Machado de Assis, numa crônica de Balas de Estalo, de 1885, imaginou que, se fosse imperador, suprimiria os "adjetivos de Estado". Deixou a máxima: "Os adjetivos passam, e os substantivos ficam."
Na decisão desta terça-feira, 8, em que determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, ministro André Mendonça foi generoso nos adjetivos.
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Ao longo das 33 páginas, os relatórios de inteligência da Polícia Federal são qualificados, entre outros termos, como:
- documentos com “inúmeras anomalias”, “apócrifos” e “inservíveis”;
- de fragilidade “óbvia e autoevidente” e um verdadeiro “nada jurídico”;
- marcados por “cogitações etéreas” e conclusões “absolutamente descoladas da realidade”;
- dotados de aspectos “estapafúrdios” e conteúdo “surreal”;
- portadores de acusação “abjeta e leviana”;
- recheados de “elucubrações estapafúrdias”;
- “amorfos”;
- aptos a configurar “verdadeira arapongagem institucional”.
Em outro trecho, Mendonça fala em "superlativa perplexidade" e compara o quadro descrito na decisão à distopia de George Orwell em 1984.
O conjunto chama atenção pelo tom pouco usual em decisões judiciais e deixa evidente a severidade com que o relator avaliou os relatórios e sua produção.
Machado, ao fim, talvez ainda tenha razão: os adjetivos passam. O substantivo ficou. Afastamento.
- Processo: Pet 16.662