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Para advogados, advocacia do futuro terá IA, mas valor seguirá humano

Especialistas apontaram que tecnologia deve liberar profissionais de tarefas repetitivas, enquanto julgamento, criatividade, gestão e relação com clientes ganham importância.

4/9/2026
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A inteligência artificial deve transformar a estrutura e a rotina dos escritórios de advocacia, mas o diferencial dos profissionais estará cada vez menos no domínio da própria tecnologia e mais em capacidades humanas, como julgamento, criatividade, escuta e construção de confiança.

O tema esteve entre os debates do Europe-Brazil Legal Summit, realizado nos dias 2 e 3 de setembro, em Lugano, na Suíça. Durante o encontro, participantes discutiram como as novas tecnologias estão redesenhando a gestão dos escritórios, a formação das equipes e as competências exigidas dos profissionais da advocacia.

Moderada por Gustavo Chalfun, a mesa reuniu advogados para discutir como preparar equipes para um cenário em que parte do trabalho técnico já pode ser automatizada.

Henrique Ávila, Sérgio Leonardo, Gustavo Chalfun, Kakay, Roberto Morgan Castagnaro, Rafael Lara Martins e Breno Miranda debateram o tema "escritório do futuro".(Imagem: Migalhas/Redação)

Advocacia mediana

O advogado Rafael Lara Martins afirmou que ainda é impossível prever exatamente como será o escritório do futuro. Segundo ele, outras tecnologias, da máquina de escrever à internet, também foram recebidas com previsões sobre o desaparecimento da profissão, que não se concretizaram.

"A advocacia não acaba, ela não vai acabar e, pelo contrário, ela será cada vez mais essencial."

Para Lara, porém, a IA traz um risco específico: a padronização da qualidade do trabalho jurídico.

"Ela puxa para cima quem está lá embaixo e traz preguiça para quem está lá em cima. A inteligência artificial está trazendo uma linha média para a advocacia. Isso é um perigo."

Nesse cenário, afirmou que características humanas continuarão separando profissionais e trabalhos jurídicos. "Sempre vai haver lugar para duas coisas: para genialidade e para humanidade. Não perdamos nossas humanidades."

Uso adequado

O advogado Sérgio Leonardo também afastou a ideia de que o escritório mais tecnológico será necessariamente aquele mais preparado para o futuro.

"O escritório do futuro não é aquele que vai usar mais inteligência artificial, mas é o que vai usá-la da forma mais adequada."

Segundo ele, as equipes precisarão passar por processos de alfabetização em IA para aprender não apenas a operar ferramentas, mas a formular comandos, checar fontes e informações e fazer uma revisão crítica do material produzido.

"A inteligência artificial não pode, em nenhum momento, tirar a centralidade do advogado, do saber humano, do conhecimento."

Leonardo afirmou que ferramentas já podem poupar tempo em pesquisas, análise de processos e organização de reuniões, mas destacou que determinadas atividades, especialmente na advocacia criminal, dependem da experiência e da sensibilidade do profissional.

Também alertou para a necessidade de cuidado com dados sigilosos inseridos em plataformas de IA. Segundo ele, os escritórios precisam conhecer onde as informações são armazenadas, como são utilizadas e se podem servir ao treinamento dos próprios sistemas.

Adaptação

O advogado e ex-conselheiro do CNJ Henrique Ávila recorreu à história para sustentar que a profissão já enfrentou diferentes momentos em que sua necessidade foi colocada em dúvida.

Segundo ele, a advocacia sobreviveu porque exerce funções que continuam necessárias diante da complexidade das relações sociais, como interpretar normas, mediar conflitos e defender interesses perante o Estado.

Agora, afirmou, a capacidade de adaptação será novamente determinante.

"O advogado, na era da inteligência artificial, ou ele domina a tecnologia ou ele vai ser dominado. Não há uma outra opção."

Ávila observou ainda que a IA altera a relação com os clientes, que podem chegar ao escritório com pesquisas e informações previamente obtidas por ferramentas automatizadas. Nesse contexto, ganham importância atributos como julgamento situacional, experiência, criatividade jurídica e responsabilidade profissional.

Formação de novos advogados

O advogado Breno Miranda colocou a gestão no centro da transformação.

"O escritório do futuro passa pela gestão profissional."

Segundo ele, a realidade da maior parte da advocacia brasileira é formada por estruturas de pequeno e médio porte, que não possuem a mesma capacidade dos grandes escritórios para investir em tecnologia.

Miranda também levantou uma preocupação sobre a formação das próximas gerações. Isso porque tarefas tradicionalmente destinadas a estagiários e jovens advogados estão entre aquelas que podem ser automatizadas.

"A IA está substituindo o jovem advogado nas tarefas iniciais, que todos nós aprendemos a advocacia na prática, fazendo essas tarefas. E hoje, como nós vamos formar os nossos novos advogados?"

Para ele, a mudança também deve atingir os modelos de cobrança e a forma como escritórios demonstram valor aos clientes.

Qualidade da decisão

Advogado e empresário, Roberto Morgan Castagnaro afirmou que a disseminação da inteligência artificial tende a fazer com que o simples uso da tecnologia deixe de representar vantagem competitiva.

"Se ela está disponível a todos, ela deixa de ser um diferencial e converte-se apenas no piso mínimo de operação."

Para ele, a automação de pesquisas, análises documentais e elaboração de minutas deve liberar um dos ativos mais importantes dos escritórios: o tempo. O ganho poderá ser empregado no atendimento ao cliente, na liderança das equipes e na elaboração de estratégias.

Castagnaro destacou que informação e julgamento são capacidades distintas.

"O cliente não procura quem sabe mais, ele procura quem decide melhor ao seu lado."

Nesse cenário, defendeu também uma mudança nas formas de avaliação dos profissionais.

"A métrica de valor deixa de ser o volume e passa a ser a qualidade da decisão."

E sintetizou o papel que vislumbra para o advogado diante da automação:

"A máquina encontrará o precedente. Ao advogado caberá criar o próximo."

"Ler a alma humana"

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, levou a discussão para sua experiência na advocacia criminal e destacou que o exercício profissional depende de capacidades que extrapolam conhecimento jurídico e domínio técnico.

Segundo ele, literatura, poesia e capacidade de escuta fazem parte da formação necessária para compreender conflitos e construir uma defesa.

"Você tem que aprender a ler a alma humana, poder falar com as pessoas, e nada disso tem inteligência artificial."

Kakay ressaltou que saber ouvir é especialmente relevante para a advocacia e recordou um conselho que recebeu sobre formação profissional: ler clássicos, poesia, romances e jornais e, "se sobrar tempo", Direito.

A reflexão se somou às demais manifestações do painel no sentido de que a tecnologia deve modificar tarefas e estruturas dos escritórios, mas não elimina competências ligadas à experiência, criatividade, julgamento e relações humanas. Nesse cenário, o desafio para a advocacia será menos competir com a capacidade de processamento das máquinas e mais utilizar os ganhos proporcionados por elas para qualificar aquilo que permanece sob responsabilidade do profissional.

O evento

Realizado pela ALPS Academy, o Europe-Brazil Legal Summit acontece nos dias 2 e 3 de setembro de 2026, em Lugano, na Suíça. Com o tema "Tecnologia, Mercado, Energia e Regulação: Desafios e Oportunidades", o encontro reúne profissionais do Direito e do mercado para discutir negócios transnacionais, energia, reforma tributária, inteligência artificial e os novos desafios da advocacia.

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