Aos nove ou dez anos, Julia Baranski escrevia diários para tentar compreender os próprios dilemas. Anos depois, como Defensora Pública, passou a conhecer histórias que dificilmente caberiam naquela escrita íntima: prisões, instituições de acolhimento, lixões e diferentes formas de violência e vulnerabilidade.
Entre uma experiência e outra, a palavra permaneceu. Mudaram, porém, o alcance da escrita e o olhar de quem escreve.
"Antes de ser defensora, eu era uma pessoa; hoje eu sou outra", diz Julia. Ela diz que a Defensoria Pública alterou sua maneira de enxergar o mundo, as desigualdades e as violências patrimoniais, sociais, raciais, etárias e de gênero que atravessam a vida cotidiana.
"A gente lida com um público muito, muito, muito vulnerável, de todas as maneiras possíveis e imagináveis."
Essas experiências permeiam sua produção literária, embora os livros não reproduzam diretamente os casos acompanhados no trabalho.
Em entrevista ao Migalhas durante a 24ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, Julia falou sobre a passagem dos diários para a literatura, os primeiros reconhecimentos ainda na faculdade, a criação de "As prostitutas vos precederão no reino dos céus" e as transformações provocadas pela atuação na Defensoria Pública.
Confira:
Primeiro, a escrita
Quando questionada sobre o que veio primeiro, o Direito ou a escrita, Julia não hesita: a escrita.
O interesse pelas palavras e pela leitura surgiu muito antes da escolha profissional. Para ela, no entanto, escrever também é parte essencial do cotidiano jurídico, especialmente na Defensoria Pública, onde boa parte do trabalho envolve a elaboração de peças processuais.
Julia observa que a leitura e a escrita estão presentes em praticamente todas as profissões, mas assumem uma dimensão particularmente relevante no Direito.
Sua relação pessoal com as palavras começou ainda na infância. Desde pequena, mantinha diários nos quais registrava acontecimentos, dilemas e questões particulares. Alguns deles, escritos quando tinha nove ou dez anos, continuam guardados.
"Eu sempre escrevi de um modo privado, particular, tendo ali na palavra uma fonte até de entendimento de mim mesma."
Julia, contudo, diferencia essa escrita íntima da literatura produzida para encontrar leitores. Os diários revelavam afinidade e habilidade com as palavras, mas ainda não formavam, segundo ela, um projeto propriamente literário.
"Eu não considero que isso é literatura. Eu considero que isso é uma habilidade com as palavras, uma vontade, uma afinidade."
Escrita pública
A passagem para a "escrita pública" ocorreu durante a faculdade. No primeiro ano do curso de Direito, Julia começou a produzir contos pensando em um projeto estético e literário que pudesse ser apresentado a outras pessoas.
Um desses textos foi encaminhado ao Prêmio Off Flip, em 2012, e selecionado como destaque. No ano seguinte, a autora participou novamente e conquistou o segundo lugar.
"A partir dali, foi esse estopim da minha vontade de escrever com um projeto estético, literário, para ser apresentado para outras pessoas, outros leitores."
Um livro construído em oficina
"As prostitutas vos precederão no reino dos céus" foi desenvolvido durante uma oficina literária ministrada pelo escritor Marcelino Freire.
Com duração de aproximadamente seis meses, a oficina propunha que os participantes concebessem e desenvolvessem um projeto de livro.
Durante o percurso, Marcelino anunciou que os trabalhos participariam de uma seleção ligada à Toca Literária e à Balada Literária. Um dos projetos seria publicado pela Editora Nós.
Após duas etapas de seleção, os manuscritos finalizados foram encaminhados à editora Simone Paulino. Ao fim do processo, os livros de Julia foram escolhidos para publicação.
Publicado pela Editora Nós, o livro é composto por três partes e aborda a construção de normas patriarcais relacionadas ao amor romântico, ao corpo e à saúde mental, bem como a ligação dessas normas com a naturalização da violência contra as mulheres.
Violências atravessadas pelo tempo
Embora o livro tenha ganhado forma na oficina, as questões que ele investiga já estavam presentes na produção anterior de Julia.
Seu primeiro livro de contos, "Histórias de amor e de morte", também abordava relações de gênero e violências experimentadas pelas mulheres.
"Essa necessidade de realmente investigar as questões relacionadas ao gênero, as violências, ao longo do tempo, que as mulheres sofreram, sofrem e continuam sofrendo."
Para a autora, esse interesse literário está relacionado ao que observa diariamente na Defensoria Pública.
"Eu acho que surgiu um pouco do que eu vivo no dia a dia."
Vozes da literatura brasileira
Ao falar sobre suas referências, Julia admite a dificuldade de escolher poucos nomes.
A autora afirma ter especial interesse pela literatura brasileira e por escritoras contemporâneas com quem pode manter uma troca próxima.
Entre as autoras mencionadas estão a poeta Angélica Freitas, Maria Fernanda Maglio e Marilene Felinto, autora de "As mulheres de Tijucopapo".
Julia também cita Clarice Lispector entre as referências compartilhadas por diferentes gerações de escritoras.
A lista inclui ainda João Guimarães Rosa e outros escritores homens, embora Julia ressalte que é difícil selecionar apenas alguns nomes diante da variedade de autores que fazem parte de sua formação.
Raio-x das obras
Histórias de amor e de morte
Livro de estreia de Julia Baranski, reúne contos que narram diferentes formas de violência contra as mulheres: aborto, estupro, violência doméstica e feminicídio, além de relações afetivas marcadas por desigualdade, sofrimento e morte.
Publicada pela editora Patuá em 2021, a obra já revela o interesse da autora pelas questões de gênero e pelas violências que se repetem no cotidiano.
As prostitutas vos precederão no reino dos céus
Dividido em três partes, o livro investiga como normas patriarcais relacionadas ao amor romântico, ao corpo feminino e à saúde mental contribuíram para naturalizar a violência contra as mulheres.
Ao combinar diferentes gêneros textuais, ironia e imagens perturbadoras, a obra acompanha gerações de mulheres que buscam desvios diante das regras impostas a elas e formam uma espécie de rede matriarcal de resistência.
Publicado pela Editora Nós, o livro tem primeira edição datada de 2025.