Circus

Reencontro

Reencontro

24/7/2009

 

"Há textos que deveríamos ler de olhos fechados".

Mário Quintana
(em algum livro que eu ainda não sei qual
é e nem sei se algum dia foi escrito)

Você não conhece a Olívia? Que pena! Pense numa casa que desmorona, em Cabul ou Nova Iorque. Sob os escombros um vaso de flor esmagado pelos muitos cacos e pela imensa poeira. Alguém, meio desajeitadamente, resgata o vasinho e leva para uma estufa, onde lhe dedicam alimentação e afeto, que é outra espécie de alimento. Passam-se dezoito dias, ou dezoito meses ou dezoito anos e você reencontra uma inacreditável flor, de uns olhos vivos, um rosto suave e um sorriso que expressa quão bem alimentada ela foi e é. Física e espiritualmente, por duas jardineiras que entendem, olha o destino!, dessa coisa delicadíssima que é a alma humana.

Da cara dela vem uma luz que não é humana. E você chora, como se deve chorar diante dos milagres de Deus.

Não tente entender o que leu. Você já tentou entender uma sinfonia? Por que aqueles violinos solando alucinadamente? E, agora, aquelas trompas? E o tímpano? Qual! Desisto. Melhor apenas ouvir.

Creio que, de vez em quando, Deus destaca um dos seus querubins, daqueles que trazem na mão direita uma espada pontiaguda, pois, como sabemos todos, não existem anjos canhotos, para despertar compositores preguiçosos. O querubim vai à casa do Ravel, entra no quarto, como sabem fazer os anjos, mesmo sem terem a chave da porta de entrada, os arcanjos, os serafins e os querubins, e cutuca as costelas do compositor. "Maurice, Maurice. Réveillez-vous! Réveillez-vous, petit morceau de paresseux!" diz o anjo, num francês apenas sofrível. Pule já dessa cama, seu preguiçoso, e vá ao piano compor uma música com economia de notas. Não precisa usar muitas. Use as mesmas sempre e vá repetindo, repetindo, repetindo, como se o vento leve do outono erguesse do solo folhas que descrevessem círculos, sempre novas folhas e sempre os mesmos círculos. Mostre ao mundo o poder da simplicidade sonora. E lhe dê o nome de Boléro.

Com o Pachelbel aconteceu o mesmo. Como o arcanjo da vez não falava alemão, ele disse ao compositor: "Já para a escrivaninha e componha um Canon and Gigue in D major for three Violins and Basso Continuo." Ele relutou: "Mas se eu compor uma obra dessas que você me pede, no futuro as pessoas vão pensar que eu não compus mais nada. Serei conhecido como o compositor de um cânon só! Uma espécie de Jobim dos ricos." Dois erros numa só frase, corrigiu o anjo. Em primeiro lugar, não se diz "se eu compor", mas "se eu compuser". Em segundo lugar, eu não estou pedindo, estou mandando. E tem mais: não é uma peça para ser entendida, mas apenas para ser ouvida. Melhor, apenas para ser sentida.

Se você duvida da autenticidade desse diálogo, ponha o Cânon do homem no CD player, aperte a tecla correta, cerre a cortina (com C, meu amigo, com C!), repouse a cabeça num confortável travesseiro, feche a luz, apague os olhos e deixe o diálogo dos três violinos invadir o ambiente. De que falam aqueles três tagarelas? Talvez da saúde de suas cordas, pois um deles estava em dúvida se aquela corda mi agüentaria um apertãozinho mais na cravelha. Ou do velho companheiro, o arco de crina de cavalo árabe, amigo inseparável, com o qual já fez excursões fantásticas, como aquela vez em que.

Érico Veríssimo jurou de pés juntos que era ateu, mas que, quando ouvia Bach, quase acabava acreditando na existência de Deus. Não sei se o pai do Luiz Fernando teve tempo de vida suficiente para ouvir mais árias sobre a quarta corda ou se preferiu ficar nos concertos de Brandenburgo. O fato é que, se ele não se encontrou com Deus, a culpa não foi do João Sebastião.

Isso para não falarmos dos poetas, essas pessoas privilegiadas em cujos ouvidos arcanjos de outra ordem celeste assopram coisas ininteligíveis, que os poetas e as poetisas (desculpe, Olívia, mas eu sou dos antigos) se põem a repetir, imaginando que aquilo é para ser entendido. Não é. Se os homens tivessem juízo, não se estudaria poesia nas aulas de literatura, mas nas escolas de música. "Antes, todos os caminhos iam. Agora, todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas". Isso não é para ser compreendido. É para apenas ficarmos pasmos.

"Es mi casa de remiendos,

tan tremendos sus galpones,

tan incómodos sus soles,

pues sus lunas giran lentas.

Es mi casa sin paredes,

verdes campos que se esprayan;

donde hay flores y no hay frutos,

y la gente tiene paz.

Está ella abandonada

y así quedada al reliento;

quién visita allí no queda:

sale y deja sus secretos.

Dormitorio de nostalgias,

canta el viento unas berceuses,

pa' arrullar a quién ya duerme."

Isso não é para ser entendido, Olívia. A poesia, como os milagres de Deus, não se destinam ao intelecto. De que serviria a nosso espírito a ciência comprovar que Lázaro era epilético ou que, na verdade, estava sob o efeito de um choque de catalepsia, coisa que a pobre da irmã não tinha conhecimentos para compreender, até a chegada do visitante ilustre o trouxe de volta à vida?

Assim é com a música, Olívia. Deveria haver uma lei, com penas severas, proibindo as pessoas de ouvirem Bach de olhos abertos. Beethoven não precisava nem dos ouvidos para sentir as maravilhas que sua surdez física o fazia compor. Pois então.

Que cientista se atreveria a explicar esse milagre que é você, Olívia? Tudo o que podemos fazer na tua presença é nos admirarmos, ajoelharmos e chorarmos. Chorarmos como choraremos de emoção no dia do abraço final, que os teólogos chamam de parusia, Olívia. Acho que teu avô concorda comigo.

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Colunista

Adauto Suannes foi desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.