Em casos de denúncia de violência sexual na infância, em especial quando há alienação parental, não é incomum que o psiquiatra forense ou psicóloga jurídica encontre evidências de falsas memórias na criança.
Um exemplo seria, diante de uma suspeita de abuso sexual por parte do genitor, que a genitora estimulasse que a criança falasse sobre o suposto abuso através de um livro infantil e pedagógico sobre o tema. Nestes casos, é possível identificar, por exemplo, após leitura do livro infantil é construída toda uma narrativa a respeito do suposto abuso por parte da criança, que até então inexistia.
Tecnicamente, ao apresentar essa fonte de informações à filha, a genitora passa, de maneira inconsciente ou não, a estimular que a menina crie fantasias sobre a temática, alterando e induzindo as memórias e o relato. A partir desse ponto a criança, por ter sido incentivada, deixa de ser espontânea, construindo uma realidade contaminada, ou seja, que não pode mais ser considerada legítima, fragilizando todo o discurso posterior.
Isso se deve a que a partir do momento em que a criança foi exposta ao referido conteúdo, já não é mais possível determinar se os relatos são provenientes de eventos vivenciados por ela ou "emprestados" das informações, as quais ela foi exposta, ainda mais considerando, que foi a genitora quem ofertou o material para filha.
Isso porque, uma das características inerentes ao funcionamento infantil é a alta sugestionabilidade, mais frequente quando o adulto a quem a criança responde é um dos seus pais ou cuidadores, sendo desenvolvida uma ideia de submissão.
De acordo com Baddeley, Anderson e Eysenck (2011), as crianças podem ceder à pressão social, realizando verbalizações no sentido de agradar o outro, mesmo que sua evocação seja exata. Isso é especialmente provável quando a criança é questionada por alguém mais velho ou de sua confiança.
Sierra, Jiménez e Buela-Casa (2010), asseveram que, "como as crianças querem agradar os adultos, estão dispostas a corroborar qualquer coisa, que eles pensem, que desejam ouvir".
Nesse sentido, reforça-se a fragilidade da declaração inicial, visto que o relato da própria genitora já comprova as interferências impostas pelo referido... e a deferência com a genitora, o que certamente contribuiu, para a contaminação do relato e instauração de falsas memórias.
De acordo com Ceci e Bruck (1995), a sugestionabilidade deve ser compreendida como o grau em que a codificação (fixação), o armazenamento, a recuperação e a evocação da memória podem estar influenciadas por uma série de fatores internos e externos.
Para crianças pequenas, ou seja, menores de 7 anos, muitas vezes é difícil distinguir se a memória relatada é proveniente de algo que aconteceu com ela, de algo que ela viu ou apenas ouviu dizer, hearsay. (BADDELEY, A.; ANDERSON, M.; EYSENCK, M. 2011).
Para Mitchell e Johnson, (2009) os erros de fonte de informação são distorções e equívocos, que acontecem porque a memória infantil tende a preservar a informação, mas não a origem desta.
Assim, elementos sugeridos direta ou indiretamente por adultos, principalmente nos quais a criança confia, passam a ser reportados, como se fossem vivenciados por elas, ignorando a verdadeira fonte de origem das informações
Com efeito, os elementos sugeridos por outras pessoas, por um programa de televisão a que estas assistem ou por histórias contadas, como ocorreu no caso em tela, passam a ser incorporados à própria memória, de forma com que a criança relate experiências similares, que nunca ocorreram de verdade, como se fossem reais. (FRENDA, S. J.; NICHOLS, R. M.; LOFTUS, E. F. 2011.)
Poole e Lindsay (2002.), exemplificam esta situação, indicando que crianças podem ver cenas sexuais perturbadoras e então incorporar determinados elementos, do que viram às suas respostas, quando questionadas a respeito de experiências da vida real. Em outras palavras, as crianças pequenas, são deficientes no monitoramento das fontes dos eventos, não diferenciando a realidade própria de informações as quais foram externamente submetidas.
Nesse sentido, o estudo desenvolvido por Thierry e Spence (2002) concluiu, que as crianças expostas a fontes diversas de informação cometeram cinco vezes mais erros na atribuição correta dos eventos às fontes correspondentes, quando comparadas àquelas não expostas a tantas variáveis.
De acordo com Baddeley e cols. (2011), a maioria das crianças apresenta contaminação da memória do testemunho, pela distorção e tendência a confundir eventos da vida real, com demais informações provenientes de histórias contadas ou programas de televisão assistidos, motivo pelo qual seus relatos devem ser considerados com extrema cautela.
Sobre esse fato, salienta-se que embora as crianças sejam capazes de recordar fatos relacionados às suas experiências de vida, muitas das lembranças sofrem a influência exercida pelos pais.
Assim, grande parte das memórias autobiográficas infantis podem não ser provenientes de experiências realmente vivenciadas por elas, mas sim provenientes de relatos, que a criança ouve de um de seus pais e acaba incorporando em suas próprias recordações.
Nesse sentido, de acordo com Baddeley, Anderson e Eysenck (2011, p.299), as crianças pequenas não são muito boas em comunicar com precisão o que conseguem se lembrar de suas vidas. Como resultado, muitas vezes não está claro se a criança de fato entende que os eventos que ela descreve realmente ocorreram com ela.
Em estudo realizado por Principe, Dipuppo e Gammel (2013), crianças em idade pré-escolar assistiram a um show de mágica na escola.
Posteriormente, suas mães receberam informações falsas sobre o show, sugerindo que seus filhos testemunharam um coelho escapando da cartola do mágico, o que jamais aconteceu. Posteriormente, as mães foram orientadas a conversarem naturalmente sobre o evento com os filhos.
Os resultados indicaram, que as crianças forneceram altos níveis de relatos falsos da atividade, afirmando terem visto o coelho escapando da cartola, o que não havia ocorrido.
Deste modo, ainda que as crianças não vivenciem determinados eventos, dependendo da maneira com a qual os pais estabelecem as conversações, estas podem passar a fornecer relatos acerca de fatos, que jamais ocorreram ou que não ocorreram exatamente daquela forma, nestes casos, distorcendo a realidade.
Essas, ao serem reveladas tendem a denotar maior nível de ansiedade na narrativa e, ainda menor capacidade de detalhamento e precisão, mantendo sempre a origem da necessidade imposta, ou seja, revelar aquilo que é preciso e não exatamente, o que foi vivenciado.
No depoimento especial, um indicativo de falsas memórias e sugestionabilidade é uma narrativa com elementos que indicam confusão, contradição e, ainda, a indução de um estereótipo negativo do suposto abusador.
Infelizmente, há profissionais que realizam entrevistas de depoimento especial que apresentam uma visão enviesada, buscando apenas confirmar sua hipótese de que houve abuso, sem investigar outras hipóteses, deixando de observar indicativos de sugestionabilidade e falsas memórias.
Nestes casos, pode ser fundamental a atuação de assistentes técnicos da área da psicologia ou psiquiatria, que possam esclarecer sobre a possível contaminação da memória da criança supostamente vítima de abuso sexual, talvez vítima de sugestão ou alienação parental.
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BADDELEY, A.; ANDERSON, M.; EYSENCK, M. Memória. Porto Alegre: Artmed Editora, 2011.
SIERRA; J. C.; JIMÉNEZ, E. M.; BUELA-CASA, G. Psicología Forense: Manual de técnicas y aplicaciones. Madrid: Biblioteca Nueva, 2010.
CECI, S. J.; BRUCK, M.; BATTIN, D. B. The suggestibility of children’s testimony. False-memory creation in children and adults: Theory, research, and implications, p.169-201, 2000.
FRENDA, S. J.; NICHOLS, R. M.; LOFTUS, E. F. Current issues and advances in misinformation research. Current Directions in Psychological Science, 20(1), p. 20-23, 2011.
POOLE, D. A.; LINDSAY, D. S. Reducing child witnesses' false reports of misinformation from parents. Journal of Experimental Child Psychology, 81(2), 17- 140, 2002.
PRINCIPE, G. F.; DIPUPPO, J.; GAMMEL, J. Effects of mothers’ conversation style and receipt of misinformation on children's event reports. Cognitive Development, 28(3), 260-271, 2013.
THIERRY, K. L.; SPENCE, M. J. Source-monitoring training facilitates preschoolers' eyewitness memory performance. Developmental Psychology, v. 38, n. 3, 2002.