O som que ainda resiste ao tempo. O barulho ritmado das teclas de uma máquina de escrever já foi a trilha sonora da advocacia brasileira. Durante décadas, petições, recursos e contratos nasceram diante de folhas de papel, em um trabalho que exigia precisão, paciência e horas de dedicação. Hoje, esse som quase desapareceu. Em seu lugar, processos eletrônicos, assinaturas digitais e ferramentas de inteligência artificial transformaram completamente a rotina da profissão.
Mas há um detalhe que chama a atenção de quem passa pelas Salas da Advocacia da OAB/SP - Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo no TRT-2: as máquinas de escrever continuam lá. Pouco utilizadas, mas ainda assim permanecem disponíveis como símbolo de uma profissão que aprendeu a evoluir sem apagar a própria história. Mais do que equipamentos antigos, elas representam uma ponte entre gerações.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia revolucionou a forma de advogar, organizando informações, auxiliando pesquisas, analisando documentos e reduzindo tarefas repetitivas, os princípios que sustentam a profissão permanecem os mesmos: a humanização. Nenhum algoritmo substitui a sensibilidade para compreender um cliente, a ética nas decisões, a estratégia construída a partir da experiência ou a força de uma sustentação oral diante de um tribunal.
A máquina de escrever e as ferramentas tecnológicas contam a mesma história. Uma representa o caminho percorrido; a outra aponta para onde a advocacia está seguindo. Entre elas existe um elo invisível: profissionais que nunca deixaram de aprender.
Uma profissão que atravessa gerações
Supervisor das Salas da Advocacia da OAB/SP nos fóruns trabalhistas da Barra Funda e da Consolação, na capital paulista, Antonio Rodrigues Queiroz, de 61 anos, acompanha essa transformação há décadas. Funcionário da Ordem desde 1983, ele viu a advocacia migrar dos processos físicos para um ambiente digital.
Na maior Sala da Advocacia do país, localizada no Fórum Trabalhista da Barra Funda, foi ali que, durante anos, as máquinas de escrever fizeram parte da rotina.
"Quando os processos passaram a ser digitais, muitos advogados mais experientes ainda procuravam as máquinas para protocolar petições ou preencher documentos. Com o tempo, todos foram se adaptando", conta. Hoje, a procura tornou-se rara. Em 2026, apenas dois advogados utilizaram uma das máquinas disponíveis.
Os dois casos tinham algo em comum: ambos dependiam do auxílio de estagiários para operar os sistemas eletrônicos e precisavam recorrer à tecnologia do passado diante de uma situação inesperada.
"Sabemos que nem toda tecnologia é precisa. Esses equipamentos ainda podem enfrentar situações como uma conexão que não entra, uma rede que cai ou uma internet que deixa de funcionar. Isso acaba fazendo uma ligação entre o passado e o futuro, no sentido de que ainda dependemos de trabalhos manuais. A tecnologia nem sempre será 100% certa ou suficiente na nossa vida. Ainda precisamos escrever, usar o lápis, o caderno, a caneta, a agenda física. Nesse sentido, acho que os dois se complementam. São recursos que continuam sendo necessários", avaliou Antonio.
O funcionário da OAB/SP reforça que, para ele, tradição e inovação caminham juntas. A tecnologia, diz Queiroz, torna o trabalho mais eficiente, mas não substitui a experiência acumulada ao longo da vida nem o conhecimento construído ao longo da carreira.
"A sabedoria que eu carrego é inatingível. Isso faz com que a gente consiga passar alguma coisa para todos eles, principalmente para os mais jovens. Acredito, realmente, que a sabedoria é muito importante para o progresso de qualquer coisa", finalizou. Para ele, se a tecnologia mudou a forma de trabalhar, não alterou o que diferencia um bom advogado: conhecimento, leitura, capacidade de argumentação e experiência. A inovação amplia possibilidades, mas não substitui a formação intelectual nem o olhar crítico de um bom profissional.
A tecnologia acelera. A experiência orienta.
A transformação digital do Judiciário brasileiro exigiu que milhares de advogados reinventassem a própria rotina. Foi justamente para tornar essa transição mais acessível que a entidade paulista trouxe o Programa de Letramento Digital, iniciativa voltada à capacitação da advocacia para atuar em um ambiente cada vez mais tecnológico.
A iniciativa contempla o letramento digital para advogados 60+, oficinas práticas sobre o Sistema Eproc, capacitações em inteligência artificial aplicada ao Direito e cursos promovidos pela ESA OAB/SP - Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo sobre tecnologia, inovação e segurança digital. O objetivo é claro ampliar a inclusão, garantindo que a evolução tecnológica se fortaleça e não dificulte a classe.
Conhecimento não envelhece. Nunca é tarde para aprender
O advogado Luiz Carlos Jarola, de 80 anos, representa justamente essa capacidade de adaptação. Depois de construir sua carreira em uma advocacia marcada pelas máquinas de escrever e pelos processos físicos, ele acompanhou a digitalização e buscou atualização por meio da Escola Superior de Advocacia. "Os primeiros desafios foram superados na ESA. Os cursos foram fundamentais para que eu aprendesse a utilizar as ferramentas digitais".
Em nenhum momento, diz ele, pensou que não conseguiria acompanhar as mudanças. "Pelo contrário. É preciso se atualizar continuamente". Mesmo vivendo plenamente a advocacia digital, Jarola acredita que a tecnologia jamais substituirá aquilo que forma um bom profissional.
"A leitura continua sendo fundamental. Os livros continuam sendo muito importantes". Seu conselho para quem inicia a carreira resume bem o espírito da profissão: "Que se aprimorem sempre, participem dos cursos e nunca deixem de buscar conhecimento".
Tecnologia como aliada da prática jurídica
Para o advogado Negis Aguilar da Silva, de 58 anos, que participou do Programa de Letramento Digital da seccional paulista, incluindo uma capacitação realizada pela Comissão dos Direitos da Pessoa Idosa, aprender a usar as ferramentas digitais se tornou uma necessidade da profissão. Foi esse o motivo que o levou a participar das capacitações.
Segundo ele, uma das maiores dificuldades estava na organização dos documentos para o protocolo eletrônico. "O que mais me chamava a atenção era a necessidade de separar os arquivos em PDF quando ultrapassavam o tamanho exigido. Durante o treinamento, descobri que o próprio sistema já faz essa divisão no tamanho correto para o protocolo, o que facilita muito o trabalho".
Neris também destaca o papel da OAB/SP no processo de adaptação dos profissionais às novas tecnologias. "A OAB nos oferece todas as ferramentas e o treinamento para que possamos utilizá-las. São iniciativas extremamente essenciais, porque a tecnologia muda todos os dias, e quem não se adaptar vai ficar para trás".
Ao refletir sobre o futuro da profissão, ele relembra uma frase que ouviu durante o ENJA, o maior Encontro Nacional da Jovem Advocacia do Brasil, realizado nos dias 21 e 22/5, em São Paulo: "Não me recordo qual foi a palestrante, mas ouvi uma frase que me marcou muito: o advogado que souber trabalhar junto com a inteligência artificial, sem transferir para ela a sua responsabilidade, será um advogado imbatível", concluiu.
No Mês da Advocacia, a OAB/SP preparou uma série de conteúdos, cursos e eventos voltados em celebração ao dia do advogado. Acompanhe a programação completa.