O marco de 1 milhão de usuários do CoCounsel no mundo, anunciado recentemente pela Thomson Reuters Brasil, reflete uma transformação no setor jurídico: escritórios e departamentos legais começam a buscar sistemas capazes de executar fluxos de trabalho completos, e não apenas auxiliar em tarefas isoladas.
Até agora, a maior parte das soluções disponíveis no mercado atua como assistente. Elas conseguem resumir documentos, sugerir textos ou apoiar pesquisas jurídicas, mas ainda param antes da etapa mais crítica: transformar informação em um trabalho completo e de alto nível, de ponta a ponta.
Rodrigo Hermida, VP para o segmento de Legal da Thomson Reuters, explica que, à medida que a IA ganha capacidade para executar tarefas jurídicas completas, surge uma tensão inevitável em profissões nas quais erros têm consequências reais. Segundo ele, a IA de propósito geral consegue gerar respostas plausíveis, mas profissionais regulados precisam de resultados que resistam à revisão em tribunais, auditorias e processos regulatórios.
"Do ponto de vista técnico, o limite está em operar com conhecimento autorizado, citar corretamente as fontes e aplicar regras específicas de cada jurisdição de forma consistente e verificável", afirma o profissional.
"No plano ético, o limite é ainda mais claro: uma máquina não pode assumir responsabilidade profissional. Na Thomson Reuters, partimos de um princípio fundamental: humano no ciclo (human in the loop). As máquinas não podem e não devem assumir os direitos e as responsabilidades de advogados ou de profissionais qualificados".
Hermida afirma que julgamento humano, integridade e valores continuam essenciais para que a IA opere em ambientes de alto risco.
"O CoCounsel foi desenhado com essa lógica: sabe quando agir, quando solicitar intervenção humana e quando explicar como chegou a um resultado, porque, nesse tipo de trabalho, prestação de contas não é opcional".
O limite da IA genérica no Direito
Esse tipo de operação exige mais do que a chamada "IA horizontal", baseada em ferramentas genéricas e de uso aberto. Para especialistas, concluir fluxos de trabalho complexos depende de três fatores centrais: conteúdo jurídico confiável, conhecimento profundo do domínio e integração direta com os sistemas usados pelos profissionais. Sem isso, os ganhos de produtividade tendem a ser limitados.
Enquanto os sistemas atuais aceleram partes do processo, os profissionais continuam responsáveis por conectar etapas, revisar resultados e finalizar o trabalho.
Nesse cenário, confiança passa a ser um dos principais fatores para adoção real da IA no Direito. Segundo Hermida, velocidade é importante, mas nunca suficiente sozinha. Uma resposta rápida só tem valor se também for confiável.
Quando uma decisão envolve dados sensíveis e consequências legais, a questão central deixa de ser apenas eficiência e passa a ser a capacidade de revisar, explicar e sustentar aquele resultado sob escrutínio profissional. "Essa é a diferença entre testar tecnologia e adotá-la de forma real no Direito".
"É aí que a confiança se torna o verdadeiro fator de diferenciação. Na Thomson Reuters, essa confiança é construída desde o desenho do sistema. Os dados dos nossos clientes não são reutilizados para treinar modelos de terceiros nem passam a compor os resultados de outros usuários".
"Nossa tecnologia se apoia em padrões e certificações internacionais de segurança e em uma tradição de mais de um século de curadoria editorial especializada em conteúdo em todo o mundo. Essa combinação é o que permite que mais de um milhão de profissionais confiem hoje na tecnologia CoCounsel para o seu trabalho mais crítico".
A pressão por soluções mais completas também aparece nas percepções do mercado. Segundo a pesquisa "IA para Serviços Profissionais 2026", da Thomson Reuters, metade dos profissionais da área jurídica (50%) e 40% dos especialistas em contabilidade e tributação dizem enxergar a IA como uma ameaça aos atuais modelos de negócios e fluxos de receita.
Para Hermida, o desafio de levar a IA a resolver trabalho jurídico completo está diretamente ligado à complexidade estrutural da profissão.
"Isso posto, para que a IA possa apoiar os profissionais do Direito de ponta a ponta em seu trabalho, deve envolver sistemas de conhecimento especializados, regras que variam por jurisdição, fluxos de trabalho encadeados e resultados que precisam se sustentar em contextos de alto risco e sob revisão constante", explica.
Nesse ambiente, a diferença não está apenas na capacidade do modelo de analisar informações, mas na habilidade de operar dentro do trabalho real. Concluir tarefas jurídicas exige continuidade ao longo de todo o processo, integração com as ferramentas nas quais os profissionais já pesquisam, redigem e tomam decisões, além de resultados que possam ser incorporados diretamente ao produto final do trabalho. Quando a IA não faz parte desse ecossistema, seu impacto tende a se diluir, independentemente do quão avançada seja a tecnologia por trás.