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Política, Direito & Economia NA REAL

Enfoque político, jurídico e econômico.

Francisco Petros
terça-feira, 19 de maio de 2009

Política & Economia NA REAL n° 52

Terça-feira, 19 de maio de 2009 - nº 52 Governo opera bem as mudanças na caderneta de poupança Apesar dos justificados temores de que as mudanças no rendimento da caderneta de poupança pudessem provocar turbulência e desconfiança no mercado financeiro, o governo conseguiu executar uma eficiente alteração na forma de cálculo dos rendimentos. A utilização da tributação como forma de compatibilizar a rentabilidade da poupança comparativamente às outras aplicações nos parece adequada. Haverá quem prefira uma mudança na lei da caderneta de poupança, mas a estratégia do governo permite maior flexibilidade na execução da política monetária, embora prioritariamente tenha o governo buscado uma solução que não provocasse maior desgaste político. A flexibilidade em termos de política monetária se deve ao fato de que o BC e o governo poderão balizar as taxas de juros da caderneta de poupança e dos outros títulos públicos de forma a que se possa rolar a dívida pública em melhores condições que anteriormente quando o maior (e mais seguro) rendimento da poupança poderia atrair volumosos recursos do sistema financeiro dificultando o refinanciamento ("rolagem") da dívida pública. Ademais, o governo atingiu a nosso ver dois outros objetivos : (i) protegeu o pequeno poupador (91% do total de aplicadores) e (ii) fez uma mudança com tempo para ser percebida pelo público e, desta forma, evitar atropelos. E os dividendos políticos ? Não dá para saber, ainda, se o governo colherá frutos ou sofrerá desgastes políticos e eleitorais com a mudança na caderneta de poupança. É óbvio que o governo não foi mais fundo, com alguma alteração estrutural, porque temia - e teme - as consequências eleitorais. Assim, cercou-se de cuidados ao dizer que uma ínfima parte dos aplicadores serão atingidos. Não dá para saber porque as regras ainda não foram escritas, ou seja, não se sabe de fato como será a taxação da poupança, se haverá exceções, etc. Não se sabe também como será a redução dos impostos para os aplicadores em fundos de investimento. Vai ser uma batalha de comunicação. E o governo parece já estar perdendo o primeiro round quando a mídia já traz comentários do tipo : o governo taxa a poupança e reduz impostos dos bancos e dos grandes aplicadores. Há indicações que parte da base aliada do governo já pensa desse modo. Casa própria, uma incógnita Uma questão, a nosso ver mais vital e importante para o crescimento, diz respeito à casa própria. Nesta questão é que reside a problemática maior do processo de vez que a concessão do crédito imobiliário ainda é morosa e a recuperação dos créditos inadimplentes ainda mais crítico. Tudo isto dependeria de mudanças pontuais e bem estudadas no sistema. Também ajudaria a dar visibilidade maior para a consecução do projeto de "um milhão de casas" proposto pelo governo. Parece-nos improvável que a redução no rendimento da poupança em função da queda da taxa de juros e das alterações que serão introduzidas a partir do ano que vem possam implicar numa substancial queda no custo financeiro do crédito imobiliário. Para que isto acontecesse o spread bancário teria de cair mais abruptamente. Todavia, isto requer medidas de desburocratização para facilitar o crédito (sem estimular a concessão irresponsável de crédito), mudanças tributárias e, principalmente, uma legislação que puna o mau pagador e a instituição financeira que concede crédito sem as devidas garantias e verificações. Para que as mudanças na caderneta de poupança não sejam apenas uma necessidade "financeira" o governo tem de estimular e propor mudanças mais profundas no sistema. Aí temos um campo no qual a oposição teria espaço para exercer responsavelmente o seu papel. Parada técnica ? A recuperação das cotações dos ativos negociados no mercado financeiro mundial foi vigorosa nos últimos dois meses. Alguns exemplos : o rendimento do Índice Bovespa em dólares subiu aproximadamente 58% desde o ponto mais baixo ao final de fevereiro. O índice S&P500, das ações das 500 maiores empresas norte-americanas, subiu 29%. O índice NASDAQ, na maior parte composto por empresas de tecnologia também subiu 29%. Na última semana, os mais importantes índices de preços de ativos de renda fixa e variável apresentaram quedas. De uma forma geral a maioria dos investidores e analistas se tornou mais otimista. Há duas idéias genéricas, mas importantes, por detrás deste maior otimismo : (i) o pior já teria passado e, portanto, a recuperação econômica estaria sendo iniciada e (ii) os fluxos de capital estão menos estrangulados pela severa crise financeira mundial. Note-se o caso da Bovespa na qual o ingresso de recursos estrangeiros tem sido vigoroso nos últimos dois meses. Sempre é difícil confirmar expectativas dos investidores considerando-se a rapidez com que os mercados agem. Alguns indicadores de desempenho da economia européia e norte-americana mostraram que o consumo ainda está muito débil, apesar da melhoria na percepção dos consumidores - a intenção de compra destes vem melhorando seguidamente há três meses tanto na Europa como nos EUA e, até mesmo, no Japão. Estamos numa encruzilhada entre "expectativas" e "fatos". A nossa visão é de que os principais mercados mundiais e o brasileiro passarão por um ajuste, desta feita para baixo, no curto prazo - digamos, um mês. Todos estão à espera de mais indicadores que informem os agentes se as expectativas que têm se formado no mercado são justificadas. De toda a forma, uma última mensagem : se ainda não existem evidências de que a recuperação começou, também não dá para afirmar que a recessão vai se propagar ainda mais. A balança pende mais para um cenário mais otimista, mas a cautela vai prevalecer no curto prazo. Relembrando Na semana passada esta coluna fez várias notas sobre o desempenho estrutural e de curto prazo do mercado. Vale a pena lê-las, pois de muitas formas as nossas percepções sobre o mercado financeiro foram confirmadas durante a semana passada e os aspectos mais significativos apontados nas notas estão mantidos e refletidos no Radar "NA REAL". Radar "NA REAL" 15/5/9 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹ - Pré-fixados NA estável estável - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ² - EURO 1,351 alta alta - REAL 2,10 estável alta Mercado Acionário - Ibovespa 49.007,21 estável/queda alta - S&P 500 882,88 estável/queda estável - NASDAQ 1680,14 estável/queda alta (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Índia deve ser destaque entre emergentes O Primeiro-Ministro indiano Manmohan Singh ganhou um decisivo mandato para implementar políticas ainda mais sólidas e pró-mercado. A vitória nas eleições para o Parlamento indiano do Partido do Congresso foi expressiva e solidifica a aliança política governamental para implementar mais reformas econômicas, manter a inflação sob controle e abrir o mercado indiano para o investimento estrangeiro. Note-se que a Índia deve ser um dos únicos países emergentes, juntamente com a China, a apresentar crescimento econômico num cenário internacional em que todas as economias centrais estarão apresentando quedas substantivas na atividade econômica. Além disso, o país tem forte posição de reservas e não apresenta nenhum problema substantivo em seu sistema financeiro. Este ano a bolsa de valores indiana já subiu 38% e mais de 100% desde o ponto mais baixo no início de março. As apostas são de que a Índia pode ser a preferida dentre os investidores nos próximos doze meses, superando inclusive a China. CPI da Petrobras : a questão econômica Não resta dúvida de que um dos papéis mais significativos do Poder Legislativo é o de fiscalizar o Executivo. Este deveria ser um papel permanente e não ocasional. Uma CPI é uma formação excepcional para a execução deste papel legislativo e deve ser embasada em objetivos concretos. Do ponto de vista econômico, não somente a Petrobras, mas toda a questão energética merece atenção por parte dos legisladores. Afinal de contas, se trata de um dos maiores custos para a sociedade e seria muito importante, a bem do interesse público, saber, por exemplo, se a formação dos preços dos combustíveis atende às melhores práticas econômicas e sociais. Da mesma forma, é estratégico o conhecimento sobre a gestão da estatal do petróleo no que tange aos seus investimentos de curto, médio e longo prazo. A questão do pré-sal é vital neste tema. Há mais a ser analisado : os custos de prospecção, os acordos e contratos de longo prazo e a gestão das despesas de pessoal, além das políticas "culturais" e de publicidade da gigante estatal. Todavia, se é cristalina a necessidade de verificação, também é relevante saber se a formação da CPI das Petrobras atende aos melhores interesses da sociedade brasileira. Isto dependerá dos interesses políticos que sustentam esta investigação. CPI da Petrobras : a questão das contas Em que pesem as restrições expostas acima, há razões objetivas e pontuais para uma investigação sobre o modo de atuar (?) da Petrobras, algumas já listadas no requerimento da CPI : a manobra contábil para pagar menos impostos, a suspeita (levantada pelo TCU) de superfaturamento na refinaria Abreu de Lima, no Recife, os patrocínios culturais para as festas de São João, no Nordeste, especialmente na Bahia, terra do presidente José Sergio Gabrielli, e outros mais. A verdade é que, desde e sempre, com algumas exceções, sempre faltou transparência nos negócios da empresa. O que não quer dizer, necessariamente, corrupção. Mas pelo menos, muito jogo político e às vezes também eleitoral. Quando, há alguns poucos meses, de forma inusitada e quase reservada, a Petrobras pegou dinheiro na CEF para, alegadamente, pagar impostos, muita gente viu nisso problemas de administração financeira na companhia. Ela reagiu, naturalmente negando, mas o empréstimo foi ampliado e renovado. Agora, quando ela usa artifícios fiscais, considerados pela Receita Federal, em nota, irregulares, para recolher ao Fisco menos tributo, uma das alegações é a de que a empresa precisava fazer caixa para investir. O senador Aloizio Mercadante alegou que era melhor isso do que a Petrobras ser financiada pelo Tesouro. Ora, quando ela deixa de pagar impostos, está sendo financiada pelo Tesouro, embora não possa parecer. Há sim o que investigar. Deve-se evitar apenas o barulho político-eleitoral. CPI da Petrobrás : a questão política Um mero olhar superficial diria que o PSDB foi o grande ganhador do embate pela instalação das investigações na Petrobras (abrangendo também a ANP). De fato, os tucanos passaram a perna no governo, instalando uma CPI que a situação não quer ver nem pintada de cor de rosa. E expondo o temor do DEM de levar as investigações adiante para não afrontar certos parceiros. Há tempos o ex-PFL tem sido muito mais atilado que o PSDB em seu oposicionismo. No caso da Petrobras teve uma recaída ainda explicada. Mas o grande beneficiário de tudo, funcione a CPI integralmente, seja ela boicotada, será o PMDB. Não foi à toa que seus principais líderes no Senado - José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá (este no papel de líder do próprio governo na Casa) - não se movimentaram para barrar a CPI. Ou se omitiram fingidamente ou, como Sarney, deixaram o tucano Marconi Perillo instalar a comissão. No momento, na sexta-feira, em que Perillo, como vice, presidia a sessão do Senado, Sarney estava confortavelmente instalado em outro local em Brasília. Agora, o PMDB tem Lula e o PT de novo como reféns. Só o PMDB pode ditar o ritmo das investigações, até onde elas vão até onde não devem chegar. E a fatura não será pequena. Há ainda a vergonhosa revolta de peemedebistas com a demissão de apadrinhados políticos na Infraero. Há que compensá-los. O partido não se conforma em ficar de fora do Conselho Político do governo. Há que agraciá-lo. O PMDB quer que o PT seja mais generoso nas negociações das alianças estaduais. Há que atendê-lo. E o pior é que, nada disso garante qualquer sombra de fidelidade do PMDB. Nem nas votações no Congresso nem na aliança em torno de Dilma Roussef em 2010. O governo vai pagar sem saber se recebe toda a mercadoria prometida. Política social made in Petrobras Segundo um levantamento do jornal a "Folha de S.Paulo" com um analista de um grande banco, desde o início do governo Lula, a Petrobras acumulou um déficit na "conta gasolina" de R$ 6,3 bilhões e um superávit de também R$ 6,3 bilhões na "conta diesel". O cálculo é feito tomando o preço de gasolina e do diesel no mercado do Golfo do México sobre os volumes negociados pela estatal brasileira. É o que se pode chamar de política social ao avesso, ou melhor, política social à moda Petrobras : o diesel, energia essencial para o movimento da economia, e que pesa fortemente nos custos dos transportes coletivos e nos custos das cargas de mercadorias, alimentos inclusos, está bancando a gasolina, usada, basicamente, pelo grupo de veículos leves, de transporte individual e de quem tem mais dinheiro para comprar um carro. Fed será reestruturado Depois de constatada a dramática recessão que se instalou na economia mundial, bem como o papel exercido pelo Fed nos últimos anos, o Congresso ianque começa a discutir mudanças estruturais na gestão do banco central do país. A independência, real ou aparente, será analisada, bem como a estrutura de "bancos centrais regionais". Além disto, a crise bancária deixou largas evidências de que a capacidade regulatória não foi suficiente para evitar os problemas de crédito, dos derivativos e da exagerada alavancagem financeira dos ativos que provocou o colapso de várias instituições financeiras norte-americanas. Também a concessão de crédito para suportar a iliquidez do mercado será outra questão visitada pelos legisladores. Tais alterações vão provocar mudanças não somente nos EUA, mas provavelmente em todo o mundo. Uma coisa parece muito provável : não serão mudanças superficiais. Uma pergunta : os legisladores brasileiros se interessariam pelo tema aqui no Brasil ? Os recuos de Obama Parece sina maquiavélica, mas a verdade é que no exercício do poder todos se tornam diferentes. No caso de Obama está evidente que ele já partiu para a linha do "esqueça o que escrevi e falei". Os dois recuos do presidente norte-americano na semana passada - a questão da divulgação das fotos das torturas da "guerra do terrorismo" e a continuidade dos tribunais militares de Guantánamo - são provas inequívocas de que uma coisa é eleição, outra é governo. Mesmo em sociedades mais organizadas. Uma pergunta : como Obama poderá criticar Cuba e suas prisões políticas quando logo ali na Ilha tem uma base norte-americana que sedia tribunais de exceção ? Aparentemente, Obama caiu no Bush shit. Qualquer semelhança... ...pode não ser mera coincidência. Junho é o mês em que o IBGE anunciará o PIB brasileiro do primeiro trimestre de 2009. E como admite até o ministro Guido Mantega, um craque em errar previsões positivas, ele será negativo. O que já está levando o mesmo Mantega a aceitar que o crescimento da economia nacional vai estar mais próximo do zero que dos 2% positivos até aqui inscritos no Orçamento. Por acaso, o presidente Lula mandou apressar os estudos para o novo marco regulatório do petróleo, para anunciar, também em junho, as regras para o pré-sal, com solenidade, com direito a discurso da ministra Dilma Roussef e tais. Pode ser na mesma ocasião do PIB, para contrabalançar o apelo negativo. Quem tem medo do TCU Por detrás das críticas (corretas, no caso) de gente do governo (a mais recente, do ministro Paulo Bernardo, na semana passada) e do Congresso à demora do TCU em liberar obras que ele mandou suspender por indícios de irregularidades, esconde-se outra manobra menos confessada : o plano de conter as ações do tribunal. A verdade é que o TCU (e alguns TCEs), muito mais ativos e vigilantes do que no passado, estão incomodando com suas novas exigências. Será um escândalo se, a pretexto de não deixar obras prioritárias atrasarem, colocarem algemas nos ministros. Parece que muitos estão com saudades dos tempos em que os tribunais de contas eram meros cabides de empregos e existiam apenas para avalizar o que o Executivo fazia. O brasileiro e suas instituições A revista "Conjuntura Econômica" da FGV de abril traz, comentada pelo professor Joaquim Falcão, os resultados de uma interessante pesquisa organizada pelo Centro de Justiça e Sociedade da Instituição, com revelações sobre o modo como o cidadão brasileiro vê suas instituições e alguns seus profissionais. O levantamento foi feito em todo o território nacional no mês de fevereiro e tinha o objetivo de perscrutar mais profundamente sobre a imagem do Judiciário. Vale ver alguns detalhes : Confiança nas instituições - saldo de confiança (resultado operação entre os que confiam e não confiam) : 1) Forças Armadas - 70 2) Escola - 68 3) Polícia Federal - 50 4) Igreja Católica - 37 5) Ministério Público - 34 6) Imprensa - 25 7) Sindicato dos Trabalhadores - 25 8) Governo Federal - 24 9) Poder Judiciário - 18 10) Igreja Evangélica - 12 11) Assembleia Legislativa - (21) 12) Senado - (33) 13) Câmara dos Vereadores - (40) 14) Câmara dos Deputados - (44) 15) Partidos Políticos - (59) Confiança nos profissionais : 1) Professores - 82 2) Policiais Federais - 49 3) Promotores de Justiça - 49 4) Presidente da República - 45 5) Juízes - 42 6) Jornalistas - 40 7) Militares - 40 8) Prefeito de sua cidade - 21 9) Padres - 19 10) Governador de seu Estado - 17 11) Senadores - (34) 12) Deputados Estaduais - (34) 13) Deputados Federais - (35) 14) Vereadores - (38) 15) Políticos em geral - (63)
terça-feira, 12 de maio de 2009

Política & Economia NA REAL n° 51

  Terça-feira, 12 de maio de 2009 - nº 51 Riscos do Brasil merecem atenção Como estamos a afirmar nas últimas colunas, não há nada de substancialmente errado na condução da política econômica durante o período de crise em que vivemos. A renúncia fiscal promovida pelo governo, as medidas pró-expansão do crédito e o aumento da liquidez via redução da taxa de juros básica e investimentos públicos foram corretos. Faltaram a nosso ver as medidas de redução da tributação sob o segmento de salários. Se do lado conjuntural, o governo foi bem, as preocupações são enormes em relação ao futuro, a saber: 1) O perfil dos gastos públicos correntes, os quais estão em sistemática expansão na última década, é um problema estrutural cuja solução não está minimamente à vista. Ao contrário, vê-se forte mobilização de setores organizados, seja no Legislativo, Executivo ou Judiciário, para a continuidade do aumento das despesas do governo; 2) O calendário eleitoral é muito problemático. Há um "encurtamento" nos prazos eleitorais em função do lançamento das candidaturas e da necessidade de se gerar "fatos políticos" que possam ser favoráveis ao governo ou à oposição; 3) A paralisia do Congresso é dramática. Não há uma reforma substantiva sendo considerada no âmbito do Legislativo. Às vezes, a popularidade elevada do presidente obscurece o papel de fazedor de leis e fiscalizador do governo. Outras, o Congresso mergulha nas suas próprias crises; 4) A melhoria da produtividade da economia brasileira depende e muito da implementação de reformas, sobretudo a tributária (um tema já batido e quase impossível de ser implementado), a previdenciária e a trabalhista. Nada anda nestes itens e a taxa de investimento relativamente ao PIB permanece baixa; 5) Como será a política monetária numa conjuntura eleitoral ? Esta pergunta, menos importante nas últimas eleições, será de relevância vital nas próximas. O tema "juros" está totalmente politizado e, caso a economia se recupere, um maior aperto monetário será necessário. Não há nenhuma proteção institucional (BC independente) que garanta que a atual expansão monetária será revertida; 6) A situação fiscal, no que se refere ao superávit primário parece controlado no curto prazo. Já no médio prazo não é certo, quiçá improvável, que o compromisso com a estabilidade da relação dívida PIB seja mantido. O Brasil permanece em lugar privilegiado dentre os emergentes, mas os riscos acima relacionados estão causando crescente inquietação. Se no mercado internacional a probabilidade de melhoria dos fundamentos está subindo de seus subterrâneos patamares, no caso do Brasil estes riscos podem fazem emergir riscos que causem inquietação à economia. Orçamento : mais acertos O desempenho da indústria em geral em março e o do setor automotivo em abril, passado a euforia das vendas puxadas pelo IPI, acordou de vez o governo. Até no ministério da Fazenda, do otimista Guido Mantega, não se leva mais em conta a história do PIB crescendo 2%. A Fazenda prepara-se para se aproximar da previsão do BC, de 1,2%. O que para muita gente ainda é "exagerado". O discurso para manter o otimismo será dizer que no último trimestre deveremos estar crescendo na faixa dos 4,5%. De todo o modo, mais uma revisão no Orçamento da União terá de ser feita brevemente, ainda mais quando não há sinais de recuperação da receita no horizonte. Seria até bom se os cortes visassem as despesas "ruins". Não será isto, até porque em julho há mais uma rodada importante de aumento da falha salarial. O sacrifício será nos planos de investimentos ou no superávit primário. Ou nos dois. Não se pode chamar tal política de anticíclica. Está mais para pró-eleitoral. Vai dar para agüentar até outubro de 2010 sem efeitos danosos sobre os juros e a economia real ?  Efeitos eleitorais A nota da ata do Copom em que a diretoria do BC explicita a necessidade de se alterar a remuneração das cadernetas de poupança para facilitar a continuidade da diminuição da Selic, não foi lida com alegria no ministério da Fazenda e mesmo em salas do Centro Cultural do BB, a sede provisória do governo federal. O executivo ainda não encontrou a fórmula técnica ideal, para como tem prometido Lula, não prejudicar a maioria dos poupadores e muito menos o discurso político para explicar as mudanças sem riscos de desgastes eleitorais e de dar de graça para a oposição um discurso que ela hoje não possui. Ainda mais que o maior beneficiário imediato da mudança será o próprio governo. E, depois, o setor financeiro.  Mercado : a pergunta do momento A pergunta do momento dentre os investidores, dos "formadores de opinião" e do público em geral é : será que o "tal do mercado" não se valorizou muito rapidamente ? No caso, se referem ao mercado como um todo, tanto o segmento de renda variável, a renda fixa e o mercado cambial. A pergunta, além de importante, é sinal de certa desconfiança de que possa haver um gap entre o nível de preços dos ativos e os fundamentos econômicos e financeiros. Enfim, outra bolha. Vejamos ! A nossa visão Quando se trata de analisar o mercado financeiro é impossível ser determinístico sobre a conjuntura. Há quem acredite nisto. Não é o caso desta coluna. Afinal de contas, estamos tratando de futuro o qual é, por definição, incerto e desconhecido. Todavia, é possível se ter uma visão sobre a situação do mercado. Eis a nossa : 1) A melhoria no mercado reflete uma maior demanda por ativos, fruto de uma extraordinária expansão da liquidez aqui e lá fora. Até o mais aguerrido monetarista há de concordar que, diante de uma provável depressão, a expansão monetária se faz necessária. Os BCs e os governos de todo o mundo incrementaram a demanda via a injeção de recursos no mercado e isto proporcionou a elevação dos preços; 2) Houve uma substantiva melhoria na estabilidade do sistema financeiro internacional. Apesar das trocas de ativos entre os bancos permanecerem bem abaixo daquelas anteriores à crise, a liquidez se expandiu. Além disso, a capitalização do sistema financeiro internacional, via recompra de ativos e emissão de ações, trouxe maior segurança. O sistema ainda está débil, mas um colapso no sistema parece afastado; 3) As principais moedas internacionais estão com um comportamento bastante estável, sem substantivas variações entre elas. Isto é importante de vez que aumenta a visibilidade sobre o comportamento dos balanços de pagamentos dos países; 4) Vários países (EUA, Reino Unido, Alemanha) mostram sinais de estabilização da produção industrial. As comparações anuais ainda mostram quedas substantivas, mas os dados de curto prazo são mais animadores, embora sofríveis. Países nos quais o peso do comércio exterior é maior em relação ao PIB (Japão, por exemplo) a estabilização da produção ainda não ocorreu; 5) Também são visíveis, mesmo que instáveis, as melhorias no mercado laboral. O desemprego está elevado em todas as economias centrais, sobretudo nos EUA, Itália e França, mas com alguns sinais de estabilização. Até mesmo os mais pessimistas descartam, no caso dos EUA, um desemprego muito superior a 10%. Atualmente gravita ao redor de 8,5%; 6) Os países emergentes, sobretudo os mais importantes (Brasil, China e Índia), estão conseguindo manter um nível satisfatório de consumo doméstico. A demanda por commodities começa a dar sinais favoráveis, algo ainda tênue, mas positivo. Rússia (muito dependente do petróleo), México (às voltas com a crise americana e a epidemia de gripe suína) e o Leste Europeu (muito dependente do Oeste Europeu) são os contrapontos negativos; 7) Os fluxos de capital para os países emergentes voltaram e com vigor. Índia e China controlam o câmbio sob regimes semifixos, mas receberam fortes entradas de recursos externos. O Brasil que adota o câmbio flutuante apresentou uma expressiva valorização do real. Um fato jamais imaginado há poucas semanas; 8) A volatilidade despencou. Há vários indicadores de volatilidade. Citamos dois: a volatilidade das ações das 500 maiores empresas industriais (S&P500) caiu para o patamar de 32%. No auge da crise era 85%. No caso das empresas de tecnologia (índice NASDAQ) os números são quase iguais. Menor a volatilidade, maior a demanda por ativos; 9) A inflação está controlada e em queda em todo o mundo, fruto na fragilidade da demanda e do (enorme) ajuste de estoques. A deflação, tão comentada por muitos analistas, parece descartada; 10) As taxas de juros de longo prazo (títulos de 10 anos, por exemplo) nos EUA e na Europa estão subindo em função da expectativa dos investidores de que a atividade econômica futura será maior e, portanto, será necessário apertar os freios da expansão monetária. Então tudo está bem ? Não cabe maniqueísmo quando analisamos o desempenho do mercado. É claro que o mundo não está nada fácil, que há uma tragédia social relacionada com o desemprego, que o sistema financeiro internacional continua debilitado, que os ativos ainda estão muito depreciados, que os investimentos estão baixos, que o protecionismo é um risco etc e tal. O que estamos a analisar no item anterior é se a melhoria dos mercados é justificada. Do nosso ponto de vista, a resposta é sim. Isto não quer dizer que os fundamentos estão positivos. Isto quer dizer que os fundamentos econômicos e financeiros estão melhores. Aquém das piores expectativas, mas longe do melhor cenário. Os riscos presentes no mercado são enormes e conhecidos - não precisamos listá-los, pois deles tratamos em muitas colunas. Todavia, as expectativas estão melhores. Os mercados, para o bem e para o mal, vivem de expectativas sobre os fatos. E o curto prazo ? Apesar de nossa análise mostrar que a melhoria nos mercados é justificada, é muito provável que os investidores fiquem mais cautelosos nas próximas semanas. Muitos se sentem confortáveis em realizar lucros depois de uma alta tão substantiva no mercado acionário local e internacional. O mesmo vale para os segmentos de câmbio e renda fixa no caso do Brasil. Além disto, é muito provável que os investidores esperem mais dados sobre o desempenho da economia doméstica e internacional para confirmar (ou não) se as expectativas mais otimistas são (ou não) justificadas. Portanto, entraremos num período de estabilização e, até mesmo, queda dos preços dos ativos. Todavia, não deve ser um processo agudo. Radar "NA REAL" 12/5/9   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹        - Pré-fixados NA estável estável  - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ²        - EURO 1,36 alta alta  - REAL 2,08 estável estável Mercado Acionário        - Ibovespa 51.396 estável/queda alta  - S&P 500 929,23 estável/queda estável  - NASDAQ 1739,00 estável/queda alta (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Efeito da crise ? Números que o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial e o Instituto Brasileiro de Economia da FGV vão divulgar depois de amanhã no Rio, mostrarão um dado preocupante: a economia subterrânea ou informal no Brasil cresceu no ano passado (portanto, abrangendo os três meses cruéis da crise) mais do que havia crescido entre 2003 e 2007, tudo somado. Os autores e analistas da pesquisa ficaram assustados. A Petrobras e o mau exemplo Há poucos dias, num inflamado discurso, Lula disse que a Petrobras precisa compreender que o Brasil é maior do que ela. Em raros momentos dos seus quase 55 anos de existência a estatal pensou assim. Ela sempre acha que é maior do que o país. Inclusive agora, com Lula, sua popularidade e tudo o mais. Devemos ao jornal "O Globo" de domingo a revelação da última façanha da estatal. Ela acionou um artifício contábil que a levou a pagar menos R$ 6,5 bilhões de impostos no ano passado, prejudicando a União, os Estados e os municípios. Tributaristas dizem que a manobra é legal, mas não poderia ter sido adotada, como o foi, retroativamente. Legalidade à parte, a Receita Federal, sempre procurou coibir o planejamento fiscal quando praticado por agentes econômicos privados. Por ser a Petrobras, até agora o Leão está desdentado. E a vida segue seu curso Está dando que se temia. Depois da algumas semanas de vacilação, o presidente da Câmara, Michel Temer, pôs em campo a interpretação jurídica por ele levantada e que permite contornar a norma constitucional de que as MPs não votadas no prazo impedem a votação de qualquer outra matéria na Câmara e no Senado. O STF, acionado pela oposição não se manifestou ainda, a oposição não protestou, e vários projetos foram liberados. O governo está feliz porque pode continuar legislando como quiser. E o Congresso pode mostrar que está trabalhando. A excrescência continua lá, porém todos serão felizes para sempre. O número três voltou a empolgar Em Brasília estão deixando de ser apenas sussurros - ou ecos de vozes esdrúxulas como as de Fernando Collor de Mello e Roberto Jefferson - as conversas sobre a possibilidade de se criar as condições para o terceiro mandato do presidente Lula. A defesa da re-reeleição somente ainda não cresceu na mídia em respeito à ministra Dilma Roussef e seu problema de saúde. Mas tem gente de boa estirpe petista que já não se agüenta de ansiedade. Barriga de aluguel A proposta de reforma política mitigada e totalmente equivocada que o presidente da Câmara Michel Temer decidiu ressuscitar é somente para tentar desviar um pouco a atenção da mídia e dos mal feitos quase diários da Câmara e do Senado. Mas, pode ser a porta por onde os defensores do terceiro mandato enfiarão a sua proposta. Lula não quer ? Esta é muito boa. O presidente também sempre foi contra a reeleição. E sempre excomungou um BC independente de fato. E tinha horror de banqueiros. Lula é, antes de tudo, um pragmático. Tomou gosto pelo poder, tanto que já não fala mais em pescar em São Bernardo depois de encerrado seu mandato, já pensa em trabalhar em algum organismo para redimir a África. E há os quase 30 mil companheiros que poderão ficar ao relento se o governismo não tiver um candidato competitivo. E, nesta altura do jogo, não há um plano B de fato, não há uma alternativa a Dilma. A não ser... Se pode piorar, piora O projeto de reforma política a ser apresentado pela Câmara, com voto em lista fechada e financiamento público de campanha (mais a janela da infidelidade), sem outras mudanças profundas na lei eleitoral e na lei dos partidos, é um desastre. Vai ajudar a perpetuar "tudo isso que está aí". É o desrespeito final deste Congresso (seus homens) com os eleitores. Não se iludam, desta vez pode passar, pois as mudanças significam a única possibilidade de sobrevivência política de muitos dos atuais parlamentares. Apesar da máxima do deputado Sérgio Moraes, muitos sabem que estão eleitoralmente marcados para morrer se a eleição parlamentar do ano que vem for minimamente aberta e competitiva.
terça-feira, 5 de maio de 2009

Política & Economia NA REAL n° 50

No Brasil, juros mais baixos e investimento estrangeiro em alta Sempre é difícil ser categórico sobre previsões, embora os analistas do mercado financeiro e de capital adorem exercer o papel de divindade. De toda a forma, acreditamos que há grande chance de que o processo de recuperação da atividade econômica e do emprego possa ter se iniciado aqui no Brasil. Generalizam-se os sinais de que isto esteja a acontecer : melhores indicadores de consumo, inflação em queda, câmbio se valorizando e juros em queda. O Real está subindo, fruto da forte entrada de recursos dos investidores estrangeiros que estão injetando recursos, sobretudo nas ações brasileiras. Este fluxo deve continuar nos próximos meses, embora as incertezas no mercado internacional ainda sejam empecilho de que este processo de generalize ainda mais. Do lado dos juros, o principal movimento é do BC. Os juros básicos foram reduzidos na semana passada em mais 1%, movimento este altamente esperado pelo mercado e analistas. O grande problema é que é cada vez menos provável que os movimentos na taxa básica de juros influenciem, de forma mais efetiva, os juros dos títulos de médio e longo prazo. Ou seja, os juros podem cair no curto prazo, mas não cairão muito no longo prazo (12 meses à frente). Isto reflete a expectativa de que haja recuperação econômica suficiente para que o foco do BC volte a ser a inflação e não a atividade econômica. Além disso, há uma preocupante elevação das despesas públicas cujos reflexos na inflação e no déficit serão sentidos a partir do ano que vem - um ano eleitoral. Já saímos do fundo do poço ? É esta a sensação mais generalizada, como registrado na nota acima. No entanto, para que o Brasil possa sair mais forte da crise como tem apregoado o presidente Lula e não cansam de repetir seus seguidores e alguns bonecos de ventríloquo do mercado, o governo terá de fazer bem mais - e um pouco diferente do que tem feito - até agora. Não dá para pensar que passado o pior da crise aqui e lá fora, voltaremos a surfar nos bons ventos econômicos que nos ajudaram a subir nos últimos anos. Em matéria de economia, o mundo nunca será como antes - pelo menos não por muitos anos. A crise, com a queda abrupta da atividade econômica, evitou que alguns gargalos sérios na infra-estrutura começassem a dar as suas caras. A deterioração do setor, porém, continuou. E o PAC, ambicioso demais na sua extensão (quem tem mais de duas mil prioridades de fato não tem nenhuma) e sofrendo crônica deficiência de gestão federal, não é e não será a solução. E não dá para ficar dependendo apenas dos cofres da Petrobras. Até porque os problemas de curto, médio e longo prazo estão nos portos, nas estradas, na energia elétrica (algumas termoelétricas foram acionadas na semana passada) e nem tudo atrai investimentos privados. O segredo é recuperar a capacidades de investimento do Estado. Portanto, é preciso que o governo gaste menos no seu próprio custeio e com mais qualidade naquilo que ajuda a melhorar as condições econômicas. O desafio é enfrentar a clientela política com o olho na sucessão presidencial. China cresce. Mais um sinal positivo A expansão da atividade industrial chinesa cresceu em abril 13,1% em comparação a março e foi a maior surpresa dentre os países emergentes nestes últimos tempos. Havia oito meses que a atividade industrial caía seguidamente na China. O maior consumo doméstico alimentou a alta. Se isto é um sinal consistente ainda não é possível afirmar, mas este melhor desempenho da maior economia emergente faz parte de um conjunto favorável de dados que indicam que a crise começa a ceder nos países mais importantes no mundo emergente. O Brasil e a Índia apresentam os melhores desempenhos entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). A China começa a melhorar e a Rússia, país muito dependente do petróleo, é o patinho feio desta estória. A gripe suína se espalha Eis o principal fator a preocupar os mercados no momento. Não bastassem as incertezas da crise agora estamos literalmente tentando adivinhar os efeitos desta gripe sobre os diversos segmentos do mercado financeiro internacional. É certo que não bastam as projeções da OMS ou os dados dos governos. Afinal, trata-se de uma doença viral cuja expansão e efeitos são muito difíceis de serem projetados. Assim sendo, se não é para ficar alertado, não há motivos para se ficar relaxado. O assunto requer atenção e moderação em relação às conclusões sobre os efeitos que podem produzir. Não dá para fazer aposta sobre o tema. Nos EUA, bancos e emprego são os dados mais importantes Nas próximas semanas, os dados de emprego e a verificação do estado de saúde do sistema financeiro serão determinantes para o maior ou menor pessimismo dos investidores. As autoridades reguladoras do sistema financeiro vão divulgar nesta semana os resultados do "teste de stress" aplicado às instituições. Basicamente estes testes têm o objetivo de verificar o comportamento dos sistemas de risco e os informes financeiros dos bancos diante de cenários alternativos de volatilidade e inadimplência. Existem dúvidas se alguns dos principais bancos possam mostrar insuficiência de capital próprio para suportar estes testes. Num sistema financeiro combalido, este tipo de dúvida provoca inquietação de duas formas : (i) o sentimento de que o sistema não é seguro e (ii) em havendo novas captações de recursos via ações, os investidores podem ver diluídas as suas participações acionárias. Na área de emprego o que se espera é simples e objetivo : sinais de que o pior já passou, mesmo que os números ainda sejam sofríveis. Estamos num terreno perigoso de vez que é essencial que sejam revertidas as expectativas negativas instaladas há mais de ano e meio no mercado internacional - de forma mais aguda, desde setembro do ano passado. Radar "NA REAL" Os dados internacionais nos recomendam ainda muita cautela. Todavia, com base no nosso acompanhamento da conjuntura e dos mercados o cenário nos parece mais promissor. A melhor combinação do momento é prudência (nos volumes aplicados) com aumento de risco (em mercado de ações e títulos de renda fixa de menos qualidade). 5/5/9 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹ - Pré-fixados NA estável estável - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ² - EURO 1,33 alta alta - REAL 2,15 alta alta Mercado Acionário - Ibovespa 47.290 alta alta - S&P 500 877,52 estável estável - NASDAQ 1719,20 alta alta (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Mercado de tecnologia em alta As maiores empresas tecnológicas do mundo começam a dar sinais mais consistentes de recuperação da demanda. Depois de quase seis semestres de declínio nas vendas, empresas como Intel, Microsoft, IBM, TSM (Taiwan), Texas, etc. estão registrando alta nas vendas. O cenário ainda é muito incerto, mas os dados objetivos apontam para crescentes pedidos nos próximos meses. Esta recuperação deve ser analisada com muita atenção, pois normalmente a elevação das vendas neste setor indica que os segmentos mais ligados ao consumo estão se tornando mais otimistas. Assim sendo, começam a aumentar a produtividade (via aplicação de mais tecnologia) e a adquirir insumos (tais quais os chips) para a maior produção futura. O processo de ajuste de estoques depois da "freada" pós-quebra do Lehman Brothers está se esgotando. Mais um sinal favorável em meio à crise. O BNDES e o seu papel Ninguém vai se interessar no âmbito do Legislativo ou mesmo do Judiciário em conhecer as atividades do BNDES, especialmente durante a crise atual ? Será que a instituição está utilizando todos os seus recursos de forma absolutamente transparente, profissional e ética ? O BNDES é atualmente o principal provedor de recursos de longo prazo para as empresas tendo recebido bilhões de recursos do Tesouro Nacional. Não mereceria maior atenção dos fiscalizadores ? Lula e o pré-sal O presidente parece que ficou frustrado com o fato de não ter lançado no dia do trabalho um vasto programa de investimento para a exploração petrolífera da camada do pré-sal. "Quando descobre petróleo na camada pré-sal, o Brasil tem chance de transformar-se em um país com potencial extraordinário e aí a gente pode resolver parte dos nossos problemas econômicos", afirmou o presidente. Resta uma pergunta : mesmo sendo razoável que continuemos a investigar o potencial das áreas da camada do pré-sal, não seria razoável que o presidente deixasse claro para o país o quanto empenhará neste projeto, bem como a estrutura de financiamento ? Antes de produzir petróleo, a "camada" pode produzir muitas dúvidas inclusive algumas envolvendo a Petrobras. Ainda há uma dúvida adicional : quando o Governo se empenhará para promover investimentos em consumo e produção "de energia limpa" ? Os biocombustíveis são apenas uma parte deste processo. E o novo marco do petróleo ? Alguém se lembra que, logo que surgiram as primeiras revelações sobre as "minas de ouro" do pré-sal, foi criada uma comissão de "alto nível" para rever as regras de exploração de petróleo no país. Anunciou até a criação da Petrosal, para cuidar apenas dessas riquezas. A proposta ficaria pronta até dezembro passado. Estamos em maio, e nada. Lula cobrou pressa da proposta na sexta-feira, primeiro de maio. Em tempo : a Petrobras sempre viu com maus olhares o nascimento de um concorrente numa área em que ela faz e desfaz, sem contestações. A anistia fiscal Enquanto o país não muda a sua matriz energética, o governo e o Congresso premiam os maus pagadores de impostos com mais uma anistia, a terceira em cinco anos. O setor de álcool ganhou o seu enorme quinhão. Uma moleza sempre é boa ! Assim caminha o erário no exato momento em que mais de 25 milhões de pessoas físicas acabaram de entregar suas declarações para se sujeitarem às durezas do fisco. Calote vergonhoso e cínico O prefeito de SP, Gilberto Kassab, escreveu, com certa elegância vernacular, um artigo no jornal "O Estado de S. Paulo" da semana passada para tentar defender as novas regras para pagamento dos precatórios. Outros gestores públicos também têm ocupado espaços na mídia para explicar a proposta. Curiosamente, parece uma ação orquestrada, tal a similaridade dos argumentos e a "parecença" dos textos. Não convencem, porém, não há justificativa política (nem legal, segundo nossos melhores juristas) para tal barbaridade. O precatório, aliás, em si só já é uma excrescência. O governo deve ao cidadão, não tem mais como recorrer e simplesmente não paga, entrega a ele um "dólar furado" que, se puder não resgata nunca. É caso de polícia. O dia em que tivermos algum tribunal disposto a aplicar nos governantes as leis desse país e mandar alguns deles para a cadeia, a situação vai mudar. O Estado no Brasil trabalha para o interesse do Estado, não pelos cidadãos. Fora do tom Desde sexta-feira - e isso ficou evidente nas cerimônias do pré-sal - o presidente Lula e seus homens deixaram de se referir, pelo menos publicamente, em eventos "administrativos-eleitorais" aos problemas de saúde da ministra Dilma Roussef. Não se sabe se por uma recaída no bom senso ou porque as pesquisas de opinião que o Palácio do Planalto realiza quase que diariamente indicaram alguma "estranheza" da sociedade com possíveis explorações eleitorais do drama da candidata presidencial. A verdade é que alguns, como o presidente Lula no Amazonas, o ministro José Múcio, o senador Romero Jucá e o assessor Marco Aurélio Garcia, saíram um pouco do tom nessa história. Dilma não. O silêncio teria sido menor Lula também saiu do tom também quando resolveu justificar o uso das passagens pelo parlamentares para viagem de parentes, amigos e outros e outras tais. Mais forte do que nunca Engana-se quem dá o PMDB como em baixa apenas porque dois de seus expoentes, os presidentes da Câmara, Michel Temer, e do Senado, José Sarney, estão às voltas com os escândalos que despontam a cada dia nas instituições que eles dirigem. O partido está com uma lista de reivindicações na ante-sala do presidente Lula e vai levar parte do que pede. Além do chamado "apoio a Dilma" pretendido por Lula, o PMDB está apresentando duas novas armas na mesa de litigância : uma CPI do DNIT e outra da Petrobras. Se alguém vai ter de pular miudinho é o PT. O dom da mediunidade Um leitor assíduo e atento desta coluna cobrou as escassas referências neste espaço "às oposições", para o bem e para o mal - ou seja, com críticas ou elogios. De fato, PSDB, DEM e PPS passam pouco por aqui. Mas há uma explicação : como falar do que não existe, pelo menos do ponto de vista da discussão das grandes questões nacionais e da apresentação de soluções alternativas objetivas, concretas às políticas do governo. Os autores da coluna ainda não adquiriram o dom da mediunidade. Poupança : vamos deixar de tergiversações ? A propósito das alterações na remuneração da caderneta de poupança, anunciada pelo presidente Lula há quase dois meses e que segundo o ministro da Comunicação, Franklin Martins, acontecerá até junho, seria aconselhável que o governo dissesse as coisas como elas são, sem subterfúgios : 1. As alterações não virão para proteger o pequeno poupador. Na melhor das hipóteses, ele não terá o rendimento atual, contratado quando ele fez o depósito, diminuído. 2. O maior beneficiário de uma diminuição dos juros e da correção que alcançam os investimentos nas tradicionais cadernetas será o próprio governo. Primeiro, porque evitará o risco de ver uma fuga significativa de investidores em títulos públicos, comprometendo a rolagem de sua dívida. Segundo, porque se a solução para o imbróglio for taxar as aplicações de valores mais altos, como alguns defendem, ainda vai pingar um dinheirinho nas burras do Tesouro Nacional. 3. Os bancos, públicos e privados, também, ganharão com as mudanças. Mas ganharão também sem elas. Não lhes falta "tecnologia" para ganhar dinheiro com juros baixos ou com juros altos. O maior encrencado é mesmo o governo. Asseguram os especialistas que há fortes justificativas técnicas para que se altere, de fato, a forma de remunerar os depósitos em caderneta de poupança. Mas o governo se contorce de pavor de tomar qualquer medida que possa minimamente assustar sua clientela eleitoral. A decisão será político-eleitoreira, o que pode dar no pior.
terça-feira, 28 de abril de 2009

Política & Economia NA REAL n° 49

Terça-feira, 28 de abril de 2009 - nº 49 Judiciário e Legislativo se desgastam, Executivo cresce O STF e o Congresso estão seus papéis invertidos. É sintoma de uma perigosíssima doença para o regime democrático. O Congresso, que deveria dar mais atenção à "voz rouca" das ruas, está de costas para a opinião pública. As medidas que estão sendo adotadas tanto pela Câmara quanto pelo Senado para conter os desvios "comportamentais" dos parlamentares e até de parte do corpo de funcionários das duas casas, estão muito aquém do necessário para que o Legislativo comece a retomar a confiança dos cidadãos. Estas mudanças parecem feitas para tudo permanecer como está. A faxina e a dedetização tem de ser muito mais profunda. O STF, de quem se exige serenidade, isenção político-ideológica e distanciamento para tomar suas decisões, parece ter sido "mordido" pelo bichinho da "espetacularização" que tomou conta da política e da administração pública em todo o planeta : (i) está nos debates públicos pela conquista da opinião pública quando os ministros, a começar (e principalmente) pelo presidente da Casa, Gilmar Mendes, discutem e opinam sobre quase tudo na mídia, sem reservas ; e, (ii) está na política quando um ministro como Joaquim Barbosa insta o colega a sair "às ruas". São papéis trocados, que desgastam as duas instituições, e que no longo prazo (pelo andar da carruagem, não tão longo assim) pode se transformar numa séria crise institucional. Esse quadro amplia o fosso já existente entre o Executivo de um lado, e Legislativo e Judiciário de outro. Esse desequilíbrio não é saudável numa democracia. Não é á toa que o presidente Lula tem se arvorado a dar conselhos "comportamentais" ora a um, ora a outros dos dois poderes. E não é de graça que há muito o Executivo tem avançado sobre as prerrogativas alheias. Dilma e a sucessão : especulações precipitadas Tão logo ficou conhecida a delicada situação de saúde da ministra Dilma Roussef, o mundo político, ainda perplexo e chocado, passou a elucubrar sobre as possíveis repercussões da doença sobre o quadro sucessório, uma vez que ela é a candidata preferida de Lula. E é, em conseqüência, a candidata também da base governista, pois não há no PT, nem entre os aliados, força capaz de contrariar as vontades presidenciais. Muito embora haja gente que não esteja totalmente satisfeita com a opção de Lula, seja porque tenha outros interesses, seja porque não veja na ministra densidade político-eleitoral para a empreitada. Qualquer especulação agora, além de desrespeitosa, é prematura. A candidatura da ministra ainda é uma obra em construção, e o próprio Lula, embora esteja empenhado até o limite do possível na campanha de Dilma, sabe que é real a possibilidade da candidatura não vingar, independentemente de como estiver a saúde da ministra na hora decisiva. O projeto Dilma está quase que inteiramente ligado à permanência do sucesso da política econômica do governo e dos bons ventos que sopraram. É esta a variável que conta, com ou sem Dilma em boas condições. E ela só começará a exibir seus contornos a partir do último trimestre do ano. Se a situação não entrar nos eixos, o projeto Dilma fica ameaçado, pois os aliados e até os petistas vão começar a pressionar para Lula escolher um plano B. Não é por outra razão que Lula tem feito algumas apostas perigosas - e temerárias - em matéria de política anticíclica. Ele quer garantir a qualquer preço um crescimento da economia brasileiro próximo dos 2% este ano, para evitar o "fogo amigo" que começará a atingir sua pupila se ela não subir com mais consistência nas pesquisas eleitorais. E isso, repita-se, depende mais da economia e de Lula do que das condições físicas dela. O Plano B - 1 O governo está interessado em dar um basta nessas especulações que começaram no momento em que foi revelada a situação de saúde da ministra Dilma, não somente para preservar a principal assessora do presidente, mas também para evitar as brigas na base aliada pelo Plano B. Não é a exploração desse quadro pela oposição que o governo deve temer, até porque se a opinião pública perceber qualquer deslize nesse sentido ela estará acabada. Ele tem de temer mesmo é os aliados, que já andam até alimentando a mídia com nomes de possíveis opções de Lula para substituir Dilma. O Plano B - 2 O ex-ministro e atual deputado pelo PSB do Ceará, Ciro Gomes, pode dar adeus à suas pretensões de, em caso da opção Dilma falhar, ser ele o candidato do coração de Lula à presidência em 2010. Ou, então, de compor a chapa com a ministra, como vice. A última demonstração de destempero verbal do ex-ministro, semana passada na Câmara, assustou possíveis parceiros. Mostrou que ele não tem equilíbrio suficiente para enfrentar situações adversas, numa campanha que promete ser dura. Além do mais, quem quer ser presidente ou vice não pode sair do eixo com tanta facilidade como Ciro sai. Mercados melhoraram rápido demais ? I Como os leitores que prestam atenção no noticiário puderam perceber, houve nas últimas seis semanas uma melhora significativa no desempenho dos principais mercados financeiros e de capitais. O Brasil não foi exceção. Ao contrário, está claro que os títulos de renda fixa e variável do país e de suas empresas são destino preferido dos investidores nestes tempos de crise. Este desempenho satisfatório dos mercados não é surpresa. De fato, ele representa certa estabilização diante da trágica crise que se desenvolve desde o ano passado. Há crescente confiança no combalido sistema financeiro internacional - este aspecto é condição essencial e necessária para que se possa, pouco a pouco, recuperar o crédito entre as instituições financeiras, empresas e indivíduos. A temporada de resultados das empresas com ações cotadas em bolsas também deu alento aos investidores. O que se vê são resultados muito ruins, mas de muitas formas já espelhados no valor das empresas. A contratação da atividade econômica ainda deve provocar mais ajustes no mercado corporativo, mas a magnitude destes ajustes será decrescente daqui para frente. Mercados melhoraram rápido demais? II Há um gap entre expectativas e realidade no mercado financeiro. A realidade futura pode ser pior ou melhor que as expectativas. E vice-versa. Portanto, o que é percebido neste momento pelos analistas e investidores pode não se realizar mais na frente. A crise corrente decorre de expectativas exageradas sobre o futuro, um processo especulativo imenso e irresponsável. A nossa percepção é que a partir de agora as coisas tendem a ser melhores que as (piores) expectativas dos investidores. O futuro não é brilhante, mas pode não ser a tragédia que muitos preconizaram. (Lembremo-nos que muitos do que pregavam o paraíso há poucos meses estão a propalar o inferno agora!). De toda a forma, nós acreditamos que é provável que nas próximas semanas os mercados mundiais, incluindo o brasileiro, possam sofrer um ajuste negativo. Não será uma piora estrutural, mas trata-se de um processo natural de realização de lucros numa conjuntura ainda revestida de dúvidas e mazelas. A gripe suína chega neste exato momento de ajuste dos mercados. A gripe suína vai pegar nos mercados Até o nome desta peste é feio! A influenza chega para prejudicar as pessoas e os mercados. É fato significativo e um enorme temor para os países. Setores econômicos mais vulneráveis a esta epidemia vão sofrer muito, como, por exemplo, o setor de alimentos, as linhas aéreas e o setor de turismo. A força das medidas adotadas nos EUA e no México parecem indicar um cenário muito ruim. As medidas são duras e o governo de ambos os países devem ter informações de que a epidemia é mais grave do que parece. É certo que diante de uma coisa tão séria os governos tenham de combinar o pragmatismo das medidas para conter a disseminação da epidemia com a arte de evitar o pânico. O mais perigoso deste processo é que ainda não se sabe exatamente o tamanho do problema. Este parece ter avançado mais que as próprias autoridades sanitárias dos países pudessem perceber. Do ponto de vista do funcionamento dos mercados é sempre recomendável manter a cautela, mas os fatos nos obrigam a alertar os nossos leitores que neste momento é mais prudente acreditar que os efeitos sobre os preços dos ativos podem ser mais significativos que as primeiras tendências parecem apontar. Radar "NA REAL" Baseados na nossa expectativa de "realização de lucros" nos principais mercados mundiais, bem como no mercado brasileiro, acreditávamos até a semana passada numa queda moderada nos valores dos ativos de renda fixa e variável. A gripe suína deve agravar este processo numa magnitude difícil de ser estimada, mas que não deve ser desprezível. Assim sendo, pioramos as nossas estimativas para o real (em relação às moedas mais fortes) e os mercados acionários externos e locais. 24/4/9   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹        - Pré-fixados NA estável estável  - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ²        - EURO 1,31 alta alta  - REAL 2,20 estável alta Mercado Acionário        - Ibovespa 46.772 queda alta  - S&P 500 866,23 queda estável  - NASDAQ 1694,29 queda estável (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Protecionismo agrícola Esta epidemia de gripe suína deve ter um efeito estrutural imediato sobre os mercados. O protecionismo, um dos maiores riscos depois do débâcle nos mercados ao longo de 2008, vai se espalhar juntamente com o vírus da influenza. Não tenhamos dúvidas disto. As empresas do setor vão ter que se redobrar com mais esta epidemia. Justificativa de ouro para que os países mais ricos levantem as muralhas do comércio. Japão em queda livre No início do ano acreditava-se que a economia japonesa, cuja higidez do sistema financeira foi recuperada depois de longa crise desde os anos 90, pudesse sofrer menos durante a atual crise que a média dos países mais ricos. Pois bem: do início do ano, quando se acreditava numa queda de 2,5% do PIB, as estimativas pioraram significativamente. A queda do PIB no ano fiscal de abril/09 a abril/10 deve ser de mais de 6,0%, segundo dados do FMI. Assim sendo, o governo japonês está propondo um enorme pacote de estímulo fiscal da ordem de US$ 155 bilhões. Trata-se do quarto pacote a se lançado desde o início do ano. As exportações japonesas podem cair cerca de 30% este ano e as importações 10%. O desemprego deve alcançar o patamar equivalente da maior taxa desde a II Guerra: 5,4%. Brasil : e o médio prazo ? Há evidências factuais de que as medidas governamentais para conter os efeitos da crise externa estejam a produzir resultados. A atividade industrial, embora com significativa piora em relação aos números do ano passado, mostra sinais de estabilização. O mesmo pode se falar em relação ao desemprego, apesar da tendência estrutural ser a de queda no nível das contratações. A sólida posição de nossas reservas somada à possibilidade de se gastar mais sem afetar demasiadamente o cenário fiscal do governo no curto prazo são os dois pilares desta recuperação. Há um terceiro aspecto, este endógeno, produzido pela própria crise: a inflação está dominada, especialmente em função do bom desempenho do real perante as principais moedas mundiais. Os investidores internacionais voltaram com força para comprar ativos brasileiros. Este cenário é de curto prazo e adequado para a fase aguda da crise internacional. As questões mais importantes, porém, vão se concentrando no médio prazo, sobretudo se considerarmos a aproximação das eleições do ano que vem. Seria de grande valia para o país e os agentes econômicos que o governo sinalizasse minimamente sobre as políticas a serem adotadas quando a crise for superada. Crescem as preocupações com a estabilidade da relação dívida pública/PIB, bem como com a qualidade das despesas públicas. Este é o "calcanhar de Aquiles" do governo e do país e sobre o qual nem a administração federal e nem mesmo a oposição tem propostas efetivas e realizáveis. Permanecer estático perante o tema é erro sério de condução da política econômica, cujo sucesso no curto prazo pode ser obscurecido pela falta de sinais sobre o futuro mais longínquo. Protógenes escuta, fala e também come Noite de domingo na capital paulista. Umas oito e meia. Pizzaria lotada e uma fila de espera longa e paciente. Adentra na pizzaria tradicional o delegado Protógenes acompanhado de pessoas de meia idade, todas muito interessadas nas palavras do delegado. Um fotógrafo absolutamente careca registra cada passo do policial em meio a pisadas nos pés e empurrões nos pacientes clientes. Protógenes está em trajes formais: terno azul marinho com listras azuis reluzentes, camisa branca e gravata bordô. Uma imagem da Santa de Fátima lhe adorna a lapela. O cabelo, já escasso, em perfeito alinhamento. Ao traje conservador se sobrepõe um par de óculos moderninho (na falta de melhor palavra). A fila de espera não anda rápido, mas logo se ouve o grito do organizador : Protógenes, quatro pessoas! Impassível o delegado vai passando por entre aqueles que esperam enquanto uma senhora, aquelas conservadoras paulistanas dos Jardins, sussurra ao pé do ouvido de alguém: só porque é delegado passa na frente ! Protógenes senta à mesa com seus comensais e prossegue a tertúlia. Moderado é o delegado. Come uns poucos pedaços de pizza e fala e fala. Escuta de forma absolutamente interessada (e legal). Parece sereno. Sem medo de perder o emprego. Nada é pantagruélico. Nem dantesco (sem trocadilhos, é claro !). Nem tudo termina em pizza, nós sabemos! A história ainda não foi toda contada, não é Dr. Protógenes? Em tempo : Protógenes quer um mandato eletivo. Por via das dúvidas... Questão de caixa Melhor não contar nos próximos meses com nenhuma redução nos preços da gasolina e talvez nem mesmo do óleo diesel. Folga há. O problema é que a Petrobrás está precisando engordar seu caixa para investimentos e o Tesouro Nacional necessitando de recursos para cobrir parte das renúncias fiscais concedidas nos últimos meses e  pagar os aumentos dos gastos de Brasília com o custeio da máquina federal e a folha de pagamentos. Uma diminuição nos preços dos combustíveis só será considerada se houver algum risco de um retorno das pressões inflacionárias. O que ninguém está vendo no horizonte - nem o BC. Como ensinou há poucos dias o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, o preço da gasolina é também político. E uma espécie de imposto oculto. E a concorrência ? São fortes as pressões (até agora bem sucedidas) das grandes redes abertas de televisão sobre a Anatel e o ministério das Comunicações para que este não autorize a multiprogramação na televisão digital. O sistema brasileiro, adaptado do modelo japonês, permite até quatro emissões (programação) diferentes por canal. Aliás, esta foi uma das vantagens apresentada pelo ministério para justificar a preferência pelos japoneses em detrimento do sistema americano e japonês. Agora, não parece bem assim. E como fica o consumidor nessa história ? Quem tem medo da concorrência. Aliás, a TV Cultura de São Paulo lançou há cerca de dois meses sua multiprogramação, com programas de qualidade, e foi instada pelo ministro Hélio Costa a tirar os canais adicionais do ar, pois não estava "autorizada". Há mais de um mês espera a licença formal e Brasília nem nada com isso. Em tempo : a quantas anda a fábrica de chips prometida pelos japoneses como compensação pela escolha do sistema deles ? Sumiu das conversas oficiais. Como desconfiava muita gente bem informada na época, foi conversa apenas para engabelar o distinto público brasileiro. Ou será que nossas autoridades foram enganadas ? Não venham com a desculpa que a crise, etc, etc...
quarta-feira, 22 de abril de 2009

Política & Economia NA REAL n° 48

  O furacão tornou-se uma brisa fria Na semana encerrada no dia 17/4, os principais mercados de ações globais consolidaram uma alta contínua de seis semanas. Se considerarmos a elevação dos preços das ações norte-americanas nas últimas quatro semanas a conclusão é impressionante : trata-se da maior alta em setenta anos. Algo notável se observarmos que as variáveis fundamentais mais importantes (situação do emprego e do consumo, a produção industrial, a melhoria da liquidez e a estabilidade do sistema financeiro) ainda não apresentaram uma reversão marcante nas expectativas. De toda forma, é possível ser afirmativo no sentido de que a estratégia de provisão de muita liquidez por parte de governos e bancos centrais está a funcionar. Há que se notar também que os resultados do primeiro trimestre do ano do setor financeiro têm sido em linha ou melhores que o esperado pelos investidores e analistas. De uma forma geral, os desempenhos não são nada bons. Ao contrário : a queda de rentabilidade das empresas globais é gigantesca. Todavia, analistas e investidores parecem acreditar que grande parte destes fatos já está refletida nos preços dos ativos. Se isto é verdade ou não, verificaremos no futuro. Mas há sinais sólidos de estabilização da crise. É preciso reconhecer este fato. Sem entusiasmo, ainda. Dois riscos que merecem atenção : inflação e moedas Nos últimos doze meses economistas proeminentes consideravam o risco de deflação considerável e alguns o julgavam muito provável. Depois da injeção de trilhões na economia, começam a pipocar por todos os lados análises de quando o Fed e seus parceiros internacionais começarão a subir as taxas de juros básicos com o objetivo de evitar a inflação. Nada mal que surja esta discussão. Trata-se de algo saudável levando-se em conta o quanto se discute abertamente a possibilidade de uma longa depressão (cujo risco ainda não está totalmente afastado). Somente o Fed injetou US$ 800 bi no sistema financeiro nos últimos oito meses. Na reunião da próxima semana do banco central americano não se espera nenhuma ação. Contudo, é muito provável que daqui para frente os diretores do Fed e dos principais BCs do mundo comecem a dar sinais de como sairemos deste processo de forte estímulo monetário. O objetivo é não criar novas bolhas especulativas. Preste atenção neste noticiário que deve também influenciar fortemente a política monetária do banco central brasileiro. As taxas de juros dos títulos de 5 e 10 anos do Tesouro Americano serão os indicadores mais importantes deste processo. O segundo risco é o possível movimento entre as principais moedas do mundo. O dólar foi o repouso do capital medroso nos últimos meses. Não é certo que o será num cenário mais tranqüilo. Há fortes apostas de que a moeda dos EUA possa sofrer ataques especulativos nos próximos meses. Processos especulativos com moedas são ainda mais nefastos que os processos inflacionários. Por falar em economistas... ...vale a pena ler o que escreveu sobre eles o economista britânico Anatole Kaletsky, num artigo intitulado "Adeus homo economicus", reproduzido nas páginas do UOL (clique aqui). Vai um aperitivo : "Adam Smith foi um economista ? John Maynard Keynes, David Ricardo ou Joseph Schumpeter também foram ? Segundo os padrões dos economistas acadêmicos de hoje, a resposta é não. Smith, Ricardo e Keynes não produziram modelos matemáticos. O trabalho deles carecia do 'rigor analítico' e da lógica dedutiva precisa exigida pela economia moderna. E nenhum deles produziu uma previsão econométrica (apesar de Keynes e Schumpeter terem sido matemáticos competentes). Se qualquer um destes gigantes da economia se candidatasse hoje a um emprego em uma universidade, eles seriam rejeitados. Se você acha que estamos exagerando, pergunte a si mesmo que papel os economistas acadêmicos exerceram na atual crise. Quantos tiveram algo útil a dizer a respeito do maior colapso em 70 anos? A verdade é ainda pior do que esta questão retórica sugere: não apenas os economistas, como profissão, fracassaram em conduzir o mundo para fora da crise, como também foram os principais responsáveis por nos conduzir até ela." Metais preciosos em baixa Nem tudo que brilha é ouro. Nos últimos tempos o desempenho dos metais preciosos foi brilhante. Altas e mais altas em função do medo em relação à estabilidade do sistema financeiro, bem como os temores de que a inflação se intensifique ou mesmo torne-se descontrolada no futuro (hiperinflação). O cenário mais calmo está jogando as cotações dos metais preciosos para baixo. Um bom sinal, sem dúvida. É parte da boa safra de notícias nas últimas seis semanas. É possível que esta tendência de curto prazo possa se cristalizar em um processo de queda de médio prazo. Atenção ! Radar "NA REAL" 3/4/9   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹        - Pré-fixados NA estável estável  - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ²        - EURO 1,29 alta alta  - REAL 2,19 alta alta Mercado Acionário        - Ibovespa 45.778 estável alta  - S&P 500 869,60 queda estável  - NASDAQ 1641,35 queda estável (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Volatilidade ainda alta Apesar do cenário melhor nas últimas semanas isto não significa que estamos convencidos de que a crise está sendo superada. Ainda temos um longo processo para que isto possa ser afirmado. Para ilustrar o que estamos a afirmar utilizemos dois índices de volatilidade : o índice de volatilidade da Bolsa de Chicago que mede o risco (volatilidade) embutido nas 100 principais ações do NASDAQ. Este índice gravita no momento ao redor de 39-42 pontos. No período de outubro a dezembro do ano passado, estava ao redor de 70 pontos. Vê-se uma grande melhoria. Todavia, antes da crise do ano passado, por volta de agosto, este índice estava entre 18-23 pontos. No caso do índice de volatilidade da Bolsa de Chicago que mede o risco das ações do S&P500 (500 maiores empresas dos EUA), os números são semelhantes : entre outubro e dezembro o indicador estava ao redor de 75-80 pontos, no momento gira ao redor de 40 pontos e por volta de agosto estava entre 16 e 20 pontos. De uma forma geral, podemos dizer que o risco hoje á o dobro de antes da instalação da crise financeira em meados no ano passado. Algo muito sério. Meirelles dá sinais sobre o momento e o futuro As várias entrevistas e declarações do Ministro Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre o cenário econômico devem ser lidas nas entrelinhas. Como costuma ser o caso dos presidentes de BCs os quais lidam, digamos assim, com assuntos conjunturalmente delicados. Quando Meirelles afirma que (i) é "prematuro" dizer que a taxa de juros de um dígito será alcançada no curto prazo em função de "fatores conjunturais (queda da atividade)" e "fatores estruturais (queda do risco país)" e que (ii) "não sabemos como será a conjugação destes fatores no futuro", ele muito provavelmente quer dizer que tudo depende da crise externa no curto prazo e de maior controle fiscal no médio e longo prazo. Há alertas de todos os lados por parte do presidente do BC. A queda da arrecadação e a estabilidade da relação dívida X PIB são destaques dentre as maiores preocupações do Presidente do BC. "Vamos aguardar o desenvolvimento da crise, a retomada das atividades, para ver como a economia brasileira vai se equilibrar (grifo nosso) mais a frente". Vê-se aqui uma afirmação de moderação frente ao intenso processo de maiores gastos públicos, bem como relativa folga monetária. No que se refere ao spread bancário há certo silêncio de Meirelles. Ele disse que "O Banco Central e a Fazenda estão trabalhando nisso...". Ora, Meirelles sabe que a questão é bem mais complexa do que vem sido comentado na imprensa e dentro e fora do governo. (Vide notas sobre o assunto na coluna de 14/4/09 - clique aqui). O Calendário não ajuda muito (ou nada) É provável que a crise internacional afete o Brasil bem menos que o esperado. Há sinais de que é isto que pode acontecer. Um início de recuperação da atividade econômica, sobretudo do emprego, pode ocorrer entre o último trimestre deste ano e o primeiro do ano que vem. Todavia, há mais coisas entre o céu e a terra nesta matéria... O tal "equilíbrio" sobre o qual menciona Henrique Meirelles é uma relação sadia entre (i) a taxa de inflação, (ii) o superávit primário que permite uma queda consistente do endividamento público e (iii) a retomada do crescimento do PIB. O problema desta equação é que, numa fase de forte expansão fiscal, não há razão objetiva para que o governo (liderado pela Fazenda e pelo gabinete presidencial) retome uma política de maior contenção fiscal no exato momento do processo eleitoral de 2010. Convenhamos que é difícil imaginar o ministro Guido Mantega e ainda muito mais difícil no caso do presidente Lula anunciando medidas de contenção fiscal em meio à campanha eleitoral do ano que vem. Meirelles sabe disto e já começou a sinalizar agora que moderação fiscal é essencial. Talvez esta seja a senha para a saída de Meirelles do BC, sabidamente um apaixonado pela idéia de ser candidato ao governo de Goiás.   O calendário é da política Meirelles deu de negar, nos últimos dias, que esteja de malas prontas para embarcar num partido político até setembro e desembarcar do Banco Central. Diz que seu compromisso com Lula vai até o fim do mandato do atual presidente. Pode ser. É bom, porém, não apostar alto nessa ficha. Meirelles está ainda mordido pela política e sua ida para o BC em 2003 foi um ponto fora da curva, que apenas adiou seus planos de governar Goiás e, quem sabe, chegar mais alto um pouco na República. Embora Meirelles esteja se mostrando um pouco menos "duro" na condução da política monetária e até se omitindo diante da farra fiscal que se delineia no horizonte, ele ainda é um incômodo nos novos rumos econômicos traçados por Dilma Roussef e Guido Mantega com o incentivo - mais até do que isso, sob pressão - do presidente Lula. A saída de Meirelles, ainda cioso da independência do BC, substituído por um funcionário de carreira do BC, facilitaria o trabalho do Planalto, que já tem bem enquadrados o BNDES, a Caixa Econômica Federal e mais recentemente o Banco do Brasil. Lula não fará força para Meirelles ficar. Pelo contrário...   Os números reais do Orçamento Com a redução da meta de superávit primário de 3,8% do PIB para 2,5% (que pode virar 1,5%) deste ano, o governo informa que liberou mais ou menos R$ 40 bilhões para garantir os investimentos, que por sua parte, garantirão que o PIB nacional chegará com um crescimento positivo ao final do ano em pelo menos 2%. Isto no ano, pois no último trimestre, pelo binóculo de Mantega, ele estará aquecido em algo entre 4% e 5%. A questão é se este volume de recursos vai mesmo para investimentos produtivos ou para investimentos de bom retorno eleitoral. Somente com os aumentos devidos aos funcionários a partir de julho, serão consumidos mais R$ 29 bilhões. As novas renúncias fiscais - produtos da linha branca, mais materiais de construção - também não foram contabilizadas. Além do mais, o déficit da Previdência Social cresceu 16% de janeiro a março deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Convoque-se um contador, rápido !   Poupança: uma questão eleitoral O governo inteiro já está convencido de que precisa mudar as regras de remuneração da caderneta de poupança, daqui até a próxima reunião do Copom. Caso contrário, os juros não poderão cair muito mais do que cairão no dia 29. Sabe, mas se "péla" de medo de sofrer algum desgaste político se não se explicar bem ou cometer alguma barbeiragem. O fantasma do "confisco da poupança" de Collor ronda o Planalto. Pelo mesmo motivo, o presidente Lula não quer se intrometer diretamente na confusão jurídica do ressarcimento de possíveis perdas que os poupadores tiveram com os planos econômicos heterodoxos anteriores ao Plano Real. Deixou para o Banco Central esta tarefa, mesmo sabendo também do interesse dos bancos estatais e que no final, conforme da decisão do STF pode sobrar para o governo, pois foi ele quem impôs aos bancos as regras de correção que estão sendo agora contestadas. Petrobras : gastos e mais gastos Não se constituiu em uma "surpresa" as notas registradas na imprensa sobre os gastos da estatal do "petróleo é nosso" com a ONG Fórum das Entidades Negras da Bahia, terra do presidente da empresa José Sérgio Gabrielli e de seu amigo político Jaques Wagner. Há dúvidas sobre a qualidade dos gastos da estatal, sobretudo no quesito eficiência, já há tempos. Analistas especializados no setor de petróleo comentam "à boca pequena" sobre o aumento sistemático e relevante dos gastos da Petrobras desde o início da primeira administração do presidente Lula. Obviamente, a Petrobras é parte integrante (senão atriz principal) da promoção da cultura brasileira via apoio a uma gama elástica de eventos, projetos, filmes, etc. Logo, há poucos críticos dispostos a atentar e comentar sobre a evolução das contas e dos informes financeiros da empresa. Além disso, a Petrobras é grande emissora de títulos no mercado local e externo. Razão para a moderação dos analistas em seus relatórios. Assim sendo, tudo fica sob certo silêncio. De vez em quando, pipocam informações aqui e ali sobre os gastos da Petrobras. Tal qual surgem os poços de petróleo na vastidão do mar... Críticas que são elogios O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, seguindo a senda reaberta recentemente pelo presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB/SP), diante dos flagrantes registrados pela imprensa, de "patrocínios companheiros" da empresa que ele dirige, atacou a mídia por divulgar essas notícias. Está virando moda num mundo político em que o presidente da República não lê jornais para não ter "azia". Indignação de Gabrielli à parte, a realidade é que a Petrobras está ficando politizada demais. Aliás, o próprio admite que os preços da gasolina tem um componente político. Esta semana, a companhia, trocou o presidente de sua subsidiária de biocombustíveis, inaugurada há apenas nove meses : saiu o funcionário de carreira, Alan Kardec e entrou o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, um dos postulantes do PT ao governo do Rio Grande do Sul. E tem o caminhão de dinheiro para ONGs petistas na Bahia (nota acima) onde se diz que Gabrielli é candidato a um das vagas baianas no Senado no ano que vem. Quando às críticas à imprensa do tipo da sacada por Gabrielli e de outros, jornalistas sérios as consideram como um troféu. Graves e preocupantes, no caso, seriam os elogios.   O amor nos tempos do bispo Fernando Lugo Méndez, atual presidente do Paraguai, ex-bispo que se tornou político proeminente da chamada "esquerda" de nosso continente, é daqueles personagens latino-americanos que cabem com perfeição na literatura de Gabriel Garcia Marquéz. O primeiro mandatário do Paraguai é conhecido pelas suas bravatas sobre a exploração que o Brasil impõe ao pobre país por meio da Hidrelétrica de Itaipu, além das clássicas idéias sobre a exploração capitalista do ser humano. Todavia, o que o ex-bispo gosta mesmo é daqueles amores noturnos com as moças pobres de seu rebanho religioso. É certo que teve um filho (agora reconhecido) de Viviana Carillo há cerca de dois anos "depois de uma longa relação". Vejam só ! Agora aparece uma pobre senhora, Benigna Leguizamón, de 27 anos, que alega ter um filho com o bispo-galã Lugo de 57 anos. As mulheres indignadas de seu gabinete clamam ao presidente que faça um exame de DNA. Ou será um vexame de DNA ? Não consta que as indignadas tenham renunciado a seus cargos junto ao presidente-bispo e galã. No romance Del amor y otros demonios, Gabriel Garcia Marquéz conta-nos sobre Sierva Maria Todos los Ángeles, uma menina abandonada por sua família e criada entre os escravos. Mordida por um cachorro raivoso, lá pelas tantas e depois de várias tentativas de tratamento, é internada num convento passando a receber a generosa ajuda do Padre Cayetano Delaura. Tentado "pelas coisas do demônio" aquele obrero de Dios torna-se um caliente apaixonado. Ah ! O amor ! Tudo isto (em Marquéz) se passa 200 anos atrás, mas poderia ser reescrito em terras paraguaias por estes tempos, não é mesmo ? A vice sucessão I Todos os movimentos do presidente da Câmara, Michel Temer, têm um objetivo : ganhar a vaga de vice na chapa de Dilma Roussef, reservada pelo Planalto ao PMDB. Faltou combinar com Lula, a quem caberá a palavra final, e que tem uma alentada lista de nomes peemedebistas à frente do de Temer. Lula não tem nenhuma predileção por Temer, que no primeiro mandado do petista foi um dos líderes do chamado "PMDB (nem tanto assim) de oposição". A vice sucessão II Todos os movimentos do candidato a candidato presidencial Ciro Gomes e seu partidos visam unicamente ampliar o espaço dos dois para tentar alijar o PMDB da posição de o escolhido por Lula para formar a dupla governista com Dilma Roussef em 2010. Esforço vão. Lula não vai contrariar o PMDB que já está dando trabalho, em termos regionais em Minas Gerais, na Bahia, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Pará, em São Paulo... A vice sucessão III Ciro Gomes às vezes aponta, como uma espécie de alerta para Brasília, para a possibilidade de fazer um dobradinha com Aécio Neves, que tem entre seus aliados em Minas o PSB. Neto de Tancredo, porém, Aécio não é de aventuras nem pode, mesmo com todo o seu prestígio nas Gerais, se dar ao luxo de ficar quatro anos sem mandato.
terça-feira, 14 de abril de 2009

Política & Economia NA REAL n° 47

Terça-feira, 14 de abril de 2009 -nº 47 Sinais promissores, mesmo que iniciais O mercado financeiro e de capital tem a característica de registrar as variações das expectativas dos investidores sobre o futuro. Vale dizer que "expectativas" não significam estimativas razoáveis. Entre a realidade presente e as expectativas anteriores, verifica-se, em geral, enorme distância. Feita esta ressalva, há sinais de estabilização dos mercados financeiros mundiais. Há cinco semanas, a maioria das principais bolsas de valores apresenta alta. Consistente, até agora. No mercado de renda fixa (bonds do setor privado e público, por exemplo) o mercado está bem menos "travado". Há mais liquidez e as injeções de recursos por parte dos BCs está produzindo resultados. O mercado de metais está mais estável, apesar dos temores no que diz respeito à inflação no longo prazo. Embora os indicadores econômicos das economias centrais ainda sejam sofríveis, a estabilidade do mercado pode indicar que a economia mundial, especialmente a norte-americana, está a tocar o seu ponto mais fundo. Quiçá não afunde mais. Até mesmo o setor financeiro, vilão ímpar nesta crise, está dando sinais de maior tranqüilidade. Os resultados do Wells Fargo, terceiro no ranking dos EUA, devem ser melhores que o esperado no primeiro trimestre do ano. Pouco a pouco, as instituições financeiras globais vão recuperando a debilitada credibilidade. Tudo é muito inicial. Todavia, melhor assim do que a turbulência de há poucas semanas. Mas, preste atenção: nas próximas semanas, durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre das empresas com ações negociadas negociadas em bolsas, a volatilidade deve continuar alta, mesmo que menos. Brasil com chance de ser vencedor É inegável a melhor condição de nosso país perante os seus pares na economia mundial. A boa posição externa, o controle da inflação (que permite a queda dos juros básicos) e a solidez do sistema financeiro são os destaques dentre as nossas fortalezas conjunturais. O potencial de crescimento doméstico, a disponibilidade de recursos naturais e a crescente força de nossas instituições são os aspectos estruturais mais notáveis. Os riscos estão associados à necessidade de reformas estruturais, sobretudo aquelas que permitam disciplina fiscal no longo prazo. O crescimento das despesas do setor público é muito preocupante, além da falta de qualidade destes dispêndios. A falta de funcionalidade do sistema político também merece reparos. Dado o melhor cenário, estamos alterando para melhor o nosso radar : (i) o real deve se valorizar nos próximos seis meses e (ii) os juros devem cair de forma mais consistente nos próximos meses e no longo prazo. A situação parou de piorar Análise de um ministro influente junto ao presidente, embora não faça alarde disso, e que lida com o mundo real da economia, a fábrica, todos os dias : há sinais mais seguros do que as estatísticas estão mostrando, de que a economia brasileira está retomando lentamente suas atividades. Quem vive do mercado interno vai aos poucos levantando a poeira. Mais dificuldades enfrentam os setores exportadores, e a retomada deles será mais lenta. É bom lembrar que nossas exportações representam apenas 4% de toda a economia nacional. Uma das falhas do nosso sistema econômico, mas que agora se revela uma vantagem. Pátio dos milagres Do mesmo ministro: raramente ele tem recebido em seu gabinete na Capital Federal ou durante as viagens alguém (seja um empresário, seja um representante do setor produtivo, ou ainda algum líder sindical) alguém que vá visitá-lo apenas para apresentar alguma sugestão, discutir alguma idéia. Estão todos pedindo alguma coisa, pressionando. Conselho desse ministro: não adianta pressionar e trazer uma batelada de números organizados de modo a justificar as reivindicações. O governo, ao contrário do que muitos acham, tem um sistema de acompanhamento dos agregados econômicos de alta qualidade, invejável, e sabe o que está ocorrendo de um modo geral em tempo quase real - vendas, exportações... E vai agir quando necessário, com presteza, como o fez no caso, por exemplo, da indústria automobilística. Experiente no mundo fora da burocracia, ele diz que choradeira rende mídia... Novas bondades Está praticamente definido : o governo vai realmente reduzir impostos sobre geladeiras, fogões e máquinas de lavar para incentivar o mercado dos produtos da chamada linha branca. Inicialmente, o projeto, apelidado de bolsa-geladeira, era só para essa mercadoria e visava, principalmente, promover a redução do consumo de energia. Agora, com a inclusão dos fogões e máquina de lavar no pacote, ganha uma conotação de política anticíclica. Ela somente não foi anunciada na semana passada porque ainda faltam alguns ajustes com o ministério da Fazenda, por causa da renúncia fiscal, e resolver a questão com as prefeituras, porque o IPI compõe, juntamente com o IR, a fonte de alimentação do Fundo de Participação dos Municípios. O ministro Miguel Jorge chegou a sugerir que as casas do programa "Minha Casa, Minha Vida" já fossem vendidas com esses três bens, tudo incluído no financiamento a ser pago em dez anos. Não deu tempo. O governo tinha pressa em soltar seu pacote habitacional. Radar "NA REAL" 10/4/9 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹ - Pré-fixados NA queda queda - Pós-Fixados NA queda queda Câmbio ² - EURO 1,3275 estável alta - REAL 2,18 alta alta Mercado Acionário - Ibovespa 45.538,71 estável alta - S&P 500 856,56 queda estável - NASDAQ 1.652,54 queda estável (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável O tal do "spread" É legítimo que o presidente Lula fique preocupado, ansioso e obcecado com a queda do spread bancário. De fato, este é elevado no Brasil. Todavia, seria recomendável que o presidente fosse com cuidado ao carregar este andor. Afinal, não estamos a tratar de um assunto banal - ao contrário, é complexo. O spread é a diferença líquida entre o custo de capital da captação dos bancos (a taxa de captação) e a rentabilidade dos ativos (taxa de aplicação), o que inclui os empréstimos para o setor público e privado. Esta diferença inclui desde impostos incidentes nas transações financeiras (IOF, por exemplo) até a taxa de risco exigida por cada banco para conceder um empréstimo ou comprar um ativo financeiro. Há uma enorme gama de fatores que podem afetar o spread bancário. Vamos citar alguns dos mais importantes : (i) o déficit público financiado por títulos do governo que concorrem com os empréstimos privados ; (ii) a volatilidade dos ativos que reflete maiores riscos sistêmicos e não-sistêmicos - exatamente o que ocorre no momento ; (iii) o ambiente concorrencial do setor bancário - maior concorrência, menor spread ; (iv) a demanda por crédito em comparação com a oferta, incluído o que citamos no item (i) ; (v) a taxa de inadimplência e a facilidade para a recuperação judicial de empréstimos concedidos ; e, (vi) o ambiente de regulação da autoridade bancária, no caso do Brasil, o BC. Como se pode verificar... A redução (desejável) do spread bancário depende de uma gama extensa de medidas que vão desde a facilitação na concessão e recuperação de créditos, medidas tributárias e redução do risco sistêmico e não sistêmico da economia como um todo. É possível, digamos, politizar a questão, mas não é desejável e sequer viável do ponto de vista de bom funcionamento do sistema financeiro. Muito melhor, adotar medidas efetivas para reduzir a taxa de risco do sistema. Necessariamente, tais medidas dependem em larga medida do próprio governo. Cabe a ele propor, estimular e regular em prol de um menor spread. Há ainda que se modificar leis e mudar o funcionamento do Judiciário; medidas de médio prazo. Cuidado com a eficiência Tornar o spread menor por meio de medidas limitadas e, ademais, artificiais, é erro grosseiro. Pode incitar que o sistema tome riscos incompatíveis com a rentabilidade dos ativos o que gera crescentes riscos para todo o sistema. O spread bancário, dentre suas principais funções, tem o papel de dar eficiência à relação entre os retornos esperados para o sistema financeiro e os riscos existentes na economia, nas empresas e nos indivíduos. Exemplos da falta de eficiência desta equação (risco versus retorno) estão espalhados pelo mundo neste exato momento. O sistema financeiro lá fora quebrou exatamente por causa deste tal de spread ! E os bancos públicos ? Utilizar os bancos públicos para aumentar a concorrência no setor bancário é legítimo. Aliás, isto já ocorre de fato. Todavia, baixar o spread destes bancos por meio de medidas artificiais e que firam a boa técnica bancária não é apenas indesejável. É temerário. Não somente aos acionistas das instituições (o próprio Estado e os privados), mas a todo o sistema. Basta verificarmos o custo do ajuste do sistema financeiro estadual há uma década para conhecermos o custo da má gestão de bancos públicos. Em meados dos anos 90, o Tesouro Nacional colocou R$ 8,5 bilhões de dinheiro de impostos cobrados para prestar serviços ao cidadão, para capitalizar o BB. E mais uma montanha do mesmo suado dinheiro na CEF. Se o governo desejar reduzir o spread diretamente para os (ou alguns) tomadores que o faça por meio de um subsídio devidamente registrado no orçamento. Utilizar o balanço da banca estatal para esta tarefa é pouco saudável, para não dizer insano. Esta discussão pode sair cara O sistema financeiro lá fora está combalido em função da irresponsabilidade na gestão dos bancos. Levantar a questão do spread bancário da forma como o presidente Lula fez, neste momento delicado do sistema financeiro internacional, é muito imprudente. Toca-se no veio saudável do sistema de crédito brasileiro, um dos pilares de nossa estabilidade. Melhor trabalhar muito na matéria. Sem bravatas. Esta é para ser premiada Apesar de todas as condicionantes citadas acima, que desaconselham uma ação meramente voluntarista na questão dos spreads bancários, o novo presidente do BB anunciou que pretende promover uma redução "agressiva" dos juros cobrados pela instituição que ele vai passar a comandar a partir do dia 23. Se o senhor Aldemir Bendini, esse é o nome dele, conseguir tal façanha num curto espaço de tempo, sem que os entraves citados nas notas anteriores tenham sido removidos, e sem causar desarranjos perigosos na saúde do BB, ele pode começar a preparar o passaporte para no fim do ano: vai viajar até Estocolmo para receber o Prêmio Nobel de Economia de 2009. G-20 : depois de duas semanas Conforme afirmamos nesta coluna, a reunião do G-20 foi um sucesso inesperado. Todavia, este sucesso político tem de ser transformado em políticas objetivas e efetivas para reverter o deplorável estado da economia mundial. Na semana passada, uma substancial parcela de recursos foi liberada pelos países-membros para capitalizar o FMI, responsável por políticas de estímulo e saneamento financeiro. Não se sabe o que mudará nas regras do Fundo para ser mais ágil na concessão destes empréstimos. O problema ali não é exatamente o tal do spread, mas bem que o presidente Lula poderia dar uma mãozinha e ajudar na matéria... Brown, sem sorte. Gordon Brown é um excelente propugnador de políticas públicas. É inegável, basta verificar o histórico do ex-chefe das finanças inglesas. Além disso, é notável o seu papel dentre os países do G-20. O sucesso da reunião de duas semanas atrás em Londres se deveu muito a Brown. O problema do premier inglês é a falta de sorte : logo agora quando sua popularidade doméstica estava um pouquinho melhor, um dos seus principais assessores Damian McBride solta por aí uns e-mails comprometedores. O G-20 deve perder um de seus articuladores. Por falta de voto nas próximas eleições e por falta gritante de sorte. A expansão da China A China vai ampliando seus tentáculos, sobretudo na área de maior influência geopolítica. O país comunista acaba de liberar US$ 10 bi para apoiar obras de infra-estrutura nos países do sudeste asiático (que reduzem os custos de suprimentos para a própria China) e US$ 15 bilhões em créditos para os sistemas financeiros de diversos países. O Japão, pouco a pouco, está a perder a liderança regional na bacia do Pacífico. A concordata da GM A provável concordata da GM nos EUA vai ser muito importante para todo o setor automobilístico mundial. A partir deste fato, o setor deve ser redesenhado em todo o planeta, incluído neste novo cenário o setor de auto-peças. Além da esperada consolidação mundial deste segmento, é provável que a conjuntural fragilidade das autopeças, a ser acentuada com a concordata da GM, possa criar problemas para a expansão do setor nos próximos anos. Microsoft e Yahoo Voltam a namorar as duas empresas. Estabeleceram um acordo comercial para cada empresa poder vender publicidade para a outra. Será que o namoro acaba em casamento ? Transparência - I Depois que o presidente da Câmara, Michel Temer, decretou que a imprensa é a grande responsável pelo processo de desmoralização pela qual passa o Congresso - um pêndulo onde ora sobe (ou desce a Câmara), ora o Senado - fica estabelecido que: 1. Foi a mídia que construiu aquele castelo no interior de MG e não declarou nada no IR. 2. Foram os jornalistas que nomearam o senhor Agaciel Maia para a diretoria-geral do Senado e o mantiveram lá por 14 anos. 3. Foram os jornais que entregaram o celular do senador Tião Viana à filha dele para usar durante uma viagem ao México. 4. Foi a mídia que inocentou vários suspeitos do mensalão. 5. Foram os jornalistas que enviaram seguranças do Senado para tomar conta de prédios privados da família Sarney. 6. Foram os jornais que usaram empresas de segurança do deputado Edimar Moreira para justificar gastos do deputado com a verba indenizatória de R$ 15 mil que os parlamentares recebem mensalmente. 7. Etc, etc, etc... e não se fala mais nisso. Transparência - II O Senado foi um pouco - digamos - mais "sutil" no processo de "culpabilização" da imprensa pelos males do Legislativo. Está dificultando o acesso dos jornalistas às informações sobre questões administrativas da Casa. Tem a sua lógica : há muito a administração no Congresso deixou de ser uma coisa pública, foi literalmente privatizada, loteada. A determinação partiu de um membro da ABL, entidade que deveria ajudar a zelar, entre outras coisas, pela liberdade de informação e pela liberdade de expressão no Brasil. PAC : há algo de errado Alguma coisa não está batendo. Todas as vezes que têm oportunidades, Lula e Dilma, além de tecer loas ao PAC, garantem que ele vai muito bem obrigado, que não sofre grandes percalços. No entanto, nas vésperas de um grande feriado, Lula reuniu oito ministros em Brasília para cobrar mais agilidade no andamento das obras. Depois, ensaiou uma crítica aos prefeitos por certa demora, dizendo que eles se queixam da falta de recursos, mas quando aparece o dinheiro eles não têm projetos. Se está tudo bem, por que cobrar dos ministros mais presteza e tentar inculpar os dirigentes municipais ? Com a corda toda Depois de alguns meses mais ou menos desaparecido da mídia, por razões particulares, o deputado, ex-ministro e candidato a candidato a presidente da República, Ciro Gomes, retornou às lides. E com a palavra afiada, ao seu estilo. Seus alvos preferidos são os tucanos, especialmente FHC e José Serra - taticamente poupa Aécio Neves. Indiretamente (e até diretamente) dirige também suas baterias em direção à ministra Dilma Roussef e ao presidente Lula. Com o amparo de seu partido, o PSB, defende agora a tese de que o governo deve ter dois candidatos na corrida pelo lugar de Lula, para garantir um segundo turno entre um governista e Serra. Ora, com isso, Ciro está dando como certo que o candidato tucano será o governador paulista e que ele já está no segundo turno, com chances de vencer logo na primeira rodada. Na realidade, embora Ciro deseje mesmo concorrer e como preferido de Lula, eles estão num movimento para minar um pouco a posição do PMDB na aliança governista do ano que vem. Como se sabe, o PMDB é a primeira opção de Lula para o lugar de vice numa chapa liderada pela ministra chefe da Casa Civil. Um feriado oportuno ? Nesta altura, terça-feira 14 de abril, o Tesouro Nacional tem todas as informações sobre o comportamento da Receita Federal no mês março. Nada vazou até agora, se foi melhor ou pior do que os desastrosos janeiro e fevereiro. Porém, será fácil descobrir qual a tendência da arrecadação nos três primeiros meses do ano. Se o Ministério da Fazenda anunciar os resultados de hoje até quinta-feira pela manhã ou início da tarde, é porque a situação melhorou. Se deixar para sexta-feira ou para a segunda-feira da semana que vem, espremida pelo feriado de Tiradentes, é porque as coisas não foram bem. Brasília estará vazia, a população se divertindo, a mídia menos atenta e, portanto, as repercussões são menores e tudo se dilui. Esta é uma velha tática do setor público : dar as notícias desagradáveis quase sorrateiramente.
terça-feira, 7 de abril de 2009

Política & Economia NA REAL n° 46

  Terça-feira, 7 de abril de 2009 - nº 46 G-20, uma excelente surpresa! A reunião do G-20 na semana passada se constituiu na mais importante das últimas décadas no que se refere à economia mundial. Foi um sinal político essencial para que a atual crise comece a ser superada. Foi significativa a disposição dos mais importantes países do mundo para negociar e abrir mão de posições iniciais. Dois exemplos que ilustram o que estamos a dizer : os EUA se dispuseram a discutir a maior regulamentação dos mercados e a Inglaterra - de fato um dos maiores paraísos fiscais do mundo em função dos benefícios que dá aos milionários de toda estirpe - dispõe-se a discutir a maior fiscalização de tais mercados "obscuros". Estes foram pontos, digamos, políticos. Do lado mais "prático", a capitalização dos organismos multilaterais (FMI, BIRD, etc.) também mostrou convergência das lideranças no sentido de criar mecanismos mais "automáticos" para atender às demandas de capital, tão necessárias depois da eclosão da crise, sobretudo no caso dos países mais pobres. No mercado financeiro há diagnósticos variados sobre tal reunião. Há os que desprezam os atos políticos vinculados as estes difíceis momentos. Afinal, dizem existir apenas uma "realidade objetiva" e que as iniciativas políticas pouco servem. Há os que viram nesta reunião de Londres outro e importante passo para o aprofundamento das políticas já praticadas. De nossa parte, julgamos essencial que os políticos demonstrem a todos o que estão a propugnar e realizar. Neste momento de crise é preciso atuar intensamente sobre as expectativas. Positivamente. Foi isto que ocorreu nos arredores da Corte de St. James. Os mercados agradeceram apesar do ceticismo de alguns... G-20: a dúvida - I A grande incógnita para muitos é a capacidade dos líderes do G-20 de levar adiante o mundo de boas intenções e boa vontade contidos no documento da cúpula de Londres. Com razão: no mesmo dia em que Barak Obama com seus companheiros se comprometiam em novas práticas de controle financeiro, o governo americano mudava as regras contábeis para seus bancos, facilitando a arte de "mascarar" perdas. Não foi um bom exemplo. G-20: a dúvida - II A incapacidade do Conselho de Segurança da ONU de encontrar uma solução de consenso para "chamar a atenção" da Coréia do Norte por ter disparado um foguete, mostra perfeitamente na prática as dificuldades reais de qualquer tipo de coordenação mundial na prática, seja no campo da política, seja no campo da economia. G-20: a dúvida - III Foi mais do que vaga a referência, no documento de Londres, à retomada das negociações da Rodada Doha da OMC. Os G-20 (que, aliás, são mais de 20) nem marcaram data para a reabertura das conversas sobre a liberalização do comércio internacional. Em momentos de crise interna, não há clima para assumir compromissos definitivos que podem comprometer os arranjos políticos internos. Lula, The Good Guy ! É certo que, se o presidente Lula não brilhou entre as paredes durante as reuniões do G-20, certamente o presidente brasileiro colheu excelentes frutos políticos externos na sua passagem por Londres. O Brasil tem conseguido aumentar a sua importância na política internacional. É fato. Há certa surpresa que isto tenha ocorrido de forma mais notória durante as duas administrações do presidente Lula. Afinal, se trata de um "presidente-operário" que faz prevalecer o simbolismo político e diplomático por detrás deste papel. É igualmente fato que no mundo complexo em que vivemos, a coisa funciona. Sobretudo, quando se está em ambiente onde a língua não é o português. (Que importam os tropeços gramaticais do Presidente?). Todavia, se fugirmos um pouco desta lógica midiática, veremos que o nosso presidente está muito bem enquadrado ao "sistema" que outrora ele rejeitou ou contra o qual protestou. Neste contexto, Lula avança a passos largos, mesmo porque é "útil" à dinâmica da política internacional. Representa muito bem o papel dos "outros" e, convenhamos, não dá nenhuma dor de cabeça. Nem tem armas nucleares. Não adianta a mídia criticar Lula em função do que esta acredita ser o papel do presidente. A identificação dele com o povo é fato - basta ver os seus índices de popularidade - e sua imagem internacional construída cuidadosamente sob uma retórica conveniente a todos. Lula não é ameaça ao "sistema". É parte integrante do "sistema". Um capitalista detentor de quotas do FMI ! Lula, a frustração O Itamaraty nem o Palácio do Planalto jamais admitirão, mas foi grande a frustração dos brasileiros em relação a alguns pontos das decisões e promessas do G-20. Nada, ou quase nada de relevante das pregações de Lula anteriores ao encontro foi levado em consideração. E o que foi, foi sobre a ótica dos EUA e da União Européia. O mais fino exemplo é que nem se "cheirou" a tese do "Estado forte", carro-chefe das novas idéias de Lula para a economia global. Fatos e mercados Dois sinais muito importantes e positivos surgiram no horizonte nas últimas semanas, a saber, o plano de capitalização das instituições financeiras norte-americanas e a reunião do G-20 acima comentada. Enquanto estes sinais não criam uma nova dinâmica, ainda estamos colhendo os frutos da tsunami da crise financeira que contaminou o mundo real desde o final de 2007. O desemprego nos EUA chegou ao patamar de 8,5% (5,0 milhões de pessoas). O crédito continua a se contrair. Para se ter uma noção, a maior parte das operações de crédito interbancárias no mercado internacional, segundo dados do BIS, têm prazo máximo de três meses. Quase todas as instituições financeiras multinacionais ainda estão reduzindo ativos - na média entre 20%-30% do total de ativos registrados ao final de 2008. Na Europa, os preços industriais caíram 0,5% em fevereiro, a maior queda em 10 anos. Em relação ao mesmo período do ano passado, os preços estão 1,8% menores. Trata-se de uma perigosa deflação entre os setores mais organizados da Europa e que simboliza a fragilidade da economia neste momento crucial. No segmento de consumo as vendas na zona do euro caíram em fevereiro 0,6% em relação a janeiro e 4% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Estes são exemplos para nos lembrar que o processo de alastramento da crise está menos intenso, mas ainda não há evidências que apontem para uma contenção efetiva da queda da atividade econômica. Os mercados estão a viver do paradoxo entre o curto prazo muito incerto e negativo e as melhores notícias para o desempenho de longo prazo dos ativos. É o mercado internacional que dará o tom da recuperação econômica. Estamos numa crise severa dos países centrais. Para o Brasil, localizado na periferia do sistema, a crise tem contornos mais suaves, mesmo que muito relevante. Deve continuar assim, desde que a política econômica combine doses de coragem combinada com doses de sabedoria e responsabilidade. Até agora, no geral, a política econômica tem rumo certo no sentido de estimular a atividade econômica. Todavia, os riscos estão também à solta: a falta de transparência sobre o custo fiscal daquilo que está sendo gasto pelo setor público e a ausência de quaisquer reformas estruturais. A letargia do Congresso é sinal evidente do atual momento de ausência de reformas. Bom sinal para a indústria A produção industrial brasileira cresceu em nove das 14 regiões pesquisadas em fevereiro ante janeiro deste ano, na série com ajuste sazonal, segundo dados do IBGE. Apesar da queda em relação ao ano anterior ser muito significativa (-17%), a estabilização da produção industrial é uma boa notícia para o país. Trata-se de um sinal de que as políticas anti-crise estão a funcionar. A dúvida é se se trata de um processo sustentável de dois pontos de vista: (i) no que diz respeito às finanças públicas e (ii) perante o cenário externo, ainda em queda. NA REAL: nosso radar Com o objetivo de dar aos nossos leitores uma visão mais clara sobre o que pensamos e sobre o andamento dos mercados, estruturamos um radar das principais tendências de alguns dos mais importantes segmentos do mercado. Não trata o radar de "recomendações" e nem de "previsões". O objetivo é dar uma perspectiva para os segmentos do mercado no que se refere às tendências de curto e médio prazo. Nada profético, mas analítico. A data das cotações será sempre a da sexta-feira imediatamente anterior à data da coluna (ou do último dia de fechamento dos mercados na semana anterior). Radar "NA REAL" 3/4/9   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo (0 a 6 meses) Médio Prazo (6 a 12 meses) Juros ¹         - Pré-fixados NA estável estável   - Pós-Fixados NA queda estável Câmbio ²         - EURO 1,35 alta alta   - REAL 2,21 estável alta Mercado Acionário         - Ibovespa 44.391 estável alta   - S&P 500 839,75 queda estável   - NASDAQ 1602,24 queda estável (1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)(2) - Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável Recado aos investidores Nestas próximas duas semanas o otimismo que prevaleceu nas últimas semanas, fruto da maior intervenção do governo dos EUA (novo plano de resgate de ativos dos bancos) sobre os mercados e da reunião do G-20, será testado. Inicia-se a temporada mundial de resultados das empresas negociadas em bolsa. A nossa visão é que muitos resultados ainda trarão surpresas negativas. Será um período de alta volatilidade, especialmente para o setor financeiro. Os ativos devem ter suas cotações ajustadas para baixo. Fundos de Private Equity : com liquidez, mas poucos negócios Um dos segmentos que menos sofreram durante a atual crise foram os fundos de private equity que normalmente investem no capital de empresas de capital fechado. O objetivo destes fundos é de obter retornos no longo prazo, normalmente depois de incrementada a posição financeira e a governança corporativa das empresas investidas. Apesar dos fundos terem disponibilidade de capital o que está a ocorrer é que os vendedores de posições, normalmente os empreendedores do negócio, estão paralisados - não querem vender suas posições a preços baixos (quando não baixíssimos). O mercado está travado à espera de um cenário mais confortável para ambas as partes. Frase de banqueiro A coluna esteve com um banqueiro de investimento na semana passada, daqueles versados em fazer bons negócios e com muitos diplomas de prestígio na parede. Frase ouvida e que dá a precisa imagem da crise no setor: "Nunca fiz tão poucos negócios. E estes nunca foram tão banais. Simplórios. O capital está tão escasso que até operação de desconto de duplicatas está complicado. Além disso, os executivos do banco estão mais preocupados em manter o próprio emprego do que operar para o banco..." A face explícita do protecionismo Lobistas estão tentando barrar a proposta de Obama de taxar os lucros obtidos no exterior das empresas multinacionais norte-americanas. Há nesta medida do presidente norte-americano a clara intenção de encarecer os investimentos das empresas no exterior. Assim, em tese, Obama espera aumentar a taxa de investimento nos EUA a qual está muito baixa em função da baixíssima taxa de poupança do país. Esta medida per se evidencia os intentos nacionalistas do atual governo instalado na Casa Branca. A justificativa dos mentores econômicos da Casa Branca (e dos sindicatos) é que muitos países não taxam os lucros das multinacionais, logo criam uma desigualdade tributária que traz sérios efeitos para a competitividade americana. Pense no seguinte: se todos os países começarem a agir igual a Obama o que será dos investimentos transnacionais ? Este é um risco muito sério para a recuperação mundial. Todavia, há muitos flertando com este tipo de medida. A reforma que não reforma É comovente, como nesta segunda-feira em SP, num debate da Fecomércio, ver a convencimento do senador Marco Maciel sobre a possibilidade de aprovação da reforma política este ano. É um crédulo. O tema está voltando à baila por obra e graça dos presidentes da Câmara, Michel Temer, e do Senado, José Sarney, e o incentivo do Palácio do Planalto. Foi ressuscitado, na verdade, para fazer um pouco de fumaça e desviar a atenção da mídia e da opinião pública de assuntos mais espinhosos para eles. Na Câmara e no Senado, as denúncias de desvios de conduta. No governo, as dificuldades econômicas e as divergências que começam a pipocar na base governista por causa das disputas regionais. Na realidade, como já afirmamos várias vezes, se alguma coisa passar, não será de boa qualidade. É provável que venha a tal da "janela para infidelidade" para permitir trocas de partido, hoje quase totalmente barradas por decisão da justiça. Além disto, aproveitando os rescaldos da operação da PF na Camargo Corrêa, pode-se empurrar goela abaixo do eleitorado o financiamento público de campanha, sem regras que impeçam e punam os financiamentos ilegais, o caixa 2. Se pode piorar, vai piorar. O PMDB na berlinda Esta coluna esteve recentemente em Brasília e percebeu uma coisa: em algumas rodas peemedebistas, há séria apreensão com a situação do partido. Ele se expôs demais, humilhou alguns adversários em excesso e tornou-se, por isso, uma vidraça muito sensível. Não é à toa ou a esmo o tiroteio que atinge o Senado e o presidente da Casa, José Sarney. Espera-se para breve novas revelações abrangendo também o partido na Câmara. Quem conhece os bastidores do Congresso, garante que munição não falta. A trégua que o presidente Lula ordenou para ser celebrada entre o PT e o PMDB, os dois principais litigantes na história, não funcionou. E o PMDB está perdendo um pouco a arrogância que adquiriu nos últimos meses. Arquivos vivos Até hoje, a não ser em um ou outro caso excepcional, o Senado não efetivou, de fato, a demissão dos primeiros 50 diretores em excesso na casa. Alegam-se razões de ordem burocrática. Há outra, menos prosaica: os servidores do Senado, assim como da Câmara, são um repositório de informações sobre os parlamentares, boas, não muito boas e nada boas. Não é prudente provocá-los. Muitos estão se sentindo traídos, apontados como culpados únicos por coisas que fizeram a mando ou pelo menos com o conhecimento de seus superiores. E outros se sentindo injustiçados, pois nada têm a ver com as irregularidades, cumprem suas obrigações e estão sendo amontoados no mesmo saco. O vazamento das informações sobre o uso indevido e indecente que o senador Tasso Jereissati faz das verbas de passagem aérea, além de envolver a "vestal" oposição nos podres do parlamento, foi também um recado para todo mundo que o armário tem esqueletos para todos os gostos. O único diretor do Senado demitido realmente até agora foi o da área de Comunicações: providenciou por conta própria a lista dos gastos telefônicos de todos os senadores. Foi uma dessas balas perdidas que atingiu o senador Tião Viana com o celular emprestado à filha numa viagem dela ao México. O clima no Congresso é de tensão e desconfiança. Rebelião à vista É muito maior do que se imagina a insatisfação dos prefeitos com a situação do caixa das prefeituras, atingido, ao mesmo tempo, por uma queda geral das arrecadações federal, estaduais e municipais por causa da crise econômica e por efeito das "bondades" praticadas pelo governo federal com o IPI e o IR. Dos protestos locais eles vão passar a um protesto nacional em Brasília. Lula voltou a prometer que vai arranjar dinheiro para os mais necessitados. Já sabemos que não será fácil: as contas fiscais federais também estão no fio da navalha. E na esteira dos prefeitos, virão os governadores com suas reivindicações. Lula quer soluções urgentes porque sabe o peso eleitoral dos prefeitos. Há mais: as áreas mais atingidas são as cidades com menos de 20 mil habitantes, onde se situa o maior e mais fiel manancial de votos governistas. No embate entre eleições e responsabilidade fiscal há riscos sérios de a primeira vencer, apesar dos discursos em contrário do presidente e de seus ministros. O principal projeto de Lula e seus aliados hoje é fazer o sucessor dele e preparar o caminho para a grande volta em 2014. Pergunta indiscreta Alguém, por acaso, viu por aí a oposição ao governo federal e suas propostas para combater a crise? Quem tiver notícias, favor escrever para esta coluna. Mandato a salvo Pelo andar da carruagem - e pelo "empenho" de seus pares, a começar pelo comando da Câmara - o deputado castelão Edimar Moreira não tem com que se preocupar. Por conta das estripulias que cometeu, vai ficar uma hora de castigo de cara virada para a parede e depois 15 minutos ajoelhado no milho. E não se fala mais nisso.
terça-feira, 31 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 45

Terça-feira, 31 de março de 2009 - nº 45 G-20, o que esperar ? A reunião do G-20 estará concluída na próxima quinta-feira. É possível que existam surpresas, mas basicamente as tendências para a conclusão do evento são as seguintes : 1) Não deve haver uma coordenação global sustentada nos padrões que desejariam os EUA e o Reino Unido. A maior probabilidade é que os europeus (do continente, é claro !) não implementem nenhum esforço fiscal adicional. Julgam que os gastos dos governos, já definidos para 2009, são suficientes. 2) Os países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China) operarão à margem do processo por meio de consultas específicas. Não há de facto uma agenda comum entre eles, apenas importantes interesses passíveis de uma coordenação. 3) Esqueçamos algo como Bretton Woods, a reunião ocorrida em 1944 que lançou os mais importantes organismos multilaterais até hoje existentes (FMI, BIRD, OMC, etc.). Numa fase de crescente protecionismo e de políticas de regulação frágeis há pouco espaço para discutir a essência dos problemas. Em 1944 havia uma guerra mundial. Agora uma guerra comercial. Muda, mas vigente. 4) O FMI será capitalizado, com dinheiro dos países ricos e alguns de seus satélites, tais como a Arábia Saudita, que deve ser um dos poucos países subdesenvolvidos a colaborar com recursos para o Fundo. A China deve injetar recursos no FMI. Não muito, mas o suficiente para que as suas autoridades econômicas lembrem do enorme papel do país nas finanças internacionais. A China é a maior financiadora do déficit dos EUA. 5) Pouco andamento será dado às questões de regulação dos mercados financeiros. Normas cross-border devem ser implementadas, sobretudo no setor bancário. Todavia, os EUA desejam manter tal regulação sob a sua liderança e não parece disposto a submeter-se às eventuais novas normas internacionais - apenas alguns itens deveriam ser regulados internacionalmente, diz o Tesouro norte-americano. Como se vê, haverá avanço na agenda da crise, porém ela será contida pelos interesses que ainda prevalecem em cada país rico, mesmo sendo a crise mais grave desde a segunda guerra mundial. Os esforços do ativo primeiro-ministro inglês Gordon Brown para conciliar interesses devem cair por terra. A começar por ele mesmo, que está para perder o cargo no próximo ano segundo as mais recentes pesquisas de opinião. G-20, e o Brasil ? A posição brasileira em relação à reunião do G-20 pode ser definida em pouquíssimas palavras. Será uma posição pragmática (nada fazer), embora ideológica (muito falar). Há pouco a acrescentar. O Brasil não quer colocar dinheiro no FMI - o que nos parece muito correto - e faz um discurso internacionalista enquanto tenta proteger os efeitos da crise externa sobre a sua economia. Em tempos de medidas protecionistas é bom não piar muito. O maior risco é o vasto repertório verbal do presidente Lula : a menção aos "brancos de olhos azuis" é uma bobagem imensa. Mesmo os países ricos, causadores desta crise, merecem tratamento, digamos, mais gentil. Mesmo que duro.  Lula e o universo Apesar da gafe de Lula diante do primeiro ministro inglês, devidamente registrada pela imprensa mundial sem muito humor, o Palácio do Planalto e o Itamaraty ainda sonham com um forte protagonismo do Brasil nesta reunião. Imagina-se que há espaço para Lula brilhar e continuar sua pregação, quase messiânica, contra a ganância dos riscos e suas irresponsabilidades. Na entrevista que deu à CNN, Lula desfiou uma série de conselhos para Obama. Entre outros, que não precisa se preocupar com a guerra do Iraque e que ele "leia com atenção" sobre a crise japonesa dos anos 90.   As novas medidas fiscais do governo A nova rodada de medidas fiscais do governo para minimizar a crise continuará mais voltada para o setor industrial e bancário. Do lado da indústria, temos a continuidade da redução da alíquota do IPI para o setor automotivo, redução da Cofins para o setor de duas rodas, a diminuição de impostos para materiais de construção e a tributação ainda maior do setor de cigarros. Do lado bancário, depois das maiores garantias oferecidas aos aplicadores em títulos bancários, o governo deve reduzir mais o IOF com o objetivo de estimular o crédito. Tais medidas são justificadas e o governo age na direção certa. Contudo, faltam medidas fiscais para reduzir a tributação dos salários mais baixos e da classe média e há o problema da transparência : quanto custa tudo isto ? O Congresso sabe ? E o povo tem noção ? A rebelião dos prefeitos O aspecto mais inusitado do pacote fiscal anunciado pelo ministro Guido Mantega foi o modo como se decidiu incentivar a venda de motos : diferentemente do setor automotivo, agraciado via IPI, o de duas rodas ganhou isenção da Cofins. A mudança de enfoque tem significado político : o IPI é partilhado pela União com os Estados e municípios (assim como o IR) e quando o governo reduz a alíquota do imposto está interferindo diretamente na receita das prefeituras (e dos governos estaduais). Os prefeitos, amargando queda de mais de 20% em suas receitas globais neste ano, estavam em estado de pré-rebelião. Já se começava a falar em uma marcha sobre Brasília. Muitos falam que a partir de abril podem não ter dinheiro nem para pagar em dia o funcionalismo. Na semana passada Lula foi cobrado por prefeitos baianos e prometeu agir. Não tem muito a fazer porque os cofres federais também estão rasos. Pelo menos nesse ponto ele evitou aumentar a zona de atrito. É pouco, porém. Crise nos municípios, especialmente naqueles com menos de 20 mil habitantes, pode ser veneno direto na veia da popularidade do presidente. Exatamente no momento em que ele vem em queda. Imposto da fumaça O aumento do IPI dos cigarros - fumar vai ficar cerca de 25% mais caro - tem entre seus objetivos acalmar um pouco os prefeitos, uma vez que eles pegarão 23,5% dessa nova receita. É como se Lula estivesse cumprindo o que prometeu aos administradores municipais baianos. Mantega calcula que todas as isenções novas concedidas agora serão compensadas pelo tributo sobre o  cigarro. Há riscos : o tamanho da elevação do IPI pode reduzir o consumo ou levar o fumante a optar por um maço mais barato. Ou, então, incentivar a próspera indústria de cigarros do Paraguai, muito popular nas bancas de camelôs de todo o Brasil. Inclusive naquela que, sob o nome da Feira do Paraguai, viceja nos arredores de Brasília, vendendo centenas de produtos "genéricos" nas barbas das autoridades. PIB do Brasil : projeções vão se ajustando O relatório Focus do BC que registra a média das opiniões do "mercado" sobre as principais variáveis econômicas registra que para 2009 a previsão para o desempenho do PIB é que o crescimento será zero. Para 2010, 3,5%. O Relatório de Inflação, documento trimestral produzido pelo próprio BC, projeta um crescimento de 1,2%. Notável queda em relação ao relatório emitido em dezembro que projetava um crescimento de 3,2%. O ponto positivo é que o BC acredita em uma inflação comportada em torno dos 4% (IPCA). Esta é a matemática "meirélica". A contabilidade "manteguina" continua aferrada a um crescimento de 2%. Esta coluna não vê maiores riscos inflacionários e acredita que o PIB do ano deva cair ao redor de 3%. PIB lá fora Se no Brasil, a queda da atividade econômica está se tornando mais evidente, lá fora o desastre é colossal. Na zona do euro (16 países europeus), a indústria apresentou queda de novas encomendas da ordem de 34% (!) na comparação entre janeiro deste ano em relação ao mesmo mês do ano anterior e mais 3,4% em relação ao mês de dezembro. O PIB da região deve ter contração acima de 4% neste ano. Dentre os países ricos, o PIB calculado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) deve cair 4,2%. Linguagem cifrada ? Detalhe sutil no Relatório de Inflação do BC, a exigir uma olhada de lupa de algum especialista em "bancocentralês" : a previsão de que a inflação vai ficar abaixo do centro da meta de 4,5% para este ano (ver nota acima) tem por base duas premissas : o dólar a R$ 2,30 e a taxa Selic nos atuais 11,25%. O Copom está dizendo que vai começar a pisar no freio do processo de diminuição da taxa básica ? É difícil saber - e talvez seja politicamente inviável para a turma de Henrique Meirelles voltar ao velho conservadorismo. É fato, porém, que há preocupação com algumas consequências da taxa Selic abaixo de um certo nível. A questão da poupança e dos fundos de investimento é uma delas e já está sendo analisada. Outro ponto delicado é o risco para a rolagem da dívida pública. Os investidores podem preferir outras aplicações. O pacote imobiliário O pacote de financiamento para o setor de construção civil, lançado pelo governo na semana passada, é uma boa notícia. As medidas do governo são consistentes, tocam nos problemas mais sensíveis do setor, aqueles relacionados com o financiamento para o adquirente e deve dar algum alívio para o setor que ficou paralisado após a eclosão da crise no Brasil em meados do terceiro trimestre do ano passado. Todavia, duas variáveis serão mais importantes no médio prazo : os salários reais (descontados dos efeitos da inflação) e o desemprego. Ambos têm per se mais importância que qualquer pacote de financiamento. Outro aspecto muito preocupante é a questão da burocracia, até hoje não atacada por este e outros governos anteriores. Uma coisa é liberar recursos. Outra coisa é o acesso dos mutuários ao sistema. Entre uma coisa e outra, haja papel e demora...Mas o governo já sacou seus "habeas corpus" preventivos caso o imaginado não se torne realidade. Lula avisou que "não venham me cobrar". E a ministra Dilma Roussef explicou que o governo já fez tudo o que pôde fazer, criando as condições para o pacote andar. Agora dependerá das empresas encontrarem terrenos, apresentarem projetos, construírem as casas, venderem... Pode sobrar também para prefeitos e governadores. A greve da Petrobras Há um processo grevista na estatal de petróleo do Brasil. Os sindicalistas sentem-se muito confortáveis em pressionar a Petrobras em busca de mais benefícios que aqueles que os trabalhadores têm. O fato de o sindicato pressionar a estatal para manter os empregos das empresas terceirizadas dá aos líderes grevistas a "credibilidade" necessária para pressionar a diretoria da Petrobras. Porém, os maiores beneficiários de todo este processo são os já bem remunerados trabalhadores da própria Petrobras. Mais uma vez está provado que nem aqueles que tanto se beneficiaram nos últimos anos têm a sensibilidade de observar o que está a ocorrer dentre as (outras) classes trabalhadoras. O desemprego em geral não sensibiliza os petroleiros. Sob os auspícios da CUT, a hora é de dar mais uma mordida no bolo da Petrobras. Empresa pública que pertence a todos. O que fará o governo ? Cadê o Ministro Carlos Lupi com suas observações sobre o desemprego ? Ministério do Trabalho desemprega e emprega O MT vai extinguir 1878 postos de trabalho terceirizados e substituí-los por funcionários públicos concursados "desde que comprovada a necessidade do serviço". Saiu no DOU desta segunda-feira. Seria interessante sabermos se vai haver aumento de custo e como será comprovada a tal da "necessidade do serviço"... E o mercado financeiro ? Sinais significativos de estabilização dos mercados financeiros mundiais ocorreram nestas últimas duas semanas. Fruto do pacote de salvação dos bancos por parte do Tesouro norte-americano. Este foi o grande fato. A recuperação das cotações dos ativos, sobretudo das bolsas de valores, em especial as ações do setor financeiro, foi um sinal imediato. Para se tornar mais consistente, dependerá do grau de credibilidade que as medidas governamentais nos países mais desenvolvidos forem tomando. Um fato a ser testado. No Brasil, o processo de recuperação do mercado acionário seguiu os eventos de fora. Fato exclusivamente local foi a constatação de que a taxa básica de juros está muito acima da necessária para (i) manter a estabilidade da moeda e (ii) o crescimento. Assim sendo, um ajuste substantivo dos juros futuros ocorreu. O real se valorizou, mas não muito. Em linha com a nossa expectativa. Daqui para frente, acreditamos num mercado mais volátil. A tendência básica de todos os segmentos do mercado financeiro (renda fixa, renda variável e câmbio) é negativa. Até que os fundamentos comecem a dar sinais de maior vigor. Vale a pena reduzir posições em ações, aumentar os títulos pós-fixados (alinhados com a taxa básica de juros) e manter as posições cambiais. O cenário está melhor para o mercado. Mas, não muito melhor. Teorias conspiratórias Há gente no Congresso acreditando fervorosamente que a saraivada de informações negativas que se abateu sobre o Senado e a Câmara (este menos) não tem nada de gratuidade nem pode ser arrolada entre as "meras" coincidências. Seria uma maneira de manter o Congresso na defensiva e constranger o PMDB, que anda com suas asas muito soltas. Especula-se que os ventos sopravam do outro lado da Praça dos Três Poderes, local momentaneamente desativado para reformas e transferido para o Centro Cultural do Banco do Brasil, o "Bolo de Noiva" do Itamaraty. Não há provas de que isto esteja acontecendo. Até porque cutucar o PMDB pode não ser uma boa política. Notícias da sucessão Já na semana passada circulava em Brasília a especulação de que o tucanato estaria chegando a um acordo para levar o processo sucessório interno a uma solução sem brigas ou rupturas. Aécio entraria no jogo de Serra, não como vice, mas como um grande eleitor e nome para passos futuros. O PMDB já até teria desistido de conquistar o governador mineiro como uma "terceira via". Os resultado da pesquisa CNT/Census de ontem, indicando que Dilma Roussef, embora muito distante de Serra, ultrapassou o mineiro pode precipitar tais conversas. Veja-se : ainda estamos no terreno das conjecturas e não haverá nenhuma definição tucana antes do fim do ano. Do lado do governo é um festa só com a subida consistente da "ministra-que-não-é-candidata" no placar da intenção de votos. As preocupações são duas : que tipo de estrago a crise pode fazer a partir dos efeitos sobre a popularidade de Lula; a overdose de exposição política da ministra pode esgotar o produto cedo demais. Incomodam também a persistência e as estocadas de Ciro Gomes, nos últimos tempos mais dirigidas ao governo do que à oposição. De discursos e palanques Não dá para dizer ainda se a popularidade de Lula e a aceitação de seu governo foram fortemente abalados pelos reflexos da crise entre nós. Pode ser, como virou moda agora dizer, "um ponto fora da curva" ou algo passageiro. Vai depender de quanto isto durar e do tamanho dos desarranjos que pode provocar. De qualquer modo, enquanto a "marolinha" estiver por aí, teremos mais discursos, marketing e palanque. Areia movediça I A pirotecnia da PF na execução da Operação "Castelo de Areia" e a falta de investigações mais profundas por parte de parcela da mídia (sem contar o partidarismo de alguns jornalistas e colunistas) está embaralhando tudo nessa história envolvendo a empreiteira Camargo Corrêa. São duas questões distintas no mesmo caso, porém o noticiário e os debates estão concentrado mais no político - talvez por ser mais fácil de abordar e menos delicado sob uma série de pontos de vista. Um dos pontos, o menos agraciado, é a suspeita de superfaturamento em obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, obra conjunta da Petrobras com a venezuelana PDVSA. Disso teria saído o dinheiro para evasão de divisas e o financiamento de campanhas políticas, "por dentro" e "por fora". Essa é uma investigação : houve o superfaturamento ? Quem praticou ? Quem deixou de fiscalizar as contas ? Pouco se tem notícia desse lado do problema. Areia movediça II O caso, do lado político, está muito bem explorado. E é simples. Ninguém está proibido de dar dinheiro aos partidos e aos políticos. Resta saber : as contribuições foram legais ? Com dinheiro legal ? Há suspeita de que não esteja tudo certinho. E é inaceitável esta situação, coisa que nem os políticos, nem muitos "financiadores" se interessam por consertar. No entanto, é estranho que se esteja dando mais ênfase a isto que à suspeita do superfaturamento. Mais estranho ainda que nem governistas nem oposicionistas tenham sacado papel e caneta para pedir a instalação de uma CPI. Se a história contada pela PF (veja-se bem, se !) for real, é escabrosa. E pode puxar um imenso novelo. Areia movediça III Houvesse seriedade, seria o momento de discutir uma dessas aberrações eleitorais brasileiras : a permissão para que se faça contribuições de campanhas diretamente para os partidos, sem identificação dos beneficiários. Depois o partido distribui para os "eleitos", os escolhidos dos financiadores. A manobra evita que os agraciados sejam depois identificados quando ajudarem seus patronos. Há "bancadas corporativas" em Brasília feitas com essas contribuições ocultas. Nos Estados também. É uma modalidade de financiamento que está crescendo muito entre nós. É legal ? Sim. É republicano, como diria o ministro Tarso Genro ? Certamente não. No entanto, os arremedos de reforma política que andam pelo Congresso nem passam perto deste tema. Boa bandeira para os presidentes da Câmara e do Senado, que vieram para mudar...
terça-feira, 24 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 44

  Terça-feira, 24 de março de 2009 - nº 44 Ops! Fato novo, relevante e positivo - I Uma das razões fundamentais para a descrença na recuperação mais rápida da economia norte-americana foi o fato do pacote de US$ 787 bi, aprovado pelo Congresso há cerca de um mês, ser considerado insuficiente para cumprir dois papéis, a saber: (i) estimular a demanda (via criação de empregos) e (ii) sanear o combalido sistema financeiro do país. Neste último item, os analistas mais argutos logo perceberam que a possibilidade de que um cenário de depressão era mais provável, a mesma rota seguida pelo Japão durante a década dos noventa. Sobraram inclusive críticas de economistas que apoiaram Obama desde o lançamento de sua candidatura, tais como Paul Krugman e Joseph Stiglitz. A conseqüência da insuficiência do pacote foi que as ações dos bancos derreteram no mercado e a desconfiança ficou ainda mais acentuada em relação ao sistema financeiro. Este era o cenário prevalecente até a semana passada quando o FED surpreendeu a todos e abriu uma linha de US$ 300 bi para o Tesouro dos EUA e US$ 700 bi adicionais para a aquisição de ativos (podres) do sistema financeiro. Ops! Fato novo, relevante e positivo - II Além do que informamos na nota acima, o Tesouro dos EUA vai promover leilões a partir dos próximos dias para comprar ativos mais antigos nas carteiras dos bancos. Estes ativos poderão ser comprados não somente pelo Tesouro, mas também por investidores institucionais, os quais serão estimulados a participar uma vez que tal modalidade de operação pode ser muito lucrativa. É uma espécie de "fundo" que tem intrinsecamente dois méritos: (i) aumenta a liquidez do sistema e diminui a incerteza e (ii) cria uma "precificação" efetiva e transparente para os ativos bancários. Esta medida, somada à aquisição de "ativos tóxicos" por parte do Tesouro, é muito significativa e pode retirar o enrosco que paralisou a política de retomada da atividade econômica da maior economia do mundo (25% do PIB mundial). É para se prestar a atenção à evolução de tudo isto, pois deve haver recuperação dos mercados nas próximas semanas, o que joga para cima as expectativas. Se o governo dos EUA conseguir recuperar a credibilidade do sistema, estará aberta a possibilidade para que se adote um tratamento mais consistente para gerar empregos, renda e crescimento. Ao invés de uma longa depressão, poderemos visualizar um cenário de recessão mais breve. É tudo que o mundo espera. Como agir em relação aos investimentos A maior alteração na política de investimento é que a taxa de juros de longo prazo pode voltar a subir. Os títulos de 10 e 30 anos do Tesouro Americano estavam muito valorizados, refletindo a extraordinária demanda por este "porto seguro". De outro lado, os metais preciosos não paravam de subir com o medo de uma inflação crescente e substancial no longo prazo em função da injeção de recursos públicos no sistema. Este processo não será revertido no curto prazo, mas pode ser amainado. O que já é muito positivo. Além de ser fundamental. E quem ganha? Ganham os mercados de renda fixa de títulos privados que devem ter a sua demanda aumentada, bem como o mercado acionário. O Brasil neste contexto deve seguir a mesma rota do mercado internacional: bolsa para cima, juros de longo prazo para cima (apesar da provável queda mais acentuada da taxa Selic de curto prazo) e câmbio mais estabilizado - pode até haver uma valorização mais acentuada do Real. Estamos vendo uma luz nascente no horizonte. Esperamos que venha a ser crescente e bem mais luminosa diante de tanta incerteza desde o final de 2007 e que foi acentuada em meados do terceiro trimestre do ano passado. Lula e o FMI Lula fez muito bem ao defender que os emergentes não participem da injeção de recursos nos organismos multilaterais (FMI, Banco Mundial e BID). Embora a presente crise afete todos os países, não parece razoável que os emergentes gastem recursos para viabilizar as políticas dos organismos multilaterais os quais são controlados pelos países mais ricos. Nenhum dos países emergentes tem poder de emitir moeda transacionável no mercado internacional. Não há credibilidade para estas e nem demanda. Nem mesmo da China, país tão propalado pela imprensa e investidores nos últimos anos. Os países ricos têm estas possibilidades. Que as usem para financiar o FMI e seus anexos. Além disso, esta injeção de recursos não vem acompanhada de uma revisão da forma de agir destes organismos, os quais foram absolutamente negligentes em relação à crise. Há um ponto para se prestar atenção: será que a injeção de recursos no FMI, BIRD e BID vai implicar em mudanças na estrutura de voto e representação entre os países? Este é um ponto vital. Aerolíneas e o BNDES Novamente estamos a ver o BNDES na sua ação "desenvolvimentista". Já apoiou a BrOi, a Aracruz, o Grupo Votorantim, a indústria automobilística e por aí vai. Agora, chegou a vez de financiar aviões da Embraer para a Aerolíneas Argentinas? O ponto aqui é saber o que de fato pode e não pode o banco de desenvolvimento. Quem fiscaliza de fato a suas políticas? Quem verifica se o que está sendo feito e se isto é do interesse do país? Quanto custa tudo isto? Já criticamos por diversas vezes o BNDES e o governo por suas políticas. Falta transparência sobre o custo das políticas anticíclicas do governo - e o BNDES é parte essencial deste custo. Crises muitas vezes geram "esqueletos" fiscais que saem das tumbas e passam a gerar pressões inflacionárias e fiscais no médio prazo. Será que alguém do Congresso se importará com tudo isto? E o trabalhador? O sindicalismo brasileiro, cujo papel é altamente questionado (e questionável) no momento atual de crise bem que poderia fazer uns cálculos e verificar quais são os benefícios governamentais que recebem as empresas, e qual é o montante de recursos destinados aos trabalhadores. A desproporção entre estes segmentos é justificável e contribui de forma efetiva para a retomada da atividade econômica? Um trabalhador de classe média, por exemplo, não poderia ter o seu IR reduzido? A popularidade do governo e a crise O fato é que a queda de popularidade do presidente e a avaliação do governo no combate ao desemprego continuam em excelentes patamares tanto na pesquisa CNI/IBOPE quanto na DataFolha. É verdade que no item do desemprego (46% em março contra 57% em dezembro) não é uma nota tão boa, mas está longe de ser ruim. Contudo, a avaliação positiva do governo (64% em relação aos 73% de dezembro) é substantiva e faz valer o capital político do governo (e de Lula). O que se vê é um presidente forte para combater a crise. O que é bom. Mas, por outro lado, faz recair sobre ele uma responsabilidade ainda maior em relação à condução do governo neste delicado momento.Há mais dois fatos positivos em relação à pesquisa: a maior consciência da população em relação à gravidade da crise (37% em março contra 35% em dezembro), embora ainda não seja prevalecente a opinião de que o cenário é muito sério. De outro lado, 41% da população ainda tem pouco medo de ser afetado pela crise, aspecto relevante para a propensão ao consumo. Finalmente, é certo que o governo tem capital político, mas é igualmente certo que a população que hoje dá crédito pode retirá-lo no momento em que a crise ainda está se instalando com maior intensidade por aqui. Todavia, este é um ponto a ser verificado no futuro. Tranquilidade. Tranquilidade? Pelos sinais emitidos externamente, o governo recebeu com naturalidade os resultados das duas pesquisas. Não é uma tragédia, avalia-se. E não é. Nem dá para avaliar se ela é uma tendência. Pode ser uma barriga. É evidente que os números de Lula e do governo foram impactados pela crise e o crescimento do desemprego. Não dá para dizer até onde isso vai parar porque é impossível prever o quanto e por quanto tempo a economia mundial e nacional estarão debaixo de um terremoto. Se durar muito mais, vai afetar o projeto político envolvendo a ministra Dilma. Ela não se sustenta sem um ambiente econômico saudável. Não tem ainda luz própria. E sem os raios de Lula, murcha. O governo deve começar a fazer coisas (ou mostrar que está fazendo) para tentar manter o otimismo. O grande mal é que começaram a aparecer as greves e o sindicalismo de um modo geral está inquieto e insatisfeito. América do Sul: risco aumentando Temos salientado nesta coluna que, além dos riscos advindos da crise nos países centrais, o risco regional está se tornando perigoso para a política externa e econômica do Brasil. Juntamos aos fatos anteriormente comentados em colunas passadas mais dois que justificam a nossa preocupação: (i) o novo passo estatizante de Hugo Chávez, desta feita no que diz respeito à nacionalização da unidade local do Banco Santander e, mais importante, (ii) o aumento dos conflitos entre as elites argentinas e o governo do casal Kirchner. Neste último item, vale ressaltar que a presidente Cristina Kirchner está enfrentando por meio de medidas reguladoras a imprensa, mais especificamente o grupo Clarín, bem como o setor rural que promove um (perigoso) bloqueio, o qual deve afetar as exportações e o suprimento doméstico. Não devemos desprezar nenhuma notícia ao redor do Brasil. Isto mexe muito com a percepção dos investidores em relação à região. O que de fato pensa o presidente? Lula vai aos EUA e discursa contra o protecionismo. Semana que vem deve repetir a ladainha na reunião do G-20, na Inglaterra. Mas, quando recebe a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, em SP, diz que o protecionismo dos vizinhos é normal. Diz que os países devem trabalhar pela definição de um "preço justo". No início do mês, Argentina ampliou barreiras a produtos brasileiros importados. O que Lula pensa de fato sobre o assunto? Talvez um pouco de cada posição. O protecionismo dos ricos é inaceitável. Dos emergentes, justificável. No caso da Argentina dos Kirchner há outro detalhe: o Brasil não cria confusão com os vizinhos. Vai acatar sempre o que eles fizerem. OCDE, novas projeções Nos próximos dias teremos o anúncio das novas projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que analisa as maiores economias do globo. Sem que saibamos os números, podemos antecipar para os nossos leitores o quem vem por aí: projeções que mostrarão a maior crise dos últimos sessenta anos e redução das projeções para o PIB dos países emergentes. A organização previu ao final do ano uma redução de apenas 0,4% do PIB para este ano. Agora terá de fazer uma correção de rota. Simples como isto. Por aqui, também novas projeções Vejamos a tabela abaixo sobre as previsões para o PIB deste ano: Credit Suisse +1,3% Austin Ratings +0,7% Bradesco +0,6% Tendências +0,3% Relatório Focus 0% WestLB -0,2% BNP Paribas -1,5% Morgan Stanley -4,5% Estes números refletem em grande medida um ajuste das expectativas de algumas instituições em relação ao crescimento deste ano depois da queda de 3,6% do PIB no último trimestre do ano passado. A nossa opinião é que o PIB deste ano deve cair entre 2% e 3% em relação ao ano passado como um todo. Portanto, deve haver um ajuste adicional das expectativas dos agentes em relação ao crescimento. O fato novo (v. primeiras notas) é o pacote de medidas nos EUA. O saneamento do sistema financeiro pode ser mais rápido e isto pode favorecer muito as expectativas em relação ao médio prazo. Imposto oculto O preço dos combustíveis, especialmente o da gasolina e do óleo diesel, sempre foi, no governo Lula (e também em outros governos, em determinados períodos) um preço político, ajustado e estabelecido por ponderações que não as de ordem técnica. Durante um bom tempo, por exemplo, a empresa deixou de ajustar os preços desses combustíveis, para cima, mesmo com o petróleo ficado muito tempo acima dos US$ 100, para não pressionar a inflação e garantir bons fluídos políticos para o presidente. Agora que a situação se inverteu e o petróleo está a menos de US$ 60, a empresa também não está animada a fazer reajustes nos preços, agora para baixo. Só que por outra razão, como o próprio presidente Lula confessou: "Ela tem grande importância para o superávit primário". Segundo ele, também contribui para os cofres do Tesouro com impostos e royalties. Ou seja, os preços da gasolina e do diesel são mais um imposto "oculto" que a sociedade brasileira paga, pois a Petrobrás apenas arrecada - quem paga é quem usa os combustíveis. É preciso, ainda, garantir recursos para a empresa fazer seus planos de investimentos e, então, compensar o período em que a Petrobrás manteve os preços artificialmente baixos. De qualquer forma, não será surpresa se a orientação sofrer uma guinada e a Petrobrás reduzir um pouco o que cobra pelos dois combustíveis: o governo está precisando fazer alguma "bondade" para compensar a tensão econômica. Perigo nas bombas Os níveis de gasolina adulterada (ou "batizada") oferecida nos postos de SP já estão superiores aos alcançados no pior ano do "batizado", em 2005. Será que tem alguma coisa a ver com o aumento na importação de solventes registrado nos últimos meses? Lula, o STF e o italiano É firula para a platéia a informação que Lula teria avisado Gilmar Mendes que se o STF deixar para ele decidir sobre a extradição ele não extraditará o italiano Cesare Battisti, e que se o querem extraditado a casa constitucional é que deverá fazê-lo. Teria sido um recado duro de Lula. Na realidade, o que Lula quer é um favor do STF, para não se indispor com os italianos (se não assinar a extradição), não ficar mal com a sua ala esquerda e não desautorizar o ministro Tarso Genro (se mandar o italiano de volta). O ônus e as críticas recairão sobre Gilmar Mendes e os seus. Lula está se revelando um "pessedista" (do antigo e extinto PSD), principalmente o mineiro, que inventou o muro político muito antes dos tucanos da melhor estirpe. Maquiagem nas contas Poucos analistas acreditam que o "novo" Orçamento Federal deste ano, anunciado com um corte de R$ 21 bilhões em que relação ao que havia sido aprovado pelo Congresso no fim de 2008, é para valer. O ministério do Planejamento fez contas de chegada - e chegou. Novos cortes serão necessários, porque a perda de receitas, avaliadas em mais de R$ 48 bilhões pelo próprio Ministério, ainda pode estr subestimada. Há também uma previsão de crescimento do PIB de 2% já considerado otimista. Contudo, o governo fez tudo para evitar problemas políticos agora e não adiou o aumento dos servidores, não cortou nem as obras do PAC e nem avançou sobre as emendas individuais dos parlamentares. Sequer admitiu a redução do superávit primário. Fez mágica. Até previu uma redução de R$ 7 bilhões nos pedidos de aposentadoria, coisa que costuma crescer em tempos de crise e desemprego. A realidade é que o governo deverá optar mesmo é pela redução do superávit, pelo uso do Fundo Soberano do Brasil além de contar com os ganhos que terá com o serviço da dívida pública fruto da redução dos juros. O que não faz a perversa combinação de interesses eleitorais com a condução da economia... MPs: soluções e problemas Os juristas do Congresso e da nossa política - lá estavam, entre outros, Michel Temer, Nelson Jobim e José Antônio Toffoli e tiveram a anuência de José Sarney - inventaram mais um monstrengo neste país com a decisão de que as MPs só trancam as pautas da Câmara e do Senado em determinadas circunstâncias. Pode não ser uma aberração jurídica - já vimos as mais diversas interpretações para a proposta. Mas sem dúvida é uma aberração política. Neste tema pode haver mais problemas do que soluções. Deixando de trancar a pauta, as MPs obrigarão o governo a um maior esforço para aprová-las antes do prazo de validade, o que é bom. Porém, se elas caducarem, haverá sérios obstáculos jurídicos, e esta é uma possibilidade real dada a fragilidade da base governista. Por outro lado, sem o trancamento da pauta, o Planalto pode se sentir menos constrangido em editar MPs versando sobre tudo e nada. Já há sinais tanto no Congresso quanto no governo sobre o acerto da decisão. MPs: e o Congresso? A Câmara e o Senado criaram um ardil para eles próprios: não tem mais o escudo das MPs para justificar a inação parlamentar em relação a uma série de projetos de suma importância que dormitam nas Casas. Esta semana mesmo espera-se que as pautas de votação preparadas por Michel Temer e José Sarney venham recheadas desses projetos. Será que eles vão esperar uma definição do Supremo sobre a questão, inseguros diante da constitucionalidade da interpretação? Prevaleceu, na história, a norma de Abelardo "Chacrinha" Barbosa: "Eu não vim para explicar. Eu vim para confundir." Bastaria que Sarney e Temer cumprissem (como os outros anteriores a eles) o que está cristalino na Constituição: formar uma comissão para analisar liminarmente as MPs e devolver para o Planalto aquelas que não cumprem os requisitos constitucionais de urgência e relevância. Simples e direto. Mas, quem quer complicações com o governo, quando estão todos pensando na posição de vice em 2010, num novo mandato para a filha, etc. e tal...?
terça-feira, 17 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 43

  Terça-feira, 17 de março de 2009 - nº 43 Contas, um desafio político para Lula Até a próxima sexta-feira, 20, a equipe econômica de Lula terá de apresentar o novo Orçamento de 2009, revisto. Ele foi aprovado quando, apesar de todas as evidências, o governo e o Congresso ainda acreditavam na fantasia da "marolinha". Foi uma festa. Agora, entre R$ 45 bi e R$ 50 bi precisarão ser cortados. Isso na melhor das hipóteses, pois se economia continuar desaquecendo como está (ver nota abaixo) a perda de receita poderá chegar próxima dos R$ 64 bi. Além do mais, será preciso abrir espaço para os subsídios do pacote imobiliário. Uma das possibilidades para diminuir as despesas previstas, aventada no fim de semana pelo ministro do Planejamento, é a suspensão dos aumentos dos servidores públicos federais, concedidos por MPs aprovadas pelo Congresso e já sancionadas pelo presidente. Seriam suspensos também os concursos para contratação de novos funcionários. Daria uma economia de R$ 29 bilhões. É briga certa com um dos bons ativos eleitorais do presidente e do PT - o funcionalismo público. Outra medida é a suspensão das emendas do parlamentares, de R$ 19 bilhões. Também nesse caso é confusão da grossa. A base parlamentar aliada, que já não é das mais fiéis, vai estrilar. E todos sabem como ela se vinga : criando dificuldades. Com um olho na administração e o outro nas eleições e na candidatura da ministra Dilma Roussef, com qual deles Lula ficará nessa questão do Orçamento ? Superávit menor Mesmo que Lula decida-se por comprar a briga com o funcionalismo e com os deputados e senadores aliados, ainda assim a conta do Orçamento não fechará totalmente. O restante sairá da meta de superávit primário, reduzido em um ponto percentual - de 3,8% do PIB para 2,8%. Ajudarão nesse expediente o Projeto Piloto de Investimentos (PPI) e das reservas do Fundo Soberano do Brasil (FSB). O governo, porém, não deve anunciar estas mudanças agora, para não assustar o chamado mercado. PIB : fraco desempenho e credibilidade Tomado o devido rigor na análise da queda de 3,6% do PIB no último trimestre do ano passado, é preciso dizer que não há surpresas. Os números de atividade industrial, somados ao aumento vigoroso do desemprego e à queda no consumo, já davam sinais de que algo mais sério iria ocorrer (ou aparecer) na economia brasileira. Alguém poderia questionar então sobre a razão para que o governo e o BC tenham se surpreendido com tal desempenho. Afinal, ambos são agentes que tem informações privilegiadas e mais eficientes para fazer previsões e projeções. Bem, muito poderia ser especulado a respeito, mas a verdade dificilmente seria conhecida em toda a sua extensão. Contudo, podemos especular que a estratégia do governo de "administrar as expectativas", dando à realidade uma tonalidade mais suave que a verdadeira, é uma das facetas reveladas sobre este preocupante desempenho da economia brasileira. O discurso oficial foi e tem sido sofrível nestes tempos duros. É normal que os governos procurem enfatizar os aspectos positivos de sua gestão ou da conjuntura. Todavia, quando estamos diante de uma crise do tamanho da que vivemos, esta estratégia tende a retirar credibilidade do governo em maior proporção que os benefícios da (tentativa) "administração das expectativas". Melhor seria apontar a realidade da crise e dar evidências de que as ações do governo serão eficientes e cabíveis. A gestão da crise vai mal tanto quanto a própria crise. Falta um plano coordenado de todas as ações do governo. Algo no atacado e não no varejo. Política monetária : erro grosseiro Não é preciso ser parte da FIESP ou do sindicalismo para constatar que houve erro significativo da parte do BC no que se refere à taxa de juros básica. Esta poderia ter caído com mais rapidez e magnitude. Não há pressões inflacionárias significativas apontadas por nenhum segmento da economia, a taxa de câmbio está relativamente comportada e a política fiscal não é fator de pressão no momento, apesar das preocupações justificadas com o aumento das despesas públicas nos últimos anos. Foi neste contexto que o BC derrubou na semana passada a taxa de juros para 11,25% ao ano. Por unanimidade. A redução de 1,5% poderia ter sido maior. E será no futuro. O tal do "mercado" já acredita em algo como 9,75% no final do ano, conforme registra o relatório Focus do BC. De nossa parte, acreditamos que este patamar pode ser atingido ainda neste semestre. A razão é que a desaceleração da atividade econômica apenas se iniciou e será maior nos próximos trimestres. PIB 2009 : será negativo O cenário mais otimista para o desempenho da economia brasileira é o que o PIB crescerá próximo de zero. Neste caso até valeria considerar verdadeiro o que o presidente do BC Henrique Meirelles afirmou neste fim de semana em Londres - "um número superior à média mundial". Infelizmente, a nossa melhor análise, considerando-se o desempenho setorial dos principais segmentos industriais, indica que algo ao redor de -2% é muito mais provável. Já existem análises próximas à nossa previsão, como no caso do ex-BC Sérgio Werlang que prevê um número de -1,5%. Tudo isto dependerá em larga medida daquilo que vier lá de fora e que mexe com as expectativas. O que era para ser uma significativa recessão está se tornando uma terrível depressão. Liderada por todos os países centrais. Todos. Dos EUA ao Canadá as previsões de crescimento têm sido cadentes e substancialmente cadentes. Aparição rara Neste último domingo a surpresa no mundo financeiro e econômico se deveu ao presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele concedeu raríssima entrevista ao tradicional programa da CBS, 60 minutos. Estava lá a postos para defender o pacotaço de US$ 787 bi lançado pela administração de Barack Obama, para anunciar o "fim da era de enormes ganhos de Wall Street" e, o mais importante, para pregar que sem a estabilização do sistema financeiro não haverá recuperação imediata. O Fed e as autoridades norte-americanas estão preparando o terreno para novas medidas que estabilizem o sistema financeiro daquele país, inclusive por meio da opção de estatização parcial das instituições mais desacreditadas do sistema. Bancos, grandes esperanças O índice do setor bancário norte-americano, parte do índice S&P 500, subiu 46% em apenas seis pregões. Este desempenho é fruto das expectativas de que o setor possa ser resgatado pelo governo, seja via estatização, seja via uma estratégia de retirar dos balanços os "ativos tóxicos" que asfixiam o crédito e causam insegurança sistêmica a todo o mundo financeiro, não somente o norte-americano, mas os sistemas de outros países ricos. Entre as principais instituições financeiras dos EUA, a subida das ações foi muito vigorosa. Das cotações mínimas, as ações do Citibank subiram 73%, as do Bank of America 83% e as do Wells Fargo 72%. Foi uma festa. Daquelas que todos ficam felizes e não somente os acionistas, pois uma crise bancária é pior que a própria crise. G-20, entre o consenso e a inação Quem se dedicou a ler as notícias sobre o encontro, neste último fim de semana, das vinte maiores economias mundiais, representadas por seus ministros das finanças e presidentes dos BCs ficou a correta percepção de que o consenso é enorme. Quase todos os ministros do G-20, incluindo o ministro Guido Mantega e o presidente do BC Henrique Meirelles, estão a falar na urgência da tomada de medidas para minimizar a recessão, uma nova regulamentação do sistema financeiro e o aumento de capital das instituições multilaterais, sobretudo no caso do FMI. Não nos enganemos, contudo. Todos estes aspectos são relativamente consensuais, mas é nos detalhes que a coisa se complica. No caso do velho continente, as divergências são substanciais, pois cada um dos membros da União Européia quer resguardar para si mesmo o direito de fazer valer o seu interesse nacional em cada tema. Países como a França e a Alemanha querem aprofundar os seus modelos de "economia social de mercado" no qual a regulamentação é muito mais apertada. Já a Inglaterra, país mercantil e centro financeiro mundial, deseja uma regulamentação mais liberal, embora mais rígida que a atual. Do lado dos EUA, a preocupação é estratégic a: quer manter a política do dólar forte, regular mais o sistema financeiro, mas dentro de padrões já conhecidos e estabelecidos em outros segmentos. Além disso, os americanos acreditam que os limites do "internacionalismo" das proposições são bem estreitos, ou seja, regulam-se aspectos mais consensuais e relevantes e depois cada um cuida do seu galho. FMI, pedindo ajuda A capitalização do FMI é uma necessidade. Todos (do G-20) concordam. Todavia, poucos (dentre os quais, os países emergentes) querem repensar o seu papel. Afinal de contas, é certo que o FMI não foi relevante para evitar o pior. Ao contrário, foi um organismo negligente no que se refere aos seus principias acionistas, os países mais ricos. O FMI sempre foi o "auditor" do sistema financeiro internacional em casos de rupturas de balanços de pagamentos dos países mais pobres. E agora ? Continuará a exercer o mesmo papel sem nenhuma alteração conceitual ? Provavelmente sim. Um papel muito distante daquele que Lord Keynes idealizou para ele. O defeito de nascença do FMI continua a se propagar sob as ambições dos países mais ricos. Obama e Lula O encontro do presidente Lula com Barack Obama foi proveitoso a despeito das críticas nativas ao que aconteceu no salão oval da Casa Branca. O Brasil, por meio de seu presidente, se credencia a liderar a região perante o Império Americano sob nova liderança. O problema é que nem o Brasil e nem a região têm importância estratégica para os EUA no momento. As questões bilaterais de comércio, tal qual o etanol, continuarão a ser os principais assuntos em pauta. Por enquanto, é só. A alternativa para a diplomacia brasileira, diante da clara indiferença norte-americana em relação à região, é a de se credenciar junto aos outros setores relevantes da política dos EUA, sobretudo os legisladores, formadores de opinião (especialmente os que defendem mudanças no setor energético) e os sindicalistas. Destes todos, somente os sindicalistas têm ligações mais próximas com o governo brasileiro. Por razões históricas que remontam às greves da região do ABC no início dos 80. Além disso, são os líderes sindicais americanos que estão a liderar a política protecionista do "Buy American". Exatamente, o maior risco para as nossas exportações. Chávez e o nosso interesse Não se pode atribuir como adjetivo principal ao líder venezuelano Hugo Chávez o de "rei das bravatas". O caudilho venezuelano, sob manto ideológico de sua revolução bolivariana, está a cumprir a sua agenda. Passo a passo está se tornando um daqueles ditadores populistas que campeiam as páginas da história latino-americana há muito tempo. Trata-se de um empreendedor, não de um falante. Subestimá-lo é erro grosseiro.Pois bem : os riscos para o Brasil não são nada desprezíveis na relação com a Venezuela. Além do petróleo, há questões de infra-estrutura e de investimentos venezuelanos no país que precisam ser mapeados, especialmente em vista do caminho ditatorial que toma Chávez. Nem o governo nem a oposição têm clareza sobre o que fazer. Afinal, se trata de um interesse nacional. Ou isto é pouco ? Serra e Aécio, convivência forçada O governador de São Paulo e o de Minas Gerais estiveram juntos ontem em Recife, no lançamento do livro do ex-ministro Fernando Lyra, sobre o avô de Aécio, a quem Lyra chama o tempo todo de "Dr. Tancredo". A festa seria só de Aécio, mas a direção do PSDB achou conveniente Serra também dar as caras, mesmo que tenha pouco a ver com o livro e sua história. Publicamente é preciso dar sinais e unidade e de civilidade política até o partido desatar o nó das primárias. A tática de Aécio Declarações recentes do governador mineiro e de alguns seus porta-vozes indicam o tema que vai motivar a campanha de Aécio para as prévias tucanas : está na hora de o Brasil ser presidido por alguém de outra região, depois de oito anos de FHC e, até 2010, oito de Lula. Um carioca e outro pernambucano, mas ambos políticos paulistas. Dilma gosta da tese : nascida em Minas, fez carreira no RS. Não fosse a preferida de Lula para sucedê-lo, ela seria a candidata de consenso do PT gaúcho para retomar o palácio Piratini. Há, tanto no PSDB quanto no PT, um grande descontentamento nos outros Estados com o domínio que as representações paulistas de ambos exercem sobre as legendas. O homem forte do Congresso Ele atende pelo nome de Renan Calheiros. Foi decisivo para a eleição de Sarney no Senado. Deu a Comissão de Infra-Estrutura da casa para o ex-presidente Fernando Collor, de quem já foi auxiliar, depois desafeto e agora é o seu mais novo amigo de infância. Em ambos, derrotou petistas - Tião Viana e Ideli Salvatti - com a anuência do presidente Lula. Indicou Wellington Salgado, suplente de Hélio Costa, para a vice-presidência da CCJ. Mandou outro cupincha, o senador Almeida Lima, para a presidência da Comissão Mista de Orçamento, aquela da qual saíram os casos dos "Anões", do "Mensalão" e dos "Sanguessugas" entre outros menos votados. É pouco ? Tem mais : administra uma bancada particular na Câmara, liderada por outro expoente do PMDB, Jader Barbalho. Se Renan não quiser, não acontece.
terça-feira, 10 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 42

  Terça-feira, 10 de março de 2009 - nº 42 Sinais negativos Vejam esta declaração de William Dudley, presidente do FED: "O relatório sobre o emprego era o foco. O que vimos a partir dele é que a economia tem ímpeto para cair." Pois bem: na semana passada, a divulgação do desemprego nos EUA jogou mais pessimismo nos mercados financeiros e de capital. Se estamos a caminhar para uma depressão, não dá para dizer. Todavia, é certo que não dá para descartar esta hipótese. O Banco Mundial, órgão que foi muito silencioso sobre os rumos desastrosos das principais economias nos últimos anos, agora declara em alto e bom som que "desde a 2ª Guerra a economia mundial vai ficar 5% abaixo de seu potencial." A produção industrial mundial deve cair 15% e o comércio internacional terá o pior desempenho em 80 anos. Tudo isto para dizer que não se pode negligenciar minimamente a tragédia instalada mundo afora depois de quase dez anos de especulação financeira. Infelizmente, o Brasil deve ser contaminado por este cenário e seria extremamente interessante que o país articulasse um plano de grande envergadura para enfrentar o que vem lá de fora. Negar a realidade para "sustentar as expectativas" é erro grosseiro, mesmo que seja uma forte tentação política no que tange ao proselitismo. Números do Brasil Na semana passada e ontem foram divulgados os indicadores de produção industrial do país. Em apenas quatro meses, entre setembro do ano passado e janeiro deste ano, a indústria brasileira registrou queda de 18,2% na produção. Todos os setores registraram quedas expressivas: bens de capital (-20,4%), bens intermediários (-17,8%), bens de consumo duráveis (-29,7%) e bens de consumo semi e não duráveis (-7,6%). Em janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado, a redução da produção foi significativa: 17,2% - "generalizada" em todos os segmentos. Segundo a CNI, o faturamento do setor industrial registrou em janeiro queda de 13,4% quando comparado com janeiro de 2008. É extremamente difícil traçar o futuro do desempenho da indústria. Do lado positivo, temos uma série de medidas anticíclicas diante do processo recessivo. Destaque-se, a título de ilustração, a redução de IPI para o setor automotivo e a provisão de crédito em moeda forte por parte do BC para diversos setores. Medidas consistentes e que ajudam e muito no processo. Do lado negativo, temos o aumento sistemático do desemprego em setores anteriormente dinâmicos, a queda da confiança dos consumidores e a baixa propensão ao risco por parte dos investidores (do setor real e financeiro). Todos estes itens decorrem diretamente do agravamento externo. Sem que tenhamos pretensões de fazer exercícios de futurologia, acreditamos que pelo menos nos próximos quatro trimestres a queda da atividade será sistemática e significativa. A contaminação externa por aqui está no começo. Lamentavelmente. COPOM Desde novembro alertamos nossos leitores sobre o fato de que a autoridade monetária brasileira, o BC, estava praticando uma taxa de juros básica acima daquela que seria estimulante para o processo econômico. Acreditamos que esta situação se mantém. Os dados obtidos do mercado futuro de juros indicam a queda de 1% na taxa Selic na reunião de amanhã do COPOM. Cairia de 12,75% para 11,75% ao ano. De nossa parte acreditamos numa queda superior a este patamar, algo entre 1,5 e 2,0 pontos. Seria um ajuste "natural" diante de números tão fracos da economia real e dos números de inflação que convergem rapidamente para a meta de inflação estabelecida pelo governo. Se o BC não reduzir a Selic em mais de 1%, esta tarefa, a nosso ver, terá de ser realizada com mais riscos na próxima reunião do COPOM, em maio. Assim, apostar nos contratos de juros futuros mais longos, parece uma estratégia consistente com o cenário depressivo e deflacionário que se aproxima. Contas governamentais Nesta altura, está visível que o Planalto joga boa parte de suas fichas para manter as contas públicas mais ou menos em ordem este ano na queda acentuada da taxa Selic. Ele pagaria menos pelo serviço da dívida e poderia continuar gastando quase como está, mesmo com a diminuição da receita tributária. Lula não quer - e não deve - cortar investimentos e politicamente não se sente à vontade para diminuir as despesas correntes e mesmo adiar projetos não prioritários do PAC. Seria um tiro no pé na candidatura Dilma e do seu projeto político. Como a arrecadação vai diminuir muito - no mínimo R$ 40 bilhões a menos em relação a 2008 -, e como muitas despesas já foram contratadas e são "incortáveis" como diria o nosso Rogério Magri, o BC passou a ser a salvação. Por isso, as pressões sobre Henrique Meirelles e seu grupo, desta vez, foram mais explícitas e mais violentas do que de costume. Contudo, mesmo que o BC venha a ser, amanhã, mão aberta para os seus padrões, ainda assim é provável que o governo tenha de diminuir o superávit primário de 3,8% do PIB para 2,8%. A mudança, porém, não deverá ser admitida agora, para não assanhar o "mercado". Como se o mercado já não estivesse percebendo a manobra. A grande pergunta é : até que ponto será possível conciliar o jogo eleitoral com a administração da crise ? China sinaliza e terá de agir A China ainda é o principal vagão carreado pela locomotiva danificada norte-americana. Acreditava-se há pouco tempo que o gigante asiático era o centro do mundo. Verifica-se agora que em tempos globais tudo está integrado e nada substitui de forma instantânea a economia dos EUA, que representa 25% do PIB mundial. Neste contexto, o país comunista vai ampliando os pacotes de estímulo econômico. Estes começaram tímidos em meados do segundo semestre do ano passado. Diante de uma situação agravada, as autoridades chinesas sinalizaram na semana passada que podem lançar um plano ampliado de estímulo fiscal (de apoio ao consumo doméstico), monetário (redução da taxa de juros) e saneamento do "desconhecido" setor financeiro do país. É aposta muito razoável acreditar que esta "sinalização" vai se tornar efetiva. Talvez em pouquíssimas semanas. Conforme já afirmamos nesta coluna em diversas ocasiões, os maiores riscos para um agravamento ainda mais dramático da situação internacional virão da China. Portanto, acompanhar a conjuntura de lá é dever de ofício prioritário para quem quer saber para onde está indo a economia mundial. OMC de olho no BNDES Grave. Gravíssima. Este é o único termo que se pode usar para o "olhar" que a OMC está a dispensar ao financiamento do BNDES às empresas brasileiras. Há uma investigação em curso que começou ao final de 2008. É evidente que o órgão mundial está fazendo o jogo protecionista que as principais economias estão a fomentar. Portanto, as suspeitas da OMC nada mais são que o "jogo pesado" das políticas protecionistas que são a tentação do momento de diversos países para sustentar o emprego doméstico e, por conseguinte, manter a popularidade dos combalidos governos dos países ricos. Não há efeitos imediatos, mas os sintomas são os piores possíveis. Pacote imobiliário ! Finalmente, está programado para a semana que vem, até o dia 20, o lançamento do pacote imobiliário do governo, com o qual Lula pretende alavancar a construção de um milhão de novas moradias no Brasil em 2009 e 2010. Boa parte são moradias populares. A ministra Dilma Roussef - o pacote será o mais novo bebê do PAC - disse que haverá casas de graça para quem não pode pagar. E boa parte dos novos compradores pagará prestações simbólicas, de R$ 15 e R$ 20. Um projeto ambicioso, socialmente justo - e eleitoralmente oportuno. Há, porém, dois obstáculos antes que ele seja colocado de pé. O primeiro é definir de onde sairá toda a dinheirama necessária para erguer, num espaço de pouco mais de 20 meses, um milhão de novas residências e quem bancará os subsídios embutidos no programa. O segundo é, por assim dizer, uma questão de paternidade. Ou de maternidade. O governo em Brasília quer envolver os governadores e os prefeitos no projeto, seja com contribuições fiscais (cortes de impostos e taxas), seja com financiamentos. A maioria está disposta a colaborar (ninguém seria louco de ir contra), mas não quer deixar as glórias todas para o governo federal. Quer levar também os dividendos. Alguns querem que o dinheiro seja transferido para as companhias habitacionais do município ou do Estado e que elas fiquem responsáveis por tudo. Porém, isso contraria frontalmente os planos palanqueiros de Lula para a ministra Dilma. Do jeito que vai, o pacote imobiliário pode nascer órfão de pais ou capenga. E com problemas de transparências no que se refere às contas públicas. Com o dinheiro alheio Há algum tempo prefeitos e governadores - e não são apenas os da oposição - andam se queixando de que o governo federal faz festas com os cofres deles. Lula divide a conta, porém não chama para as comemorações e os abraços. É o caso, citam, do novo piso salarial dos professores que vai ser pago por eles e não pelo governo federal: o reconhecimento foi todo para Lula. Ou ainda, da redução do IPI dos automóveis e do IRPF: parte da renúncia fiscal saiu dos Fundos de Participação dos Estados e o dos Municípios. Mais uma: segundo a Confederação Nacional dos Municípios, o governo repassa R$ 0,22 às prefeituras para cada aluno, mas as prefeituras gastam R$ 1. No entanto, a merenda escolar está listada entre as ações sociais afirmativas do governo federal.  Collor, o retorno Collor teria sido eleito presidente da estratégica Comissão de Infra-Estrutura se o presidente Lula tivesse se empenhado com afinco junto a seus aliados pela candidatura de Idelli Salvatti. Assim como Tião Viana não teria sido derrotado por Sarney na disputa pelo comando do Senado, se o Planalto não tivesse torcido pelo senador maranhense do Amapá. Para tocar seu projeto político com a ministra Dilma Roussef, Lula calcula que precisa mais do PMDB e de alguns aliados do que do PT e a chamada esquerda de outros partidos. Este, como diria o ex-governador Leonel Brizola, é um "sapo barbudo" que o PT terá de engolir várias vezes até 2010. O partido de Berzoini não perde por esperar quando chegar a hora de formar as chapas de candidatos a governador e a senador. Ciro, o retorno É por essas e outras que o deputado Ciro Gomes, depois de mais de seis meses de quase silêncio e de abstinência política, voltou em grande estilo. Numa palestra e numa entrevista na semana passada, apontou muito menos para seus alvos prediletos - os tucanos e o governador José Serra - e muito mais para a política econômica (o BC na frente, é lógico) e para a candidatura Dilma (que ele não aceita como consolidada). Ciro percebeu que os "queridinhos" de Lula hoje são outros. 
terça-feira, 3 de março de 2009

Política & Economia NA REAL n° 41

Terça-feira, 3 de março de 2009 - nº 41 A crise se aprofunda Há sólidas razões para que se possa concluir que o alastramento da crise internacional prosseguirá e de forma ainda mais acentuada nos próximos meses. Embora muitos teçam opiniões que dão cores menos pesadas à atual situação, o fato é que não existe nenhuma evidência objetiva para que se possa fundamentar uma opinião mais favorável em relação ao seu desenvolvimento. Eis as razões que suportam a nossa opinião: (1) O pacote de estímulo econômico promovido pelo governo de Obama nos EUA e aprovado há duas semanas pelo Congresso norte-americano é claramente insuficiente para cumprir os dois papéis aos quais se destina, a saber, (i) relançar as bases de um consumo sustentado e (ii) sanar o setor financeiro do país; (2) No que se refere ao setor financeiro, a estatização do Citigroup é apenas uma evidência (importante) do que está a acontecer. Os bancos americanos estão literalmente quebrados e absolutamente incapacitados de prover crédito novo e sadio para os consumidores. Mais bancos devem ser liquidados ou estatizados; (3) Ao redor do mundo, especialmente nos países europeus, o que se vê é que a irresponsabilidade no setor financeiro seguiu os mesmos padrões americanos. Na Inglaterra, apenas para citar o caso mais grave, o sistema está quebrado e ainda está em fase inicial a contaminação do setor real, sobretudo os grandes provedores de ofertas de emprego, como é o caso da construção civil; (4) Os países com melhor desempenho em termos de atividade econômica, como o Brasil, a Índia e, sobretudo, a China, ainda estão iniciando o processo de desaceleração mais forte de suas economias. Isto deve agravar ainda mais a situação da economia mundial. Se a China foi argumento para tanto otimismo no passado recente, por que o inverso não seria verdadeiro ?; (5) O protecionismo vai ser um dos maiores riscos desta crise. Os países, por razões políticas domésticas, estão a traçar estratégias para proteger as suas respectivas economias (e empregos). No conjunto da economia mundial estas estratégias se constituem em verdadeiras tragédias, pois reduzem a atividade global já deprimida e, ademais, podem concorrer para um processo de desvalorizações cambiais altamente perigosas; (6) A debilidade econômica crescente no mundo retira dos Estados a principal capacidade política e econômica do momento que a de constituir déficits para estimular o emprego, o consumo e o investimento. Menor atividade econômica implica em menor arrecadação, logo em maiores déficits, fato este que aumenta a desconfiança dos agentes em relação ao futuro - a solvência das dívidas públicas passa a ser questionada. O comportamento especulativo do mercado de metais se deve a este fator; (7) Ainda não estão produzidos todos os efeitos políticos da atual crise, ou seja, o aumento do desemprego e a recessão vão aumentar a pressão sobre os governos e, por conseguinte, haverá maior instabilidade política. Brasil cada vez mais afetado Embora tenhamos de reconhecer por razões objetivas (boa posição externa, menor nível de exposição ao comércio exterior, baixa inflação e relativo controle das contas fiscais) que o Brasil está melhor posicionado para enfrentar a crise mundial, é evidente que o país será afetado pelo agravamento dos fundamentos das economias dos países centrais. Neste sentido, ainda estamos vivendo os primeiros efeitos desta má contaminação. Ou seja, a onda negativa externa ainda vai bater mais fortemente em nosso país. As ondas de demissões ainda não são dramáticas, mas tendem a se tornar mais graves. A popularidade do presidente Lula, um recorde da República, é um fator favorável para enfrentar os tempos duros que se aproximam. Todavia, sabe-se que este capital nem é infinito e nem é emprestado sem contrapartida. Assim, as principais macrotendências da política e da economia brasileira nos próximos meses podem ser previstas (sem pretensões proféticas) da seguinte maneira: (1) A desaceleração da economia brasileira se dará ao longo de todo o ano de 2009 e não apenas em um ou dois trimestres; (2) Tal desaceleração tem substancial probabilidade de adentrar o ano eleitoral de 2010; (3) Os gastos governamentais não serão capazes de evitar este processo contínuo de desaceleração, embora possa minimizá-lo. Há que se notar que, da mesma forma como ocorre nas principais economias mundiais, a disponibilidade fiscal para bancar políticas anticíclicas está por se reduzir velozmente. Adicionalmente, não se conhece o volume verdadeiro gasto pelo setor público nas políticas para combater a desaceleração econômica, especialmente em função da falta de transparência dos bancos públicos brasileiros, como é o caso do BNDES; (4) O desemprego está em fase inicial e os seus efeitos sobre a confiança do consumidor serão crescentes e hão de deteriorar o crédito e o consumo. Além da política, é claro; (5) A inflação está relativamente controlada, mas a sua tendência será basicamente definida pelos movimentos da taxa de câmbio. Do lado doméstico não há pressões substantivas, mas do lado externo há tanta incerteza que prever a taxa de câmbio, coisa que era tarefa dificílima, passou a ser impossível; (6) O investimento vai cair sistematicamente. Seja do setor externo, por razões óbvias, seja pela falta de confiança dos capitalistas nativos. O PAC minimiza os efeitos, mas não muito; Como se vê, as tendências acima desfiladas podem ser contestadas no que tange ao seu grau de intensidade. Negá-las, contudo, é quase uma irresponsabilidade. A hora é grave e é muito melhor que sejamos cientes deste fato do que surpreendidos por eles. Quem sabe a consciência nos leve a pressionar pela mudança de rota em tais tendências. De nosso lado vale a máxima de que se os fatos mudam, nós mudamos de opinião. Por dever de ofício, inclusive. Mas, até agora é o que temos a dizer. ____________ Uma caixa preta... São louváveis, já dissemos, os esforços do governo para ajudar a conter os efeitos mais daninhos da crise na economia nacional. Porém, por uma série de razões - o atarantamento de alguns dos responsáveis pela elaboração das medidas, injunções político-eleitorais que impedem a tomada de certas posições, a falta de uma visão global do problema - o governo está "chegando atrasado a algumas bolas" e pode estar comprometendo seriamente a recuperação mais rápida da economia brasileira. Preocupa em especial a deterioração das contas públicas. De um lado, corretamente, ele incentiva certos investimentos e dá isenções ficais para manter setores em atividades. Só que isso tem um custo fiscal, como relatamos acima, não mensurado perfeitamente. Mas se somarmos as renúncias já anunciadas - IPI dos carros, IR das pessoas físicas entre outros - temos mais de R$ 18 bilhões de reais. O encantado pacote imobiliário poderá incluir um subsídio de R$ 8 bilhões. Os subsídios novos do BNDES, com os R$ 100 bilhões adicionais, somarão R$ 4 bilhões. Somente isso, por baixo, leva R$ 300 bilhões. ...e um buraco negro Ainda no item despesas, como já relatamos em colunas anteriores, o crescimento é exponencial: prevê-se um aumento real este ano entre 8 a 10%, puxado principalmente pelos efeitos do aumento do salário mínimo muito acima da inflação e dos reajustes generosos concedidos aos funcionários públicos. A arrecadação está caindo - diminuiu um pouco mais de 7% em janeiro deste ano em relação a janeiro do ano passado. E não há movimentos para cortes de despesas de custeio. O ministério do Planejamento está revisando o Orçamento, com dificuldades para fechar a contabilidade diante das limitações político-eleitorais impostas pelo calendário sucessório de 2010 do presidente e as exigências dos partidos aliados. É uma equação explosiva. Investimentos financeiros : investir pensando no pior No momento em que se compara a Grande Depressão dos anos 30 com a atual conjuntura é irresponsável dizer que há razões para se aumentar o risco dos investimentos. Existem, infelizmente, muitos analistas e "pregadores" ao redor do globo construindo teses em favor dos ativos de risco. É bom rememorar os nossos leitores que foram a maioria destes "analistas" os principais responsáveis por esta crise. A irresponsabilidade foi a marca mais importante do mercado financeiro nestas duas últimas décadas. Neste item não temos de provar nada: basta dar uma olhada nos escândalos financeiros em todo o globo. Dito isto, queremos reforçar o que já dissemos nas nossas últimas colunas. Estamos, infelizmente, muito pessimistas em relação ao futuro da economia mundial. É bom que se diga que não informamos os nossos leitores sobre o nosso pessimismo em função de qualquer traço negativo ou depressivo na psicologia destes colunistas. Apenas estamos sendo fiéis à nossa análise mais sincera e profissional. Em janeiro estávamos mais otimistas, conforme sinalizamos nas nossas primeiras colunas do ano. Em meados daquele mês mudamos de opinião e passamos a acreditar na piora dos mercados mundiais e suas consequências sobre o nosso país. O principal fato para nos afastar de qualquer otimismo no momento é a decepção com o pacote de estímulo econômico de Obama. Como dissemos em várias notas, este é insuficiente e não ataca a forte crise do sistema financeiro de forma eficaz. Assim, de forma breve, eis as nossas opiniões, na nota abaixo, sobre o desempenho dos principais segmentos do mercado financeiro. Hora da renda fixa apesar da queda da Selic Algumas recomendações básicas para os investimentos pessoais: (1) Mantenha suas posições cambiais. Se o real se valorizar de forma mais acentuada aumente tais posições; (2) A taxa de juros básica deve continuar caindo. Melhor os prefixados aos pós-fixados. Prefira os CDBs aos fundos. Pagam mais e não têm taxa de administração e de desempenho. Na próxima reunião do COPOM, acreditamos numa queda de 1% na taxa Selic. Pode ser mais; (3) Os metais preciosos, sobretudo o ouro, vão continuar valorizados, podendo subir ainda mais. Mantenha a posição. Na queda eventual, aumente tais posições; (4) A bolsa brasileira (e quase todas no mundo) deve sofrer desvalorizações nominais e em termos de dólar nos próximos meses. Os resultados corporativos devem ser decrescentes e a queda das commodities lá fora influenciará ainda mais este processo; (5) Fuja dos fundos de derivativos (multimercados, hedge funds, etc.). É simples: o risco destes fundos é bem maior, falta-lhes transparência (apesar da situação no Brasil ser bem melhor que no resto do mundo) e o retorno destes instrumentos não compensa os riscos. Tome cuidado especialmente com os "gênios" que comandam estes fundos. Vários estão indo para a cadeia em certas partes do mundo. Discussão tola Dentro de mais alguns dias o IBGE deve divulgar o primeiro balanço do comportamento do PIB brasileiro no último trimestre do ano. Não há dúvidas, será negativo. Começará então uma discussão interminável sobre se o Brasil entrará, nos três primeiros meses do ano, em "recessão". Uma filustria da teoria econômica que define recessão como dois trimestres seguidos com o PIB negativo. É desviar a atenção do debate. Quem está perdendo o emprego não usa esta régua e este compasso. Uma economia que vinha crescendo a um ritmo de quase 6% passar para algo próximo de zero é brutal. Melhor seria mais ação. São todos iguais ? Na defesa que apresentou contra a representação do DEM e do PSDB, acusando o governo de usar a reunião de prefeitos em Brasília para fazer campanha eleitoral para a ministra Dilma Roussef, o advogado-geral da União, José Antonio Tofolli, incluiu o argumento de que o governador José Serra fez o mesmo com os prefeitos e secretários da Saúde em SP. E, de fato, fez mesmo. Mas um erro não justifica o outro. Os dois deveriam ser admoestados pela justiça eleitoral. Por que o governo, em vez de justificar seu mal feito (que vai prosseguir, escancaradamente) não instrui os partidos aliados para contestarem as ações tucanas nos tribunais ? Simples, a justiça pode agir e impor limites a esta desbragada campanha, com amparo de recursos públicos, que já pulula no país. Lula e Dilma estão transformando Brasília numa cidade dormitório. Aécio vai sair pelo país afora em pregação eleitoral e quer levar Serra a tiracolo. E, com a crise econômica, não se pode dizer que não haja o que fazer. Agora, imaginem se a justiça eleitoral se manifesta. Melhor é não mexer. Na oposição, muita gente condenou a representação do DEM e do PSDB por essa razão. Depois, a classe política fica indignada quando a população coloca todos os gatos no mesmo saco. O silêncio de Ciro Quem, em Brasília, conhece o temperamento e os humores do deputado Ciro Gomes diz que se aparecer alguém disposto a "ouvir" o silêncio do ex-ministro e quase eterno candidato a presidente da República, poderá colher uma explosão da alguns megatons. E desta vez os explosivos mais potentes não seriam endereçados aos ex-parceiros e agora adversários do tucanato. Medo de competir - 1 Ainda em plena ressaca carnavalesca, numa daquelas coincidências comuns no setor público, o governo editou uma norma proibindo as redes comerciais e emissoras públicas estaduais oferecerem multiprogramação nos canais digitais. O sistema nipo-brasileiro permite, tecnicamente, que num único canal a emissora mostre simultaneamente quatro programas diferentes. As grandes redes de televisão eram contra essa possibilidade, alegando questões comerciais: mais programação para o mesmo volume de anúncios. Portanto, é uma "proibição" que agradou aos principais interditados e reduziu a possibilidade de aumento da competição e o direito do consumidor brasileiro de ter mais ofertas. Quando da escolha do padrão de televisão digital para o Brasil, vencido pelos japoneses contra os modelos europeu e americano, a posição das emissoras nacionais foi a favor do sistema nipônico exatamente para manter o atual status. Ganharam a disputa com o apoio decisivo do ministério das Comunicações e da Anatel. Medo de competir - 2 Para resolver a questão do ponto adicional da tevê por assinatura, a Anatel já adiou por seis vezes suas reuniões para reestudar o assunto e não conseguiu se definir. Em outro caso, o da compra da Brasil Telecom pela Oi ela agiu em tempo recorde. Quando o interesse das empresas está em jogo (vida a história também da multiprogramação) as autoridades não vacilam muito. Amar é... Chega a ser comovente a paixão dos partidos políticos e das centrais sindicais pelos fundos de pensão da empresas estatais. A "gamação" do PMDB pelo Real Grandeza, de Furnas, não é caso isolado. Qual seria a razão para tanto amor? Há empresários também que gostam mais dos fundos desses fundos do que de suas próprias empresas. Quem quiser mais detalhes procure desde os ramos de telefonia a shopping centers... Dá boas histórias e amores bandidos.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 40

Terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 - nº 40 O Brasil real : mais incógnitas do que certezas A dinâmica do desempenho da economia brasileira dependerá essencialmente do que acontecer lá fora. Embora o sentido das medidas econômicas adotadas pelo governo esteja correta (aumentar a demanda e sustentar o crédito), o desemprego mais elevado e a queda de renda serão crescentes. Além disso, o governo parece mais inclinado a assistir setores econômicos específicos e apoiar operações de fusões e aquisições, via BNDES, como no caso do Grupo Votorantim. Assim sendo, os principais fatos estão concentrados na área política. Na economia, nos próximos dois meses, é ficar com um olho no que ocorre lá fora e outro no BC que vai reduzir em mais 1% a taxa básica de juros. Ademais, continua faltando um plano abrangente e claro a Lula. O governo, porém, deve fazer algumas marolinhas econômicas, para mostrar que está espantando a outra "marolinha" : a aplicação de silicone no PAC, anunciada há dias, e um pacote imobiliário que vem sendo gestado há meses. O Brasil oficial : ao estilo Marta Os ares brasilienses - e alguns economistas de outras plagas - já estão captando sinais de que o pior para a economia brasileira já passou : dezembro teria sido o fundo do poço. Nossa situação teria parado de piorar e até começado a melhorar em algumas áreas, conforme diagnóstico apresentado pelo ministro Guido Mantega ao presidente Lula e aos membros do Conselho Político do governo nesta segunda-feira. Animaram especialmente os dados da balança comercial das duas primeiras semanas de fevereiro e relato de empresários sobre retomada dos negócios. O que é motivo suficiente para o presidente e seus assessores adotarem o conselho da ex-ministra Marta Suplicy aos brasileiros no auge da crise aérea do fim de 20007. Por via das dúvidas... De todo o modo está sendo protelada, por exemplo, a divulgação dos dados sobre o emprego formal em janeiro, com base nos dados do Ministério do Trabalho. Em dezembro foram perdidos 655 mil postos com carteira assinada. Mês passado a tragédia não foi tão grande, mas o tamanho do rombo, segundo se comenta em Brasília, não dá para "relaxar". Não se surpreendam se o ministro Carlos Lupi anunciar o resultado nos dias carnavalescos, enquanto os brasileiros não-oficiais estarão merecidamente relaxando.   China : menos investimento externo A China foi considerada o principal motor do crescimento mundial durante os últimos anos do boom econômico encerrado há pouco mais de ano e meio. Pois bem : além dos evidentes sinais de desaceleração da atividade econômica nos últimos meses, o interesse em investir no país tem diminuído. Em janeiro o investimento estrangeiro no país foi de US$ 7,5 bilhões, cerca de 33% menor que o mesmo mês do ano anterior. Trata-se de um processo, pois já é o quarto mês de queda no fluxo de investimento direto na China. No ano passado, como foi investido US$ 108,3 bilhões, cerca de 30% superior a 2007, sendo que US$ 92,4 bilhões foram direcionados para projetos de investimento e não o mercado financeiro e de capital. Análises do governo chinês apontam que o investimento direto deve cair 30% neste ano em função da crise internacional. O grande desafio no momento para a China (e o mundo) é o aumento do consumo doméstico. Isto ajudaria a contribuir para o ajuste das contas externas das principais economias mundiais, sobretudo os EUA, e evitaria uma desaceleração ainda maior do PIB mundial. G-7 : Tom ameno com a China A reunião do G-7 neste último fim de semana trouxe poucas novidades. Basicamente, os países mais ricos continuam, cada qual a seu modo e prioridade, a coordenar e implementar medidas para reduzir o impacto da fragilidade do sistema financeiro, bem como estimular a demanda. A única novidade do encontro ocorrido em Roma foi o tom ameno adotado para comentar a política cambial da China. Há poucas semanas, o Secretário do Tesouro dos EUA Timothy Geithner criticou fortemente a China afirmando categoricamente que o governo do país manipulava a taxa de câmbio mantendo-a artificialmente subvalorizada. O governo comunista da China reagiu duramente às criticas negando a manipulação e afirmando que a China não poderia ser acusada dos problemas americanos. Nesta reunião do G-7, as lideranças econômicas saudaram "as medidas de estímulo fiscal e flexibilização da taxa de câmbio da China". Como se nota, algo bem mais diplomático. O fato é que uma das saídas da atual crise passa pelo maior estímulo do crescimento dos países emergentes e pela respectiva valorização da taxa de câmbio de cada um deles frente ao dólar. Assim, se evitaria o cenário "pró-bolha" dos últimos anos, uma combinação de dólar forte e taxa de juro negativa frente à inflação. Anote aí : o maior risco da (péssima) conjuntura atual no cenário externo é uma conjunção de deflação e competição entre as moedas com desvalorizações mais acentuadas entre os países. É um aspecto importantíssimo a ser observado.   Japão : o pior não passou O Japão apresentou o pior desempenho de atividade econômica nestas últimas três décadas segundo os dados do PIB do último trimestre de 2008. Em termos anualizados a economia japonesa se contraiu no ritmo de 12,7%, muito superior aos EUA (-3,8%) e na eurozona (-5,9%). Assim, o Japão - ícone em termos de crescimento no período pós-guerra - passou a ser o país de menor crescimento entre as principais economias industrializadas. Concretamente, a fragilidade maior da Europa e do Japão serão enormes barreiras para uma recuperação mais rápida dos EUA. Note-se que apesar da economia norte-americana ser o epicentro da crise atual, a recessão é muito mais aguda na Europa e no Japão, que pareciam mais imunes à hecatombe.   O pacote de Obama O Congresso dos EUA aprovou um pacote de US$ 787 bilhões de estímulo à recuperação econômica da maior economia mundial. O placar da aprovação foi de 246 democratas votando a favor e todos os 176 republicanos votando contra. Portanto, o novo presidente norte-americano não encontrou mínimo respaldo da oposição apesar de seus elevados níveis de popularidade e aprovação. O fato é que o pacote começa a ser implementado em meio a muita descrença. Eis algumas das razões alegadas que justificam o ceticismo de muitos formadores de opinião, investidores e políticos : 1) O pacote é inferior ao que o próprio governo estimava como necessário; 2) O estímulo fiscal, baseado em renúncia fiscal ou isenção, é da ordem de US$ 400 bilhões, montante considerado insuficiente. Novas medidas serão necessárias o que aumentará a percepção de um pacote inacabado; 3) A parte do programa de estímulo destinado à recuperação do crédito é muito vago. Não se sabe se o sistema financeiro voltará a ter capacidade de tomar recursos do mercado e emprestar num prazo relativamente curto. O fato é que instituições financeiras dos EUA estão na prática insolventes e a "limpeza de seus balanços" passou a ser incerta. É necessário "zerar o jogo" no setor creditício. As experiências do Japão e do Brasil nesta área ensinaram que é preciso "esquecer o passado de ativos podres" e criar novos padrões de gestão financeira; 4) Falta consenso político em relação aos aspectos básicos da recuperação. Ainda há muitos republicanos pregando ideologicamente sobre "liberdade dos mercados" e "intervenção estatal". Ora, caso o plano não funcione nos seus primeiros momentos esta gritaria se tornará crítica para aumentar a descrença no plano; Efeitos sobre o mercado Resumindo : faltam dois ingredientes vitais para o pacote de Obama : (i) dimensão suficiente para não deixar dúvidas para o mercado de que seus efeitos serão positivos e significativos para recuperar a economia americana e (ii) a recuperação do sistema financeiro é extraordinariamente incerta, pois o governo não parece capaz de enfrentar o principal dilema neste item : esquecer o passado, impor perdas aos investidores em ações e dívidas e começar tudo de novo. Por tudo isto, mantemos a nossa opinião negativa em relação ao desempenho do mercado financeiro aqui e lá fora. Recomendamos aos nossos leitores cuidadosa leitura da nota desta coluna "Mercado financeiro: cinco razões para não aumentar o risco" na edição de 39 de 10/02/09 (clique aqui). Junte às cinco razões mais uma : o pacote de Obama pode não funcionar e não recuperar a credibilidade neste momento crítico. A eleição é o que importa Em mais de uma ocasião afirmamos que, a não ser em circunstâncias muito excepcionais, nada se fará no mundo político e burocrático no Brasil em 2009 e 2010 que não tenha como pano de fundo as eleições do ano que vem. Ninguém tomará nenhuma decisão sem sopesar muito bem os efeitos dela sobre o ânimo dos eleitores. O que, necessariamente (muitas vezes, quase nunca), não é o melhor para os brasileiros. O cidadão será chamado na sua hora devida - dar o voto e pagar a conta. É PAC da Dilma, PAC do Serra, PAC do Aécio, festa dos prefeitos de Lula, festa de prefeitos dos tucanos (esperem para breve)... E quando acabar o jogo de 2010 começará o de 2012 de olho no de 2014. Brasil, o país das campanhas eleitorais eternas... Mais do mesmo Pelos primeiros e tímidos movimentos de Sarney e Temer no comando do Congresso já da para ver que eles vieram para mudar para tudo permanecer como está. O PMDB velho de guerra O que o senador Jarbas Vasconcelos disse de seu partido, o PMDB, na entrevista à revista "Veja" não é novidade nem para o mais ingênuo dos peemedebistas. Por isso, apesar das alguns gestos exteriores de indignação, vai ficar o dito pelo não dito. Ninguém quer mexer no vespeiro, fazer cobranças duras, para não ter seu nome exposto. Além do mais, há outras recompensas... Há muito o PMDB perdeu os brios dos tempos em que era comandado por Ulysses Guimarães. E não faz nenhuma questão de recuperá-los. Perigo à vista Logo após as folgas do Carnaval, no início de março, a base governista na Câmara, por orientação do presidente Lula, tentará votar o substitutivo do deputado Sandro Mabel ao projeto de reforma tributária apresentado no ano passado pelo Planalto. O governo quer ter esse diploma nas mãos para apresentar como mais uma de suas ações para combater a marolinha. Mero gesto publicitário : (i) porque a maior parte das mudanças previstas entrarão em vigor no longuíssimo prazo, somente o que é cosmético terá efeito em 2010 ; (ii) porque, somados os pequenos avanços e as grandes armadilhas, a proposta de Mabel está mais para um desastre tributário do que para algo inovador e simplificador em matéria de tributos no Brasil. A sociedade não vai ganhar com as mudanças, pelo contrário. O foco é o bem do Estado. Reforma política Há muito de esperteza e nem tanto de boa fé na proposta de reforma política entregue ao Congresso pelos ministros José Múcio e Tarso Genro divididas em 5 projetos de lei e uma proposta de reforma constitucional. Servirá de terapia ocupacional para os parlamentares, ajudará a engabelar o platéia e servirá para o governo mostrar-se ativo. No seu conjunto, não tem chances de ser aprovada, como todas as outras discutidas nos últimos 20 anos no país. Por isso, com a manobra do fatiamento alguma coisa pode ser aprovada, como o financiamento público de campanha e o a abertura de uma "janela" para a infidelidade partidária, coisas de interesse direto dos políticos e dos partidos. O resto vai para o arquivo. Ou alguém acredita que deputados e senadores vão aprovar, por exemplo, a cláusula de barreira, ainda que mitigada ? Ou, ainda, a proposta de que o tempo de rádio e televisão dos partidos coligados não contam para os programas eleitorais, apenas o do partido cabeça da chapa ? Esta medida acabaria com o maior "patrimônio" político do PMDB. E até os peixes do lago Paranoá sabem que sem o PMDB nada se decide em Brasília. De olhos bem abertos Economistas, contabilistas e todos os bons fazedores de conta no Brasil aconselham um pouco de atenção na azáfama do BNDES, do BB, da CEF e da Petrobrás. Em nome de uma necessária política imediata de combate aos efeitos da crise econômico-financeira sobre a economia produtiva brasileira, vê-se uma certo açodamento (para dizer o mínimo) que pode estar criando estrondosos esqueletos para o futuro. Já se fala, por exemplo, que o Banco do Brasil, em um futuro não muito distante, necessitará de um aporte de capital.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 39

Terça-feira, 10 de fevereiro de 2009 - nº 39 Atualização da crise I A crise internacional ainda não tem novidades positivas a serem alinhadas por aqueles que desejam fazer análises prospectivas. No que diz respeito ao sistema de crédito, embora as negociações para implementação de um (novo) plano de resgate da ordem de US$ 850 bilhões esteja andando no Congresso norte-americano, há que se considerar um aspecto relevante : o sistema financeiro dos EUA e das principais economias mundiais necessitam de medidas salvadoras, mas dificilmente serão um fator de alavancagem do crescimento no curto e (talvez) no médio prazo. Portanto, estamos a torcer por um "resgate" necessário, mas não suficiente para forjar o crescimento econômico. Atualização da crise II Há uma crise de confiança geral originada no sistema financeiro, mas alastrada de modo geral. O desemprego galopante, o cancelamento generalizado de investimentos e a retração sistemática do consumo e crédito criam uma espiral que precisaria ser rompida pelos investimentos do setor público. Todavia, isto não é possível ser feito com a rapidez necessária por muitos motivos, mas vale destacar três : (i) há os naturais obstáculos políticos para implementar novos gastos públicos, vide o caso dos EUA onde Obama, apesar da popularidade, tem algumas barreiras substantivas ; (ii) os recursos do setor público são demandados por todos os lados, mas os setores mais organizados (empresas, bancos, etc.) têm maior poder de pressão e devem ser os mais beneficiados. Todavia, são estes os setores menos propensos a gastar e fazer a economia crescer e (iii) o sistema capitalista por definição é não-cooperativo, o que dificulta um "concerto" entre empresas, empregados, governo e países que dê rapidez à solução da crise. Cada um tenta salvar o seu. O fato novo é o protecionismo Gordon Brown, o impopular, mas competente primeiro-ministro inglês, falou no risco da "desglobalização". Ou seja, na perspectiva concreta e nefasta de que se espalhem pelo mundo medidas protecionistas que fechem mercados com o objetivo de protegê-los. Ora, isto seria muito bom se valesse para um ou outro país. Quando todos os países adotam o mesmo comportamento o resultado pode ser desastroso. Reduz-se a demanda global, surgem movimentos perigosos entre as moedas (desvalorizações competitivas), diminui-se a eficiência na alocação de recursos e por aí vai. Há muitos pensando, analisando e protestando contra esta concreta possibilidade. Note-se, por exemplo, a reunião desta semana na OMC para tentar evitar os primeiros passos protecionistas das principais economias mundiais. Isto apenas duas semanas depois da mesma organização alardear que o "protecionismo estava sob controle". O fato é : não está e o que ora vemos é apenas um pequenino aviso do que pode vir. Um novo abismo não está descartado. Infelizmente. Primeiros passos de Obama Sejamos muito objetivos e deixemos de lado os aspectos ideológicos em relação a Obama. É relativamente fácil fechar a prisão de Guantánamo, impor medidas disciplinadoras a Wall Street ou igualar direitos civis e econômicos entre homens e mulheres frente ao tamanho da crise mundial. Embora os aspectos ideológicos não sejam tão desprezíveis - afinal, estes tratam do que as sociedades desejam em relação ao futuro - o fato é que quase todos concordam que sem o músculo vigoroso do Estado não há solução mínima para a crise. Os primeiros passos de Obama nos parecem óbvios, mas no momento nada melhor do que o óbvio. E diga-se : o óbvio deve ser feito logo, o impossível deve demorar pouco. Afinal, os americanos já perderam 3,6 milhões de empregos (7,6% da população ativa) desde que a crise começou e a recessão (já) é comparável àquela dos anos 70. Por fim, Obama afirmou na semana passada que os eleitores "não votaram por falsas teorias do passado". Parece certo que os eleitores desejam mudanças, mas vamos deixar claro uma coisa : mudar hoje significa voltar ao passado e adotar na prática aquilo que Keynes escreveu há mais de 70 anos. A base da pirâmide O fato político mais relevante e inegável é que Lula tem mais de 80% de apoio da população, mesmo depois da crise. O que será do futuro, deixamos para analisar em outras notas. Todavia, não é nada ruim que um presidente esteja forte quando o país precisa dele - gostemos do presidente ou não. Como sabemos, o diabo mora nos detalhes. É neste ponto que residem as nossas maiores preocupações. Se em países ricos, os setores mais organizados da sociedade conseguem mais apoio do governo neste momento de crise, no Brasil este ponto é ainda mais notório. Certos setores e grupos econômicos estão recebendo muito apoio governamental para seguir em frente. A título de ilustração citamos a liberação de US$ 36 bilhões das reservas para apoiar empresas com dívidas no exterior e os milionários aportes de recursos do BNDES. Mas cabe perguntar sem nenhum populismo : e o povão que está com medo do desemprego, que vive o subemprego ou que já está desempregado ? Não seria esta vasta multidão que deveria receber estímulo ao consumo e a tomada de iniciativas que reduzam o risco da recessão ? O sistema financeiro brasileiro está muito sadio frente ao mundo. Isto é fato. E as empresas estão carecendo de consumo. O governo deveria adotar medidas da base da pirâmide para cima. Não é isto que vemos. Ou é ? Uma oportunidade histórica para o Brasil Dentre muitas características a Política, com "p" maiúsculo, depende muito da percepção do momento histórico do Político. Isto mesmo! Com "p" maiúsculo. Veja a atual crise. Imensa, séria e importante. De outro lado, analisado o cenário dos emergentes... Vejamos. Nenhum deles tem a oportunidade histórica que o Brasil tem. Somos um país relativamente fechado o que não nos deve remeter a necessidades de medidas protecionistas adicionais. Não quebramos em nenhum setor, sobretudo o financeiro no qual a saúde de nossos bancos deveria ser motivo de orgulho nacional quando retratado o que ocorreu no mundo. Não temos uma população excessivamente endividada e nem uma dependência externa premente. Não somos uma ditadura. Nem a China, nem a Rússia e nem a Índia têm a oportunidade de alavancar investimentos no curto prazo. Para isto, basta que o Brasil cresça, mesmo que a taxas bem mais baixas e de forma equilibrada em termos de inflação, finanças públicas e regulação. Falta-nos um plano arrojado para alcançar isto e liderança que perceba o momento e arregimente as forças para torná-lo realidade. Note-se que arrojo não é irresponsabilidade. É coragem para mudar. Sem valentias. Procura-se Quem tiver notícias da oposição brasileira, de suas idéias e propostas para ajudar a combater a "marolinha", por favor, avise a esta coluna em particular e aos brasileiros de um modo geral. Dela se sabe mesmo é que Serra deu um golpe de mestre em Aécio Neves nomeando Alckmin como secretário do Desenvolvimento de SP. E que Aécio deu um golpe de mestre em Serra ajudando a eleger o candidato a candidato ao governo de SP, José Aníbal líder do PSDB na Câmara. Todo o resto é um mistério. Procura-se - 2 Rogam-se também informações a respeito do maior partido político do Brasil e de seu receituário para combater a crise econômica e financeira. Quem souber qualquer coisa sobre as posições do PMDB ganha fotografias autografadas dos principais líderes da legenda na Câmara e no Senado - José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho e Michel Temer. Dispensa-se o "Bolsa-Geladeira", criação do luminar ministro peemedebista das Minas e Energia Edison Lobão. Procura-se - 3 Talvez já tenha passado da hora de aparecer nos portões do Palácio do Planalto uma placa de "Procura-se um coordenador". Antes que episódios como o do controle das importações e a eterna discussão sobre o pacote imobiliário se tornem rotina. Afinal, o primeiro-coordenador necessita manter o auditório animado. E a coordenadora-adjunta, a ministra Dilma Roussef, está carregada de compromissos eleitorais e estéticos e não tem tempo para se dedicar as estas questões menos transcendentes em Brasília. A política monetária do Brasil e o (desconhecido) Spread Como afirmamos em colunas passadas o maior risco atual é a redução da atividade econômica cuja magnitude está sendo definida nos países ricos do norte. Há muito a ser feito por aqui, inclusive reduzir a taxa de juros básica e o spread bancário para amainar a recessão. Esta coluna mantém a sua posição pró-redução da taxa de juros básica de forma que o BC brasileiro nos parece atrasado neste processo em função da forte redução da demanda (atual e prospectiva). Uma nova redução de 1% na taxa básica é provável na próxima reunião do COPOM. Já na questão do spread bancário a discussão parece mais um quadro de Marcel Duchamp : oscila entre altas doses dadaístas e manifestos surrealistas. Expliquemos : o lado dadaísta se deve à defesa apaixonada do tema com variações de irracionalidade consideráveis. Afinal, todos reclamam ou justificam, mas não explicam. O lado surrealista diz respeito ao resultado das defesas de ponto de vista : a realidade passa a ser conhecida mais pela sua distorção (o fato do spread ser alto mesmo) do que pela sua justificativa racional (o porquê do spread ser alto). Destaque-se que, neste cenário, setores governamentais ao atacar o spread elevado acabam por tropeçar nas próprias palavras ao verificar que os bancos oficiais têm spreads tão ou mais elevados que os seus pares privados. A verdade - onde estará ? - acaba obscurecida. Sem rumo Há algum tempo o governo ameaça o céu, a terra e o inferno por causa dos spreads cobrados pelos bancos de seus clientes, pelos bancos oficiais e pelos bancos privados, sem muita distinção. Pelo que diziam as autoridades, parecia uma questão de vontade, por isso o BC passou divulgar as taxas bancárias para forçar as instituições a competirem entre si. Não é bem isso, descobre-se. Em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", o ministro da Fazenda Guido Mantega informou que "o plano antispread apenas ficará pronto depois que a Fazenda e o BC terminarem os estudos sobre as causas das altas de juros no país", segundo os jornalistas Guilherme Barros e Vinicius Torres Freire. Então, o governo não sabe as razões dos juros altos e ainda assim andou prometendo que eles cairão ? É grave, gravíssimo. E o superávit primário ? Na mesma entrevista, outra revelação preocupante do ministro da Fazenda : na realidade, o governo ainda não tem meta para o superávit primário de 2009. Somente terá "uma dimensão" desse número em meados do ano, depois de uma definição do cenário mundial. Ora, o superávit de 3,8% inscrito no Orçamento sancionado pelo presidente da República é apenas uma ficção ? Pelo que se pode depreender dessa declaração, o governo não vai fazer força para cortar despesas correntes e de custeio para economizar e diminuir a conta dos juros.   Sonhadores e perdidos O índice que mensura os preços do setor imobiliário inglês (o Halifax House Price Índex) subiu 1,9% em janeiro comparativamente a dezembro em meio a toda a crise mundial. Surpresa total. Alguns analistas do mercado inglês, um dos mais assolados pela recessão, vêem sinais de estabilização. Outros, apenas um "ruído" estatístico. De nossa parte, aos primeiros chamamos de sonhadores. Quanto aos outros, chamamos de perdidos. Vale dizer que tal índice caiu 17,2% em comparação ao mesmo período do ano passado. O FMI seria engraçado... ...se não fosse trágico. Diz o FMI : "Ações políticas para solucionar a crise financeira têm sido abrangentes, mas não alcançaram um reinício." Pois bem : o organismo multilateral divulgou na semana passada um extenso relatório sobre a crise, um longo blablablá que não aponta nada de novo no cenário, nem o que seria necessário e nem uma visão sobre o que seria um "reinício". É desta forma que o FMI continua a ser o organismo mais inútil para prevenir e solucionar crises. Quando admoestavam os países mais pobres os burocratas da instituição se comportavam como profetas. A derrocada dos países centrais nunca foi prenunciada por aqueles profetas. Mercado financeiro : cinco razões para não aumentar o risco Continuamos recomendando cautela em relação à aquisição de ativos de risco, sobretudo ações. De maneira sucinta e didática esta recomendação se deve aos seguintes fatores : 1) Os informes financeiros anuais e do último trimestre do ano das empresas aqui e lá fora mostraram que os riscos financeiros (condições de financiamento) devem continuar aumentando ainda neste semestre e os resultados ainda devem ser cadentes; 2) Considerando o item acima, os preços dos ativos devem continuar caindo e, nesta conjuntura, os investidores continuam nervosos (mercado volátil) quando os ativos possuídos se depreciam; 3) Uma estratégia de "compra contínua", ou seja, aumenta-se a posição na medida em que os preços caem, é muito incerta, pois o processo de queda (ou a percepção dele) ainda pode ser substancial; 4) Os investidores, além das preocupações com o mercado, têm outra maior : a estabilidade da própria renda. Pode-se ter prejuízo no próprio negócio ou perder o emprego. Como definir um padrão de risco aceitável diante de uma dúvida tão grande ? 5) Considerando o item acima, um conselho : não torne a redução de sua liquidez uma arma. A vítima pode ser você. O coração do PMDB O governo, a oposição e os próprios PMDBs (aqueles dois, com suas inúmeras facções) estão pondo a imaginação para funcionar para tentar descobrir o que vai no coração do partido agora que a legenda tornou-se, sem sombra de dúvida, a maior força política da micropolítica nacional. Quem sabe das coisas nesse universo da política dos políticos (não necessariamente a política dos brasileiros) define os dois anos de amores peemedebistas com o verso de um samba de Paulinho da Viola, que começa, sintomaticamente, com "Trama em segredo teus planos" e fecha com: "... coração leviano, que nunca será de ninguém." Desculpem, será sim, em 2011 ! Daquele que subir a rampa do Palácio do Planalto. Até lá, o PMDB desfila seu "charme" em várias direções, sem trocar alianças de noivado com ninguém :1) Tem pendores lulistas e dilmistas ; 2) Tem olhares serristas ; 3) Tem acenos aecistas, com um Aécio (eventualmente) convertido ao peemedebismo. E para não deixar alguém acreditando que secretamente já é dono do seu coração, o PMDB também tem amores pelo PMDB com um peemedebista a encabeçar a chapa de 2010. As recompensas Tanto o governo quanto a oposição acham que poderão conquistar o PMDB oferecendo ao partido, além da maior probabilidade de vitória, a vice-presidência da República. Não comovem. O vice é um cargo honorífico, no jogo que interessa ao PMDB, vale menos que uma gerência estratégica do BB. A vitória eleitoral não tem significado. As raposas - quase escrevemos no lugar o nome de um peixe que não pode ver sangue - peemedebistas sabem que qualquer que venha a ser o vencedor em 2010 eles serão chamados para compartilhar prioritariamente o condomínio do poder em 2011. Eles querem é espaço que lhes permita fazer "política" e manter suas estruturas nos legislativos, nas prefeituras e nos governos estaduais. E com cargos e verbas que o PMDB elege deputados, governadores, vereadores e prefeitos e exerce a influência que tem exercido nos últimos 20 anos na política nacional. E o partido já começou a dar os seus recados. Matéria da bem informada repórter Christiane Samarco no "Estadão" de domingo informava, por exemplo, que o partido quer de seu parceiro presidencial nada menos que o compromisso de entregar-lhe a chefia da Casa Civil, o ministério dos ministérios, o gerente da máquina federal. Não quer pouco. As recompensas - 2 O PMDB vai exigir também apoio a seus candidatos a governador nos Estados em que o partido já governa e naqueles em que, a seu juízo, têm candidatos com chances reais de ir para o segundo turno e de vitória. São as chapas estaduais, mais do que as chapas federais, que puxam votos para deputados federais, deputados estaduais e senadores. E os governadores têm os empregos úteis na hora das disputas municipais. Quem souber dividir mais pode ter mais simpatias do PMDB. E, nesse caso, Lula vai ter de cobrar alguns tributos a mais do sacrificado PT. Ninguém se iluda, porém, nem um nem outro levarão o PMDB inteiro. O PMDB sabe como poucos pegar o melhor de cada lado. Bicadas tucanas Lula tem tido lá suas agruras com o PT. Mas não tem tanto do que se queixar: Serra e Aécio têm feito de tudo para trucidar o PSDB e a aliança com o DEM. Vaidade e ambição demais podem matar. Se a carruagem tucana for nesse ritmo, Dilma Roussef já pode encomendar o terninho e a maquiagem da posse. Começou tudo errado Os presidentes - ia escrever também "novos", mas, seguramente, não é o caso, nem em tempo de política, nem em conceitos - da Câmara, Michel Temer, e do Senado, José Sarney, em sua primeira visita oficial ao Palácio do Planalto queixaram-se ao presidente da República do excesso de MPs com que Lula atulha o Congresso e acaba determinando a agenda legislativa. O discurso de Sarney e Temer é o de retomar a autonomia do Legislativo, hoje um poder de segunda categoria em relação ao Executivo e ao Judiciário. Por esse lado, começaram muito mal. Não têm de fazer queixas, comunicados ou alertas. Devem agir como determina a Constituição. No caso das MPs, o "livrinho" determina que estas só podem ser editadas em caso de urgência e relevância. Bastava analisar se elas têm estes requisitos e, caso contrário, recusá-las. Simples, não ? Quando se precisa fazer jogo de cena, fazer discursos pomposos, dar declarações bombásticas e, depois, ir buscar a anuência do presidente, não é para valer. O pior, segundo as notícias dos encontros, é que o presidente concorda com tudo. Concorda - como sempre concordou, principalmente quando era oposição - mas continua editando MPs a respeito de tudo e de nada. Mais de nada. Troca de guarda Foi isso que ocorreu na Câmara e no Senado na semana passada (troca de guarda). Simplesmente e nada mais. Classificar as mudanças nas duas casas de "renovação" chamar suas mesas diretoras de "novas" é licença poética apenas. Não há risco de melhorar. Já de piorar... Reforma tributária Frase do deputado Darcísio Perondi, do PMDB/RS, ou seja, de um PMDB que ainda guarda algumas fumaças do velho MDB, sobre a reforma tributária : "Eles não estão preocupados com as pessoas. Estão trabalhando para os Tesouros". Sadia : saída via mercado ? O presidente executivo da Sadia, o ex-ministro Luiz Fernando Furlan, informou que o "controle acionário da Sadia não está à venda, mas que, se esta for a saída, não há nenhuma 'restrição cultural' a tal transferência". Ou seja, intrinsecamente admite que a Sadia pode não ficar com o controle atual. Tudo isto se deve à necessidade de injeção de capital após os prejuízos que implicarão em algo ao redor de R$ 1,7 bilhão de recursos ao longo deste ano para cobrir os prejuízos financeiros com as operações cambiais contratadas antes da crise. O BNDES deve participar da operação de saneamento juntamente com outros fundos de Private Equity. Resta saber se o exato papel que o banco de fomento do Brasil terá em tudo isto. Será que podemos ter outra operação semelhante a do Grupo Votorantim na qual recursos públicos são utilizados para que "as coisas mudem para que tudo continue igual" ? Ou será que as condições serão mais duras e condicionadas ? Renault e PSA Peugeot Citröen : as exigências O governo francês emprestará 3 bilhões de Euros (US$ 3,9 bilhões) para as montadoras francesas. Trata-se de uma parte da ajuda governamental para o setor automotivo que pode alcançar algo em torno de 6 bilhões de Euros. Para receber os recursos as montadoras não poderão dispensar trabalhadores e nem fechar fábricas no país. Além disso, as empresas terão de cortar bônus dos principais executivos e os dividendos para os acionistas. Dois aspectos a observar : (1) o governo francês subordina a concessão de recursos públicos a compromissos públicos das empresas privadas envolvendo empregos e fábricas. (2) Trata-se de um sinal inequívoco de protecionismo : pode fechar fábricas ao redor do mundo, mas não na França. E no Brasil ? As exigências requeridas pelo governo nas suas operações com o setor privado atendem aos interesses públicos ?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 38

Terça-feira, 3 de fevereiro de 2009 - nº 38 Lula apostou no PMDB Pelos resultados folgados alcançados pelos peemedebistas Sarney e Teme, pode-se afirmar, com segurança, que, apesar das cirandas e dos tiros em "folha-seca", Lula apostou suas fichas mesmo foi no PMDB. Se alguém foi traído nas disputas pelas presidências da Câmara e do Senado, como se imagina que poderia ocorrer quando a luta nas duas casas ficou acirrada, foi o senador Tião Viana e o deputado Aldo Rebelo. Não faltou o velho pragmatismo, com pitadas ideológicas e políticas de ocasião, que sempre marcou a trajetória política de Lula desde os tempos de líder sindical. Tião Viana e Aldo e seus adeptos são disciplinados, acomodam-se. Duro seria ter o PMDB magoado, como o grupo da dupla Sarney-Renan ou com a turma de Michel Temer. Obviamente, terá o presidente de administrar as insatisfações do PT, que teve definitivamente comprovada a desconfiança de que não é mais o principal comensal do banquete do poder. Os melhores pratos serão oferecidos ao PMDB em primeiro lugar. A dúvida é saber se o PMDB não mudará de refeitório quando chegar a hora decisiva em 2010. Sobre isso vai falar mais o comportamento da economia do que os atrativos de Lula ou da oposição. Por enquanto, tão pragmático quanto Lula, o PMDB quer usufruir as vantagens que sua força política lhe dá. Com um olhar em Lula e outro na oposição. Olho grande A pergunta que se fazia em Brasília, depois da "lavada" que o PMDB deu em seus adversários era : e se o bichinho agora morder os peemedebistas ? Aquele da mosca azul. Força no Congresso, nos Estados e nas prefeituras o partido tem, ninguém tem mais do que ele. Ninguém como o PMDB está tão disseminado pelo país inteiro. Por que iria ele resignar-se a um papel secundário em 2010 ? Por que não sair no primeiro turno com um candidato próprio ? Há peemedebistas com essas caraminholas já na cabeça. O nome não seria o problema Para os que, tanto no governo quanto na oposição, não acreditam que o PMDB arrisque-se numa aventura dessas, os principais argumentos são de que (i) o partido não tem um nome forte e não teria condições de elaborar um até o fim de 2009 ; (ii) o PMDB é uma federação de interesses nunca se uniria para o lance que tem seus riscos. Não apostem totalmente nessas objeções : (i) o nome de Aécio está aí, cada vez mais um candidato em busca de uma legenda ; Aécio não embarcou no lance de Serra na candidatura de Tião Viana do PT no Senado ; (ii) o PMDB não perde nada entrando na luta pelo Planalto no primeiro turno : não há governo que possa prescindir dele depois de eleito. Até o momento de uma decisão, o PMDB vai fazer o jogo que mais gosta : não criar muitas dificuldades para o governo no Congresso, mas também não cortejar Lula automaticamente ; adorará Dilma, flertará descaradamente com Serra e fará charminhos nada discretos para Aécio. Ou seja, não vai assumir nenhum compromisso de noivado antes do tempo. As razões de Sarney São insondáveis ainda, para governistas e oposicionistas, os motivos que levaram Sarney, do alto de seus 78 anos, depois de ter negado quase sob juramento não ter a menor intenção, o menor desejo de entrar na disputa, a mergulhar de corpo e alma. Desde que deixou a presidência da República Sarney passou a considerar-se acima do bem e do mal, um ente superior às nossas mesquinhas mumunhas políticas. Não competia, buscava a aclamação. Foi assim quando chegou pela segunda vez à presidência do Senado (a primeira foi no tempo dos militares, pelo partido do governo). E também quando anunciou que corria e depois desistiu quando não conseguiu o tal consenso. Até a opção pelo Senado pelo Amapá em detrimento do seu amado Maranhão teve como mote evitar qualquer ameaça de um fracasso. Por que agora foi para a luta, sabendo que corria riscos ? O que ele corria ficou estampado na tensão que suas faces exibiam na televisão na segunda-feira durante o processo de apuração dos votos de seus colegas. Uma das explicações é a de que o ex-presidente da República precisa do poder federal para manter os espaços políticos e econômicos de seu clã no Maranhão. A outra é a de que ele precisa de força para conter os avanços da PF nos negócios comandados por seu filho Fernando. É muito pouco para tanto sacrifício. Tanto governistas quanto oposicionistas estão intrigados com os propósitos de Sarney. Muy amigo Sarney será um fiel aliado de Lula no comando do Congresso. Trará até menos problemas para o presidente do que poderia trazer o companheiro Tião Viana, que teria de dar algumas mostras de independência, de autonomia, para conquistar as simpatias da oposição. Com Sarney não tem nada disso, ele é imperial quando comanda. E tem a vantagem adicional de detestar o governador Serra, ainda mais depois que Serra levou o PSDB para os braços de Tião Viana. Mas Sarney não será um anjo da guarda para Lula de graça. Homem afável, educado, bom conversador, como animal político é um azougue. Der. Jekill e Mr. Hyde. Cálice Uma parte do PT é um pote assim de mágoas com o presidente Lula em função do desfecho da sucessão na Câmara e no Senado. Petistas não se conformam com a "submissão" do Planalto aos interesses políticos e outros tais do PMDB. A duras penas o PT está descobrindo a diferença entre petismo e lulismo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa como diria o deputado José Genoino. Porém, o partido nada pode fazer nas atuais circunstâncias, a não ser aceitar a situação, enquadrar-se como puder e "tocar um tango argentino" como no poema "Pneumotórax" de Manuel Bandeira. De mestres e golpes Após o (assim classificado por seus adeptos) golpe de mestre em Aécio na disputa pela vaga de candidato do PSDB à sucessão de Lula, com a entrega de uma Secretaria ao adversário-quase desafeto Alckmin, Serra levou seu partido a optar, contra certa lógica política, pelo candidato do PT à presidência do Senado. O DEM estava do outro lado. Mas, segundo certos experts em política, o jogo serviria para espalhar a cizânia nas tropas governistas. O tiro não foi certeiro. Aécio, mineiramente, ficou do outro lado. Leitura recomendada em Brasília De uma reportagem da revista alemã "Der Spiegel", útil para autoridades que estão abrindo as burras oficiais sem olhar atentamente as contas públicas : "Os pacotes de resgate que visam escorar os mercados financeiros na Europa estão ficando cada vez mais caros. Uma preocupante depreciação da moeda é inevitável e falências de Estados não podem mais ser descartadas. Poderia a zona do euro também cair vítima da crise financeira global ? 'Há um rumor circulando de que os Estados não podem falir', disse recentemente a chanceler alemã, Angela Merkel, em um evento de um banco privado em Frankfurt. 'Este rumor não é verdadeiro.' É claro que ela está certa. Os países podem falir se permitirem que seus gastos deficitários saiam do controle e não puderem mais arcar com o serviço de suas dívidas. Os comentários de Merkel podem ser interpretados como um alerta de que os países precisam manter seus déficits sob controle. A mensagem é : se os governos forem longe demais na tentativa de resgatar as empresas e a economia, eles próprios poderão enfrentar uma insolvência." Cuidado com os sofismas A propósito da nota acima, desconfiem daquelas autoridades e economistas oficiais que dizem que quem cobra cortes no Orçamento federal está na contra-mão do receituário mundial para o combate à crise, que preconiza mais gastos públicos. Estão, propositalmente, confundindo bugalhos com alhos. Mais gastos públicos, sim. Mas em investimentos produtivos e não em custeio da máquina administrativa. Infelizmente, é o que está ocorrendo por aqui. No suspensão preventiva de gastos previstos no Orçamento de 2009, de R$ 32,9 bilhões, anunciados na semana passada pelo ministro Paulo Bernardo, o maior corte proporcional se deu nas verbas para investimentos. A novela do spread Há mais de dois meses, a ministra de todos os ministros e candidata à sucessão do presidente Lula, Dilma Roussef, anunciou solenemente que Lula havia ordenado aos presidentes do BB e da CEF a reduzirem suas taxas finais de juros, para forçar os bancos privados a fazerem o mesmo diante de concorrência. Posteriormente, descobriu-se que o BB havia sido uma das instituições financeiras que mais aumentaram o custo do dinheiro que emprestam aos seus clientes. Tivemos então uma reunião entre Lula e os dirigentes dos bancos oficiais para discutir os problemas. E, segundo fontes não identificadas, mas muito bem informadas, Lula teria passado uma carraspana em seus subordinados e exigido providência imediatas. Mais de 15 dias se passaram desde esta última bronca oficial e neste fim de semana ficamos sabendo que os bancos oficiais terão até o dia 13 para reduzirem os juros e os spreads de seus empréstimos. Já é o caso de se perguntar : quem está enganando quem nesta história ? Será que já não passou da hora de discutirmos a questão mais tecnicamente e menos politicamente ? Capitalismo tupiniquim A Anac determinou a liberdade de preços das passagens aéreas entre o Brasil e o Exterior. Sem pisos e sem tetos. As companhias estrangeiras que operam aqui, com a queda do número de passageiros, querem fazer ofertas de viagens mais em conta. As companhias nacionais Tam e Gol são contra e conseguiram uma liminar na justiça para suspender as normas da Anac. Nada como viver num país em que o consumidor é levado em conta, em que as autoridades responsáveis pela concorrência não veem (pelo menos não se movem) nenhum problema no duopólio que se instalou no setor aéreo nacional e no qual o ministro da Fazenda (caso Votorantim-Banco do Brasil) e o ministro das Comunicações (caso BrOi) acham que a concentração nesses setores amplia a competição. E as PPPs ? Que fim levaram as PPPs nas quais o governo apostava para ampliar os investimentos em infra-estrutura no país ? Se elas eram úteis antes, mais úteis ainda serão nos pacotes anti-crise. Mas estamos falando das verdadeiras PPPs e não das Parcerias Público Privadas "especiais", tais como as estabelecidas entre o Banco do Brasil e famílias Ermírio de Morais (com suporte também do BNDES) e entre o BNDES e os empresários Carlos Jereissati e Sérgio Andrade na BrOi. Esporte radical Há algumas modalidades esportivas que são praticadas apenas em Brasília. Pelo menos competitivamente e com alto grau de performance. Uma delas, com maior número de adeptos graduados, é a de "transferência de responsabilidade". O que é bom e certo foi feito por mim. O que é ruim e errado é coisa de outros. O dia que tal modalidade virar esporte olímpico, seremos imbatíveis. Semana passada tivemos uma grande competição desse esporte na capital da República. O "erro monumental" (classificação do presidente da República) de passar a exigir licença prévia para a importação de cerca de 60% (3 mil produtos) da pauta brasileira foi atribuído a funcionários do segundo escalão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A revogação da "trapalhada" se deu por obra e graça do presidente Lula, com orientação técnica do Ministério da Fazenda. Está bom assim. Vamos deixar aceitar que uma medida tão delicada, de tal alcance, explosiva, veio de um subalterno de um ministério, quando o ministro titular estava viajando. Da próxima vez pode sobrar para o mordomo.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 37

Terça-feira, 27 de janeiro de 2009 - nº 37 A crise é ainda mais grave I Há notícias novas no front econômico, financeiro e corporativo que indicam que a gravidade da crise internacional é ainda maior do que se avaliava há pouco mais de um mês ! Nestas últimas semanas, tivemos a divulgação de dados que nos levam a concluir que a possibilidade de uma recessão ainda mais prolongada está se tornando preponderante no que diz respeito às previsões. Citemos alguns indicadores apenas para ilustrar este nosso alerta : - O PIB do Reino Unido caiu 1,5% no quarto trimestre do ano passado em comparação ao trimestre imediatamente anterior. A queda em relação ao mesmo período de 2007 foi de 1,8%. É a primeira recessão do país desde 1991. - O desemprego está atingindo níveis assustadores em todos os países centrais : nos EUA, deve chegar ao redor de 9% em meados deste ano, na Europa as demissões em termos absolutos são as maiores desde a década dos 80 - na Espanha o desemprego atingiu 13,9% da força de trabalho. - Nos EUA, o ritmo do setor de construção civil é o mais baixo de toda a história do indicador que começou a ser apurado em 1959. As demissões de trabalhadores deste setor - que puxou o crescimento do emprego na última década - é generalizada e assustadora. - Na Ásia, Japão e China, especialmente, não há ainda medidas para estabilizar a recessão. Ao contrário, a política adotada é cautelosa enquanto o transatlântico da recessão se aproxima velozmente. O crescimento chinês, que gravitava ao redor de 10%, já está em torno de 6%, conforme dados do último trimestre do ano. A crise é ainda mais grave II Há outro aspecto que mesmo sendo conhecido não se imaginava fosse tão grave. Trata-se do sistema financeiro internacional. Nos EUA, discute-se abertamente a nacionalização dos principais bancos do país. Há uma enorme insuficiência de capital e a quase totalidade da primeira tranche dos recursos aportados pelo governo norte-americano (US$ 350 bilhões) no âmbito do TARP (Troubled Assets Relief Program), o programa de salvação dos bancos do país, foram entesourados. Os bancos simplesmente os utilizaram para cobrir perdas tentando mostrar um balanço anual um pouco melhor. A divulgação dos informes financeiros de 2008 mostraram que, a despeito da gestão defensiva dos banqueiros com o dinheiro público do TARP, as instituições financeiras estão quebradas e talvez muitas delas não possam prosseguir suas operações neste ano. Pode haver uma nacionalização formal ou branca (via formação de um fundo para sustentar o sistema financeiro). Tudo está nas mãos do novo governo. Obama : discurso vazio nos temas econômicos Sob muitos aspectos o discurso de inauguração da gestão do 44º presidente norte-americano foi marcado por sinais evidentes de mudança. Sabidamente, houve recados explícitos em relação (i) ao papel de liderança dos EUA nas matérias mais importantes das relações internacionais, (ii) no que se refere aos direitos civis e humanos (ressalte-se a postura em relação à tortura) e (iii) na ênfase à reconstrução do sonho americano, um tema ideologicamente relevante para a formação das expectativas sociais e políticas. Ocorre que nos temas econômicos Barack Obama não foi apenas cauteloso. Em muitos aspectos foi omisso. Ora, não se deve esperar muito detalhamento a partir da fala inaugural de um novo presidente. Todavia, afora as poucas referências de Obama em relação "a responsabilidade da hora", a "mudança de modelos", etc. a verdade é que o novo presidente americano deixou tudo para ser divulgado nas "próximas semanas". Isto pode custar muito caro. A cada dia, a deterioração do sistema financeiro e econômico se expande e o conserto está se tornando cada vez mais difícil. Note-se que Obama terá de obter apoio substancial junto a sua base política no Congresso, bem como junto aos republicanos que, mesmo tendo amainado seu discurso não-intervencionista em relação aos temas econômicos, podem ser uma fonte de atrasos na implementação de um plano consistente de resgate da principal economia mundial. Obama chega como um grande novidade. Na área econômica nada de novo consta. Rebaixamento da nota de crédito : primeiros sinais Três países europeus (Grécia, Portugal e Espanha) que operam com a moeda forte do Euro tiveram suas notas de crédito reavaliadas pela Standard & Poor's. Esta reclassificação de crédito é emblemática e é provável que a partir de agora as empresas de rating comecem a mostrar a deterioração do crédito não apenas soberano (países), mas corporativos. Isto deve propiciar ainda mais medo entre as partes nas transações financeiras e comerciais. Neste campo, não podemos subestimar nenhuma possibilidade em relação ao Brasil : apesar de termos alcançado o grau de investimento há pouco tempo, é possível que o agravamento da crise externa leve a uma reavaliação do nosso crédito nos próximos meses, bem como o de muitas empresas e instituições financeiras. Essa possibilidade depende da capacidade do país (e do governo) em gerenciar a crise, mas também é parte do processo endógeno da crise internacional. Brasil : a crise ainda não chegou O título desta nota pode parecer exagerado. Não é. O que queremos dizer é que estando a crise lá fora ainda mais grave que há poucas semanas, na economia brasileira ainda não está refletido todo o impacto da verdadeira tragédia no mercado internacional. Em termos relativos, a economia brasileira está "atrasada" em relação ao que ocorre lá fora, sobretudo no que se refere à queda da atividade econômica (com destaque ao desemprego), à restrição de crédito externo e do investimento externo. O Brasil vai piorar mais que o mercado internacional. Novamente : em termos relativos. Nos próximos meses, a dinâmica de aumento do desemprego, redução de consumo e produção e deterioração do crédito será muito negativa. O Brasil é um país relativamente fechado quando comparado a muitos de seus pares emergentes. Todavia, a crise lá fora foi "anunciada" pela brutal especulação dos últimos anos. Porém, os seus impactos não eram previstos como sendo tão desastrosos. O Brasil será uma vítima relativamente inocente deste processo, mas será fortemente impactado a despeito do discurso oficial de muitos líderes políticos e empresariais. A política, o medo do Planalto Se a situação interna se deteriorar muito, principalmente pela via do desemprego, ela pode afetar o projeto político do presidente Lula de fazer de Dilma Roussef sua sucessora. Lula sabe que o maior eleitor de Dilma é ele, sua popularidade e a bonança econômica. Sem estes pilares, a candidatura Dilma não fica de pé. Mas até agora o presidente não parece trabalhar com um plano B. Até porque não há ninguém de peso na seara governista se sobressaindo. Ciro Gomes seria uma opção, porém não entusiasma o lulismo. Aécio, rompido com o PSDB e acolhido pelo PMDB, é ainda um sonho. Por isso, a ordem oficial é fazer tudo para segurar a economia este ano e no próximo. Até jogar as contas mais pesadas para depois de 2010. O governo vai investir, vai gastar. O BNDES é a ponta-de-lança dessa estratégia. Não só ele, porém : a Petrobrás, o BB, a CEF, as estatais de um modo geral. Os gestos econômicos estão fortemente condicionados pela política. E isto é uma temeridade. E o Congresso? Não há possibilidade de Câmara e Senado entrarem para valer no debate econômico e contribuírem com soluções criativas e com conselhos para colocar um pouco o governo de cara com a realidade. A preocupação por lá também é eleitoral - imediatamente a eleição para a presidência das duas casas ; no médio prazo, as eleições de 2010. Por esse lado, não se deve esperar nada em matéria de contenção dos gastos correntes no Orçamento federal para sobrar dinheiro nos investimentos em infra-estrutura, uma das receita para amenizar os efeitos da crise. O Congresso é caudatário do Palácio do Planalto. Os partidos governistas não dão nem bom dia sem anuência de Lula. E a oposição está desarvorada. Nosso sistema político não está preparado para enfrentar os desafios que a economia está apontando. Pode ser, inclusive, um fator de complicação. Lula e os fóruns Quando era apenas um candidato à presidência da República, o político Luís Inácio Lula da Silva era presença certa nas reuniões do Fórum Social Mundial, então sediados em Porto Alegre. Foi um dos seus palcos. Desprezava o encontro dos ricos em Davos. Eleito, Lula, sabiamente, resolveu dividir-se entre os dois. Aos poucos, porém, foi preferindo os salões suíços, onde era recebido como estrela. Nesse período, o FSM foi se esvaziando, saiu do Brasil, perambulou por outras plagas. Este ano retorna ao país, sediado em Belém, da prefeitura petista de Ana Lúlia Carepa. Terá ajuda de recursos federais, estaduais e municipais. E Lula vai prestigiá-lo, levando ministros, entre eles a favorita Dilma. Uma volta às origens. Diante de uma crise que pode afetar suas bases sociais com aumento do desemprego e a redução da renda das famílias, Lula volta a cortejar antigos parceiros. E com um discurso pelo social e pela esquerda. Mercado financeiro : mudamos de opinião A relação risco versus retorno do mercado financeiro local e externo indica que nada está favorável ao investimento em ativos de risco, sejam de crédito, sejam de investimento. Destacadamente, em nossa opinião o mercado acionário terá mais uma rodada negativa nas próximas semanas e, talvez, meses. Os resultados das empresas deverá ser pior que o que até agora está refletido nas projeções dos analistas e investidores. O maior risco está no mercado cambial, pois é dele que podem surgir as maiores pressões inflacionárias, caso os fluxos externos se tornem ainda mais escassos. Alta do câmbio implica necessidade de alta dos juros para conter a elevação dos preços domésticos. Tudo isto em meio a uma recessão que se aproxima. Acreditávamos num janeiro mais tranquilo e esperançoso. O que vimos em termos de indicadores e notícias no mercado internacional (e doméstico) nos tornaram mais pessimistas em relação ao médio (seis meses à frente) e longo prazo (de doze a dezoito meses). Não há luz ao final do túnel. Infelizmente. A decisão do COPOM Na semana passada, chamamos a atenção de nossos leitores para o fato de que o BC estava atrasado na sua política monetária. Já deveria ter reduzido a taxa básica de juros. Foi o que ocorreu e num nível (1%) superior ao estimado pelo mercado dias antes da reunião do COPOM. Esta coluna considerava possível a redução de 1%, mesmo que inicialmente fosse menos provável. Mas há fatos mais interessantes a comentar : uma coisa é o BC estar "atrasado" ou errar na execução da política monetária. Outra coisa é tornar o BC refém de uma brutal pressão de dentro do próprio governo. Note-se que o governo Lula na essência sempre esteve ao lado e firmemente apoiando Henrique Meirelles. Não pode alegar inocência ; sabia das coisas. Agora, por força da magnitude da crise externa, faz-se de ingênuo desconhecedor da política de Meirelles para sitiar a autoridade monetária e, sabe-se lá!, impor decisões ao COPOM. Sempre fomos críticos da política de juros do BC adotada nos últimos meses. Todavia, o que o governo está a fazer é desmoralizar a autoridade monetária e a própria política monetária. Isto merece repúdio e mais : alertamos para a possibilidade de que, com a instalação da recessão que se aproxima, o governo possa vir a adotar políticas populistas. Câmbio : preste atenção No seu depoimento junto a deputados e senadores anterior à aprovação como novo Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, afirmou que "a moeda chinesa era manipulada e mantida artificialmente desvalorizada". A reação chinesa foi imediata : via na fala do novo secretário sinais evidentes de protecionismo comercial e financeiro. O novo secretário de Obama apenas está explicitando de maneira mais radical a percepção de que a recuperação dos EUA depende de uma valorização das outras moedas de países poupadores (e emprestadores para os EUA). É o caso da China, mas não somente da China, como do Brasil, da maioria dos países asiáticos e da Índia. A valorização da moeda destes países melhoraria as contas externas (exportações, sobretudo) dos EUA e reduziria a dependência americana de recursos investidos no mercado de capitais do país. Além disso, manteria empregos nos EUA. O risco (no limite das possibilidades) é que estas pressões do Tesouro americano resultem numa "corrida" de desvalorizações entre as moedas do mundo com riscos financeiros e inflacionários imprevisíveis. Se isto vier a ocorrer o quadro apocalíptico de uma depressão como a de 1929 estará posto. Vamos acompanhar cuidadosamente essa discussão. Serra, Alckmim, Aécio A interpretação generalizada nos meios políticos e entre os analistas é a de que o governador Serra deu um golpe de mestre ao convidar Alckmin para ocupar uma Secretaria de seu governo. Teria apaziguado o PSDB paulista e fechado a brecha pela qual Aécio pretendia criar um núcleo a favor da sua candidatura em SP. A prudência aconselha dizer (muito mineiramente, ou como Caetano Veloso) : pode ser que sim, pode ser que não. As reações do governador mineiro e seus aliados, ironias de Aécio à parte, não foram das mais simpáticas. Talvez tenha faltado a Serra um gesto de aproximação com Aécio, antes de dar esse lance. O mineiro pode esticar a corda, para ver até onde tudo vai. Ele tem uma eleição garantida para o Senado. E como lembram os tucanos de SP, idade para esperar. Nas cordas, Aécio pode estar preparando o troco, que pode ir além da defesa das prévias para constranger Serra e seus adeptos. Não seria, porém, a saída do partido para o PMDB ou PSB para ganhar apoio de Lula se Dilma não decolar. O próprio Serra em 2002 e Alckmin em 2006 já provaram o veneno : a falta de empenho do governador em Minas prejudicou a campanha deles. E Minas é o segundo colégio eleitoral do Brasil. Lições de um avô Mesmo considerando que Aécio não tem interesse de deixar o PSDB, aliados lembram um manobra do avô Tancredo Neves, nos estertores da ditadura militar. Sem espaço para seus vôos no PMDB, então sob total controle de Ulysses Guimarães, Tancredo saiu da legenda com um grupo de amigos para fundar o Partido Popular, o PP. Depois de tudo pronto, teve o registro do PP negado por ação do governo Figueiredo. Tancredo então patrocinou a incorporação do PP ao PMDB. Tempos depois, virou candidato indireto - posteriormente eleito - à presidência pelo partido. Golpe de mestre ? Tudo pelo social Quando ainda era apenas um professor e consultor econômico, o hoje presidente do BNDES, Luciano Coutinho, teve participação relevante no processo que culminou com a compra da Antártica pela Brahma. Agora, com a chave da recheada burra do BNDES nas mãos, foi decisivo nos alinhamentos empresas-governos que culminaram na reestruturação do setor petroquímico brasileiro e com a venda da Brasil Telecom para a Oi (ex-Telemar). Todos, digamos, muito momentosos, dadas as implicações macroeconômicas e para a competição nesses setores. O BNDES de Coutinho acaba também de apoiar, com a bagatela de R$ 2,4 bilhões, a compra da Aracruz Celulose pela VCP, do Grupo Votorantim. O mesmo que vendeu 49,9% de seu banco, por quase R$ 4,2 bilhões, para o BB. Homem de visão! Nada como viver num país rico O orçamento para publicidade do Palácio dos Bandeirantes passou de R$ 158 milhões em 2008 para R$ 227 milhões em 2009 - um acréscimo de 43,7%. No Palácio do Planalto, a verba saltou de R$ 406 milhões para R$ 547,4 milhões - um incremento de 35%. Ao ritmo que se diz baiano - parte 2 Recebemos a seguinte nota, já postada nos comentários da coluna anterior (clique aqui) : "Prezados, tendo em vista a opinião dessa coluna sobre a aquisição da Brasil Telecom pela Telemar (NA REAL n° 36 - 20/1/09 - clique aqui), o Conselho Administrativo de Defesa Econômica informa que, não obstante o processo ainda não tenha sido remetido ao órgão, fez uso dos instrumentos acautelatórios de que dispõe e celebrou Acordo para Preservação da Reversibilidade da Operação - APRO, cujo inteiro teor encontra-se disponível em clique aqui. Com isso, assegurou que eventuais restrições que venham a ser impostas possam ser implantadas, a qualquer tempo, de maneira eficaz. Aguardo retorno. Atenciosamente," Lali Fonseca - Assessoria de Comunicação Social - Cade Na nota citada, como se lembra o leitor, não nos referíamos especificamente ao Cade, mas ao desinteresse de várias partes envolvidas no negócio da BrOi de postergar ao máximo a apreciação do processo e criar fatos consumados. Podemos pegar um exemplo : a Anatel, que bateu todos seus recordes para aprovar a mudança no PGO e autorizar o negócio, ainda não fez a sua parte na análise dos riscos de concentração e ameaças à concorrência. O Cade, no momento exato, quando o processo ganhar celeridade nas outras áreas do governo, terá oportunidade de demonstrar suas preocupações expressas na missiva. Ainda sobre o tema, no que se refere à concentração econômica, especialistas do setor e ex-membros do próprio Conselho lembram que a análise dessa situação deve obedecer a critérios regionais e não apenas a não apenas ao critério nacional. O setor tem muitas especificidades e uma análise apenas global pode levar a distorções.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 36

  Além da festa de posse Obama arrecadou US$ 27,3 milhões para financiar a festa pública de sua posse. Cerca de US$ 5,7 milhões foram doados por executivos de Wall Street. O custo total da inauguração do 44º Presidente dos EUA chegará a algo como US$ 50 milhões, sendo que US$ 10 milhões serão provenientes do Tesouro americano. Nada mais significativo que os maiores doadores sejam os homens de colarinho branco da capital financeira mundial. Os bancos norte-americanos estão em frangalhos, mas a maioria de seus executivos está com os bolsos lotados, fruto de seus (imerecidos) bônus e salários. O Citibank tem um valor de mercado de US$ 25 bilhões, menor que os dois maiores bancos privados brasileiros. A crise que vivemos nasceu ali, em Wall Street, e se espalhou pelo mundo. Não há razão para festa, esta é a simples e dolorosa verdade. Obama está a liderar um Império doente e que perdeu muito de sua credibilidade. O idealismo Wilsoniano, há muito morto, e Franklin D. Roosevelt é hoje mais uma referência histórica. Mesmo que muitos ideólogos desejem resgatá-lo das cinzas do tempo. Os EUA hoje têm como maior país financiador de sua dívida a China Comunista. Sua dependência do mundo é constrangedora para uma nação que deveria liderá-lo. Obama representa um novo momento. Resta saber se ele estará à altura de sua própria imagem. Chega como herói, mas ainda não fez nada de heróico, embora a sua campanha presidencial seja revestida de grande valor em termos de crença, persistência e percepção. Vale a pena ligar a TV e assistir à posse do novo presidente. De ícones também se vive. Todavia, não levemos muito a sério as aparências. O teste de Obama será no campo de ação. O resto é festa (financiada pelos wall streeters). Do not tell me just show me Não é possível e nem é importante que tenhamos uma opinião sobre Barack Obama. Como escrevemos na semana passada, a hora é política e na política as expectativas se formam após os fatos. Não há fatos nascidos de Obama, mas estes existirão em breve. Observe-os e analise-os com enorme atenção. O destino do mundo depende muito deles.  Juros : BC está atrasado No mercado financeiro internacional, diz-se que o Banco Central está behind the curve quando erra na projeção da atividade econômica e inflação. Ou seja, quando a taxa de juros está desequilibrada para baixo ou para cima em relação a tais projeções. Pois bem : podemos ser categóricos e afirmar que o BC brasileiro está behind the curve neste momento. E não é apenas em função da deflação mostrada pelo IGP-10 na semana passada (-0,85%). Há sinais muito evidentes de desaceleração econômica em todos os setores relevantes da economia brasileira. Nada justifica o atual patamar da taxa de juros e os seus respectivos gastos fiscais com o pagamento da dívida pública. Portanto, do ponto de vista conjuntural, haveremos de ver uma redução da taxa básica na reunião desta semana do COPOM. O mercado aposta numa redução de 0,75%. É possível (mesmo que não seja provável) que esta redução possa ser até de 1%. Já do ponto de vista estrutural seria extremamente interessante que tivéssemos uma análise do Congresso sobre a política monetária. Há tempos há razões justificadas para se crer que a taxa de juros básica no Brasil tem um "viés de alta". O COPOM é um órgão de decisões unânimes e os seus modelos analíticos deveriam ser mais conhecidos pelos políticos que o fiscalizam. É improvável que o Congresso se ocupe disto neste momento, mas seria essencial que ocorresse. México: o exemplo a ser seguido A importância relativa da economia norte-americana para o México é muito superior ao que acontece no caso do Brasil. Todavia, os fatos são os mesmos. Vamos ver o que foi publicado pelo BC Mexicano sobre a redução da taxa de juros básica de 9,25% para 8,75% ao ano : "a queda forte na demanda agregada e do emprego nos EUA está tendo um impacto muito negativo na atividade econômica no México". Não vale para o Brasil ?  Bombardeio amigo Voltou a ferver na Esplanada dos Ministérios o óleo aquecido pelo mundo político do governo para fritar o presidente do BC, Henrique Meirelles. Veja-se a ampla reportagem de capa da revista "Carta Capital" anunciando a saída de Meirelles até abril, para disputar um cargo político em Goiás. Ninguém desconhece que Meirelles tem ambições políticas em seu Estado natal - e até mais altas, se o mundo girar a seu favor -, porém não deve sair agora. Apenas em fins de setembro, início de outubro, quando deverá se filiar a algum partido para poder concorrer em 2010. Lula também não deixaria seu auxiliar ir embora agora, por causa dos riscos de uma reação negativa do mercado financeiro. O que não significa que Lula esteja muito feliz com o BC de Meirelles. Ele pode vir a ser o bode expiatório da vez, se a situação interna se deteriorar ainda mais. A hora e a vez de Mantega O pêndulo da Esplanada dos Ministérios voltou a se inclinar para os lados do Ministério da Fazenda em sua eterna disputa com o BC pela direção da política econômica. Lula deposita agora sua confiança em Mantega no que diz respeito às propostas para conter os efeitos da crise. E o ministro da Fazenda está tão tranqüilo, tão seguro, que até tirou um período de férias para descansar em Fernando de Noronha, longe das atribulações da economia real. Exatamente numa semana em que, entre outras coisas, tivemos um aumento das demissões nas empresas e o anúncio do cancelamento de um investimento de US$ 5,5 bilhões no ES, em parceria com a chinesa Baosteel. Nada como viver num país blindado ! O desemprego e as reações do governo Não é ilegítimo que o governo use mecanismos para reduzir os impactos da diminuição acentuada da atividade econômica sobre o emprego. Ao contrário, é dever do governante se ocupar desta tarefa. De outro lado, é lamentável que isto seja feito de modo tão populista (via ministro do Trabalho). Chega a ser até ingênuo (na falta de outra palavra) que se possa acreditar que por meio de ameaças de corte nos programas de suprimento de recursos públicos para o setor privado se aliviará o ciclo econômico. Ao contrário : estas ameaças podem estimular a que, no curto prazo, o setor privado se antecipe às possíveis medidas de retaliação governamental e desempregue ainda mais. O que falta mesmo ao país é um plano abrangente e "amarrado" para conter a crise. Na linha do que está sendo feito na Europa e nos EUA. Até agora as medidas são pontuais e o seu custo é, ademais, desconhecido. Estilo Lula O ministro Carlos Lupi comporta-se como um dirigente partidário ; parece mais um líder sindical do que um ministro da Estado quando faz advertências desse tipo às empresas. Lula sabe como as coisas funcionam no setor, mas parece se divertir por detrás das paredes ao ver seu ministro espargindo ameaças. Este é o estilo de Lula : usar auxiliares para dizerem coisas, mandarem recados que não podem sair da boca de um presidente da República. Para ficarmos apenas em dois exemplos. É difícil acreditar que Lupi diga as asneiras que anda dizendo, sem repreensões, por livre e espontânea vontade. Ou que Marco Aurélio Garcia expila as opiniões diplomáticas que vem expelindo de moto próprio. O poder tem sempre os seus bonecos de ventríloquos. Lula aperfeiçoou os métodos. Sindicatos : a hora do teste Figurinhas carimbadas do sindicalismo brasileiro, tais como o presidente da Força Sindical Paulo Pereira da Silva, estão voltando a freqüentar os gabinetes governamentais e empresariais. Muito falatório e algumas propostas, em grande parte, inexeqüíveis. Resta saber se o aumento do desemprego e a redução veloz da atividade econômica revitalizarão o setor sindical. Com novas lideranças e propostas. Assim como aconteceu no início da década dos 80 quando Lula começou a dar os primeiros passos na grande arena da política.   Pelo crescimento, vale quase tudo Os movimentos sindicais e sociais, de um modo geral, foram amortecidos, de um lado, pelos bons ventos que sopraram na área de emprego e renda, De outro, pela garantia de mais recursos públicos (imposto sindical para as centrais) e pelos programas sociais (bolsa-família e cesta básica para o MST). O Planalto teme a reversão desse quadro como conseqüência direta da crise e do aumento do desemprego. Poderia ter efeitos negativos sobre a popularidade do presidente e para os planos presidenciais de Dilma. Por isso a ordem é fazer tudo - e um pouco mais - para não deixar a economia cair. Os donos do dinheiro Está nas mãos do BNDES, da Petrobrás (principalmente destes dois), das outras estatais, do BB e da CEF a aposta do Planalto para manter a economia nacional crescendo num ritmo próximo dos 4% desejados pelo presidente Lula para este ano. O BNDES está amealhando recursos para abrir os cofres, em todas as direções. A Petrobrás refaz as contas e corre atrás de financiamentos para manter os investimentos anteriormente previstos - e se possível aumentá-los. O plano de investimentos para 2009-13, prometido para vir à luz até o fim do mês, deverá trazer, inclusive, recursos substanciais para o "pré-sal". Não há muita expectativa quando aos investimentos privados. Reportagem de "O Globo" de domingo dá conta de que empresas já cancelaram ou adiaram 46 grandes projetos no país, orçados em R$ 65 bilhões.  Quem tem mãe não morre pagão Oura aposta do governo é o PAC, cuja genitora, Dilma Roussef, entre uma plástica e seus afazeres de ministra, está em fase de aceleração do fortalecimento de sua candidatura à presidência da República. Pelos planos, 257 obras deverão ser inauguradas este ano, média de quase uma a cada 1,5 dia útil. Destas, 153 são do PAC. Dilma será figurinha carimbada nelas.  Ao modo do Chacrinha As chamadas fontes bem informadas de Brasília anunciam que Lula desistiu de patrocinar a proposta do fim da reeleição com a ampliação do mandato presidencial para cinco anos. A oposição via nesta jogo um subterfúgio para aprovar o terceiro mandato consecutivo para Lula. O governo teria desistido para (i) mostrar que não há tal "má" intenção e (ii) por ver na proposta algo de interesse da oposição, pois ajudaria a acomodar as disputas tucanas ente Serra e Aécio. Ao mesmo tempo, Lula elogiou a proposta, a ser levada a referendo, das re-eleições infinitas para Hugo Chávez na Venezuela. E disse mais : quem sabe um dia nossa democracia estará preparada para isso. Como dizia o Velho Guerreiro, Abelardo "Chacrinha" Barbosa, "eu não vim para explicar, vim para confundir". Pergunta inocente O que pensa a oposição da crise e seus reflexos no Brasil e que idéias e propostas ela apresenta para ajudar a conter os malefícios ? O candidato José Serra tem dados algumas opiniões, mas sempre alfinetando o governo, com o qual ele vai competir em 2010. Outros, nem isso. É constrangedor o silêncio... Mercado financeiro: resultados e bancos frágeis Estamos em meio à temporada de resultados anuais das principais empresas mundiais. Seja em períodos de bonança, seja em períodos duros como o atual, esta é uma ocasião de aumento da volatilidade. Especulam-se muito sobre os resultados do último trimestre do ano e se analisam as perspectivas. Considerando que a recessão dá sinais de agravamento nas principais economias mundiais, as perspectivas estão ainda mais obscurecidas pelo cenário incerto. Assim, os segmentos de maior risco - dentre os quais o mercado acionário - têm reagido negativamente e de forma acentuada. Não é o que ocorre, porém, com o segmento de renda fixa, no qual a volatilidade das taxas de juros tem caído sistematicamente. O mesmo ocorre no mercado de câmbio. Bancos ainda mais frágeis Há ainda outro componente: importantes bancos estão mostrando mais problemas. O HSBC pode vir a captar US$ 30 bilhões em ações e cortar o dividendo. O Deutsche Bank apresentou um prejuízo superior ao esperado (o mais de sua história), o Barclays terá de fazer enormes cortes de custos para se ajustar, O RBS da Inglaterra terá o maior prejuízo de uma corporação na história do país e o Citibank poderá reduzir o tamanho de seus negócios a 1/3 do atual porte. Como se vê, uma situação dramática e que pode demandar a percepção de que muitos destes bancos podem necessitar de injeções de capital de seus acionistas a valores muito baixos. O risco de mega diluição de capital está afastando os investidores do mercado financeiro.  No Brasil é diferente Fragilidade do sistema financeiro internacional é uma oportunidade de ouro para os investidores no Brasil. No curto prazo, as cotações dos bancos locais caíram muito em função da aversão ao risco setorial no mundo. Todavia, nossos bancos estão capitalizados e não carecem dos ajustes que ocorrerão lá fora. Oportunidade rara para comprar ações de bancos a excelentes preços.  Nossa visão Em colunas anteriores registramos nossa opinião de que o mercado financeiro em geral poderia apresentar um desempenho mais favorável no curto prazo (um mês). Os últimos dias nos trouxeram notícias piores, mesmo que não totalmente inesperadas - referimo-nos aos indicadores de atividade aqui e lá fora, bem como aos riscos do sistema financeiro. Assim sendo, aumentaram as chances de erro, no caso desta coluna, em relação a nossa avaliação sobre o mercado. Todavia, não queremos mudar de opinião sem analisar os primeiros passos do novo Presidente dos EUA que toma posse nesta data. Afinal, foi este fato o principal para que estivéssemos mais otimistas em relação ao mercado. Sobre bancos de investimentos Um empresário importante do setor de alimentos sentou-se à mesa num restaurante paulistano, colocou o guardanapo sobe o colo, pegou o cardápio e sem que se interessasse em escolher o prato pronunciou as palavras que brotavam de seus aflitos pensamentos : "onde estão aqueles canalhas de Wall Street ? Prometeram mundos e fundos para mim há seis meses e agora eu fiquei sem condições de financiar um projeto importante. Sempre tive crédito farto, não sou endividado e vou crescer muito nos próximos anos. Aqueles *%$@## sequer atendem o telefone." Sinal dos tempos. Ninguém precisa de inimigos Sarney está dando um suadouro em Lula no caso da eleição para a presidência do Senado. E criando dificuldades para Michel Temer na Câmara. E olha que eles se dizem parceiros e correligionários. Já pensou se fossem adversários ? Sereníssima Há uma excelente história a ser investigada e contada em detalhes : a recente venda da Refinaria de Manguinhos, no RJ. É um dos alvos do Grupo Técnico do Combate à Sonegação criado semana passada pelo governador fluminense Sérgio Cabral. Acompanhe e aguarde. Os amigos não ficam no sereno. Ao ritmo que se diz baiano Não há muito interesse, de todos os lados, de apressar a apreciação, pelo Cade da compra da Brasil Telecom pela Telemar. Quanto mais o tempo passar, mais o fato será consumado, tornando impossível qualquer alteração no acordo, a não ser uma ou outra exigência cosmética. A Ambev manda lembranças.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 35

  O Brasil já está afetado Por mais que as autoridades estejam tentando minimizar, sublimar ou esconder, os efeitos da crise externa sobre o país há de se acentuar nos próximos meses. A temporada de aumento do desemprego está aberta, a indústria e o comércio vendem menos e o setor externo, mesmo estimulado por um Real mais desvalorizado, encontra restrições de mercado (recessão mundial) e de crédito. O que ocorrer lá fora vai afetar aqui dentro. Ponto. A magnitude do impacto é imprevisível, mas pode-se aferir a partir dos últimos números de atividade econômica que os efeitos serão maiores que o inicialmente estimado. As respostas do governo em termos de políticas micro e macro-econômicas têm sido pontuais. Não há um plano mais abrangente e articulado. Há um amontoado de medidas. Até agora, o grande apoio do governo foi para as empresas. O governo apoia tudo. De fusão de bancos até crédito para certos setores. Para o trabalhador que perde o seu emprego, pouca ajuda. É possível entender : o partido do presidente não tem compromissos com os trabalhadores. Está mais que evidente. A sucessão na cabeça Parte do governo, a começar no principal endereço da Praça dos Três Poderes está mais com a cabeça na sucessão presidencial do que nos efeitos da "marolinha" na economia brasileira. Nenhum passo será dado sem que entre na equação o efeito da medida sobre o ambiente político seja devidamente avaliado. Por isso, tanta cerimônia em passar o facão no Orçamento aprovado pelo Congresso (comprovadamente inflado). Somente um corte para valer nas despesas de custeio permitirão manter os investimentos públicos sem comprometer a política fiscal. Nesse ponto mora o perigo do Fundo Soberano do Brasil : como está, é um cheque para gastos ilimitados, fora do Orçamento, ou seja, fora de controle do Congresso. A serviço de Dilma Discretamente, com habilidade, o Planalto convenceu o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a desembarcar o PDT, partido do qual é presidente licenciado da candidatura de Aldo Rebelo (PC do B), do bloquinho de esquerda, à presidência da Câmara. O PDT larga os parceiros e vai de Michel Temer. Foi um lance para evitar um conflito com o PMDB na Câmara, mas que mirou muito mais 2010 : esvaziar uma possível candidatura do bloquinho de esquerda (Ciro Gomes está na fila) à sucessão de Lula. Ciro terá de esperar uma vaga de vice de Dilma (a prioridade, para Lula, é do PMDB) ou um fracasso de Dilma. Ou, ainda, um - improvável, porém não impossível - racha de Aécio no PSDB. O mineiro movimenta suas fichas Aécio não está disposto a vender fácil o lugar de candidato tucano à sucessão de Lula para José Serra. Depois defender a realização de prévias no PSDB, Aécio anunciou que correrá o Brasil pregando sua proposta, discutindo alianças regionais dos tucanos com outros partidos. Ele quer sentir o pulso da população e o que ela quer para o pós-Lula. Os tucanos paulistas ficaram com a plumagem eriçada. Mercado financeiro : foco no curto prazo Conforme recomendamos na semana passada, não estamos pessimistas em relação ao desempenho do mercado financeiro no curto prazo. Estamos num período de formação de expectativas em relação à estréia de Barack Obama no próximo dia 20. Vem um pacotaço de medidas para tentar aliviar a recessão que campeia a América. Até lá, as expectativas serão favoráveis. Depois do dia 20, tudo dependerá do que efetivamente for feito. O desemprego cresce (v. nota baixo). A crise é imensa. O cenário é deplorável. Na política, a hora é de heróis e, por enquanto, eles não existem. Mantemos a posição de neutralidade em relação às perspectivas de médio (entre 6 e 12 meses) e longo prazo (acima de 12 meses). Todavia, o viés ficou mais negativo depois dos números de atividade econômica dos EUA e da Europa na semana passada. EUA : números de desemprego vão piorar O desemprego atingiu 7,2% da força de trabalho dos EUA. No ano passado 2,5 milhões de pessoas perderam seus postos de trabalho. A pior situação desde 1945. O mais notável de tudo isso é que ninguém acredita que este é o fundo do poço. Todas evidências indicam que o mergulho na recessão será ainda maior. Não sabemos se estamos numa "grande depressão", ou estamos nas suas cercanias. O Congresso americano parece sensível à situação, mas a rapidez da ação governamental e a envergadura das políticas terão de ser gigantescas. Este é o ponto a ser observado. Lembra-se da China ? Os economistas mundo afora pregavam que o principal fator para o cenário benigno que imperou até meados do ano passado era a China. O país comunista justificava quase todas as coisas boas que rondavam o mundo. Agora, há sinais visíveis de que a China começa a desacelerar mais fortemente. Na semana passada, foi anunciado o saldo da balança comercial do país : em dezembro, as exportações caíram 2,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior e as importações decresceram 21,3% (isso mesmo !). Vamos fazer uma corrente de oração para que os economistas não comecem a achar que as coisas ruins do mundo se devem somente a China. Por aqueles lados, é provável que as coisas continuem a piorar muito mais. Fila na Esplanada dos Ministérios É grande a aglomeração de "companheiros" nos escaninhos brasilienses à espera de uma compensação por seu desempenho eleitoral ou pelo sacrifício que fizeram em prol do partido : Fernando Pimentel (ex-prefeito de BH), João Paulo (ex-prefeito de Recife), Marta Suplicy (derrotada em SP). Lula não tem lugar para todos e nem parece que está distribuindo prêmios de consolação e, menos ainda, deseja levar para o ministério gente que ele sabe que daqui a um ano vai sair para disputar um outro mandato. Além do mais, o presidente sabe que, se abrir o flanco, será um pandemônio na base aliada. Lula terá de exercitar sua habilidade de negar sem magoar. A exceção I Apesar dessa disposição, Lula talvez tenha de abrir um espaço para acomodar os interesses do PT e do PMDB na disputa pela presidência do Senado. Todos dizem que não querem nada, mas um ministério e uma ou duas diretorias de estatais acalmariam o ambiente. A exceção II Atende pelo nome de Antonio Palocci a outra exceção. Se o ex-ministro não for indiciado pelo STF no processo pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, terá um bom assento na Esplanada à sua disposição. É o primeiro passo para torná-lo o candidato governo à sucessão de Serra - Marta e Mercadante perderam a precedência. Palocci é tido como bom concorrente para derrotar o indicado de Serra e Kassab. PS - Em Brasília não se acredita que Aécio consiga vencer Serra dentro do PSDB. Aliás, torce-se para isso, na esperança que o governador mineiro, agastado, frature o tucanato. Todas as intrigas possíveis visando tal objetivo estarão no ar a partir de agora. BNDES : transparência Está na hora do BNDES e de seus fiscais (TCU e Congresso, por exemplo) se preocuparem em dar maior transparência sobre as atividades da instituição de fomento. É preciso saber em detalhes onde vai o dinheiro da instituição e quais os riscos que está a assumir. A bem do setor público o assunto merece atenção. A discussão apenas começou Está apenas no seu primeiro round o debate, iniciado na semana passada, entre o BC e o mercado financeiro sobre os juros básicos (a taxa Selic) e os spreads bancários no Brasil. Há também a questão dos juros reais (a taxa básica menos a inflação) que, segundo Henrique Meirelles são no momento os menores em muitos e muitos anos no país. Como nem o Banco do Brasil nem a CEF cobram juros muito diferentes dos bancos privados nacionais e estrangeiros, o governo poderia explicar o que acontece para o spread ser tão elevado. Note-se que o governo não fez o menor esforço para aprovar no Congresso a criação do "cadastro positivo", tido e havido entre os analistas como essencial para que a taxa de risco cobrada nos financiamentos no país seja reduzida. Tem razão Meirelles quando afirma : "vamos falar sério". Pré-sal : acabou-se o que era doce Com o barril do petróleo abaixo de US$ 50 (atualmente abaixo de US$ 40) no mercado internacional, não há a menor chance de os projetos de exploração de petróleo na camada do pré-sal se tornarem economicamente viáveis. Aguarda-se, com expectativa, a divulgação do plano estratégico da empresa para o período 2009-2013, que deveria ter saído em dezembro. A empresa está revendo suas fontes de recursos, desde que teve de procurar a CEF e o BB para suprir suas necessidades diante das dificuldades de captação externa. Pelo menos duas das quatro refinarias, previstas no plano anterior, poderão ser postergadas. Crise política à vista : as duas candidatas ao congelamento são as do Maranhão (José Sarney) e do Ceará (Ciro Gomes). Mudanças no Citibank e uma pergunta Pouco a pouco, o Citibank - que já foi um dia o maior credor da dívida externa brasileira - está tentando sair do buraco. Ao final do ano passado eram fortíssimas as especulações de que iria quebrar. O ex-secretário do Tesouro dos EUA Robert Rubin está se aposentando, depois de ganhar milhões de dólares e, segundo notícias na imprensa dos EUA, não ter sido efetivo para evitar o quase colapso do Citi. Há rumores de que o Chairman Sir Win Bischoff também vai sair. O mais importante é que o Citibank deve se desfazer de sua participação na corretora Smith Barney e, talvez, no seu banco mexicano, o Banamex. A pergunta que fica é : será que as operações brasileiras do Citi serão vendidas também ? Emissões de Ações no mundo Depois de uma longa temporada de volumosas emissões de capital no mercado financeiro internacional a recessão interrompeu este processo. Nos últimos anos, quase todas as emissões eram sucesso e as promessas dos gestores das empresas emitentes eram fartas com o objetivo de estimular a demanda pelos papéis. O Brasil foi parte deste processo. Há notícias de que as emissões de ações serão retomadas com maior intensidade nos próximos meses. Com o mercado de crédito instável e as empresas demandando recursos, a solução passa por captar capital próprio. Até mesmo para renegociar dívidas. Depois da fase "paraíso" do mercado de underwriting de ações (IPOs) vem agora o purgatório. Para o investidor a recomendação é : cuidado ! Muitos micos podem estar à solta ! BB vais às compras Pelo menos o Grupo Votorantim não pode mais se queixar dos impostos que paga ! Afinal, estes impostos já foram usados para reforçar o caixa do Banco do Brasil e, agora, o Banco do Brasil comprou o banco do maior grupo industrial do Brasil. Onde estão os liberais do país ? O que será acharia Roberto Campos desta operação ? O governo do Partido dos Trabalhadores é muito generoso com os capitalistas brasileiros. Está sempre atento para ajudá-los. Privatal I - BB-Votorantim : mais transparência, por favor ! Nesse negócio é preciso mais transparência. E já ! A nação, os brasileiros, o Congresso Nacional precisam ser informados das condições nas quais o BB está comprando o BV, o que, numa análise objetiva, e falando com todas as letras, nada mais é do que uma ajuda ao grupo Votorantim em dificuldades. Ao invés de dar R$ 4,2 bilhões (via BB) pelo Votorantim (cujo patrimônio é de R$ 6,45 bilhões), comprar 50% do banco da família Ermírio de Moraes, e compartilhar sua gestão, melhor a ajudar o banco a buscar uma solução (via banca privada). Essa compra não parece uma saída aceitável e nem republicana, porque, por enquanto, pelo que se tem, trata-se de uma história mal contada. Esta opinião, grifada, não é dos autores desta coluna nem de nenhum oposicionista ao governo federal. É da lavra do ex-ministro José Dirceu, ainda influente nas esferas federais e no PT, em seu blog. Em tempo : "privatal" é uma empresa de "economia mista" sui generis, coisa que, como a jabuticaba, só existem no Brasil : o Estado põe o dinheiro, mas não controla, não manda e se houver prejuízos, ele, ou melhor, o contribuinte, banca. Privatal II - a Broi está no ar A partir da conclusão da operação, no apagar das luzes do dia 8 passado, a composição do capital social da Telemar Participações, holding que controla a Oi, será formada pelos grupos Andrade Gutierrez e La Fonte, com 19,34% cada um ; pela Fundação Atlântico, fundo de pensão da Oi, com 11,5% ; pelo BNDESPar, com 16,86% ; e pelos fundos de pensão Previ (12,96%), Petros (10%) e Funcef (10%), todos de empresas estatais. Grande parte do acerto que permitiu o negócio foi bancado com empréstimos do BNDES e do BB. A administração, porém, será dos grupos privados. Os riscos, no entanto... Estariam o MPF e o TCU atentos a todos os detalhes do negócio ? eles que são tão zelosos em alguns outros casos. A consolidação definitiva da BrOi ainda depende da aprovação do Cade. Mas o Conselho, em decisão preliminar, já mostrou que não criará grandes embaraços ao negócio, como não criou com a Ambev. Nossos conceitos de concentração econômica e ameaça à concorrência são elásticos. Lula e a globalização Finalmente está claro que Lula e seu governo aderiram de vez à globalização. O presidente que não gosta de ler notícias, está tão convicto em relação ao assunto que fez mudanças sem consultar o povo, mexeu em símbolos há muito construídos pela nação e tudo isso por decreto ! Trata-se da nova união gráfica da Língua Portuguesa. Finalmente, teremos uma língua escrita da mesma forma em Portugal, Timor Leste, Angola, Moçambique e por aí vai. A língua foi globalizada. Não está mais presa às bordas do Brasil. Globalizaram a língua. Tudo isto é reconfortante, não é mesmo ?
terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 34

  Lula, o equilibrista O presidente sancionou sem vetos o Orçamento de 2009, aprovado, todos sabemos, de que modo pelo Congresso... Lula tinha pressa para começar a liberar recursos para obras e projetos federais, entre eles o PAC, logo no início do ano. Esta a razão, também, para a manobra que permitiu a emissão de títulos do governo federal no valor de R$ 14,22 bilhões para encher o caixa do Fundo Soberano do Brasil. Sabe-se que tirar o Orçamento das mãos dos parlamentares apenas exigiu grandes mágicas para não desagradar deputados e senadores, ávidos por recursos que os ajudem a se reeleger daqui a dois anos. A corrida começa cedo. Inventou-se no desespero até uma receita extra de mais de R$ 2 bilhões, a ser arrecadada com a venda de imóveis da extinta Rede Ferroviária Federal. Agora é tempo de rever o Orçamento, um exercício para ases do trapézio : cortar despesas - pois as previstas não caberão dentro das receitas - preservando os grandes projetos de interesse de Lula, sem confrontar o funcionalismo e sem descontentar os parceiros petistas e os aliados. E combinando tudo isso com novas políticas de incentivos a alguns setores para manter a economia aquecida. Alguns economistas, entre eles um dos gurus atuais de Lula, o ex-ministro Delfim Neto, têm advertido para o risco de se tentar manter um crescimento muito elevado do PIB este ano, artificialmente. Outros países estão aumentando seus investimentos públicos. Mas de olho também nas contas públicas. Vamos ver se Lula consegue um milagre. Não gostou Não foi por outra razão que Lula ficou muito descontente com os prefeitos que assumiram pregando austeridade e anunciando cortes de despesas para adaptar seus caixas à nova realidade orçamentária que aponta no horizonte para 2009. Ele conta/contava com os prefeitos (e governadores) para ajudar a deslanchar seu plano de tornar o Brasil um grande canteiro de obras em 2009 e 2010. Até marcou uma reunião em Brasília com todos os mais de 5.600 prefeitos brasileiros, no dia 10 de fevereiro. Vai exortá-los a um mutirão anti-crise. Poderá ter uma surpresa desagradável : deve receber cobranças de mais recursos para os municípios.   Um vai colaborar Pena que eles sejam adversários políticos - até aqui, cordiais ; no futuro, não se sabe. Mas quem pode fazer a alegria do presidente Lula é o governador de SP, José Serra. Ele armou um Orçamento para este ano que lhe permitirá gastar no Estado, em investimentos, mais do que Brasília poderá gastar no Brasil inteiro. O mesmo esquema está sendo armado para 2010.    Qual o nome disso ? Sim, da insistência de Lula em expandir os gastos governamentais e o esquema montado por Serra para ter fartura de recursos para investir em 2009 e 2010... Ora, chama-se política. Ou melhor, eleições presidenciais.   O ano Dilma No calendário chinês, 2009 é o Ano do Boi - resiste sem reclamar e alcança prosperidade com paciência e trabalho duro, segundo o resumo da revista "The Economist". No Brasil, eleitoralmente para o governo, será o Ano Dilma. Os 365 dias decisivos para firmar a candidatura da preferida de Lula à sua sucessão e para convencer os aliados, especialmente o PMDB e alguns partidos de esquerda (PC do B e PSB) a ficaram no mesmo barco. O primeiro, não se bandeando, em parte, para o condomínio PSDB/DEM; os outros dois, desistindo de uma aventura como Ciro Gomes. Assim, a ministra-chefe da Casa Civil será a grande estrela - a segunda, obviamente, pois Lula não é de ferro - de todos os grandes eventos do governo federal em 2009.   EUA : A questão do tempo Enquanto crescem os riscos fiscais no Brasil, os números divulgados da economia norte-americana são desastrosos. O final de ano foi uma significativa representação do momento. As vendas do comércio foram 34% menores que a do mesmo período do ano anterior. O desemprego bate recordes em décadas e a confiança dos investidores e consumidores está mais abalada do que nos anos 70, período de longa estagflação. Dito isto, a questão é em quanto tempo virá a recuperação. O pacote de US$ 700 bilhões está sendo usado inclusive pelo setor industrial. As grandes montadoras de automóveis e o setor de autopeças são os primeiros beneficiados, além dos (quebrados) bancos. Os economistas estão a colocar números no computador para estimar os próximos dois anos. Os modelos de equilíbrio macroeconômico levam em consideração o pacote de estímulo fiscal do novo governo Obama e estabilidade nas taxas de juros e câmbio. Tudo Ok, portanto. Assim sendo, já em 2009, nos últimos trimestres a recuperação se iniciaria. De outro lado, economistas mais pessimistas como Nouriel Roubini não acreditam numa recuperação rápida. Motivo : o pessimismo está tão grande que os novos fatos teriam de ser tão fortes que isso não é possível no curto prazo. Assim sendo, a recessão será duradoura e significativa. O certo é que nada pode ser previsto de forma acurada. Barack Obama e sua tropa são um fato novo e significativo. Os seus primeiros 100 dias devem definir as perspectivas de 2009 e 2010. É pagar para ver. As primeiras indicações de Obama Obama, neste último sábado, chegou a Washington vindo de suas (divertidas) férias no Havaí. Desembarcou com uma ousada proposta de gastos da ordem de US$ 775 bilhões. Considerando os benefícios adicionais de previdência social e saúde, bem como a ajuda aos estados e municípios (algo entre US$ 150 e US$ 170 bilhões), o pacote deve alcançar a monumental cifra de US$ 1 trilhão. Um estímulo fiscal da ordem de 10% do PIB norte-americano. Para se ter mais convicção sobre os efeitos deste pacote tem-se de verificar o que se tornará efetivamente gasto (por exemplo, os investimentos em infra-estrutura por parte do governo) e o que apenas implicará em "efeitos contábeis" (por exemplo, reduções de dívida entre partes do sistema privado). Há grande esperança nestas medidas, mas Obama terá de enfrentar o Congresso norte-americano. Ali não há amadores. Obama sabe disso e conta com o vasto apoio da população para seduzir até os mais conservadores em matéria de gastos públicos. A viúva está para soltar as burras.   O mercado financeiro : nossa recomendação Aí vai a nossa recomendação para os investidores no mercado financeiro. Janeiro será um bom mês para os investimentos. As ações devem se destacar, sobretudo de dois setores : energia (petróleo de forma especial) e bancos. Isso mesmo : os bancos estão com valores de mercado muito baixo, apesar dos riscos que rondam o setor nos EUA e na Europa. O Real deve se valorizar, mesmo que de forma não significativa. E a taxa de juros será menos volátil com a moderação da visão sobre o futuro do BC. No médio prazo (seis meses à frente) não temos uma visão clara, de vez que queremos analisar os primeiros passos de Obama. Pouco a pouco vamos formar um cenário e colocá-lo à prova junto aos nossos leitores. Um lembrete No mercado financeiro as expectativas sobre a economia e a política são mais importantes que os fatos. Na política a equação é inversa : os fatos formam as expectativas. É por isso que estamos sendo cautelosos em relação à análise de médio prazo. A hora é política. E política é fato ! Isso vale para o Brasil e o mundo ! Até mesmo a Igreja A mensagem de fim de ano do Cardeal de New York, Edward Egan, foi bela e significativa. Falou de tempos duros na economia e na política. Nestes tempos, disse o Cardeal, é preciso redobrar a atenção para a caridade. O aumento da pobreza na Big Apple é notável e notória, e as confissões religiosas cumprem papel determinante na solução de alguns problemas. O Cardeal recordou fatos da Grande Depressão nos anos 30 e deu exemplos de abnegação daqueles "tempos duros". A homilia de Egan repercutiu nos jornais mais importantes dos EUA. Trata-se de uma expressão significativa dos temores que rondam a maior nação do mundo. A indústria dos Hedge Funds Em teoria os denominados hedge funds deveriam ser instrumentos de investimentos diversificados de forma a que os seus retornos fossem, digamos, "equilibrados" frente a cenários alternativos (positivos e negativos). Na prática, estes fundos basicamente se tornaram meios de uma brutal e, em muitos casos, fraudulenta especulação. Muitos fundos estão quebrando ou sendo fechados. Muito cuidado é necessário em relação a este segmento do mercado. A coisa boa de tudo isso é que o mercado será mais saudável sem uma presença tão forte destes fundos. Pelo menos é isso que se espera. E por falar nisso... A quebra dos fundos do mega-investidor fraudulento Bernard L. Madoff, algo ao redor de US$ 50 bilhões, vai dar muito que falar, inclusive no Brasil. Ao que parece, a partir de investigações da SEC e do FBI, o esquema de fraudes também abarcava a captação de recursos mundo afora. Pessoas físicas, sem licença para tal, captavam recursos para o investidor fazer suas traquinagens. Neste momento as autoridades querem saber quem e o quanto estes distribuidores captaram de forma fraudulenta. Assim falou a The Economist Bem disse a prestigiada revista inglesa sobre o caso Madoff : "Não existem heróis na história de Madoff; apenas vilões e idiotas." Assim falou a The Economist - 2 Vale uma leitura atenta a última edição do ano da primorosa revista semanal inglesa, "O mundo em 2009", com destaque na capa para Barack Obama. É uma extraordinária interpretação para o momento em que vivemos, em todos os quadrantes, com um bom número de projeções para os próximos 365 dias. Com direito até a um artigo do presidente Lula. Naturalmente tudo pode dar errado nas projeções. É, no entanto, matéria para reflexões. Como aperitivo, fazemos dois destaques : 1. O artigo de Daniel Franklin ("O ano da insustentabilidade") no qual o autor, diante da crise, se pergunta se os governos e as empresas vão se mostrar sérios e preocupados com as políticas de responsabilidade social ou abandonarão seus projetos nessas áreas, numa demonstração de que tudo não passa de jogadas de marketing. 2. Um texto de John Rose ("Fabricado no Reino"), escrito para o contexto da Inglaterra, mas aplicável em diversas latitudes, criticando a política econômica inglesa de algumas décadas por ter optado por transformar o país numa economia de serviços e abandonado a manufatura e as indústrias que produzem com alto valor agregado. Questão para debate Há algo de errado no reino do câmbio : alguém que fez um negócio de verdade, daqueles que geram emprego e levantam fábricas, sofreu o que o diabo amassou com o câmbio nestes últimos dez anos. A faixa de oscilação da moeda brasileira foi de R$ 4,00 a R$ 1,50 por US$ 1,00. O Congresso, tão inoperante nestes anos todos, poderia analisar e criar um arcabouço institucional para proteger aqueles que querem crescer no Brasil. Há muito a se debater sobre o tema e não apenas colocar a culpa no que ocorre lá fora pelas nossas mazelas cambiais. Por onde começar Uma primeira investigação sobre o câmbio poderia se iniciar pela forma e critérios adotados pelo BC para intervir no câmbio. Quem pode viver com tanta instabilidade no Real. Dinheiro para gastar A oposição já contestou no STF a MP editada no crepúsculo político e administrativo de 2009 permitindo ao governo emitir títulos do Tesouro Nacional para o FSB. Será uma batalha jurídica. Marolinha política Como diria Caetano Veloso, daqui até o dia 2 de fevereiro, quando acontece a eleição nas duas casas do legislativo federal, tudo pode acontecer na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado. Ou nada. Tanto pode dar Michel Temer, Aldo Rebelo ou Ciro Nogueira na Câmara, e Tião Viana, Garibaldi Alves ou José Sarney no Senado, quanto qualquer outra composição. Está aberta, apenas, a temporada de caça - e de negociações. É certo apenas que nada se fará sem Lula nem contra o PMDB. São posições vitais para o jogo congressual. E ainda mais para as composições presidenciais. Daí o frisson que o tema causa em Brasília.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 33

A Petrobrás e seu labirinto Quando o senador Tasso Jereissati há cerca de um mês noticiou que a Petrobrás havia tomado um empréstimo na CEF, a direção da empresa fez um escarcéu. Acusou-o de estar insinuando que a estatal estava com dificuldades. Há duas semanas, com grande animação, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, anunciou vivamente que a companhia não abandonaria as previsões de investimento para 2009. Assegurou, também, que - mesmo com o petróleo a menos de 50 dólares - os investimentos no pré-sal são viáveis. Na semana passada, Dilma Roussef, que continua como uma espécie de "ministra de fato" das Minas e Energia e preside o Conselho de Administração da Petrobrás, garantiu que os investimentos iniciais do pré-sal estão assegurados. No final desta mesma semana, sem maiores detalhes, a não ser a informação de que a situação precisa ser analisada mais detidamente, o Conselho da Petrobrás adiou para janeiro a revisão do Plano Estratégico. Diante das incertezas na economia mundial, ainda não como fazer esse planejamento com segurança. Mas, pergunta-se: todos os investimentos não estavam rigorosamente assegurados? Ainda não é bem assim Na verdade, a empresa dirigida por Gabrielli e supervisionada por Dilma, precisa ainda definir dois pontos antes de soltar seus novos planos de investimento: (i) sua capacidade de gerar caixa e (ii) a disponibilidade de financiamentos externos. Nos dois casos, há complicações: 1. Com a queda do preço do petróleo, a companhia está ganhando mais dinheiro com a venda de combustíveis. Em algum momento, porém, terá de fazer algum ajuste para baixo. Até para reduzir as pressões sobre a inflação e abrir espaço para o BC acelerar a diminuição da taxa de juros. Além do mais, a empresa poderá ser chamada a dar uma contribuição maior para o Tesouro cumprir as metas de superávit fiscal. 2. Não se tem a menor idéia de quando e em que condições o mercado internacional de crédito se normalizará. Mesmo para uma empresa como a Petrobrás, grau de investimento e tudo o mais, haverá dificuldades. Quando a empresa, fugindo a seus padrões, foi buscar dinheiro na CEF é porque encontrou cofres vazios no Exterior. A "razão" política fala mais alto A Petrobrás fará qualquer sacrifício e qualquer mágica para manter intocado, ainda que no papel, seu plano de investimentos nos próximos anos. Por questões de ordem econômica - Lula aposta na empresa para tentar manter o crescimento da economia em tempos de crise internacional - e por "razões" de ordem política: o pré-sal é um dos carros chefes da campanha presidencial de 2010 da ministra Dilma Roussef. Ou, se ela não emplacar, de outro ungido de Lula para derrotar a oposição. Não há como, também, pelas mesmas razões, de adiar o início - a famosa pedra fundamental - das quatro novas refinarias da empresa prometidas a governadores e políticos. Chegou-se a falar, nos últimos dias, na suspensão dos projetos das plantas do MA e do CE. Foi uma correria para desmentir. Criar indisposições com Sarney e Ciro Gomes? Lula, animal político excepcional que é, já sentiu que não é impossível fazer de Dilma sua candidata e sucessora. Mas já viu também, depois que a "marolinha" chegou, terá de fazer um "esforço" muito superior ao que imaginava antes dos atropelos econômicos. Uma reserva técnica de votos A oposição, talvez inebriada pelo desempenho de seus pré-candidatos nas pesquisas de opinião no momento, ainda não se deu conta que Lula, com crise ou sem crise, tem um cabedal potencial de votos que dificilmente será atingido pelos efeitos da "marolinha". A não ser que haja - algo muito improvável - um repique da inflação que corroa fortemente o poder de comprar da população de baixa renda. Trata-se do contingente de beneficiários do Bolsa Família - mais de 11 milhões de famílias e quase 50 milhões de pessoas beneficiadas - e dos aposentados e pensionistas da Previdência Social - cerca de 15 milhões de pessoas. Para este grupo, não há o fantasma do desemprego. E eles podem sair, ganhando, em termos: a queda do preço das comoditties deve levar a uma queda nos preços dos alimentos no médio prazo. Não é sem propósito que Lula definiu os programas sociais incluídos no Orçamento como "incortáveis". O Bolsa Família terá em 2009 sua maior verba. Serão quase R$ 12 bilhões. Não leiam agora Ninguém deve perder muito tempo consultando o texto do Orçamento da União aprovado - como sempre na correria - pelo Congresso. A conta de chegar feita pelos parlamentares, com a contribuição do ministério do Planejamento - que aceitou tudo na última hora para não atrasar a votação - não fecha de jeito nenhum. Inventou-se de tudo, até uma receita extra de R$ 2,55 bilhões, a ser alcançada com a venda de imóveis da extinta Rede Ferroviária Federal para acomodar todas as despesas pretendidas por deputados e senadores. Um pouco do folclore Esta disputa por recursos do Orçamento lembra muito uma do folclore político brasileiro - dessas que não se sabe se são verdade ou não, mas são deliciosas. Consta que o mineiro (ele mesmo personagem constante dessas histórias/estórias) José Maria Alckmin, então ministro da Fazenda de Juscelino Kubstichek, recebeu em seu gabinete um deputado em busca de verbas para um projeto em sua região. Alckmin tentou explicar ao parlamentar as dificuldades para atendê-lo face aos problemas da receita quando ele sacou o Diário Oficial com o Orçamento do ano e apontando o dedo para uma determinada linha, disse triunfante: - "Olha ministro, a verba existe, está aqui". Ao que Alckmin teria retrucado: - "A verba existe, meu filho. O que não existe é dinheiro". BrOi: consumado o fato das cartas marcadas Como já se sabe, a Anatel aprovou a compra da Brasil Telecom pela Oi. Para o Guiness A Anatel bateu todos os seus feitos anteriores e aprovou a anuência prévia em menos de um mês. Casos muito mais simples e muito menos delicados chegaram a ficar mais de seis meses parados em seus escaninhos, tal a diligência de seus diretores. Agora, o processo, para ser definitivamente selado, passará pelo aval do Cade. Será outro feito para ser registrado no livro de recordes. Em menos de 60 dias o aval será dado. E, como na Anatel, sem nenhuma grande "condicionalidade" que garanta melhores condições para o consumidor. No parecer da agência, apenas a exigência da manutenção dos empregos tem alguma relevância. O restante é perfumaria. Uma supertele nacional? Quando se envolveu mais do que a prudência aconselhava no patrocínio político e financeiro da compra da Brasil Telecom pela Oi (ex-Telemar), o governo alegou que era preciso criar uma grande tele brasileira, para competir com os outros dois gigantes internacionais que aqui estão - a Telefônica (espanhola) e a Embratel (mexicana). Qual não é a surpresa quando se descobre que não há nenhuma norma em todo esse arranjo impedindo a venda da BrOi para uma empresa estrangeira. Estranho, não? O dono e os donos Coisa de gente generosa: mais de 61% das ações da Telemar Participações estão nas mãos do BNDES e dos fundos de pensão das estatais. Ou seja, direta e indiretamente são do governo, que ainda entrou (via BNDES e BB) com quase R$ 7 bilhões para a realização do negócio. No entanto, o controle da BrOi ficará com Sérgio Andrade (Andrade Gutierrez) e Carlos Jereissati (La Fonte). Coisa da "engenharia financeira". Daniel Dantas fez escola. Ps. Voltaremos a circular já na primeira terça-feira do ano, 6 de janeiro.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 32

Apelo atendido ? O apelo que Lula tem feito para que o brasileiro continue consumindo parece que foi atendido. A primeira impressão que ficou do fim de semana antevéspera do Natal, nos shoppings, nas regiões comerciais de consumo popular, nos "feirões" das montadoras de automóveis foi a de que a situação está se normalizando, a confiança da população se restabeleceu. O ministro Guido Mantega pode até comemorar, o que certamente ele o fará ao longo da semana. Como ensinam os mais sábios, porém, cautela a caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Ao que tudo indica pode ser apenas um espasmo, embalado pela pregação insistente do presidente e pelo anúncio do alívio tributário da semana passada. As condições de temperatura e pressão não se alteraram substancialmente. As empresas continuam ressabiadas, a disposição de rever investimentos permanece e ninguém está se comprometendo a manter o nível atual de emprego. Conta gotas.... E nesse ponto o governo tem cometido um grave equívoco agindo na base do conta-gotas, com providências setoriais e pontuais apenas, quase sempre reagindo a uma situação já em andamento. E pior ainda, como na quinta-feira, já anunciando que novas medidas virão. Ora, fica todo mundo esperando as novas providências, ninguém se mexe. Ainda mais porque há uma evidente contradição - e um choque mesmo - entre o desejo de incentivar o consumo de um lado e a persistência do BC em manter a taxa básica de juros. A solução urgente desse conflito é essencial para a tomada de decisões pelos agentes econômicos privados. Sobre o consumidor O Governo deveria ser muito mais agressivo na ponta do consumo. Reduzir, além do já anunciado, os impostos para os salários mais baixos e ser muito agressivo na concessão de benefícios diretos para os trabalhadores. É aí que reside a possibilidade de uma recuperação rápida da economia. Todavia, a capacidade política de operar estas matérias parece baixa neste governo. Dito popular, note-se. Um exemplo : financiamento de imóveis Alguém pode achar que mesmo havendo crédito farto à disposição, um trabalhador ou uma família de classe média vai comprar um imóvel quando pode perder o emprego ? Neste momento, a recuperação da atividade econômica passa pela recuperação do consumo. O governo tem de parar de gastar fichas para estimular o empresariado e gastar mais com quem vai gastar mais e rápido. Empresários não estão felizes Segundo descrição do jornal "Valor Econômico", o ambiente da reunião de Lula com um grupo seleto de empresários, que antecedeu o anúncio do "pacote de bondades" do ministro Mantega na semana passada, foi de tristeza. A verdade é que os empresários estão inseguros e não totalmente satisfeitos com as providências que têm sido tomadas pelo governo para combater os efeitos da crise econômico-financeira mundial no Brasil. Do lado do mundo privado, elas são consideradas tímidas, insuficientes, agravadas pela "teimosia" do BC. Foi sintomática a decepção com a falta de empenho do governo em dar a sua fatia de sacrifício a cobrança feita pelo empresário Emílio Odebrecht. O empresário sugeriu que o Planalto providenciasse uma solução legal - uma MP ou um projeto para deputados e senadores votarem rapidamente - suspendendo os aumentos salariais concedidos ao funcionalismo público nos próximos anos. Opinião desta coluna : não há possibilidade da proposta vingar. Zero de chance. Um olho na crise, outro em 2010 Não há possibilidade de a sugestão de Emílio Odebrecht vingar porque o governo não deseja, em pleno verão eleitoral, indispor-se com duas de suas principais clientelas e dois dos pontos em que pretende ancorar a candidatura de Dilma Roussef : o funcionalismo público e as centrais sindicais, especialmente a CUT. A soma da capilaridade dos servidores com a disposição das entidades sindicais pode compensar o pouco entusiasmo (até aqui) dos partidos aliados com as postulações da ministra-chefe da Casa Civil. O PMDB está visivelmente vacilante (até por estratégia, para o conhecido "toma lá, dá cá") e o PT dá mais sinais de conformismo do que empolgação. Sempre 2010 A realidade é que não se dá um passo em Brasília sem que 2010 se coloque na mira do teodolito presidencial. O alívio no IR da Pessoa Física, por exemplo, tem o óbvio propósito de incentivar o consumo, mas foi também uma barretada na classe média, que nas grandes cidades andou abandonando os candidatos presidenciais nas eleições de outubro. Do ponto de vista individual, o alívio é pouco significativo. E do ponto da vista da doutrina tributária, um retrocesso segundo analistas de peso, como o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel. Uma boa amostra O Congresso deve votar esta semana o Orçamento da União para 2009. Será uma boa ocasião para o governo, os deputados e senadores demonstrarem até que ponto eles estão dispostos a fazer sacrifícios para ajudar a conter a crise. Quanto será cortado para adaptar as despesas à nova realidade da arrecadação ? O que será cortado ? Fala-se em poda de R$ 10 bilhões com a nova reavaliação da receita. Mas isso foi antes do pacote de renúncia fiscal de R$ 8,4 bilhões. Os deputados e senadores não abrem mão das verbas para suas emendas. Lula já avisou que não aceita que se mexa no dinheiro do PAC e dos programas sociais. Há um aumento substancial nas despesas já contratado com os reajustes do funcionalismo e do salário mínimo. Sem contar as ameaças dos projetos do Senador Paulo Paim. Como acomodar tudo com os desejos eleitorais ? No fim das contas o governo vai mesmo é reduzir o superávit primário. Ciro, o retorno Depois de quase seis meses na muda, o ex-ministro e deputado Ciro Gomes retornou na semana passada em grande estilo, com a língua solta e atirando a esmo. Sobrou para todo mundo até para ele mesmo. Em dado momento, referiu-se a "essa política ruinosa de juros ao longo de 25 anos garante segurança e altíssima rentabilidade ao sistema financeiro", talvez esquecido de que nesse período ele próprio foi ministro da Fazenda também, e a política monetária foi a mesma. Ciro procurou preservar o presidente Lula, atacou apenas a política econômica e o BC. Malandragem política. Afinal, a política não é de Lula ? Ou o BC manda mais do que o presidente ? Leitura do jogo : Ciro está se habilitando para ser o vice na chapa de Dilma e, na eminência de um desastre da candidatura da preferida de Lula, merecer a unção presidencial. Uma farsa para enganar trouxas A Anatel adiou de hoje para amanhã ou depois a reunião para votar o pedido da anuência prévia para Oi (ex-Telemar, controlada pelos empresários Carlos Jereissati e Sérgio Andrade) comprar a Brasil Telecom. Zelosa, a agência vai realizar uma audiência pública para discutir o assunto. Por que apenas nas vésperas ? Vai dar tempo de alguma coisa ? Ora, uma bobagem. É apenas um gesto para tentar mostrar à opinião que tudo está sendo feito na maior transparência, na maior lisura, quando a realidade é outra. Antes mesmo da audiência, a relatora do processo, a conselheira Emília Ribeiro, já garantiu que não haverá obstáculos ao negócio. Perguntada se haveria possibilidade de a Anatel negar o pedido, Emília foi enfática : "Não. Se a operação está dentro da lei, se está seguindo o processo, por que vamos impedir ? Uma empresa brasileira desse porte interessa a todos nós". (Para lembrar : Emília é uma ex-assessora do PMDB no Senado, que foi indicada às pressas para a Anatel, sem conhecer nada de telecomunicações, para desempatar um impasse na diretoria da agência que ameaçava o nascimento da BrOi). Isto é que é eficiência Para disfarçar o apadrinhamento do negócio, a Anatel (com a chancela do governo) deverá impor algumas exigências (condicionalidades) à nova empresa. Nada de relevante. Até porque muitas delas foram sugeridas pela própria BrOi. Assim, até o fim da semana, estará tudo legalmente sacramentado, com uma inovação jurídica - primeiro se faz um negócio proibido pela lei, com documento oficial e tudo e depois se muda a lei para torná-lo normal. E tudo se fará dentro do prazo para permitir que os negociantes, agraciados com generosos financiamentos públicos, finalizem a "transação" dentro prazo, sem risco de multas e outras penalidades. Num período de apenas seis meses mudou-se uma lei, aprovaram-se normas, definiram-se financiamentos vultosos numa questão extremamente complexa e, no caso, delicadíssima. Se o setor público brasileiro mostrasse sempre a eficiência e a boa vontade que mostrou no caso BrOi, este seria um país invejável. Juros nos EUA : quais as novas opções ? É generalizadamente esperado que o Fed reduza a taxa de juros primária, atualmente em 1% ao ano. Como se vê, há pouca taxa para se reduzir ! Estamos próximos de zero ! Assim sendo, o mercado financeiro internacional especula qual será a postura do FED e de seu presidente Ben Bernanke daqui para frente. Será um heterodoxo conforme pregava diante de seus alunos de Princeton ? O certo mesmo é que tudo dependerá mais de Barack Obama que do Fed. Vamos esperar até o dia 20 de janeiro... Juros no Brasil : sem novas opções ? Na segunda-feira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, participou de um seminário em São Paulo promovido pela Standard & Poors, pelo jornal "Valor Econômico" e pela FGV. O tom do discurso de Meirelles foi uma justificativa para a decisão do BC de manter inalterada a Selic. Com alguma ironia para os palestrantes que o antecederam, Meirelles procurou mostrar sinais de uma economia ainda aquecida e com previsões incertas. Quem ouviu saiu com a impressão de que não é coisa líquida e certa uma baixa na taxa básica em janeiro. Equação financeira E-mail circulando pelo mercado financeiro dá conta que os US$ 100 bilhões que o Royal Bank of Scotland pagou pelo ABN-Amro há cerca de um ano daria para comprar no momento o Citibank (valor atual de mercado, US$ 22 bilhões) + o Morgan Stanley (US$ 10,5 bilhões) + o Goldman Sachs (US$ 21 bilhões) + Merril Lynch (US$ 12,3 bilhões) + Deutsche Bank (US$ 13 bilhões) + Barclays (12,7 bilhões). Com a sobra de US$ 8 bilhões ainda se compraria a Ford, a Chrysler e a GM. Como ninguém é de ferro, sobraria um troquinho para se montar uma equipe Honda de Fórmula 1. Assim, Rubinho Barrichello poderia voltar a correr em 2009. China, produção para baixo A produção industrial da China em novembro, comparada com o mesmo período do ano passado apresentou um crescimento de 5,4%, uma desaceleração em relação a outubro quando o crescimento foi de 8,2%. A maior causa da redução do crescimento foi o decréscimo de 12% da produção siderúrgica do país. Um mau sinal para o setor de mineração de ferro. Sobretudo, para a Vale do Rio Doce, cujo desempenho depende muito daquele outro lado do mundo. A Suíça saiu na frente Enquanto o mundo discute se deveria ou não existir um banco internacional cujo papel seria o de fiscalizar o funcionamento do sistema financeiro internacional, a Suíça resolveu regular o sistema financeiro. Note-se que o país prima por certo nível de desregulamentação quando comparado a outros países desenvolvidos. Daqui para frente, os grandes bancos terão limites para crescer os seus ativos, sobretudo quando os tempos forem bons. Se quiser crescer mais, mais capital próprio será necessário. A Suíça está se antecipando às possíveis medidas sobre o assunto que devem ser anunciadas num prazo de poucos meses. E a devida diligência ? Será chato para os bancos explicar as perdas com o esquema fraudulento do investidor Bernard Madoff. Este sujeito, antes de sair algemado, pelo FBI, era figurinha fácil nas festas do jet set e sempre fotografado com os chefões do mercado financeiro. Pois bem : agora vem a conta dos prejuízos provocados aos investidores de grandes bancos. O HSBC perdeu US$ 1 bilhão, o Royal Bank of Scotland US$ 400 milhões, o BBVA e o Nomura (Japão) cerca de US$ 300 milhões cada um. O BNP-Paribas perdeu US$ 408 milhões. Tais prejuízos foram provocados junto a clientes ou diretamente aos bancos. Usualmente, os bancos dizem analisar cuidadosamente as operações de fundos de terceiros vendidos nas redes de agências/clientes. Pelo jeito, algo ocorreu de errado. A conta a ser paga Depois da rejeição do pacote de ajuda às três mais importantes montadoras dos EUA pelo Senado norte-americano, a Casa Branca busca uma solução para o setor. Monta-se um pacote de até US$ 30 bilhões para salvar as empresas da concordata. A administração Bush pode usar apenas US$ 15 bilhões (valor até agora não alocado em outros salvamentos) da primeira parcela do pacote de ajuda (US$ 350 bilhões) aprovado em outubro passado pelo Congresso. Assim sendo, Bush depende de mais uma votação para liberar a outra parcela também de US$ 350 bilhões. As subsidiárias da Ford, da GM e da Chrysler estão apreensivas com o seu destino nos próximos anos. Diante da fraqueza financeira das matrizes, muitas fábricas podem ser fechadas ou vendidas. Inclusive no Brasil. Por fim, uma coisa é certa : os sindicalistas vão ter trabalho para convencer os trabalhadores a reduzir seus benefícios. Sem esta redução tudo ficará difícil do ponto de vista político (para a aprovação do pacote). Enquanto isso... As grandes montadoras japonesas e coreanas estão relativamente capitalizadas. Esperam serenamente a definição sobre o pacotaço destinado às montadoras norte-americanas para refazer as suas estratégias. Querem tomar ainda mais parcelas do mercado consumidor norte-americano. O Brasil deve ser destino menos importante de investimentos neste momento.    
terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 31

A nova parcela de US$ 350 bilhões O programa de resgate dos bancos norte-americanos (em inglês, Troubled Asset Relief Program ou TARP) foi aprovado pelo Congresso em outubro passado num montante de US$ 700 bilhões. Os primeiros US$ 350 bilhões poderiam ser alocados imediatamente. A segunda parte depende de apoio dos congressistas que têm de votar a liberação dos recursos após constatarem a (i) a sua necessidade e (ii) a devida utilização dos recursos iniciais. A partir desta semana os políticos norte-americanos estarão a analisar a liberação dos US$ 350 bilhões adicionais. É certo que estes são necessários. Basta verificar os últimos números da economia americana. Um completo desastre. O principal problema reside no fato de que o compromisso do presidente eleito Barack Obama com a liberação dos recursos deve ser mínimo. Obama e seus asseclas não querem ter o menor compromisso ou desgaste com o programa lançado e administrado por George W. Bush. Nesta semana o mercado estará de olho neste fato. Como Rooselvelt e Eisenhower Barack Obama quer lançar um amplo conjunto de medidas para estimular a economia. Tal programa ainda não está delineado e não se sabe o montante dos recursos. Basicamente, Obama vai tentar resgatar a maior economia do planeta via um programa de obras públicas, sobretudo na área de estradas, reformas de prédios públicos para reduzir o consumo de energia e o setor de energia, revitalizando-o e reestruturando-o para fontes "limpas". Ora, Barack segue no bom caminho. O mesmo lançado por alguns presidentes há décadas. Rooselvelt lançou o New Deal com propostas baseadas no dispêndio público. Eisenhower foi o promotor da criação da interstate highway system, um sistema rodoviário que integrou o país. A cada notícia sobre os planos de Barack Obama o mercado há de reagir nas próximas semanas. É para se ficar atento. Mas não esqueça... Barack Obama tem toda razão quando afirma que "as coisas vão piorar antes que melhorem...". Os indicadores de produção, investimento e emprego nos EUA são calamitosos. Voltou-se a viver o cenário do início dos 70 e, sob alguns aspectos, retornamos aos 50 ! O mercado financeiro quebrou o setor real. A especulação deixou um rastro de destruição. Não tenhamos ilusões : sem a recuperação dos EUA não há recuperação no médio prazo na economia mundial. Mesmo que existam muitos a esconder esta realidade. Inclusive entre os que pertencem ao nosso governo... A dura vida real e os bodes expiatórios Lula é dado a improvisos. Às vezes, também, "escorrega" um pouco no linguajar. Porém, mesmo para esses padrões, ele extrapolou no "estilo" e nas metáforas quinta-feira no Rio diante de uma platéia de artistas e intelectuais. Para quem conhece bem o presidente, a "fuga ao normal" é fruto da tensão que ele está vivendo depois de ter constatado que a tal "marolinha" não é de fato uma "marolinha". E que o que foi feito por seu governo até agora é pouco. A notícia da demissão de 1.300 funcionários da Vale do Rio Doce foi um soco no estômago presidencial. Roger Agnelli, o presidente da empresa, é um modelo de empresário para Lula. Ou era ? Desde então, a mídia tem sido infestada de informações sobre novas ações do governo para evitar a queda acentuada do PIB e o aumento das dispensas no setor privado. Há um pouco de tudo no receituário : aumento do crédito com mais liberações dos compulsórios bancários, apoio a setores mais carentes e estratégicos, redução pontual de impostos, aumento do seguro desemprego. Incentivou-se até a bancada governista no Congresso a aprovar um velho projeto de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Parecem tiros a esmo, alguns balões de ensaio, nada que tenha certa organicidade. O que demonstra que o governo - ou pelo menos uma parte dele - acreditava mesmo nas fantasias da "marolinha", da blindagem e outras ficções. Alguma coisa pode sair esta semana, mas ainda para tapar buracos. E enquanto não se acerta a mão, o presidente continuará, a seu estilo, distribuindo culpas e penitências. Bem no estilo apregoado pelo ex-ministro Rubens Ricupero : o que é bom fui eu, o que é mal é dos outros.   Primeiro, os bancos A lista de "culpados" de Lula será (aliás, já está sendo) encabeçada pelo sistema financeiro privado. O presidente quer de seus assessores uma fórmula para forçar os bancos particulares a diminuírem os spreads e aumentarem a oferta de créditos. Não se descarte, também, algum aperto tributário em cima deles para compensar perdas com redução de impostos para alguns setores da economia. Óbvio que pode ser um tiro no pé. No entanto, nem todos no mundo da Fazenda Nacional entendem a correlação entre impostos e custos de serviços e mercadorias. Continuam achando que quem paga o tributo é o consumidor final.   Banco Central em xeque Está sobrando também para Henrique Meirelles e o BC. O Planalto, personalizado no caso pelo próprio presidente da República, não admite que desta vez o Copom faça qualquer movimento que não seja de baixa dos juros, ainda que simbólico. Nunca nos últimos anos os diretores do BC receberam pressões tão explícitas. Jornalistas "geralmente" bem informados na capital da República já anunciam, inclusive, que Lula está disposto a cortar as asas do BC, ou seja, a reduzir a autonomia de fato que concedeu às autoridades monetárias.   COPOM: tudo fica igual para ver como será Não são mais as commodities agrícolas, ou o petróleo, ou a demanda aquecida que estão a impulsionar a inflação para cima. Para quem tiver a curiosidade de ler as atas do COPOM de seis meses atrás verá que a avaliação da autoridade monetária mudou radicalmente. O mundo literalmente quebrou e o Brasil - que surpresa ! - é parte do mundo ! Neste novo contexto, o que está apontando para cima é a taxa de câmbio. O dólar permanece pressionado e seguirá assim por um bom tempo. Assim sendo, o sistema de preços será afetado pela alta do dólar, especialmente nos produtos comercializáveis (tradeables), que são aqueles cuja referência de preço é dada no mercado internacional. A demanda cai (e vai cair mais) e o dólar sobe. A rigor é isso que o BC estará a examinar mais detidamente. Como o santo é de barro e há argumentos para que se reduza ou suba os juros a nossa aposta é que a autoridade monetária vai deixar tudo como está. E rezar muito. Os juros na vida real Informação comentada por empresários na última sexta-feira em São Paulo, durante o encontro anual da indústria química : mesmo empresas top de linha estão pagando, em média, 130% do CDI para conseguir empréstimos bancários nos últimos dias.   Ainda os efeitos do dólar No mesmo evento, patrocinado para Associação Brasileira das Indústrias Químicas (Abiquim), alguns empresários, que trabalham no mercado interno e no mercado externo, não escondiam o temor de que o dólar possa chegar próximo dos R$ 3,00 antes de se acomodar em níveis mais condizentes com a realidade. A se verificar.   O mercado de ações Falar que o mercado acionário será volátil é quase uma obviedade. A BOVESPA deve continuar sem destino certo. A probabilidade de uma alta, contudo, é bem menor que uma baixa. O cenário econômico permanece em deterioração. Enquanto o mundo já está em recessão há cerca de um ano, por aqui a desaceleração econômica está em franco processo. O pior da recessão não chegou nem aqui nem lá fora. Por aqui as coisas vão piorar mais em termos relativos que lá fora.   A contribuição do PT Reunido em São Paulo, a principal corrente das muitas em que se divide do Partido dos Trabalhadores encontrou a solução para os problemas que nos afligem : o abandono do neoliberalismo que nos assola. É a chamada sessão nostalgia. A contribuição da oposição Alguém conhece, alguém viu ? Quem tem alguma pista, por favor, informe a esta coluna : onde está a oposição ? Prometemos divulgar com destaque. Um pouco de sinceridade Na essência sempre um jornalista, profissão que exerceu por muitos anos antes de entrar no mundo corporativo e agora no mundo político, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, não tem o cacoete dos habitantes desse seu último universo de brigar com os fatos. E contraria seus pares : 1. Reafirma que não acredita que a economia em 2009 possa crescer os 4% apregoados com insistência pelo ministro da Fazenda, embora não avalize totalmente visões pessimistas da situação. É bom que alguém diga tais coisas : otimismo demais pode gerar, quando gorar, perigosas frustrações. 2. Não esconde, diante de platéia de empresários, que no governo (nos governos, todos) acontecem coisas estranhas, papéis não andam, decisões anunciadas não são implementadas... Coisas da política dos políticos Até o início da madrugada desta terça-feira, 9 de dezembro, a informação oficial (?) era a de que o PMDB teria candidato próprio à presidência do Senado - e um dos nomes cotados seria o do ex-presidente da República e senador maranhense pelo Amapá, José Sarney. Alguém sabe dizer se hoje ainda é isto ? E se na semana que vem vai prevalecer o que for decidido esta semana ? E assim será até as vésperas da escolha definitiva, no início de fevereiro. Mas que o governo não fique angustiado : ao fim e ao cabo, o PMDB concederá a vaga a Tião Viana, do PT. Tudo é uma questão de conversar, de boas contas de chegar. Termômetros, barômetros e que tais A corrida presidencial está em pleno andamento, só não vê quem finge que não quer ver. Não há lance no tabuleiro político nem econômico que não esteja diretamente ligado ao calendário eleitoral de 2010, no governo e na oposição. Vejamos dois exemplos : Será lançada esta semana mais uma agência governamental de desenvolvimento. Precisamos de mais um órgão burocrático ? Dilma participou domingo de uma missa no interior de São Paulo. Com direito a discurso evangélico-eleitoral. São movimentos, no entanto, que ainda não indicam tendências. Quem quiser sentir mesmo o movimento dos ventos deve observar os minuetos do PMDB, da parcela majoritária do partido que tem a alma irremediavelmente governista. Eles nunca erram a canoa em que estarão nas vésperas da eleição. Hoje, o PMDB está aliado a Lula. Não é, no entanto, carnalmente lulista - aceita conversar. Sem glória Esta coluna não foi surpreendida com o adiamento, para março, da votação do projeto de reforma tributária. Nem será surpreendida se nada acontecer no ano que vem. E será bem melhor assim. A proposta oficial, turbinada pelo deputado Sandro Mabel, era simplesmente um desastre. Sem glória - 2 Esta coluna também não se surpreenderá se, no ano que vem, o Congresso discutir, discutir e discutir uma reforma política bem ampla e depois acabar aprovando apenas : 1. Financiamento público de campanha sem eliminar o financiamento privado e sem fechar as brechas para o caixa 2 e outras anomalias. 2. A "janela da infidelidade", um período no qual os políticos poderão trocar de partido, sem nenhuma justificativa e sem perder o mandato. 3. Fim da reeleição, com o aumento para cinco anos de todos os mandatos eletivos. Comerciantes do ensino Trama-se no Congresso Nacional, com generosos incentivos dos interessados, uma determinação impedindo o Ministério da Educação de divulgar os dados das avaliações feitas nas escolas particulares de ensino superior. A quem interessa ? Aos estudantes é que não é. À sociedade, interessada na qualidade do ensino no país, também não. Quem tem medo da avaliação ? Todas aquelas escolas - e não poucas - que, em lugar de se registrarem no MEC, deveriam ter seus registros apenas nas juntas comerciais. Os exames da OAB nos mostram tragicamente as razões dessa proposta que uma tal de Frente Parlamentar de Defesa do Ensino Particular está patrocinando. Não seria mais útil a criação de uma Frente Parlamentar de Defesa da Qualidade do Ensino ? E defender o aprofundamento das investigações, a divulgação ampla e irrestrita dos dados e o fechamento das escolas que tiverem, dois anos seguidos, notas baixas ?
terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 30

  A crise econômica bate na política É apenas aparente a tranqüilidade que o governo exibe de público a respeito dos efeitos da crise econômica mundial sobre a economia nacional. Faz parte do papel do governo tentar conter o pessimismo. Em muitos casos, as expectativas transformam-se em realidade. No íntimo, porém, a preocupação é grande. Não só pelos estragos que pode fazer na economia, ainda não totalmente mensuráveis, mas principalmente pelos desarranjos que pode provocar nos projetos políticos do presidente Lula e de seu partido, o PT - os outros partidos da base aliada podem pular do barco a qualquer hora. Lula sabe que boa parte de sua popularidade está ligada à boa fase econômica que o país vive, que permitiu a queda do desemprego e o aumento da renda dos assalariados. Não há nenhum milagre. Por isso, o quase "desespero" governista de encontrar fórmulas de combater os efeitos da crise sem ter de apelar para remédios muito amargos que impliquem pesados cortes de gastos ou sacrifícios em programas que ele considera essenciais. E a equipe econômica ainda não achou o roteiro do milagre. O que explica em parte certas tergiversações, certas vacilações e os desencontros de opinião entre o ministério da Fazenda e o BC. A política econômica do Brasil I Segue preocupante o andamento das políticas "anti-cíclicas" do governo Lula. Como ressaltamos por diversas vezes nesta coluna, isso não se deve propriamente ao fato de que as políticas de expansão do crédito sejam inadequadas. A questão vital é outra : falta uma política coordenada e integrada e não apenas partes dela. A cada dia a crise internacional se espalha por aqui e é preciso se antecipar aos seus efeitos. Veja o caso do setor agrícola, cujo crédito se contraiu velozmente no exato momento em que os preços das commodities em geral estão a despencar mundo afora. Há sinais de que as empresas supridoras de insumos agrícolas estão reduzindo o volume dos seus adiantamentos, os agricultores estão plantando menos e o segmento de implementos agrícolas está com a produção despencando, algo ao redor de 20% já nestes últimos dois meses. A política econômica do Brasil II Portanto, o ponto é que a discussão sobre a macroeconomia brasileira não se resume apenas à questão da taxa de juros ou dos investimentos do PAC. O governo Lula deveria criar um programa exclusivo para "tratar" da crise. Amplo e que mostrasse de maneira transparente e consistente o que está sendo feito para reduzir os efeitos da crise externa. Há também que se ampliar a despesa de comunicação social de forma a tentar influenciar todas as camadas da população em relação à deterioração de expectativas. O mercado está de olho na recessão... Os próximos passos do BC em relação à taxa de juros certamente não são o assunto mais relevante para o mercado financeiro e de capital. O que se está tentando estimar é o tamanho da crise. As notícias sobre vendas fracas em quase todos os setores econômicos estão assustando investidores e bancos. Estamos assistindo neste exato momento a mais uma rodada de contração de crédito, embora os números divulgados pelo BC ainda não evidenciem isso. A primeira rodada veio com a crise aguda dos bancos norte-americanos. Agora, os bancos estão a verificar que a crise está se espalhando rapidamente. Foi por esta razão que o crédito dos bancos privados subiu apenas 1,8% em outubro, comparativamente a setembro, e os dos bancos públicos aumentou 5,2%. ...e também no Copom Já começaram as apostas sobre como o Copom do BC se comportará na semana que vem, em sua última reunião do ano. Pelas últimas declarações de Henrique Meirelles, tudo deve ficar como está. O resto do governo, a começar do presidente Lula, porém, não concorda. Já se pôde ver nos jornais do fim de semana as pressões indiretas de sempre para forçar o diretores do BC a tocarem na Selic. Para baixo.   Barak já é Presidente ? As pressões para que Barak Obama lance um plano amplo e substantivo no sentido de conter a recessão estão aumentando mesmo que o presidente não tenha feito o seu juramento presidencial, previsto para o dia 20/1/09. O consumo e o investimento nos EUA estão a cair de forma acentuada e acima do esperado. Em outubro, o consumo regrediu 1%, o que somente ocorreu sete vezes desde 1959. A confiança dos empresários está no nível mais baixo dos últimos 25 anos e o investimento das empresas deve cair para patamares ao redor de 1980. Note-se que há pouco espaço para os governos de Estados e municípios americanos investir em função da Lei de Responsabilidade fiscal. Portanto, nada compensa no curto prazo. Barak agirá ? Há pontos a favor para que Obama apresente o seu plano de recuperação econômica. Fundamentalmente, é preciso evitar que as expectativas se deteriorem ainda mais e com mais velocidade, sobretudo após as festas de fim de ano. O outro lado da moeda é que uma decepção agora seria fatal para o governo do primeiro presidente negro da história dos EUA. Além disso, ao mesmo tempo em que há muito a ser feito pelo governo neste momento, há pouco espaço no orçamento das famílias para consumir. Estas estão endividadas e, muitas delas, desempregadas. Anote aí. O contexto para Obama é muito difícil e, sob muitos aspectos, é impossível. Assim, qualquer estratégia empresarial ou de investimentos pessoais tem de contemplar extrema atenção aos primeiros passos. Sejam os de agora, sejam os do futuro. Os EUA representam um quarto da economia mundial. É de lá que virão os sinais de recuperação ou depressão. A China será ou não o fator de aceleração deste processo. Dependendo do que acontecer a partir de Obama ficará mais evidente se a crise será séria ou trágica. Os bancos estatais Não é segredo para ninguém que o governo quer ampliar o poder e a participação dos bancos oficiais no sistema financeiro nacional. Está aí a MP 443 que não deixa ninguém mentir. O governo alega razões "técnicas" para incentivar a competição. Semana passada ele mandou o BB os spreads de seus empréstimos para forçar os bancos privados a seguirem a mesma trilha. O BNDES está muito perto de virar um "banco de varejo" nesta época de crise. Pode ser que as ações, emergencialmente, se expliquem. No longo prazo, há riscos. O uso político dos bancos estatais no Brasil é uma história recorrente, com prejuízos sempre pagos pelo contribuinte. Sabe-se que o Proes (dos bancos públicos) custou mais de cinco vezes o Proer (para os bancos privados). No último relatório do BC sobre o setor financeiro verificou-se a diferença entre uns e outros : a inadimplência nos bancos oficiais, em outubro, estava em 8,9% ; nos bancos privados nacionais em 4,8% ; nos bancos estrangeiros em 3,7% (aqui no Brasil, porque lá fora...). Banco do Brasil e as compras Ainda assim, a ansiedade na diretoria e no conselho do Banco do Brasil é gigantesca ! Há um enorme inconformismo com o fato de que o banco estatal não é mais o maior do Brasil. O Banco está planejando comprar outras instituições de forma agressiva para retornar a ser o primeirão da fila... Resta saber quais os riscos para os investidores em suas ações e para a Viúva. Petrobras e a falta de transparência A Petrobras é uma empresa estatal de capital aberto e tem de prestar todas as informações relevantes no que se refere ao seu desempenho operacional e financeiro. É claro que é preocupante que a estatal esteja recorrendo a empréstimos de curto prazo para pagar salários e impostos. Todavia, é comum que as empresas em geral recorram a tais empréstimos. O mais preocupante é que as notícias da empresa indiquem grandes investimentos, inclusive no "famoso" pré-sal enquanto lhe faltam recursos de curto prazo. Além disso, analistas e investidores estão preocupados com o aumento sistemático de despesas indiretas com pessoal e outros gastos da estatal. Num momento em que o preço do petróleo gravita ao redor de US$ 50/barril é bom ficar de olho : a Petrobras pode ser o novo "mico" do mercado de ações. Citibank : começou o processo de venda de ativos ? O Citibank anunciou que está vendendo a NikkoCiti Trust and Banking, uma pequena instituição japonesa que faz custódia e processamento de ativos do mercado financeiro. O ex-gigante banco norte-americano está lutando para equilibrar as suas cotações na bolsa bem como as suas finanças. A venda da filial brasileira é uma possibilidade, mesmo que não existam informações formais sobre o tema. Muita gente por aqui está de olho nesta oportunidade. Rubin, o bem pago O ex-secretário do Tesouro dos EUA durante a gestão de Bill Clinton, Robert Rubin, ganhou US$ 115 milhões - exclusive opções - para comprar ações desde 1999. Ele é membro do board do Citibank, um banco perto do colapso. Rubin é daqueles queridinhos do mercado financeiro e dos políticos (inclusive de Obama). Foi cotado para retornar ao Tesouro dos EUA. Recusou, é claro ! É mais fácil ganhar dinheiro num banco que, a despeito do fracasso, lhe dá excelente retorno.   As brigas na teles O mercado financeiro e o setor de telecomunicações foram bombardeados na semana passada com a notícia de que a Telecom Itália (TI) estaria disposta a vender a TIM no Brasil para suprir seu caixa. A informação foi prontamente desmentida aqui e não há indicações seguras de que isso esteja para ocorrer. De qualquer modo, há um nó na área de telefonia móvel no Brasil que precisará em algum momento ser desatado. A Telefônica é sócia da Vivo junto com a Portugal Telecom. Por estar também na TI, indiretamente participa da TIM no Brasil. Por um acerto com as autoridades brasileiras, a espanhola não tem ingerência na empresa brasileira. Em algum momento, porém, esta questão terá de ser resolvida. Sabe-se também que os portugueses não querem deixar a Vivo, mas não estão satisfeitos com a situação atual. Como isto tudo vai acabar ? Quem vai comprar quem ? Quem vai controlar ? Algumas das sugestões exigem alterações no marco regulatório da área celular. É possível ? Por que não, uma vez que já se cometeu um "casuísmo" para permitir a compra da Brasil Telecom pela Oi. É estranho o silêncio de algumas empresas da área, que inicialmente se puseram contra as alterações no PGO para beneficiar o negócio BrOi e depois estrategicamente se recolheram. As brigas com as teles As companhias telefônicas asseguram que não é significativo o número de insatisfeitos com os serviços que elas prestam, embora uma boa pesquisa nos cadastros dos órgãos de proteção ao consumidor não comprove tal informação. Agora, acaba de surgir uma outra pesquisa que também contraria a "tranqüilidade" das teles. No ranking do Yahoo! dos dez termos mais acessados de 2010, encabeçado por "BBB8", aparece, em décimo lugar a "portabilidade numérica". Ora, se há satisfação com o serviço, por que há tanta gente se informando sobre esta facilidade ? Outra pergunta : num mundo tão competitivo, por que as companhias não fazem campanhas agressivas para tirar consumidores umas das outras ? Em suma : quem tem medo da portabilidade ?   A Anatel e as conveniências do tempo Em abril, depois de selada a então proibida legalmente compra da Brasil Telecom pela Oi, a Anatel começou a analisar a alteração no PGO para tornar limpo o negócio. No fim de outubro terminou toda complexa análise do processo, um tempo recorde para suas ações até agora. Em junho, ela começou a analisar uma norma que proíbe as tevês por assinatura a cobrarem pelos pontos extras na casa. Já adiou duas vezes sua decisão, a última na semana passada, por noventa dias, que se extinguirão no fim de fevereiro. Levará mais tempo nessa questão tão mais simples do que foi a do PGO. Não se discute o certo e o erro das medidas aqui. Estranha-se apenas a presteza quando o negócio é do interesse de empresas e quando pode (não se diz que vai) beneficiar o consumidor.   Sem reforma tributária O governo vai passar o seu rolo compressor para tentar aprovar a proposta de reforma tributária em primeiro turno na Câmara esta semana. Vai ser apenas "para inglês ver", para ter um "troféu" para exibir mostrando seu esforço para combater a crise em vários campos. Será votado - se for - apenas o texto básico. Todas as emendas polêmicas, que alteram substancialmente o relatório do deputado Sandro Mabel ficarão para o ano que vem. De tudo o que está por lá, talvez só saia com rapidez uma anistia fiscal que o PMDB apresentou e que já não é tão combatida assim no governo. E sem reforma política Vem aí também esta semana o relatório da reforma política, preparado pelo deputado João Paulo Cunha. Ponto-chave : fim da reeleição com um mandato de cinco anos para presidente da República, governadores e prefeitos. É uma das apostas de Lula, mas a oposição e até parte dos aliados são contra. Exigiria muita barganha. Pode comover os deputados, pois seus mandatos passariam a ser de cinco anos. Do jeito que está morrerá no Senado : reduz os mandatos dos senadores de oito para cinco anos. Embora não prejudique "direitos adquiridos", não é uma sugestão popular em Brasília. Deve ir para o arquivo.
terça-feira, 25 de novembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 29

A crise é devastadora Depois da crise aguda do mercado financeiro durante os meses de setembro e outubro, é evidente que os efeitos colaterais são gravíssimos. A recessão está a se espalhar numa velocidade imensa nas principais economias mundiais. A reunião dos 20 países mais importantes, em termos econômicos, deixou evidente que uma articulação mais estruturada para superação da desaceleração econômica e da deterioração das expectativas parece distante. Os EUA desejam medidas fortes e reparadoras, mas que não mudem a "arquitetura do sistema". A Europa deseja avançar e forjar uma nova ordem que lhe seja mais favorável, mas o faz de maneira desarticulada. E os países emergentes, a despeito do melhor desempenho de suas economias, parecem incapazes de dar mais potência à demanda. Enquanto isso, o mundo está à espera de Barak Obama, como se ele fosse o Messias. Números desastrosos Os números da economia norte-americana são temerários. A deflação de cerca de 1% no mês de outubro e os pedidos de auxílio-desemprego - este indicador é o pior desde 1992 - indicam que a recessão nos EUA é feroz. Poucos se atrevem a ser enfáticos, mas o fato é que estamos a caminhar para um cenário de depressão. O próprio Obama emitiu sinais que suscitam o tremendo incômodo em relação ao desenvolvimento dos fatos econômicos. Obama pediu um plano de geração de emprego e parece intentar influir nos destinos econômicos desde já. Diante de um Bush apático e desacreditado, os agentes econômicos podem deteriorar as expectativas a ponto de inviabilizar as políticas de Obama no início de seu governo. Melhor agir agora, concluiu ele. Enquanto isso, no Brasil... ...Lula, a despeito de tudo, mantém a aposta de que a economia nacional, em 2009, emplacará um crescimento de 4% (no mercado, os tidos como mais pessimistas, falam em 2,5%). Para cumprir os desígnios presidenciais, o BC vai ter se virar com a taxa de juros. Crescer é mais vital do que se aferrar à meta inflacionária, avisam os seguidores de Lula. A meta central de 4,5% para os preços em 2009 está, digamos, "sub judice". Do ponto de vista essencialmente conceitual, não há razão para criticar o governo na sua tentativa de ativar a economia num momento de fraqueza. Ocorre que a lição de casa não foi feita. Este é o fato. Do ponto de vista fiscal, o Brasil apresenta um orçamento com excesso de despesas correntes e pouco investimento. Ao longo dos seus seis anos de administração Lula não fez absolutamente nenhum esforço considerável para aumentar o espaço de investimentos no orçamento. Portanto, ao disponibilizar recursos adicionais na tentativa de reativar o crédito, o consumo e o investimento, o governo está a gastar o que não tem. Na medida em que gasta muito com despesas, tem pouco o que investir. A contribuição da Petrobras O governo tem um trunfo para não deixar a inflação fugir muito do controle caso o câmbio pressione demais os preços e se decida mesmo não usar mais os juros para isso : os preços dos combustíveis. Os preços do petróleo despencaram mundialmente, mas a Petrobras continua com os valores antigos em sua planilha de custos, não ajustou os derivados à nova realidade. Tem, portanto, uma gordura a consumir para colaborar no combate à inflação. O problema é que isso pode descapitalizar a empresa, num momento em que ela está sendo obrigada a rever seus planos de investimentos e o último balanço, apesar do lucro, despertou desconfianças no mercado. Como diria o folclórico ex-presidente do Corinthians, Vicente Mateus, "é uma faca de dois legumes". Assim sendo.... Sem fatos substantivos novos tudo está a indicar que o cenário pode se deteriorar muito mais. O Brasil não será exceção neste processo. Será afetado. Ponto. Pode ser que seja impactado em menor grau, mas uma recessão mais aguda cabe perfeitamente como um cenário alternativo e bastante possível. Negar esta possibilidade dentro da conjuntura mundial é um erro estratégico. É preciso que o governo e a sociedade se movimentem para evitar uma deterioração substancial das expectativas. O resto é papo furado. Devagar com o andor da reforma Antes de comemorar os "avanços" contidos na proposta de reforma tributária aprovada semana passada na Comissão Especial da Câmara, aconselha-se aos mais apressados uma leitura mais atenta do relatório modificado no deputado Sandro Mabel. Para quem entende do riscado, há mais coisas para chorar do que para rir no documento. Sem contar que as questões mais polêmicas ficaram para serem decididas no plenário. É nesse momento que as pressões dos "cobradores" vão crescer. A reforma está sendo feita mais no interesses dos "arrecadadores" do que dos "pagantes". Há somente um consolo : o Senado só tratará do assunto no ano que vem. Quem sabe se até lá, premido pela crise, o mundo político resolva discutir uma reforma para valer, começando pela revisão dos gastos públicos, do custo do Estado. Gabinete de guerra ? Barak Obama vai formando o seu gabinete na tentativa de conciliar duas variáveis : a primeira diz respeito à unidade do Partido Democrata em torno do presidente eleito. Hillary Clinton para a Secretaria de Estado é apenas uma das iniciativas no intuito de obter consenso em prol da unidade. A outra variável diz respeito à necessidade de formar um time para sanear a economia norte-americana. A escolha de Timothy Geithner, atual presidente do Fed de Nova York e um dos articuladores do plano de resgate das instituições financeiras do país, como Secretário do Tesouro, e de Larry Summers, ex- Secretário do Tesouro, como chefe da assessoria econômica da Casa Branca, é uma tentativa de tranqüilizar o mercado. De fato, o mercado gostou e subiu velozmente na última sexta-feira quando do anúncio dos nomes do time econômico. Mas será suficiente ? Change can happen ? A julgar pelos arranjos políticos de Barak Obama para formar o seu gabinete com velhos falcões da política americana, o presidente eleito pode mudar de slogan. Forget what I told you ficaria melhor. O velho Maquiavel continua sendo o grande marqueteiro das eleições. Resgate do Citi não acaba com o medo Na semana passada, as ações do Citibank caíram mais de 60%. Os investidores estão descrentes na recuperação do banco e certos de que a melhor alternativa é a venda daquele ícone norte-americano ou o "fatiamento" de seus ativos. A atual cúpula do banco, liderada por Vikam Pandit, o atual CEO, tenta convencer a todos de que a situação é sustentável e que tudo está "OK". O resgate da instituição com o dinheiro da viúva (US$ 306 bilhões de garantias aos ativos de baixa qualidade mais US$ 20 bilhões em capital adicional) pode retirar os temores imediatos sobre o sistema financeiro. Todavia, não tenhamos dúvidas de que novos esqueletos podem sair do armário e provocar novas ondas de pânico. A verdade é que o Citi vale 30% do valor de seu grande concorrente o JP Morgan Chase e 50% do valor do Bank of America. Ou seja, é um alvo para aquisições. O Itaú-Unibanco está valendo US$ 27 bilhões, enquanto o Citibank vale US$ 34 bilhões. O primeiro tem suas operações concentradas no Brasil. O segundo atua em 106 países, uma franquia mundial. O caso do Citi representa com fidelidade o tamanho da crise dos EUA. Um ícone como ele está num momento tristemente simbólico. Nessa confusão, as operações do Citi no Brasil podem mudar de mãos, em mais um lance da acirrada disputa pela liderança do setor no Brasil. BNDES : é para se prestar atenção. Seria muito interessante analisarmos as demonstrações financeiras do banco oficial orientado para o desenvolvimento econômico e social (?). A instituição captou significativo volume de recursos em moeda estrangeira e os aplicou em projetos com diferentes perfis de rentabilidade. Como ficou o balanço do BNDES com os possíveis "descasamentos" entre os seus passivos e ativos ? Quais os efeitos da desvalorização do real frente às principais moedas internacionais para o banco ? Além disso, há a inadimplência a qual pode estar aumentando, inclusive vindo do exterior, como é o caso do Equador, país que acabou de informar pelos jornais que não pagará ao BNDES o empréstimo que financiou uma hidrelétrica. O BB, a Nossa Caixa e a sucessão Como desejava, o governador José Serra terá, em dinheiro vivo, antes de encerrar o seu mandato, todos os cerca de R$ 5,4 bilhões que caberão a São Paulo pela venda da Nossa Caixa ao Banco do Brasil. Parte do PT não gostou de ver engordado o caixa de um potencial presidenciável. Um caixa para investimentos em 2009 e em 2010 que já está bastante recheado. Lula, porém, preferiu perseguir o seu propósito - ideológico e pragmático - de retomar para o governo a liderança do sistema financeiro nacional. O confronto "gerencial" com Serra virá do PAC, cuja "mãe", a ministra Dilma Roussef, é cada vez mais a preferida de Lula para a sua sucessão. Os aliados e a cadeira de Lula A crise econômica - e também a insegurança em relação ao real potencial de angariar votos da ministra Dilma - está despertando dúvidas "cruéis" nos parceiros eleitorais de Lula. O PMDB, ao seu estilo, está cada vez mais reticente quanto a 2010, com um olho em cada direção. O PSB já voltou a falar em Ciro Gomes - por falar nisso, por onde anda ele? - e até no governador Eduardo Campos. O próprio PT não está ainda totalmente convencido da viabilidade de Dilma. Lula terá de fazer a sua vontade de fora para dentro. Antes de ir aos partidos, dever torná-la apetecível para o eleitor. No caso BrOi, faltou a atenção ao público A assinatura do presidente Lula no meio do feriado de quinta-feira (São Paulo e Rio estavam parados) à proposta de alterações no PGO das telecomunicações abriu caminho para uma dos maiores e menos transparentes parcerias público-privadas brasileiras : a compra da Brasil Telecom pela Oi. A concretização do negócio dependerá ainda de uma anuência da Anatel e do Cade, mas não se prevê nenhum obstáculo maior. A alteração no PGO já se fazia necessária há algum tempo, para adaptá-lo aos novos tempos tecnológicos. Estranha-se apenas a pressa com que foi elaborada e a motivação : validar uma negociação que, quando fechada em abril e até a semana passada era irregular. Inovamos também no campo do Direito. Do ponto de vista empresarial também pode fazer sentido o nascimento de um gigante nacional das teles, para conquistar ganhos de escala e poder competir com outros gigantes aqui e lá fora. Porém, toda transação, levou em consideração apenas os interesses dos "negociantes" - os controladores da BrT e da Oi, entre eles grandes fundos de pensão de empresas estatais, Sérgio Andrade e Carlos Jereissatti, que ficarão com o controle da futura BrOi, e alguns vendedores como o banqueiro Daniel Dantas e o grupo Citi, que sairão do jogo com uma boa bolada de dinheiro, entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões cada. E os consumidores ? Apenas de passagem se levou em conta o interesse de quem está do outro lado do balcão - os cidadãos e empresas que consomem este tipo de serviço. A concentração econômica pode não ser má, no entanto, precisa ser controlada. Nos EUA, permitiu-se a fusão de empresas nesta área, não sem antes aumentar a proteção dos consumidores. A FCC (a Anatel de lá) exigiu que as empresas cumprissem uma série de requisitos para melhorar a vida do distinto público. A Anatel pode redimir-se de sua submissão aos interesses dos compradores quando for, agora, analisar o pedido da anuência para a concretização, impondo contrapartidas reais à BrOi. Vai agir ? A real natureza da BrOi É exagero dizer que está nascendo uma supertele privada brasileira. O que teremos, na realidade, para usar um neologismo, é uma privatal. Um bom negócio privado, com recursos públicos em profusão. Na BrOi estão os fundos de pensão de estatais, dos funcionários do Banco do Brasil e dos trabalhadores da Petrobras, fortemente influenciados pelo governo e que envolveu essa força para forçar a solução que saiu. Depois o BNDES, com R$ 2,6 bilhões, e o Banco do Brasil, com R$ 4,3 bilhões, com juros abaixo dos bancos no mercado, emprestaram dinheiro aos negociantes para eles fecharem parte da compra. Num negócio privado calculado em R$ 13 bilhões, mais da metade (R$ 6,9 bilhões) sai indiretamente das burras da viúva federal. E, segundo alguns analistas, ainda poderá sair porque o mercado privado de crédito não está para brincadeira. Outras privatais passam pela cabeça dos estrategistas de negócios oficiais : uma superfarmacêutica, uma superbélica... Pergunta inocente Com a fusão, a nova tele terá alentados ganhos de escala. Transferirá parte deles, com serviços mais baratos para o consumidor, ou deixará tudo para os acionistas ? Por uma Anatel pública A autonomia e a imagem da Anatel, em que pesem os discursos de seu presidente, embaixador Ronaldo Sardenberg, saíram profundamente arranhadas do episódio BrOi. A influência do Palácio do Planalto e do Ministério das Comunicações em todo processo foi visível e nada sutil. Viu-se, como já aconteceu em outras ocasiões na Aneel, na ANP, na Anac que elas não são verdadeiramente agências públicas, mas em boa dose apêndices estatais. Olham mais para o interesse do governo do que os da sociedade. Por essas e outras (e outras, piores, certamente virão), o advogado Pedro Dutra, um dos nossos maiores especialistas em sistema regulatório, sugere alguns pontos a serem adotados. O objetivo é que a Anatel (e outras agências) torne suas ações mais transparentes e cumpra a parte de sua função que é proteger também o interesse público : 1. Abrir, tornar públicas, franquear as ações ordinárias da agência, a agenda de seus principais dirigentes e os processos administrativos em curso no órgão. A imprensa assiste às sessões decisórias do Cade. Por que não nas das agências reguladoras ? 2. Divulgar os dados de mercado das empresas do setor aos quais ela tem acesso, e são essenciais à defesa do interesse público e do interesse privado. A exceção ficaria para os dados cuja divulgação possa causar dano à empresa. 3. A Anatel deve prestar publicamente contas detalhadas de sua atuação uma vez por ano, num minucioso relatório de atividades. 4. Aperfeiçoar os mecanismos de participação social nos debates da agência, principalmente nas consultas públicas, com prazos de manifestação adequados ao tema em foco e com respostas detalhadas às sugestões recebidas. "A Anatel precisa caminhar com a sociedade. Mais do que nunca a sociedade reclama a regulação ativa e aberta do mercado" - diz Pedro Dutra.
terça-feira, 18 de novembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 28

G-20: poucos efeitos no curto prazo Muito embora devamos reconhecer que os resultados da reunião do G-20 na última sexta-feira e sábado tenham sido acima das expectativas, as medidas propostas terão poucos efeitos sobre as principais economias, sobretudo no que se refere à recessão que campeia mundo afora. As medidas (50) são na maioria de natureza "profilática", enquanto o fraco desempenho das economias é de natureza "endêmica". A reforma das principais instituições multilaterais (FMI, BIRD, BIS, etc.) é necessária desde o final dos anos 90. Naquela época, os principais líderes mundiais formaram uma equipe liderada pelo ex-presidente do Banco Central alemão Hans Tietmeyer para estudar tal reforma. Na prática nada ocorreu. Agora, é possível que a recessão tenha "educado" os líderes nesta questão. A hora das políticas nacionais As sugestões do G-20 são coisas para médio e longo prazo. E a crise está em ebulição. O momento é, portanto, das políticas nacionais, de cada governo assumir as suas responsabilidades perante os seus. No Brasil o desemprego começa a pipocar. Não é o caso de fazer terrorismo, mas o ritmo da economia está mais lento em quase todos os setores, não apenas naqueles que dependem desesperadamente de crédito. Passou meio despercebida a notícia, mas a gigante Vale do Rio Doce, em mais um passo para se proteger, na quinta-feira, discretamente, suspendeu festas, participação em eventos e similares e botou em banho-maria até o programa de estágios. Quando o governo (ou os governos, aí Estados e municípios também) começará a dar contribuições reais, com a própria carne, para melhorar o ambiente econômico nacional ?   A nossa visão sobre o mercado Conforme escrevemos nas últimas duas semanas, não acreditamos que o mercado acionário possa ter uma relação eficiente entre o retorno a ser auferido e os riscos presentes no mercado. As ações terão um desempenho errático e o retorno será no máximo "zero". Em relação aos juros domésticos acreditamos na estabilidade no atual patamar de mercado. O câmbio deve oscilar na faixa de US$ 2,20-2,50. Maior risco, maior será a desvalorização do real. É a taxa de câmbio o melhor termômetro desta crise para o Brasil. O momento é o da renda fixa. Com o respaldo de um sistema financeiro hígido, coisa que lá fora não se tem por enquanto.   Briga pela moeda Por detrás da reforma das instituições multilaterais há uma questão muito mais importante : se o dólar continuará a ser a moeda-reserva dos investidores mundiais. Contra o dólar conspiram (1) a fragilidade dos bancos norte-americanos, (2) a falta de liderança política dos EUA, (3) a recessão (que pode ser longa e mais profunda) e os abalos das instituições reguladoras em especial o Federal Reserve. A favor os EUA têm (1) a posição geopolítica e militar, (2) a diversidade da economia do país, sobretudo no segmento industrial, (3) a falta de dinamismo da economia européia, cuja moeda seria a substituta do dólar como moeda-reserva e (4) a capacidade da América em se renovar. Bem pesados os prós e os contras, podemos arriscar : o dólar prevalecerá. Petróleo e os populistas Prestemos atenção redobrada para as bravatas do populista Hugo Chávez. Com o petróleo gravitando entre US$ 50-60 o espaço político para que o venezuelano se sustente politicamente se reduziu drasticamente. O mesmo raciocínio vale para Evo Morales e Rafael Corrêa. O petróleo e os populistas - 2 Com a queda dos preços e a crise econômica (sem contar o balanço da Petrobras que, bem visto, deixou preocupações), arrefeceu a festa do pré-sal brasileiro. As propostas para o modelo de exploração das anunciadas fantásticas reservas nas águas mais profundas de São Paulo, Rio e Espírito Santo, que deveriam ter sido anunciadas até setembro, foram adiadas para outubro e talvez não saiam nem em dezembro. Aliás, como anotamos em uma coluna semanas atrás, o entusiasmo inicial deu lugar a certo realismo, que estava faltando até então. Um problema para a campanha da preferida de Lula, Dilma Roussef. Junto com o PAC, o pré-sal e sua sonhada renda antecipada estavam na lista dos motes eleitorais da candidata à candidata à sucessora de Lula. Nem todos no PT estão tristes com esta situação, no momento.   O PT e a sucessão presidencial Se o leitor quer saber o que uma parcela do PT pensa da candidatura de Dilma Roussef à cadeira de Lula no Planalto, deve ler o que o ex-ministro José Dirceu escreveu logo depois que, em jornais italianos, o presidente Lula, "sem querer, mas querendo", confirmou que a ministra-chefe da Casa Civil é sua xodó. Vale a pena repetir : "Há meses o presidente Lula tem permitido que a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República seja apresentada ao país como a sua candidata em 2010 ao Palácio do Planalto. Agora, em Roma, deu declarações que a imprensa italiana tomou como definitivas, como se ela já fosse a candidata, o que, como sabemos, não depende somente do presidente, por mais importantes que sejam sua indicação e apoio. Claro, temos todos a exata noção de que a candidatura a presidente em 2010 depende, em primeiro lugar, do PT e, mais do que isso, dos partidos historicamente aliados à nossa legenda, o PSB, o PC do B e o PDT, além de ser necessário levarmos em conta força política, parlamentar e eleitoral, principalmente do PMDB. Temos ainda três partidos que têm apoiado os governos Lula : em primeiro lugar o PRB (ex-PL), aliado da primeira hora em 2002, que por duas vezes indicou o companheiro de chapa de Lula, o vice-presidente José Alencar, a quem devemos e muito; e mais o PTB e o PP, aliados em nível nacional, ainda que o PP seja um aliado mais do PSDB e DEM nos Estados e municípios. Uma candidatura como a da ministra Dilma Roussef, que tem história, experiência política, de governo, conhecimentos, enfim, tudo para ocupar o cargo de presidente da República, não se constrói facilmente, nem no PT, nem na base aliada. Fora o dado de que estamos há dois anos das eleições. Assim sendo, é preciso que o PT e suas bancadas assumam a sucessão presidencial e as eleições de 2010, sem deixar de priorizar as tarefas do momento, seja na construção partidária, seja na (construção) dos governos municipais que vai assumir, seja no enfrentamento da crise que apenas começou.". Europa: recessão vai se aprofundar Analisados de forma detalhada os números de desempenho do PIB e da indústria européia conclui-se que a fraqueza do desempenho se deve, sobretudo, ao setor externo. Assim sendo, a "contaminação" da economia se dará de forma mais acentuada a partir de agora quando o consumo doméstico do Velho Continente vai cair mais e mais. O pior ainda está por vir. China: estímulo pequeno Depois da divulgação do plano de estímulo ao consumo e investimento interno da ordem de US$ 586 bilhões, muito analistas se debruçaram sobre os números e planos. A conclusão é que, embora o plano seja correto do ponto de vista macroeconômico, é pouco provável que a economia chinesa possa compensar as perdas externas por meio do consumo interno. Trata-se de uma péssima notícia para quem crê numa recessão mais curta. Berlusconi, um cara de pau O premier Silvio Berlusconi é daqueles políticos que aonde vai deixa rastros de besteiras ditas e feitas. A última bobagem do primeiro-ministro italiano foi tentar defender a liderança do G-8 sobre os países que compõem o G-20. A justificativa é de que a "democracia nos países mais ricos é mais consolidada". Ora, mesmo que reconheçamos que a democracia é valiosa, chega a ser irônica a referência do italiano, cujo país é o mais recessivo da zona do euro e os atentados à democracia italiana se devem à presteza de Berlusconi em mudar regras eleitorais, manipular os órgãos de imprensa, estimular grupos radicais, etc. Quem é o maior destaque ? Há várias suspeitas contra o delegado da PF Protógenes Queiroz e o diretor da ABIN Paulo Lacerda sendo investigadas. Esperemos que finalmente se chegue a uma conclusão sobre a culpa ou inocência desta dupla. Todavia, não deveríamos esquecer que acerca do Sr. Daniel Dantas há muito mais evidências sobre a sua criminalidade que no caso dos dois delegados. Proporcionalmente, é estranho que a imprensa dê mais destaque as eventuais "culpas" dos delegados que aos crimes (prováveis ?) do Sr. Dantas. Um caso sério de polícia Já passaram de todos os limites as disputas de poder, egos, vaidades e outras "coisitas más" envolvendo a Polícia Federal e a ABIN e a PF e a PF. Está uma balbúrdia, com claros sinais de insubordinação. Há riscos sérios para a sociedade e para a, vá lá, governabilidade, dada as delicadas funções (e poderes ao vivo e ocultos) das instituições envolvidas. O presidente da República não pode fingir que não está vendo.   Lula, Serra e a Nossa Caixa Há dificuldades para que a Nossa Caixa seja transferida para o Banco do Brasil. De natureza política (aprovação na Assembléia Legislativa, por exemplo) até de natureza operacional (ritos no Banco Central). Mas, estas dificuldades são pequeninas frente a boa-vontade de Lula e Serra em fechar o negócio. Aliás, o negócio está quase fechado. Todavia, é certo que um leilão das ações da Nossa Caixa hoje proporcionaria um belo lucro ao Tesouro paulista. A fusão entre o Unibanco e o Itaú certamente estimulou os grandes bancos a crescerem via aquisições. Por que Serra abdicaria deste lucro extraordinário ? A Nossa Caixa e o dilema de Lula O presidente da República não vai descansar enquanto não fizer de novo o Banco do Brasil a maior instituição financeira nacional. É uma decisão política, não necessariamente técnica ou do interesse geral do país e dos acionistas do BB. Não pega bem Lula deixar o banco atrás do nível do Itaú-Unibanco depois de ter decepado a candidatura de Geraldo Alckmin com a acusação de que o tucano privatizaria o BB (e a Petrobras). Os sindicalistas oficiais não o perdoariam. Mas nesse afã Lula está irrigando os cofres de seu possível "adversário" em 2010 - o governador José Serra. Serra com esse dinheiro - algo que pode passar dos R$ 7 bilhões - pode engordar seu ambicioso programa de investimentos públicos em São Paulo no biênio 2009-2010. Mesmo sem esse dinheiro, Serra tem mais no Orçamento estadual para aplicar do que o PAC. Com ele... Por isso, segundo fontes em Brasília um dos entraves ao fechamento do negócio, além dos apontados na nota acima, está a forma de pagamento - à vista ou em suaves prestações ?; em títulos ou em moeda sonante ?   Etanol : Obama entre os magnatas do petróleo e do milho É muito improvável que o presidente estadunidense eleito Barak Obama cumpra os seus projetos de comprar mais etanol brasileiro para reduzir a dependência do petróleo do Oriente Médio. Ao longo da semana passada, os jornais norte-americanos indicaram que Obama começa a se tornar mais suscetível e pragmático em relação ao lobby do setor de energia (leia-se, os magnatas do petróleo). Os planos em relação ao etanol ficaram bem inferiorizados frente ao poder dos petroleiros. E também dos produtores de milho. Lula e Obama Lula fez questão de ressaltar a torcida para que Obama ganhasse o pleito nos EUA. O presidente brasileiro utilizou-se de argumentos, digamos, bastante juvenis para justificar tal postura. Será interessante verificar como o presidente encarará as políticas protecionistas de Barak Obama em relação aos produtos brasileiros. Ficará Lula tão entusiasmado com tais políticas quanto ele esteve em relação à campanha do democrata ? "Pilantropia" premiada A MP da Filantropia é uma dessas homenagens que o setor público presta, periodicamente, aos espertinhos de sempre. A propósito de evitar problemas para algumas entidades realmente sérias, beneficentes de fato, vai-se anistiar um montão de "pilantropos", gente que usa isenções fiscais e outros benefícios públicos em proveito próprio. Ela não deveria nem ter nascido como nasceu. E o Congresso, se decência tiver, simplesmente devolverá a MP, sem considerá-la. Ela, porém, tem bons padrinhos : nasceu e cresceu nos corredores do Ministério do Trabalho, na época em que seu titular era o atual prefeito eleito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho. Reforma tributária em xeque Para melhorar o ambiente econômico, o governo quer ver aprovada até o fim do ano, pelos menos em primeiro turno na Câmara dos Deputados, a reforma tributária com o substitutivo preparado pelo relator Sandro Mabel. O deputado Antonio Palocci, presidente da Comissão Mista que analisa a proposta, em linha com este desejo quer votar o relatório amanhã. Seria meritório, se fosse uma proposta de boa qualidade. Pelo menos para a sociedade não é. Só um dos senões, como exemplo : ela cria a possibilidade de criação de contribuições (de fato, impostos) por lei complementar, ou seja, com um quorum de votação relativamente baixo. Outra : deixa também para a legislação complementar a definição das novas alíquotas do ICMS revisado. E mais : dá aos governadores o poder de aumentarem algumas alíquotas do ICMS para compensar possíveis perdas da receita com as mudanças das regras do imposto. Socorro ! Em tempo : 16 governadores já se manifestaram por escrito contra o relatório de Mabel. Mas não em razão dos defeitos acima. Eleições complicadas Não será tão fácil como se imaginava anteriormente fechar um acerto na base aliada do governo em torno da escolha dos presidentes da Câmara e do Senado. As conversas estão envenenadas pelas disputas dentro do PMDB, das divergências entre PT e PMDB e pelos cálculos visando à sucessão de 2010. O mais provável ainda é que Lula consiga compor com o PMDB na Câmara e o PT no Senado. Mas o custo da transação está ficando muito alto. E surpresas do tipo Severino Cavalcanti não podem ser definitivamente descartadas. Olho vivo Algumas empresas de telefonia celular, usando como mote a crise econômica, estão querendo que o governo lhes dê mais prazo para pagar as licenças do sistema 3G que elas adquiriram no início do ano. Ou isso ou um financiamento estilo BNDES, diferente do que está no contrato de licitação. Há dois empecilhos : a Claro, do mexicano Carlos Slim, já pagou a sua parte. Outro, mais perigoso : se o governo ceder a mais um setor, não parará mais. Já foi a construção civil, a indústria automobilística... Tudo justificado, mas de onde vai sair tanto dinheiro ? Bônus dos Wall Streeters: fim de uma era ? Numa surpreendente decisão, os sete principais executivos do banco de investimento Goldman Sachs abdicaram de seus bônus em 2008. O montante a ser retido pelo banco é da ordem de US$ 4,2 milhões. É incerto se outros bancos de investimento, cujos resultados têm sido sofríveis e o desempenho das ações é desastroso, vão seguir o exemplo da Goldman. A principal questão por detrás do tema é o fato de que não é razoável que os executivos do sistema financeiro percebam volumosos bônus enquanto o Tesouro norte-americano injeta recursos para salvá-los. Desde o começo de 2002, os principais bancos de investimento dos EUA no período (Goldman Sachs, Merrill Lynch, Bear Stears, e Morgan Stanley) pagaram US$ 312 bilhões em bônus para seus executivos. Investidores e, neste momento, pagadores de impostos começam achar tudo isso exagerado demais. Muito exagerado.
terça-feira, 11 de novembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 27

A supertele está muda O ministro Hélio Costa e os negociantes da compra da Brasil Telecom pela Oi continuam garantindo que o negócio sai a tempo e a hora, como reza o acordo firmado em abril passado, com data para conclusão nas vésperas do Natal. Com diria Caetano Veloso, pode ser que sim, pode ser que não. E está mais para não, embora o governo esteja cumprindo seu papel. Até o fim do mês, Lula assina o novo PGO e o negócio, realizado até aqui ao arrepio da lei, torna-se legal. Até este ponto, todas as partes cumpriram o script: Oi e BrT e - o sócio oculto (aliás nem tão oculto) - o governo federal, por meio do BNDES, do BB e dos fundos de pensão das estatais. Quem não colaborou mesmo foi a economia. Supertele: as pedras no caminho As dificuldades externas, o crédito escasso e mais caro, e o mergulho do mercado acionário tornaram o acordo um risco. Esta é a verdade. 1. No mercado de ações, a Brasil Telecom vale pouco mais da metade do que a Oi se comprometeu a pagar. E a recuperação do valor será demorado, se vier um dia a chegar ao ponto que estava.2. A Oi conseguiu levantar, com a preciosa contribuição do BNDES e do BB, cerca de metade apenas dos poucos mais de R$ 12 bi que terá de desembolsar ao final. O restante viria de financiamentos de instituições financeiras privadas. As condições, porém, mudaram. História mal explicada Sempre que alguma coisa ameaça emperrar as mudanças no PGO, essenciais, como se sabe, para o batismo da BrOi, um porta voz dos negociantes do lado da antiga Telemar lembram que, se nada for concretrizado até o Natal, a empresa terá de pagar uma pesada multa. Um advogado, especialista no assunto, assegura que não é bem assim. O prazo é prorrogável e a punição perfeitamente negociável. A concorrência preocupa Executivos das duas companhias negociantes, principalmente da compradora Oi, dizem que não pretendem abrir ou reformular o contrato caso algum empecilho ao negócio por atrasos na nova PGO ou por causa das dificuldades de cunho econômico. A questão é outra: eles temem que qualquer modificação no acordo, depois da PGO aprovada, abra brechas para outras companhias tentarem entrar no negócio. Carlos Slim não está nesta vida para brincadeiras. Tem gente que já ganhou Qualquer que seja o desfecho desse negócio do qual deve nascer a primeira "privatal" brasileira - primeira empresa privada nacional com dinheiro oficial majoritário - já há dois ganhadores certos no esquema: Daniel Dantas e Citibank. O cerca de R$ 2 bi que o BNDES liberou para os empresários Carlos Jereissati e Sergio Andrade, controladores da Oi, foi para comprar a participação de Dantas e do banco americano da Brasil Telecom. A isto se chamou, eufemisticamente, reestruturação acionário da BrT. O pacote chinês Trata-se de um "New Deal" bem chinês o pacote de estímulo econômico do governo de Pequim. Cerca de US$ 600 bi de gastos públicos destinados aos setores de moradia, infra-estrutura, agricultura, saúde e aposentadoria. Representa algo como 16% do PIB do país e é como se o governo gastasse em dobro o orçamento do ano passado. Tudo isso para estimular o consumo doméstico no país comunista. O pacote foi recebido com certa euforia mundo afora. Faz todo o sentido do ponto de vista macroeconômico. Todavia, será um teste e tanto, pois se trata da primeira vez em que os chineses fazem algo deste porte voltado para o mercado doméstico. Um teste que medirá o grau de disposição da China em reduzir seu superávit externo e utilizar recursos de orçamento e reservas para aumentar o consumo (capitalista?). Para a AIG, com carinho e com afeto... Vai chegar a US$ 152 bi a ajuda do Tesouro norte-americano à seguradora AIG. Que condições maravilhosas a seguradora encontrou junto à viúva: US$ 60 bi em empréstimos de cinco anos, com juros de Libor + 3% ao ano. Um espetáculo. Estes recursos se somam aos outros US$ 85 bi já disponibilizados pelo Tesouro. Além disso, a AIG terá mais US$ 40 bi de recursos por meio de emissão de ações que serão compradas (adivinhe?) pela viúva. É o Tesouro patrocinando a salvação da irresponsabilidade construída por anos. Note-se que a administração da empresa era considerada uma das mais arrogantes dentre as grandes companhias norte-americanas. Itaú Unibanco: as perguntas que faltaram... A entrevista de Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles à revista Veja foi muito esclarecedora sobre as razões, digamos, estratégicas da fusão. Sobretudo, no que tange à necessidade de porte internacional de ambas (agora uma só!) instituições. Duas perguntas mereceriam ser formuladas naquela entrevista: a primeira seria sobre o destino dos funcionários das instituições. A segunda sobre a concentração no mercado financeiro brasileiro. Uma sobre a classe que deve ser a maior "variável" dos ganhos de eficiência da fusão e outra sobre o chamado "cliente" que paga as taxas bancárias. Nem tudo está claro Muitos economistas e especialistas em concorrência estão preocupados com o processo de concentração bancária em curso no país, principalmente depois que o BB (este em especial) e o Bradesco forem às compras. Se a aprovação das fusões depender apenas do BC, acredita-se que tudo fluirá naturalmente. Se tiver de passar pelo Cade pode haver embaraços. Porém, esta questão não está bem resolvida, é motivo de antiga disputa entre o BC e o Cade. O STF pode ser chamado a dirimir a dúvida definitivamente. Ações: daqui para o final do ano Nunca acreditamos que a crise "aguda" do sistema financeiro internacional fosse prenúncio apocalíptico. Acreditamos, há algumas semanas, na recuperação dos mercados acionários, em especial, o do Brasil. Agora, é hora de sabermos como os governos das potências capitalistas darão "tratos a bola" da recessão. Não gostamos de previsões, mas vamos dar mais uma opinião sobre o mercado acionário brasileiro. Daqui até o final do ano, o retorno das ações não deve compensar os riscos do mercado acionário. No máximo, o mercado "anda de lado". É mais provável que caia de forma menos aguda, mas significativa (acima de 10%). Hércules e Obama Hércules, o herói mitológico grego, andava por aí com a pele de leão e a clava. Com a pele bronzeada, tinha um corpo que deitava imaginação sobre a sua virilidade. Usava umas trapaças e uns "jeitinhos" para alcançar os seus objetivos. Ficou conhecido como um herói que "deixou o mundo mais seguro". Fez os seus doze trabalhos a partir de uma "orientação" do oráculo de Delfos e, aparentemente, era uma penitência por Hércules ter matado os seus filhos do primeiro casamento. Obama é um herói (de pele "bronzeada" como disse o ($%@*) primeiro-ministro italiano Berlusconi) que não fez nenhum trabalho até agora. Terá de fazer mais de doze. A penitência que seu governo terá pagar se deve ao oráculo de Wall Street que deixou uma vasta destruição, fruto da irresponsabilidade coletiva do sistema financeiro. Obama poderá usar "jeitinhos" bem dispendiosos para o Tesouro, mas os truques têm limites de aceitação pelo Congresso. Normalmente, os heróis são forjados pela luta. Obama forjou-se na campanha. Será que se tornará um herói no governo? Ambiente em Londres Estivemos na Capital inglesa na semana passada conversando com homens de negócios. Destes que têm de decidir sobre demissões em massa, renegociar contratos, buscar financiamentos e tratar os acionistas (irritados e nervosos). A recessão esperada é monumental. Todos eles se questionavam se teremos uma crise passageira (dois, três anos) ou algo de "estilo japonês" (dez ou quinze anos). O Brasil é um detalhe no processo. Um pequeno detalhe. Tão pequeno que cortar investimentos no país é coisa simples para eles, mesmo que dramático para nós. A verdade é que todos no primeiro mundo estão perplexos com as mazelas que eles mesmos criaram. G-20, um novo Bretton Woods? Há excesso de expectativas em relação às políticas Keynesianas que estão sendo propugnadas pelos governantes de todo o mundo. Essa reunião do G-20 (ou G-13 ou G-14) não é uma reunião de coordenação como consta nos jornais. Os EUA, meio acanhados pelo tamanho do tropeço que levaram, desejam garantir que o mundo todo, inclusive os países emergentes, continue a financiar a maior potência do mundo. Com suas fartas reservas eles têm de manter a vela acessa para iluminar as esperanças de uma recuperação mais rápida. Nada devemos esperar destas iniciativas. O fato importante é verificar se Obama vai liderar um (novo) processo concertado das nações. Isso será sinalizado nas próximas semanas com a formação do gabinete estadunidense e será implementado ao final de janeiro, no início do novo governo. Ratings: novos sinais A agência classificadora de riscos Fitch rebaixou de "estável" para "negativo" a avaliação de risco da Coréia do Sul, do México, da Rússia e da África do Sul. O Brasil manteve a sua classificação "estável". Um bom sinal, sem dúvida. Este não será o único movimento das agências de rating. Ao contrário: devemos nos preparar para fortes ajustes nas classificações de países e, sobretudo, de empresas. Quem tem a força? Fausto De Sanctis está sendo julgado no Judiciário e poderá até ser afastado do caso Satiagraha. O delegado Protógenes de Oliveira, responsável inicial pelo inquérito, poderá ser indiciado a pedido da própria PF. A Operação Satiagraha, aquela que levou à cadeia, entre outras, os empresários Daniel Dantas e Naji Nahas e o ex-prefeito Celso Pitta, está sendo totalmente refeita segundo o ministro da Justiça, Tarso Genro. Alguma dúvida de que a pergunta acima é totalmente pertinente? Convivência impossível? Está cada vez mais deteriorada a relação entre a PF e a Abin. Não é também das melhores a convivência entre os dois grupos em que se divide a PF atualmente, o do ex-diretor Paulo Lacerda e o do atual comandante, Luiz Fernando Corrêa. Eles estão mais se investigando e se digladiando do que qualquer outra coisa. O resto do governo observa, como se nada demais estivesse ocorrendo. Nada como viver num país pronto e acabado. "Desabrida imprudência" Algumas expressões usadas em um debate segunda-feira na FGV/SP a respeito do sistema regulatório no Brasil, a atuação das agências nacionais e o que está ocorrendo atualmente com elas, principalmente na Anatel, pelo advogado Pedro Dutra, especialista no tema: "desabrida imprudência", "desfaçatez", "irresponsabilidade". Nada como viver num país pronto e acabado. De feitiço e de feiticeiros À luz do dia, com o aval do Palácio do Planalto, a bancada do PT na Câmara faz juras de amor à candidatura do presidente do PMDB, Michel Temer, à presidência da casa. E até aceitando a tese peemedebista de que essa disputa na Câmara não tem nada a ver com a do Senado, onde o PMDB não quer dar a vez agora ao PT. Por baixo do pano, petistas qualificados estão vitaminando pretensões do deputado Ciro Nogueira, o candidato do chamado baixo clero, o mesmo que nos deu um dia o inefável Severino Cavalcanti. Cuidado com a reforma - 1 O governo voltou a acenar com a possibilidade de aprovar, até o primeiro semestre ao ano que, a encantada e sempre louvada reforma política. A nova proposta sairá da fábrica de projetos do ministério da Justiça. Vem ambiciosa. Aos poucos será desidratada e poderá conter no final apenas a criação do financiamento público de campanha e um atalho para contornar a fidelidade partidária. E alguma modificação na sucessão presidencial: fim da reeleição, mandato de cinco anos e coisas tais, piores. Não há risco de melhorar. Cuidado com a reforma - 2 Devemos ao repórter Ribamar de Oliveira, do "Estadão", a revelação de que o substitutivo do deputado Sandro Mabel ao projeto de reforma tributária em tramitação no Congresso, influenciado diretamente por Palocci, embute a possibilidade de o governo criar dois novos impostos para financiar "programas sociais": um sobre movimentações financeiras e outro sobre grandes fortunas. Ambos por lei complementar. Ao mesmo tempo, os líderes governistas começaram a se movimentar esta semana para votar em segundo turno na Câmara a CSS, idealizada para substituir a extinta CPMF. Não há risco de melhorar. ____________
terça-feira, 4 de novembro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 26

Mercado volta os olhos para a recessão Nas últimas duas semanas ficou mais claro que os mercados financeiros (internacional e local) estão mais calmos no que se refere à crise de crédito e aos impactos sobre as instituições financeiras. A injeção de mais de US$ 3 trilhões de liquidez, equivalente a 25% do PIB norte-americano, garantiu a tranqüilidade. É até possível que todo o arsenal utilizado pelos principais bancos centrais do mundo e pelos respectivos governos nem venha a ser totalmente utilizado. Há muito de psicológico nas crises em geral, e nas financeiras em particular. O pânico é um fenômeno bem conhecido, mas sempre que ocorre parece ser a primeira vez. E o pânico não dura para sempre num mercado cujo pilar é a racionalidade. Assim como a racionalidade não dura para sempre... De agora em diante o mercado, os investidores e os governos estarão de olho na recessão que ainda está a se implantar nas principais economias e cuja magnitude ainda não é conhecida. Assim como também não é conhecida a magnitude dos efeitos sobre as economias periféricas, como no caso da brasileira. Isso tudo indica que a volatilidade vai cair em relação às semanas anteriores, mas continuará relativamente elevada frente aos meses anteriores. A tática brasileira O governo Lula já definiu - até prova em contrário - como vai tentar enfrentar a possível queda da atividade econômica em nossas plagas: apoio aos setores mais complicado e mais estratégicos - além do mercado financeiro, a construção civil, as indústria automotiva, a área agrícola, as micro e pequenas empresas - e muita, muita atividade estatal. A redução do superávit primário de 4,3% para 3,8% do PIB e até para menos se for necessário já é uma decisão. Está sendo chamada de ação anticíclica. Segundo um bom número de especialistas, se os gastos privilegiarem os investimentos, ótimo, é uma grande ajuda. Se for para custeio, para os gastos correntes prioritariamente, o Palácio do Planalto pode estar "construindo" um desastre. Tipicamente brasileiro, nada a ser cobrado "do Bush". Como pano de fundo da tática palaciana, as eleições de 2010. O governo está com um olho na economia e os dois, com lupa, na política.   Obama não é o Messias Barack Hussein Obama pode até parecer nome de profeta, mas ele não é. Pode vir a ser um estadista. Mas isso ele ainda não é. Pode parecer um extraordinário político internacionalista. Mas ainda não é. Pode parecer um grande estrategista. Mas ainda não é. Pode parecer o ressuscitador da economia norte-americana. Mas ele ainda não é. Será o Messias? Não é. Esperemos a sua possível vitória no pleito e o início de seu governo para verificarmos se ele está à altura do ícone que ele construiu para si mesmo. Com a condescendência do mundo. O mundo, mais do que os EUA, está esperando de Obama o que ele talvez não possa dar. Em busca de um herói O provável presidente dos EUA é Obama. Todavia, a pergunta que se faz em Wall Street e mundo afora é: quem serão as personalidades que liderarão a área econômica dos EUA neste momento crucial? O mercado não quer apenas alguém "preparado" e "competente". Quer um herói.  Outra incógnita Uma outra incógnita: qual o Congresso sairá das urnas americanas deste novembro. Sabe-se que será democrata. Mas com qual proporção. Em princípio não é para causar entusiasmos. Tradicionalmente, os democratas são bem mais protecionistas que os republicanos. O ideal: uma Câmara e um Senado mais ou menos equilibrados, sem uma hegemonia muito forte dos aliados de Obama. Fusão Unibanco e Itaú I Não se pode dizer que a fusão dos dois bancos foi surpreendente. Há muito se comentava em voz alta que o Unibanco em algum momento iria parar nas mãos de seus concorrentes, como parte da consolidação do setor financeiro e mundial. A fusão do Unibanco com o Itaú foi uma saída muito positiva para todos os acionistas, não somente os controladores, mas também os acionistas de mercado (que usualmente são erroneamente chamados de "minoritários"). Os dois bancos juntamente terão ativos da ordem de R$ 580 bilhões e um patrimônio líquido de R$ 51,7 bilhões. O lucro líquido combinado seria de US$ 8,1 bilhões. Dados de setembro deste ano. Há importantes ganhos de escala a serem apurados na consecução final das operações. Todavia, o maior ganho é estratégico. A nova instituição, a Itaú Unibanco Holding, será a maior no hemisfério sul e terá capacidade de competir internacionalmente. Fusão Unibanco e Itaú II As instituições informaram que os bancos vinham negociando há 15 meses a fusão. Não se sabe ao certo o porquê de somente agora o acordo ter sido fechado. Porém, é razoável especularmos que a atual crise financeira mundial deve ter colaborado para que as conversas evoluíssem. A fusão do Santander com o ABN Real deve ter colaborado também para que tudo andasse mais rápido. O capitalismo faz os capitalistas pragmáticos. Jogos não-colaborativos em colaboração total. No caso do Unibanco, a instituição dos Moreira Salles vinha sofrendo muito nos últimos dias com insistentes boatos de problemas de insolvência. Fusão Unibanco e Itaú III Alguns números para pensar sobre a fusão brasileira dos bancos. O valor de mercado da nova instituição Itaú Unibanco Holding deve gravitar ao redor de US$ 50 bilhões. O Citibank vale algo como US$ 74 bilhões. O Bank of America cerca de US$ 110 bilhões. A Goldman Sachs, depois de sua derrocada, vale US$ 34 bilhões. O JP Morgan Chase (resultado da fusão de muitos bancos nos últimos dez anos) vale US$ 142 bilhões. O Wells Fargo (que acabou de adquirir o Wachovia) vale US$ 113 bilhões. O Itaú Unibanco Holding nasceu para poder competir no mundo. Tem bala para isso. Terá de ter competência. E os clientes? Há uma concentração bancária sem precedentes no setor financeiro brasileiro. Certamente favorável ao fortalecimento das instituições num ambiente altamente competitivo como é o atual. Todavia, cabe a pergunta: tal concentração afetará de que forma o bolso da clientela? Há riscos desta concentração desequilibrar a relação entre os bancos e seus clientes de tal sorte que estes últimos sejam prejudicados? A legislação sobre concorrência no Brasil precisa ser alterada? Com a palavra o BC, o Governo e o Congresso. Banco do Brasil e a competição O BB deixará de ser o maior banco brasileiro. Os efeitos desta perda de liderança sobre o mercado e sobre a instituição serão importantes em muitos aspectos comerciais, sobretudo perante os clientes pessoas físicas e jurídicas de médio e pequeno porte. Há outro aspecto muito notável que precisa ser melhor avaliado: em diversas ocasiões, sobretudo durante períodos de crise, o Banco do Brasil foi uma espécie de "regulador de mercado", atuando ora como "bombeiro", ora como "estimulador". Certamente, estes "papéis" (nem sempre desejados pelos administradores do banco, investidores e a própria sociedade) têm custos para o grande banco estatal. Daqui para frente estes custos serão cada vez mais relevantes para que o BB possa continuar a ser competitivo perante a concorrência (agora mais do que nunca reforçada!). A reação estatal A fusão Itaú-Unibanco deverá precipitar os processos de aquisição da Nossa Caixa e do BRB pelo Banco do Brasil. A MP 443, que a Câmara começa a discutir e que deve aprovar ainda esta semana, veio principalmente para facilitar este negócio. O BB poderá endereçar seus olhares também para algumas instituições privadas de médio e pequeno porte. Sendo o governo Lula o que é, ele nunca abrirá mão de ter o controle de uma instituição financeira poderosa, que possa ser usada para determinar, como mostra a nota anterior, os rumos do sistema financeiro brasileiro. O controle indireto, via BC, para a "ideologia" reinante é pouco. Aliás, como se verá em nota abaixo, sobre as influências políticas sobre o Copom.   O antigo líder vai reagir O Bradesco, obviamente, não se conformará com a perda da liderança no ranking dos bancos privados brasileiros. Pelas reações iniciais, percebe-se que o gigante foi surpreendido com a ação dos concorrentes Itaú e Unibanco, especialmente do Itaú, com quem disputou o primeiro lugar nos últimos anos. E vai ter de se virar. Não há no horizonte nenhum grande à disposição para ser incorporado com o tamanho para levar o Bradesco para próximo do novo mastodonte bancário nacional. Mas o mercado, que já comentava o assunto há dias, dá agora como mais do que provável a incorporação do Votorantim, um banco que vinha muito bem, mas tropeçou na crise, pelo Bradesco. Com a eventual aquisição, o Bradesco passaria o Banco do Brasil em ativos. Por conta dessa perda de posição, o BB entrou no negócio, e está também disposto a levar o BV, o que vai elevar o preço do negócio. COPOM: queda de braço continua O fato de o BC ter "apenas" mantido a taxa básica de juros (conforme o nosso prognóstico) não satisfez importantes personagens localizados no Planalto e na Fazenda. Consta que o próprio Lula (conforme notícias da imprensa no final de semana) haveria de pressionar o BC para que reduzisse a taxa básica de juros num momento em que a atividade econômica deve cair. A tarefa do BC de combinar inflação baixa com sustentação da atividade econômica é verdadeiramente impossível. A autoridade monetária terá de ceder em algum ponto. Resta saber se satisfará a gregos e troianos, ou melhor, a palacianos e fazendeiros... Visão sobre o mercado acionário Não acreditávamos que o pior cenário de preços pudesse ser mantido nos patamares tão baixos de três semanas atrás. De lá para cá, o mercado acionário subiu e certos setores, sobretudo o financeiro, subiram forte. Agora, impulsionado pela fusão do Itaú com o Unibanco. Daqui para frente, acreditamos em menor volatilidade, mesmo que ainda elevada, e num mercado "andando de lado". Sem grande vigor nas altas, mas sem depressão na baixa. Tudo isso alinhado com o mercado lá de fora. O setor de commodities não se recuperará de forma substancial. Deve ficar no marasmo apresentado lá fora. A razão é óbvia: a recessão que virá não dá espaço para expectativas de altas nos preços. Os eventos da crise São Paulo abrigou na semana passada três enormes e concorridos eventos: a grande festa da Fórmula 1, a Futurecom (o maior evento da América Latina nas áreas de telecomunicações e de tecnologia da informação) e o Salão do Automóvel. Apenas a F-1 foi festa, incompleta somente porque Felipe Massa não ficou com o título mundial. Nas outras duas, setores extraordinariamente estratégicos, a euforia aberta foi encoberta por evidentes nuvens de preocupação com o futuro mais ou menos imediato dos negócios. Mais no automobilístico, que sabe jogar melhor com suas dificuldades para conseguir amparos do governo, do que no de TC e TI.Sem reforma agora Só um milagre salva a reforma tributária este ano. Os governadores José Serra, Aécio Neves, Paulo Hartung e Sérgio Cabral não gostaram do substitutivo do deputado Sandro Mabel e tiraram o apoio ao projeto. É ilusão achar que mudanças de tal magnitude aconteçam sem a anuência desses Estados. Para alguns analistas é até bom. O projeto, mesmo profundamente alterado pelo deputado goiano, ainda tem mais defeitos do que qualidades. Pelo menos do ponto de vista das empresas e dos cidadãos, embora traga alguma simplificação tributária. Certas "pegadinhas" deixadas no texto por Mabel abrem perigosas sendas para aumentos de impostos com muita facilidade. Eleições para o Congresso... ...as novas coalizões partidárias, brigas na base aliada, atração do PMDB, etc, etc. Tudo o que se diz sobre isso, absolutamente, de qualquer das partes envolvidas, não deve ser comprado pelo valor de face. Tudo, totalmente tudo, nesse terreno, é negociável.
terça-feira, 28 de outubro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 25

As grandes lições das urnas Diante de tantas e tão variadas interpretações por parte do mundo político, ao sabor do interesse de cada um, dos resultados das eleições municipais deste agitado e dramático fim de 2008, é bom não esquecer uma antiga lição de vistosas raposas da cena nacional : em política nada é definitivo. Nem o mais feroz adversário será concorrente para sempre, nem o mais fiel aliado estará definitivamente ao lado do parceiro. O derrotado de hoje pode ser o vitorioso de amanhã. E o vencedor do momento não raro perde espaços num outro embate. A maior, mais importante, mais crucial lição destas eleições foi a demonstração, definitiva, da maturidade do eleitor brasileiro. De um modo geral, ele não deixou se influenciar por padrinhos políticos, pelo marketing vistoso, pelas baixarias. A maior prova disso foi o elevadíssimo índice de reeleições : quase 70% dos atuais prefeitos que tentaram um segundo mandato foram bem sucedidos. Nas capitais, apenas o de Manaus, Serafim Correa, não ficará mais quatro anos no comando da prefeitura. Pragmatismo puro, sabedoria popular. O "teste para 2010" não foi conclusivo. Nem para o lado governista nem para o lado da oposição. Por essas e outras, a grande força que emergiu das urnas de 2008 foi o eleitor. Ele é o senhor da razão. PMDB, um parceiro incômodo Vai dar mais dor de cabeça para o Palácio do Planalto o fortalecimento do PMDB nessas eleições municipais, ainda mais depois das vitórias em Porto Alegre, em Santa Catarina, no Rio e em Salvador e a conquista da vice em São Paulo. O partido está dando sinais de que não aceita um papel secundário no condomínio do poder federal, quer partilhar os ônus em pé de igualdade com o PT. O primeiro embate virá na decisão sobre as presidências da Câmara e do Senado. Pelos arranjos brasilienses, a vaga da Câmara ficaria com o PMDB (Michel Temer) e a do Senado com o PT (Tião Viana é o preferido). Pela tradição, o PMDB teria direito às duas vagas, pois é o partido majoritário em ambas as casas. Na vez anterior, abriu mão para Arlindo Chinaglia na Câmara. Agora, a bancada do Senado, comandada por Renan Calheiros, diz que não fará esta generosidade. Está a colocar as cartas na mesa para negociar. Para o governo é insuportável ter a Câmara, o Senado e, por tabela, o Congresso comandados pelo PMDB. Ainda mais este PMDB sempre dividido, cortejado pela oposição e ciente de sua força. Lula terá negociações duras pela frente com os peemedebistas. E muitas concessões a fazer. Sem nenhuma garantia de que o partido que um dia já foi o "partido do Dr. Ulysses" estará com ele em 2010. Em ascensão Dentro do PMDB, dois nomes saem fortalecidos : o do governador Sérgio Cabral (RJ) e o do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (BA). Os dois são apostas de Lula para ocupar a vice numa chapa encabeçada por Dilma Roussef. Geddel é mais guloso e muito maleável. Em observação Como se diz popularmente, subiu no telhado o projeto do bloquinho de esquerda (???) governista - PSB, PDT e PC do B - de correr em 2010 com a candidatura própria do deputado e ex-ministro Ciro Gomes. Embora o PSB tenha alcançado algumas vitórias, o desempenho do grupo, em geral, foi pior que ele esperava. Além disso, os três não mostraram muita capacidade de união. Além do mais, o governo não quer aventuras e quer toda a sua base lutando por um mesmo nome. Aquele que Lula indicar. Até agora, Dilma Roussef. Em observação - parte 2 Também subiram no telhado os projetos de 2010 do ministro Ciro Gomes. Como visto acima, a candidatura do bloquinho, está afastada. Uma vice na companhia de Dilma está mais para o PMDB. E um projeto com Aécio esbarra no PSDB e na consolidação da aliança PSB-DEM a partir de São Paulo. Administrando vitórias e derrotas Inicialmente, apenas na semana que vem o presidente Lula reunirá seus aliados para fazer um balanço dos resultados eleitorais e projetar os próximos passos - no Congresso e na corrida eleitoral para 2010. Esse interregno é providencial - é preciso deixar o clima de mágoas que se instalou na base governista : 1) Mágoas de quase todos os partidos com o PT, que mais uma vez, com exceções, mostrou-se pouco disposto a compartilhar espaços com os parceiros. 2) Mágoas de alguns petistas com o presidente Lula por não ter se envolvido mais em suas campanhas. Alguns acham que ele abandonou o partido por aliados nem sempre confiáveis. A oposição até comemora Os partidos oposicionistas de fato - PSDB, DEM e PPS - perderam densidade nos municípios em relação ao que haviam conquistado em 2004. Mas, nas circunstâncias, estão até comemorando : 1) Não sofreram a humilhante derrota que o governo imaginava que lhes infringiria dado o prestígio do presidente Lula. 2) No próprio governo, apesar do otimismo demonstrado por Lula, refluiu a tese de que um candidato apoiado por Lula é favorito automaticamente em 2010. A "construção" de uma candidatura a partir do "quase" nada será mais complicada do que se imaginava, inclusive a da preferida Dilma. 3) O inesperado fortalecimento do PMDB, inicialmente, é uma dor de cabeça maior para o governo do que para a oposição. 4) Em que pesem as ameaças e os riscos corridos no primeiro turno em São Paulo, a aliança com o DEM acabou saindo fortalecida exatamente a partir de São Paulo. Serra e Aécio À primeira vista, e até prova em contrário, o governador de São Paulo, José Serra, saiu em vantagem em relação do governador de Minas, Aécio Neves, na disputa particular entre os dois pela vaga de candidato da oposição à sucessão de Lula. Aécio fez a aposta mais ousada e teve de lutar mais do que esperava para eleger seu preferido em Belo Horizonte. E ficou sem um aliado forte, porque o PT ficou com ele, ainda assim em parte, em BH. Não vai abrir caminho nacionalmente para suas pretensões. Aquela hipótese de Aécio no PMDB, com apoio de Lula, está morta e com chances remotíssimas de ressuscitar. Serra enfrentou um racha forte no PSDB paulista, esteve para sucumbir por causa da divisão pessoal entre Alckmin (por obrigação partidária) e Kassab (por opção político-eleitoral), mas acabou compensado : ganhou a prefeitura com Kassab (o que parecia impossível), consolidou a aliança com o DEM e fincou um pé no PMDB. Um partido que "nunca se sabe". Hoje as conversas dos tucanos ecoam em outra direção. O sonho é fazer uma chapa pura, tucana. Há indicações de que o DEM abriria mão da vice. É sonho ainda. As coisas de Minas Muito estudo vai ser necessário para que se possa entender perfeita e completamente o que ocorreu este ano em Belo Horizonte, a começar da inusitada aliança PSDB-PT em torno de um candidato de uma terceira legenda - Marcio Lacerda, do PSB. Como explicar tantas voltas e reviravoltas - o candidato que saiu do nada saltando em três semanas nas pesquisas para uma possível vitória no primeiro turno, depois para um empate técnico nas urnas, posteriormente para uma possível derrota humilhante no segundo turno nas pesquisas iniciais e, finalmente, para uma vitória até confortável ? É um desafio. Uma coisa é certa, porém : Belo Horizonte é outra demonstração de que a "teoria do poste" é falha. Há várias explicações para a recuperação no segundo turno do combalido Lacerda - entre elas a melhor qualidade da campanha depois do vexame inicial - porém a mais significativa foi a "liberação" do candidato de seus dois padrinhos - o governador Aécio Neves e o prefeito Pimentel. No primeiro turno, Lacerda aparecia como um fantoche de ambos, sem vida própria. O eleitor se recusou a votar em quem não podia conhecer. Quando Lacerda começou a aparecer mais, e Aécio e Pimentel ficaram mais discretos, o mineiro pode ver que havia um burocrata com qualidades para seguir a boa trilha de Aécio e Pimentel. Não basta o padrinho mostrar "eu faço, eu fiz". Precisa deixar que seu apadrinhado também mostre que sabe fazer. Vovô sabia O mineiro Aécio Neves quase foi vítima de uma daquelas espertezas políticas que segundo o avô dele, Tancredo Neves, de tão espertinhas acabam comendo o esperto. Vamos à história. Quando armou a inesperada aliança em BH com o PT e o PSB, o governador quis incorporar também o PMDB. Encontrou reações no velho adversário Newton Cardoso e, principalmente no ministro das Comunicações, Hélio Costa, ele mesmo com pretensões ao governo de Minas. Vendo que não conseguiria trazer os peemedebistas para o bloco, Aécio, que tem tentáculos no partido, armou a candidatura de Leonardo Quintão, parlamentar inexpressivo e tido como fiel à sua liderança. O outro concorrente era adversário de Aécio na Assembléia. Quintão venceu a convenção por influência do governador. Depois, fugiu do script e quase derrota Aécio. Copom: mercado pode estar errado Na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central desta semana será decidida a nova taxa de juros básica atualmente em 13,75% ao ano. Segundo o relatório FOCUS do BC que registra as opiniões dos analistas e economistas de mercado a taxa pode vir a ser elevada em 0,25%. É possível que o mercado esteja com um viés de alta em relação ao juro. No momento, o BC pode privilegiar a manutenção da liquidez e não a inflação. Para isso terá de dar sinais para o mercado. Sobretudo, para os bancos. O mesmo vale lá nos EUA Também o Federal Reserve vai reunir o seu Comitê de Mercado Aberto (sigla em inglês, FOMC) no qual deve ser decidida a redução da taxa de juros em 0,5%. Deve incrementar ainda mais a liquidez do mercado. Medidas heróicas num mercado difícil. Mudança de tema Note-se que no mercado financeiro internacional as inquietações estão se tornando maiores em relação à probabilidade de uma recessão profunda e séria. Evidentemente, as questões relacionadas com a segurança do sistema persistem, mas estão menores que há duas semanas. A eleição americana será daqui a uma semana e é este fato que irá ocupar as atenções dos analistas de plantão. Afinal, sem matéria de macroeconomia a solução é política. Sempre. Medidas Provisórias 442 e 443 Não será propriamente um teste político a votação das medidas provisórias que introduziram uma série de medidas para aliviar os impactos da crise externa sobre o país. A crise é tão intensa e imprevisível que a oposição terá no máximo um papel moderador no processo de votação. Todavia, não dá para reduzir o papel moderador da oposição, em particular, e do Congresso, em geral. Afinal de contas, as medidas provisórias aumentam dramaticamente a participação do Estado no sistema financeiro, seja de forma direta (via aquisições de carteiras e, até mesmo, do controle capital) ou de forma indireta (por meio das provisões de liquidez via BC, BNDES e bancos oficiais). Há ainda outro aspecto a ser notado em tudo isso : o governo passou de um discurso absolutamente otimista no início da crise mais aguda para ações bastante ousadas, comparáveis aos países nos quais a crise é cruel. Por que será ? É uma pergunta sem resposta clara...
terça-feira, 21 de outubro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 24

PIB : piso é 4% ! Está cada vez mais evidente que um dos condicionantes das ações para limitar ao máximo os efeitos da crise sobre a economia brasileira é o ambiente político-eleitoral. Os números das eleições municipais e o comportamento dos eleitores no primeiro turno e, tudo indica, também no segundo (com as prováveis derrotas de aliados de Lula em lugares importantes como São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro) levaram Brasília a perceber duas coisas pelo menos : 1) Parafraseando o deputado José Genoino, que "uma pessoa é uma pessoa, outra pessoa é outra pessoa." Lula é Lula, os outros são os outros. 2) Em vista dessa primeira constatação, que o grande capital que o governo pode levar à disputa sucessória é o capital da economia em crescimento, a renda em ascensão e o consumo aquecido. O discurso de Lula no palanque de Luiz Marinho em São Bernardo neste último domingo é um resumo de tudo isso. A determinação é não sacrificar o crescimento, nem que para isso o governo tenha de gastar o que pode e o que não pode. Como já foi dito aqui em uma coluna anterior, o PIB não pode subir menos de 4% em 2009 e 2010. Este é o piso. E é esta a equação que está armada para Meirelles, Mantega e Paulo Bernardo : manter os pressupostos exigidos por Lula sem deixar a inflação fugir do controle, sem afundar as contas externas e sem comprometer demasiadamente as contas públicas. Ou seja, sem deixar uma "herança maldita" para seu sucessor. Possível sempre é, dizem muitos analistas. Mas vai exigir a ação de um maestro, um exuberante Villa-Lobos da economia tupiniquim. Estabilização próxima Depois da injeção de aproximadamente US$ 3 trilhões por parte dos principais bancos centrais do mundo, bem como de seus respectivos governos, é provável que nas próximas semanas o mercado financeiro se estabilize com o retorno das operações. Embora o volume de recursos disponíveis para crédito provavelmente seja bem menor, o retorno das operações é uma boa notícia. Afinal de contas, o "enfarte" que o mercado sofreu foi bastante extenso e a normalização dos "batimentos cardíacos" já é uma notícia promissora. De agora em diante, os BCs terão de tratar os problemas crônicos : a recessão provável e suas seqüelas, a falta de investimentos e o desemprego crescente. Parceria limitada Ao que parece a intenção das lideranças do Velho Continente, representadas pelo Presidente Nicolas Sarkozy, é sincera. De fato, a Europa deseja uma maior coordenação em relação às finanças internacionais, bem como uma nova arquitetura regulatória do sistema financeiro internacional. Do lado norte-americano, há dois problemas : o primeiro diz respeito à tradicional resistência dos líderes de Wall Street e dos órgãos governamentais a processos de regulação que venham de fora. Neste momento é possível que estejam mais suscetíveis a isto. O segundo diz respeito à urgente necessidade dos EUA em atrair recursos externos. Maior regulação pode significar maior dificuldade de atração de investidores internacionais. Na crise da "bolha da internet", no início da década, fracassou completamente a tentativa de uma "nova arquitetura", incluindo a reestruturação do FMI e do Banco Mundial. Por fim, não devemos esquecer que Bush está no final de mandato e o próximo presidente norte-americano assume somente em janeiro. Entre Europa e os EUA devemos esperar uma parceria limitada. Consenso de Washington : parte II Diante de prováveis gigantescos déficits que as principais economias apresentarão nos próximos anos para conter a recessão que se aproxima seria interessante saber qual é o "novo" Consenso de Washington a respeito de políticas fiscais. O grupo de economistas liderados por John Williamson durante os anos 90 e 2000 foi um dos mais importantes na concepção e divulgação do neo-liberalismo. Alguns dos economistas que fizeram parte daquele grupo aparentemente mudaram de lado neste momento de crise. O caso do Brasil Os países mais desenvolvidos do mundo estão montando programas de gastos públicos com o objetivo de aumentar a taxa de crescimento neste momento em que o investimento privado está em queda. Em tese, o Brasil deveria fazer o mesmo, mas é bom lembrar duas coisas : (1) O orçamento brasileiro já é gordo, mas para gastos correntes; (2) a taxa de crescimento embutida no orçamento é acima de 4% e muito provavelmente será menor. Ou seja, as despesas estão superestimadas. Assim, o espaço fiscal do Brasil é pequeno para se fazer gastos públicos. Não é por outra razão que Lula e Mantega não param de dizer que o crescimento brasileiro será mantido. Não é apenas "administração de expectativas". Ambos desejam manter o nível dos gastos públicos. O caso do Brasil - capítulo dois A questão de ajustar o Orçamento da União, com despesas de melhor qualidade, se faz necessária, e é bem mais delicada do que se imagina. A saber : 1) O Orçamento é excessivamente engessado, passa dos 70% das despesas previstas os gastos comprometidos, intocáveis. 2) Há uma resistência muito grande no Congresso e no universo político geral a qualquer política de cortes. E nesse mundo pouco se distingue um gasto positivo - em investimentos produtivos, em infra-estrutura, por exemplo - de gastos "supérfluos" - com o consumo da máquina administrativa, com obras paroquiais e eleitoreiras, por exemplo. 3) Lula já estabeleceu que as obras do PAC e os programas sociais são "incortáveis". Nem tudo no PAC é prioridade ou obra indispensável. Muita coisa tem um acentuado sabor de marketing eleitoral. 4) O governo já contratou aumentos significativos das despesas com pessoal para o ano que vem. O máximo que ele poderá fazer é suspender novas contratações, novos concursos. Os aumentos já estão dados e aprovados pelo Congresso. Como isso, as despesas nesse item, que foram de R$ 125,8 bilhões em 2007, deverão fechar este ano em mais de R$ 150 bilhões e chegar a mais de R$ 200 bilhões no final do mandato. 5) A nova regra de correção deverá gerar um aumento no ano que vem de cerca de 12% para o salário mínimo no início de 2009, quase o dobro da inflação prevista para o período. E o SM tem pesada influência nos gastos da Previdência Social e no Orçamento dos Estados menores e dos municípios. A dedução lógica é a de que não haverá como não sacrificar os investimentos públicos produtivos caso o governo não altere alguns desses parâmetros. Para anotar Alguns setores do governo não estão muito felizes com os grandes bancos. Os acusam de má de vontade e de quererem ganhar com a crise à custa de outros setores da economia. CVM : enfim maior transparência Há mais de uma década os analistas de investimentos e outras entidades de mercado vêm pedindo maior regulação e transparência na prestação de informações sobre operações de derivativos por parte das empresas de capital aberto. Depois dos últimos prejuízos da Votorantim (R$ 2,2 bilhões), Aracruz (R$ 1,95 bilhão) e Sadia (R$ 760 milhões), a CVM acordou para o assunto. Resta saber qual será o grau de rigor a ser imposto pela entidade. A Resolução 550 deveria ser apenas um passo na direção de maior transparência. Aposta na especulação Não procede a afirmativa de "quem apostou na estabilidade" perdeu, dita em alta voz pelo atual presidente da Sadia e ex-ministro Luiz Fernando Furlan. Quem estava apostando na queda do dólar frente ao real estava acreditando numa saudável economia internacional, coisa que já não ocorria deste o final de 2007. Petróleo em queda O preço do barril de petróleo abaixo de US$ 80,00 é uma ótima notícia de vez que ajuda a amainar a inflação no curto prazo. Vai ser difícil o cartel da OPEP coordenar a redução da produção a ponto de conter a queda que ora se registra no mercado. Está provado que aquele processo de alta do "ouro negro" de há pouco mais de três meses não passava de um processo especulativo comandado, sobretudo, pelos fundos hedge. Mais queda nos juros lá fora. Aqui não. A taxa de inflação nos EUA foi ao redor de zero. Este melhor desempenho da inflação somado a imensa crise de liquidez no sistema financeiro mundial abrem espaço para maior redução da taxa de juros básica, atualmente em 1,5% ao ano. Por aqui a taxa de juros provavelmente deve ser mantida. Não temos uma moeda forte a nos proteger e a inflação decorrente da desvalorização do real. Chefão açodado. No meio de toda esta crise há outros assuntos quentes em Washington : o FMI está investigando o chefão do órgão Dominique Strauss-Kahn, 59 anos, por "comportamento impróprio" em relação a A. Shakour Shaalan, representante do Egito e de outros países árabes no FMI. O órgão multilateral investiga um comportamento bilateral. Warren Buffett Um dos homens mais ricos do mundo, Buffett está a pregar : Buy American. I am. Para ele a crise é momentânea e daqui a 5, 10 anos tudo vai valer muito mais. Buffett é cotado para ser o próximo Secretário do Tesouro dos EUA, seja quem for o eleito. É um campeão de ganhos e sempre foi contra o consenso de que tudo estava bem na economia norte-americana. O conselho é útil e talvez lucrativo.
terça-feira, 14 de outubro de 2008

Política & Economia NA REAL n° 23

O pior aconteceu Na semana passada, fizemos nesta coluna a pergunta-chave sobre o momento econômico : "o pior já passou ?". Num tom pessimista respondemos que "não", infelizmente. Naquele momento, presenciávamos a pior semana do mercado financeiro em todos os tempos. Não apenas pelas seguidas quedas das bolsas, das commodities, dos títulos de renda fixa, mas também por ter sido uma crise aguda em quase todos os países e em função da desconfiança profunda no sistema financeiro. Pouquíssimos que já viveram crises semelhantes estão entre nós. Trata-se de uma crise sem precedentes, desde 1929. Para se ter uma idéia do tamanho, todos os setores e sub-setores que compõem o principal índice de ações dos EUA, o S&P500, caíram entre 8% (setor de empresas industriais) e 27% (setor de consumo). Isso em apenas cinco sessões da bolsa ! Sinais promissores Caberia perguntar de novo : "o pior já passou ?" Há que se qualificar qualquer resposta que se dê a uma pergunta destas. Sobretudo, sobre o que significa "o pior". Para fins desta resposta, aqui, o pior quer dizer "este processo de destruição de valor de forma acentuada e irracional". A crise bancária é a causa deste processo. Pois bem : a nosso ver, no sentido acima qualificado, o pior já passou. Há sinais claros de que há exaustão na venda de ativos de uma maneira geral. Os volumes negociados nos menores preços dos ativos mais importantes das bolsas americanas e brasileira (para citar dois exemplos) são bem menores. O que quer dizer ? Diante de uma queda tão violenta como a que ocorreu os investidores começam a se perguntar se ainda cabe vender a preços tão baixos. Trata-se de uma visão geral sobre a situação, digamos, "técnica" do mercado. De outro lado, há fundamentos importantes que mudaram em pouquíssimo tempo : todas as principais autoridades das principais economias estão agindo com muito mais precisão para controlar a crise financeira. A injeção direta de capital nos bancos é um destes mais importantes sinais. Além disso... Em apenas uma semana, os bancos centrais da Europa, dos EUA, Japão, Canadá, Austrália e China, numa ação coordenada, reduziram a taxa de juros. Também a reunião do G-7 demonstrou uma união politicamente significativa para a gravidade do curto prazo, e o mesmo pode ser dito do que ocorre na reunião conjunta e anual do FMI e Banco Mundial. A Europa da zona do euro resolveu seguir a Inglaterra e vai apoiar seus bancos em dificuldades com o que for necessário. Ou seja : há muito mais consenso e coordenação em relação às práticas financeiras e econômicas necessárias à superação da crise. Isto tudo é muito bom ! Mesmo que tudo esteja tão difícil... No médio prazo... Superar a crise aguda é fundamental tanto quanto é para um paciente que sofre um ataque cardíaco. É necessário evitar a morte do paciente para depois tratá-lo. O "ataque" no momento do mercado financeiro é a crise de desconfiança. Como dissemos, estamos bem mais otimistas de que isso possa ser superado nas próximas semanas. O maior problema será tratar do médio prazo em função dos monumentais estragos causados pela atual crise. Os riscos de uma recessão persistem imensos, o desemprego já está subindo em todos os países centrais e as empresas estão inseguras em relação aos seus projetos de investimento. Há muito trabalho a ser feito pelas autoridades econômicas nos próximos anos. Fazer um prognóstico sobre o grau da recessão é tarefa, a nosso ver, impossível neste momento. Alertamos, até mesmo, para o fato de que já há "bolas de cristais" por aí soltando o verbo sobre o futuro. Muitos dos mesmos que pregavam a idéia de que a crise não era séria. O cinismo está à solta... Governo brasileiro age muito bem Depois de um período marcado por excessos retóricos, o Governo Lula acertou em todas as medidas que adotou para superar os efeitos da crise mundial sobre o Brasil : cuidou adequadamente da possibilidade de uma crise bancária, alimentou a liquidez em moeda forte, propôs alterações na regulação das empresas de capital aberto, mapeou possíveis áreas críticas e assim por diante. Não foi à toa que o presidente do BC Henrique Meirelles ganhou ainda mais poder. De uma forma geral, é o BC que tem as ferramentas para fazer as correções neste momento. Todavia, não tenhamos ilusões : caberá ao governo reestruturar as suas políticas econômicas para um novo momento possivelmente marcado pela concreta possibilidade de estagflação, a mistura perigosa de estagnação com inflação. Preocupação primordial O BC poderá jogar muito mais do que jogou até agora - fala-se em até US$ 20 bilhões - para conter em determinado limite a desvalorização do real. Se um "acerto de contas" é bem vindo, para ajudar nas exportações e conter as importações nessa fase de recursos externos escassos, o dólar alto aqui pode trazer problemas para o controle da inflação. Calculam os especialistas que cada 10% de desvalorização do real significa um ponto de percentagem a mais na inflação. Portanto, um dólar na faixa dos R$ 2,30 traria cerca de mais quatro para a inflação de 2009 - algo em torno de 8,5%. O que forçaria o BC a pesar na taxa de juros, na contramão do que se espera que a autoridade monetária faça a partir de agora. Seria o pior dos mundos : inflação em ascensão e queda na atividade econômica. Os parâmetros presidenciais Lula já estabeleceu : não quer ver o PIB crescendo menos de 4% em 2009 e 2010. Não quer também que os investimentos do PAC e os recursos para os programas sociais sejam atingidos por eventuais necessidades de ajustes no Orçamento. Estes são os limites que o BC terá de observar na calibração dos juros daqui para frente e que o ministério da Fazenda e o do Planejamento deverão se pautar. A imposição presidencial tem muito a ver com o desejo do governo de não jogar nas costas dos mais pobres os custos dos ajustes, assim como cobra dos países desenvolvidos não "socializarem" os prejuízos do que eles aprontaram. Mas também tem muito do jogo político-eleitoral de 2010. Avalia-se, corretamente, que o grande eleitor de 2010 chama-se "situação econômica" e não propriamente "Lula da Silva". Congresso e oposição percebem o momento Também não merece reparos o papel da oposição neste momento em relação às políticas governamentais e às medidas que irão transitar pelo Congresso. As discussões estão corretas e há sentido de urgência em tudo que está sendo feito. Na prática, porém... O Congresso começa a votar amanhã o parecer do senador Delcídio Amaral sobre os grandes números do Orçamento de 2009. Depois virão os relatórios setoriais, com a distribuição dos recursos entre os vários ministérios e seus programas e projetos. Como estão mantidos intocados os principais índices com os quais trabalhou o governo ao elaborar o texto, pelo visto teremos mais uma obra de ficção, com riscos para as finanças públicas pelas pressões dos aliados para liberação de verbas a qualquer custo. Fundo soberano neste momento ? Não parece correto que se possa ainda pensar no fundo soberano. Chega a ser infantil a proposta... Até porque não haverá dinheiro para o "cofrinho do Mantega". Direto da UTI A possível queda na atividade econômica reduzirá inevitavelmente a arrecadação tributária. E justo num ano em que as despesas com pessoal crescerão fortemente. Será que alguém no governo ou no Congresso possui alguma varinha de condão orçamentária ? Não é por outra razão que desde a semana passada nos corredores do Congresso voltou-se a falar no imposto para a saúde, que os governistas imaginam ainda criar para substituir a extinta CPMF. Com efeito, Lula pediu a seus líderes e aos partidos da base no Congresso um esforço para aprovar rapidamente a reforma tributária como uma da vacinas do Brasil contra a crise internacional. E conversa vai, conversa vem, despretensiosamente surge a Contribuição Social para a Saúde... Mudança de rumo O pré-sal era assunto de todo dia do presidente no período pré-crise. Será que teremos a versão pós-sal no período pós-crise ? A verificar. Literatura do momento Em matéria econômica, deixem de lado no momento Adam Smith, David Ricardo, Alfred Marshall, John Stuart Mill e Milton Friedman. Retornem aos velhos livros de Karl Marx, John Maynard Keynes, John Kenneth Galbraith, Paul Krugman (último ganhador do Nobel) e Joseph Stiglitz. A crise capitalista enseja mente aberta para aqueles que desejam superá-la e ainda lucrar. Governança corporativa Tarefa urgente para os analistas de empresas, tanto de crédito como de investimento, é revisitar os verdadeiros conceitos de governança corporativa e a sua efetiva utilização por parte das empresas de capital aberto nestes tempos duros. Um rol de empresas andou especulando de maneira irresponsável com o dinheiro dos acionistas. As empresas que abriram capital recentemente, os famosos IPOs, merecem atenção especial. E esta agora ? Lula andou vociferando contra estas empresas que perderam dinheiro no mercado futuro, acusando-as de estarem apostando contra o Brasil. (Aliás, um equívoco, pois elas apostaram na valorização do real, ou seja, a favor e em confiança na política governamental.) Na sexta-feira correram em Brasília boatos de que a Petrobras também se encalacrara nos derivativos, com fantásticos US$ 18 bilhões de prejuízo. Não era isso tudo, mas a direção da Petrobras teve de soltar uma nota reconhecendo que uma de suas subsidiárias tinha feito essas aplicações, com perdas poucos superiores de US$ 50 milhões. A pergunta ao presidente é : a Petrobras também especulou contra o Brasil ? Sábias palavras Em entrevista ao alemão "Der Spiegel", respondendo a uma pergunta sobre os curtos circuitos que às vezes surgem nas relações entre os países latino-americanos, Lula (com propriedade) sapecou : "A língua é a nossa arma mais mortífera. Falamos demais." Com quem será ? As negociações/conversações iniciais de fusão entre a Ford e/ou Chrysler e/ou GM mostram que nada mais é impossível neste momento de crise aguda. Assim, os investidores têm de mudar de raciocínio e buscar observar de forma muito mais atenciosa as possibilidades mercadológicas das fusões. Cuidado com as estratégias de longo prazo São muito comuns neste momento de crise frases do seguinte tipo : "Vou comprar ações de empresas sólidas e ficar com elas por cinco anos". Em princípio, este tipo de estratégia faz todo o sentido, mas há um ponto nevrálgico a ser observado : a possibilidade de diluição de capital. Muitas das empresas "baratas" na bolsa podem emitir capital (ações e/ou títulos conversíveis) e diluir substancialmente os acionistas atuais. Assim sendo, as empresas sólidas podem dar retornos crescentes, mas seus acionistas podem tomar prejuízos enormes. Basta ver o exemplo dos bancos norte-americanos. Há ainda o risco de que as ações emitidas pelos bancos e adquiridas pelos governos, como no caso da Inglaterra e, possivelmente, dos EUA, possam causar uma perigosa diluição para os acionistas. Inclusive o Secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, tratou desta possibilidade na reunião do G-7. Portanto, muito cuidado : as empresas podem ser muito boas, mas o retorno para os acionistas pode ser horrível. As cartas estão com o PMDB Como já dissemos, uma análise mais profunda sobre o ambiente político-partidário brasileiro depois das eleições municipais e a influência dessa votação na sucessão de Lula somente será possível depois do segundo turno. Principalmente depois das definições sobre as prefeituras de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis, capitais de Estados que reúnem quase 60% do eleitorado brasileiro. No entanto, já se pode ter certeza de que o grande ator da política brasileira nos próximos dois anos será mesmo o PMDB que poderá crescer ainda mais depois de 26 de outubro. Disputa, com chance, direta ou indiretamente, a prefeitura dessas cinco capitais. Reforçado com os votos conseguidos no dia 5, com bancadas majoritárias na Câmara e no Senado, e pela primeira vez em muitos anos demonstrando certa unidade interna, o PMDB tomou consciência de sua força e está decidido a se prevalecer dela. E Lula ? Lula percebeu isso claramente. Tanto que imediatamente após a votação de domingo passado chamou a cúpula peemedebista para uma conversa (não fez isso com o PT nem com os outros aliados, em conjunto ou individualmente). E se dispôs a fazer tudo o que os peemedebistas pediram. Vai agir para afastar os obstáculos à eleição de Michel Temer para a presidência da Câmara no biênio 2009-2010. Não vai se imiscuir no segundo turno onde o PMDB tem candidato preferencial, deixando na mão os companheiros petistas de Salvador e Porto Alegre e até aceitou gravar uma mensagem de apoio ao odiado Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Além do mais, o PMDB deve consolidar e até ampliar sua participação no condomínio do poder, para ciúmes do PT e outros aliados. Acompanhe o Diário Oficial nos meses posteriores às eleições municipais. Na sucessão também Lula já reservou para o PMDB a vaga de vice na chapa que ele sonha para a sua sucessão, encabeçada pela ministra Dilma Roussef. O PMDB tem um punhado de candidatos, porém o preferido de Lula, no momento, é o governador Sérgio Cabral. Apesar do entusiasmo do presidente, há gente no entorno dele que não joga todas as fichas no PMDB. Eles acham que, se o prestígio de Lula se reduzir por causa da crise ou a candidatura Dilma não decolar, o PMDB pode mudar outra vez de galho. Se cuide, ministra Por falar em sucessão presidencial e Dilma Roussef, o ministro Tarso Genro e o ex-ministro José Dirceu na semana passada entraram no jogo dela. Tarso disse publicamente que ela já foi escolhida por Lula e defendeu a opção. E Dirceu em seu blog defendeu entusiasticamente a candidatura de sua sucessora na Casa Civil. Conhecendo-se a posição dos dois e o "apreço" que eles têm pela preferida de Lula, seria o caso de aconselhar Dilma a botar as melenas de molho. O preço está alto O ministro político do governo, José Múcio, desembarca de vez em Brasília nesta terça-feira com a missão de acabar com as fissuras abertas na base governistas pelas disputas municipais. Há aliados muito magoados - e a mágoa pode crescer por causa de alguns embates no segundo turno. Pelos sinais emitidos por Múcio, a paz vai bater no Tesouro Nacional : o preço será a liberação de R$ 600 milhões para as emendas orçamentárias dos deputados e senadores amigos até dezembro. A turma da economia contava segurar boa parte desse dinheiro para fazer superávit.