Ellem Roome, mãe de adolescente de 14 anos que morreu após possível exposição ao “desafio do apagão” no TikTok, enfrentará a plataforma na Justiça dos EUA.
O caso, considerado inédito no Reino Unido, será analisado nesta semana por um tribunal de Delaware. A ação é coletiva e reúne outras três famílias que perderam crianças em situações semelhantes.
DesafioO desafio do apagão é uma prática perigosa que circulou nas redes sociais, especialmente em vídeos, na qual crianças e adolescentes são incentivados a prender a respiração, se enforcar parcialmente ou restringir o fluxo de oxigênio ao cérebro até desmaiar.
A ideia apresentada nos vídeos é provocar uma sensação momentânea de euforia ou “desligamento”, tratada de forma banal ou como brincadeira. No entanto, o desafio pode causar perda de consciência, danos cerebrais graves, asfixia e morte, mesmo em poucos minutos.
TikTok se recusou a fornecer dados
Ellen, moradora de Cheltenham, em Gloucestershire, é a primeira britânica a processar formalmente uma empresa de redes sociais pela morte de um filho.
Segundo relatado, no dia da morte, Jools havia passado a tarde com amigos, brincando em um barco e assando marshmallows. Quando Ellen voltou para casa, por volta das 22h30, encontrou o filho sem vida no quarto. O adolescente não tinha histórico de depressão ou automutilação.
Segundo a mãe, o TikTok se recusou a fornecer os dados da conta de Jools, alegando políticas de proteção de dados, e chegou a informar que os conteúdos das crianças envolvidas podem ter sido apagados.
Ao jornal The Sun, Ellen afirmou que a família precisou recorrer à Justiça norte-americana para tentar obter respostas.
“Nós somos os primeiros pais britânicos a processar uma empresa de redes sociais e temos de ir à América para processá-los, o que é ridículo. Tudo o que sempre quis foi que tudo fosse analisado e descobrir a verdade”, declarou.
Investigação retomada
Além da ação judicial nos EUA, Ellen conseguiu que a polícia de Gloucestershire reabrisse a investigação sobre a morte do filho. Conforme informou, investigadores particulares contratados pela família apresentaram um relatório de 23 páginas apontando falhas na apuração inicial.
A mãe também pediu ao procurador-geral Richard Hermer a reabertura do inquérito do legista, que durou apenas 23 minutos. Para Ellen, o procedimento não examinou adequadamente as circunstâncias da morte.
“Não havia problemas de saúde mental. Não encontramos nada que indique depressão ou tendências suicidas. Não há nada, nenhuma evidência disso. Meu argumento é: se não foi suicídio, então o que foi?”, questionou.
Caso não é isolado
O processo coletivo envolve ainda três famílias de Essex. Lisa Kenevan perdeu o filho Isaac, de 13 anos, após ele participar do “desafio do apagão”.
Liam Walsh é pai de Maia, de 13 anos, que morreu depois de ter contato com mensagens perturbadoras.
Já Hollie Dance é mãe de Archie Battersbee, que assistiu a um vídeo de sete minutos no TikTok antes de entrar em coma.
No caso de Isaac, Lisa contou que encontrou o filho inconsciente no banheiro, após arrombar a porta. A análise do celular revelou três vídeos, dois deles relacionados ao desafio do apagão e um com o logotipo do TikTok.
Para o advogado das famílias, as plataformas devem ser responsabilizadas pelos algoritmos que direcionam conteúdos perigosos a crianças.
Lei de Jools
O caso ganhou repercussão em meio ao debate político no Reino Unido sobre a regulação das redes sociais. Ellen defende a proibição do uso dessas plataformas por menores de 16 anos, nos moldes do que foi adotado na Austrália, e cobra atuação mais rigorosa do regulador britânico.
A mãe tem articulado apoio de parlamentares de diferentes partidos e diz esperar o respaldo do primeiro-ministro Sir Keir Starmer. Proposto pela baronesa Beeban Kidron, o projeto da Lei de Jools prevê a preservação automática de dados online quando uma criança morre.
Enquanto a batalha judicial avança, a mãe diz receber contatos frequentes de outros pais que enfrentam dificuldades para obter dados digitais após a morte de filhos. Para ela, o objetivo final é evitar que outras famílias passem pela mesma dor sem respostas.