O Noam Chomsky, quando não está escrevendo a respeito dos desmandos do George W., dá aulas e conferências sobre lingüística, uma ciência da qual ele é um dos papas mundiais. A senhora não sabe que ciência é essa ? Ele explica : o ser humano utiliza não mais do que trinta sons para expressar-se. Com esses fonemas ele forma palavras, que distribui uma ao lado de outra, formando frases.
Até aí tudo bem. O problema surge agora : como fazer para conseguir que outra pessoa saiba o que aquela frase que eu inventei quer dizer ? Deve haver entre ambos um código que permita esse entendimento. Por exemplo : se eu disser que vi um iaque de cor âmbar passeando junto a um gêiser, quantos leitores conseguirão fazer um desenho mental representando essa figura exatamente com essa cor naquele lugar ? Ir ao dicionário servirá para obter o tal código. Mas isso não explica como a coisa funciona. O que leva o conceituado lingüista a concluir, sem medo de parecer piegas : "Qualquer pessoa comprometida com a crença de que os humanos são organismos biológicos, e não anjos, reconhecerá que a inteligência humana tem alcance e limites específicos, e que boa parte do que procuramos entender poderá estar além desses limites."
Se a ciência não consegue explicar como se forma isso que chamamos de "inteligência", quando se cuida da "genialidade" os cientistas nem tentam.
O Jô Soares, por exemplo, é uma das poucas pessoas que pode dizer ao espelho aquilo que qualquer um de nós, e ele em especial, pensa de si próprio : Eu-gênio. Ele e o Jay Greenberg. A senhora ainda não conhece o Jay ? Que lástima ! Mas antes de falar desse compositor, refiro-me ao Jay, não ao Jô, permita falar de mim, meu personagem predileto.
Dois testes para a tua inteligência. O primeiro teria sido apresentado em um exame vestibular recente : nesta seqüência de números, diga qual deve ser, logicamente, o próximo : 2, 10, 12, 16, 17, 18 e 19. Se você pronunciar os números em voz alta mata a charada : dois, dez, doze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove e duzentos. Ou seja, todos os nomes começam com a mesma letra. O próximo número, portanto, deverá ser 200. Diga francamente : esse teste tem a ver com medição de inteligência do candidato ou serve para medir a cretinice de quem o propôs ?
O outro teste, mais fácil de responder : diga, se não achar a pergunta indiscreta, quantos anos a senhora tem ? 20 ? 40 ? 60 ? E quantas composições musicais já escreveu ? 5 ? 2 ? Nenhuma ?
Pois aí é que está. Tanto eu quanto o Greenberg já escrevemos várias. Cito a mais importante das que escrevi, fazendo, porém, antes disso, todo um circunlóquio, palavra que sempre desejei incluir numa crônica mas não havia ainda tido oportunidade até hoje de fazê-lo.
Tempos de TACrim. Eu mais o Zé Celso fomos designados para representar o Egrégio numa solenidade em Sertãozinho e adjacências. Na direção do carro do tribunal ninguém menos do que o simpático Cipriano, cuja tez, pelo nome, não preciso especificar ser negra. Preconceito ? Não. Isso terá relevância no desenrolar de nossa história, senhoras e senhores. Quando o carro dito oficial segue célere pela rodovia doutor não sei quê de Almeida, eis que um treminhão resolve atravessá-la, vindo do acostamento da direita. Não sabe o que é um treminhão ? Digo-lhe : é um caminhão enorme que, de quebra, tem ligado a si uma carreta mais enorme ainda, e tome cana de açúcar em ambos.
Quando vimos aquele monstro cruzando a estrada, eu e o Zé puxamos de nossos terços e nos pusemos a invocar os santos conhecidos em São Paulo e em Ibitinga. Pensei em mandar o Cipriano tentar passar por baixo do caminhão. O Zé nem sei se pensou alguma coisa. O fato é que o nosso bravo cinesíforo, sem licença prévia de qualquer de nós dois, resolveu acelerar o carro, levando-o para o acostamento da esquerda. E ali, pelo acostamento, a uma velocidade cinematográfica, ele passou rente à frente do lento caminhão, impedindo, com isso, que a magistratura de São Paulo perdesse dois de seus mais valorosos baluartes, se me permitem a modéstia.
Feito isso, ele parou o carro, pois estava mais branco do que alguma coisa muito branca que no momento não sei precisar o que seria, e tomou fôlego para as chamadas vicissitudes que o resto da viagem talvez trouxesse. Eu e o Zé Celso demos um beijo de agradecimento em cada bochecha do Cipriano e dali para a frente eu sempre o cumprimentava assim como alguém que convivesse com seu anjo da guarda, coisa que não é para qualquer um, concorda ?
Meses ou anos depois, o Cipriano me informa que agora se chamava simplesmente Cipri e havia formado um conjunto musical, donde aquele cabelo black-power que ele agora exibia. A senhora não sabe o que é isso ? Procure uma fotografia do Michael Jackson, do tempo em que ele ela negro, tinha lábios de negro e cabelo de negro, formava com seus irmãos negros o Jackson Five e a senhora vai saber do que eu estou falando. Cabelo black-power era assim uma espécie de capacete peludo, inventado por uns ativistas norte-americanos, salvo erro meu.
Pois o Cipri e suas cipriotas, ou que nome tivesse o conjunto musical, adotava aquele visual, no que fazia muito bem. "E estou gravando meu primeiro elepê", informa-me o meu anjo protetor. Pois me cante aí algum dos sambas do disco, digo-lhe eu, entusiasmante. Ele canta um dos sambas do tal disco e eu não deixo por menos : "melhor do que esse eu já compus."
O bravo Cipri não sabia se me mandava para ou se apenas deveria rir de minha pilhéria. Por cautela, prefere rir. Quer ouvi-la ? Sim. Pois lá vai :
"Toda minha alegria acabou/ Fantasia rasgou/ Carnaval/ terminou/ quarta-feira/ e toda a brincadeira/ no chão, a final. Inda ontem passei por aqui/ era um rei/ hoje simples gari. Etc. e tal."
A Excelência tá brincando ? Tou não, Cipri. Pois vou incluir no meu disco.
E toca levarmos aquilo ao maestro fulano de tal, que escreveu a partitura, e agora vamos registrar isso no, o senhor me traga cópia do RG, do CIC, prova de residência, vacina contra sarampo e tome espera. Um belo dia, lá vem o Cipri com o disco pronto debaixo do braço. Acho que só eu e o Mazzoni, que adquiria até disco de comercial, compramos. E posso dizer orgulhosamente que, graças a meu samba, o obscuro conjunto musical Cipri e suas cipriotas despontou para o anonimato.
E a senhora aí rindo, mesmo sem ter jamais feito um sambinha desses, é ou não é ? Tenho outros, mas cadê motorista pra gravá-los ?
Ocorre que eu comecei falando de um colega e me desviei do tema. Esse meu egocentrismo ainda me mata. Pois o colega Jay Greenberg, nascido em 1991, já antes dos cinco anos de idade rabiscava notas musicais numa pauta improvisada. Ou nas paredes da casa. A senhora quando tinha aquela idade se limitava a solos de chupeta, com direito a marias-chiquinhas, é ou não é ? E o nosso colega, meu e do Mozart, já compondo suas áreas e seus quintais.
Em 28 de novembro de 2004, faça aí as contas, o respeitável programa da CBS News 60 Minutes já dava notícias da precocidade do garoto. Em agosto de 2006, continue a fazer suas contas, a Sony BMG incluiu em sua série Masterworks, isto é, Obras-primas, um disco do jovem compositor. Não deixe o Cipri ler isto.
É claro que a ciência, tanto quanto as religiões, passaram a dedicar-se ao fato com a curiosidade que não poderia ser diferente. Reencarnação do Mozart, dizem alguns, com aquela invejável segurança de quem já sabe tudo sobre o aquém e o além. Isso só pode ser milagre ! É impossível a uma criança, que ainda não tem formação musical, distinguir os solos que devem caber ao violoncelo dos que devem caber ao oboé, pontifica o doutor fulano, mui digno titular de.
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