Para muitos brasileiros negros, reconstruir a própria história familiar é esbarrar em ausências: nomes, lugares e vínculos apagados ao longo de gerações. Foi a partir dessa ruptura que o físico, diplomata e, agora, escritor Ernesto Mané passou a olhar para a própria trajetória e para as origens da família paterna, na Guiné-Bissau.
Em uma viagem ao país africano, conheceu parentes, refez laços e registrou as descobertas em um diário. O material permaneceu guardado por cerca de uma década e, durante a pandemia de Covid-19, foi retomado e acabou dando origem ao livro.
Em entrevista ao Migalhas, Ernesto falou sobre o apagamento da memória da população negra, a viagem que lhe permitiu reconstruir parte da própria história, a passagem da Física para a diplomacia, as ações afirmativas no Instituto Rio Branco e o direito à memória como dimensão da identidade brasileira.
Confira:
Memória interrompida
Ao tratar da própria história familiar, Ernesto relaciona a dificuldade de brasileiros negros reconstruírem sua ancestralidade ao passado escravocrata e às políticas de embranquecimento adotadas pelo Estado brasileiro após a abolição.
Segundo ele, enquanto descendentes de imigrantes europeus muitas vezes conseguem identificar a origem dos antepassados, preservar histórias familiares e até obter uma segunda nacionalidade, muitos descendentes de africanos escravizados não têm acesso aos mesmos registros.
"Então a memória dessas pessoas foi apagada mais uma vez."
No caso de Ernesto, a possibilidade de reconstruir parte dessa história veio do fato de seu pai integrar um movimento migratório mais recente, da Guiné-Bissau para o Brasil. Essa ligação permitiu que ele retornasse à região onde vivia a família paterna e encontrasse parentes que até então conhecia apenas de forma fragmentada.
A viagem também levou o escritor a pensar nos vínculos que se perderam ao longo dos séculos.
Reconstruindo os laços
Ernesto viajou à Guiné-Bissau em 2010 e, pela primeira vez, decidiu manter um diário de viagem.
Todos os dias, registrava acontecimentos, descobertas e as relações de parentesco que tentava compreender. Também fotografava a experiência.
Ao longo da viagem, parentes até então desconhecidos se apresentavam como primos, tios ou filhos de outros familiares. Ernesto precisou, como descreve, reconstruir em tempo real aquele "tecido de relações".
O diário passou a reunir uma história familiar que corria o risco de desaparecer. Pouco tempo depois, muitos dos parentes encontrados por Ernesto morreram ou emigraram. Para ele, sem aqueles registros, parte da memória recuperada durante a viagem teria se perdido novamente.
Do diário ao livro
De volta da Guiné-Bissau, Ernesto guardou o diário por aproximadamente dez anos.
O material só foi retomado durante a pandemia de Covid-19. Diante da possibilidade da morte e pensando nos próprios filhos, decidiu transcrever os registros e preservar aquela história para as gerações seguintes.
"Não queria que acontecesse com eles o que aconteceu comigo. Que tive essa história interrompida, apagada."
A partir de 2020, os relatos começaram a ganhar forma literária e deram origem ao livro.
Para Ernesto, transformar aquela experiência em escrita também foi uma maneira de impedir que as histórias recuperadas durante a viagem desaparecessem.
Direito à memória
A experiência pessoal levou Ernesto a uma reflexão mais ampla sobre o direito à memória.
Para o diplomata, recuperar a história da população afrodescendente não deve depender apenas de iniciativas individuais. Esse esforço, afirma, também precisa ser assumido pelo Estado brasileiro por meio de políticas públicas de resgate e recuperação da memória.
A discussão, segundo ele, se conecta a temas como o tráfico transatlântico, os efeitos do colonialismo, o reconhecimento do que aconteceu e as reparações.
"Isso entra nesse pacote, o direito à memória como um direito humano coletivo."
Ernesto considera que recuperar essas conexões faz parte de um processo de "reconciliação do Brasil consigo mesmo" e da construção de uma identidade nacional.
Trata-se, na visão dele, de garantir que essa memória seja reconhecida e preservada também como uma responsabilidade coletiva e estatal.
Da Física à diplomacia
A viagem também coincidiu com uma transformação profissional.
Antes de ingressar no Itamaraty, Ernesto era físico. No fim da graduação, entre 2004 e 2005, conheceu o programa de ação afirmativa do Instituto Rio Branco, criado para ampliar a presença de candidatos negros na carreira diplomática.
Ele foi aprovado para receber a bolsa de estudos oferecida pelo programa em 2005, mas, no mesmo período, iniciou um doutorado em Física em Manchester, no Reino Unido, e adiou os planos de prestar o concurso.
Anos depois, decidiu retomar o projeto. Voltou ao Brasil, preparou-se para a seleção e foi aprovado no concurso para a carreira diplomática em 2014.
"Esse livro também marca uma transição da minha vida. Porque antes do livro eu era físico e depois do livro eu virei um diplomata."
Desde então, passou por áreas ligadas a desarmamento, não proliferação de armas, temas humanitários, refugiados e diplomacia cultural. Também atuou na Embaixada brasileira em Washington e, atualmente, trabalha na Embaixada em Buenos Aires.
Ações afirmativas no Itamaraty
Ao relembrar o ingresso na carreira, Ernesto destaca a importância das políticas de ação afirmativa para modificar a composição do corpo diplomático brasileiro.
Segundo ele, o programa do Instituto Rio Branco surgiu em um contexto no qual o Brasil era questionado pela baixa presença de negros entre os diplomatas que representavam um país de população majoritariamente negra.
Mais tarde, Ernesto também participou da primeira banca de heteroidentificação de candidatos negros no concurso para a diplomacia.
Para o escritor, ampliar a diversidade dentro do Itamaraty está diretamente relacionado à própria função do diplomata de representar o país.
Ainda que considere insuficiente o número de diplomatas negros, Ernesto afirma que a presença aumentou significativamente nos últimos anos e lembra que o Instituto Rio Branco também passou a adotar medidas voltadas a candidatos indígenas.
Vozes que atravessam a escrita
Ao falar das referências literárias, Ernesto cita autores brasileiros, estrangeiros e africanos.
Entre os nomes que menciona estão Carolina Maria de Jesus, cuja escrita em diário serviu de inspiração, e Conceição Evaristo, especialmente pelo conceito de escrevivência, formulado pela autora para definir uma escrita que parte das experiências vividas por mulheres negras e transforma memória individual e coletiva em narrativa.
Também aparecem entre suas referências Jeferson Tenório, James Baldwin, Ta-Nehisi Coates, Toni Morrison, Felwine Sarr, o escritor guineense Abdulai Sila e Achille Mbembe.
Para Ernesto, essas leituras ajudam a formar um mapa literário ligado às questões que atravessam sua própria obra: memória, identidade, ancestralidade e experiência negra.
Raio-x da obra
Antes do Início
Publicado pela Tinta-da-China Brasil em 2025, Antes do Início nasce do diário mantido por Ernesto Mané durante uma viagem à Guiné-Bissau, em 2010, quando decidiu conhecer a família paterna e reconstruir vínculos com suas origens. Quinze anos depois, o então físico, já diplomata de carreira e cidadão guineense, transformou os registros em livro.
A obra acompanha a convivência de Ernesto com avós, tios, irmãos, primos e sobrinhos e as descobertas feitas durante a permanência no país. A experiência também abre espaço para reflexões sobre paternidade, birracialidade, negritude, racismo e os efeitos da diáspora africana sobre a construção da identidade.
Ao longo de 256 páginas, o autor parte de questões íntimas - quem é, de onde vem e a que lugar pertence - para refletir sobre memória e pertencimento. O título remete ao "t = 0", o tempo zero da Física, usado no livro como imagem para a busca por um ponto de origem a partir do qual seja possível reconstruir a própria história.