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A eleição de 2026 e o poder da comunicação: Quando as ruas, as redes e os símbolos se encontram

A eleição de 2026 evidencia como a estratégia de comunicação, a identidade e a mobilização podem transformar a participação do público em força coletiva.

28/10/2026
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A eleição presidencial de 2026 deixa uma lição importante para os profissionais de comunicação e marketing: não basta ter presença digital, produzir conteúdo ou alcançar milhões de pessoas. É preciso ter estratégia, conhecer o público e, principalmente, transformar comunicação em conexão e mobilização.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, neste domingo (25), depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, representa um caso particularmente relevante para analisar o papel da comunicação na construção de movimentos coletivos e na capacidade de influenciar comportamentos.

O resultado foi histórico. Lula conquistou 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de seu adversário, revertendo a desvantagem do primeiro turno. Foram mais de 64 milhões de votos, em uma disputa marcada pela polarização e por uma intensa mobilização social.

Seria simplista atribuir o resultado exclusivamente à comunicação. Eleições envolvem fatores políticos, econômicos, sociais e históricos. Mas seria igualmente equivocado ignorar a importância da estratégia de comunicação na construção dessa virada.

O que vimos nas últimas semanas foi uma articulação entre mobilização popular, ambiente digital, linguagem, símbolos e objetivos claramente definidos. Elementos que, quando conectados, demonstram a capacidade da comunicação de ampliar movimentos que já existem na sociedade.

As ruas vieram antes das redes

Um dos aspectos mais interessantes dessa campanha foi a relação entre a mobilização presencial e sua repercussão digital.

Durante muito tempo, consolidou-se no mercado a ideia de que uma estratégia de comunicação digital depende, fundamentalmente, de frequência, produção de conteúdo e presença nas plataformas.

A eleição mostrou os limites dessa interpretação. A força da mobilização não nasceu simplesmente de publicações nas redes sociais. Ela se manifestou nas ruas, nas manifestações, nos encontros e na participação de milhares de pessoas que passaram a produzir e compartilhar seus próprios conteúdos.

As redes funcionaram como vitrines e amplificadoras de um movimento que acontecia na vida real.

Essa distinção é fundamental. Uma coisa é produzir conteúdo para tentar gerar engajamento. Outra, muito diferente, é construir um movimento capaz de gerar conteúdo espontaneamente, porque as pessoas se reconhecem nele e desejam participar.

A comunicação deixa, então, de ser uma atividade de emissão de mensagens e passa a funcionar como um sistema de conexões, no qual o público também assume o papel de protagonista.

Conhecer o público continua sendo o princípio de tudo

Outro aspecto relevante foi a adaptação das mensagens aos diferentes públicos. Uma estratégia eficiente não começa pela escolha do canal, do formato ou da ferramenta. Começa pela compreensão de quem queremos alcançar, quais são seus interesses, suas preocupações e os valores que orientam suas decisões.

Na reta final da campanha, ganharam visibilidade iniciativas de mobilização digital que incentivavam apoiadores a ampliar o diálogo para além de suas próprias bolhas.

A lógica era compreender os argumentos e as preocupações de pessoas que ainda não estavam convencidas, em vez de simplesmente repetir mensagens para quem já compartilhava as mesmas posições.

Esse é um princípio essencial da comunicação estratégica. Não se trata apenas do que queremos dizer, mas de compreender com quem estamos falando e por que aquela mensagem pode fazer sentido para essa pessoa.

Em um ambiente marcado pela fragmentação das audiências, essa capacidade de escuta e adaptação torna-se ainda mais relevante. Não existe comunicação eficiente sem conhecimento do público. E não existe conexão verdadeira quando a mensagem desconsidera a realidade de quem a recebe.

A força dos símbolos na construção do pertencimento

A disputa pelos símbolos nacionais também merece atenção. A bandeira brasileira, as cores verde e amarela e a camisa da seleção, fortemente associadas a um determinado campo político nos últimos anos, voltaram a aparecer em manifestações de diferentes grupos.

Do ponto de vista da comunicação, esse movimento evidencia a importância dos símbolos na construção de identidade e pertencimento.

Símbolos carregam significados que ultrapassam sua representação visual. Eles despertam memórias, sentimentos e associações coletivas. Por isso, a disputa por seus significados é também uma disputa de narrativas.

Ao ampliar a presença desses elementos entre seus apoiadores, a mobilização favorável a Lula buscou recuperar uma identificação nacional que não pertence exclusivamente a nenhum partido ou liderança política.

A lição para o marketing é clara: marcas, instituições e movimentos não são construídos apenas por aquilo que dizem sobre si mesmos, mas também pelos significados que as pessoas atribuem a eles.

E esses significados não são permanentes. Podem ser fortalecidos, questionados e transformados ao longo do tempo.

A diferença entre ter canais e ter estratégia

Talvez a principal reflexão deixada por essa eleição seja a diferença entre estar presente e atuar estrategicamente. Ter uma comunidade digital, reunir seguidores, publicar vídeos ou conquistar visibilidade não significa, necessariamente, construir uma comunicação eficiente. É preciso definir objetivos, compreender os públicos, estabelecer mensagens, articular canais e transformar o planejamento em ações coordenadas.

Na reta final da campanha, iniciativas de mobilização digital organizaram apoiadores em torno de atividades compartilhadas, estimulando a produção e a circulação de conteúdos e a participação em manifestações.

A combinação entre ações presenciais, redes sociais, mobilização de comunidades e utilização de símbolos ajudou a construir uma narrativa que ultrapassou os canais oficiais da campanha.

O aspecto mais relevante não está em uma publicação específica ou no desempenho isolado de determinada plataforma, mas na integração das ações. Esse é um aprendizado que ultrapassa o marketing político.

Empresas e instituições frequentemente investem em canais, ferramentas e produção de conteúdo sem estabelecer uma conexão clara entre suas iniciativas e seus objetivos estratégicos.

O resultado costuma ser uma comunicação fragmentada, que produz entregas, mas nem sempre gera impacto. A eleição reforça que a força de uma estratégia não está na quantidade de ações realizadas, mas na capacidade de fazer com que elas trabalhem juntas.

Comunicação também é coerência

Há ainda um aspecto que não pode ser desconsiderado: a relação entre discurso e realidade. Em tempos de hiperexposição, não basta construir uma narrativa atraente se ela não encontra correspondência na experiência das pessoas.

A comunicação pode ampliar percepções, organizar mensagens e mobilizar públicos, mas encontra limites quando tenta sustentar personagens ou promessas desconectados da realidade.

Essa é uma questão central para marcas e lideranças. A construção de reputação depende da coerência entre aquilo que se comunica, aquilo que se faz e aquilo que o público efetivamente percebe. A autenticidade, nesse contexto, não é apenas um atributo desejável. É parte da sustentabilidade de qualquer estratégia de comunicação.

O que essa eleição ensina ao mercado

Independentemente das preferências políticas, a eleição presidencial de 2026 oferece um caso relevante para quem trabalha com comunicação, marketing, reputação e posicionamento.

A mobilização observada nas últimas semanas reforça a importância de integrar diferentes ambientes, compreender comportamentos, reconhecer a força dos símbolos e construir narrativas capazes de gerar identificação.

Também evidencia que o público não pode ser tratado apenas como destinatário das mensagens. As pessoas participam, interpretam, compartilham, questionam e transformam aquilo que recebem.

Em um cenário no qual empresas e instituições disputam atenção diariamente, talvez essa seja uma das reflexões mais importantes. Comunicação não é simplesmente ocupar espaços. É construir sentido, estabelecer conexões e mobilizar pessoas em torno de objetivos compartilhados.

A eleição terminou nas urnas, mas para o mercado de comunicação, suas lições estão apenas começando.

Autores

Fernanda Quintanilha Pinheiro Publicitária, jornalista e especialista em marketing jurídico, com mais de 25 anos de atuação. Foi assessora-chefe de Comunicação Corporativa e assessora de imprensa do Tribunal Superior Eleitoral. Sócia-Fundadora e CEO da Q Comunicação, agência especializada em marketing jurídico, reconhecida no ranking da Leaders League.

Roberta Diniz Publicitária com MBA em Gestão de Negócios e especialização em Gestão de Crise em Comunicação, é sócia-diretora da Q Comunicação e especialista em comunicação estratégica, gestão de crise, reputação corporativa e desenvolvimento de lideranças. Ambientes de alta exposição pública e gestão de temas sensíveis. Atuou em áreas como saúde, mercado financeiro, desastres ambientais, recuperação judicial, denúncias de ilícitos e atuação direta com autoridades de mercado e políticos. Grandes empresas nacionais e multinacionais. No esporte, Roberta já atuou com times de vôlei e basquete.

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