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Cara ou coroa ?

Quantas faces tem a justiça ? Há quem diga que, tal como uma moeda, a justiça possui duas faces. A primeira está ligada aos instintos mais primitivos do homem, como uma espécie de Lei de Talião, no olho por olho - dente por dente, feita sempre na autotutela, ou seja, com as próprias mãos.

Da Redação

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Atualizado em 11 de novembro de 2009 13:25


Cara ou coroa ?

Eça de Queirós - personagens e cenas jurídicas de um homem do Direito

Quantas faces tem a justiça ? Há quem diga que, tal como uma moeda, a justiça possui duas faces.

A primeira está ligada aos instintos mais primitivos do homem, como uma espécie de Lei de Talião, no olho por olho - dente por dente, feita sempre na autotutela, ou seja, com as próprias mãos.

A outra face, mais polida, é a dos homens que recorrem aos códigos de convivência criados no decorrer do tempo para o bom relacionamento em sociedade.

Em "Páginas de Jornalismo", Eça de Queirós coloca as duas faces da justiça, frente a frente, numa história cuja conclusão dá o que pensar. Estamos em Hillsboro, Estados Unidos, onde um grupo de mulheres comparece perante um tribunal de justiça por ter entrado à força na loja de um licorista, entornando-lhe todos os líquidos de que estava sortido aquele estabelecimento.

A ação foi fruto de um acordo feito entre as mulheres. Em reunião na igreja, decidiram opor-se à venda de bebidas alcoólicas no bairro em que moravam e lá foram bater à porta do licorista, para exigir que o estabelecimento fosse imediatamente fechado. Com a recusa do lojista, o grupo invadiu o local liderado por uma mulher já idosa, Mrs. Blackburn, que exclamou : "é aqui que, há um ano, meu filho morreu em resultado duma contenda, assassinado por alguns dos seus camaradas que estavam embriagados". Findo o brado, teve início a ação destruidora. Achou a pobre mãe seu modo de fazer justiça.

Também o licorista achou o seu. Procurou os tribunais e reclamou os 1.292 dólares e 93 cêntimos de danos e perdas.

Fez-se justiça ?

Eça de Queirós conclui a história : "o tribunal condenou as autoras dos estragos a pagarem ao licorista 615 dólares [...], por terem querido fazer respeitar a lei!...".

Trocando em miúdos, nem cara nem coroa. Não conseguiram as senhoras impedir o uso de bebidas alcoólicas em seu bairro, tampouco conseguiu o licorista ser indenizado pelos prejuízos que teve.

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