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Correspondência

Em fins do século XIX, mais precisamente em 1878, publica Eça de Queirós o romance “O Primo Basílio”. A trama central do livro, que se passa em Lisboa, pode ser muito bem transposta para qualquer capital do mundo e ainda cumprir a mesma crítica ácida a uma das instituições mais importantes da sociedade : o casamento. Expliquemos melhor, a crítica do autor não está no casamento em si, mas nas bases falsas e podres que sustentam, muitas vezes, lares aparentemente felizes.

Da Redação

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Atualizado em 27 de novembro de 2009 12:20

Correspondência

Eça de Queirós - personagens e cenas jurídicas de um homem do Direito

Em fins do século XIX, mais precisamente em 1878, publica Eça de Queirós o romance "O Primo Basílio". A trama central do livro, que se passa em Lisboa, pode ser muito bem transposta para qualquer capital do mundo e ainda cumprir a mesma crítica ácida a uma das instituições mais importantes da sociedade : o casamento.

Em verdade, a crítica do autor não está no casamento em si, mas nas bases falsas e podres que sustentam, muitas vezes, lares aparentemente felizes.

Na história de Eça, destaque para três personagens : Jorge, o marido ; Luísa, a esposa ; e Basílio, o amante.

Num certo dia, Jorge parte numa viagem a trabalho, ausentando-se do lar. Nesse período, chega da França Basílio, o primo e ex-namorado de Luísa. Em casa, entediada, e cultivada pelos livros romanescos, não demorou para que a moça reavivasse a antiga paixão.

E chegamos onde queríamos.

Todo o relacionamento de Luísa e Basílio se desenvolve por meio de cartas e bilhetes. Provas documentais do adultério – que chegam a ser, por isso mesmo, instrumentos de chantagem por parte da empregada da casa contra a esposa infiel.

Mas não nos desviemos. Vamos à correspondência:

Luísa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Basílio: Não pudera — escrevia ele — estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cedo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos pés dela. Compusera aquela prosa na véspera, no Grêmio, às três horas, depois de alguns robbers d' whist, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da ilustração. E terminava, exclamando: — ‘Que outros desejem a fortuna, a glória, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o único laço que me prende à vida, e se amanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existência inútil!’ — Pedira mais cerveja, e levara a carta para a fechar em casa, num envelope com o seu monograma, ‘porque sempre fazia mais efeito’.

No Brasil o adultério era considerado crime pelo artigo 240 do Código Penal – revogado somente em 2005 pela Lei nº 11.106.

Um bilhete como o de Basílio, se fosse descoberto, podia dar cadeia - de 15 dias a 6 meses.

Mas os tempos são outros, e as correspondências agora são eletrônicas.

Aliás, há até o adultério virtual. São as modernidades da vida.

Modernidades que não tiram o aspecto pecaminoso e proibido, que é o alimento maior dos casos amorosos.

Sobre esse aspecto, nada melhor do que o trecho de “O Primo Basílio” que nos conta a reação de Luísa depois de ler o bilhete :

Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

A propósito, talvez você já tenha ouvido a declamação deste trecho feita por Arnaldo Antunes, na música de Marisa Monte.

O fato é que o excerto nos convida a pensar :

Há quanto tempo ‘não escrevemos sentimentalidades’ para o nosso companheiro ?

Dentro da Lei

Com o aumento da infidelidade virtual, aumenta também o ciúme real. Não são poucos os que recorrem aos programas de espionagem disponíveis na internet ou que contratam detetives especializados para sondar os parceiros. Por isso, vale lembrar que violar a correspondência alheia, mesmo a do cônjuge, é crime – previsto no Art. 5º da Constituição, inciso XII. Assim, se o marido ou a esposa autorizar a instalação desses tipos de programas no computador doméstico e colher mensagens que confirmem a infidelidade terá em mãos uma prova legal. Mas, se violar senhas que venham a ser registradas, haverá problemas com a Justiça.

Quanto a Jorge, da trama de Eça de Queirós, nenhum tipo de dúvida sequer pairou sobre sua cabeça. Pelos caprichos da vida, a última correspondência amorosa de Basílio para Luisa chega às mãos do marido por intermédio do carteiro, que entrega a correspondência no lar do casal. Jorge perdoa a traição da esposa, mas Luísa, que já estava acamada em altas febres, devido à vida de sofrimento que tivera de suportar por causa das chantagens da empregada, não resiste e morre. Morte em vão. Apesar das cartas escritas, Basílio, que havia partido novamente para a França, e retornado a Portugal, ao procurar por Luisa e saber do seu trágico destino lamenta apenas não ter trazido consigo sua amante francesa, Alphonsine.

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