No Dia Internacional das Pessoas Idosas, é hora de discutir se a tecnologia está sendo construída para todas as formas de envelhecer. Se a inteligência artificial está transformando a maneira como trabalhamos, estudamos, cuidamos da saúde e nos relacionamos, quem pode estar ficando para trás nessa transformação?
A pergunta surge com naturalidade quando lembramos o Dia Internacional das Pessoas Idosas, celebrado neste 1º de outubro. A data nasceu num contexto em que os grandes debates sobre o envelhecimento giravam em torno da proteção social, saúde, aposentadoria e participação na sociedade.
Hoje, o cenário com a IA, os aplicativos, os serviços digitais, a telemedicina, os bancos digitais, os sistemas de reconhecimento facial, as plataformas de atendimento e a digitalização das relações nos convida a resgatar o espírito normativo e as motivações sociais de proteção emergentes de décadas anteriores, que impulsionaram a conscientização internacional sobre a pessoa idosa.
Os impactos e o avanço meteórico da inteligência artificial acrescentam uma camada nova a esse debate. Existem benefícios, é claro. Mas também podem produzir novos riscos e reproduzir discriminações. Destaca-se, apenas a título de exemplo, serviços que podem ser desenhados partindo da premissa que todos tenham a mesma familiaridade com a tecnologia e acesso. É preciso refletir sobre sistemas automatizados que podem reproduzir a discriminação por idade, por meio de algoritmos alimentados por dados históricos que carregam desigualdades. Outra face da mesma moeda é que, em consequência do uso cada vez mais massificado e rotineiro da IA, decisões importantes podem passar a ser tomadas por sistemas que não foram pensados para a diversidade das trajetórias de envelhecimento heterogêneo e, conforme mencionado, com viés discriminatório.
Envelhecer numa sociedade digital não deveria significar apenas aprender a acompanhar a tecnologia, deveria significar ter o direito de participar de sua construção, de questioná-la e de decidir como ela será utilizada.
Talvez um dos grandes desafios do envelhecimento no século 21 (e das próximas gerações) seja não apenas garantir mais anos à vida, mas garantir que esses anos continuem pertencendo a quem os vive, com dignidade, no mundo digital ou fora dele.