Ordem na Banca

O drama do escritório que compete pelo que entrega

Quando todos entregam bem, vence quem enxerga antes. No Direito, a vantagem deixou de ser técnica: passou a ser visão estratégica.

4/2/2026

A maioria dos escritórios trava todos os dias a mesma batalha: tentar mostrar valor pelo que entrega.

Qualidade técnica.

Agilidade.

Atendimento.

Disponibilidade.

Boa relação com o cliente.

Tudo isso é importante.

Mas nada disso é suficiente.

A verdade incômoda é que muitos escritórios já entregam bem.

O mercado jurídico está cheio de profissionais competentes.

Só que competência, sozinha, virou lugar-comum.

No jogo atual, vence quem enxerga — não quem entrega.

Competir pelo que você entrega virou competição de “microdiferenças”

Quando o escritório baseia sua vantagem no que entrega, ele entra no campo mais congestionado da advocacia.

Todo mundo promete as mesmas coisas:

  • Qualidade;
  • Dedicação;
  • Profundidade técnica;
  • Disponibilidade;
  • Excelência;
  • Atendimento personalizado.

Esses atributos não diferenciam.

Eles apenas autorizam o escritório a jogar.

O que diferencia é outra coisa:

a capacidade de antecipar o que o cliente vai precisar antes que ele peça.

Prever virou vantagem competitiva

A maioria dos escritórios só age quando o problema aparece.

Quando o cliente liga.

Quando a crise explode.

Quando o setor muda.

Quando a concorrência já fez.

É reatividade bem feita.

Mas ainda é reatividade.

O escritório competitivo opera em outro ciclo:

  • Sente primeiro;
  • Interpreta antes;
  • Prepara antes;
  • Reage com mais velocidade.

Ele alinha seus movimentos ao futuro, não ao passado.

O que faz esse escritório enxergar melhor?

 
 

Três elementos que mudam completamente o jogo:

1. Radar estratégico

O radar mostra:

  • O que importa agora;
  • O que pode esperar;
  • O que está mudando;
  • O que pode virar demanda;
  • O que representa ameaça real;
  • O que representa oportunidade escondida.

Com radar, o sócio toma decisões com clareza.

Sem radar, ele conversa na base da opinião.

2. Sinais inevidentes

Concorrentes não monitoram o que não veem.

E é justamente aí que estão as oportunidades:

  • Fusão entre setores;
  • Tecnologias emergentes;
  • Novos modelos de negócio;
  • Mudanças culturais e comportamentais;
  • Arenas competitivas;
  • Tendências profundas.

Quem monitora sinais inevidentes aprende a enxergar antes.

3. Hipóteses estratégicas

A lógica “Se X acontecer, então faremos Y” diminui ruídos, acelera decisões e torna o escritório mais previsível internamente e mais confiável externamente.

Quando o escritório passa a enxergar melhor, ele não briga mais pelo mesmo espaço

Ele cria espaço.

Isso muda a forma de operar.

Muda a forma de posicionar.

Muda a forma de crescer.

Os efeitos são claros:

  • O escritório começa a oferecer serviços novos antes dos outros;
  • Passa a dominar áreas híbridas;
  • Desenvolve novos serviços consultivos;
  • Se posiciona em temas que os concorrentes ignoram;
  • Assume liderança em setores emergentes;
  • Atende empresas que buscam visão, não apenas execução.

O escritório deixa de disputar clientes.

Passa a atrair clientes.

Competir pelo que você entrega mantém o escritório relevante hoje.

Competir pelo que você enxerga mantém o escritório relevante amanhã.

A vantagem do presente está na técnica.

A vantagem do futuro está na visão.

Quando o escritório define sua competitividade pelo que entrega, fica igual aos demais.

Quando define pelo que enxerga, sobe de patamar.

O mercado jurídico está cada vez mais complexo, acelerado e multidisciplinar.

Sócios que continuam ancorando valor apenas na entrega vão ver a relevância desaparecer aos poucos.

O movimento é simples:

Quem enxerga antes, decide melhor.

Quem decide melhor, cresce.

E quem cresce não está competindo pela entrega.

Está competindo pela vantagem invisível: visão.

Colunista

Lara Selem é advogada, professora, escritora, palestrante, conselheira, advisor especialista em Gestão Legal, Sociedades de Advogados e Planejamento Estratégico para a Advocacia. Executive MBA pela Baldwin Wallace College (2002, EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela FGV-EDESP (2003, São Paulo, SP), Leading Professional Service Firms pela Harvard Business School (2006, Boston, EUA), Culture & Business in Arabic World pela Emirates Academy of Hospitality Management (2009, Dubai, UEA), Psicologia Transpessoal pela Unipaz (2015, Brasília-DF), Business Law in Practice for Transnational Lawyers pela Fordham Law School (2014, NY, EUA), Structural Issues in Law Firm Management pela Fordham Law School (2024, NY, EUA), Board Program pela StartSe (2025, São Paulo, SP).

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