se, assim, ao estágio em que os donos do futebol, ou seja, os dirigentes formados e eternizados no ambiente clubístico-associativo, não têm mais condições - e legitimidade, tamanho o estrago causado ao patrimônio histórico-cultural brasileiro -, para determinar o ritmo e o conteúdo das mudanças que devem ser implementadas. Resta, em contrapartida, apenas uma saída: a devolução do destino do futebol ao povo: ao Congresso Nacional, portanto. Mas não se iludam os congressistas; ou não iludam o povo, que representam. Apesar de o futebol não ter "saído de viagem" e de se manter por aqui - conforme metáfora proustiana -, ninguém mais, fora do Brasil, e mesmo no Brasil, o contempla, como o contemplava no passado. E como o futebol é momento (ao contrário de Paris, que oferece sensações híbridas), as realizações do passado são insuficientes para manter o interesse global na produção futebolística brasileira - exceto de mercadores de jogadores, que enriquecem de modo inversamente proporcional à derrocada clubística. Daí a missão - e a responsabilidade - do Congresso Nacional. Daí, também, a oportunidade de devolver ao povo o que é do povo - e não de uma casta cartolarial que, conforme demonstram os resultados práticos, é dirigida por interesses próprios. Daí, por fim, a urgência de desmentir Rilke: afinal, a grande obra não precisa ser inimiga da vida; ela pode transformar e enaltecer a vida. E o futebol, como nenhuma outra atividade, pode, neste País de desigualdades, de modo grandioso, contribuir para construção de uma sociedade mais tolerante e igualitária. O caminho está posto: a conclusão do processo de convergência dos projetos de lei 5.082/16 (relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo, DEM/RJ) e 5.516/19 (de autoria do senador da República Rodrigo Pacheco, DEM/MG), ambos em tramitação no Senado Federal; e a entrega, pelo Congresso Nacional, do marco regulatório condizente com a grandeza da história e do futebol do Brasil. 
O debate a respeito do clube-empresa não é uma novidade: está na pauta desde o advento da Constituição de 1988 e vem repercutindo, com maior ou menor intensidade, a cada crise clubística ou por ocasião do surgimento de leis de natureza esportiva. Durante todo esse período (mais de três décadas, portanto), o enviesamento ideológico, dirigido à preservação de interesses conflitantes com o desenvolvimento da atividade futebolística, impediu a sua progressão. Nesse sentido, a afirmação da associação sem fins lucrativos, como agente proprietário e organizador da empresa do futebol, foi facilitada pelas soluções puramente formais adotadas pelas Leis Zico e Pelé, que se expressaram pela mera sugestão ou mesmo pela obrigatoriedade da passagem do associativismo ao modelo empresarial, sem preocupação, porém, com a criação de um ambiente receptivo às novas entidades empresárias-futebolísticas. Assim, os dirigentes de clubes declararam a incompatibilidade do modelo pretendido por ambas as leis com a natureza da relação mantida pelo brasileiro com o futebol, e conseguiram preservar seus próprios interesses, em detrimento do interesse coletivo. Quando se imaginava o fim do movimento progressista - e a consagração definitiva do cartolismo, mesmo diante das evidências da destruição patrimonial (e afetiva) provocada pelo sistema - surgiu, no início de 2016, o PL 5.082/16, de autoria do então Deputado Federal Otavio Leite (PSDB/RJ), que tinha como propósitos a criação de nova via societária (a sociedade anônima do futebol - SAF), o estabelecimento de procedimentos de governança e a instituição de regime tributário próprio. A iniciativa redirecionou o debate e jogou luz sobre a essência da problemática: não seria por meio de comandos formais - tal qual a obrigatoriedade de transformação do clube em empresa - que se atingiriam os resultados desejados desde a Constituição de 1988, mas, sim, por intermédio da concepção de um novo sistema, dotado de instrumentos aptos a proteger o futebol como expressão máxima da cultura brasileira e, ao mesmo tempo, atrair recursos disponíveis local e internacionalmente, para financiar a empresa futebolística. O clube-empresa (ou a SAF) seria, portanto, apenas o núcleo do sistema - e não um fim em si mesmo. Nos anos seguintes à apresentação do PL 5.082/16, foram promovidos seminários, eventos, audiências etc., envolvendo o Congresso Nacional, o Poder Executivo, o Poder Legislativo, reguladores, entidades de administração do futebol, associações de classe (como a OAB, o MDA, a AASP e o Congresso Brasileiro de Direito Comercial), clubes, jogadores e o mercado em geral. Formou-se, então, movimento convergente em torno da relevância da atividade e das possibilidades de formação de um sistema sem precedentes no Brasil, capaz de contribuir para o desenvolvimento econômico e social do País, para além do futebol. Em 2019 surgiu um fato novo: o interesse do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), pelo tema. A partir daí, os debates se intensificaram, especialmente com as movimentações promovidas pelo deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), nomeado para relatar um projeto substitutivo ao PL 5.082/16. Paralelamente, o senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), convencido da relevância social e econômica do futebol, trabalhava, levando em conta a riqueza dos materiais produzidos nos anos anteriores e a situação periclitante dos clubes brasileiros, na construção de um projeto que oferecesse a solução sistêmica definitiva para o Brasil. Nasceu, assim, o PL 5.516/19, atualmente em tramitação no Senado Federal, que propõe a criação do novo sistema do futebol brasileiro, mediante a tipificação da SAF, o estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, a instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e a instituição de sistema tributário transitório. Após esse marco, o substitutivo relatado pelo deputado Federal Pedro Paulo (que dispõe sobre o clube-empresa, o regime especial de tributação, as condições especiais para quitação acelerada de débitos, o parcelamento especial de débitos e a recuperação judicial do clube-empresa) também foi apresentado e votado na Câmara dos Deputados, e na sequência remetido ao Senado Federal, por onde também tramita. Os projetos adotaram premissas distintas e soluções diversas para os mesmos problemas. Daí a inevitabilidade da confrontação, por vezes acalorada, na defesa das respectivas convicções. O caminho do dissenso parecia irreversível; até que o mundo parou por conta da pandemia. Esse evento, é sempre bom lembrar, não causou os problemas do futebol brasileiro - a causa é o ineficiente e retrógrado sistema associativo-cartolarial -, mas não há como negar que os potencializou, de modo dramático. Foi aí então que o espírito republicano prevaleceu e, incentivados pelos presidentes de ambas as casas congressuais, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre (DEM/AP), os autores dos projetos em tramitação no Senado Federal, senador da República Rodrigo Pacheco e deputado Federal Pedro Paulo, iniciaram conversas a respeito de possível (e necessário) processo de convergência, com o propósito de oferecer ao país um projeto único, dotado dos instrumentos necessários para instrumentalizar a recuperação da atividade futebolística e, ao mesmo tempo, criar o novo mercado que a financiará, com sustentabilidade. Emergiu, assim, oportunidade histórica de o Congresso Nacional resolver um problema secular, que atinge a mais cobiçada - e numerosa - atividade humanística (e que é paixão do brasileiro): o futebol, com seus aproximadamente 4,5 bilhões de seguidores (e, daí, todas as possibilidades econômicas e sociais que são exploradas e aproveitadas pelos países europeus e asiáticos; mas são desperdiçadas em nosso País). E não se diga, ademais, que não é a hora e a vez do Congresso Nacional atuar, porque estaria dedicado exclusivamente ao enfrentamento da pandemia. Também chegou a hora e a vez, sem que isso signifique negligenciar as questões emergentes da covid-19, dos projetos estruturais, que impulsionarão a retomada do crescimento da economia e a inserção da população afetada pela crise. Dentre eles, o marco regulatório do novo mercado do futebol, proveniente da convergência entre os projetos dos congressistas Rodrigo Pacheco e Pedro Paulo, após décadas de aprimoramento e debates, está maduro para ser criado. Enfim, talvez se tenha, pela frente, o prazo de 60 dias, ou pouco menos, para que o Congresso Nacional escreva uma belíssima (e fundamental) página de sua história.