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Migalhas Notariais e Registrais

Questões práticas e teóricas envolvendo o Direito Notarial e de Registro.

Izaías G. Ferro Júnior, Carlos Eduardo Elias de Oliveira, Hercules Alexandre da Costa Benício, Flauzilino Araújo dos Santos, Ivan Jacopetti do Lago e Sérgio Jacomino
1. Introdução Suponha-se, para fins exemplificativos, que o cartório lance na máquina o valor de R$ 100,00, correspondente ao emolumento de um ato. Se o usuário paga no débito, a máquina cobra R$ 100,85; se paga no crédito, R$ 102,00. O cartório recebe os R$ 100,00 da tabela, e a diferença corresponde ao custo da operação cobrado pela credenciadora. Quem prefere não arcar com esse acréscimo paga por Pix, transferência ou dinheiro, sem custo adicional. A prática levanta uma pergunta que a lei não responde de forma expressa: quem deve suportar o custo do meio de pagamento escolhido pelo usuário? O art. 30, XV, da lei 8.935/94 obrigou notários e registradores a admitir o pagamento por meio eletrônico, inclusive parcelado, mas nada disse sobre o custo da operação. Na ausência de regra específica, a resposta deve ser buscada no conjunto das normas que regem os emolumentos e a atividade delegada. O objetivo deste artigo é demonstrar, por interpretação sistemática, que o repasse do custo operacional ao usuário é compatível com o ordenamento, desde que observadas certas condições, e que essa solução é a única que preserva, ao mesmo tempo, a integralidade do emolumento e a liberdade de escolha do usuário. 2. O ponto de partida: O direito à percepção integral dos emolumentos O art. 28 da lei 8.935/94 assegura aos notários e oficiais de registro o direito "à percepção dos emolumentos integrais pelos atos praticados na serventia". A lei 10.169/00, por sua vez, determina que o valor dos emolumentos corresponda ao efetivo custo e à adequada e suficiente remuneração dos serviços prestados (art. 1º, parágrafo único). O emolumento é taxa (STF, ADIn 1.378-MC), e seu valor é fixado em lei estadual, de forma que não pode ser majorado, mas também não deve ser reduzido por fatores alheios à prestação do serviço. Quando o cartório absorve a taxa da credenciadora, recebe menos do que a tabela prevê. Em um emolumento de R$ 100,00 pago no crédito, o delegatário passa a perceber R$ 98,00, enquanto as taxas e os fundos incidentes continuam devidos sobre o valor integral, como a própria Corregedoria paraense advertiu ao autorizar o uso do cartão em 2020 (ofício circular 133/20-DJ/CJRMB). O resultado é uma redução do emolumento por via indireta, sem lei que a autorize, o que contraria o art. 28 e o parâmetro de remuneração adequada da lei 10.169/00. O repasse, ao contrário, preserva a tabela nos dois sentidos. O usuário paga ao cartório exatamente o emolumento previsto em lei, nem mais nem menos, e o acréscimo corresponde ao preço do serviço financeiro que ele próprio escolheu utilizar. O emolumento permanece íntegro, e a taxa da operação é suportada por quem a gerou. 3. O dever de admitir o meio eletrônico e a escolha do usuário O inciso XV do art. 30 da lei 8.935/94 foi incluído pela MP 1.085/21 e mantido pela lei 14.382/22: o notário e o registrador devem "admitir pagamento dos emolumentos, das custas e das despesas por meio eletrônico, a critério do usuário, inclusive mediante parcelamento". A lei impõe o dever de oferecer o meio eletrônico, e não o de suportar o seu custo, e nada dispõe sobre o repasse da taxa da operação. Ao exigir que o pagamento seja admitido "inclusive mediante parcelamento", pressupõe o cartão de crédito, e o cartão de débito integra o mesmo conjunto de meios eletrônicos postos à disposição do usuário, a quem cabe escolher entre eles. Lido em conjunto com o art. 28, que garante ao delegatário a percepção integral dos emolumentos, o dispositivo conduz a uma conclusão direta: o custo operacional da forma de pagamento é de quem a escolheu, ou seja, do usuário, desde que lhe seja assegurada alternativa sem custo. Essa lógica coincide com a disciplina do provimento 127/22 do CNJ. O caput do art. 2º exige que ao menos um dos meios de pagamento seja disponibilizado "sem nenhum custo adicional para os interessados", e o § 1º, II, determina que os custos da intermediação financeira e do parcelamento por cartão de crédito sejam "repassados ao usuário e por ele suportados, mediante a inclusão dos valores respectivos no pagamento devido". Os incisos III e V exigem, além disso, a demonstração clara do custo do boleto e, no crédito, dos juros e do custo efetivo total. O provimento não se limita à plataforma de pagamentos que disciplina: o art. 5º estende suas normas, no que couber, às centrais das demais especialidades, e o art. 6º autoriza o titular a adotar, nos pedidos feitos diretamente na serventia, os meios de pagamento nele previstos. O art. 6º é decisivo, porque leva o provimento ao balcão. Ao dispor que, "nos pedidos feitos diretamente na serventia, poderá o titular ou responsável pela unidade do serviço notarial ou registral adotar os meios de pagamento previstos neste Provimento", a norma estende ao atendimento presencial não apenas os instrumentos enumerados no art. 1º, mas o regime com que o provimento os disciplina no art. 2º: ao menos um meio sem custo, repasse ao usuário do custo da intermediação financeira e do parcelamento no crédito, e transparência sobre juros e custo efetivo total. Os meios de pagamento previstos no provimento são, por definição, os meios submetidos a essas regras, de forma que adotá-los no balcão é adotá-los com elas. Por isso, o titular que admite o cartão de crédito no atendimento presencial pode repassar ao usuário o custo da operação, nos mesmos termos em que o repasse ocorre na plataforma. Não há fundamento para que a mesma norma, para o mesmo meio de pagamento e o mesmo custo, imponha o encargo ao usuário em um canal e ao cartório em outro. O percurso normativo reforça essa leitura. O provimento 98/20, editado durante a pandemia, atribuía aos notários e registradores os custos administrativos dos meios eletrônicos (art. 1º, § 1º), em um momento em que aceitar o cartão era escolha do próprio delegatário. Essa regra foi revogada pelo provimento 136/22, e a decisão do corregedor nacional registrou que a revogação ocorreu porque já existia norma mais recente sobre a mesma matéria, o provimento 127/22. Como o provimento 98 regia os pagamentos feitos nas próprias serventias, a afirmação de que o 127 disciplina a mesma matéria confirma que este, por força do seu art. 6º, alcança o balcão, inclusive quanto ao regime de custos. No Pará, o ofício circular 133/20, que seguia o provimento 98 e atribuía o custo ao cartório, tinha prazo até 31/12/20 e caráter expressamente temporário. Em 2025, a Corregedoria-Geral paraense, ao examinar reclamação contra cartório de Altamira, reconheceu as diversas formas de pagamento, inclusive cartão de crédito, "conforme disposto no provimento 127/22" (PP 0001853-17.2024.2.00.0814). A razão que justificava impor o custo ao cartório desapareceu: em 2020, quem escolhia o cartão era o delegatário; desde a MP 1.085/21, a lei transferiu a escolha ao usuário. 4. As objeções e a sua superação A primeira objeção é a da taxatividade: o art. 3º, III, da lei 10.169/00 veda cobrar das partes "quaisquer outras quantias não expressamente previstas nas tabelas de emolumentos", e leis estaduais repetem a regra, como a lei paraense 10.257/23 (art. 11, I). A vedação, contudo, dirige-se a quantias cobradas pelo ato. No modelo descrito, o cartório recebe exatamente o valor da tabela, e o acréscimo remunera o serviço financeiro de terceiro, contratado em razão da escolha do usuário. Não há emolumento a maior, mas preço de um meio de pagamento distinto do ato notarial ou registral. A própria lei paraense, aliás, admite a cobrança de despesas pertinentes ao ato sem previsão nas tabelas, desde que autorizadas pela Corregedoria-Geral de Justiça (art. 14, parágrafo único), o que mostra que a taxatividade alcança os emolumentos, e não todo valor relacionado ao ato. A segunda objeção apoia-se no art. 21 da lei 8.935/94, que atribui ao titular a responsabilidade pelas despesas de custeio. A regra, porém, deve ser lida em conjunto com o art. 28 e com o inciso XV do art. 30. As despesas de custeio são as da estrutura do serviço, que o emolumento remunera; a taxa da operação não decorre do serviço, mas da modalidade de pagamento escolhida pelo usuário. Interpretar o art. 21 como imposição ao cartório do custo dessa escolha significaria esvaziar o art. 28 por via oblíqua. A terceira objeção sustenta que a interpretação sistemática seria analogia, vedada em matéria de emolumentos por algumas leis estaduais, como o art. 12 da lei paraense 10.257/23. Não se trata, contudo, de estender a hipótese de cobrança de um emolumento a outro ato, mas de definir o alcance do direito à percepção integral e da vedação de quantias extratabela, harmonizando normas que incidem sobre a mesma situação. As consequências práticas da solução também devem ser consideradas. O art. 20 da LINDB impede que a decisão administrativa se apoie em valores jurídicos abstratos sem considerar as suas consequências práticas, e o art. 22 manda considerar os obstáculos e as dificuldades reais na interpretação das normas sobre gestão pública, sem prejuízo dos direitos dos administrados. Impor ao cartório o custo de todas as modalidades de pagamento escolhidas pelos usuários onera de forma desproporcional as serventias de menor arrecadação, para as quais a taxa da operação pode representar parcela relevante do emolumento. Esses dispositivos não substituem a autorização legal, mas orientam a interpretação de uma lacuna normativa e a motivação das decisões das corregedorias sobre o tema. Duas observações completam o quadro. O provimento 127 refere-se expressamente ao cartão de crédito, mas o repasse do custo do débito não depende dele: decorre diretamente do art. 30, XV, combinado com o art. 28, pois o débito também é meio eletrônico escolhido pelo usuário, e a sua taxa, se absorvida pelo cartório, reduz o emolumento percebido. A lei 13.455/17, que autoriza a diferenciação de preços em função do instrumento de pagamento, tem aplicação controvertida aos serviços notariais, cujos usuários são contribuintes e não consumidores, e deve ser invocada apenas como sinal de que o ordenamento admite custos distintos conforme o meio de pagamento. 5. A confirmação nos Estados e as condições de licitude Onde o tema foi enfrentado de forma expressa, prevaleceu a solução aqui defendida. Em Minas Gerais, a Corregedoria reviu entendimento anterior e reconheceu, em 2019, que o usuário deve arcar com as taxas do cartão de crédito ou de débito quando optar por essa forma de pagamento, com informação visível e no momento da quitação, com base no art. 17 da lei estadual 15.424/04 (decisão 894/19). Em Goiás, a Corregedoria do Foro Extrajudicial orientou, em 2025, que a cobrança adicional é legal, com fundamento na lei estadual 19.191/15 e no código de normas local. No Espírito Santo, o provimento CGJ 8/24 passou a permitir o repasse dos encargos de qualquer meio de pagamento eletrônico, invocando o provimento 127. Da interpretação sistemática resultam cinco condições para que o repasse seja lícito: o cartório deve receber o emolumento integral e recolher integralmente as taxas e os fundos; deve haver ao menos um meio de pagamento sem custo para o usuário; o valor adicional deve ser informado de forma prévia e clara; o repasse deve corresponder exatamente ao custo cobrado pela credenciadora, sem qualquer margem para o cartório; e o recibo deve discriminar o emolumento e o custo da operação. Essas condições não são apenas cautelas operacionais, mas expressão dos direitos do usuário. A lei 13.460/17, aplicável subsidiariamente aos serviços públicos prestados por particular (art. 1º, § 3º), assegura ao usuário a obtenção e a utilização dos serviços com liberdade de escolha entre os meios oferecidos e sem discriminação (art. 6º, II), e veda a imposição de obrigações não previstas na legislação (art. 5º, IV). Esses comandos são atendidos quando o usuário dispõe de meio de pagamento sem custo e é previamente informado do acréscimo: nada lhe é imposto, todos têm acesso às mesmas alternativas, e cabe a cada um decidir se a comodidade do cartão justifica o seu custo. 6. Conclusão A lei tornou obrigatório admitir o pagamento eletrônico, a critério do usuário, mas não disse quem arca com o seu custo. A interpretação sistemática do art. 28 da lei 8.935/94, do art. 1º, parágrafo único, da lei 10.169/00, do inciso XV do art. 30 e do provimento 127/22 do CNJ, cujo art. 6º estende ao balcão os meios de pagamento e o respectivo regime de repasse de custos, conduz à conclusão de que o custo operacional do cartão, de crédito ou de débito, é de quem escolhe esse meio, o usuário, e pode ser a ele repassado, porque só assim o emolumento é percebido de forma integral e a escolha do usuário é respeitada. A solução não representa remuneração adicional pela prática do ato nem autoriza cobrança além da tabela: o usuário que paga por Pix ou dinheiro paga exatamente o emolumento, e quem opta pelo cartão arca apenas com o preço do serviço financeiro que escolheu, com transparência e liberdade de escolha. A uniformização nacional da matéria, por ato do CNJ, contribuiria para conciliar a taxatividade dos emolumentos, a adequada remuneração dos serviços delegados e os direitos dos usuários. Enquanto ela não ocorre, recomenda-se que o delegatário observe as condições aqui indicadas e acompanhe a orientação da corregedoria local, que poderá conferir à interpretação aqui proposta a segurança de uma regra expressa. _____ BRASIL. Lei 8.935, de 18 de novembro de 1994, arts. 21, 28 e 30, XV. BRASIL. Lei 10.169, de 29 de dezembro de 2000, arts. 1º, parágrafo único, e 3º, III. BRASIL. Decreto-Lei 4.657, de 4 de setembro de 1942 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), arts. 20 e 22. BRASIL. Lei 13.455, de 26 de junho de 2017. BRASIL. Lei 13.460, de 26 de junho de 2017, arts. 1º, § 3º, 5º, IV, e 6º, II. BRASIL. Lei 14.382, de 27 de junho de 2022. BRASIL. Medida Provisória 1.085, de 27 de dezembro de 2021. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Provimento 98, de 27 de abril de 2020; Provimento 127, de 9 de fevereiro de 2022; Provimento 136, de 30 de setembro de 2022. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 1.378-MC/ES, rel. min. Celso de Mello, j. 30/11/1995. ESPÍRITO SANTO. Corregedoria-Geral da Justiça. Provimento 08, de 23 de agosto de 2024. GOIÁS. Tribunal de Justiça. Corregedoria do Foro Extrajudicial. Orientação divulgada em 5 de março de 2025. MINAS GERAIS. Corregedoria-Geral de Justiça. Decisão 894, de 13 de fevereiro de 2019 (SEI 0105955-56.2018.8.13.0000). PARÁ. Lei 10.257, de 11 de dezembro de 2023, alterada pela Lei 10.822, de 19 de dezembro de 2024. Corregedorias de Justiça. Ofício Circular 133/2020-DJ/CJRMB. Corregedoria-Geral de Justiça. PP 0001853-17.2024.2.00.0814, DJ 8012/2025.
Nesta edição vamos enfrentar um caso concreto que tramitou pela nossa Serventia e que acabou na Corregedoria-Geral da Justiça de São Paulo em grau de recurso. O tema era complexo e envolvia várias questões relativas a direito material. A Eg. Corregedoria negou provimento ao recurso e manteve a recusa, sem descer a detalhes que se achavam no processo e na minha manifestação - como a questão da formalização do título arbitral. Fez bem o venerando órgão do Judiciário bandeirante. Em face dos precedentes que a própria decisão reportou, não cabia mesmo adentrar nessa seara espinhosa. A formalização do título era o aspecto lateral que destaco aqui por tanger o nervo sensível de uma questão não enfrentada em seus fundamentos jurídico-institucionais: a carta de sentença oriunda de juízo arbitral é o veículo formal idôneo para os casos de inventário, adjudicação e usucapião extrajudiciais? Sempre entendi que não - e sigo no mesmo pensamento, embora alguns precedentes admitam, em determinadas hipóteses, o acesso de tais títulos ao fólio sem maiores considerações, como veremos em breve síntese abaixo. O Eg. CNJ acha-se novamente debruçado sobre o tema (Pedido de Providências 0008369-70.2024.2.00.0000, em trâmite na Corregedoria Nacional de Justiça, ao qual se vincularam as Consultas 0001045-63.2023.2.00.0000 e 0006597-09.2023.2.00.0000, ambas sobrestadas).1 Em breve, teremos um posicionamento que é bem-vindo por encerrar controvérsias e estabelecer um norte seguro para a diuturnidade das atividades notariais e registrais. Até lá, vale a pena agitar os argumentos que se podem alevantar contra o esvaziamento dos atos próprios dos notários e dos escrivães judiciais - órgãos da fé pública, que a larga tradição do direito judiciário brasileiro consagrou e revestiu da mais alta importância por sua função documental e formalizadora dos atos jurídicos. São os órgãos auxiliares da justiça, incumbidos de "lavrar os atos e contratos, de autenticar os atos processuais, de atestar a identidade das pessoas, das letras e das assinaturas e firmas, de registrar os títulos de direito e de conservar os respectivos formais", como registrou João Mendes de Almeida Jr.2 São tais órgãos os agentes do "poder certificante" do Estado na tutela e proteção jurídica de interesses privados. Sinto-me à vontade para veicular o meu ponto de vista. Não sou notário nem escrivão judicial. A defesa que faço dos "órgãos da fé pública" é uma tomada consciente de posição na defesa da tradição judiciária e do foro judicial e extrajudicial.3 Prospectando o território Antes de qualquer outra consideração, é preciso destacar o que temos no horizonte jurisprudencial. As decisões do CNJ e dos órgãos paulistas agrupam-se em quatro núcleos, e em cada um vale observar por que o título foi admitido ou recusado. Usucapião Aqui o quadro está bem assentado. O Plenário do CNJ fixou a tese de que o registro de imóveis "deve negar o registro de sentença arbitral que declara a aquisição originária da propriedade de bem imóvel por usucapião, diante da incompatibilidade da arbitragem com os parâmetros legais que regem a usucapião extrajudicial e a atividade registral". O Plenário reputou nula a sentença e determinou a remessa dos autos aos Ministérios Públicos estaduais e do Distrito Federal4. O pedido de modulação de efeitos não foi conhecido5, e a Corregedoria Nacional chancelou nota devolutiva expedida nesses termos6. Em São Paulo, o TJ/SP proclamou a nulidade de pleno direito da sentença arbitral de usucapião7 e o CSMSP negou à justiça arbitral competência para declarar o domínio, de efeitos erga omnes e regido por normas de ordem pública8. O fundamento é a matéria: em regra, a arbitragem pressupõe litígio entre partes capazes e determinadas, e a usucapião exige procedimento legal, publicidade e chamamento de terceiros indeterminados (art. 216-A da LRP). Não se discutiu a forma do título - que é o ponto nuclear deste artigo. Adjudicação O Plenário do CNJ não se pronunciou. Na Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000, a Corregedoria Nacional aprovou pareceres da CONR que admitem a via arbitral: o fato de a sentença arbitral reconhecer ou determinar a adjudicação compulsória não a torna título inábil, exigindo-se a prova da representação e da legitimidade das partes no procedimento arbitral e a observância da continuidade; e é "admissível a adoção da via arbitral para fins de adjudicação compulsória, desde que observados os requisitos formais exigidos na qualificação registral"9. A consulta está sobrestada até o julgamento do PP 0008369-70.2024.2.00.0000. Na jurisprudência paulista, a carta de sentença arbitral de adjudicação compulsória é tratada como título hábil, mas sujeito à qualificação registral. A denegação de acesso se repete: procedimento movido contra espólios sem prova da inventariança nem da autorização judicial para o compromisso (arts. 618 e 619 do CPC)10; titular casado no regime da comunhão universal, com cônjuge pré-morto, sem prévio registro da partilha11; procedimento instaurado contra pessoas falecidas e descrição do imóvel divergente da tabular12; credor ou proprietário fiduciário estranho à convenção de arbitragem13. Somam-se defeitos do próprio documento: "ata notarial de carta de sentença" tida por formalmente inapta e carta de arrematação de origem arbitral sem assinatura do árbitro14. Os fundamentos de recurso encontradiços são a continuidade, os limites subjetivos da sentença arbitral (art. 31 da lei 9.307/1996) e vícios formais do título. Nenhuma decisão negou a arbitrabilidade da adjudicação, nem confrontou a via arbitral com o procedimento do art. 216-B da LRP. A admissibilidade da via arbitral foi, contudo, contestada pelo IRIB e pelo CNB/CF na Consulta 0006597-09.2023, e a adjudicação compulsória figura entre as matérias submetidas às Corregedorias locais no PP 0008369-70.2024. Partilhas A questão está aberta. Em parecer da CONR aprovado pelo corregedor nacional, afirmou-se que o art. 610, § 1º, do CPC "é expresso no tocante a atribuição notarial para realização do inventário e partilha extrajudicial, inexistindo espaço interpretativo para abarcar o modelo de arbitragem", ficando prejudicado o ingresso de tal sentença no registro; havendo consenso, compete ao notário a "lavratura da escritura pública"15. O Plenário ainda não se pronunciou - e a própria Presidência do CNJ o reconheceu, ao assentar que a formalização de inventário e partilha por sentença arbitral "não foi objeto de apreciação do Plenário"16. Em sentido oposto, a Corregedoria Nacional considerou que recusas de sentenças arbitrais de inventário fundadas na inexistência de lide, na indisponibilidade dos direitos sucessórios ou na natureza dos bens do espólio extrapolam a qualificação registral, e determinou apuração disciplinar17. O PCA 0004357-13.2024, por sua vez, não decidiu se inventário e partilha são arbitráveis, mas anulou a regra segundo a qual não há litígio na sentença arbitral que homologa acordo18. Em São Paulo, a 1ª VRP admitiu carta de sentença arbitral homologatória de divisão amigável para extinção de condomínio, dispensando a escritura pública (art. 108 do CC)19. A decisão, que não versava sobre partilha sucessória, dispensou a forma pública com apoio apenas na equiparação de efeitos do art. 31 da Lei 9.307/1996 - passo que se examinará adiante. No Registro Civil, a 2ª VRP recusou a averbação de separação e de divórcio fundados em compromisso ou sentença arbitral20. Aqui os dois planos se cruzam: a CONR invoca a forma prescrita em lei (escritura pública) e a ausência de litígio que a arbitragem pressupõe. Cartas de sentença em geral O CNJ declarou que a expressão "carta de sentença" do art. 221, IV, da LRP abrange a carta de sentença arbitral e que nenhum ato normativo da Corregedoria Nacional impede sua inscrição21. Os consulentes perguntaram, nas duas ocasiões, se notários e registradores poderiam formar cartas de sentença arbitrais; a pergunta ficou sem resposta. O CNJ recusou-se a criar canal direto entre câmaras arbitrais e registros de imóveis, porque os árbitros "não detêm o poder de império, que é próprio do Estado" e a carta arbitral liga apenas o árbitro ao juiz22. Fixou, ainda, que todo título arbitral se sujeita à qualificação, limitada aos elementos extrínsecos e sem incursão no mérito, sem prejuízo do procedimento de dúvida.23 A jurisprudência paulista assenta que o título arbitral "deve atender a requisitos formais próprios de toda carta de sentença"24 e o qualifica quanto a requisitos formais, autenticidade e continuidade25. No caso mais recente - justamente o pedido de providências da nossa serventia -, a carta arbitral que desfazia dação em pagamento foi recusada porque o desfazimento de negócio translativo exaurido configuraria nova transmissão, a exigir escritura pública e ITBI. Além disso, uma caução locatícia de terceiro dependia de sua anuência para a prática do ato26. A tendência jurisprudencial é no sentido da aptidão de acesso ao Registro de Imóveis da sentença arbitral, reconhecida em tese. O CNJ não disse quem forma o título que a veicula, nem que ele substitua a forma que a lei impõe a atos determinados. Em todas as frentes, decidiu-se o acesso (ou a recusa) da sentença arbitral ao registro: pela matéria (usucapião), pelos limites subjetivos e pela continuidade (adjudicação), pela forma legal e pela ausência de litígio (partilha), pelos vícios e pela autenticidade do documento (cartas em geral). Nenhuma decisão enfrentou esta questão: quem forma o título que veicula a sentença arbitral? O mais próximo disso foi o parecer da CONR aprovado em 2024 na Consulta 0006597-09.2023, que supôs serem as cartas arbitrais "expedidas por árbitro ou tribunal arbitral, na forma autorizada pelo art. 22-C da lei 9.307/96". A suposição confunde a carta arbitral - instrumento de cooperação entre árbitro e juiz - com a carta de sentença; o próprio Plenário, no PP 0005583-87.2023, assentou que a carta arbitral liga apenas o árbitro ao juiz. A questão está agora posta no PP 0008369-70.2024, em que a Corregedoria Nacional indagou às Corregedorias locais sobre a "formalização da carta de sentença arbitral pelos Tabelionatos de Notas"27. Inidoneidade formal do instrumento apresentado A sentença arbitral, ainda que exarada em câmara arbitral regularmente constituída, não se equipara aos instrumentos públicos dotados de fé pública, nem ostenta, por si só, a forma hábil para dar lastro às mutações jurídico-reais operadas pelo Registro de Imóveis. É certo que nem a lei de Arbitragem (lei 9.307/1996), nem a resolução CNJ 350/20, nem tampouco o provimento CSM 2.348/16 exigem o credenciamento da câmara arbitral junto ao Tribunal de Justiça. O provimento paulista aplica-se apenas às câmaras privadas de conciliação e mediação, que devem ser credenciadas junto ao Tribunal. Não se trata, portanto, de questionar a regularidade da câmara. Ainda assim, o acesso ao fólio real de títulos extraídos com base na lei de Arbitragem não deve ser admitido tout court, como se verá. Dispõe o art. 31 da lei 9.307/1996 que a "sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo". Nota bene: efeitos entre as partes e seus sucessores - não perante terceiros. O dispositivo equipara os efeitos das duas sentenças. Nada diz, porém, sobre a forma pela qual a sentença arbitral se exterioriza e se projeta em relação a terceiros. Aqui reside o problema. Os limites subjetivos da coisa julgada são, a rigor, os mesmos nas duas hipóteses, pois também a sentença judicial "faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros" (CPC, art. 506). Em regra, a eficácia erga omnes não provém da sentença, mas do registro público. A questão, portanto, não é saber se a sentença arbitral produz efeitos, e sim se o documento apresentado a registro é título formalmente idôneo e apto a ingressar no sistema. Desde antiga decisão do STF, admite-se que o escrito público, "emanado do tabelião de notas ou do escrivão, tem a sua autenticidade assegurada pela mesma fé pública. São escrituras públicas, em sentido amplo, revestidas do mesmo valor"28. O jurista deve então perguntar se o mesmo ocorre com a carta de sentença arbitral. Teria ela a virtude de portar a fé pública que reveste os atos notariais e os de extração judiciária? Ostentaria a mesma presunção de autenticidade, validade e eficácia? A resposta exige recuperar uma distinção que os nossos maiores conheciam muito bem entre instrumento e documento. Vale a lição (sempre clássica) de João Mendes de Almeida Jr.: O CC distingue o instrumento do documento. INSTRUMENTO é a forma especial, dotada de força organica para realizar ou tornar exequivel um acto juridico; DOCUMENTO é a forma escripta apenas dotada de relativa força probante, contribuindo para a verificação dos factos.29 E adiante: O Código distingue os DOCUMENTOS dos INSTRUMENTOS, porque os INSTRUMENTOS têm força organica, quer sejam considerados da substancia do acto, quer sejam considerados -  prova preconstituida, visto que, por si mesmo, são motores de acção, - ao passo que os DOCUMENTOS têm simples força probante em acção movida, isto é, são provas casuaes em relação ao [sic] factos e circumstancias resultantes da contestação da lide. - O primeiro traslado de uma Escriptura publica, por exemplo, é um instrumento, ao passo que a certidão dessa escriptura é um simples documento; a letra de cambio, a nota promissoria, as obrigações escriptas e assignadas pela parte e subscriptas por duas testemunhas, são instrumentos, - ao passo que uma carta apenas assignada pela parte é um simples documento.30 Poder-se-ia objetar que, por esse critério, a sentença arbitral seria instrumento, pois é título executivo judicial (CPC, art. 515, VII) e, como tal, "motor de acção", na dicção de João Mendes. A objeção, contudo, confunde a sentença com o documento que a veicula. A sentença arbitral (causa material) não se confunde com a formalização do ato consubstanciado no título que dela se extraia, sobretudo quando se pretende projetar o decidido com eficácia plenária com a inscrição no Registro Imobiliário. A chamada "carta" arbitral não é o mesmo que a própria sentença - ou, por outra: o título material (sentença arbitral) não é o mesmo que sua formalização (título formal). A propósito, é igualmente clássica a distinção, que mereceu igualmente a abonação de Humberto Theodoro Jr. No caso típico de arrematação - ato processual de transferência coativa - o auto respectivo é título de domínio "em sentido material, do arrematante sobre os bens adquiridos em hasta pública. O auto de arrematação funciona como título em sentido formal".31 A distinção é mais nítida ainda no caso de adjudicação: "Se o bem adjudicado for imóvel, após lavrado e assinado o auto, expedir-se-ão o mandado de imissão na posse e a carta de adjudicação, que será o título utilizável para registro da propriedade em nome do adjudicante no Registro de Imóveis (art. 877, § 1º, I). O auto de adjudicação funciona como o título material da aquisição, e a carta de adjudicação, como o instrumento ou título formal para acesso ao registro competente, onde de fato se dará a transferência da propriedade, segundo o sistema brasileiro de transmissão solene dos direitos reais imobiliários. A carta elaborada pelo escrivão do processo descreverá o imóvel adjudicado, fazendo remissão à sua matrícula e aos seus registros, para permitir que se proceda ao devido assento no Cartório de Imóveis. Além disso, conterá cópia do auto de adjudicação (título material da transferência da propriedade) e a prova de quitação do imposto de transmissão (art. 877, § 2º)".32 É certo que essas filigranas foram se diluindo na pororoca legislativa e na doutrina ligeira que se consagrou na seara do direito formal brasileiro. A distinção clássica, que opunha o instrumento ao documento, foi reduzida a uma relação de espécie e gênero. A lei vigente conserva os termos, mas já não exibe com nitidez a distinção sistemática de outrora, e pouca tinta se gasta com isso, especialmente na seara extrajudicial, onde justamente os termos técnicos mais se precisam. É possível, no entanto, reconstruí-la pela conjugação dos dispositivos legais. A escritura pública é da substância dos atos e negócios que visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta salários-mínimos (CC, art. 108); e faz prova plena (CC, art. 215). O art. 221 do CC qualifica de "instrumento particular" o escrito feito e assinado, ou somente assinado, por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens. É prova pré-constituída das obrigações, cujos efeitos, a respeito de terceiros, dependem do registro público. É nessa acepção de prova pré-constituída que se recupera a ideia de instrumento no art. 221, II, da lei 6.015/1973, ao exigir a notarização do documento, com assinatura das partes e testemunhas e o reconhecimento das firmas. A "carta" arbitral não preenche nem um nem outro modelo: não é instrumento público, e não atende aos requisitos do instrumento particular admitido a registro. A carta de sentença judicial, ao contrário, é instrumento público em sentido amplo, porque emana do escrivão - como reconheceu o Supremo Tribunal Federal na decisão acima referida. Ensaie-se, por fim, o cotejo entre a sentença do juiz togado e a do árbitro. A simetria não resiste à figuração analógica. Ao lado do árbitro não há cartório, à frente do qual se encontre um serventuário público investido de fé pública, encarregado de dar forma aos atos, autenticá-los e conservá-los. Não há acervo público perene que conserve o processo e permita a expedição de certidões a qualquer tempo, como ocorre com os livros notariais (lei 8.935/1994, art. 46) e com os autos judiciais. Os livros notariais guardam, além disso, a matriz do ato - o original lavrado no livro de notas -, que o tabelião conserva sob sua guarda e responsabilidade. É da matriz que se originam os traslados e certidões autênticos, pois a qualquer tempo podem ser confrontados com o original. É o chamado princípio da matricidade. No meio eletrônico, essa referência à matriz ganhou expressão própria: cada ato notarial eletrônico recebe a MNE - Matrícula Notarial Eletrônica, chave de identificação individualizada que facilita a unicidade e a rastreabilidade do ato. A chave integra o ato e deve ser indicada em todas as cópias expedidas; os traslados e certidões, por sua vez, remetem obrigatoriamente à consulta da validade do ato.33 Quem tenha interesse no ato pode, mediante cadastro prévio, conferir sua autenticidade no próprio sistema.34 No processo judicial, o CPC atribui ao escrivão ou ao chefe de secretaria o dever de manter os autos sob sua guarda e responsabilidade permanente, vedando, em regra, que saiam do cartório (art. 152, IV), e o de fornecer certidão de qualquer ato ou termo do processo, independentemente de despacho, observadas as regras de segredo de justiça (art. 152, V). Essas certidões, extraídas pelo servidor ou sob sua vigilância e por ele subscritas, fazem a mesma prova que os originais (art. 425, I). O mesmo diploma regula o acesso e a expedição de certidões nos casos de sigilo (art. 189, §§ 1º e 2º), impõe a numeração e rubrica de todas as folhas dos autos (art. 207) e, no ambiente eletrônico, exige autenticidade, integridade, temporalidade e conservação dos registros (art. 195). Nada disso se verifica, em regra, no procedimento arbitral. Não existe, ao lado do árbitro, um órgão público permanente, com fé pública e dever legal de conservação do acervo e de expedição de certidões a qualquer tempo, com o mesmo regime de autenticidade e prova plena que o CPC reserva aos autos judiciais. A carta de sentença arbitral, portanto, carece da estrutura institucional de custódia e publicidade que confere segurança jurídica e perenidade ao título judicial, o que impede a equiparação formal entre um e outro para fins de ingresso no registro público. João Mendes sempre nos lembrará que os "livros e autos públicos são de propriedade do Estado, posto que lavrados e conservados por oficiais de fé pública, que são órgãos do mesmo Estado".35 A carta de sentença judicial é formada, autenticada e conferida pelo escrivão. A "carta" arbitral não passa pelo crivo de nenhum agente público nem remanesce ao lado dos atos processuais e arquivos perenes. Falta, em suma, a eadem ratio que autorizaria o argumento a pari. Os escrivães subordinam-se aos juízes quanto a aspectos correcionais, "mas, quanto à fé do ofício, eles são subordinados somente à verdade e à realidade dos fatos que eles próprios praticam, das declarações que tomam, dos fatos que se passam na sua presença e assistência. E esta posição é uma garantia, não só para as partes, como também para os próprios juízes." Acrescento: não só para os juízes e as partes, já que os serventuários são órgãos "da fé do corpo social", movidos pelo "testemunho da verdade", segundo o mesmo João Mendes.36 A conclusão ganha relevo quando o ato a registrar seja uma partilha, porque a lei prescreve forma específica para ela. Na via judicial, a partilha se exterioriza pelo formal de partilha (CPC, art. 655). Na via extrajudicial, por escritura pública, "a qual constituirá documento hábil para qualquer ato de registro" (CPC, art. 610, § 1º). Nem se diga que a Consulta CNJ 0008630-40.2021.2.00.0000 - que reportou a solução dada no PP 0004727-02.2018.2.00.0000 -, ao reconhecer a carta de sentença arbitral como espécie do gênero previsto no art. 221, IV, da lei 6.015/1973, dispensaria a intervenção notarial. Aquela consulta reconheceu a sentença arbitral como título em tese registrável, sem afirmar que ela possa substituir a forma que a lei exige para atos específicos - e, como visto, sem dizer quem forma o título que a veicula. Ainda que se admita a premissa, o acolhimento dos documentos oriundos do juízo arbitral na calha do inc. IV do art. 221 da LRP não levou em consideração a leitura sistemática da própria lei 6.015/1973. O inciso refere-se a cartas de sentença, formais de partilha, certidões e mandados "extraídos de autos de processo"; o art. 222 determina que, nas escrituras, nas cartas de sentença e nos formais de partilha, "o tabelião ou escrivão deve fazer referência" à matrícula ou ao registro anterior; e, pelo art. 225, os tabeliães, escrivães e juízes farão com que, "nas escrituras e nos autos judiciais", as partes indiquem os elementos de determinação dos bens imóveis. O título formal pressupõe, pois, um órgão da fé pública de permeio que o lavre, certifique e conserve. A equiparação do art. 31 da lei 9.307/1996, como se viu, é de efeitos, não de forma; dela não se extrai que a "carta" arbitral valha como instrumento público. Coerentemente com a tradição, que impõe o rigor sistemático na interpretação do regime legal, não se pode alargar o sentido para acolher, por simples analogia, hipóteses que a lei não previu. Partilha: Forma prescrita em lei O caso concreto não envolvia uma partilha, mas é nela que a questão hoje se agita no CNJ - e nela o argumento formal se mostra com maior nitidez. A arbitragem pressupõe litígio (arts. 1º, 3º e 4º da lei 9.307/1996). Não se nega que nela caiba a homologação de acordo, mas o art. 28 da mesma lei merece leitura atenta, pois descreve um percurso: "Se, no decurso da arbitragem, as partes chegarem a acordo quanto ao litígio, o árbitro ou o tribunal arbitral poderá, a pedido das partes, declarar tal fato mediante sentença arbitral". O ponto de partida é o litígio; o acordo sobrevém in itinere, como desfecho possível de uma arbitragem já instaurada. A lei não contempla a instauração da arbitragem para chancelar consenso preexistente. Se as partes já chegam acordes, não há litígio a compor; há, quando muito, mera aparência, posta a serviço da escolha de uma forma que a lei não prevê. Nisso a arbitragem difere do processo judicial, em que o acordo é possível a qualquer tempo e em que a própria lei oferece via para homologar a autocomposição extrajudicial (CPC, art. 725, VIII) e a partilha amigável (CPC, art. 659). A lei esgota os veículos admitidos: escritura pública (art. 610, § 1º, do CPC), termo nos autos do inventário ou escrito particular homologado pelo juiz (art. 2.015 do CC). Havendo divergência, a partilha "será sempre judicial" (art. 2.016 do CC). A sentença arbitral não figura em nenhuma dessas hipóteses. No mesmo sentido, o parecer da CONR aprovado pela Corregedoria Nacional de Justiça na Consulta 0001045-63.2023.2.00.0000: "havendo consenso de vontade entre os interessados [.], competindo ao notário a tramitação integral do expediente administrativo"37. Não se trata de lacuna. A lei de Arbitragem é de 1996; a lei 11.441 veio em 2007 e o CPC em 2015. Conhecendo a arbitragem, o legislador elegeu a escritura pública como veículo da partilha consensual - opção legislativa que, como anotou a CONR, não contemplou a via arbitral, embora a lei 9.307/1996 lhe fosse anterior. Há, ainda, um argumento de simetria, desenvolvido por Alberto Gentil de Almeida Pedroso e recolhido pelo parecer da CONR. Ao acrescentar o art. 7º-A à lei 8.935/1994, o legislador autorizou o tabelião a atuar como árbitro (inc. III). Levou o notário à arbitragem - não o árbitro ao notariado. Não há "mão dupla": houve ampliação de atribuições do tabelião, e não uma "notarização do árbitro privado", ilação que afrontaria o art. 236 da Constituição.38 Nem altera o quadro a circunstância de o árbitro ser, ele próprio, tabelião. Ao decidir, o notário atua como árbitro, no exercício da jurisdição privada, e não pratica ato notarial; a sentença que profere não se converte em escritura pública. Não por acaso, a Corregedoria Nacional indagou às Corregedorias locais como tratar os potenciais conflitos de interesse "quando o mesmo notário atua como árbitro e, posteriormente, emite uma ata notarial para formalizar uma carta de sentença arbitral relativa à mesma disputa"39.  O padrão se repete em toda a desjudicialização com reflexo no fólio real. A usucapião e a adjudicação compulsória extrajudiciais foram confiadas ao registrador, instruídas por ata notarial (arts. 216-A e 216-B da LRP). Sempre que retirou do juiz a formalização de mutações jurídico-reais, o legislador a entregou a órgãos da fé pública sujeitos à fiscalização do próprio Judiciário - nunca a árbitros privados. Verificar se o título corresponde à forma legal não é revisão do mérito da sentença arbitral - vedada ao registrador (PCA 0004357-13.2024.2.00.0000, que tratou dos limites da qualificação registral sem decidir se inventário e partilha são arbitráveis) -, mas exame extrínseco da aptidão do título a produzir certos efeitos jurídicos para os quais a ordem legal impõe a observância de requisitos formais. A forma prescrita em lei integra a validade do ato (art. 104, III, do CC) e se afere pelas camadas exteriores (vestes formais do título), sem nenhum juízo sobre o que decidiu o árbitro. Como já se assentou, "a origem dos títulos, seja arbitral ou judicial, não basta para garantir ingresso automático no fólio real, cabendo ao Oficial qualificá-los conforme os princípios e as regras que regem a atividade registral" (1ª VRP-SP, processo 1102760-30.2025.8.26.0100, decisão mantida pela CGJSP). Também não altera esse quadro o PCA 0001153-87.2026.2.00.0000. Em decisão monocrática, o relator invalidou orientação da Corregedoria-Geral da Justiça da Paraíba que reputara juridicamente inviável a formalização de inventário e partilha por sentença arbitral - com apoio na ausência de previsão legal, no art. 610 do CPC e no art. 852 do CC -, por entender que esse juízo abstrato reintroduzia controle material sobre o título arbitral. É bom registrar que a r. decisão não exprime entendimento do Plenário. Ela foi impugnada por recursos administrativos do CNB/CF e da ANOREG/PB, que o relator recebeu sem reconsiderar, deixando a matéria à reapreciação colegiada. O próprio relator ressalvou que o exame se restringia ao ato concreto, sem formular "norma geral ou orientação abstrata vinculante", e que nada impede que a Corregedoria Nacional possa uniformizar a matéria, "inclusive firmando posicionamento distinto do ora adotado".40 A distinção é decisiva. O que ali se reprovou foi o juízo prévio e abstrato sobre a admissibilidade da via arbitral para o inventário - questão de fundo. A decisão ressalvou expressamente a "análise de requisitos formais e extrínsecos do título". É nesse plano que se coloca o argumento aqui desenvolvido: não se discute se a partilha poderia ter sido decidida pelo árbitro, mas se o documento apresentado é o instrumento que a lei exige para veiculá-la no registro e se foi formado por quem tem fé pública para tanto. Terceiros e controle fiscal A eficácia da sentença arbitral limita-se às "partes e seus sucessores" (art. 31 da lei 9.307/1996). Também a sentença judicial, como se viu, não prejudica terceiros (CPC, art. 506); a diferença não está nos limites subjetivos do julgado, mas nas cautelas que a lei interpõe em favor de quem não é parte. No inventário, esses terceiros são os eventuais credores do espólio, cônjuge ou companheiro, herdeiros eventualmente preteridos e a Fazenda Pública. Na via judicial, observam-se as cautelas de proteção de terceiros e de controle fiscal previstas no CPC, ressalvado o regime especial do arrolamento sumário (arts. 659, § 2º, e 662). Na via notarial, a dispensa do recolhimento prévio do ITCMD para a lavratura da escritura não afasta os deveres de informação e comunicação ao Fisco (resolução CNJ 35/07, art. 15, na redação da resolução 695/26). Essas cautelas não encontram correspondência institucional no procedimento arbitral. O registro, que produz efeitos erga omnes, não pode ter por causa título formado à margem dessas cautelas. Acresce o controle tributário. O CTN responsabiliza os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles ou perante eles (art. 134, VI); a lei 8.935/1994 impõe aos notários e registradores o dever de fiscalizar o recolhimento dos impostos incidentes sobre os atos que praticam (art. 30, XI); e a LRP reitera esse dever (art. 289).41 O árbitro não se submete a nenhuma dessas normas. A Eg. CGJSP foi enfática: o sistema registral "não admite que a autonomia privada, ainda que chancelada por juízo arbitral, seja instrumentalizada para viabilizar mutações patrimoniais imobiliárias ao largo do cumprimento das obrigações tributárias" (processo 1102760-30.2025.8.26.0100, j. 1/7/26). Conclusão A sentença arbitral produz, entre as partes, os mesmos efeitos da sentença judicial, e isso ninguém contesta. O que se procurou demonstrar é coisa diversa: a equiparação do art. 31 da lei 9.307/1996 é de efeitos, não de forma. O título material - a sentença - não se confunde com o título formal que a veicula e projeta em relação a terceiros, com acesso ao registro imobiliário. É deste título formal que o registrador cuida quando qualifica. A carta de sentença judicial é instrumento público em sentido amplo porque emana do escrivão, órgão da fé pública que a forma, autentica e conserva. A "carta" arbitral não passa pelo crivo de nenhum agente público, não se apoia em acervo público perene e não atende aos requisitos do instrumento particular admitido a registro. Onde a lei prescreve forma, o argumento ganha contornos ainda mais nítidos. A partilha consensual tem veículos legais esgotados - escritura pública, termo nos autos ou escrito particular homologado - e o legislador, conhecendo a arbitragem, não a incluiu entre eles. A usucapião e a adjudicação compulsória extrajudiciais foram confiadas ao registrador, instruídas por ata notarial; o tabelião foi levado à arbitragem, e não o árbitro ao notariado. Em todos esses casos, a desjudicialização percorreu o mesmo caminho: retirou do juiz a formalização das mutações jurídico-reais para entregá-la a órgãos da fé pública, sujeitos à fiscalização do Judiciário e responsáveis pelo controle tributário dos atos que praticam. Não se trata de rever o mérito do que decidiu o árbitro. Verificar se o título se reveste da forma legal é exame de suas vestes exteriores, e é precisamente o que se espera do registrador. Tampouco se nega à arbitragem o seu lugar. Quando a sentença arbitral decide litígio sobre direitos patrimoniais disponíveis e não encontra no registro a forma hábil para nele ingressar, o sistema já conhece a solução: o cumprimento da sentença perante o juízo cível competente (CPC, arts. 515, VII, e 516, III), de onde sairá o título formal lavrado pelo escrivão. Foi esse o caminho apontado pelo próprio CNJ ao lembrar que os árbitros não detêm o poder de império e que, recusado o registro, é ao Poder Judiciário que se há de recorrer42. A solução tradicional não é obstáculo à arbitragem; é a garantia de que o decidido ingresse no fólio real pelas mãos de quem tem fé pública para lhe dar forma. Aguarda-se agora o pronunciamento da Corregedoria Nacional no PP 0008369-70.2024.2.00.0000, em que a questão de quem forma o título que veicula a sentença arbitral foi, enfim, expressamente posta. Que o norte seguro por todos esperado não perca de vista a lição de João Mendes: os órgãos da fé pública não são simples secretários de quem decide; são "subordinados somente à verdade e à realidade dos fatos", e é dessa sujeição que nasce a garantia das partes, dos juízes e de todo o corpo social. _____ Nótula final Para todos aqueles que se dispõem a acompanhar o desenlace das questões aqui lançadas, organizei uma planilha com a coleção da jurisprudência anotada sobre o tema do juízo arbitral. No rol decisões do CNJ, CSMSP, CGJSP, 1VRPSP e 2VRPSP, todas organizadas em ordem cronológica. O consulente poderá acessar as decisões e consultar diretamente na Kollemata a íntegra de cada decisão. Disponível aqui. ______ 1. CNJ, Consulta 0001045-63.2023.2.00.0000, dec. de 23/9/2024, Min. Mauro Campbell Marques. Disponível aqui. Esta consulta e a Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000. Disponível aqui. foram sobrestadas em 12/9/2025, até o julgamento definitivo do PP 0008369-70.2024.2.00.0000, em andamento aqui. 2. ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Plano de reforma judiciaria submettido ao Congresso Legislativo do Estado de São Paulo pelo Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente do mesmo Estado: 3.ª secção. São Paulo: Siqueira, Nagel & Comp., 1912. p. 5 (ortografia atualizada). Texto integrante da obra Homens além de seu tempo, no prelo. 3. Para os que desejam acompanhar todos os lances do pedido de providências, indico os autos do Processo 1102760-30.2025.8.26.0100, São Paulo, j. 1/7/2026, DJe 21/7/2026, Rel. Des. Silvia Rocha. Disponível aqui. 4. CNJ, Consulta 0006596-24.2023.2.00.0000, j. 17/6/2025, Rel. Cons. Marcello Terto. Disponível aqui. 5. CNJ, PP 0006882-31.2025.2.00.0000, j. 2/10/2025, Min. Mauro Campbell Marques. Disponível aqui. A via eleita é inadequada. O PP não se presta a modular decisões do Plenário do CNJ, sob pena de usurpação de competência. Medida cautelar prejudicada. 6. CNJ, PP 0002410-84.2025.2.00.0000, j. 1/9/2025, Min. Mauro Campbell Marques. Disponível aqui. 7. TJSP, Ap. Civ. 1000201-52.2024.8.26.0642, j. 29/8/2024. Disponível aqui. O acórdão determinou a remessa de cópias à CGJSP para ciência de registros de procedimentos arbitrais de adjudicação compulsória, usucapião e inventário. 8. CSMSP, Ap. Civ. 1062962-62.2025.8.26.0100, j. 5/9/2025. Disponível aqui. V., ainda, Ap. Civ. 1034206-96.2019.8.26.0506, j. 20/10/2021. Disponível aqui, que negou ao árbitro legitimidade para recorrer em procedimento de dúvida. 9. CNJ, Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000, decisões de 26/9/2024 e 15/8/2025, Min. Mauro Campbell Marques (aprovação de pareceres da CONR); sobrestamento determinado em 12/9/2025 e mantido em 7/6/2026, Rel. Cons. Ulisses Rabaneda. Disponível aqui. 10. 1ª VRP-SP, Proc. 1144150-82.2022.8.26.0100, j. 3/2/2023. Disponível aqui. 11. CSMSP, Ap. Civ. 1034506-89.2023.8.26.0224, j. 1/3/2024. Disponível aqui. 12. CSMSP, Ap. Civ. 1031525-03.2025.8.26.0100, j. 8/7/2025. Disponível aqui. 13. 1ª VRP-SP, Proc. 1116620-98.2025.8.26.0100, j. 1/12/2025. Disponível aqui; Proc. 1104501-08.2025.8.26.0100, j. 29/9/2025. Disponível aqui. 14. 1ª VRP-SP, Proc. 1104501-08.2025.8.26.0100, cit.; Proc. 583.00.2006.103073-2, j. 28/3/2006. Disponível aqui. 15. CNJ, Consulta 0001045-63.2023.2.00.0000, cit. O parecer foi aprovado e os autos restituídos à Relatoria; a matéria pende no PP 0008369-70.2024.2.00.0000. 16. CNJ, RGD 0001153-87.2026.2.00.0000, decisão de 11/3/2026, Min. Edson Fachin (Presidência), item 16. 17. CNJ, PP 0007879-48.2024.2.00.0000, decisão Id 6091845, referida no despacho de 17/12/2025, Min. Mauro Campbell Marques. Disponível aqui. 18. CNJ, PCA 0004357-13.2024.2.00.0000, j. 17/9/2024, Rel. Cons. José Edivaldo Rocha Rotondano. Disponível aqui. 19. 1ª VRP-SP, Proc. 000.05.032549-3, j. 6/7/2005. Disponível aqui. 20. 2ª VRP-SP, Proc. 949/05, j. 3/10/2005. Disponível aqui; Proc. 1007659-15.2015.8.26.0100, j. 27/3/2015. Disponível aqui: a dissolução do vínculo matrimonial envolve situação de estado e direitos extrapatrimoniais, não disponíveis, o que a torna incompatível com a arbitragem; o divórcio somente pode ser formalizado por escritura pública ou pela via judicial. A decisão acolheu o parecer do Ministério Público. 21. CNJ, PP 0004727-02.2018.2.00.0000, j. 26/8/2019, Min. Humberto Martins. Disponível aqui; Consulta 0008630-40.2021.2.00.0000, j. 27/9/2022, Rel. Cons. Mário Goulart Maia. Disponível aqui. Ambas são decisões monocráticas. 22. CNJ, PP 0005583-87.2023.2.00.0000, j. 4/12/2024, Rel. Cons. Pablo Coutinho Barreto. Disponível em http://kollsys.org/van. 23. CNJ, PCA 0004357-13.2024.2.00.0000, cit.; PP 0002410-84.2025.2.00.0000, cit. 24. CSMSP, Ap. Civ. 1034506-89.2023.8.26.0224, cit. 25. 1ª VRP-SP, Proc. 1144150-82.2022.8.26.0100, cit. 26. 1ª VRP-SP, Proc. 1102760-30.2025.8.26.0100, j. 31/10/2025. Disponível aqui, mantida pela CGJSP em 1/7/2026. Disponível aqui. 27. CNJ, Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000, parecer da CONR aprovado em 26/9/2024. Disponível aqui; PP 0005583-87.2023.2.00.0000, cit.; PP 0008369-70.2024.2.00.0000, despacho de 12/6/2025 (Id 6063345), questão 5.1, transcrito na decisão de 12/9/2025 proferida na Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000. V., ainda, a decisão de 13/5/2026 no PP 0008369-70.2024.2.00.0000. Disponível aqui. 28. STF, RE 81.632, Paraná, j. 25/11/1975, Rel. Min. Bilac Pinto. Disponível aqui. No CSMSP, o acórdão paradigmático é o prolatado na Ap. Civ. 9.763-0/7, Serra Negra, j. 5/6/1989, DOJ 27/6/1989, Rel. Des. Álvaro Martiniano de Azevedo. Disponível aqui. Mais recentemente: Ap. Civ. 9000001-15.2013.8.26.0602, Sorocaba, j. 18/3/2014, DJe 5/5/2014, Rel. Des. Elliot Akel. Disponível aqui. 29. ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Direito Judiciário Brasileiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1940. p. 194, n. I. 30. Ibidem, p. 203, n. IV. 31. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 39. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006. v. II, p. 326, n. 863. 32. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 59. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2025. v. III, n. 426, carta de adjudicação. 33. Código Nacional de Normas da Corregedoria Nacional de Justiça - Foro Extrajudicial (CNN/CN/CNJ-Extra), instituído pelo Provimento CNJ 149/2023, art. 295, §§ 2º e 3º. 34. CNN/CN/CNJ-Extra, arts. 292, § 2º, e 297, § 2º. 35. ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Plano de reforma judiciaria, cit., nota 2, p. 51 (ortografia atualizada). 36. ALMEIDA JÚNIOR, João Mendes de. Plano de reforma judiciaria, cit., nota 2, p. 9-10 (ortografia atualizada). 37. CNJ, Consulta 0001045-63.2023.2.00.0000, cit. 38. PEDROSO, Alberto Gentil de Almeida. Relação da arbitragem com a atividade extrajudicial notarial. Consultor Jurídico, São Paulo, 14 ago. 2024. Opinião. Transcrito no parecer da CONR aprovado na Consulta 0001045-63.2023.2.00.0000 (v. nota 1). 39. CNJ, PP 0008369-70.2024.2.00.0000, despacho de 12/6/2025 (Id 6063345), questão 5.2, transcrito na decisão de 12/9/2025 proferida na Consulta 0006597-09.2023.2.00.0000 Disponível aqui. 40. CNJ, PCA 0001153-87.2026.2.00.0000, originariamente Reclamação para Garantia das Decisões, não conhecida pela Presidência e reautuada em 11/3/2026. Decisão monocrática de 27/4/2026, Rel. Cons. Rodrigo Badaró: declarada a invalidade da decisão da CGJ-PB no PP 0000493-44.2024.2.00.0815 (23/2/2026), no ponto em que reputou juridicamente inviável a formalização de inventário e partilha por sentença arbitral e determinou orientação restritiva aos registradores, ressalvada a análise de requisitos formais e extrínsecos do título. Em 20/5/2026, admitidos o CNB/CF e a ANOREG/PB como terceiros interessados, o relator recebeu os recursos administrativos e manteve a decisão, sem prejuízo de reapreciação pelo Plenário após as contrarrazões. Os recursos pendem de julgamento. V. dossiê aqui. 41. Sobre os limites do poder normativo do CNJ, a eficácia de suas decisões perante os órgãos fazendários e os riscos fiscais remanescentes para notários e registradores, inclusive em face da recente dispensa do recolhimento prévio do ITCMD para a lavratura de escrituras de inventário e partilha, v. JACOMINO, Sérgio. CND - a pedra de tropeço dos registradores, partes 1 e 2. Migalhas Notariais e Registrais, São Paulo, 5 e 7 out. 2026. Disponíveis em parte 1 e parte 2. Acesso em: 11 out. 2026. 42. CNJ, PP 0005583-87.2023.2.00.0000, cit.
1. Introdução A Constituição de 1988 conferiu posição institucional própria aos serviços notariais e de registro. Embora exercida em caráter privado, a atividade decorre de delegação do Poder Público, submete-se à fiscalização judicial e possui finalidade pública. A lei 8.935/1994 traduz esse desenho ao definir a organização técnica e administrativa destinada a garantir publicidade, autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos. O notário, portanto, não atua como redator indiferente, pois identifica as partes, verifica capacidade, qualifica juridicamente a vontade e previne vícios antes que produzam litígios (BRASIL, 1988, 1994; BRANDELLI, 2011). A ampliação das vias extrajudiciais tornou mais visível essa função preventiva. Inventário, partilha, divórcio, atas notariais, autenticação eletrônica e outros procedimentos passaram a oferecer tutela jurídica sem necessidade de processo quando presentes os pressupostos legais. O fenômeno costuma ser descrito como desjudicialização, mas essa expressão, isoladamente, não explica quais meios o delegatário pode empregar para executar atribuições cada vez mais complexas (BRASIL, 2007, 2015; CAPPELLETTI; GARTH, 1988). O problema de pesquisa consiste em saber se a Teoria dos Poderes Implícitos pode ser adaptada ao regime extrajudicial para reconhecer meios instrumentais indispensáveis ao exercício de competências existentes, sem violar a legalidade, a reserva legislativa e a separação entre função preventiva e jurisdição. A hipótese é que essa adaptação é juridicamente possível, desde que restritiva, controlável e sempre vinculada a uma competência expressa. O objetivo é construir um teste operacional e demonstrar sua utilidade na prática notarial, inclusive na ata de usucapião extrajudicial (HESSE, 1991; CANOTILHO, 2003; SIQUEIRA; PENCHEL; BRANDÃO, 2022). A pesquisa é qualitativa, teórico-dogmática e hipotético-dedutiva. Examina Constituição, legislação, atos normativos, precedentes e bibliografia especializada; em seguida, confronta a formulação teórica com situações típicas da atividade notarial. O método busca preservar coerência entre competência, meio empregado, finalidade, risco e mecanismo de controle (GUSTIN; DIAS; NICÁCIO, 2020). 2. Fundamento e limites dos poderes implícitos A formulação clássica dos poderes implícitos remonta ao julgamento McCulloch v. Maryland, de 1819. A Suprema Corte norte-americana reconheceu que fins constitucionalmente legítimos compreendem meios apropriados, não proibidos e compatíveis com a Constituição. No Brasil, o STF empregou racionalidade semelhante ao admitir medidas instrumentais necessárias ao desempenho de competências expressas, como nos casos relativos aos poderes cautelares do Tribunal de Contas da União e à investigação pelo Ministério Público (SUPREME COURT OF THE UNITED STATES, 1819; SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2003, 2014). O precedente estrangeiro não pode ser transplantado automaticamente. As serventias brasileiras exercem função pública por delegação, possuem atribuições delimitadas por matéria e território e se sujeitam ao regime legal do art. 236 da Constituição. Fé pública, eficiência, capilaridade e confiança institucional qualificam a atividade, mas não criam competência. Esses elementos orientam a interpretação de atribuições existentes e podem justificar futuras escolhas legislativas, jamais substituir a lei (BRASIL, 1988, 1994; HESSE, 1991). Denomina-se competência instrumental constitucional o conjunto de poderes necessários, proporcionais e funcionalmente vinculados ao exercício de competência constitucional ou legalmente atribuída, destinado a assegurar a efetividade da missão institucional sem ampliar materialmente o núcleo da atribuição. A teoria opera, portanto, em segundo grau: não distribui novas competências, mas identifica meios juridicamente contidos na execução das competências existentes (CANOTILHO, 2003; ALEXY, 2008). O limite decisivo está na diferença entre instrumento e inovação material. Providência interna de conferência, organização documental ou esclarecimento pode integrar a atribuição principal. Medida que imponha obrigação nova, restrinja direito, produza coerção, altere titularidade ou resolva conflito substancial exige base normativa mais densa. Quanto maior o efeito sobre terceiros, a irreversibilidade ou a coercitividade, maior deve ser a clareza da autorização legal (ALEXY, 2008; BRASIL, 1988). 3. Teste de incidência A aplicação segura da teoria exige requisitos cumulativos. O primeiro é a competência de origem: deve ser indicado o dispositivo que atribui o ato principal à especialidade notarial ou registral. Referências genéricas à eficiência ou à segurança jurídica são insuficientes. O segundo é a finalidade constitucional identificável, que orienta a interpretação, mas não funciona como fonte autônoma de poder (BRASIL, 1988, 1994; HESSE, 1991). O terceiro requisito é o vínculo funcional direto entre o meio pretendido e a atribuição principal. O quarto é a necessidade objetiva: a ausência da providência deve inviabilizar ou comprometer juridicamente a execução adequada, pois mera conveniência administrativa não basta. Esses critérios evitam que preferências pessoais do delegatário sejam convertidas em exigências documentais ou procedimentais não previstas (ALEXY, 2008; BRANDELLI, 2011). O quinto requisito é a compatibilidade normativa. O meio não pode contrariar proibição legal, dispensar requisito obrigatório, alterar competência territorial, violar proteção de dados nem invadir matéria reservada à jurisdição. O sexto reúne proporcionalidade e controle: a medida deve ser adequada, necessária, fundamentada, revisável e proporcional ao risco. A possibilidade de controle correcional, administrativo ou jurisdicional integra a legitimidade da inferência (BRASIL, 2018; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). O teste produz também respostas negativas. A teoria não autoriza sanção atípica, investigação geral sobre a vida privada, compartilhamento de dados fora das bases legais, imposição de documento estranho ao ato ou substituição de procedimento disciplinado em lei. Sua força científica depende da capacidade de rejeitar expansões convenientes, mas incompatíveis com a legalidade (BRASIL, 1988, 2018; ALEXY, 2008). 4. Aplicações na atividade notarial A identificação das partes e a verificação da capacidade demonstram a incidência mais segura da instrumentalidade. Para conferir autenticidade e adequação jurídica à vontade, o notário deve examinar documentos, confrontar dados, esclarecer divergências e avaliar impedimentos relacionados ao ato. Pode solicitar elemento complementar objetivamente necessário, desde que fundamente a pertinência e não transforme cautela em exigência excessiva. A providência é legítima quando protege o próprio ato e preserva igualdade de tratamento entre usuários (BRASIL, 1994; BRANDELLI, 2011). Na formação da vontade, a função notarial compreende assessoramento jurídico imparcial. Explicar consequências, sugerir forma legal adequada e recusar cláusula ilícita são meios inerentes à produção de instrumento válido. A teoria não permite direcionar o conteúdo econômico do negócio, favorecer uma parte ou substituir a autonomia privada. O poder instrumental termina onde começa a escolha legítima dos interessados (BRASIL, 1994; BRANDELLI, 2011). A ata notarial oferece aplicação particularmente relevante. O tabelião documenta fatos percebidos e pode empregar meios lícitos de constatação, como diligência externa, registro de declarações, verificação de conteúdos apresentados e organização cronológica das evidências. A finalidade probatória não autoriza busca compulsória, acesso indevido a dispositivo, quebra de sigilo ou conclusão sobre fato não percebido. A ata deve distinguir percepção direta, declaração de terceiro e documento exibido, preservando a confiabilidade da fé pública (BRASIL, 2015; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). Nos atos eletrônicos, autenticação, videoconferência, assinatura, registro de acesso e conservação integram a infraestrutura necessária à prática remota. A instrumentalidade pode justificar rotinas técnicas compatíveis com normas oficiais, mas não autoriza criar barreira tecnológica sem alternativa acessível nem coletar dados excessivos. A inovação deve permanecer subordinada à finalidade do ato, à proteção de dados e à inclusão do usuário (BRASIL, 2018; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). A mediação e a conciliação extrajudiciais também exigem contenção. O delegatário pode organizar sessões, esclarecer posições e favorecer solução consensual dentro do regime normativo aplicável. Não pode impor acordo, decidir coercitivamente o mérito ou permitir renúncia a direito indisponível. Imparcialidade, voluntariedade, informação e possibilidade de acesso ao Judiciário são condições do procedimento (CAPPELLETTI; GARTH, 1988; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). A motivação funciona como garantia transversal. Quando solicitar documento complementar, recusar ato ou adotar diligência que aumente o ônus do usuário, o notário deve explicitar a competência de origem, o ponto jurídico a esclarecer e a relação entre a providência e a validade do ato. Fórmulas genéricas, como "por cautela" ou "para maior segurança", não demonstram necessidade. A fundamentação permite que o interessado compreenda a exigência, apresente elemento equivalente, reformule o negócio ou utilize a via de controle adequada (BRASIL, 1994; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). A aplicação uniforme do teste também reduz divergências entre unidades. Situações equivalentes devem receber exigências equivalentes, sem impedir análise individual de risco. Protocolos internos podem organizar conferência, prevenção de fraude, proteção de dados e conservação, desde que permaneçam compatíveis com a legislação e não se convertam em requisitos materiais novos. A padronização legítima disciplina o modo de executar a competência; a padronização ilegítima altera o conteúdo do direito do usuário (BRASIL, 1994, 2018; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). 5. Usucapião extrajudicial como caso-paradigma A usucapião extrajudicial evidencia a cooperação entre notas e registro de imóveis. A ata notarial integra a instrução do pedido e documenta o tempo e as circunstâncias da posse, sem substituir a qualificação do oficial de registro nem constituir, por si, o direito de propriedade. Cabe ao tabelião constatar e descrever fatos; ao registrador, conduzir o procedimento, apreciar os requisitos e decidir motivadamente pelo reconhecimento ou pela rejeição do pedido (BRASIL, 1973, 2015; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). Siqueira, Penchel e Brandão defendem que a competência para processar e decidir a usucapião compreende meios instrutórios necessários, como diligências e esclarecimentos. A contribuição é relevante porque afasta a imagem do registrador como receptor passivo. A leitura deve, porém, ser restritiva: solicitação funcional não se converte em ordem coercitiva; tentativa de composição não permite transação sobre bem público; e diligência não autoriza produção compulsória de prova (SIQUEIRA; PENCHEL; BRANDÃO, 2022; BRASIL, 1973). Para o notário, o teste exige vínculo entre cada diligência e a constatação solicitada. Visita ao imóvel, registro de elementos visíveis, entrevista de pessoas presentes e exame de documentos exibidos podem ser pertinentes. Opinião sobre titularidade, conclusão jurídica reservada ao registrador ou afirmação não apoiada em percepção e documentação excedem a função da ata. A separação de papéis protege a fé pública e melhora a qualidade da instrução (BRASIL, 2015; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). O caso confirma a utilidade negativa da teoria. Poderes instrumentais asseguram efetividade a competências existentes, mas não antecipam atribuições futuras, afastam requisitos legais ou convertem prevenção em jurisdição. A cooperação institucional é legítima quando cada especialidade atua dentro de seu núcleo e utiliza somente meios necessários, proporcionais e controláveis (BRASIL, 1973, 1994; HESSE, 1991). 6. Conclusão As serventias extrajudiciais exercem função pública de garantia predominantemente preventiva. Na atividade notarial, essa função aparece na identificação, no controle de capacidade, na qualificação da vontade, na autenticidade, na conservação e na prevenção de vícios. A complexidade contemporânea dos atos torna inevitável interpretar quais meios acompanham competências legalmente atribuídas (BRASIL, 1988, 1994; BRANDELLI, 2011). A Teoria dos Poderes Implícitos pode contribuir para essa interpretação se for submetida a formulação contida. Todo meio depende de competência de origem, finalidade constitucional, vínculo funcional, necessidade objetiva, compatibilidade normativa, proporcionalidade e controle. A ausência de qualquer elemento impede a inferência, sobretudo quando houver coerção, restrição de direitos ou efeito autônomo sobre terceiros (HESSE, 1991; ALEXY, 2008). A aplicação à prática notarial demonstra que providências internas, instrutórias e acessórias podem integrar a competência principal, enquanto inovação material permanece reservada à lei. Na usucapião extrajudicial, a distinção entre constatação notarial e decisão registral preserva especialidade, imparcialidade e segurança. A legitimidade da teoria estará menos na quantidade de poderes reconhecidos e mais na precisão com que separa instrumentalidade legítima de expansão indevida (BRASIL, 1973, 2015; CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2023). _______ Referências ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2008. BRANDELLI, Leonardo. Teoria geral do direito notarial. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. BRASIL. Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos. Brasília, DF: Presidência da República, 1973. BRASIL. Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994. Regulamenta o art. 236 da Constituição Federal. Brasília, DF: Presidência da República, 1994. BRASIL. Lei nº 11.441, de 4 de janeiro de 2007. Possibilita inventário, partilha, separação e divórcio consensuais por via administrativa. Brasília, DF: Presidência da República, 2007. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Brasília, DF: Presidência da República, 2018. CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003. CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1988. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Provimento nº 149, de 30 de agosto de 2023. Institui o Código Nacional de Normas da Corregedoria Nacional de Justiça, Foro Extrajudicial. Brasília, DF: CNJ, 2023. GUSTIN, Miracy Barbosa de Sousa; DIAS, Maria Tereza Fonseca; NICÁCIO, Camila Silva. (Re)pensando a pesquisa jurídica: teoria e prática. 5. ed. São Paulo: Almedina, 2020. HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991. SIQUEIRA, Alexis Mendonça Cavichini Teixeira de; PENCHEL, Silvia Renata de Oliveira; BRANDÃO, Marcelo da Silva Borges. A usucapião extrajudicial e a teoria dos poderes implícitos. Migalhas, 19 jan. 2022. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Ação Penal nº 611/MG. Relator: Ministro Luiz Fux. Primeira Turma. Julgado em 30 set. 2014. DJe, 10 dez. 2014. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Mandado de Segurança nº 24.510/DF. Relatora: Ministra Ellen Gracie. Tribunal Pleno. Julgado em 19 nov. 2003. DJ, 19 mar. 2004. SUPREME COURT OF THE UNITED STATES. McCulloch v. Maryland, 17 U.S. (4 Wheat.) 316. Washington, D.C., 1819.
Introdução Poucas cláusulas da lei de Registros Públicos condensam tanta história e ambiguidades quanto a locução "se houver", aposta no art. 176, § 1º, II, 3, alínea "b", da lei 6.015/1973, relativamente à designação do elemento cadastral. Concebida para um cenário de cadastros municipais incompletos e desconexos do fólio real, a ressalva sempre foi lida como sinal de que a ausência de inscrição cadastral não obstaria, por si só, o ingresso de títulos translativos, desde que atendida a especialidade e determinação objetiva por outros meios. A alegada deficiência histórica do sistema registral brasileiro, denunciada por juristas do começo do século XX (por todos, a crítica acerba de Soriano Neto)1, estendeu a controvérsia sobre a coordenação entre cadastros imobiliários e registros jurídicos até os dias que correm. Naquela diatribe, a razão estava com Philadelpho, pois, à míngua de um cadastro perfeitamente organizado e coordenado com o Registro - ao estilo do modelo tudesco - nem por isso o registro imobiliário pátrio deixaria de cumprir sua missão institucional. Ele próprio o disse sem rodeios: o cadastro era "elemento valioso ainda que não imprescindível para um razoável sistema fundiário". Por isso concluía que, com o princípio da continuidade e as demais providências do regulamento de 1928, seria possível "proclamar o princípio da fé pública, ainda que sem dependência do cadastro", pois nada justificaria o pessimismo da inércia, "nem a espera de um cadastro, que jamais poderá o Brasil possuir".2 Voltando aos nossos dias, o almejado cadastro consolidou-se com o Sinter - Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais e com a LC 214/25, marco histórico na coordenação entre as instituições registrais e cadastrais. A lei complementar consagra o CIB como identificador único e o Sinter se revigora como plataforma nacional de integração de dados registrais, cadastrais, fiscais e geoespaciais. Nesse novo quadro, convém situar as iniciativas de geotecnologia desenvolvidas no âmbito do SREI, como o SIG-RI instituído pelo provimento CN-CNJ 195/25. Como ferramenta de gestão interna das serventias, elas são úteis e bem-vindas. É preciso cautela, porém, para que a camada geodésica das matrículas não se converta em mais um cadastro territorial a somar-se ao SNCR/CNIR do Incra, ao CAR, ao Cafir/CIB da Receita Federal e aos cadastros fiscais municipais, com credenciamentos, manuais e prazos próprios. Duplicam-se esforços e custos e, inevitavelmente, multiplicam-se as assincronias e eventuais inconsistências. Não se cuida de objeção meramente acadêmica. Sou crítico histórico das confusões entre duas instituições reputadas como fundamentais para a gestão territorial: o cadastro e o registro. O TCU, no acórdão 1.942/15-Plenário (TC 011.713/15-1), ao auditar a governança fundiária dos solos não urbanos, já censurara a profusão legislativa e a dispersão de instituições sem clara delimitação de atribuições e funções, recomendando expressamente que se evitasse a sobreposição de cadastros. A LC 214/25 e o Sinter vieram, enfim, atender a essa diretriz, e o § 4º do seu art. 256 aponta o destino das informações prestadas pelos serviços registrais e notariais: o próprio Sinter. O provimento 195/25 deve ser lido em harmonia com esse microssistema. O art. 320-O, § 2º, do CNN-CN-CNJ-Extra autoriza o ONR a celebrar convênios para receber dados cadastrais, geoespaciais, fiscais e jurídicos relativos a bens imóveis; é justamente aí que se impõe a leitura harmonizada, canalizando as informações geodésicas do fólio real para a infraestrutura nacional de dados territoriais. A função cadastral é, por natureza, da administração pública; aos registros compete refletir a situação jurídica dos bens e alimentar, com seus dados, a base nacional de cadastros técnicos. A coordenação (não integração) entre cadastro e registro, que sustentamos de longa data, pressupõe interconexão de instituições distintas e complementares, não a absorção de uma pela outra, tampouco a multiplicação de bases redundantes que o país, há décadas, tenta superar. O caso concreto O acórdão proferido pelo CSMSP - Conselho Superior da Magistratura do Tribunal de Justiça de São Paulo na apelação cívil 1115844-98.2025.8.26.0100,3 demarca e instaura um novo entendimento acerca da matéria. Ao manter o óbice oposto pela serventia ao registro de alienação de fração ideal de área comum de vila residencial sem a inscrição cadastral própria, o CSMSP assentou que, onde já se encontram exauridos os prazos de implantação do CIB - Cadastro Imobiliário Brasileiro, disciplinado pela LC 214/25, a eficácia prática da expressão "se houver" restou substancialmente mitigada: o que era dado meramente informativo tornou-se matéria de qualificação registral. Vamos repassar cada aspecto enfrentado na suscitação de dúvida e o decidido pelo CSMSP. A vila, o pátio interno e a fração ideal Foi apresentada a registro escritura pública de venda e compra, lavrada em 2019, tendo por objeto uma das casas integrantes de vila residencial situada em determinado subdistrito da Capital. No mesmo ato notarial, alienava-se fração ideal do terreno que se destina a circulação interna e acesso dos imóveis integrantes da dita vila. Deferida a cindibilidade do título, registrou-se a transmissão da casa, remanescendo pendente de registro a venda da fração ideal da área comum. A matrícula da área comum não ostenta inscrição autônoma no cadastro imobiliário fiscal do Município de São Paulo. Os dezoito números de contribuinte, nela lançados, correspondem às unidades residenciais que compõem a vila. Ao longo de muitos anos, as frações ideais da área comum foram sucessivamente transmitidas aos adquirentes de cada residência, sem que jamais se exigisse a inscrição da área de circulação no cadastro fiscal municipal. A dúvida foi julgada procedente pelo R. juízo da 1ª vara de Registros Públicos da Capital de São Paulo.4 Em síntese, decidiu-se que a inscrição cadastral era mesmo necessária - até mesmo para efeitos de propiciar a base de cálculo de emolumentos e recolhimento do ITBI. Afastou-se o argumento lateral da parte que postulava tratamento homogêneo a títulos anteriormente registrados. Sabe-se que erros pretéritos não justificam a consumação de outros, embora, no caso concreto, a disciplina legal que agora ilumina a questão da conexão cadastral com o registro tenha se modificado de modo importante. Os fundamentos da recusa: especialidade objetiva e controle tributário A designação cadastral integra a especialidade objetiva do imóvel matriculado. A inscrição da unidade no CIF - Cadastro Imobiliário Fiscal é exigência que decorre da Lei Municipal paulistana 10.819, de 28 de dezembro de 1989: "Art. 2º Todos os imóveis, construídos ou não, situados na zona urbana do Município, inclusive os que gozem de imunidade ou isenção, devem ser inscritos no Cadastro Imobiliário Fiscal". Como sabemos, a designação cadastral é um elemento importante na especialização objetiva do imóvel matriculado (letra "b", 3, II, § 1º do art. 176 da LRP). A lei exige que se a indique "se houver". O problema é este: deveria haver. A lei municipal paulistana já obrigava o cadastramento de todo e qualquer imóvel localizado na zona urbana do município de São Paulo (inclusive os imunes e isentos) desde 1989. A cláusula "se houver" do art. 176 da LRP não poderia ser invocada para perpetuar a irregularidade administrativa. Sendo obrigatória a inscrição, presume-se que a designação cadastral deva existir e sua falta configuraria irregularidade a sanar, não lacuna tolerável. No plano tributário, argumentou-se que a inscrição cadastral seria o pressuposto da apuração da base de cálculo do ITBI, segundo a sistemática do valor venal de referência do Decreto Municipal 55.196/2014 (arts. 7º e 8º), cujo art. 28 obriga notários e registradores a verificar a exatidão e suprir omissões dos elementos de identificação do contribuinte e do imóvel no documento de arrecadação, sob pena de multa (art. 33, I). Ilumina o quadro o dever de fiscalização previsto no art. 289 da LRP, no art. 30, XI, da lei 8.935/1994 e no art. 134, VI, do Código Tributário Nacional. Um novo elemento exsurge a partir da reforma tributária consumada pela LC 214/25 que consolidou a obrigatoriedade de inscrição no CIB (Cadastro Imobiliário Brasileiro) no âmbito do Sinter, e a IN RFB 2.275/25, que impõe aos serviços notariais e registrais a adoção do código identificador único e o compartilhamento imediato de informações. Ampliou-se o arco de exigências impostas aos delegatários de zelar pela especialidade e pela determinação dos imóveis, cujos dados passam a alimentar a base de referência da tributação em caráter nacional. A decisão do Conselho Superior da Magistratura O acórdão manteve o óbice, mas construiu a solução por itinerário próprio que merece destaque. O CSMSP reconheceu a irregularidade da situação cadastral: cada unidade imobiliária autônoma deve corresponder a uma única inscrição, e a providência de inscrever o imóvel no CIF incumbe ao contribuinte, por força do art. 3º da lei municipal 10.208/86, cujo descumprimento configura infração de sonegação à inscrição (art. 6º). A apelante alegava omissão do poder público que não poderia prejudicar o particular. O CSMSP afastou o argumento consignando que a inércia é, juridicamente, do próprio sujeito passivo: "a providência de inscrever o imóvel não regularizado é do contribuinte", citando a legislação apontada na suscitação. O voto da Sra. Corregedora analisou o regime de transição da LC 214/25, elemento que guarda especial interesse para os registradores imobiliários. A inscrição no CIB deve ser implementada pelas Capitais e pelo Distrito Federal no prazo de 12 meses, contados da publicação da lei (16.1.2025). Para os demais Municípios o prazo conta-se em dobro. Aos registradores e notários impõe-se, igualmente, o dever de adequação dos seus sistemas para adoção do CIB como código de identificação cadastral dos bens imóveis.5 A IN RFB 2.275/25 reforçou a obrigação, prevendo que se deva adotar o código nos sistemas e documentos lavrados ou registrados, sob as penas do art. 57 da MP 2.158-35/01.6 O v. aresto acena que se deve ter prudência na interpretação do microssistema criado pela LC 214/25 que estabeleceu obrigação geral sem que todas as condições legais tenham sido implementadas: nos Municípios cujo prazo ainda flui, a exigência não se aperfeiçoou. Não é o caso da Capital paulista, onde já se exauriu o prazo para que a Prefeitura enviasse ao Sinter os dados dos cadastros existentes. Portanto, a inscrição no CIB já é exigível. O cadastro imobiliário do Município de São Paulo já se coordena com o Sinter para a atribuição do CIB, como se verifica nos comprovantes emitidos pela RFB. A infraestrutura de integração dos cadastros municipais já dispõe de ambiente de produção e de APIs para transmissão e atualização dos dados cadastrais. O painel oficial da Receita Federal, com dados atualizados em 28 de setembro de 2026, contabilizava 30.009.473 inscrições ativas no CIB e 26 entes integrados entre as Capitais e o Distrito Federal.7 Apesar de esgotados os prazos legais, permanece o desafio de tornar efetiva a interoperabilidade entre os cartórios e o Sinter. É dessa interconexão específica que aqui se cuida. A integração dos cadastros municipais à infraestrutura da RFB não significa que já se encontre plenamente operacionalizado o fluxo automatizado de dados oriundos das serventias. A própria Receita Federal informa que o GTI - Grupo de Trabalho Interinstitucional, integrado por representantes da RFB, CNJ, ONR, CNB, Municípios, Incra e MGI, trabalha na padronização dos documentos e fluxos necessários à integração das serventias ao Sinter. Em orientação publicada em 13 de julho de 2026, previa-se a entrada em produção do ambiente notarial e registral ainda naquele ano, acompanhada da divulgação do manual operacional. O cronograma do Anexo Único da própria IN RFB 2.275/25 previa a entrada em produção até 25/11/25, o que dá a medida do atraso.8 A cláusula legal "se houver" O CSMSP enfrentou diretamente a cláusula legal "se houver" da LRP. Admitiu que, na leitura que se fez corrente ao longo dos anos (espelhada também no item 57, letra "c", do Cap. XX das NSCGJSP), a ausência de numeração do cadastro fiscal de imóveis urbanos não constituía, por si só, impedimento ao registro de atos translativos, desde que atendidos os demais requisitos de especialidade e que a inexistência do cadastro não decorresse de inércia do interessado, mas de falta de cadastramento pelo próprio Poder Público. O próprio Conselho Superior da Magistratura, em acórdãos de 2024 e 2025, relatados pelo desembargador Francisco Loureiro, afastara exigência de inscrição cadastral individualizada das unidades oriundas de Reurb, assentando que "o texto legal é claro ao definir que a designação cadastral da unidade imobiliária somente é necessária se essa informação existir" e ressaltando "a prescindibilidade dessa informação específica para fins de registro". A ementa do primeiro deles a qualificou como "informação facultativa e que pode ser averbada posteriormente", na esteira da nota ao item 277 do Cap. XX das NSCGJ, com a redação do provimento CG 29/24.9 Na mesma linha, o Conselho vinha decidindo que divergências entre o cadastro municipal e a matrícula não bastavam para obstar o registro, pois não afastam a presunção de veracidade do assento imobiliário.10 Ainda em maio de 2026, a 1ª vara de Registros Públicos da Capital dispensou a indicação cadastral de imóvel usucapido que jamais tivera matrícula, porque a Prefeitura se recusava a abrir a inscrição justamente por falta do registro; ali, porém, a impossibilidade era imputável ao Poder Público, e não ao interessado.11 É contra esse pano de fundo que se mede a inflexão de agosto de 2026. Com a edição da LC 214/25 e da IN RFB 2.275/25 o cadastro deixou de ser informação acessória, de natureza predominantemente tributária, para se tornar elemento coadjuvante de determinação das unidades imobiliárias - imóveis rurais e urbanos. O v. Conselho observou que, embora o texto do art. 176 da LRP permaneça formalmente vigente, a eficácia prática da expressão "se houver" foi substancialmente mitigada quando esgotados os prazos de implementação do CIB. É exatamente o caso da Capital do Estado de São Paulo. Calha um adendo que desloca prudentemente o assunto para a regulamentação do CIB na interconexão entre matrícula, cadastros municipais, estaduais e federais. Não passou despercebida a necessidade de coordenar a instrução normativa da RFB com a disciplina do CNJ. Segundo o CSMSP, o ato normativo da RFB "deve ser lida com cautela, pois cria uma obrigação geral, sem que todas as condições legais tenham sido implementadas". O tema subjacente é a interoperabilidade das bases de dados municipal, estadual, federal e registral. O art. 440-AQ do CNN-CN-CNJ-Extra reza que, além das informações obrigatórias constantes do art. 176, II, da lei 6.015/1973, por ocasião do ato de abertura, a matrícula deverá conter: o CIB, "quando efetivamente implantado, emitido pela Secretaria da RFB - Receita Federal do Brasil". Note-se que o item 1 da mesma alínea exige o Cadastro Imobiliário Fiscal "quando houver designação cadastral estabelecida pelo município", reproduzindo, na norma administrativa, a cláusula da LRP que o CSMSP veio a mitigar. No caso examinado, o saneamento deve principiar no cadastro municipal de origem. Inexistindo ali a inscrição própria da área comum, falta o dado necessário à correta alimentação do Sinter e à atribuição do CIB, conforme assinalou o CSMSP. ITBI, valor declarado e o tema repetitivo 1113 do STJ O dispositivo do acórdão ("negaram provimento ao recurso, com observação") encerra ressalva de relevo. A vertente tributária da recusa apoiava-se na sistemática do valor venal de referência (arts. 7º e 8º do decreto 55.196/14), a pressupor a inscrição cadastral como condição de apuração da base de cálculo do imposto de transmissão. O CSMSP verificou que a escritura consignou o valor de cada um dos bens negociados e que o tributo foi recolhido sobre o total da aquisição, com base no valor negociado. Daí ter concluído que o recolhimento não contraria a norma de regência, pois a base de cálculo do ITBI é o valor venal do bem transmitido, assim considerado aquele pelo qual seria negociado à vista, em condições normais de mercado. A posição é reverberação das teses firmadas pela primeira seção do STJ no julgamento do REsp 1.937.821/SP (tema repetitivo 1.113).12 A base de cálculo do ITBI é o valor do imóvel transmitido em condições normais de mercado, não estando vinculada à base de cálculo do IPTU, que sequer pode servir de piso de tributação. Além disso, o valor da transação declarado pelo contribuinte goza de presunção de conformidade com o valor de mercado, somente afastável pelo fisco mediante regular processo administrativo (art. 148 do CTN). Finalmente, o Município não pode arbitrar previamente a base de cálculo do ITBI com respaldo em valor de referência por ele mesmo estabelecido unilateralmente. Extraiu-se daí que o dever de fiscalização tributária do registrador (art. 289 da LRP e art. 134, VI, do CTN), com a responsabilidade que lhe é adjeta, deve pautar-se também pela observância da jurisprudência vinculante. Em outras palavras: o óbice registral subsiste pela ausência do elemento cadastral de qualificação, mas não se pode condicionar o registro à apuração do imposto por valor de referência atrelado ao cadastro, quando o contribuinte já recolheu o tributo sobre o valor de mercado declarado no título. A autonomia da base de cálculo dos emolumentos em face do tema 1.113/STJ e o futuro do valor de referência A delimitação firmada pelo acórdão do CSMSP quanto ao tema 1.113 do STJ (REsp 1.937.821/SP) impõe uma distinção teórica e prática fundamental: a base de cálculo do ITBI não se confunde com a base de cálculo dos emolumentos registrais e notariais. A tese fixada pela primeira seção do STJ no tema 1113 versa exclusivamente sobre a relação jurídico-tributária do ITBI (imposto municipal sobre transmissão inter-vivos), assentando que o Fisco Municipal não pode arbitrar previamente a base de cálculo com respaldo em valor venal de referência unilateral, devendo prevalecer a presunção de veracidade do valor declarado pelo contribuinte (art. 148 do CTN). Diversamente do imposto de transmissão, os emolumentos têm natureza jurídica de taxa de serviço público (art. 236, § 2º, da CF/88), regidos no Estado de São Paulo pela lei estadual 11.331/02. Nos termos do art. 7º da referida lei, a base de cálculo para a cobrança das custas e emolumentos é o maior valor apurado entre o valor declarado no negócio jurídico e o valor venal tributário atribuído pelo Poder Público (seja o lançado para fins de IPTU/ITR, seja aquele apurado pelas administrações para fins de imposto de transmissão). A jurisprudência administrativa da Corregedoria Geral da Justiça e das varas de Registros Públicos de São Paulo sempre reconheceu a higidez da incidência sobre o maior valor de referência fiscal para fins de custas cartorárias, não incidindo sobre a taxa de emolumentos a mesma vedação constitucional e tributária do tema 1.113, tendo em vista a finalidade compensatória e remuneratória do serviço público delegado. A LC 214/25, em seu art. 256, prevê a apuração de valor de referência dos imóveis mediante metodologia destinada a estimar o valor de mercado, considerando, entre outros elementos, as informações prestadas pelos serviços registrais e notariais. Esse valor poderá ser utilizado como meio de prova nos casos de arbitramento do valor da operação previstos no art. 13 da mesma lei, em conjunto com as demais características da operação, e admite impugnação pelo contribuinte. A disciplina foi regulamentada pelos arts. 366 a 368 do decreto 12.955/26. A nova infraestrutura amplia os elementos técnicos disponíveis para a apuração do valor dos imóveis, mas não converte, por si só, essa estimativa em base de cálculo automática do ITBI ou dos emolumentos. O alcance do valor de referência deve ser examinado à luz do regime legal de cada espécie tributária.13 Conclusões O julgamento assinala uma inflexão na leitura da cláusula "se houver" do art. 176 da lei de Registros Públicos. Nas circunstâncias examinadas pelo CSMSP, a ressalva já não afasta a exigência da inscrição cadastral, esgotados os prazos de implementação do CIB e constatada a inércia do proprietário em regularizar o cadastro municipal. O saneamento começa na base de origem, de onde deverá provir o dado que integrará a identificação imobiliária nacional. O desafio que agora se apresenta é prover a interconexão efetiva entre os sistemas das serventias notariais e registrais e a infraestrutura da Receita Federal. A LC 214/25 e a IN RFB 2.275/25 estabeleceram o dever de adequação dos sistemas e de compartilhamento das informações; os cadastros municipais vêm progressivamente se integrando ao Sinter. Cumpre completar o elo registral, mediante padrões comuns e fluxos automatizados que viabilizem o envio das informações imediatamente após a prática do ato, como determina a instrução normativa.14 Cadastro e registro são instituições distintas e devem atuar de modo complementar. A coordenação que sustentamos de longa data exige que os dados cadastrais e os assentos do fólio real se comuniquem, preservadas suas funções próprias. É a essa interconexão que se devem dirigir os esforços institucionais, com o aproveitamento da infraestrutura existente e a circulação de dados em canais confiáveis, com preservação dos dados pessoais. Se o CIB há de funcionar como identificador imobiliário nacional, o passo decisivo é fazê-lo conversar, de modo efetivo, com o fólio real sediado em cada serventia. _____ 1. Na mesma corrente alinharam-se Gondim Filho, Virgílio de Sá Pereira, Aureliano de Gusmão, Otávio Guimarães, Alípio Silveira, A. Gonçalves de Oliveira e José Augusto César, conforme resenha de SERPA LOPES, Miguel Maria de. Tratado dos Registos Públicos, 4.ª ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1960, vol. I, n.º 24, págs. 59-6. 2. AZEVEDO, Philadelpho. Registro de imóveis (valor da transcrição). Rio de Janeiro, 1942, n.º 27 e 59. [Coleção "Homens Além do Seu tempo", versão no prelo]. 3. Ap. Civ. 1115844- 98.2025.8.26.0100, São Paulo, j. 13/8/2026, DJ 17/8/2026, Rel. Des. Silvia Rocha. Disponível aqui. 4. Processo 1115844-98.2025.8.26.0100, São Paulo, j. 25/11/2025, DJ 26/11/2025, Dra. Marcela Machado Martiniano. Disponível aqui. 5. Lei Complementar nº 214, de 16.1.2025, arts. 265 e 266. O art. 265, § 1º, define o CIB como "o inventário dos bens imóveis urbanos e rurais constituído com dados enviados pelos cadastros de origem"; o art. 266 fixa os prazos de adequação: 12 meses para as Capitais e o Distrito Federal (inciso I, alínea "c") e para os sistemas de notários e registradores (inciso I, alínea "b"); 24 meses para os demais Municípios (inciso II, alínea "b"). 6. Instrução Normativa RFB nº 2.275, de 15.8.2025 (DOU de 18.8.2025), art. 5º (adoção do código de identificação único do CIB nos sistemas e nos documentos lavrados ou registrados) e art. 6º (remissão às penas do art. 57 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24.8.2001, sem prejuízo das sanções administrativas dos órgãos de fiscalização notarial e registral). 7. Receita Federal, Portal do Sinter, painel de cobertura cadastral, atualizado em 28.9.2026; Orientações de acesso aos ambientes de testes e produção; Documentação oficial da API Sinter. Consultas em 29.9.2026. 8. Receita Federal, Como os cartórios serão integrados ao Sinter?, orientação publicada em 13.7.2026. Consulta em 29.9.2026. 9. Ap. Cív. 1008300-34.2022.8.26.0269, Itapetininga, j. 29/8/2024, DJe 3/9/2024, rel. Des. Francisco Loureiro. Disponível aqui; Ap. Cív. 1002281-75.2023.8.26.0269, Itapetininga, j. 19/2/2025, DJ 25/2/2025, rel. Des. Francisco Loureiro. Disponível aqui. Este último, embora posterior à LC 214/2025, é anterior à IN RFB 2.275/2025 e ao esgotamento dos prazos do art. 266. 10. Ap. Cív. 1001397-57.2020.8.26.0655 (disponível aqui), 1003282-09.2020.8.26.0655 (disponível aqui) e 1003550-63.2020.8.26.0655, Várzea Paulista, j. 16/8/2022 (disponível aqui); 11. 1ª VRPSP Processo 1006532-56.2026.8.26.0100, j. 21/5/2026, DJe 22/5/2026, Dra. Luciana Carone Nucci Eugênio Mahuad. A decisão também trata da base de cálculo dos emolumentos (art. 7º, parágrafo único, da Lei estadual 11.331/2002), adotando a avaliação judicial na falta de valor venal. Disponível aqui. 12. STJ, REsp 1.937.821/SP, rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, j. 24.2.2022, DJe 3.3.2022 (Tema Repetitivo 1113). Disponível aqui. 13. Lei Complementar nº 214, de 16.1.2025, art. 256, caput e §§ 1º a 4º; Decreto nº 12.955, de 29.4.2026, arts. 366 a 368. O art. 256, § 1º, autoriza o uso do valor de referência como meio de prova no arbitramento previsto no art. 13, conjuntamente com as demais características da operação; o § 3º prevê sua impugnação. 14. Instrução Normativa RFB nº 2.275, de 15.8.2025 (DOU de 18.8.2025), arts. 2º e 3º. O compartilhamento deve ocorrer por sistema eletrônico da RFB integrado ao Sinter, imediatamente após a lavratura ou registro do ato. As informações devem ser enviadas de forma estruturada, conforme especificações técnicas da Receita Federal (art. 3º, parágrafo único).
A publicação da lei 15.5091, de 21 de setembro de 2026, representa uma alteração legislativa pequena em extensão, mas de consequências relevantes para o regime jurídico dos serviços notariais e de registro. Com apenas dois artigos, a nova lei acrescentou parágrafo único ao art. 34 da lei 8.935/19942 para estabelecer que a ação destinada à aplicação das sanções previstas na lei dos Notários e Registradores prescreve em cinco anos, contados da ocorrência do fato ou, tratando-se de infração permanente, do dia em que cessar a permanência. A norma entrou em vigor na data de sua publicação, em 22 de setembro de 2026. À primeira vista, poderia parecer apenas a introdução de mais um prazo quinquenal no ordenamento brasileiro, mas a alteração é mais profunda, pois, pela primeira vez desde a edição da lei 8.935/1994, a legislação nacional que rege especificamente a atividade notarial e registral passou a disciplinar de forma expressa a prescrição da pretensão punitiva administrativa, estabelecendo não apenas um prazo, mas também o acontecimento a partir do qual ele deve ser contado. Durante mais de três décadas, a inexistência de disciplina própria obrigou intérpretes, corregedorias e tribunais a procurar em outros regimes jurídicos uma solução para impedir que o poder disciplinar se transformasse, na prática, em poder punitivo temporalmente ilimitado. A lei 15.509/26 altera exatamente essa premissa, pois deixa de existir a lacuna legislativa que justificava a busca de um regime prescricional fora da lei 8.935/1994. A dificuldade anterior decorria da própria singularidade constitucional da atividade. O art. 236 da Constituição estabeleceu que os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público, submetidos à fiscalização do Poder Judiciário. Na ADIn 2.6023, proposta pela Associação dos Notários e Registradores do Brasil, ANOREG/BR, o STF assentou expressamente que notários e registradores, embora exerçam atividade estatal, não são titulares de cargos públicos efetivos, tampouco servidores públicos, razão pela qual não se submetem ao regime de aposentadoria compulsória previsto para estes últimos. A mesma distinção ganhou especial relevo na ADIn 2.8914, igualmente proposta pela ANOREG/BR, na qual se questionou legislação que pretendia enquadrar titulares de serventias extrajudiciais na carreira de serventuários do Poder Judiciário, convertendo suas funções em cargos e submetendo-os a regras próprias do regime funcional e previdenciário dos servidores públicos. Ao suspender cautelarmente esses dispositivos, o Supremo reafirmou a incompatibilidade entre a condição constitucional do delegatário e sua equiparação aos servidores públicos efetivos. Já na ADIn 3.6435, também ajuizada pela ANOREG/BR, embora a controvérsia central fosse diversa, a fundamentação do julgamento retomou a peculiar conformação constitucional da atividade notarial e registral, destacando tratar-se de atividade estatal dotada de natureza própria, exercida em caráter privado por delegação do Poder Público. O conjunto desses precedentes revela, portanto, uma premissa constitucional bem definida segundo a qual o regime jurídico dos notários e registradores decorre diretamente do art. 236 da Constituição e da legislação especial que o concretiza, não se confundindo com o regime estatutário aplicável aos servidores públicos. Nesse sentido, a lei 8.935/1994 desenvolveu essa conformação constitucional mediante um regime jurídico próprio, estabelecendo deveres, tipificando infrações disciplinares e prevendo as penas de repreensão, multa, suspensão e perda da delegação, embora permanecesse sem resposta uma questão elementar para qualquer sistema sancionatório, relacionada ao período durante o qual o Estado pode exercer sua pretensão punitiva. Diante desse vazio normativo, coube à jurisprudência administrativa construir uma solução para a incidência da prescrição no âmbito disciplinar dos notários e registradores. Em 2022, no julgamento conjunto dos recursos administrativos nos pedidos de providências 0008105-58.2021.2.00.0000, 0007009-08.2021.2.00.0000, 0005442-39.2021.2.00.0000 e 0005865-96.2021.2.00.00006, o CNJ consolidou o entendimento de que, ausente disciplina prescricional na lei 8.935/1994, deveriam ser aplicados, por analogia, os prazos previstos no art. 142 da lei 8.112/1990.7 A aproximação com o regime dos servidores públicos federais, contudo, não se limitou à definição da extensão dos prazos, alcançando também o respectivo termo inicial, mediante a incidência da regra do § 1º do mesmo dispositivo, segundo a qual a prescrição começa a correr da data em que o fato se torna conhecido pela autoridade competente. O fundamento adotado pelo Conselho foi precisamente a inexistência, naquele momento, de disciplina própria na legislação federal aplicável aos delegatários, circunstância que justificava o recurso analógico à lei 8.112/1990 para suprir a lacuna normativa. A orientação foi posteriormente sintetizada pelo próprio CNJ no informativo de jurisprudência 44/22, que registrou a aplicação, às penalidades previstas na lei 8.935/1994, dos prazos prescricionais estabelecidos no art. 142 da lei 8.112/1990, inclusive da regra contida em seu § 1º, qualificada expressamente pelo Conselho como aplicação da teoria ou princípio da actio nata, segundo a qual a contagem da prescrição tem início na data em que o fato se torna conhecido pela autoridade competente. Essa orientação, contudo, não deve ser compreendida como parâmetro absoluto para todas as situações pretéritas, pois a integração pela lei 8.112/1990 não dispensava a verificação de eventual legislação local específica validamente aplicável ao regime disciplinar das delegações. Nos Estados em que já houvesse disciplina própria sobre a prescrição, especialmente com definição de termo inicial diverso, a análise deveria partir dessa norma, não sendo adequada a importação automática do estatuto federal dos servidores como solução uniforme para realidades normativas distintas. A solução era compreensível como técnica de integração diante do vazio legislativo então existente, mas se tornava juridicamente problemática quando passava a funcionar como regime ordinário e permanente da prescrição disciplinar dos notários e registradores. O art. 142 da lei 8.112/1990 integra um estatuto concebido especificamente para servidores públicos e estrutura um sistema completo de prescrição, com prazos distintos conforme a sanção, termo inicial vinculado ao conhecimento da infração pela autoridade competente, causas interruptivas e reinício da contagem. A transposição desse modelo para a atividade notarial e registral, embora explicável como resposta provisória à ausência de disciplina legal específica, sempre conviveu com uma tensão evidente em relação à própria jurisprudência constitucional do STF, firme no sentido de que notários e registradores não são servidores públicos, não ocupam cargos públicos efetivos e se submetem a regime jurídico próprio, diretamente estruturado pelo art. 236 da Constituição. A analogia, portanto, supria uma lacuna, mas o fazia mediante a importação de um regime estatutário pertencente a categoria jurídica distinta daquela dos delegatários extrajudiciais. A lei 15.509/26 rompe com essa lógica de transposição analógica e passa a disciplinar a matéria a partir de um regime próprio, coerente com a posição constitucional específica dos notários e registradores. Em vez de reproduzir a sistemática do art. 142 da lei 8.112/1990, o legislador estabeleceu prazo único de cinco anos para a aplicação das sanções previstas na lei 8.935/1994 e adotou, como regra, a própria ocorrência do fato como termo inicial da prescrição, ressalvada a hipótese de infração permanente, em que a contagem se inicia com a cessação da permanência. A opção legislativa evidencia que, uma vez preenchida a lacuna normativa por disciplina específica, deixam de subsistir as razões que justificavam a importação do regime prescricional dos servidores públicos, passando a incidir um modelo próprio, construído segundo as particularidades da atividade notarial e registral. A consequência dessa mudança é especialmente relevante quando considerada à luz das particularidades do próprio regime constitucional dos notários e registradores. No sistema anteriormente construído por analogia, um ato praticado muitos anos antes poderia permanecer potencialmente sujeito à persecução disciplinar. A lei 15.509/26 adota lógica diversa e vincula, como regra, o curso da prescrição à própria ocorrência do fato, ressalvando expressamente as infrações permanentes, hipótese em que a contagem se inicia com a cessação da permanência. Essa opção legislativa ganha especial coerência no âmbito de uma atividade que, embora exercida em caráter privado por delegação, desenvolve-se sob supervisão permanente do Poder Judiciário. A fiscalização não constitui elemento eventual ou externo ao modelo, mas integra sua própria conformação constitucional, sendo exercida pelas corregedorias por diferentes instrumentos de controle, acompanhamento e rastreabilidade, inclusive, conforme a disciplina de cada unidade da Federação, mediante mecanismos específicos de fiscalização. A própria estrutura financeira existente em diversos Estados contempla receitas e taxas relacionadas ao exercício desse poder de polícia, circunstância que evidencia o caráter institucional e permanente dessa função fiscalizatória. Há, portanto, uma peculiaridade relevante na relação entre delegação, publicidade e controle. Os atos notariais e registrais são praticados no âmbito de uma atividade juridicamente organizada para produzir publicidade, autenticidade, segurança e eficácia e, simultaneamente, estão inseridos em um sistema permanente de supervisão pelo Poder Judiciário. Nesse contexto, a escolha legislativa de vincular a prescrição à ocorrência do fato estabelece uma relação mais equilibrada entre o dever estatal de fiscalização e a segurança jurídica daquele que exerce a delegação. O poder disciplinar permanece íntegro durante todo o prazo estabelecido em lei. O que o novo regime introduz é um limite temporal objetivo ao seu exercício, compatível com uma atividade cujos atos, desde a sua prática, estão inseridos em um sistema institucional de publicidade e fiscalização permanentes. Nesse contexto, a definição da ocorrência do fato como termo inicial da prescrição estabelece uma correspondência lógica e coerente entre o dever estatal de fiscalizar e a segurança jurídica do delegatário, evitando que a pretensão punitiva permaneça indefinidamente condicionada ao momento, sempre posterior e potencialmente incerto, em que a autoridade venha a formalizar o conhecimento de um ato que, por sua própria natureza e pelo regime constitucional da atividade, já se encontrava submetido aos mecanismos ordinários de controle do Poder Judiciário. A única alteração expressa do termo inicial ocorre nas infrações permanentes e, nelas, os cinco anos são contados do dia em que cessar a permanência. A opção legislativa aproxima-se, nesse ponto, do art. 1º da lei 9.873/19998, que estabelece prazo quinquenal para determinadas pretensões punitivas da Administração Pública Federal. Há, porém, uma diferença textual que não deveria ser negligenciada, pois a lei 9.873/1999 refere-se às infrações "permanentes ou continuadas", enquanto a lei 15.509/26 falou apenas em infrações permanentes e, em um ramo sancionatório, essa diferença importa. Não parece juridicamente neutro ampliar, por interpretação, uma exceção que adia o termo inicial da prescrição, pois, se o legislador nacional decidiu prever a permanência e não reproduziu a referência à infração continuada existente em outro diploma que claramente lhe poderia ter servido de parâmetro, a equiparação das duas categorias não pode ser presumida. Quanto maior for o efeito da interpretação sobre a duração da pretensão punitiva, maior deverá ser o rigor de sua fundamentação. E é justamente nesse ponto que a nova disciplina revela uma questão ainda em aberto. A lei 15.509/26 definiu expressamente o prazo prescricional e o respectivo termo inicial, mas não regulou causas de suspensão ou interrupção da prescrição, tampouco instituiu hipótese de prescrição intercorrente. A opção legislativa contrasta com outros regimes sancionadores, como o da lei 8.112/1990, que prevê a interrupção da prescrição pela abertura de sindicância ou pela instauração de processo disciplinar, e o da lei 9.873/1999, que contém causas interruptivas expressamente enumeradas e disciplina a prescrição intercorrente em determinadas hipóteses. Essa ausência de regulamentação para titulares de Cartórios merece atenção porque o contexto normativo já não é o mesmo que justificou a construção anterior do CNJ. Antes da lei 15.509/26, inexistia na lei 8.935/1994 disciplina própria sobre a prescrição da pretensão disciplinar, o que abriu espaço para a utilização analógica do regime previsto para os servidores públicos federais. A partir da nova lei, contudo, passou a existir uma disciplina especial, inserida no próprio estatuto jurídico dos notários e registradores, que estabeleceu prazo e termo inicial segundo opções normativas distintas daquelas contidas no art. 142 da lei 8.112/1990. A nova disciplina poderia ter avançado um pouco mais, regulando também as causas de suspensão, interrupção e eventual prescrição intercorrente, de modo a evitar zonas de incerteza justamente em matéria submetida a regime constitucional próprio. Essa observação ganha relevo diante da jurisprudência consolidada do STF no sentido de que notários e registradores não são servidores públicos e não se submetem ao regime estatutário destes, mas exercem atividade estatal em conformação constitucional específica, diretamente estruturada pelo art. 236 da Constituição. Por isso, a permanência de pontos não regulados na nova lei não autoriza, por si só, a automática recomposição do regime prescricional mediante importação seletiva de regras concebidas para servidores públicos, sobretudo quando essa aproximação já não pode ser explicada pela inexistência absoluta de disciplina própria. A cautela encontra respaldo metodológico no tema repetitivo 1.2949 do STJ. Embora o precedente tenha examinado a prescrição intercorrente em processos administrativos sancionadores estaduais e municipais e, portanto, não trate diretamente da responsabilidade disciplinar de notários e registradores, a primeira seção assentou que, na ausência de previsão legislativa aplicável, não compete ao Poder Judiciário criar prazos, causas interruptivas ou marcos iniciais por analogia ou interpretação extensiva. A tese repetitiva fixada foi mais específica, ao estabelecer que o decreto 20.910/1932 não pode, por si só, fundamentar o reconhecimento da prescrição intercorrente em processos administrativos estaduais e municipais quando inexistente previsão legal nesse sentido. A fundamentação do julgamento, contudo, oferece uma premissa metodológica relevante para o debate atual, na medida em que evidencia a necessidade de suporte normativo próprio para a definição das diferentes modalidades e efeitos da prescrição administrativa. Nesse contexto, elementos que ampliam, interrompem, suspendem ou extinguem a pretensão punitiva integram a própria disciplina normativa da prescrição e, por isso, exigem definição legislativa expressa, especialmente quando já existe um regime especial instituído para determinada categoria jurídica. A mesma lógica deve ser preservada também no sentido inverso. Se a ausência de previsão legal impede a utilização analógica de outro diploma para ampliar ou prolongar a pretensão punitiva, não parece coerente recorrer, de modo automático, à lei 9.873/1999 para introduzir no regime dos notários e registradores uma prescrição intercorrente de três anos que a lei 8.935/1994 não estabeleceu. O tema 1.294 do STJ reforça essa cautela ao afastar o reconhecimento da prescrição intercorrente por simples analogia quando a legislação aplicável não contém previsão específica nesse sentido. Outra questão igualmente relevante suscitada pela lei 15.509/26 diz respeito à sua aplicação no tempo, especialmente porque a norma entrou em vigor imediatamente, sem estabelecer regra de transição. O problema não se resume a perguntar se a lei nova alcança fatos anteriores a 22 de setembro de 2026, sendo necessário distinguir se o novo regime prescricional pode reger período anterior à sua vigência e, não podendo, de que modo passa a incidir sobre pretensões disciplinares pretéritas que ainda não estavam extintas quando a lei entrou em vigor. Essa distinção é indispensável porque, no modelo supletivo adotado pelo CNJ com base no art. 142, § 1º, da lei 8.112/1990, o prazo começava quando a infração se tornava conhecida pela autoridade competente, e não com a ocorrência material do fato. Era esse dado normativo, ressalvada a existência de eventual disciplina local específica validamente aplicável ao caso concreto, que sustentava a utilização, pelo próprio CNJ, da denominada teoria da actio nata. A lei 15.509/26 alterou precisamente esse ponto ao inserir disciplina própria na lei 8.935/1994, substituindo o critério subjetivo do conhecimento pela autoridade por um marco objetivo, correspondente, em regra, à ocorrência do fato e, nas infrações permanentes, à cessação da permanência. Com a entrada em vigor da nova lei, deixa de subsistir fundamento para condicionar o início da prescrição a uma futura ciência formal da Corregedoria, uma vez que o ordenamento passou a prever regra especial e expressa em sentido diverso. A maior dificuldade está em definir o tratamento jurídico dos fatos anteriores à mudança legislativa, e o primeiro parâmetro relevante para essa análise é o tema repetitivo 1.32710 do STJ, julgado em 9 de setembro de 2026, no qual a primeira seção assentou que a superveniência de norma administrativa sancionadora mais favorável não autoriza, por si só, sua retroação às condutas pretéritas, reafirmando a incidência do tempus regit actum e admitindo solução diversa apenas quando houver previsão legal específica e expressa em sentido contrário. O precedente impede que se trate a lei 15.509/26 como se ela sempre tivesse integrado o ordenamento. Assim, não parece juridicamente correto tomar um fato ocorrido em 2019, 2020 ou 2022 e, em 22 de setembro de 2026, simplesmente retroagir o novo termo inicial para declarar que o prazo de cinco anos começou a correr na data histórica da infração, uma vez que essa operação faria a nova regra produzir efeitos em período no qual ela ainda não existia. Em matéria especificamente prescricional, o tema 1.19911 do STF oferece parâmetro ainda mais próximo, pois, ao examinar a aplicação temporal do novo regime de prescrição introduzido pela lei 14.230/2112 na lei de Improbidade Administrativa, o Plenário assentou expressamente que a disciplina superveniente é irretroativa, de modo que não pode alcançar período anterior à sua vigência, embora os novos marcos temporais passem a produzir efeitos a partir da publicação da lei. A relevância dessa formulação está justamente em separar a retroação do regime novo, que foi afastada, de sua incidência prospectiva sobre situações jurídicas que ainda permaneciam em curso. A conjugação desses dois precedentes permite extrair uma premissa metodológica segura, segundo a qual a irretroatividade não significa perpetuação do regime antigo para todos os efeitos futuros, assim como a eficácia imediata não autoriza projetar o novo termo inicial para trás, devendo a transição preservar o passado regido pela disciplina anterior e, simultaneamente, permitir que a lei nova produza efeitos a partir de sua entrada em vigor. Para os fatos praticados a partir de 22 de setembro de 2026, não há maior dificuldade, pois o prazo é de cinco anos e se conta, em regra, da ocorrência do fato ou, nas infrações permanentes, do dia em que cessar a permanência. Em relação aos fatos anteriores, também parece segura a conclusão de que, se a pretensão punitiva já estava prescrita antes da entrada em vigor da nova lei segundo o regime então aplicável, ela permanece extinta e não pode ser restabelecida pela legislação superveniente. Outra hipótese relevante é a dos fatos anteriores a 22 de setembro de 2026 que já eram de conhecimento da autoridade competente e, por isso, haviam dado início à contagem prescricional segundo o regime então aplicável. Nesses casos, o elemento juridicamente relevante não é a existência de processo administrativo formalmente instaurado, mas o fato de já haver um prazo prescricional em curso, constituído de acordo com a disciplina vigente à época. Se a ciência da infração pela autoridade já havia ocorrido, formou-se uma situação temporal que não deve ser desconsiderada pela legislação superveniente. Nessa hipótese, não parece juridicamente defensável zerar a contagem em 22 de setembro de 2026 e abrir automaticamente um novo prazo integral de cinco anos. Isso poderia ampliar a pretensão punitiva em prejuízo do delegatário, especialmente nos casos em que, pela analogia com o art. 142 da lei 8.112/1990, o prazo aplicável era de dois anos ou de 180 dias. A eficácia imediata da lei nova não se confunde com renovação de prazo já iniciado, e a alteração legislativa não deve funcionar como causa autônoma de prolongamento da pretensão estatal. É importante, contudo, formular esse ponto com precisão, porque a simples ocorrência do fato em 2022 não significa que, em 2026, já tenham transcorrido quatro anos de prescrição. Quando o regime efetivamente aplicável era o modelo adotado pelo CNJ a partir do art. 142 da lei 8.112/1990, a contagem somente se iniciava com o conhecimento da infração pela autoridade competente, de modo que, se essa ciência ocorreu em 2022, o prazo passou a correr desde então, enquanto, se ocorreu apenas em 2024, a contagem teve início naquele momento. Da mesma forma, se até 22 de setembro de 2026 a autoridade competente ainda não tivesse tomado conhecimento do fato, nenhum prazo prescricional teria começado a fluir segundo essa sistemática. É precisamente nessa terceira hipótese, relativa ao fato pretérito que ainda não era conhecido pela autoridade competente quando a lei 15.509/26 entrou em vigor, que surge a questão mais sensível. Essa construção pressupõe, naturalmente, que o regime anterior efetivamente aplicável ao caso concreto fosse aquele baseado na ciência da autoridade, pois, havendo legislação local específica que já adotasse a ocorrência do fato como termo inicial, a transição deverá ser examinada à luz dessa disciplina. Na ausência dessa particularidade, não parece adequado aguardar indefinidamente uma futura ciência da Corregedoria, uma vez que esse critério deixou de integrar a disciplina especial da prescrição, assim como não parece juridicamente defensável retornar à data histórica do fato para considerar transcorrido, antes da vigência da nova lei, um prazo que então ainda não existia. A solução que melhor harmoniza a irretroatividade com a eficácia imediata da nova disciplina parece ser a contagem do prazo quinquenal a partir de 22 de setembro de 2026, tomando-se a entrada em vigor da lei como marco intertemporal, e não como ficção de que a infração teria ocorrido naquela data. A solução encontra ainda reforço, por analogia metodológica, na regra de transição prevista no art. 2.028 do CC e na jurisprudência formada a partir dela. Embora o dispositivo não seja diretamente aplicável ao regime disciplinar dos notários e registradores, o STJ assentou que, quando incide a regra de transição decorrente da redução do prazo prescricional pelo CC de 2002, o novo prazo é contado da entrada em vigor da legislação superveniente, e não retroativamente da data do fato. Essa orientação foi expressamente reafirmada no AgRg no REsp 1.252.188/RS13, julgado pela terceira turma em 24 de abril de 2014. A orientação reforça a mesma lógica intertemporal extraída do tema 1.199 do STF, segundo a qual a lei nova não deve ser projetada para período anterior à sua vigência, mas pode passar a reger prospectivamente as situações ainda pendentes a partir de sua entrada em vigor, preservando-se simultaneamente a irretroatividade e a eficácia imediata da nova disciplina. Outra referência comparativa útil pode ser encontrada no REsp 2.138.900/MS14, julgado pela quarta turma do STJ em 10 de março de 2026. Em matéria civil, a Corte examinou lei superveniente que reduziu de dez anos para doze meses o prazo prescricional aplicável às pretensões relativas ao vale-pedágio e assentou que, para os fatos pretéritos, o novo prazo deveria ser contado da vigência da lei nova. Embora o precedente não possa ser transposto automaticamente ao Direito Administrativo Sancionador, ele ilustra uma técnica de direito intertemporal destinada a evitar tanto a retroatividade indevida quanto a consumação da prescrição antes da própria existência da norma que a instituiu. Naturalmente, nenhuma dessas conclusões deve ser apresentada como questão já definitivamente resolvida pelos tribunais para a lei 15.509/26. O tema 1.199 do STF, o tema 1.327 do STJ e o REsp 2.138.900/MS pertencem a contextos normativos distintos e, por isso, seu valor está sobretudo na construção metodológica que oferecem, cabendo ao primeiro a orientação quanto à irretroatividade do novo regime prescricional e à aplicação dos novos marcos temporais a partir da publicação da lei, ao segundo a reafirmação do tempus regit actum no Direito Administrativo Sancionador, salvo previsão legal específica e expressa em sentido contrário, e ao terceiro um reforço comparativo de técnica de transição destinada a evitar a projeção retroativa de prazo prescricional instituído pela legislação superveniente. Diante de todo o exposto, é possível afirmar que a mudança promovida pela lei 15.509/26 possui significado que ultrapassa a simples instituição de um prazo prescricional. Depois de mais de três décadas, a disciplina da prescrição no âmbito sancionador dos notários e registradores deixa de depender estruturalmente de normas concebidas para agentes submetidos a vínculo jurídico totalmente distinto e passa a encontrar fundamento direto na própria legislação especial da atividade. Essa evolução guarda coerência com a construção constitucional desenvolvida pelo STF, que reiteradamente distingue os delegatários dos servidores públicos. Isso não significa desqualificar a construção jurisprudencial que antecedeu a nova lei. Enquanto a lei 8.935/1994 permanecia silenciosa sobre a prescrição disciplinar, a utilização analógica do art. 142 da lei 8.112/1990 cumpriu relevante função integrativa e, sobretudo, afastou resultado incompatível com a segurança jurídica, qual seja, a possibilidade de exercício indefinido da pretensão punitiva. A superveniência de disciplina legal específica, contudo, modifica a premissa que sustentava aquela solução, pois, uma vez estabelecidos pelo próprio legislador o prazo e seu termo inicial, o regime estatutário dos servidores públicos deixa de constituir a referência necessária para a definição da prescrição aplicável aos delegatários. A lei 15.509/26 encerra, assim, uma etapa de integração normativa e inaugura outra, agora marcada pela interpretação de um regime prescricional próprio, solução que se mostra compatível com a própria conformação constitucional da atividade notarial e registral. Os delegatários prestam um serviço público em caráter privado, por delegação do Poder Público, submetidos a disciplina, fiscalização e responsabilidades que lhes são próprias, razão pela qual também a prescrição de sua responsabilidade disciplinar reclamava tratamento normativo adequado às especificidades desse regime, e não mera dependência estrutural de estatuto concebido para servidores públicos. A nova disciplina, embora represente avanço relevante nesse sentido, ainda exigirá respostas para questões não integralmente disciplinadas pelo texto legal. A existência dessas lacunas residuais, contudo, não autoriza o retorno automático ao modelo anterior nem a importação, como regra, de soluções extraídas do regime estatutário dos servidores públicos, justamente porque desapareceu a omissão normativa que servia de fundamento àquela construção analógica. O poder disciplinar permanece indispensável e plenamente exercitável, assim como permanece íntegra a competência fiscalizatória do Poder Judiciário, mas ambos passam a conviver com um limite temporal definido nacionalmente pelo legislador, em consonância com as exigências de segurança jurídica, estabilidade e previsibilidade próprias do Direito Administrativo Sancionador. No próprio julgamento do tema 1.199 da repercussão geral, a prescrição foi definida como o perecimento da pretensão punitiva ou executória pela inércia do Estado, compreensão que evidencia sua função de impedir a perpetuação indefinida do poder sancionador. A lei 15.509/26 representa, sob essa perspectiva, a passagem de um modelo prescricional construído predominantemente por integração com o estatuto de uma categoria jurídica diversa para outro em que a responsabilidade disciplinar dos notários e registradores passa a ser disciplinada a partir de sua própria conformação constitucional e legal, fundada no art. 236 da Constituição. _____ 1. BRASIL. lei 15.509, de 21 de setembro de 2026. Disponível aqui. 2. BRASIL. lei 8.935, de 18 de novembro de 1994.  Disponível aqui. 3. STF, ADI 2.602/MG, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Red. p/ acórdão Min. Eros Grau, j. 24.11.2005. 4. STF, ADI 2.891-MC/RJ, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 04.06.2003. 5. STF, ADI 3.643/RJ, Rel. Min. Carlos Ayres Britto, j. 8.11.2006. 6. CNJ, Informativo de Jurisprudência nº 44/2022, p. 9, disponível em: Biblioteca Digital do CNJ. 7. BRASIL. lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Disponível aqui. 8. BRASIL. lei 9.873, de 23 de novembro de 1999. Disponível aqui. 9. STJ, Tema Repetitivo 1.294, REsp 2.002.589/PR e REsp 2.137.071/MG, Rel. Min. Afrânio Vilela, 1ª Seção, j. 10.12.2025 10. STJ, Tema Repetitivo 1.327, REsp 2.175.768/ES e REsp 2.175.767/ES, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, 1ª Seção, j. 9.9.2026. 11. STF, Tema 1.199 da repercussão geral, ARE 843.989/PR, Rel. Min. Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, j. 18.8.2022. 12. BRASIL. lei 14.230, de 25 de outubro de 2021. Disponível aqui. 13. STJ, AgRg no REsp 1.252.188/RS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, 3ª Turma, j. 24.4.2014, DJe 2.5.2014. 14. STJ, REsp 2.138.900/MS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, 4ª Turma, j. 10.3.2026.
1) Introdução A importância de um estudo dos aspectos relevantes da ata notarial é fundamental para utilização pelos operadores do Direito de um forte instrumento com força probante muito relevante na prevenção e na solução de conflitos sociais. O objetivo geral é esclarecer e pontuar os aspectos mais relevantes para compreensão do instituto da ata notarial e os objetivos específicos são: encontrar os conceitos mais relevantes (princípios e elementos básicos essenciais) e definir a aplicação prática dos regramentos para eficácia da força probante dos atos notariais. Para elaboração do presente, foi adotada a metodologia de revisão bibliográfica pertinente sobre o tema, verificando os entendimentos de doutrinadores sobre o tema. Finalmente, com o presente trabalho foi possível demonstrar que a ata notarial é um relevante instrumento de segurança documental e segurança substancial, fundamentais para o sistema notarial latino. Conforme afirma Mônica Jardim4, "o sistema latino de notariado é o único que realmente realiza a prevenção de litígios, ou seja, é o único que gera uma segurança jurídica preventiva ao lado da segurança correctiva." 2) Conceito de ata notarial A competência dos Tabeliães de Notas está prevista na lei dos Cartórios (lei 8.935/94, art. 7º). Dentre as suas várias atribuições, expressamente está prevista a lavratura de atas notariais (inciso III). O legislador federal, no CPC de 2015, elencou a ata notarial como um meio específico de prova, ao dispor no seu art. 384 que "a existência e o modo de existir de algum fato podem ser atestados ou documentados, a requerimento do interessado, mediante ata lavrada por tabelião". Trata-se assim de ato notarial, ou seja, praticado exclusivamente por tabelião de notas ou seu preposto autorizado, por se tratar de instrumento público, faz prova plena do que ali estiver estabelecido, conforme preceitua o art. 215, do CC: "a escritura pública, lavrada em notas de tabelião, é documento dotado de fé pública, fazendo prova plena." Por certo, não há que se confundir a escritura pública (ato negocial constitutivo obrigacional - inciso I, do art. 7º, da lei 8.935/94) com a ata notarial (ato de autenticação - pré-constituição de prova - inciso III, do art. 7º, da lei 8.935/94), como restará demonstrado adiante, mas por certo ambos dotados de fé pública e aptos à produção de prova plena. O conceito de ata notarial passa pela percepção de que o termo "ata" está relacionado a relato de acontecimentos e registrados para produção de prova, ou seja, registro documental de acontecimentos. Existem vários conceitos doutrinários distintos, Luiz Guilherme Loureiro5 registra que "a ata notarial é o documento redigido e autorizado pelo notário em que se consignam fatos e circunstâncias que presencia ou que lhe constem de próprio e pessoal conhecimento e que, por sua natureza, não configuram ato ou negócio jurídico". Por sua vez, Leonardo Brandelli6 afirma que "a ata notarial é, enfim, o instrumento público através do qual o notário capta, por seus sentidos, uma determinada situação, um determinado fato, e o translada para seus livros de notas ou para outro documento." Afonso Celso Rezende7 conceitua a ata notarial como "o registro ou resenha de fatos ou ocorrências verificadas e resoluções tomadas numa sessão de corpo deliberativo ou consultivo". Tradicionalmente, Walter Ceneviva8 formula o conceito de ata notarial como o "registro de fato ou de ato solicitado ao tabelião de notas por interessado, feito com precisão objetiva, das pessoas e ações que o caracterizaram". Atento à necessidade de modernização do conceito tradicional da ata notarial, Marcelo Antonio Cavalli9 aponta a necessidade de ampliação conceitual em razão da previsão constante no parágrafo único, do art. 384, do CPC, ao estabelecer que "dados representados por imagem ou som gravados em arquivos eletrônicos poderão constar da ata notarial." Com fundamento nessa premissa legal, o citado autor afirma que "podemos dizer que a ata notarial não mais se limita à redação descritiva dos fatos e atos sentidos pelo tabelião, mas também podendo conter anexos e informações que dificilmente poderiam ser traduzidas para a linguagem escrita". Nessa perspectiva, importante destaque merece a abordagem da ata notarial como meio de prova, conforme aponta André Villaverde de Araújo10: "... é possível afirmar que ata notarial é um excelente meio de prova para ser utilizado em processos judiciais, tanto pelo autor, na comprovação dos fatos constitutivos de seu direito, quanto pelo réu na comprovação dos fatos modificativos, impeditivos ou extintivos do direito do autor. Tal prova é revestida de fé pública notarial, destacando-se, assim, a presunção de legalidade e legitimidade, bem como a facilidade, segurança e eficácia deste instrumento notarial na comprovação de fatos em juízo..." Outro ponto relevante para o estabelecimento de um conceito da ata notarial reside na possibilidade ou não de estabelecimento de juízo de valor pelo tabelião Tradicionalmente, a ata notarial é entendida como documento público notarial desprovido de atribuição de juízo de valor exarado pelo tabelião. Nesse sentido, Bianca Schaedler11 afirma que "na ata notarial, o tabelião atua como um observador, num caráter totalmente passivo, sem interferir na ação. Na escritura pública, recebe a vontade das partes e molda-as com liberdade de atuação, emitindo inclusive, juízo para eficácia plena (...)". Entretanto, atualmente, duas modalidades de atas notariais se tornam obrigatórias para obtenção de provimento extrajudicial de usucapião e de adjudicação compulsória, nos termos dos arts. 216-A e 216-B, ambos da lei 6.015/1973: Art. 216-A. Sem prejuízo da via jurisdicional, é admitido o pedido de reconhecimento extrajudicial de usucapião, que será processado diretamente perante o cartório do registro de imóveis da comarca em que estiver situado o imóvel usucapiendo, a requerimento do interessado, representado por advogado, instruído com: (Incluído pela lei 13.105, de 2015) (Vigência). I - Ata notarial lavrada pelo tabelião, atestando o tempo de posse do requerente e de seus antecessores, conforme o caso e suas circunstâncias, aplicando-se o disposto no art. 384 da lei 13.105, de 16 de março de 2015 (CPC); (Redação dada pela lei 13.465, de 2017). Art. 216-B. Sem prejuízo da via jurisdicional, a adjudicação compulsória de imóvel objeto de promessa de venda ou de cessão poderá ser efetivada extrajudicialmente no serviço de registro de imóveis da situação do imóvel, nos termos deste artigo. (Incluído pela lei 14.382, de 2022). § 1º São legitimados a requerer a adjudicação o promitente comprador ou qualquer dos seus cessionários ou promitentes cessionários, ou seus sucessores, bem como o promitente vendedor, representados por advogado, e o pedido deverá ser instruído com os seguintes documentos: (Incluído pela lei 14.382, de 2022). III - Ata notarial lavrada por tabelião de notas da qual constem a identificação do imóvel, o nome e a qualificação do promitente comprador ou de seus sucessores constantes do contrato de promessa, a prova do pagamento do respectivo preço e da caracterização do inadimplemento da obrigação de outorgar ou receber o título de propriedade; (Incluído pela lei 14.382, de 2022). Nas citadas modalidades de ata notarial, faz-se imprescindível que o tabelião de notas amplie o seu papel de mero observador, garantindo que exarada por ele uma decisão sobre o preenchimento ou não dos requisitos dos institutos da usucapião e da adjudicação compulsória. Assim, ao notário caberá exarar um entendimento sobre o exercício da posse pelo requerente e, do mesmo modo, verificar a robustez e a validade da prova que fundamenta o pedido de reconhecimento extrajudicial da adjudicação compulsória. Após visitar inúmeros conceitos doutrinários e definir diversas premissas, é possível conceituar a ata notarial como o documento público notarial protocolar, privativo do tabelião de notas, que tem por finalidade atestar a ocorrência de determinados fatos ou cirscunstâncias, verificadas pelos seus sentidos ou atestar o preenchimento dos requisitos para obtenção de provimento de usucapião ou de adjudicação compulsória. Por evidente, que o convencimento do tabelião sobre a solidez da prova não substituti o julgamento do registrador de imóveis, ao analisar os requerimentos administrativos, e muito menos o julgamento do magistrado que julgue as referidas demandas no âmbito do exercício da jurisdição. 3) A atividade notarial como certificadora das provas As atividades notariais estão voltadas para dois grandes grupos: autenticação e formalização da vontade das partes para obtenção de documento público que materialize a disposição dos envolvidos. Diferentemente do Registro de Imóveis, cuja natureza jurídica é a de constituição de Direito Real e regido pelo Princípio da Tipicidade, o Notariado Latino busca a liberdade de formação de negócio jurídico entre os interessados, ou seja, com a natureza jurídica pública obrigacional. Com essas atribuições, o tabelião de notas tem a sua função como indispensável à prevenção de conflitos e à aplicação da justiça de modo eficaz. Nesse sentido, Felipe Leonardo Rodrigues e Paulo Roberto Gaiger Ferreira12 "esta função notarial se estende a todas as atividades não contenciosas, confere ao usuário segurança jurídica, evita possíveis litígios e conflitos (...) instrumento indispensável à administração de uma justiça eficaz". A formalização jurídica da vontade das partes exige uma conduta do tabelião respeitosa aos preceitos estabelecidos pela regulamentação normativa, com suas regras e princípios. Os atos notariais possuem uma enorme carga de certificação de provas, em razão dos mais relevantes princípios que regem a atividade tabelioa: princípio da juridicidade, princípio da imparcialidade, princípio da rogação ou da instância e princípio da notoriedade ou da fé pública, dentre muitos outros. O princípio da juridicidade pauta a necessidade de controle de legalidade e de segurança social, sempre com atenção à eticidade que deve permear os atos notariais. Trata-se na verdade de um princípio com aplicação e dimensão superiores à mera legalidade. Vitor Federico Kümpel e Carla Modina Ferrari13 destacam o aspecto da bifrontalidade do referido princípio, na medida em que os atos do tabelião devem proteger tanto os interesses das partes (garantia da higidez do negócio, sem se "imiscuir na vontade das partes), quanto toda a sociedade (proteção do tráfego negocial). A mera legalidade é incrementada pela juridicidade, cabendo ao tabelião ir além do exclusivo respeito às leis, a sua atuação ultrapassa os limites da mera legalidade para atingir a proteção dos interesses individuais e coletivos. A atividade tabelioa pressupõe um distanciamento das partes, como garantia de tratamento isonômico entre elas e respeito aos seus direitos e interesses, sem que uma seja privilegiada em detrimento de outra. A garantia de efetividade do princípio da impessoalidade encontra guarida no ordenamento jurídico, como, por exemplo, na liberdade de escolha do tabelião pelas partes interessadas, conforme art. 8º, da lei. 8.935/94: Art. 8º. É livre a escolha do tabelião de notas, qualquer que seja o domicílio das partes ou o lugar de situação dos bens objeto do ato ou negócio. Outro aspecto relevante do princípio da impessoalidade, que rege a atividade, é a impossibilidade de prática pessoal de ato notarial com interesse do tabelião, nos termos do art. 27, da lei. 8.935/94: Art. 27. No serviço de que é titular, o notário e o registrador não poderão praticar, pessoalmente, qualquer ato de seu interesse, ou de interesse de seu cônjuge ou de parentes, na linha reta, ou na colateral, consangüíneos ou afins, até o terceiro grau. É dever do tabelião manter uma análise ética e equidistante dos atos que irá praticar, preservando a legalidade e a juridicidade, bem como os interesses da sociedade na efetivação da sua função pública. Outro princípio relevante para garantir o aspecto de força probante dos ato notariais é o princípio da rogação ou da instância, que impede a atuação de ofício do tabelião. Somente mediante provocação das partes, o notário pode exercer as suas funções, ou seja, sua atuação é resultante de uma provocação materializada por um pedido, que pode ser verbal ou por escrito. Enrique Gimenez-Arnau14 destaca a importância do princípio da rogação como um requisito fundamental para o exercício da atividade notarial, destacando a excepcionalidade de algumas exceções, como a lavratura de uma ata de subsanação dos erros praticados pelo próprio tabelião: Finalmente, merece destaque o princípio da fé pública ou da notoriedade, os atos praticados pelo tabelião estão revestidos pela presunção de veracidade e da legalidade. Inclusive conforme o CPC prevê, nos seus artigos abaixo transcritos: CPC/15, art. 405. O documento público faz prova não só da sua formação, mas também dos fatos que o escrivão, o chefe de secretaria, o tabelião ou o servidor declarar que ocorreram em sua presença. CPC/15, art. 406. Quando a lei exigir instrumento público como da substância do ato, nenhuma outra prova, por mais especial que seja, pode suprir-lhe a falta. Os atos praticados pelo tabelião não dependem de produção de outras provas, os instrumentos públicos exclusivamente considerados já são capazes de provar os fatos e os direitos ali descritos. Há forte carga certificadora de provas, principalmente, pelo seu aspecto de autenticação e não de formalização de negócios jurídicos entre as partes.   Especificamente em relação à ata notarial, importante destaque merece o art. 384, do CPC, que estabelece a possibilidade de representação de dados por meio de arquivos eletrônicos. CPC/15, art. 384. A existência e o modo de existir de algum fato podem ser atestados ou documentados, a requerimento do interessado, mediante ata lavrada por tabelião. Parágrafo único. Dados representados por imagem ou som gravados em arquivos eletrônicos poderão constar da ata notarial. Como é possível constatar, o legislador se preocupou em garantir a maior abrangência possível à força probante da ata notarial. No mesmo sentido, seguiu o Código Nacional de Normas do CNJ, ao tratar da ata notarial para fins de adjudicação compulsória, prevê a possibilidade de constarem na ata notarial: imagens, documentos, gravações de sons, depoimentos e declarações. CNN, art. 440-G. Além de seus demais requisitos, para fins de adjudicação compulsória, a ata notarial conterá: (incluído pelo provimento 150, de 11/9/23). § 5º Poderão constar da ata notarial imagens, documentos, gravações de sons, depoimentos de testemunhas e declarações do requerente. As testemunhas deverão ser alertadas de que a falsa afirmação configura crime. (incluído pelo provimento 150, de 11/9/23). Apesar de toda a força probante da ata notarial, não há obrigatoriedade de sua aplicação para os casos de procedimento judicial. Por outro lado, a lei determina a sua obrigatoriedade em hipóteses de procedimentos extrajudiciais (usucapião e adjudicação compulsória, por exemplo). Assim, o Poder Judiciário não pode obrigar a lavratura de ata notarial quando a lei não exigir a sua obrigatoriedade, podendo outros meios de prova serem utilizados (CPC, art. 369). Do mesmo modo, nem todos os fatos podem ser provados por meio da ata notarial, conforme entendimento do STJ15. "No que se refere à alegada violação dos arts. 384 e 405, do CPC, observo que o Tribunal de orginem não afastou, a príncípio, a possibilidade de utlizar a ata notarial como meio de prova, senão que a considerou irrelevante para a solução da controvérsia. " Clique aqui e confira o artigo na íntegra.
Na primeira parte deste estudo, comecei por uma declaração de princípios: sou contrário a que o Estado faça do Registro de Imóveis balcão de cobrança de tributos. Adverti que o problema não é ideológico; é saber quem pode dispensar a CND, por qual via e com que eficácia - e o que sobra ao registrador enquanto as respostas não coincidem. Vimos que as duas margens do rio correm em sentidos opostos - e o registrador está posto na "terceira margem do rio". No plano jurisdicional, os arts. 47 e 48 da lei 8.212/1991 seguem em vigor, já que o Congresso manteve, em 2022, o veto à sua revogação; o STF, no RE 769.059, negou que tivessem sido alcançados pelas ADIn 173 e 394 e qualificou de infraconstitucional a controvérsia; o STJ aplica-os e reconhece a responsabilidade solidária de quem pratica o ato sem a certidão; e o TRF da 3ª Região, no MS coletivo 5019824-62.2023.4.03.6100, impetrado pela ANOREG-SP, suspendeu a sentença concessiva e manteve a exigibilidade, pendente de julgamento a apelação. No plano administrativo, o CNJ percorreu, desde 2017, o arco que vai da interpretação extensiva daqueles precedentes à afirmação de que sua ratio "irradia seus efeitos para todo o ordenamento jurídico" e, em agosto de 2026, ao exercício aberto do poder normativo, com a resolução que dispensou o prévio recolhimento do ITCMD nos inventários extrajudiciais. Deixei em aberto a pergunta que essa trajetória impõe: podem as deliberações do Plenário do CNJ alterar a disciplina legal da matéria, a pretexto de constituírem atos normativos primários? É dela que parto agora. A primariedade do ato não dissolve a reserva de lei O STF reconhece que atos do CNJ revestidos de generalidade, impessoalidade, abstratividade e autonomia normativa podem ostentar caráter normativo primário e submeter-se ao controle concentrado. Na ADC 12, ao apreciar a resolução CNJ 7/05 (nepotismo), o Tribunal assentou, já em sede cautelar (nada se acrescentando no mérito), que a resolução "se dota, ainda, de caráter normativo primário, dado que arranca diretamente do § 4º do art. 103-B da Carta-cidadã", tendo por finalidade "debulhar os próprios conteúdos lógicos dos princípios constitucionais". Ou seja, o ato "densifica apropriadamente os quatro citados princípios do art. 37", sem necessidade de norma intercalar.1 Daí decorrem consequências. A resolução do Plenário admite controle abstrato (ADIn/ADC), porque não é mero regulamento de lei - ponto que o próprio ministro Marco Aurélio, crítico original da via eleita, acabou por consignar no mérito. Reconhecido o ato do CNJ como "ato normativo abstrato autônomo", detém o Conselho "a competência legiferante".2 No campo da organização administrativa do Judiciário, o Conselho pode concretizar princípio constitucional sem esperar o legislador, pois os princípios do caput do art. 37, na dicção do ministro Menezes Direito, "têm uma eficácia própria" e "podem ser imediatamente aplicados", de sorte que o princípio "pode, sim, ser aplicado diretamente, independentemente da existência de uma lei formal".3 Atente-se, entretanto, ao fundamento da validação: as restrições da resolução 7 foram tidas por constitucionais precisamente porque eram, "no rigor dos termos, as mesmas restrições já impostas pela Constituição de 1988" - o que já era proibido permaneceu proibido, "porém, agora, mais expletivamente positivado".4 Primariedade, neste contexto, é juízo sobre a fonte - fundamento de validade e via de controle -, não salvo-conduto para inovação material. Tanto assim que, no mesmo julgamento, o ministro Ricardo Lewandowski enquadrou o idêntico ato como exercício de "poder regulamentar": nem o colegiado que forjou a categoria a tratou como título de competência ilimitada. Não se segue daí que todo conteúdo que o Plenário queira veicular passa a valer como lei. A premissa fixada na ADIn 3.367 permanece de pé: o CNJ é órgão de natureza administrativa, de controle interno do Poder Judiciário; não é legislador, não é tribunal.5 E o corte foi traçado com nitidez na ADIn 4.145, a propósito da resolução 59/08: o Conselho pode padronizar rotinas administrativas e cartorárias no âmbito de sua competência; não pode editar norma que inove em face da lei de regência nem que tolha o exercício da jurisdição, sob pena de - na advertência do redator para o acórdão - poder "regulamentar tudo". E o ministro foi além: "mesmo que regulamente mais modernamente e melhor do que existe hoje, isso não é função constitucional do CNJ, é função do Congresso Nacional".6 É da lavra do próprio relator originário (Fachin), vencido quanto à conclusão: "é possível ao Conselho regular a rotina cartorária, desde que isso não implique estender, para além da reserva legal, as hipóteses legalmente autorizadas (...)".7 O julgamento é pedagógico: manteve o que organizava e derrubou o que inovava. Ato normativo primário e, não obstante, inconstitucional por excesso. A resolução do CNJ é primária na medida da competência. Fora dela, é primária e... nula. Ora, se o Conselho não pode criar requisito não previsto na lei de regência, tampouco pode suprimi-lo. A supressão de exigência legal é nomogênese tanto quanto a criação - com um agravante: aqui ela incide sobre matéria duplamente reservada à lei, as garantias do crédito tributário e a responsabilidade tributária de terceiros (art. 48 da lei 8.212/91; art. 134, VI, do CTN), que nenhum regulamento pode instituir nem exonerar. Averbe-se que há um dado que a discussão confortavelmente ignora: a instância democrática foi provocada, e recusou. O Congresso aprovou, em 2022, a revogação da alínea "b" do inciso I e do inciso II do art. 47; sobreveio o veto, e o veto foi mantido. O que as deliberações do CNJ produzem, desde então, é a obtenção por via administrativa daquilo que o processo legislativo expressamente negou. Restaria o argumento de que o STF já reconheceu ao CNJ o poder de afastar a aplicação de lei inconstitucional. É verdade - e é precisamente por isso que o precedente merece leitura integral. Na petição 4.6568, o Plenário, por unanimidade, validou decisão do Conselho que determinara a exoneração de comissionados investidos com base em lei paraibana flagrantemente ofensiva à CF/88 (imprescindibilidade do concurso público). Mas a ementa e o voto condutor cercam a competência de condições que a linha da CND não satisfaz. Em primeiro lugar, a lei afastada era o fundamento de ato administrativo concreto submetido ao controle do Conselho - lei estadual de organização judiciária, matéria que recai no âmbito do art. 103-B. Depois, a inconstitucionalidade era frontal e recaía sobre matéria já assentada. Por fim, o afastamento exige ato expresso e formal, tomado pela maioria absoluta dos membros do Conselho, e seus efeitos dirigem-se aos "órgãos submetidos a seu espaço de influência", ressalvado sempre o controle judicial. Confrontemos com o nosso caso: lei federal tributária; matéria que o STF, longe de pacificar, recusou-se a decidir quando provocado, qualificando a ofensa de reflexa e negando que o art. 47 tenha sido alcançado pelas ADIn 173 e 394; afastamento construído com base na transcendência dos motivos determinantes - cuja utilização como fundamento de reclamação o próprio STF rejeita; e sem o pronunciamento formal e qualificado que a petição 4.656 exige, tanto que o art. 4º, § 3º, do RICNJ, regra que positiva essas cautelas, foi aplicado uma única vez em 2021 (na série de decisões acima relatadas) e desde então silenciosamente abandonado. Bem lida, a petição 4.656 não socorre a dispensa da CND: fixa as condições que ela não cumpre e, de quebra, confina os efeitos do afastamento ao espaço de influência do Conselho - que não inclui, nem poderia incluir, a Receita Federal. O contraste interno da própria jurisprudência do CNJ confirma o diagnóstico. Na resolução sobre o ITCMD havia lei de suporte: o art. 659, § 2º, do CPC, na leitura que o STJ lhe deu no tema 1.074. Ali o Conselho aplicou a lei - operação legítima de quem regulamenta. Na CND não há lei nenhuma sustentando a dispensa; há apenas a irradiação de motivos determinantes de julgados sobre lei diversa. Entretanto, é bom notar que nem essa operação vincula o Fisco. A Fazenda paulista, ao criar o serviço de comunicação das escrituras lavradas sem o recolhimento (SIPET), ressalvou expressamente que a abertura do canal não importa autorização ou anuência para o não pagamento, reafirmando a vigência da norma estadual que exige o recolhimento prévio.9 O mesmo órgão, no mesmo ano, realizou duas operações de natureza jurídica oposta, e a fortuna de ambas não pode ser a mesma. Como sintetiza Ricardo Dip - em doutrina construída para o poder normativo das Corregedorias, e aplicável a fortiori ao plano nacional -, a potestade administrativa sobre notas e registros exerce-se diretamente apenas sobre os delegatários (potestas in solos subditos directe exerceri potest): não serve de sucedâneo de lei para criar direitos ou deveres para os particulares (CF/88, art. 5º, II).10 Consolida o vigente, regulamenta quando a lei atribui competência regulamentar, edita norma técnica (art. 30, XIV, c/c art. 38 da lei 8.935/94) - e é precisamente nessa moldura que se contém a potestas leges ferendi, que "não pode afligir a independência jurídica do registrador e exige, de maneira expressa, uma previsão legal de apoio".11 Não legisla para o usuário, não cria nem extingue figura de direito material, não exonera responsabilidade tributária. Ainda Dip: o "CNJ é um órgão judicial emanante de decisões administrativas. O Fisco não é seu subordinado hierárquico" e lança em seguida uma indagação pertinente: "cabe indagar, se os tabeliães estarão a salvo da responsabilidade solidária prevista no art. 134 do Código tributário nacional".12 O ato do CNJ vale como comando correicional e, nessa qualidade, vincula as serventias. A decisão administrativa exoneratória perante o Fisco - que "não é subordinado hierárquico" do CNJ - é de duvidosa eficácia. A primariedade do ato não dissolve a reserva de lei. A revisão paulista São Paulo foi o último bastião da resistência - e a crônica de sua capitulação, consumada em três atos ao longo de 2026, é indispensável para compreender a posição atual do registrador paulista. O primeiro ato foi uma decisão administrativa do CSMSP que acabou submetida ao controle de outra instância administrativa. No julgamento da dúvida oriunda da comarca de Bauru (SP)13, o Conselho Superior da Magistratura de São Paulo mantivera a exigência da CND na linha tradicional das suas Normas de Serviço (subitem 120.3 do Cap. XX, Tomo II, das NSCGJ). A parte inconformada levou a questão ao CNJ e este, no PCA 0001566-37.2025.2.00.000014, assentou premissa de largo alcance: a decisão do CSMSP em procedimento de dúvida, por destituída de natureza jurisdicional e de coisa julgada, é ato administrativo sujeito ao controle do CNJ (art. 91 do RICNJ). Concedeu-se liminar suspendendo o entendimento consubstanciado nas NSCGJSP e, em 30/6/26, o mérito foi julgado procedente. Aos dois planos que este artigo vem descrevendo - o jurisdicional e o administrativo - acrescentou-se um andar superior dentro do próprio plano administrativo. Acima do CSMSP temos agora a varanda superior: o CNJ. Foi uma capitulação fundamentada. No recurso administrativo de Junqueirópolis, interposto pelo Ministério Público estadual, a Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo aprovou o parecer 172/26-E15, cuja passagem central merece ser gravada: a rigor, é correto o óbice - a exigência da CND funda-se em lei vigente, que só a jurisdição poderia afastar. Não obstante, curvou-se a Corregedoria à "atual orientação do CNJ", com ressalva expressa do entendimento pessoal da ilustre parecerista, e determinou a instauração de expediente para alteração das Normas de Serviço. A mesma fórmula - correção jurídica do óbice, acatamento institucional da orientação superior - foi reiterada no expediente normativo subsequente16. São Paulo capitulou sem se converter. O terceiro lance foi normativo. Pelo provimento CG 17/2617, publicado em 24/8/26, a Corregedoria deu nova redação ao subitem 120.3 - a averbação de construção passa a fazer-se à vista do habite-se ou da certidão de conclusão de obra, ressalvadas as hipóteses da lei 13.865/19, sem exigência de CND - e suprimiu a alínea do subitem 168.1 que arrolava a certidão entre os documentos exigíveis. A partir dessa data, o registrador paulista que exigir a CND não estará mais amparado pela norma de serviço: a descumprirá. As duas faces do mesmo tribunal Em 2013, o então Desembargador Ricardo Dip, como relator na 11ª Câmara de Direito Público do TJSP[18], julgou, em sede jurisdicional, mandado de segurança impetrado contra oficial de registro de imóveis que recusara o registro de carta de adjudicação sem as certidões. A segurança foi denegada, e a ementa é lapidar: "Inexistente declaração expressa de vício de inconstitucionalidade a espancar a lei 8.212/1991, de 24-7, essa normativa deve ser rigorosamente observada pelos Oficiais dos Registros Públicos, não podendo reputar-se, pois, ilegal a exigência estribada nessa normativa, em processo de registro imobiliário, observados os limites definidos pelo princípio da legalidade a que adstrito o Registrador." Do voto, dois excertos que antecipam, com dez anos de vantagem, toda a discussão atual: "À falta de declaração judicial expressa de que a lei 8.212/1991 padeça de inconstitucionalidade, não pode o Registrador de imóveis estender-lhe a fulminação que afligiu a lei 7.711/1988." "Não cabe aos Registradores aplicar a teoria dos motivos determinantes e estender decretos de inconstitucionalidade de uma lei a outra." E há, no voto, um detalhe premonitório: o próprio relator anotou que aquilo que a registradora não podia fazer por si própria - ou seja: dispensar as certidões à guisa de julgar inconstitucional o art. 47 - poderia, na via administrativa, se assim o entendessem, ser feito pelo juízo corregedor permanente e pelo Conselho Superior da Magistratura, pela trilha da dúvida do art. 198 da LRP. Dez anos depois, o mesmo TJ/SP, agora pelo pronunciamento de seu CSM e em sede administrativa (apelação civil 1003559-67.2022.8.26.0198, j. 28/11/23)19, dispensou a exigência. Não há contradição alguma entre os dois julgados: há dois planos distintos. A 11ª câmara julgou no âmbito amplo da jurisdição, adstrita à lei vigente e à ausência de declaração de inconstitucionalidade; o CSMSP orientou como administração, no âmbito administrativo-correicional. O registrador que confundir os planos confundirá também os riscos. Pois bem: em 2026, Ricardo Dip comentou a recente decisão do Plenário do CNJ (processo 0008622-24.2025, relator ministro Mauro Campbell Marques, corregedor nacional de Justiça) que, por unanimidade, assentou ser "indevida a exigência de prévio recolhimento do ITCMD como condição para a lavratura de inventário e partilha extrajudicial, mantido o dever do notário de lançar a informação sobre o débito na escritura e informar o ente tributante, que poderá efetuar a cobrança pelos meios próprios".20 Dip aplaude o reencontro com a tradição doutrinária e jurisprudencial contrária às sanções políticas - tradição que ele próprio porta, no arco que vai de Sacha Calmon a Hugo de Brito Machado -, mas, fiel à coerência de 2013, adverte para alguns pontos que interessam diretamente ao nosso tema. O CNJ é órgão de decisões administrativas e, na sua síntese certeira, "o Fisco não é seu subordinado hierárquico", sem enfrentamento expresso do art. 134, VI, do CTN. Aliás, paira a sombra da responsabilidade solidária dos tabeliães prevista no citado dispositivo do CTN pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do ofício. Note-se que a decisão do CNJ não tratou do registro imobiliário da escritura de inventário e partilha; e, se se pretender estendê-la por analogia ao fólio real, restará o obstáculo do art. 289 da LRP, que impõe ao oficial a rigorosa fiscalização do pagamento dos impostos devidos por força dos atos apresentados. Por fim - e aqui o argumento a fortiori que fulmina a pretensão de o registrador decidir por conta própria: se nem os órgãos fracionários dos tribunais podem negar aplicação a normas infraconstitucionais sem observar a reserva de plenário (súmula vinculante 10), não há de bastar aos oficiais do registro a invocação de um juízo de inconstitucionalidade implicitado na decisão de um órgão judiciário administrativo. Decisão administrativa versus decisão jurisdicional As decisões do CNJ e das Corregedorias não fazem coisa julgada nem vinculam a Receita Federal. O CNJ é órgão administrativo do Poder Judiciário (art. 103-B da CF); suas decisões em pedidos de providências e procedimentos de controle têm natureza correicional, vinculando as serventias no plano administrativo-registral, mas não alcançam os órgãos do Poder Executivo federal, estranho à relação administrativa-correicional do Poder Judiciário. É o que a própria petição 4.656 confirma, ao circunscrever os efeitos do afastamento de lei aos órgãos submetidos ao espaço de influência do Conselho. A Receita não é destinatária dessas decisões e não está impedida de autuar. Mesmo que se admita ao CNJ afastar administrativamente a aplicação de lei que repute inconstitucional, esse afastamento produz efeitos no âmbito correicional - não neutraliza a competência fiscalizatória do Fisco inclusive para lavrar "documento de constituição do crédito tributário, por meio de sua matrícula CEI ou CAEPF atribuída ou não de ofício" (art. 258 da IN 2.110/22). A própria União, aliás, sustentou no agravo que a decisão do CNJ no PP 0001230-82.2015 "não possui idoneidade para afastar a aplicação de normas legais que não foram regularmente afastadas pelo STF em controle abstrato de constitucionalidade ou na sistemática da repercussão geral". Somente decisão jurisdicional, com eficácia atual, protege contra o auto de infração. E a única decisão jurisdicional que protegia coletivamente os notários e registradores paulistas acha-se suspensa por decisão jurisdicional de instância superior. No plano que efetivamente blinda o titular, prevalece a exigibilidade. O Oficial do Registro, de sua parte, não pode exercer controle de constitucionalidade no âmbito estrito da qualificação registrária. Como assentou o TRF da 3ª Região (e como já demonstrava Dip em 2013), o notário e o registrador, representantes do Estado por delegação, não podem deixar de aplicar norma vigente por reputá-la inconstitucional por semelhança, nem lhes cabe manejar a teoria dos motivos determinantes para estender decretos de inconstitucionalidade de uma lei a outra. O argumento a fortiori da súmula vinculante 10 sela a questão: o que se veda até aos órgãos fracionários dos tribunais não se há de permitir ao oficial de registro com apoio em decisão administrativa. Esse juízo é reservado à jurisdição. Como vimos, a jurisdição, por ora, decidiu em sentido contrário à dispensa. A tenaz normativa: O que fazer? Até 24/8/26, a posição do registrador paulista, embora desconfortável, comportava escolha: a assimetria dos riscos recomendava exigir a certidão, suportando eventual controvérsia correicional, de todo defensável, a descoberto que estava de escudo judicial contra a autuação fiscal. O provimento CG 17/26 eliminou a escolha. Exigir a CND, hoje, em São Paulo, é descumprir norma expressa da Corregedoria do Estado, com as consequências disciplinares correspondentes que poderão advir. Dispensá-la é praticar o ato que o art. 48 da lei 8.212/91 comina de nulidade e ao qual a IN 2.110/22 associa o auto de infração pessoal - sem que exista, no momento, qualquer decisão jurisdicional eficaz a proteger o titular, suspensa que está a sentença do mandado de segurança coletivo. O registrador deixou de se equilibrar sobre uma lâmina para ser apertado por uma tenaz: cada braço da alternativa é comandado por uma autoridade distinta, e as duas não conversam. Nessa contingência, o quadro de conduta possível é o seguinte. Primeiro: no plano correicional, o registrador paulista cumpre o provimento. Não lhe é dado opor à norma da Corregedoria o mesmo juízo de invalidade que este artigo nega ao CNJ - a coerência o exige. Pratica o ato sem a exigência da certidão, porque assim manda a autoridade que o fiscaliza e orienta (art. 236, § 1º, da CF/88; arts. 37 e 38 da lei 8.935/94). Segundo: adota, com o máximo rigor, o protocolo que a própria jurisprudência administrativa desenhou como contrapartida da dispensa - a certidão informativa e o rigoroso dever de orientação e informação às partes, com consignação da situação fiscal no ato, na linha do PCA 1.611, expressamente adotada pela Consulta da Paraíba para afastar a responsabilidade solidária do tabelião (art. 134, VI, do CTN). É preciso dizer com franqueza o que essa garantia vale: no plano correicional, tudo; perante a Receita e o Judiciário federal, é tese defensiva - respeitável, mas não inoculada com vacina eficaz. O cumprimento escrupuloso do dever de informar é, hoje, a melhor peça da futura defesa do titular, não a sua dispensa. Terceiro: documenta, tu, escriba! A ciência inequívoca das partes quanto à existência da norma legal, à orientação administrativa que a afasta e ao risco fiscal remanescente deve ficar registrada. E aqui a franqueza de novo se impõe: a declaração do usuário não blinda o oficial. O art. 48 da lei 8.212/1991 e o art. 258 da IN 2.110/22 imputam a responsabilidade diretamente ao titular, e o art. 123 do CTN é peremptório: convenções particulares não são oponíveis à Fazenda Pública para modificar a definição legal do sujeito passivo. A declaração serve como documentação de boa-fé, eventual suporte a direito de regresso e prova de que a serventia advertiu a parte - jamais como escudo. Quarto: sobrevindo a autuação, a defesa do titular articulará a obediência a norma expressa e cogente do poder delegante - que exclui a voluntariedade da conduta e configura, quando menos, a boa-fé e a inexigibilidade de conduta diversa -, o dever de informação cumprido, e, no mérito, a própria tese da inconstitucionalidade dos arts. 47 e 48, agora sim perante quem pode declará-la: a jurisdição. A tenaz, paradoxalmente, produz o efeito que uma década de contencioso não produziu - empurra a questão constitucional, por via idônea, para o seu foro próprio. Quinto: fora de São Paulo, a posição de cada titular depende da norma correicional local - onde houver provimento análogo, a tenaz é a mesma; onde não houver, subsiste a recomendação prudencial das versões anteriores deste estudo: exigir a certidão, lembrando que a exigência se satisfaz também pela CPEN, o que frequentemente resolve o impasse sem confronto (arts. 151 e 206 do CTN). E, para o usuário que se sinta lesado pela exigência onde ela subsista, permanece aberta a via segura por excelência: a decisão judicial individual que dispense a certidão, protegendo o seu direito e, indiretamente, o oficial. Em todos os cenários, uma constante: acompanhar, com atenção redobrada, o julgamento da apelação no MS 5019824-62.2023.4.03.6100. Se a 1ª turma confirmar a sentença, os registradores paulistas associados ganham o escudo jurisdicional que hoje lhes falta, e a tenaz se aposenta. Se a reformar - desfecho que a composição do julgamento de 2024 e a decisão de julho de 2025 tornam provável -, a colisão entre a norma correicional paulista e a jurisdição federal se tornará frontal, e o conflito, hoje latente, exigirá solução institucional. Conclusão As normas acham-se em vigor, com veto presidencial recente a lhes confirmar a subsistência; o STF não estendeu às ADIn 173 e 394 o alcance que elas não ostentam e, pela via em que provocado, recusou conhecer da controvérsia, qualificando de reflexa a ofensa alegada; o STJ aplica os dispositivos e reconhece a responsabilidade solidária; o TRF da 3ª Região, por acórdão unânime de turma e efeito suspensivo à apelação, restabeleceu a exigibilidade no caso concreto paulista. Do outro lado, o CNJ percorreu, em nove anos, o arco que vai da interpretação extensiva ao poder normativo assumido, e São Paulo - registrando duas vezes, com todas as letras, que a rigor o óbice é correto - capitulou pela via institucional. A primariedade dos atos do Conselho, reconhecida desde a ADC 12, não dissolve a reserva de lei nem estende seus efeitos para fora do espaço de influência correicional: o que a petição 4.656 concede com uma mão - o afastamento, por ato formal e qualificado, de lei utilizada como fundamento de ato administrativo submetido ao controle do CNJ, em matéria constitucional já balizada por precedente do STF - ela retira com a outra da hipótese presente. A pedra de tropeço, assim, mudou de lugar. Já não está no caminho do usuário, a quem as corregedorias desobstruíram a passagem; está sob os pés do registrador, comprimido entre a norma que o proíbe de exigir e a lei que o pune por dispensar. Removê-la não está ao alcance nem dele, nem das corregedorias, nem deste articulista: está ao alcance do STF, por via recursal idônea que articule os arts. 47 e 48 com a vedação das sanções políticas (tema 856); do legislador, que pode retomar o que o veto de 2022 interrompeu; e da própria Receita Federal, que pode reavaliar, nos limites da lei, sua disciplina infralegal diante do estado atual da controvérsia. Armistício que, até aqui, ela não assinou. Minha convicção ideológica segue intacta: o Estado não deveria fazer do Registro de Imóveis balcão de cobrança e impedir o livre intercâmbio de bens e direitos. O Fisco dispõe de meios eficazes para fazer valer seus interesses com poderosos instrumentos previstos na lei. Entretanto, convicção não é escudo, e o registrador não pode pagar, com o próprio patrimônio, o preço de uma tese que os tribunais ainda não abraçaram - nem do armistício que a Receita ainda não assinou. Cabe-nos, por ora, o que sempre coube ao ofício: técnica, documentação e vigilância - e os olhos postos na 1ª turma do TRF da 3ª Região. _____ 1. STF, ADC 12/DF, Rel. Min. Ayres Britto, Pleno, j. 20/08/2008, DJe 18/12/2009. As passagens transcritas constam da ementa da medida cautelar (deferida em 16/02/2006), incorporada ao mérito pelo relator, que declarou nada ter "a acrescentar à fundamentação" da cautelar. Decisão dotada de efeito vinculante (Lei 9.868/1999). 2. Voto do Min. Marco Aurélio no mérito da ADC 12. 3. Voto do Min. Menezes Direito, id. 4. STF, ADC 12-MC/DF, Rel. Min. Ayres Britto, Pleno, j. 16/02/2006, ementa transcrita no voto condutor do mérito (ADC 12/DF, j. 20/08/2008, DJe 18/12/2009). O primeiro trecho foi reproduzido, com redação abreviada ("as mesmas já impostas"), no item 1 da ementa do acórdão de mérito. 5. STF, ADI 3.367/DF, Rel. Min. Cezar Peluso, Pleno, j. 13/04/2005, DJ 17/03/2006. Disponível em: http://kollsys.org/xmk. O caráter não jurisdicional é expresso no voto condutor ("o Conselho não julga causa alguma", fl. 226; atos "sempre de natureza administrativa", fl. 227). A exclusão da função legislativa decorre da natureza exclusivamente administrativa do órgão e da qualificação, pelo relator, do poder do art. 103-B, § 4º, I, como regulamentar-executivo, adstrito ao "âmbito de sua competência" (fl. 249) - qualificação posteriormente matizada pela ADC 12/DF, que reconheceu às resoluções do Plenário caráter normativo primário. 6. STF, ADI 4.145/DF, Rel. Min. Edson Fachin, Red. p/ acórdão Min. Alexandre de Moraes, Pleno, j. 26/04/2018 (maioria; declarada a inconstitucionalidade do art. 13, § 1º, da resolução CNJ 59/2008; vencidos o relator e outros três, pela improcedência; vencido em menor extensão o redator, que fulminava também o art. 14, caput, e, em maior extensão, o Min. Marco Aurélio, pela procedência integral). 7. Voto do Min. Edson Fachin (relator originário), p. 9 do inteiro teor da ADI 4.145/DF, cit. É da lavra do relator originário, Min. Edson Fachin (vencido quanto à conclusão) a formulação particularmente precisa de que "é possível ao Conselho regular a rotina cartorária, desde que isso não implique estender, para além da reserva legal, as hipóteses legalmente autorizadas". 8. Petição 4.656/PB, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Pleno, j. 19/12/2016, unânime no mérito. Da ementa: "Insere-se entre as competências constitucionalmente atribuídas ao Conselho Nacional de Justiça a possibilidade de afastar, por inconstitucionalidade, a aplicação de lei aproveitada como base de ato administrativo objeto de controle, determinando aos órgãos submetidos a seu espaço de influência a observância desse entendimento, por ato expresso e formal tomado pela maioria absoluta dos membros do Conselho". 9. GERMANO, José Luiz; GONÇALVES, Thomas Nosch; INÁCIO, Rodolfo Aurélio. A Fazenda respondeu: o inventário sem o prévio pagamento do ITCMD está autorizado? Portal IBDFAM, 3 set. 2026. Disponível aqui.  10. DIP, Ricardo. A natureza e os limites das normas judiciárias do serviço extrajudicial. São Paulo: Quartier Latin, 2013, p. 51-52. Cf. paráfrase no extrato do voto divergente do Des. Artur Marques da Silva Filho na Ap. Civ. 3005788-66.2013.8.26.0590, São Vicente, j. 28/4/2015, DJ 16/6/2015, Rel. Des. Elliot Akel. Disponível aqui. 11. DIP, Ricardo. Registro de imóveis (princípios). Descalvado: Primvs, 2017. (Série Registros sobre Registros, t. I). Itens 65-68, p. 58-61. 12. DIP, Ricardo. Sobre a dispensa do ITCMD no inventário e na partilha extrajudiciais. Publicações INR - Informativo Notarial e Registral, n. 3.196, 26 ago. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 26 ago. 2026. 13. Ap. Civ. 1006635-58.2023.8.26.0071, Bauru, j. 27/2/2025, DJe 13/3/2025, Rel. Des. Francisco Loureiro. Disponível aqui. 14. PCA 0001566-37.2025.2.00.0000; liminar do Cons. Pablo Coutinho Barreto; mérito julgado procedente em 30/6/2026, Rel. Cons. Silvio Amorim. Vide disponível aqui. 15. Recurso Administrativo 1001802-19.2024.8.26.0311, Junqueirópolis, Parecer 172/2026-E, aprovado em 4/5/2026, DJe 11/5/2026. Disponível aqui. 16. Processo CG 2026/68282 [sic. 2026/59.282?], parecer aprovado em 24/8/2026 pela Des.ª Silvia Rocha. Disponível aqui. 17. Provimento CG nº 17/2026, Corregedora Geral Des.ª Silvia Rocha, DJe 24/8/2026. Disponível aqui. 18. Ap. Civ. 0015621-88.2011.8.26.0604, Sumaré, j. 22/1/2013, Rel. Des. Ricardo Dip. Disponível aqui. 19. Ap. Civ. 1003559-67.2022.8.26.0198, Franco da Rocha, j. 28/11/2023, DJe 28/11/2023, rel. Des. Fernando Antônio Torres Garcia. Disponível aqui. 20. DIP, Ricardo. Sobre a dispensa do ITCMD no inventário e na partilha extrajudiciais. Boletim Eletrônico INR, 2026. As advertências resumidas a seguir são paráfrase do referido comentário doutrinário. Registre-se que o binômio invocado por Ricardo Dip (responsabilidade do art. 134, VI, do CTN e dever de fiscalização do art. 289 da LRP), formando um complexo normativo (para fins de controle abstrato), foi reconhecido pelo próprio STF como estrutura incindível na ADI 7.086/DF (Rel. Min. Rosa Weber, Pleno, j. 21/6/2022, DJe 29/6/2022). Segundo o Plenário, os preceitos impugnados - o art. 289 da LRP, o art. 1º, § 2º, da Lei 7.433/1985 e o art. 30, XI, da Lei 8.935/1994 - "estão imbricados com a responsabilidade tributária dos notários e registradores", e, "evidenciada a simbiose normativa", a falta de impugnação do art. 134, VI, do CTN implicou ausência de impugnação de todo o complexo, não conhecida a ação. É certo que o precedente incide de modo lateral ao núcleo do nosso tema por não tanger especificamente os arts. 47 e 48 da Lei 8.212/1991. O sistema é orgânico e interdependente. Nesse sentido, a lição estrutural nos aproveita, pois, se nem em sede de controle abstrato se admite desmontar o complexo por partes, menos ainda o poderá a via administrativa, que exonera a responsabilidade deixando intactas as normas que a instituem.
Declaração de princípios Antes de qualquer outra consideração, faço de imediato uma declaração de princípios: sou frontalmente contrário, ideologicamente, às exigências cada vez mais gravosas do Estado na consumação de seus interesses. As políticas e exigências fiscais não deveriam impedir a prática dos atos de disposição e oneração de bens e direitos privados. Aliás, esta é a regra consagrada no art. 12 da LRP. Nenhuma exigência fiscal deveria obstar a apresentação de um título a registro, sua prenotação e consequente registro - que é o corolário lógico do sistema. Certo que o dispositivo deve ser conjugado com o art. 289 da mesma lei - e aqui calha uma enorme lacuna para digressões jurídicas suscitadas pelas recentes decisões dos tribunais e do CNJ, às quais vamos nos reportar abaixo. Estão em causa as draconianas consequências do art. 48 da lei 8.212/1991 - nulidade do ato, responsabilidade solidária dos oficiais do registro, além de multa. Do mesmo jaez é o art. 134, VI, do CTN. Ideologicamente, portanto, correta a orientação traçada pelo CNJ e pela CGJSP buscando base e conforto em precedentes do STF. Mas o problema deste artigo não é ideológico; é saber quem pode dizê-lo, por qual via, e com que eficácia - e o que sobra ao registrador enquanto as respostas não coincidem. O ponto de partida é um nó górdio jurídico O argumento mais sólido para a exigência da CND é o seguinte: os arts. 47, I, "b", e 48 da lei 8.212/91 acham-se formalmente em vigor e gozam de presunção de constitucionalidade. Cediço que não se declara a inconstitucionalidade em sede administrativa.1 Os dispositivos em tela jamais foram revogados ou expressamente declarados inconstitucionais com efeito vinculante. Houve a heroica tentativa, afinal infrutífera, de incluir na reforma da LRP a inexigibilidade da CND para a prática dos atos de registro. O dispositivo foi vetado pelo Executivo e o veto não caiu no Congresso.2 Pretendeu-se a revogação da alínea "b" do inciso I e do inciso II do caput do art. 47 da lei 8.212/1991. As razões de veto foram as seguintes: "Contudo, em que pese a boa intenção do legislador, a proposição legislativa contraria o interesse público ao dispensar a comprovação de regularidade fiscal para o exercício de determinadas atividades pelos contribuintes, o que reduz as garantias atribuídas ao crédito tributário, nos termos do art. 205 da lei 5.172, de 25 de outubro de 1966 - Código Tributário Nacional. Ressalta-se que o controle da regularidade fiscal dos contribuintes, por um lado, exerce indiretamente cobrança sobre o devedor pela imposição de ressalva à realização de diversos negócios e, por outro lado, procura prevenir a realização de negócios ineficazes entre devedor e terceiro que comprometam o patrimônio sujeito à satisfação do crédito fazendário." Logo após o veto, adveio a IN RFB 2.110/22 (arts. 258 e 262) que reforçou a exigência da CND e ainda agravou as consequências, consagrando na instrução a responsabilização pessoal do titular do serviço notarial e de registro que deixar de exigi-la, com lavratura de auto de infração em seu nome: "Art. 258. O titular de serviço notarial e de registro é pessoalmente responsável pela infração a obrigação acessória prevista na legislação previdenciária, em nome do qual será lavrado o documento de constituição do crédito tributário, por meio de sua matrícula CEI ou CAEPF atribuída ou não de ofício. (lei 8.212, de 1991, art. 48, § 3º, e art. 68, § 5º; e Regulamento da Previdência Social, de 1999, art. 228, § 6º). (...) Art. 262. As infrações isoladas, por ocorrência, poderão integrar, para economia processual, um único Auto de Infração ou uma única Notificação de Lançamento. § 1º Para fins do disposto neste artigo, configura-se uma ocorrência: (...) III - Cada certidão negativa de débitos não exigida, nos casos previstos em lei; IV - Cada obra de construção civil não matriculada no prazo estabelecido em lei;". Os sempre lembrados precedentes do STF (ADIn 173 e 394) declararam inconstitucional o art. 1º da lei 7.711/88, por configurar sanção política (art. 170, parágrafo único, CF/88). Entretanto, o objeto era evidentemente outra lei e não, especificamente, a lei 8.212/1991 e seus arts. 47 e 48, que não foram apreciados nem atingidos pelo dispositivo dos acórdãos. O próprio STF, no RE 769.0593, consignou expressamente que o art. 47 da lei 8.212/1991 não fora objeto dos debates e decisões proferidos nas ADIn 173 e 394. Certo que não é um precedente vinculante (sem repercussão geral), mas é manifestação do próprio STF que aparentemente contraria a tese de extensão automática. Vamos a ele. A exegese do RE 769.059: O que o STF disse (e o que silenciou) O inteiro teor do AgR RE 769.059/SC (votação unânime) merece leitura atenta, porque o precedente é amiúde citado, mas pouco meditado e refletido. Rigorosamente, não se trata de um julgamento de mérito sobre a constitucionalidade do art. 47 da lei 8.212/91. Trata-se de decisão de inadmissibilidade, in casu, do recurso extraordinário. A alegada ofensa à Constituição, acaso existisse, seria meramente indireta ou reflexa, pois dependeria do prévio exame da legislação infraconstitucional (CTN, lei 8.212/1991 e decreto 3.048/1999). Incide, na espécie, a súmula 636 do STF.4 É bom que se diga que tampouco o STF "chancelou" a constitucionalidade dos arts. 47 e 48, mas apenas se recusou a examinar a tese. Todavia, ao decidir como decidiu, o Supremo afirmou, expressa e categoricamente, que o art. 47 da lei 8.212/1991 não foi objeto das ADIn 173 e 394, o que acaba por desarmar a premissa da extensão automática dos efeitos vinculantes. Em suma, o STF recusou-se a examinar o mérito constitucional da exigência, por entender que, na configuração daquele recurso, eventual ofensa à Constituição seria indireta ou reflexa, pois a solução dependeria do prévio exame da legislação infraconstitucional. Permaneceram, portanto, incólumes tanto a decisão de origem quanto a presunção de constitucionalidade do art. 47.5 Destaco os trechos mais significativos do acórdão. O primeiro é o parágrafo decisivo do voto da ministra Cármen Lúcia: "O art. 47 da lei 8.212/1991 não foi objeto dos debates e decisões proferidos nas ADIn 173 e 394 por este STF e, como afirmado na decisão agravada, decidir de forma contrária das instâncias originárias quanto à legitimidade da exigência de apresentação de certidões negativas conjunta e previdenciária para averbação de obra no cartório de registro de imóveis demandaria a prévia análise da legislação infraconstitucional (lei 8.212/1991). Eventual ofensa constitucional, se tivesse ocorrido, seria indireta." A fundamentação substantiva do tribunal de origem, reproduzida pelo STF sem qualquer censura, é a que oferece a justificativa da exigência, em diálogo direto com a missão registral de promoção e tutela da segurança jurídica: "O art. 47, I, 'b', da lei 8.212, da mesma forma, não viola o livre exercício da atividade econômica, pois a alienação do ativo imobilizado é operação extraordinária da empresa e há exceção prevista no art. 257, § 8º, do decreto 3.048/99, para as empresas cujo objeto social é a alienação de imóveis. A norma em comento visa, apenas, a garantir a segurança jurídica do adquirente de boa-fé, já que, na forma do artigo 185 do CTN, presume-se fraudulenta a alienação de imóvel por devedor com débito inscrito em dívida ativa." Este ponto é especialmente relevante, tendo em vista as recentes decisões do STJ que reputam ineficazes as alienações ou onerações de bens imóveis em que haja a inscrição do crédito fazendário em dívida ativa. Ou seja, presume-se absolutamente fraudulenta a alienação ou oneração de bem imóvel, mesmo nas hipóteses de inexistência de qualquer inscrição preventiva na matrícula.6 Destaque-se, ainda, a referência colhida no voto ao incidente de arguição de inconstitucionalidade julgado pela Corte Especial do TRF da 4ª Região: "A matéria não merece maiores digressões, porquanto a Corte Especial deste TRF, ao apreciar o incidente de arguição de inconstitucionalidade 0001351-51.2009.404.7208, entendeu legítimas as exigências constantes do art. 47 da lei 8.212/1991, diferenciando-as daquelas constantes da lei 7.711/1988 (apreciadas pelo STF  nos autos da ADIn 394)." Há o precedente paralelo da 1ª turma do STF7, cuja ementa é clara e vale lembrar: "Agravo regimental no agravo de instrumento. Tributário. Art. 47, II, § 1º, da lei 8.212/91. Averbação de obra de construção civil no registro de imóveis. Exigência de certidão negativa de débito - CND. Proteção ao direito do futuro adquirente. Ofensa indireta. Matéria infraconstitucional." Visto desta perspectiva, a exigência da CND, ao final e ao cabo, não seria uma sanção política, mas singela proteção ao direito do futuro adquirente. Afinal, a matéria é infraconstitucional? Aqui chegamos a um ponto que me parece decisivo e, curiosamente, pouco explorado no debate instalado. Se o STF, por ambas as turmas, qualifica a controvérsia como matéria infraconstitucional, recusando-lhe a via extraordinária, então a palavra sobre o alcance e a aplicação dos arts. 47 e 48 pertenceria, por design constitucional (art. 105, III, da CF/88), ao STJ. Contudo, esta conclusão há de ser temperada, como se verá adiante; por ora, convém conduzi-la às consequências que o conjunto parece indicar. No REsp 800.685/BA, em execução fiscal o STJ deu provimento ao recurso da Fazenda e assentou: "1. O contratante que não exige a CND do contratado torna-se solidariamente responsável para com o mesmo face o cumprimento das obrigações tributárias inerentes à seguridade social (arts. 47 e 48 da lei 8.212/91). (Precedente: REsp 819.023/BA, relator ministro Luiz Fux, DJ 1/10/07) 2. Incide, de fato, o disposto no art. 48 da lei 8.212/91 (...). 3. Recurso especial provido."8 O precedente, tomado isoladamente, poderia ser depreciado como mera "aplicação" da norma, sem enfrentamento da tese constitucional - que, de resto, o STJ não teria mesmo competência para julgar. Mas é justamente o cotejo com o RE 769.059 que o valoriza. O STF diz: a questão é matéria de lei federal; o STJ aplica os dispositivos, reconhece a responsabilidade solidária de quem pratica o ato sem a CND e o faz em acórdão com precedente anterior no mesmo sentido (REsp 819.023/BA, relator ministro Luiz Fux). Nota bene: o STJ reconheceu a responsabilidade do contratante que não exigiu a CND do contratado com base no art. 48 da lei 8.212/1991, dispositivo que torna igualmente solidário responsável o oficial do registro, sendo eventual ato de registro reputado nulo para todos os efeitos. Não há, na jurisprudência do STJ, declaração frontal de invalidade dos arts. 47 e 48. Há, na verdade, reconhecimento reiterado de sua vigência. Para quem sustenta a inexigibilidade, o silêncio das cortes superiores é revelador: nem o STF declarou a inconstitucionalidade, nem o STJ a ilegalidade. Cada qual, no limite de suas competências, apontou para a subsistência da norma. Afinando o argumento É preciso, contudo, temperar a conclusão. A qualificação da ofensa como reflexa, no RE 769.059 e no AI 802.877, é um juízo sobre aqueles recursos e sua fundamentação - construídos sobre o princípio da legalidade e dependentes do reexame da moldura infraconstitucional (súmula 636) -, e não uma remessa definitiva da matéria ao STJ. No ARE 914.045-RG/MG, reconheceu-se a repercussão geral e reafirmou-se a jurisprudência precisamente quanto à inconstitucionalidade das restrições impostas pelo Estado ao livre exercício de atividade econômica como meio de cobrança de tributos.9 Vale dizer: a vedação das sanções políticas é, de fato, questão constitucional, e um recurso extraordinário bem construído sobre os arts. 47 e 48 (em articulação com o art. 170, parágrafo único) pode perfeitamente alcançar uma decisão de mérito no STF - o que não ocorreu até os dias que correm. O que se pode afirmar com segurança é proposição mais modesta, e nem por isso menos útil ao registrador: enquanto o Supremo não for provocado por via idônea, a presunção de constitucionalidade dos dispositivos subsiste intacta; e o STJ, no plano que lhe é próprio, nada fez senão reconhecer-lhes vigência e aplicá-los. Tradição paulista e o caso ANOREG-SP No Estado de São Paulo, o lúcido registro do Des. Ricardo Dip, colhido no acórdão da relatoria do desembargador Pereira Calças, há anos nos advertia que a inconstitucionalidade da lei 7.711/1988, declarada pelo STF nas ditas ADIn 173-6 e 394-1 "não alcança o art. 47 da vigente lei de Organização da Seguridade Social: é que os motivos determinantes das declarações de inconstitucionalidade - essa a doutrina corrente do Pretório Excelso - não transcendem para casos símiles (Rcl 7.956-AgR, j. 19.9.2013; Rcl 11.478-AgR, j. 5.6.2012)".10 Ainda recentemente o mesmo jurista voltou ao tema, em comentário doutrinário à recentíssima decisão do CNJ sobre o ITCMD nos inventários extrajudiciais - advertência sobre a qual me detenho adiante, porque ilumina o nó desta controvérsia. Por outro lado, o Mandado de Segurança Coletivo 5019824-62.2023.4.03.6100 (9ª vara Cível Federal de São Paulo)11, impetrado pela ANOREG-SP contra o Superintendente da 8ª Região Fiscal, é hoje o palco da controvérsia e índice da hesitação jurisprudencial. A liminar de 21/7/23 acolhia a tese da identidade material e teleológica entre o art. 47, I, "b", e a norma fulminada na ADIn 394, determinando a abstenção da exigência da CND por parte dos cartórios. A União agravou (AI 5031693-86.2023.4.03.0000) e o desembargador federal Renato Becho suspendeu a liminar em 1º/12/23. Em 29/2/24, a 1ª turma do TRF da 3ª Região, por unanimidade, deu provimento ao agravo "para que a agravada mantenha a continuidade do cumprimento das exigências contidas nos arts. 47 e 48 da lei 8.212/91". A ementa do acórdão condensa as teses: a distinção entre certidão de quitação e certidão de regularidade fiscal12; o atendimento da exigência por CND ou por CPEN (débitos garantidos ou com exigibilidade suspensa, arts. 205, 206 e 151 do CTN), o que afasta a identidade com a ADIn 394; o dever do delegatário, como representante do Estado, dotado de fé pública (art. 236 da CF/88), de cumprir a norma legal; a impossibilidade de descumprir normas válidas "sob o pretexto de que se 'assemelham' a outras normas declaradas inconstitucionais"; e a advertência de que, "até que seja declarada expressamente a inconstitucionalidade das disposições dos arts. 47 e 48 da lei 8.212/91, não é facultado a qualquer pessoa deixar de cumpri-la por reputá-la inconstitucional e menos ainda aos delegatários do serviço público, na condição de representantes do Estado".13 Sobreveio, então, a sentença de 16/7/24 (de lavra da juíza federal Cristiane Farias Rodrigues dos Santos), que enfrentou diretamente a distinção do tribunal e decidiu: "vislumbro que certidão de quitação e certidão de regularidade possuem, essencialmente, o mesmo efeito restritivo". A sentença agregou fundamentos novos e de melhor quilate técnico: a obrigação do art. 47 é imposta à empresa transmitente e não pode ser transferida a terceiros; o fato gerador da contribuição previdenciária (a prestação de serviço) nada tem com a transmissão imobiliária - diversamente do ITBI e do ITCMD, cujo aspecto temporal coincide com a própria transmissão; e impedir a transmissão pela falta de comprovação de regularidade confere "efeitos jurisdicionais à Administração". Concedeu a segurança, reconhecendo a inconstitucionalidade incidental do art. 47, I, "b".14 A vitória da associação, contudo, durou o que duram as vitórias sujeitas a recurso. A União apelou e, em 22/7/25, o mesmo desembargador federal Renato Becho, agora relator do pedido de efeito suspensivo à apelação15, suspendeu a eficácia da sentença, reiterando ponto por ponto a fundamentação do acórdão de 2024 - a distinção entre quitação e regularidade, a satisfação da exigência pela CPEN e, sobretudo, o dever do delegatário de cumprir a lei vigente enquanto não declarada sua inconstitucionalidade. A apelação foi pautada na 1ª  turma para 1º/9/26; ao fechamento deste texto, o resultado não fora publicado. No plano jurisdicional, portanto, prevalece hoje a exigibilidade. A distinção do acórdão, longe de ser filigrana, tem lastro na jurisprudência posterior do próprio STF. Na ADIn 5.135, ao julgar constitucional o protesto das certidões de dívida ativa, o Supremo assentou que a vedação das sanções políticas não interdita todo meio indireto de cobrança, mas somente aquele que restrinja de forma desproporcional direitos fundamentais do contribuinte. A tese conclusiva acha-se assim redigida: "O protesto das Certidões de Dívida Ativa constitui mecanismo constitucional e legítimo, por não restringir de forma desproporcional quaisquer direitos fundamentais garantidos aos contribuintes e, assim, não constituir sanção política".16 Note-se que a r. sentença não enfrentou o critério da proporcionalidade fixado na ADIn 5.135, pois, ao equiparar quitação e regularidade pelo "efeito restritivo", tratou como idênticas figuras que o próprio STF distingue. Transportado esse critério para a hipótese que nos ocupa, pode-se sustentar que a restrição contornável pela CPEN não é absoluta nem, só por isso, desproporcional. Tudo seria uma questão de perspectiva: para a magistrada, a obrigação do art. 47 é imposta à empresa transmitente e não pode ser transferida a terceiros; invertam-se os termos e temos que a CND representa simplesmente proteção do terceiro adquirente. Em suma: o que a tradição do STF veda é o estrangulamento da fonte produtiva, não o condicionamento pontual, contornável e dotado de válvulas de escape. Nesse sentido, o art. 47, I, "b", da lei 8.212/1991 não inviabiliza a atividade da empresa, pois incide sobre operação extraordinária que é a alienação do ativo imobilizado. Contém em si a alternativa menos gravosa, pois se satisfaz com a CPEN, que preserva o direito de discutir o débito, suspendê-lo, garanti-lo ou parcelá-lo sem ficar interditado (arts. 151 e 206 do CTN). Além disso, não subtrai ao alienante o devido processo, pois a controvérsia fiscal, uma vez instaurada com suspensão da exigibilidade, destrava o ato perseguido. A exigência só alcançaria, a rigor, o devedor inerte que não paga, não garante e não discute. Eis o solo constitucional sobre o qual o TRF da 3ª Região edificou a distinção entre a quitação da lei 7.711/1988 e a regularidade da lei 8.212/1991. A trajetória do CNJ: Da interpretação extensiva ao poder normativo Do outro lado do rio corre a jurisprudência administrativa, em sentido diverso - e sua história é abaixo sumariada em ordem cronológica. A série principia, em 2017, com interpretação extensiva do julgado do STF. No leading case desta matéria (PP 0001230-82.2015.2.00.0000, julgado em 201717), o CNJ assentou que notários e registradores não precisam exigir a CND, ao argumento de que, "se o Supremo extirpou do ordenamento jurídico norma mais abrangente (...), não há sentido em se fazer exigência com base em normas de menor abrangência, como a prevista no art. 47, I, 'b', da lei 8.212/91". Quatro anos depois, porém, em junho de 2021, a Corregedoria Nacional recusou-se a generalizar o entendimento para as corregedorias estaduais que mantinham a exigência: no PP 0002641-87.2020.2.00.000018, a ministra Maria Thereza de Assis Moura invocou o art. 4º, § 3º, do regimento interno do próprio CNJ, que condiciona o afastamento administrativo da norma à existência de precedente específico do STF e à deliberação por maioria absoluta. A ministra qualificou o leading case como precedente de "escopo bastante estreito". Ainda em 2021, o entendimento ganha impulso. No recurso administrativo interposto no próprio leading case, a mesma Corregedora Nacional qualificou a dispensa como "desdobramento lógico e consequencial" do decidido pelo STF nas ADIn 173 e 394 - teoria da eficácia que dispensa a declaração formal de inconstitucionalidade e o embaraço regimental. No PP 0004771-50.2020.2.00.000019, versando a averbação de obra (art. 47, II, e art. 48, § 3º), deu-se outro passo além: os dispositivos "devem ser considerados inconstitucionais", com invocação expressa da transcendência dos motivos determinantes e apoio doutrinário em Gilmar Mendes - precisamente a técnica que o STF recusa como fundamento de reclamação (Rcl 7.956-AgR; Rcl 11.478-AgR, citados por Ricardo Dip). Rejeitou-se no PP a distinção entre quitação e regularidade que o TRF3 acolheria em 2024. Seguiram-se as ordens diretas contra as corregedorias resistentes: o PCA 0010545-61.2020.2.00.0000 (2022), contra normas do Paraná20; e, sobretudo, o PCA 0001611-12.2023.2.00.000021, com liminar ratificada em 2023 e mérito julgado em 2025, veiculando um comando triplo - proibição de exigência de CND e CPEN, ordem de orientação a todas as serventias e nulidade das normas locais contrárias -, acompanhado de tese com pretensão nacional e da consagração da chamada certidão informativa. Assim, mesmo as certidões positivas podem ser exigidas a título informativo, para transparência, segurança e ciência do particular. Não deixa de ser digno de nota que a norma paranaense anulada invocava, em seu abono, o modelo paulista então vigente. Dois registros do voto-vogal do ministro Mauro Campbell Marques merecem moldura: a responsabilidade do art. 48 "deixa de recair sobre os delegatários" - garantia correicional cuja eficácia perante a Receita examinaremos adiante -, e a admissão, rara em decisões do gênero, de que a dispensa produz "diminuição da segurança jurídica". Na sequência vieram o PCA 0002806-61.2025.2.00.000022 (revalidação de incorporação imobiliária, com a nota curiosa de a relatora haver revisto voto inicial que remetia a matéria à via da dúvida); o PCA 0004034-71.2025.2.00.000023, julgado em 19/12/25. Neste último surgiu a formulação mais ambiciosa de toda a série: embora as ADIn tratassem da lei 7.711/88, "a ratio decidendi ali estabelecida irradia seus efeitos para todo o ordenamento jurídico, alcançando dispositivos de teor semelhante". Afastou-se a tese, sustentada pela Corregedoria alagoana, de que a dispensa da CND exigiria declaração do STF. A consulta 0008053-23.2025.2.00.0000 declarou ilegal a exigência de CND e CPEN para o inventário extrajudicial e afastou a responsabilidade do tabelião (art. 134, VI, do CTN; art. 48 da lei 8.212/91), observado o dever de orientação e informação às partes e a consignação da situação fiscal no ato, na linha do PCA 1611.24 Por fim, no PP 0008622-24.2025.2.00.000025, julgado em agosto de 2026, o Plenário do CNJ não se limitou a decidir o caso concreto: editou resolução alterando a resolução 35/07 para assentar ser indevida a exigência do prévio recolhimento do ITCMD como condição para a lavratura de inventário e partilha extrajudiciais. O órgão passaria a exercer abertamente o poder normativo sobre matéria conexa. A pergunta que essa trajetória impõe - e que constitui, a meu ver, o verdadeiro núcleo do debate atual - é a seguinte: podem as deliberações do Plenário do CNJ alterar a disciplina legal da matéria, a pretexto de constituírem atos normativos primários, como reconhecido pelo STF a partir da EC 45/04? A resposta pede fôlego próprio, e não cabe num parágrafo. Fica, por ora, o retrato: a lei vige, os tribunais a aplicam, e o CNJ a afasta. O registrador, posto na "terceira margem do rio", é quem paga a travessia. Na segunda parte deste artigo, vamos aprofundar a questão e daí tirar algumas conclusões precárias que devem servir à reflexão dos operadores do Direito. (Continua na parte 2) _____ 1. Entre inúmeros precedentes, citem-se: Ap. Civ. 1005633-97.2025.8.26.0066, Barretos, j. 7/10/2025, DJ 17/10/2025, Rel. designado Des. Fernando Antônio Torres Garcia. Disponível aqui. Ap. Civ. 1124381-98.2016.8.26.0100, São Paulo, j. 1/9/2017, DJe 23/1/2018, Rel. Des. Manoel de Queiroz Pereira Calças. Disponível aqui. O aresto mais recente é a Ap. Civ. 1001586-41.2026.8.26.0100, São Paulo, j. 20/7/2026, DJe 23/7/2026, Rel. Des. Silvia Rocha. Neste acórdão há citação de doutrina e precedentes. Disponível aqui. 2. Mensagem de veto nº 329, de 27 de junho de 2022, aposta ao Projeto de lei de Conversão nº 13/2022 (MP nº 1.085/2021), convertido na lei 14.382/2022 (marco legal do SERP). O veto a esse item foi mantido pelo Congresso Nacional. Registre-se, porém, que outros vetos da mesma lei foram derrubados, entre eles o aposto ao art. 216-B, § 2º, da LRP, que veda a exigência de certidão de regularidade fiscal na adjudicação compulsória extrajudicial (promulgação no DOU de 5/1/2023). 3. AgR RE 769.059/SC, j. 3/12/2013, DJ 10/12/2013, Rel. Min. Cármen Lúcia. Disponível aqui. 4.Súmula 636: "Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao princípio constitucional da legalidade, quando a sua verificação pressuponha rever a interpretação dada a normas infraconstitucionais pela decisão recorrida". 5. O TRF da 4ª Região, por sua Corte Especial e com observância da reserva de plenário (art. 97 da CF), havia julgado legítimas as exigências do art. 47, diferenciando-as das da lei 7.711/1988. 6. REsp 1.141.990/PR (Tema Repetitivo 290), j. 10/11/2010, DJe 17/11/2010, Rel. Min. Luiz Fux. Este é o leading case: a partir da alteração promovida pela LC 118/2005, o marco inicial para a caracterização da fraude à execução é a inscrição do crédito fazendário em dívida ativa, de modo que a simples alienação ou oneração de bens pelo devedor a partir de 9/6/2005 gera presunção absoluta de fraude. A Súmula 375/STJ (que exige registro da penhora ou prova de má-fé) não se aplica às execuções fiscais, sendo desnecessário o registro de penhora prévia e irrelevante a boa-fé do adquirente. 7. AI 802.877-AgR/SC, j. 6/9/2011, DJe 21/9/2011, Rel. Min. Luiz Fux. Disponível aqui. 8. REsp 800.685/BA, j. 15/10/2009, DJe 28/10/2009, Rel. Min. Mauro Campbell Marques. Disponível aqui. 9. ARE 914.045-RG/MG, Rel. Min. Edson Fachin, Pleno, j. 15/10/2015, DJe 19/11/2015 (Tema 856): "A inconstitucionalidade de restrições impostas pelo Estado ao livre exercício de atividade econômica ou profissional, quando aquelas forem utilizadas como meio de cobrança indireta de tributos". Disponível aqui. 10. Ap. Civ. 0001652-41.2015.8.26.0547, Santa Rita do Passa Quatro, j. 31/7/2017, DJe 10/10/2017, Rel. Des. Manoel de Queiroz Pereira Calças. Disponível aqui. 11. TRF 3 - MS: 5019824-62.2023.4.03.6100, São Paulo, j. 16/07/2024, Dra. Cristiane Farias Rodrigues dos Santos. Liminar concedida, embargos julgados e agravo. Vide dossiê disponível aqui. 12. A distinção revela acurácia da tese da União. A lei 7.711/88 exigia quitação, prova de pagamento, pura e simples, daí a CQ (Certidão de Quitação - § 3º do art. 1º). É o desenho arquetípico da coerção: o ato jurídico que se almeja acaba refém do crédito tributário. Já o art. 47 da lei 8.212/1991 se satisfaz com regularidade (pagar, parcelar, garantir, suspender, litigar com depósito ou liminar). O TRF3 apoiou-se exatamente nesse discrímen para negar a identidade de razão com a ADI 394. 13. Dossiê citado - Kollemata disponível aqui. 14. TRF 3 - MS: 5019824-62.2023.4.03.6100, São Paulo, j. 16/7/2024, dra. Cristiane Farias Rodrigues dos Santos. Disponível aqui. 15. Pedido de Efeito Suspensivo à Apelação nº 5006531-21.2025.4.03.0000, Rel. Des. Fed. Renato Becho, 1ª Turma, decisão de 22/7/2025. Disponível aqui. 16. ADI 5.135/DF, j. 9/11/2016, DJe 7/2/2018, Rel. Min. Roberto Barroso, Pleno. Disponível aqui. 17. PP 0001230-82.2015.2.00.0000, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 11/10/2017; recurso administrativo julgado pelo Plenário Virtual em 10/9/2021, Rel.ª Min.ª Maria Thereza de Assis Moura. Vide dossiê disponível aqui. 18. PP 0002641-87.2020.2.00.0000, decisão monocrática de 14/6/2021, Min.ª Maria Thereza de Assis Moura. Disponível aqui. 19. PP 0004771-50.2020.2.00.0000, decisão monocrática de 9/7/2020, Min. Humberto Martins; recurso administrativo julgado pelo Plenário Virtual em 10/9/2021, Rel.ª Min.ª Maria Thereza de Assis Moura. Disponível aqui. 20. PCA 0010545-61.2020.2.00.0000, Rel.ª Cons.ª Jane Granzoto, j. 29/4/2022, DJ 8/5/2022. Disponível aqui. 21. PCA 0001611-12.2023.2.00.0000, Rel. Cons. Marcello Terto; liminar ratificada em 18/8/2023 (DJ 24/8/2023); mérito julgado em 15/8/2025 (DJ 25/8/2025). Disponíveis aqui. 22. PCA 0002806-61.2025.2.00.0000, Rel.ª Cons.ª Renata Gil, 10ª Sessão Virtual, j. 15/8/2025, DJ 22/8/2025. Disponível aqui. 23. PCA 0004034-71.2025.2.00.0000, Rel.ª Cons.ª Daniela Madeira, 17ª Sessão Virtual, j. 19/12/2025. Disponível aqui. 24. Consulta 0008053-23.2025.2.00.0000, Rel.ª Cons.ª Jaceguara Dantas, j. 28/4/2026, DJ 28/4/2026. Disponível aqui. 25. PP 0008622-24.2025.2.00.0000, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, 12ª Sessão Ordinária, j. 18/8/2026, DJ 18/8/2026. Disponível aqui. Daqui resultou a Resolução CNJ 695/2026, que deu nova redação ao art. 15 da Resolução CNJ nº 35/2007. Disponível aqui.
Resumo O presente artigo analisa, a partir de um caso concreto, a inviabilidade jurídica da designada "renúncia à meação" na dissolução da união estável e no inventário, caracterizando-a como cessão gratuita sujeita à incidência tributária. Examina-se o entendimento consolidado pelo STJ no REsp 1.196.992/MS, bem como o papel dos tabelionatos na prevenção da violência patrimonial contra a mulher, em cumprimento das diretrizes do provimento 222/26 do CNJ. Por fim, apresentam-se estratégias eficientes de partilha de quotas sociais e bens para mitigar o condomínio indesejado e entraves fiscais. Palavras-chave: Renúncia à Meação. Sucessões. Provimento 222/26 do CNJ. STJ. Violência Patrimonial. 1. Introdução Advogado procura o Tabelionato e apresenta um acordo em dissolução de união estável. A união estável não tinha sido formalizada, mas o casal reconhecia a sua existência e já viviam juntos há mais de 10 anos. Não havia causa para a separação obrigatória, logo, o regime aplicável, na ausência de convenção sobre o regime de bens, é o da comunhão parcial. O companheiro já tinha uma pessoa jurídica antes do início do relacionamento. Durante o relacionamento, adquiriu onerosamente cotas da pessoa jurídica. O acordo apresentado consistia em renúncia pela mulher às cotas da mencionada pessoa jurídica, adquiridas onerosamente na constância da união estável, sendo que o advogado entendia pela desnecessidade de remessa à Secretaria do Estado da Fazenda para análise da incidência do ITCD, afirmando que sempre vinha fazendo esse tipo de acordo no Poder Judiciário. Essa situação envolve não apenas a responsabilidade do tabelião em fiscalizar o pagamento do imposto, mas também a questão da neutralidade desse profissional ao tratar das questões a ele apresentadas e ainda o novo provimento 222/CNJ, que veio exigir mais atenção para os casos em que a mulher é prejudicada em acordos. A dissolução de uniões estáveis e casamentos frequentemente coloca os advogados e os tabeliães perante a negociação de acordos em que há previsão de "renúncia" à meação. O primeiro problema reside no fato de que a denominada "renúncia à meação" não existe no Direito brasileiro. Diferentemente do direito sucessório, em que a renúncia à herança é expressamente prevista em lei, a meação integra o patrimônio próprio de uma pessoa viva. Assim, o ato de dispor da meação configura uma transmissão gratuita inter vivos, com reflexos diretos no plano tributário. O segundo problema é a necessidade de atuação do tabelião para que as partes conheçam os seus direitos e para que tomem decisões após devidamente orientadas. Essa exigência se aplica no tratamento a todas as pessoas que comparecem perante um tabelião, mas recentemente a prática notarial adquiriu uma nova dimensão protetiva da mulher com a edição do provimento 222/26 do CNJ, que impõe deveres acrescidos de cautela para prevenir e combater a violência patrimonial contra a mulher em atos de disposição de bens. O objetivo do presente artigo é analisar a natureza jurídica da cessão de meação à luz da jurisprudência do STJ, detalhar o cumprimento das garantias fixadas pelo provimento 222/26 do CNJ e propor alternativas práticas de partilha patrimonial. 2. A distinção entre meação e herança e a jurisprudência do STJ A confusão entre os institutos da herança e da meação é a origem de diversos equívocos em procedimentos judiciais e extrajudiciais. Enquanto a herança pressupõe o falecimento do autor e a consequente abertura da sucessão (causa mortis), a meação corresponde à metade dos bens comuns adquiridos na constância da união, já pertencente de pleno direito a cada um dos cônjuges ou companheiros por força do regime de bens. No julgamento do recurso especial 1.196.992/MS, relatado pela ministra Nancy Andrighi na terceira turma do STJ, fixou-se o entendimento de que a disposição da meação não se equipara à renúncia de direitos hereditários prevista no art. 1.806 do CC. Tratando-se de negócio jurídico inter vivos, a cessão gratuita da meação é tributada como doação, seja quando for feita em favor de cônjuge ou companheiro no divórcio ou dissolução de união estável, seja quando ocorrer em favor de herdeiros no inventário. Por consequência, impõem-se exigências formais e fiscais. A forma solene exigida é a escritura pública, nos atos que envolvam bem imóveis de valor superior a 30 salários mínimos, consoante o disposto no art. 108 do CC, não sendo admitida a sua efetivação por simples termo judicial nos autos do inventário ou da dissolução de união. Além disso, é obrigatória a submissão da partilha à Secretaria do Estado da Fazenda, para análise e apuração do ITCD - Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação. 3. O provimento 222/26 do CNJ e o combate à violência patrimonial contra a mulher Nos casos em que a cessão da meação decorre do fim do relacionamento, como na hipótese em que a mulher aceita "abrir mão" das cotas da pessoa jurídica do companheiro, as serventias extrajudiciais têm o dever de observar rigorosamente o provimento 222, de 24/4/26, do CNJ. A referida norma estabelece diretrizes para o enfrentamento da violência patrimonial e a proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade. Conforme o art. 2.º do provimento, constituem deveres do tabelião: a) O controle de legalidade e do estado civil das partes: exigir a declaração da existência ou inexistência de casamento ou união estável em atos que envolvam transmissão ou oneração de bens e garantir o comparecimento presencial ou virtual (e-notariado) dos eventuais cônjuges ou companheiros; b) Entrevistas reservadas e atendimento separado: realizar o atendimento em separado e a entrevista reservada sempre que forem identificados indícios de coação, assimetria de informações, pressa injustificada, apatia, surpresa com o conteúdo do ato ou alienação de bens em condições manifestamente desvantajosas; c) Acolhimento especializado: informar a mulher sobre a possibilidade de realizar o atendimento por formato virtual e assegurar que a acolhida seja efetuada preferencialmente por preposta do gênero feminino; d) Recusa do ato com óbice técnico genérico: persistindo dúvidas sobre a livre e consciente manifestação de vontade, o tabelião deve recusar a lavratura do ato fundamentando a recusa num óbice técnico genérico, sem expor a mulher para que não haja violência ou coação contra ela, devendo ser registrados de forma sigilosa nos arquivos do cartório os motivos reais pelos quais o ato não  foi praticado; e) Comunicação às autoridades: em situações de risco iminente ou ameaça, acionar imediatamente as autoridades policiais e orientar a vítima sobre a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180). Somente após o esclarecimento aprofundado, em ambiente reservado, confirmando-se que a mulher atua com plena consciência e isenta de coação, é que se pode dar seguimento ao ato notarial. 4. Alternativas práticas e planejamento tributário na partilha patrimonial Tendo em vista o caso concreto que inspirou a redação deste artigo, havendo a vontade de partilhar cotas sociais sem gerar situação de condomínio, mas evitando entraves burocráticos e prejuízo patrimonial para nenhuma das partes, a prática dispõe de soluções eficientes, dentre elas, a partilha compensatória de bens, quando são atribuídas, por exemplo, a totalidade das cotas sociais ao homem e a mulher recebe valores em espécie adquiridos na constância do relacionamento ou outros bens (como imóveis e veículos).Trata-se de partilha e não de compra e venda, já que todos os bens são comuns, o que mantém o quinhão equilibrado e afasta a incidência de ITCD. Outra solução, que tem uma vantagem sobre a primeira por afastar a demora na análise pela SEF de todo o patrimônio que existe na pessoa jurídica, é a partilha das cotas de forma equilibrada, seguida de compra e venda da participação societária. Nesse caso, são partilhadas as cotas na proporção de 50% para cada um e, em ato subsequente, podendo ser até mesmo no mesmo dia, o companheiro adquire as cotas atribuídas à mulher por compra e venda com recursos particulares, podendo ser acordado que esse pagamento será feito em prestações ao longo do período posterior ao encerramento do relacionamento. Esta operação afasta o ITCD (partilha equilibrada) e o ITBI (não incide sobre a aquisição de cotas societárias). Por fim, no caso de, mesmo após a apresentação das soluções, conversa em separado, esclarecimento das dúvidas e manifestação de vontade livre e consciente de ambas as partes, principalmente da mulher, seguindo, pois todo o protocolo exigido pelo CNJ no Provimento nº 222, as partes definirem que a solução para a dissolução de sua união é  que a mulher transfira a sua fração gratuitamente, deve-se proceder ao preenchimento da declaração de ITCD perante a Secretaria de Fazenda, pois se trata de cessão gratuita, que é tributada, sendo lavrada a respetiva escritura pública, com a cobrança dos emolumentos para ato com conteúdo financeiro. 5. Conclusão A tese da "renúncia à meação" não encontra amparo no ordenamento jurídico brasileiro. Trata-se de ato de disposição patrimonial inter vivos que configura doação, exigindo obrigatoriamente a lavratura de escritura pública e o recolhimento do respetivo imposto (ITCD), nos termos fixados pela terceira turma do STJ no REsp 1.196.992/MS. Além da adequação tributária e formal, a atuação notarial deve atuar como mecanismo efetivo de prevenção da violência patrimonial contra a mulher, observando com rigor o provimento 222/26 do CNJ. A utilização de mecanismos como a partilha compensatória ou a partilha seguida da compra e venda de cotas sociais apresenta-se como a via mais adequada para garantir segurança jurídica, economia fiscal e equilíbrio entre as partes. A fiscalização do recolhimento dos tributos é obrigação do tabelião, que deve exigir o pagamento do ITCD caso as partes, devidamente orientadas, optem por solução que envolva partilha desigual dos bens comuns. _____ BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Provimento nº 222, de 24 de abril de 2026. Dispõe sobre a adoção de medidas para a prevenção e o enfrentamento da violência patrimonial e de outras formas de violência contra a mulher. Brasília, DF: CNJ, 2026. BRASIL. STJ. Recurso Especial nº 1.196.992/MS (2010/0104911-6). Sucessões. Meação. Ato de disposição em favor dos herdeiros. Doação. Ato inter vivos. Forma. Escritura pública. Relatora: Min. Nancy Andrighi. Terceira Turma. Julgado em 06/08/2013. Publicado no DJe de 22/08/2013. 
Finalmente, nasceu a lei 15.509/26. Ela enfrenta um dos problemas mais comuns e sensíveis que presenciamos na nossa atuação como parecerista e professor. O novo diploma trata expressamente do prazo da prescrição da pretensão punitivo-disciplinar contra tabeliães e registradores, tema que era omisso na legislação. Fixa que o prazo é de cinco anos, contados da data do fato ou, no caso de infração permanente, da cessação da permanência. Introduz o novo parágrafo único do art. 34 da lei 8.935/1994, in verbis: Art. 34. (...) Parágrafo único. A ação para a aplicação das sanções previstas nesta lei prescreverá em cinco anos, contados a partir da ocorrência do fato ou, no caso de infrações permanentes, do dia em que tiver cessado a permanência. Com isso, a norma rejeita frontalmente a inclinação comum da Administração Pública em eternizar prazos de prescrição punitiva mediante a fixação do termo inicial na data de sua ciência (vertente subjetiva da teoria da actio nata). Afinal, não é razoável deflagrar pretensões administrativo-disciplinares com base em fatos antigos, a respeito dos quais a memória e as provas que o acusado detinha provavelmente já se perderam na escuridão do passado e do esquecimento. Isso contrariaria o princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa. O Congresso Nacional foi cristalino e intencional nesse ponto. Na fase de processo legislativo do projeto de lei que gerou a nova norma (o PL 3.453/24, do deputado Felipe Carreras), os parlamentares foram bem textuais! Voltaram-se contra a tese, até então predominante, que estabelecia a prescrição em cinco anos a partir da data da ciência, pela Administração, da infração. Essa tese - agora superada - estribava-se na aplicação analógica do § 1º do art. 142 da lei 8.112/19901, a qual, em caso de servidores públicos federais, estipula um quinquênio prescricional a partir da data da ciência (vertente subjetiva da teoria da actio nata). Assim, se a autoridade competente só vier a tomar ciência do fato décadas depois da sua ocorrência, a persecução administrativo-disciplinar poderia ser deflagrada. Isso impunha ao acusado o pesadíssimo ônus de exumar, da tumba do tempo, provas e memórias que pudessem ser úteis à sua defesa. Na prática, essa tese consagrava o que chamamos de tese da quase-imortalidade da pretensão administrativo-disciplinar. Na CCJ - Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal, o parecer, sob a relatoria senadora dra. Eudócia, foi cirúrgico em rejeitar essa tese da semi-imortalidade. Veja-se2 Os tribunais, para suprir a omissão, têm usado, por analogia, em alguns casos, o que dispõe o Estatuto dos servidores públicos federais, a lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990, que, em seu art. 142, fixa o prazo de cinco anos como máximo para a prescrição de ações disciplinares ou, em outros, os prazos previstos nos estatutos dos servidores do respectivo Estado. Essa  prática  tem  provocado  contestações  e  insegurança  jurídica, tanto que o CNJ, em decisão recente, tomada no dia 20 de maio de 2025, nos autos do pedido de providências 0006887-29.2020.2.00.0000, relator o conselheiro Mauro Campbell Marques, entendeu que cabe sempre se aplicar ao caso a citada lei 8.112, de 1990, uma vez que, conforme  informa  o  Informativo  de  jurisprudência 6,  de  2025,  daquele Colegiado, se as penalidades estão em lei federal, o vazio legislativo quanto ao prazo prescricional e o termo inicial deve ser preenchido por lei de igual origem. Assim, a presente proposição vem, correta e oportunamente, suprir a lacuna, ao encontro da decisão tomada pelo CNJ.A aprovação da matéria com certeza contribuirá para trazer maior segurança jurídica para a atividade cartorial, garantindo tanto o interesse público como os direitos daqueles que lá atuam. Igualmente, na CCJ - Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, o parecer, sob a relatoria da deputada Luísa Canziani, trilhou o mesmo caminho. Confira-se3: A lei 8.935, de 1994, regulamenta a atuação dos serviços notariais e registro, disciplina responsabilidades e estabelece mecanismos de fiscalização pelo Poder Judiciário. Especificamente, em seu art. 34 dispõe-se acerca da responsabilidade disciplinar dos notários e registradores. Então, por exercerem a atividade pública em caráter privado, assumem todos os riscos dela decorrentes. Respondem, portanto, nas esferas civil, criminal e administrativa pelos prejuízos que causarem a terceiros, ora decorrentes de sua atuação pessoal ou de ato imputável a preposto, nos termos dos arts. 22 e seguintes da lei 8.935/94 e desde que tenham agido com dolo ou culpa (responsabilidade subjetiva). Todavia, persiste uma lacuna normativa relevante: a ausência de previsão expressa quanto ao prazo prescricional aplicável às sanções disciplinares decorrentes de faltas funcionais. A ausência de um prazo prescricional aplicável ao processo administrativo disciplinar gera insegurança jurídica aos profissionais, que poderão ser responsabilizados a qualquer tempo, mesmo já tendo transcorrido um longo período entre o cometimento da falta e a instauração do processo disciplinar. Para suprir a lacuna, os magistrados e tribunais de justiça recorrem à analogia, aplicando prazos prescricionais definidos nas leis que regulam o regime jurídico dos servidores públicos, a exemplo da lei 8.112, de 1990. (...) Não se mostra razoável que situações jurídicas possam permanecer indefinidamente sujeitas à persecução disciplinar, sem delimitação temporal clara. A existência de prazos prescricionais é característica essencial dos sistemas jurídicos modernos, estando presente em diversos diplomas legais, como o CC, o CP e os estatutos disciplinares de agentes públicos. Além disso, o projeto também estabelece o marco inicial da contagem do prazo prescricional, fixando-o a partir da ocorrência do fato ou, no caso de infrações permanentes, do momento em que cessar a permanência. Tal definição mostra-se adequada e coerente com as características próprias da atividade notarial e registral, regida pelo princípio da publicidade, que assegura amplo acesso aos atos praticados e permite à Administração Judiciária exercer seu poder-dever fiscalizatório desde o momento da realização dos atos. Assim, ao estabelecer prazo prescricional claro e objetivo, o projeto contribui para fortalecer a segurança jurídica, evitar a eternização de conflitos administrativos, conferir previsibilidade às relações disciplinares e aprimorar o ambiente institucional da atividade notarial e registral. Não há, pois, qualquer espaço de manobra hermenêutica para forçar a fixação do termo inicial do prazo prescricional da pretensão punitivo-disciplinar contra tabeliães e registradores para a data da ciência do fato pela Administração (vertente subjetiva da teoria da actio nata). O legislador foi demasiadamente claro em escolher a vertente objetiva da teoria da actio nata, escolhendo a data do fato (e não da ciência dele) como termo inicial da prescrição. E o motivo é exatamente evitar a iniquidade de a Administração Pública - valendo-se de seus superpoderes - constranger delegatários a tentarem defender-se de fatos cujas provas já se dissolveram nas águas do tempo. Os agentes públicos incumbidos da persecução disciplinar nunca podem se esquecer da manifesta inferioridade de poderes do investigado e da brutalidade potencial da máquina estatal. E nem devem invocar eventual insuficiência de estrutura de pessoal ou eventual eficiência administrativa como justificativas para imortalizar a pretensão disciplinar. A Administração Pública é o Leviatã - para lembrar Thomas Hobbes! Possui uma estrutura mastodôntica de poder capaz de esmagar qualquer particular. E esse poder precisa de limites. Foram as conquistas históricas do constitucionalismo, com o desenvolvimento do Estado de Direito, que conseguiram colocar limites a esse colossal poder do Estado. A imposição de prazo prescricional para a pretensão punitiva é um dos filhos desse longo processo de sedimentação do Estado de Direito. Por isso, deve o intérprete resistir à tentação de, por meio de elastecimentos hermenêuticos, boicotar o que o legislador decidiu de modo tão consciente e alinhado aos pilares do Estado de Direito. Em outras palavras, o intérprete não pode, em manifesta usurpação do Poder Legislativo, ressuscitar a agora superada tese da vertente subjetiva da teoria da actio nata nesse tema, sob pena de, no lugar de fazer Justiça, promover Justiçamentos. _____ 1. Art. 142.  A ação disciplinar prescreverá: I - em 5 (cinco) anos, quanto às infrações puníveis com demissão, cassação de aposentadoria ou disponibilidade e destituição de cargo em comissão; II - em 2 (dois) anos, quanto à suspensão; III - em 180 (cento e oitenta) dias, quanto à advertência. § 1o  O prazo de prescrição começa a correr da data em que o fato se tornou conhecido. § 2o  Os prazos de prescrição previstos na lei penal aplicam-se às infrações disciplinares capituladas também como crime. § 3o  A abertura de sindicância ou a instauração de processo disciplinar interrompe a prescrição, até a decisão final proferida por autoridade competente. § 4o  Interrompido o curso da prescrição, o prazo começará a correr a partir do dia em que cessar a interrupção. 2. Disponível aqui. 3. Disponível aqui.
Durante séculos os notários atestavam, sob o manto da fé pública, os fatos propriis sensibus, visu et auditu e produziam, assim, um ato de representação da realidade - factual e jurídica. O notário via com os próprios olhos, ouvia com os próprios ouvidos e, por todos os seus órgãos de percepção, traduzia e revelava o mundo cognoscível em forma de ato autêntico. A confiança repousava numa pessoa natural; falível, é verdade, mas responsável, identificável, imputável. Apunha e depositava o signo pessoal na Chancelaria Real e jurava bem e verdadeiramente servir em seus ofícios. Segundo Corrêa Telles, as principais virtudes do tabelião consistem em ser verdadeiro, desinteressado, diligente e perito. Mais do que verdadeiros, eles devem "ter reputação de verdadeiros, porque eis que sejam uma vez apanhados em falsidade, ficam suspeitosas as escrituras que depois fizerem". No início do século X (c. 912), o Livro do Eparca de Leão VI, o Sábio, exigia que o notário apusesse ao ato, diante das partes e testemunhas, a fórmula requerida pela lei, para que as negociações fossem firmes e vinculantes, inatacáveis, e punia com açoite e tonsura o tabelião que descumprisse os ritos da formalidade e solenidade legais (Livro do Eparca. Cap. I, § 12). Hoje, pretende-se que a fidelidade seja garantida por um sensor digital. O Apple Reference Image, anunciado com o iPhone 18 Pro, inverte esse arranjo tradicional. O novo sensor da câmera assina criptograficamente os dados capturados no exato momento da tomada. Esses dados assinados são processados pelo Private Cloud Compute, que deles gera uma imagem de referência inalterável. Um "negativo" digital fica preservado ao lado da versão editável, permitindo confrontar aquilo que o sensor originalmente captou com a imagem posteriormente apresentada. Altere-se a imagem principal, e a discrepância com a referência se revela. É evidente que estamos tratando de artefatos digitais, não do velho, bom e fiável papel. O oráculo, agora, é eminentemente tecnológico. Não se trata de mera evolução de um smartphone. Trata-se de inteligente reação da própria big tech aos simulacros digitais que povoam as cidades erigidas sobre camadas de silício. Quem não se incomoda com as imagens sintéticas geradas pelas IAs que infestam o ecossistema digital? Vivemos uma inversão paradigmática: antes, uma foto era presumidamente real até que houvesse motivo suficiente para desconfiar. Mesmo as adulterações mais sofisticadas não resistiam a uma perícia competente; hoje, toda imagem é suspeita até que um sistema prove sua origem. Prove e autentique. A confiança na veracidade da imagem (aquele velho princípio que sustentava desde o álbum de família até a prova judicial) pode migrar do olhar humano para algoritmos criptográficos. E aqui mora o ponto incômodo e sensível de tudo isto: a presunção de autenticidade da representação passa a ser a prestação de um oráculo digital. A apropriação da expressão religiosa ("oráculo") pelo jargão tecnológico não é fortuita nesta espécie de hipermaterialização radical da sociedade. Antes, postava-se diante do oráculo de Delfos, cujo deus, no dizer de Heráclito, "não fala, nem oculta; dá sinais" e insinuava-se a súplica (no sentido antigo de fazê-la entrar no seio do sagrado) para que o deus revelasse, pela boca da Pítia, ou pelos olhos cegos de um Tirésias, o que aos olhos profanos se ocultava. A fé criptográfica que agora se insinua entre nós, recurso do ecossistema digital, encontra-se açambarcada nos labirintos de silício de uma única empresa. E isto é assustador: abrimos uma fenda no real e divisamos um cenário multiversal, decalcado da realidade, guarnecido com ares de autenticidade. O simulacro digital indicado por Jean Baudrillard. Em Simulacros e Simulação (trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d'Água, 1991), Baudrillard descreve as fases sucessivas da imagem: ela começa por refletir uma realidade profunda; depois a mascara e deforma; em seguida, mascara a ausência de realidade; por fim, já não guarda relação com realidade alguma; é seu simulacro puro. A simulação, então, precede e engendra o real: o mapa precede o território, na sua famosa formulação. Estamos nos domínios do hiper-real, o abismo diante do qual nos encontramos. O selo criptográfico da Apple é a tentativa de reintroduzir, à força de algoritmos, a distinção entre o real e seu duplo, ou seja: busca restaurar o privilégio de nos revelar o "original" numa dimensão que somente o pressupõe. Multiplicam-se os signos do real e o Reference Image talvez seja isso: não o retorno do real, mas a firma reconhecida de sua falta. Ao assimilar tecnologicamente tanto parcelas do contexto do usuário (via Siri Recap) quanto a certificação da proveniência da imagem capturada (via Reference Image), a Apple se candidata ao posto de "cartório digital" ao nos entregar o filtro que faz a portagem entre o mundo real e os domínios do digital. A máquina percebe o contexto pelo que "ouve" e "vê" e ainda pelo processamento de padrões estatísticos e combinatórios para nos dar o certificado de "realidade". O tabelião traduzia (em sua ordem) a realidade sob fé pública e respondia por seus erros. O sensor certifica sob a fria (e desumana) fé privada algoritmizada. Pergunta-se: a quem responsabilizar por eventual erro ou pelo defeito da multiplicação labiríntica da realidade? Supondo que o original migre da máquina: como autenticar sem o iPhone de permeio? O aparato se eleva à condição de intermedium. A resposta técnica só agrava o problema: a verificabilidade continua dependente de uma arquitetura cuja constituição, evolução e governança são controladas pela Apple. O Private Cloud Compute é o Central Scrutinizer de Frank Zappa retratado em Joe's Garage: a voz que tudo intermedia e faz cumprir leis que ninguém votou. O aparato criou o Central Cybernotary? A sátira tem lastro doutrinário: é o code is law de Lawrence Lessig. No ciberespaço, a arquitetura regula como a lei regula, e o código é um legislador que não se elege, não publica exposição de motivos e não se sujeita a contraditório e ao debate parlamentar. O padrão de autenticidade da Apple é isso: regulamento privado promulgado em Cupertino, vigente e eficaz sem jamais ter sido votado ou sequer previamente conhecido. Não há autenticação desse gênero sem a arquitetura da Apple como pressuposto, nem hoje, nem daqui a trinta anos, quando alguém precisar provar em juízo a genuinidade de uma fotografia de 2026 e a empresa houver descontinuado o serviço, mudado o padrão ou simplesmente deixado de existir. Quem não se lembra do "momento Kodak"? Ou da Pan Am, que levava passageiros ao espaço em "2001: Uma Odisseia no Espaço", de Kubrick? Uma era o "cartório" sentimental do século XX; a outra estampava o porvir... A primeira sobreviveu, profundamente transformada, à ruína do modelo que a fizera dominante; a segunda desapareceu. Nenhuma infraestrutura empresarial tem assegurada a perenidade que a prova jurídica exige. A fé pública sobrevive ao notário que a emitiu; a fé criptográfica proprietária pode morrer com o ecossistema que a sustenta. Restaria, então, o expediente da ata notarial (art. 384 do CPC): o tabelião certificaria, propriis sensibus, que compulsou uma máquina da Apple e que ali, diante de seus olhos, revelou-se o selo da autenticidade maquínica. A cadeia fica deliciosamente barroca: o fato da realidade impressiona o sensor, o sensor capta e assina os dados, a nuvem os transforma na imagem de referência, a tela a exibe, o notário a vê e... atesta o que viu. A fé pública ingressa no circuito, mas nos limites do fato presenciado pelo tabelião. O notário retorna, agora noutra posição: já não apreende diretamente o fato originário; reduz a termos a expressão maquínica que se lhe apresenta. É a estrutura délfica que se insinua uma vez mais: o sacerdote vertendo em oráculo inteligível a algaravia que não produz nem compreende inteiramente. Um certificado digital é validado pela chave pública de seu emissor, cujo certificado se encadeia a outro, e assim sucessivamente até uma raiz previamente confiada; o certificado raiz é, em regra, autoassinado. Na raiz da cadeia, a criptografia já não consegue produzir a própria confiança: encontra uma âncora previamente aceita. Eis a Grundnorm tecnológica que reverbera Kelsen; não a raiz que se autoproclama verdadeira, mas a decisão exterior ao cálculo que manda tratá-la como confiável. O próprio Livro do Eparca já exibia essa estrutura em seu prefácio: Deus grava a lei nas Pedras com o próprio dedo, o imperador a promulga, o prefeito a executa, o notário a apõe aos atos. Toda cadeia de fé remonta, afinal, a um ponto originário de confiança que já não pode ser justificado por outro elo da própria cadeia. A diferença está na raiz: a cadeia notarial hoje ancora-se no Estado e, na sua genealogia mais funda, no sagrado; a cadeia criptográfica ancora-se num autossigno corporativo guardado a sete chaves num cofre digital corporativo. Seria tentador concluir que a autenticidade é propriedade das cadeias que se autocertificam. Mas não é exatamente isso que se percebe. Esta conclusão nos levaria à desumanização do circuito. Cadeia é grafo interoperável; não fonte. Certificar é ato performativo: "dou fé" não descreve coisa alguma, mas faz algo, e só o faz porque há um sujeito investido de poderes certificantes que se compromete com o lavrado e responde pelo ato praticado. Não pode subdelegar - nem mesmo à máquina inteligente. O tabelião pode faltar à verdade, precisamente porque é um sujeito moral, capaz de compreender o dever que o vincula e de responder por sua transgressão. A fé pública, entretanto, não deriva de sua virtude pessoal: assenta na investidura, na ordem legal e jurídica, nos deveres funcionais, no procedimento e na imputação de responsabilidade pessoal. A máquina não mente, propriamente, porque não é um ser moral. Pode errar, produzir resultados falsos ou consequências danosas; e o Direito pode imputar essas consequências ao desenvolvedor, ao operador, à empresa ou, por construção normativa, ao próprio sistema. Essa imputação jurídica, porém, não equivale à responsabilidade ética e moral: uma coisa é suportar juridicamente as consequências de um resultado; outra, responder (inclusive pela consciência) pelas razões de uma conduta. A máquina, por si só, tampouco pode atestar porque não investe a si mesma de autoridade jurídica. O poder certificante terá de ser imputado a uma pessoa juridicamente reconhecida, submetida a regras legais e de responsabilidade. A máquina produz vestígio, índice, rastro causal: sinal de que certos elementos atravessaram o sensor sem as travas da censura humana. Mas indício não é asserção; entre o vestígio e o atestado há um abismo que só um sujeito cognoscente pode atravessar e portar. E note-se bem: a máquina pode certificar tecnicamente a proveniência da captura; não pode, de per se, certificar a verdade daquilo que foi capturado. Não se descarte a possibilidade de certificação digital do falso analógico adrede produzido. Também aqui Delfos ensina: Apolo, diz Heráclito, não fala, nem oculta; dá sinais. A máquina tampouco. E sinais (dados) pedem intérprete. O sensor é um Tirésias às avessas: é omnisciente, "enxerga" tudo e nada "vê"; capta e grava cada pixel do mundo e não vaticina coisa alguma; não intui, nem percebe intenções e os microssinais que só o humano emite, capta e interpreta. Ao sensor sobram miríades de olhos que ao velho tebano faltavam, mas não lhe socorre a vidência que só a cegueira do vate foi capaz de alcançar. Acresce que a presunção de autenticidade e veracidade inerente à fé pública notarial é relativa, nos limites próprios daquilo que o notário atesta. É presunção juris tantum: comporta prova em contrário, admite arguição de falsidade, sujeita-se ao contraditório. Essa atacabilidade não é defeito; é a dignidade epistemológica do sistema, pois a verdade jurídica constrói-se dialeticamente, diante de um quadro da realidade submetido à apreciação de um juiz, que deve valorar a prova e fundamentar racionalmente a decisão. A verificação criptográfica responde binariamente a uma questão técnica; a prova jurídica continua submetida ao contraditório. Não se contradita uma curva elíptica, mas contraditam-se as premissas, os procedimentos e os efeitos que alguém pretende extrair dela. E quando o sensor assina, a nuvem certifica, a API exibe e a plataforma publicita, sem a interveniência de um terceiro, a máquina passa a certificar atributos computáveis do conteúdo para processamento por outra máquina. Neste domínio, não se eleva a prova; abole-se o foro. A autenticidade dotada de fé pública, portanto, não é simples propriedade das coisas nem decorre das cadeias, mas da ação de um ser humano investido na função certificadora pela ordem jurídica que submete seu exercício a um juízo prudencial, pessoal, e lhe imputa os efeitos (e responsabilidade) do ato praticado. Uma cadeia de autenticação há de terminar num rosto e não dormitar desperta num cofre sediado nas nuvens abscônditas de um servidor do Vale do Silício. A pergunta que deixo aos leitores não é se a tecnologia funciona. Sabemos que funciona e pode parecer magia até mesmo para os coetâneos. O problema não é a máquina; é a transformação de uma infraestrutura de confiança tecnicamente poderosa em autoridade sem um regime equivalente de prova, investidura, transparência, continuidade, impugnação e responsabilidade. O eixo sobre o qual deve assentar nosso questionamento é este: quem guarda os guardiões quando o guardião é um ente espectral que deita fundas raízes nas nuvens? _____ APPLE. Apple apresenta o iPhone 18 Pro e o iPhone 18 Pro Max. 9 set. 2026. Apple Newsroom. Disponível aqui. Acesso em: 12 set. 2026. BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Tradução de Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d'Água, 1991. As fases da imagem, p. 13; o mapa que precede o território, p. 8; a citação literal, p. 14. BERNARDES, Paula. A jogada mais importante da Apple passou quase despercebida no evento. 2026. Publicado pelo canal Paula Bernardes. Disponível aqui. Acesso em: 12 set. 2026. As reflexões supra foram feitas a partir desta análise. As fontes primárias se acham publicadas no site da empresa. LEÃO VI, o Sábio. Le livre du préfet ou l'édit de l'empereur Léon le Sage sur les corporations de Constantinople. Traduction française du texte grec de Genève par Jules Nicole. Genève; Bâle: Georg & Cie, 1894. A citação se acha no Cap. I, § 12. LESSIG, Lawrence. Code: version 2.0. New York: Basic Books, 2006. Disponível aqui. Acesso em: 12 set. 2026. A fórmula code is law abre o capítulo 1, p. 5; sobre a arquitetura como modalidade de regulação, v. cap. 7 (What things regulate), p. 120-137. TELLES, José Homem Corrêa. Manual do tabellião ou ensaios de jurisprudencia eurematica: contendo a collecção de minutas dos contratos e instrumentos mais usuaes, e das cautelas mais precisas nos contratos, e testamentos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859. Sobre as virtudes do tabelião e citação literal, v. p. 11. ZAPPA, Frank. Joe's Garage: Acts I, II & III. Los Angeles: Zappa Records, 1979. A passagem se acha no Act I, faixa 1, The Central Scrutinizer.
1. Introdução Como apontado pelo CNJ, no painel "Justiça em Números", o Poder Judiciário brasileiro, até a data de 28 de fevereiro de 2025, possuía 79.518.532 (setenta e nove milhões, quinhentos e dezoito mil e quinhentos e trinta e dois processos) processos em tramitação, volume processual sem paralelo em outros países do mundo.1 Dentre esses quase 80 milhões de processos, 26,4 milhões (31% do total) são execuções fiscais pendentes de julgamento, cuja demora na sua solução corresponde em média a 7 anos e 9 meses2. Além disso, com mais de 1,1 milhão de profissionais inscritos na OAB, o país é o recordista mundial em número de advogados por grupo de 100 mil habitantes, atrás apenas da Índia em números absolutos3. Por sua vez, o TJ/SP, que conta com 360 desembargadores, detém o maior acervo processual registrado para um tribunal de justiça, com mais de 20 milhões de processos judiciais em tramitação, consoante dados apresentados em 20244. Para que se tenha noção do que isso representa em termos de produção jurisdicional, menciona-se que, apenas no primeiro semestre de 2024, os 360 desembargadores que compõem o TJ/SP julgaram 584 mil processos em segundo grau, número igualmente sem paralelo no mundo5.   Esses dados não deixam dúvidas de que o Brasil é o campeão mundial de judicialização dos conflitos. Contudo, haja vista que o país possui a décima maior economia e a sétima maior população, propõe-se investigar os motivos que levaram o país a ocupar tal posição de liderança em demandas judicializadas, os efeitos jurídicos (benéficos e deletérios), sociais e econômicos deste status e algumas das soluções idealizadas no intuito de reduzir o acervo processual existente e aprimorar o sistema de justiça, com foco voltado à proposta de desjudicialização da execução civil. 2. A Judicialização de conflitos no Brasil    No Brasil, tal como ocorrera em outros países ocidentais após o fim da Segunda Guerra Mundial, o aumento expressivo da judicialização dos conflitos está umbilicalmente ligado à redemocratização do país, marcada pelo fim do Governo Militar e pela promulgação da Constituição da República de 19886. Tal como ocorrerá com a derrota dos regimes nazifascistas na Europa, o fim do período de exceção e a promulgação da nova Carta Constitucional fundaram, no Brasil, o Estado Social de Direito, um estágio constitucional de (re)valoração da pessoa humana, no qual a dignidade da pessoa humana revela-se como o valor central do ordenamento jurídico vigente7, como se extrai dos incisos II e III do art. 1º da Constituição Federal, que preveem como fundamentos da República Federativa do Brasil, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Não por outro motivo, a Constituição Federal possui amplo rol de direitos fundamentais e direitos sociais no intuito de efetivar os objetivos por ela previstos, que não deveria apenas garantir a liberdade formal dos cidadãos perante arbitrariedades do Estado8, mas também oferecer garantias constitucionais de que este "mediante ações próprias, assegure o efetivo exercício da liberdade"9, entendido o conceito em sua acepção mais ampla, ou seja, ao atendimento de necessidades fundamentais do ser humano para o desenvolvimento pleno e digno de sua experiência de vida. Logo, com o aumento expressivo de direitos (fundamentais e sociais) positivados na Constituição Federal, dentre estes, a inafastabilidade da jurisdição estatal (art. 5º, inciso XXXV da Constituição Federal), houve um esperado aumento da judicialização de conflitos. Afinal, apenas para citar um exemplo, a Constituição Federal - ao garantir a saúde como direito universal de todos os brasileiros (arts. 196 a 200 da Constituição Federal) - naturalmente levou a um aumento de ações de fornecimento de medicamentos, pedidos de internações e outras demandas relacionadas10. É o que se chama de conferir caráter normativo ao texto constitucional, com "a possibilidade de aplicação direta e imediata das normas constitucionais pelo Judiciário (i.e., sem necessidade de interposição legislativa)"11. Desse modo, com as negativas do Estado em efetivar esses direitos, o Poder Judiciário é acionado para "desempenhar funções que antes não lhes eram próprias", sendo chamado para "interpretar as normas, decidir sobre sua legalidade e aplicação, enfim, passa a ser visto como verdadeiro "escudo" da sociedade contra os avanços do Estado"12. Ainda nesse sentido, o professor Luis Roberto Barroso afirma que "o ambiente democrático reavivou a cidadania, dando maior nível de informação e de consciência de direitos a amplos segmentos da população, que passaram a buscar a proteção de seus interesses perante juízes e tribunais"13. Em acréscimo, a Constituição Federativa do Brasil e leis subsequentes textualmente expandiram os poderes do Ministério Público, a presença da Defensoria Pública, criaram o sistema dos Juizados Especiais e as possibilidades dos jurisdicionados de assegurar o respeito a seus direitos e pacificação de conflitos ao Poder Judiciário, fator que logicamente contribuiu para o aumento do acervo processual.14 Ainda assim, esse contexto não esgota todos os motivos para o Brasil possuir o atual quadro de (hiper)judicialização que, como será abaixo demonstrado, configura uma anomalia social que possui efeitos deletérios superiores aos seus benefícios. Com efeito, apontar e comprovar com clareza científica as causas da hiperjudicialização no Brasil não é tarefa trivial, eis que os motivos se revelam variados e coexistentes, como aponta o próprio CNJ em seu relatório "Justiça em Números". Há, contudo, dois fatores preponderantes: (i) a facilidade de acesso (formal) à jurisdição estatal, como denotam o sistema dos Juizados Especiais, as amplas possibilidades de gratuidade de justiça e a capilaridade nacional da Defensoria Pública e (ii) as sistemáticas violações a direitos sociais e individuais por parte do Poder Público e agentes privados entre si que levam à judicialização das questões, causando o país a sofrer de litígios em massa que oneram o Poder Judiciário e a sociedade brasileira15. Nesse sentido, o exemplo mais impactante é a mencionada "epidemia" de execuções fiscais, que corresponde a 31% do total da totalidade de processos em tramitação no Brasil16. Contudo, outras categorias processuais também são alarmantes: há milhões de processos relacionados a ações previdenciárias (4.234.335)17, de saúde (899.826) e um número expressivo de ações de natureza consumerista18. Evidentemente, há algo peculiar nesse quadro e, conquanto especialistas apontem como principais razões as normas protetivas do CDC, o amplo acesso aos Juizados Especiais e uma cultura litigante, é igualmente importante relembrar que, diferentemente do ocorre nos Estados Unidos da América, o acesso à justiça e proteção ao consumidor possuem estatura constitucional na carta constitucional brasileira, o que representa um entrave para desconsiderar a responsabilidade objetiva das empresas aéreas ou a vulnerabilidade de consumidores brasileiros. Ademais, diferente dos EUA, as indenizações concedidas no Brasil são historicamente baixas, o que - além de reduzir o impacto financeiro desses processos contra as companhias aéreas - acaba por não servir como desincentivo às empresas para eventualmente alterarem práticas consumeristas ilícitas à luz do sistema brasileiro. Portanto, modificar essas causas históricas, sociais e jurídicas não é tarefa trivial em um país que, conquanto tenha como prioridade constitucional a tarefa de fornecer amplo acesso à justiça, com todos os efeitos benéficos ali decorrentes, sofre de um insustentável quadro de hiperjudicialização. Clique aqui e confira o artigo na íntegra.
A resolução CNJ 571/24 trouxe uma das inovações mais relevantes ao inventário extrajudicial dos últimos anos: o novo art. 11-A da resolução 35/07, que autoriza o inventariante a alienar bens móveis e imóveis do espólio por escritura pública, sem necessidade de alvará judicial. O dispositivo funciona como uma espécie de "alvará extrajudicial", destinado a resolver o clássico problema de liquidez das famílias em inventário: patrimônio imobilizado em bens e ausência de numerário para pagar ITCMD, honorários e emolumentos. O que diz o art. 11-A O texto normativo exige: (i) discriminação das despesas do inventário a serem quitadas com o produto da venda; (ii) vinculação de parte ou todo o preço a esse pagamento; (iii) inexistência de indisponibilidade de bens de herdeiros, cônjuge ou convivente; (iv) apresentação das guias dos impostos de transmissão; (v) menção aos emolumentos estimados; e (vi) prestação de garantia, real ou fidejussória, pelo inventariante, quanto à destinação do produto da venda. O bem vendido é relacionado no acervo para fins de cálculo dos quinhões e do imposto causa mortis, mas não integra a partilha. Um ponto de destaque é que essa garantia é pessoal do inventariante e não pode recair sobre bens do próprio espólio, sob pena de esvaziar a lógica protetiva do instituto. Além disso, importante se atentar para a incidência tributária múltipla da operação: ITBI para o adquirente, manutenção da responsabilidade dos herdeiros pelo ITCMD (calculado pelo maior valor entre avaliação fiscal e venda) e eventual apuração de ganho de capital pelo espólio. Importante mencionar os reflexos tributários da operação, indicando potencial tríplice incidência: (i) ITBI pelo adquirente do imóvel, por se tratar de transmissão onerosa inter vivos; (ii) manutenção da responsabilidade dos herdeiros pelo ITCMD, cuja base de cálculo consideraria o acervo hereditário total, tomando-se o maior valor entre avaliação fiscal e venda efetiva; e (iii) eventual apuração e recolhimento de imposto de renda sobre ganho de capital pelo espólio, se o valor da alienação superar o constante na última declaração de bens do falecido. Esses pontos são relevantes porque afastam uma leitura simplificadora do art. 11-A como sendo uma solução financeira neutra, uma vez que a alienação pode repercutir em múltiplos campos tributários e exige planejamento documental e informativo (Faria, Moscardini, 2026). Alienação pelo espólio x cessão de direitos hereditários Na alienação do art. 11-A, é o próprio espólio, representado pelo inventariante, quem vende um bem singular a terceiro, sob fiscalização notarial e finalidade vinculada ao custeio do inventário. Já na cessão de direitos hereditários, disciplinada pelo art. 1.793 do CC, o herdeiro transfere sua posição jurídica (fração ideal) sobre a herança, e não um bem determinado - daí seu caráter aleatório, dependente da solvência final do espólio. No REsp 1.027.884/SC, relatado pelo ministro Fernando Gonçalves, a Corte consolidou que "a cessão de direitos hereditários deve ser formalizada por escritura pública, consoante determina o art. 1.793 do CC de 2002", sob pena de invalidade por vício de forma. Já no REsp 1.620.705/RS, relatado pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, o STJ enfrentou o direito de preferência dos coerdeiros (arts. 1.794 e 1.795 do CC) na cessão onerosa de quota hereditária a terceiro. A Corte fixou que a notificação prévia ao coerdeiro deve indicar "preço e condições de pagamento", sendo insuficiente a mera comunicação genérica sobre a existência do negócio, sob pena de o coerdeiro preterido poder, depositado o preço, haver para si a quota cedida em até 180 dias após ser cientificado. Destaca-se ainda o REsp 1.196.992/MS, de relatoria da ministra Nancy Andrighi, no qual o STJ diferenciou a disposição da meação da cessão de direitos hereditários propriamente dita: a cessão gratuita da meação do cônjuge ou companheiro sobrevivente em favor dos herdeiros configura doação (ato inter vivos), exigindo escritura pública nos termos do art. 541 c/c art. 108 do CC, e não se confunde com renúncia de herança, que pressupõe a condição de herdeiro. Essas três decisões, funcionam como baliza interpretativa para a atuação notarial: elas reforçam a exigência de forma pública, a necessidade de informação plena ao coerdeiro preferente e a distinção técnica entre meação, cessão e renúncia, distinções que se tornam ainda mais relevantes agora que convivem, na mesma serventia, com a nova alienação direta de bens do espólio. Cautelas práticas No plano procedimental, recomenda-se a lavratura, preferencialmente em ato contínuo, de três escrituras: a de nomeação do inventariante, a de compra e venda do bem (já vinculando o pagamento de tributos) e, por fim, a de inventário e partilha. Essa simultaneidade reduz o risco de evasão dos herdeiros após o recebimento de valores e evita que a serventia fique exposta a um inventário incompleto. Recomenda-se ainda a realização de três avaliações idôneas do bem, para assegurar preço de mercado, e a verificação, pelo tabelião, da inexistência de indisponibilidade de bens e de herdeiros incapazes, hipótese que, se presente, afasta a aplicação do art. 11-A e remete o caso à via judicial. Conclusão O art. 11-A da resolução 571/24 não substitui a cessão de direitos hereditários, mas cria uma ferramenta complementar e mais segura para destravar a liquidez do inventário sem recorrer ao Judiciário. Conclui-se que a nova regra "rompe com o paradigma da intervenção estatal obrigatória", consolidando o tabelionato de notas como ambiente apto para a gestão de ativos hereditários, desde que respeitadas as cautelas de forma, consenso, garantia e a jurisprudência consolidada do STJ sobre cessão de direitos e meação. _____ BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. resolução nº 35, de 24 de abril de 2007. Brasília, DF: CNJ, 2007. Disponível aqui. Acesso em: 16 fev. 2026. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. resolução nº 571, de 26 de agosto de 2024. Altera a resolução CNJ nº 35/2007. Brasília, DF: CNJ, 2024. Disponível aqui. Acesso em: 16 fev. 2026. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (4. Turma). Recurso Especial nº 1.027.884/SC. Rel. Min. Fernando Gonçalves, julgado em 6 ago. 2009, DJe 24 ago. 2009. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (3. Turma). Recurso Especial nº 1.620.705/RS. Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21 nov. 2017, DJe 30 nov. 2017. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (3. Turma). Recurso Especial nº 1.196.992/MS. Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 6 ago. 2013, DJe 22 ago. 2013. FARIA, Letícia Araújo; MOSCARDINI, Maria Laura Bolonha. Alienação de bens pelo espólio e cessão de direitos hereditários: desafios e inovações na prática extrajudicial brasileira. In: CALAIS, Cíntia; SALOMÃO, Helen; FARIA, Letícia Araújo; ALMEIDA, Rachel Leticia Curcio Ximenes de Lima; MACHADO, Samila Ariana Alves (coord.). Advocacia extrajudicial e desenvolvimento imobiliário: teoria, experiência e segurança jurídica. Indaiatuba: Editora Foco, 2026.
1 Introdução A desjudicialização de atos da vida civil é, talvez, a mais consolidada tendência do direito notarial e registral brasileiro nas últimas duas décadas. Desde a lei 11.441, de 4/1/07, o inventário, a partilha, o divórcio e a extinção de união estável consensuais podem ser realizados por escritura pública, sem necessidade de homologação judicial, sempre que os interessados forem capazes e estiverem de acordo. A resolução CNJ 35/07, sucessivamente atualizada, mais recentemente pela resolução CNJ 571/24, ampliou esse universo para admitir, inclusive, a participação de herdeiros menores ou incapazes, desde que resguardada a manifestação favorável do ministério Público (BRASIL, 2007; CNJ, 2024). Nesse cenário de avanço, permanece um ponto pouco discutido: a existência de testamento. O art. 12-B da resolução CNJ 35/07 autoriza o inventário extrajudicial mesmo havendo testamento, mas condiciona essa possibilidade à existência de expressa autorização do juízo sucessório competente em ação de abertura e cumprimento de testamento válido e eficaz, em sentença transitada em julgado (inciso II). Em outras palavras, a via extrajudicial do inventário, criada para desafogar o judiciário e conferir celeridade às famílias, permanece condicionada, quando há testamento, à prévia tramitação de um processo judicial, com todo o tempo, custo e formalidade que lhe são inerentes (CNJ, 2024). O problema se agrava quando se observa que a lei trata de forma unificada três espécies de testamento estruturalmente distintas. O testamento cerrado, lacrado e sigiloso por natureza, de fato demanda um ato de constatação, a verificação de que o lacre está intacto, que justifica alguma forma de controle externo à vontade das partes. O testamento particular, escrito e assinado pelo próprio testador sem a assistência prévia de um oficial público, também demanda um juízo de autenticidade, tradicionalmente amparado na oitiva de testemunhas. O testamento público, todavia, não apresenta nenhuma dessas fragilidades: lavrado por tabelião de notas, com observância de todas as formalidades legais (art. 1.864 a 1.867 do CC), na presença de testemunhas, seu conteúdo já é conhecido desde o momento de sua celebração e sua autenticidade já foi certificada pela fé pública notarial no ato de lavratura (BRASIL, 2002). O presente artigo sustenta que a exigência de uma ação judicial de abertura e cumprimento de testamento como pré-requisito ao inventário extrajudicial, tal como hoje estruturada, é uma medida desproporcional quando aplicada ao testamento público em contexto de pleno consenso entre os interessados. Propõe-se, como alternativa, um procedimento extrajudicial específico, denominado "Ata Notarial de Concordância Testamentária", no qual o próprio tabelião de notas, oficiando o ministério Público para ciência e eventual manifestação, colhe a concordância expressa de todos os herdeiros, legatários e demais interessados com o teor do testamento, documentando esse consenso em ata que servirá de base para a lavratura da escritura pública de inventário e partilha. A proposta dialoga diretamente com o momento legislativo atual. Em outubro de 2025, o Corregedor Nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, arquivou pedido de providências do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) que pretendia a extrajudicialização da abertura de testamentos por ato normativo do CNJ, sob o fundamento de que tal alteração depende de lei, e não de regulamentação administrativa (CNJ, 2025). Paralelamente, tramita no Senado Federal o projeto de lei 4/25, de reforma do CC, cujo art. 1.990-A propõe exatamente essa desjudicialização, mediante anuência do ministério Público (BRASIL, 2025). Este artigo pretende oferecer subsídio técnico a esse debate, tanto como contribuição doutrinária ao aprimoramento do PL 4/25 quanto como proposta de aplicação imediata, por via de regulamentação administrativa do CNJ, restrita à hipótese mais segura e menos controvertida: a do testamento público incontroverso. 2 O regime jurídico vigente da abertura de testamento 2.1 As três espécies testamentárias e suas diferenças estruturais O CC de 2002 disciplina três formas ordinárias de testamento: o público, o cerrado e o particular (art. 1.862). O testamento público é lavrado por tabelião de notas, a partir da declaração de vontade do testador, na presença de duas testemunhas, sendo lido em voz alta e assinado por todos (art. 1.864 a 1.867 do CC). O testamento cerrado é escrito pelo testador ou por outrem a seu rogo, aprovado pelo tabelião mediante auto de aprovação, e mantido lacrado até a morte do testador (art. 1.868 a 1.875 do CC). O testamento particular é escrito de próprio punho ou mediante processo mecânico pelo testador, e lido perante ao menos três testemunhas, sem qualquer intervenção notarial prévia (art. 1.876 e 1.877 do CC) (BRASIL, 2002). Essa distinção não é meramente formal, pois repercute diretamente sobre o grau de certeza que o sistema jurídico já possui, no momento da morte do testador, quanto à autenticidade e ao conteúdo do ato. No testamento cerrado, o conteúdo é, por definição, desconhecido até o momento da abertura: existe apenas a garantia de que o invólucro está intacto, atestada pelo auto de aprovação notarial lavrado quando da confecção do testamento. No testamento particular, não há qualquer intervenção de agente dotado de fé pública durante sua elaboração, de modo que a autenticidade do ato somente pode ser aferida a posteriori, tipicamente pela oitiva das testemunhas presenciais. No testamento público, por sua vez, a autenticidade já foi certificada no próprio ato de lavratura: o Tabelião verificou a capacidade do testador, reduziu a termo sua declaração de vontade, colheu assinaturas de testemunhas idôneas e arquivou o instrumento em seus livros, sujeito a buscas via central notarial de serviços eletrônicos Compartilhados (CENSEC), na denominada "Busca Testamento", onde se faz uma pesquisa se o de cujus porventura realizou outro testamento público. 2.2 O procedimento judicial dos arts. 735 a 737 do CPC Não obstante essas diferenças estruturais, o CPC disciplina a abertura, o registro e o cumprimento das três espécies testamentárias sob o mesmo procedimento de jurisdição voluntária. O art. 735 determina que, falecido o testador, toda pessoa que detiver testamento cerrado deve apresentá-lo em juízo, que ordenará sua abertura e registro se não houver vício externo que o torne suspeito de nulidade ou falsidade. O art. 736 estende esse regime, no que couber, à confirmação do testamento particular. O art. 737, por fim, prescreve que, cumpridas as formalidades, o juiz mandará registrar, arquivar e cumprir o testamento, ordenando que se dê ciência ao ministério Público (BRASIL, 2015). A rigor, o testamento público não se sujeita ao mesmo ato de abertura que o cerrado, já que não há lacre a romper, mas a praxe judicial e a exigência de apresentação ao juízo, seguida da mesma sistemática de registro, cumprimento e ciência ao Ministério Público, acabam por submeter as três espécies a um rito unificado. É esse tratamento uniforme, que ignora a diferença de grau de certeza documental entre as espécies testamentárias, que este artigo pretende questionar, especificamente quanto ao testamento público. 3 O precedente da desjudicialização sucessória e seu limite atual 3.1 Da lei 11.441/07 à resolução CNJ 571/24 A desjudicialização do inventário consensual, inaugurada pela lei 11.441/07 e disciplinada pela resolução CNJ 35/07, baseia-se em premissa simples: quando não há litígio, nem incapazes desprotegidos, nem risco à ordem pública, o judiciário não precisa ser via obrigatória de passagem para a formalização de atos de vontade privada. A resolução CNJ 571/24 aprofundou esse movimento, permitindo o inventário extrajudicial mesmo com herdeiro menor ou incapaz, desde que resguardado o pagamento de seu quinhão em frações ideais e colhida manifestação favorável do ministério Público (art. 12-A), e mesmo havendo testamento, mediante os requisitos do art. 12-B (CNJ, 2024). 3.2 O art. 12-B como avanço parcialmente neutralizado É precisamente no art. 12-B que se localiza o problema central deste artigo. O dispositivo autoriza o inventário extrajudicial ainda que o autor da herança tenha deixado testamento, desde que presentes cinco requisitos, entre os quais, no inciso II, a existência de expressa autorização do juízo sucessório competente em ação de abertura e cumprimento de testamento válido e eficaz, em sentença transitada em julgado. Ou seja, o próprio dispositivo que se propõe a viabilizar o inventário extrajudicial na presença de testamento acaba por reintroduzir, pela porta dos fundos, a exigência de um processo judicial completo, com toda a tramitação, prazos recursais e trânsito em julgado que isso implica, como condição prévia e necessária. Na prática, o herdeiro que deseja utilizar a via extrajudicial do inventário, mas cujo autor da herança deixou testamento, não escapa do judiciário: apenas posterga o uso do cartório para depois da sentença. O efeito prático da norma é limitado: garante-se que a partilha em si possa ser feita por escritura, mas não se desjudicializa o que hoje é, em grande parte dos casos, a etapa mais lenta do processo sucessório com testamento, que é a sua abertura e confirmação. Essa constatação é corroborada pela própria exposição de motivos da subcomissão de Direito das Sucessões responsável pelo anteprojeto que deu origem ao PL 4/25, que reconhece expressamente a necessidade de simplificação e desjudicialização dos procedimentos do inventário, incluindo nominalmente a desjudicialização do procedimento de abertura, registro e cumprimento do testamento como um dos objetivos da reforma, sinal de que a limitação hoje existente é percebida, pela própria comunidade jurídica especializada em sucessões, como uma lacuna a ser corrigida (Salomão, 2025). 4 A decisão do corregedor nacional de justiça e seus fundamentos 4.1 O pedido de providências 0002841-21.2025.2.00.0000 Em maio de 2025, o IBDFAM protocolou perante o CNJ pedido de providências para que a abertura, o registro e o arquivamento de testamentos pudessem ser realizados de forma extrajudicial, por ato administrativo do próprio conselho. O argumento central da entidade era o de que tais procedimentos, por se limitarem à verificação de formalidades extrínsecas e não envolverem exame de mérito, seriam compatíveis com a jurisdição voluntária e, portanto, passíveis de delegação ao tabelião de notas, dotado de fé pública e capacitação técnica para tanto (IBDFAM, [s.d.]). Em decisão de outubro de 2025, o CNJ, ministro Mauro Campbell Marques, determinou o arquivamento do pedido. Os fundamentos da decisão foram essencialmente dois: primeiro, um fundamento de competência, segundo o qual a matéria está disciplinada de forma expressa pelo Código Civil (art. 1.868 a 1.877) e pelo CPC (art. 735 a 737), que atribuem a competência ao judiciário, de modo que sua alteração depende de lei, não podendo o CNJ, como órgão regulador, inovar primariamente a ordem jurídica sem delegação expressa; segundo, um fundamento de mérito, segundo o qual a via judicial não seria mero formalismo, mas garantiria a publicidade do ato, a possibilidade de impugnação por eventuais interessados desconhecidos e a intervenção do Ministério Público nos casos legalmente previstos (CNJ, 2025; CONJUR, 2025). 4.2 O que a decisão protege e sua aplicabilidade distinta ao testamento público A decisão do Corregedor Nacional é tecnicamente correta em seu fundamento de competência: tratando-se de matéria expressamente disciplinada por lei em sentido formal, sua alteração de fato depende de processo legislativo, não de regulamentação administrativa do CNJ. É por essa razão que este artigo situa sua proposta em dois planos: um plano imediato, de aprimoramento do art. 12-B da resolução CNJ 35/2007 restrito ao que já está ao alcance regulamentar do CNJ, isto é, a forma de comprovação exigida no inciso II para o caso específico do testamento público consensual, e um plano legislativo, de contribuição ao PL 4/2025, tratado na seção 6. Quanto ao fundamento de mérito, é necessário examinar com cuidado o que, exatamente, a via judicial protege, para verificar se um procedimento extrajudicial devidamente estruturado pode replicar essas garantias. O Corregedor aponta três funções da via judicial: a publicidade do ato, a possibilidade de impugnação por interessados, inclusive desconhecidos, e a intervenção do ministério Público. Nenhuma dessas três funções é exclusiva do processo judicial: todas já são replicadas, com sucesso reconhecido, no procedimento de inventário extrajudicial com incapazes previsto no art. 12-A da própria resolução CNJ 35/07, no qual a manifestação do Ministério Público é colhida extrajudicialmente, mediante encaminhamento do expediente pelo tabelião, e a impugnação, quando existente, é que desloca o procedimento para a via judicial, não o inverso. É esse mesmo modelo, testado e validado normativamente para a proteção de incapazes, que a proposta a seguir busca adaptar à hipótese do testamento público. 5 Proposta: A ata notarial de concordância testamentária 5.1 Pressupostos de cabimento A proposta aqui formulada é deliberadamente restrita, por razões de prudência dogmática e de viabilidade de implementação imediata. Não se propõe a extrajudicialização de toda e qualquer abertura de testamento, mas apenas da hipótese mais segura: o testamento público, cujo conteúdo e autenticidade já são conhecidos, em contexto de pleno consenso entre os interessados. São pressupostos cumulativos de cabimento: Que o testamento seja público, lavrado por tabelião de notas brasileiro, localizável e verificável via CENSEC; Que todos os herdeiros, legatários e demais interessados, inclusive o testamenteiro nomeado, se houver, sejam plenamente capazes; Que não haja, no testamento, disposição de reconhecimento de filiação ou outra declaração de natureza irrevogável, tal como já exigido pelo art. 12-B, § 1º, da resolução CNJ 35/07 para o inventário extrajudicial em geral; Que todos os interessados manifestem, de forma livre e expressa, concordância integral com o teor das disposições testamentárias; Que não haja indício de incapacidade superveniente do testador, vício de vontade, ou qualquer outro elemento que suscite dúvida ao tabelião quanto à validade do ato. A ausência de qualquer desses pressupostos, ou a superveniência de dúvida fundada do Tabelião, de discordância de qualquer interessado ou de impugnação do ministério Público, desloca obrigatoriamente o procedimento para a via judicial, nos moldes do art. 735 do CPC, tal como já ocorre, por simetria, no inventário extrajudicial com incapazes (art. 12-A, § 4º, da resolução CNJ 35/07). 5.2 Procedimento proposto O procedimento sugerido desenvolve-se em cinco etapas. Primeira etapa, instauração. O interessado, seja herdeiro, legatário ou testamenteiro, apresenta ao Tabelionato de Notas de livre escolha a certidão de óbito do testador e traslado ou certidão do testamento público, requerendo a instauração do procedimento de concordância testamentária. Segunda etapa, qualificação e ciência ao ministério Público. O Tabelião verifica os pressupostos de cabimento descritos no item 5.1 e oficia o ministério Público, dando-lhe ciência da instauração do procedimento e do teor do testamento, abrindo prazo para eventual manifestação, em linha com o modelo já empregado pelo art. 12-A, § 3º, da resolução CNJ 35/07. A comunicação pode valer-se da infraestrutura eletrônica do e-Notariado, instituída pelo provimento CNJ 149/23, reduzindo o tempo de tramitação em relação ao expediente físico. Terceira etapa, intimação dos interessados. O Tabelião intima todos os herdeiros, legatários e o testamenteiro, identificados a partir do próprio testamento e da certidão de óbito, para comparecerem ao Tabelionato, pessoalmente ou por videoconferência através da plataforma do E-notariado, no prazo assinalado. Quarta etapa, lavratura da ata notarial de concordância testamentária. Comparecendo todos os interessados e manifestando concordância unânime e livre de vícios com o teor do testamento, o Tabelião lavra ata notarial na qual certifica a identidade e capacidade dos comparecentes, a leitura do testamento perante todos, a manifestação de concordância de cada um, a ausência de disposição irrevogável não comunicada aos autos, e a ciência conferida ao ministério Público, com eventual manifestação por ele apresentada. Quinta etapa, lavratura da escritura de inventário e partilha. Com base na ata notarial de concordância testamentária, o Tabelião procede à lavratura da escritura pública de inventário e partilha, observando as disposições testamentárias e as regras de legítima, nos mesmos moldes hoje aplicáveis ao inventário extrajudicial sem testamento. 5.3 Natureza jurídica e fundamentação do instrumento A ata notarial de concordância testamentária encontra fundamento no poder geral do Tabelião de lavrar atas notariais, previsto no art. 7º, inciso III, da lei 8.935/1994, e na força probante que o art. 384 do CPC confere à ata notarial como meio de prova da existência e do modo de existir de fatos jurídicos. É preciso reconhecer, todavia, que a proposta representa uma extensão do uso tradicional do instrumento: a ata notarial, classicamente, documenta a constatação de um fato ou estado de coisas pelo Tabelião; aqui, propõe-se que documente, adicionalmente, uma manifestação de vontade coletiva e coincidente de múltiplos interessados, função mais próxima da que hoje já é exercida pela escritura pública de inventário e partilha consensuais, que também documenta e formaliza vontade concordante das partes. Não há, portanto, criação de função estranha à atividade notarial, mas combinação, em um único instrumento, de duas funções que o Tabelião já exerce separadamente: a de constatação, própria da ata, e a de formalização de consenso, própria da escritura declaratória. 5.4 Salvaguardas frente aos interessados desconhecidos ou ausentes O ponto mais sensível da proposta, e aquele que a decisão do corregedor nacional de justiça expressamente identificou como justificativa da via judicial, é a proteção de eventuais herdeiros ou interessados desconhecidos, que a citação editalícia do processo judicial permite alcançar. Para que o procedimento extrajudicial não fragilize essa proteção, propõe-se que, previamente à lavratura da ata notarial de concordância testamentária, o Tabelião promova a publicação de edital eletrônico na CENSEC - Central Notarial de Serviços Eletrônicos Compartilhados, pelo prazo mínimo de trinta dias, dando publicidade ao óbito, à existência do testamento e à instauração do procedimento, de modo a viabilizar a habilitação de eventual interessado não identificado nominalmente pelos comparecentes. Trata-se de mecanismo já tecnicamente disponível na infraestrutura do e-Notariado, bastando regulamentação específica para essa finalidade, o que reforça a viabilidade de implementação da proposta até mesmo por via administrativa do CNJ, sem necessidade de aguardar a aprovação do PL 4/25. 6 Diálogo com o projeto de lei 4/25 O PL 4/25, de reforma do CC, atualmente em tramitação no Senado Federal sob análise de Comissão Temporária, contempla em seu art. 1.990-A proposta expressamente convergente com a defendida neste artigo: caso todos os herdeiros e legatários concordem, a abertura do testamento cerrado e a apresentação dos testamentos público e particular, bem como seu registro, cumprimento, a nomeação de testamenteiro e a prestação de contas, poderão ser realizados por escritura pública, com eficácia condicionada à anuência do Ministério Público, admitindo-se procedimentos eletrônicos ou digitais para tanto (BRASIL, 2025; MIGALHAS, 2025). A proposta legislativa tem o mérito de tratar da questão de forma ampla, abrangendo as três espécies testamentárias e todas as etapas do cumprimento testamentário, e de manter, corretamente, a intervenção do ministério Público como condição de eficácia. Sugere-se, como contribuição ao aprimoramento do texto em tramitação, que a redação final do dispositivo, ou sua regulamentação por provimento do CNJ, uma vez aprovado, reconheça expressamente a diferença de tratamento entre as espécies testamentárias aqui exposta, prevendo, para o testamento público consensual, um rito simplificado e de prazo mais exíguo em relação ao cerrado e ao particular, tendo em vista a ausência, nessa hipótese, de qualquer necessidade de verificação de autenticidade documental, já certificada no ato de lavratura originário. A ata notarial de concordância testamentária, tal como proposta na seção 5, pode servir de modelo procedimental para essa diferenciação, tanto na regulamentação administrativa imediata quanto na eventual lei resultante do PL 4/25. Vale registrar, por fim, que a proposta aqui apresentada não é incompatível com a manutenção da via judicial como opção. Assim como ocorre com o inventário extrajudicial desde 2007, trata-se de ampliar o leque de opções à disposição das famílias, e não de suprimir a via judicial para os casos que dela efetivamente necessitem, em especial os que envolvam litígio, incapazes desprotegidos, dúvida sobre a validade do testamento ou interessados que não possam ser identificados ou localizados. 7 Conclusão A desjudicialização sucessória brasileira avançou substancialmente desde 2007, mas mantém, na hipótese de testamento, um resíduo de judicialização obrigatória que a resolução CNJ 571/24 não eliminou: a exigência de sentença transitada em julgado em ação de abertura e cumprimento de testamento como pré-condição ao inventário extrajudicial. Esse resíduo trata de forma idêntica situações estruturalmente distintas, testamento cerrado, particular e público, ignorando que apenas os dois primeiros demandam, de fato, um juízo de autenticidade a posteriori. Este artigo propôs a criação da ata notarial de concordância testamentária como instrumento extrajudicial específico para a hipótese do testamento público consensual, estruturado a partir de um procedimento de cinco etapas que replica, extrajudicialmente, as garantias que hoje justificam a via judicial: ciência e possível manifestação do ministério Público, intimação de todos os interessados identificados, publicidade editalícia para a proteção de interessados desconhecidos, e cláusula de remessa obrigatória ao judiciário em caso de dúvida, discordância ou impugnação. A proposta situa-se em diálogo direto com o momento institucional atual: responde à decisão do corregedor nacional de justiça de outubro de 2025, que corretamente reservou ao Poder Legislativo a competência para alterações mais amplas na matéria, ao mesmo tempo em que oferece subsídio técnico ao art. 1.990- A do PL 4/25, atualmente em tramitação no Senado Federal. Ao restringir seu escopo à hipótese mais segura e consensual, o testamento público sem controvérsia, a proposta busca contribuir de forma equilibrada para um debate que, como demonstram tanto a decisão administrativa quanto a atividade legislativa em curso, já é reconhecido pela comunidade jurídica brasileira como maduro para avançar. ___________ BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. BRASIL. Lei 11.441, de 4 de janeiro de 2007. Altera dispositivos da Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), possibilitando a realização de inventário, partilha, separação consensual e divórcio consensual por via administrativa. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 jan. 2007. BRASIL. Lei 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 mar. 2015. BRASIL. Lei 8.935, de 18 de novembro de 1994. Regulamenta o art. 236 da Constituição Federal, dispondo sobre serviços notariais e de registro. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 1994. BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei 4, de 2025. Dispõe sobre a atualização da Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), e da legislação correlata. Brasília: Senado Federal, 2025. Tramitação em curso. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Resolução CNJ 35, de 24 de abril de 2007. Disciplina a aplicação da Lei 11.441/2007 pelos serviços notariais e de registro. Brasília: CNJ, 2007. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Resolução CNJ 571, de 26 de agosto de 2024. Altera a Resolução CNJ 35, de 24 de abril de 2007. Brasília: CNJ, 2024. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Provimento CN 149, de 30 de agosto de 2023. Institui o Código Nacional de Normas da Corregedoria Nacional de Justiça na parte relativa ao e-Notariado. Brasília: CNJ, 2023. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Corregedoria Nacional de Justiça. Pedido de Providências 0002841-21.2025.2.00.0000. Relator: Ministro Mauro Campbell Marques. Decisão de arquivamento, Brasília, 31 out. 2025. CONSULTOR JURÍDICO (CONJUR). Atos sobre testamentos devem continuar sob competência do Judiciário, afirma CNJ. Revista Consultor Jurídico, 31 out. 2025. Disponível aqui. Acesso em: 11 ago. 2026. MIGALHAS. Abertura e registro extrajudicial de testamentos na reforma do CC. Coluna Família e Sucessões, set. 2025. Disponível aqui.  Acesso em: 11 ago. 2026. INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO DE FAMÍLIA (IBDFAM). A ampliação da desjudicialização no direito sucessório brasileiro. Belo Horizonte: IBDFAM, [s.d.].SALOMÃO, Luis Felipe. O anteprojeto de atualização do Código Civil no Brasil. Brasília: Superior Tribunal de Justiça, 2025.
A deliberação do CNJ que dispensou o prévio recolhimento do ITCMD para a lavratura de escrituras públicas de inventário e partilha extrajudicial suscitou uma questão dogmática que merece tratamento cuidadoso. A tese que aqui se sustenta é que essa dispensa, correta e bem fundamentada no plano em que foi proferida, não se estende à qualificação registral, e que a permanência da exigência do imposto no registro de imóveis decorre de fundamentos autônomos, de índole federal, aplicáveis a todo o território nacional. O objetivo deste artigo é demonstrar a distinção entre os planos notarial e registral, expor a tripartição conceitual que o Tema reclama, situar o regime das certidões fiscais de débitos pessoais do autor da herança e examinar os efeitos da deliberação sobre a atividade notarial. O Tema insere-se numa trajetória de expansão da via extrajudicial. Desde a lei 11.441/07, que autorizou o inventário e a partilha por escritura pública, e da subsequente resolução 35/07 do CNJ, que a disciplinou, o legislador e o órgão de controle vêm progressivamente deslocando para os serviços notariais e registrais atos antes reservados à jurisdição. A deliberação ora examinada é mais um passo nesse itinerário e, como os anteriores, exige que se identifiquem com exatidão os limites do que se transferiu e do que permaneceu. 1. O alcance preciso da deliberação No Pedido de Providências 0008622-24.2025.2.00.0000, deliberado na 12ª sessão ordinária de 18/8/26, o plenário do CNJ determinou a alteração da resolução 35/07, concretizada pela resolução 695, de 26/8/26, cujo novo art. 15 assenta que é indevida a exigência de prévio recolhimento do ITCMD como condição para a lavratura da escritura pública de inventário e partilha extrajudicial. O fundamento consta do voto do relator, ministro Mauro Campbell Marques, acolhido por unanimidade, e não do texto da resolução, cujo único considerando remete à deliberação do plenário. Para o relator, condicionar a regularização patrimonial da sucessão ao pagamento antecipado do imposto configura coerção indireta, incompatível com a vedação às sanções políticas em matéria tributária. A orientação é consolidada no STF desde as súmulas 701, 3232 e 5473 e foi reafirmada, quanto aos serviços extrajudiciais, na ADIn 394/DF4, na qual a Corte declarou a inconstitucionalidade de dispositivos que condicionavam a prática de atos, inclusive o registro imobiliário, à quitação de tributos. O voto invocou ainda o Tema 1074 do STJ5, examinado adiante, e as decisões que o próprio Conselho já proferira em casos análogos. Não houve inovação, houve aplicação de jurisprudência assentada a hipótese que ainda não a observava. O núcleo da deliberação, contudo, está delimitado pela sua própria tese de julgamento, que preserva o dever do notário lançar na escritura a informação sobre o débito e comunicar o ente tributante, ao qual se reserva a cobrança pelos meios próprios. Não houve supressão do tributo, e sim deslocamento do momento em que a ausência do recolhimento deixa de constituir obstáculo. A escritura passa a ser lavrada independentemente da quitação prévia; o imposto, entretanto, permanece devido e exigível, apenas por outra via e em outro instante. O ponto se confirma pela própria literalidade da norma. O novo art. 15 refere-se, em seu caput e em ambos os parágrafos, exclusivamente à lavratura da escritura pública: dispensa o prévio recolhimento para lavrar, impõe ao tabelião consignar a declaração das partes quanto à ciência da obrigação tributária e determina a comunicação ao fisco, no prazo de cinco dias, quando não recolhido o imposto. Não há, no texto, uma única referência ao registro, à qualificação registral ou aos deveres do oficial de registro de imóveis. A norma que dispensa é, no texto, norma sobre o ato notarial, e o silêncio quanto ao registro delimita o objeto regulado em vez de abrir lacuna a ser colmatada por extensão. Cabe um registro de contexto. A orientação do CNJ não inaugura tratamento próprio da via extrajudicial: alinha-a ao que o STJ já assentara para o arrolamento sumário. Até a deliberação, o herdeiro que optasse pela escritura pública se sujeitava a exigência que o herdeiro em juízo não enfrentava, assimetria sem justificativa, uma vez que a via extrajudicial se legitima pela equivalência de resultado, não por regime mais severo. No entanto, a convergência entre as duas vias não se limita ao momento da dispensa. Alcança também o ponto em que o imposto ressurge: nem o formal de partilha expedido no arrolamento sumário nem a escritura lavrada sem quitação prévia dispensam o oficial do dever do art. 289 da lei de Registros Públicos. A isonomia opera nos dois planos, e é ela que confirma a tese defendida adiante. 2. Lavratura e registro: Atos distintos, planos distintos A precisão exige reconhecer que lavratura e registro são atos jurídicos distintos. A escritura lavrada pelo tabelião constitui título: documenta o negócio jurídico, mas não opera, por si, a transmissão da propriedade imóvel. A mutação jurídico-real, isto é, a transferência do domínio aos herdeiros, oponível erga omnes, consuma-se com o registro na matrícula, nos termos do sistema dos arts. 1.245 a 1.247 do CC. Essa diferença não é meramente topológica. A deliberação do CNJ incidiu sobre a resolução 35/07, diploma que disciplina a atividade notarial. A qualificação registral não constituiu objeto do julgamento. Estender a dispensa do plano da lavratura ao plano do registro implicaria ampliar o objeto decidido para alcançar ato que não foi examinado, operação hermenêutica que ultrapassa a interpretação e se converte em inovação. Acresça-se a razão dogmática: sendo o registro o ato que consuma a transmissão e a torna oponível a terceiros, é sobre ele que incide, com maior intensidade, o interesse público na verificação do recolhimento do imposto que grava essa mesma transmissão. 3. O fundamento da exigência registral: Um complexo normativo federal A permanência da exigência do ITCMD na qualificação registral repousa sobre fundamentos de direito federal, aplicáveis de forma uniforme em todo o país, independentemente da legislação tributária de cada estado. O primeiro é o art. 289 da lei de Registros Públicos (lei 6.015/1973), que comete ao oficial o dever de proceder à rigorosa fiscalização do pagamento dos impostos devidos por força dos atos apresentados em razão do ofício. O ITCMD é a hipótese exemplar de sua incidência: cuida-se do imposto que grava a própria transmissão causa mortis cuja publicidade será realizada pela matrícula. Trata-se do tributo do próprio ato. O segundo é a responsabilidade tributária do art. 134, VI, do CTN, que atribui ao registrador responsabilidade solidária pelos tributos devidos sobre os atos praticados em razão de seu ofício. A dispensa do imposto no registro não configuraria simples flexibilização procedimental: importaria assunção, pelo delegatário, de risco patrimonial pessoal e direto. Cumpre precisar a natureza dessa responsabilidade. A do art. 134, VI, do CTN é comumente designada solidária, embora tenha caráter subsidiário quanto ao contribuinte e pressuponha vínculo com o ato praticado e omissão imputável ao delegatário. O relevante, para o que aqui importa, é que se trata de responsabilidade instituída por lei complementar de âmbito nacional, indisponível e insuscetível de afastamento por norma administrativa. Nem provimento correicional, nem orientação de corregedoria, nem deliberação de colégio registral têm aptidão para exonerar o registrador da responsabilidade tributária que a lei federal lhe atribui. Daí a impropriedade de se pretender, no plano infralegal, dispensá-lo da verificação do imposto do ato: a norma que o responsabiliza subsiste, ainda que outra o autorizasse a não fiscalizar, o que o exporia a responder por tributo que deixou de exigir. A solidez desse complexo normativo foi testada perante o STF. Na ADIn 70866, sustentou-se que o art. 289 da LRP e o art. 134, VI, do CTN, entre outros dispositivos, configurariam cobrança antecipada de tributo, com invocação do precedente firmado quanto ao ITBI (ARE 1.294.969, Tema 11247). O plenário não conheceu da ação, reconhecendo que o dever de fiscalização e a responsabilidade solidária compõem um complexo normativo íntegro, não impugnado em sua totalidade. A tese de que a fiscalização do imposto do próprio ato equivaleria a sanção política não prevaleceu. Registre-se, ainda, que o Tema 1124 versa sobre o momento do fato gerador do ITBI, e não sobre a dispensa do dever registral de fiscalização, distinção que obsta sua transposição para afastar o art. 289. O exame do Tema 1074 do STJ exige cuidado, porque ele não constitui objeção externa à deliberação do CNJ aqui analisada: foi, ao revés, uma das próprias razões de decidir invocadas no voto do relator. Cuida-se do precedente firmado pelo STJ no Tema 1074 (REsp 1.896.526/DF, Rel. ministra Regina Helena Costa, 1a seção, j. 26/10/22), segundo o qual, no arrolamento sumário, a homologação da partilha e a expedição do formal de partilha e da carta de adjudicação não se condicionam ao prévio recolhimento do ITCMD. O próprio STJ, contudo, delimitou o alcance da dispensa: o enunciado ressalva expressamente a necessidade de comprovar o pagamento dos tributos incidentes sobre os bens do espólio e suas rendas (arts. 659, § 2º, do CPC e 192 do CTN). Não se tratou, portanto, de uma liberação fiscal irrestrita, mas de uma cisão criteriosa entre o que pode ser postergado e o que permanece indispensável. Esse precedente legitima com folga a deliberação do CNJ para a lavratura da escritura pelo tabelião. Não autoriza, contudo, transpor essa mesma dispensa para o registro imobiliário, e o exame de sua ratio decidendi demonstra a razão dessa impossibilidade. A tese do Tema 1074 ancora-se no art. 659, § 2º, do CPC/15, norma processual específica que, no arrolamento sumário, determina que as questões relativas ao lançamento e ao pagamento do ITCMD sejam remetidas à esfera administrativa, após a homologação. Trata-se, como o próprio STJ assentou, não de dispensa do tributo, mas de postergação autorizada por regra processual expressa, aplicável a um rito judicial determinado. Tanto assim que o art. 654 do CPC condiciona a sentença de partilha, no inventário solene, ao pagamento do imposto de transmissão, e os tribunais têm recusado a extensão do Tema 1074 a esse rito, dotado de requisitos próprios. A dispensa, portanto, tem fundamento legal específico e não se estende, como princípio geral, a qualquer modo de transmissão causa mortis. Ausente, na qualificação registral do título extrajudicial, norma equivalente ao art. 659, § 2º, do CPC, falta o pressuposto que autorizaria a postergação. O registrador não dispõe de um dispositivo que lhe permita remeter o ITCMD à esfera administrativa após o registro; ao contrário, sujeita-se ao art. 289 da LRP, que lhe impõe a fiscalização do pagamento. Invocar o Tema 1074 fora do arrolamento sumário é desprender a conclusão de sua premissa normativa, vício hermenêutico que este artigo procura evitar. O ponto merece registro: se a deliberação se apoiou em precedente consolidado, seu alcance é o alcance daquele precedente, que se ancora em regra de rito judicial sem equivalente na qualificação registral. 4. A tripartição conceitual O tratamento rigoroso da matéria exige distinguir três planos que a leitura corrente tende a fundir em um só, com consequências equivocadas. (I) O ITCMD como imposto do próprio ato, exigível no registro. Incidente sobre a transmissão que a matrícula publiciza, submete-se ao dever de fiscalização do art. 289 da LRP e à responsabilidade solidária do art. 134, VI, do CTN. Permanece exigível na qualificação registral. Cabe precisar o objeto dessa fiscalização: o art. 289 impõe ao oficial a verificação da satisfação do imposto do ato, satisfação que se comprova pelo pagamento ou pela demonstração de suspensão da exigibilidade do crédito, nos termos do art. 151 do CTN. (II) O recolhimento prévio à lavratura, dispensado pelo CNJ. Único plano efetivamente alcançado pela deliberação. O tabelião lavra a escritura independentemente da quitação prévia, consignando a informação do débito e comunicando o ente tributante. Matéria notarial, resolvida no âmbito próprio. (III) As certidões de débitos fiscais pessoais do autor da herança, estranhas ao ato. Débitos que não se referem à transmissão registrada. Sua exigência como condição do registro configuraria, essa sim, a sanção política vedada pela ADIn 394/DF, por converter o registro em instrumento de coação ao pagamento de dívida alheia ao ato praticado. A confusão entre esses planos conduz a erros simétricos: de um lado, dispensar no registro o que somente se dispensou na lavratura (equívoco quanto ao plano I); de outro, submeter o imposto do próprio ato ao regime das certidões de débitos alheios, tratando como sanção política aquilo que é fiscalização legítima do tributo do ato (confusão entre os planos I e III). 5. O regime das certidões de débitos pessoais Delimitado o ITCMD, cumpre tratar das certidões fiscais relativas a débitos pessoais do autor da herança, aquelas que, por não corresponderem ao imposto do ato, não podem condicionar o registro sob pena de sanção política. A prática registral tem construído, para elas, solução que concilia a vedação constitucional com o princípio da publicidade e a concentração dos atos na matrícula (art. 54 da lei 13.097/15). Apresentada no título certidão positiva ou positiva com efeitos de negativa, o registro é praticado, e jamais recusado por esse motivo. A questão que se coloca é como conferir publicidade à situação fiscal noticiada sem convertê-la em óbice registral. A esse propósito, sugere-se o seguinte desenho, em duas averbações de natureza e regime distintos: Primeira averbação, da certidão positiva, de ofício e gratuita. Realizada no momento do registro, independentemente de requerimento, destina-se a publicizar a espécie de certidão apresentada e a situação fiscal do espólio. Por constituir ônus informativo imposto pelo próprio sistema de publicidade registral, e não ato praticado no interesse da parte, sugere-se seja gratuita e não ressarcível. Sua função é dar visibilidade, na matrícula, a dado juridicamente relevante ao conhecimento de terceiros e do adquirente, em consonância com o princípio da concentração. Segunda averbação, da certidão negativa, a requerimento e sem conteúdo econômico. Regularizada a situação e apresentada certidão negativa, pratica-se, a requerimento do interessado, o ato que atualiza o fólio real. Só a negativa serve, porque apenas ela demonstra a extinção do crédito tributário, ao passo que a positiva com efeitos de negativa (art. 206 do CTN) atesta mera suspensão da exigibilidade ou garantia do débito. Por não possuir conteúdo econômico, sugere-se seja remunerado pelo valor mínimo, sem que o montante do débito extinto componha a base de cálculo dos emolumentos. A distinção de regime entre as duas averbações não é arbitrária: separa o ato imposto de ofício, no interesse do sistema de publicidade, do ato requerido pela parte, no interesse dela. O modelo preserva o que é essencial: jamais se obstaculiza o registro em razão de débito pessoal do autor da herança, afastando-se a sanção política; ao mesmo tempo, o fólio real espelha a realidade fiscal em cada etapa, resguardando terceiros e o adquirente, sobretudo quanto ao risco de a alienação vir a ser reputada ineficaz perante a Fazenda na hipótese de fraude à execução (art. 185 do CTN). 6. O que muda na mesa notarial Delimitado o alcance da deliberação, cabe examinar o plano em que ela produz efeito imediato. A nova redação do art. 15 não se limita a retirar um obstáculo: substitui a verificação prévia do pagamento por deveres novos, cujo destinatário é o tabelião. A troca é expressa na razão de decidir, para a qual a cobrança futura fica assegurada pela consignação da ciência das partes e pela comunicação do ato à Fazenda estadual. O § 1º tem um único destinatário. Cabe ao tabelião consignar na escritura a declaração das partes, orientadas por seu advogado assistente, quanto à ciência da obrigação tributária principal e acessória e quanto à apuração e ao recolhimento do imposto conforme a legislação estadual ou distrital, com menção a eventuais isenções ou não incidências. A referência ao advogado qualifica o estado em que as partes devem chegar ao ato e não desloca para ele o dever, que é de quem lavra. Da enumeração resulta que fórmula genérica não satisfaz o dispositivo, e que ao tabelião toca verificar se a declaração exibe o conteúdo exigido. A declaração assim construída tem função protetiva. O prazo da legislação estadual não se suspende com a dispensa, e a escritura lavrada sem quitação não interrompe a contagem de multa e juros nem recupera desconto perdido. Em São Paulo, o art. 17 da lei 10.705/00 autoriza redução para o recolhimento em noventa dias da abertura da sucessão e sujeita a penalidades o pagamento posterior a cento e oitenta dias. Quem adia não deixa de pagar: paga mais tarde e mais caro, e sob o conhecimento do fisco, a quem o § 2º manda comunicar a lavratura. Um ganho concreto passou ao largo do debate. A redação anterior exigia que o recolhimento antecedesse a lavratura, e dela se extraía a quitação integral, razão por que o parcelamento não abria a via da escritura. Em São Paulo, o art. 32 da lei 10.705/2000 admite o pagamento do débito da transmissão causa mortis em até doze prestações, mas o art. 25 vedava a lavratura sem prova do pagamento. Se a escritura pode agora ser lavrada sem pagamento algum, com muito mais razão pode sê-lo com parcelamento em curso, hipótese em que o crédito está confessado e com exigibilidade suspensa pelo art. 151, VI, do CTN. O § 2º impõe a comunicação da lavratura ao fisco em cinco dias, ou conforme dispuser a legislação tributária. A ressalva final é significativa, porque devolve ao ente estadual a definição do prazo e do meio. Os sistemas de declaração do ITCMD foram desenhados sob premissa inversa, a de que a escritura se lavra depois da guia paga, e o ajuste desses sistemas é o desdobramento natural da regra. Até que ele venha, o cumprimento se faz por meio oficial e rastreável, com prova arquivada. A definição do canal cabe às administrações tributárias estaduais em conjunto com as corregedorias-gerais de justiça, e não a cada serventia. Uma última observação merece ser feita. Na mesma sessão, o Plenário rejeitou os outros dois pedidos do requerente, o de dispensar a prévia decisão judicial no inventário com testamento revogado ou caduco e o de dispensar a resolução judicial sobre guarda, visitação e alimentos nos divórcios com filhos menores ou incapazes. Quanto aos inventários com herdeiro menor ou incapaz, admitidos pela resolução CNJ 571/24, destaca-se que a intervenção do ministério Público se destina ao exame da partilha à luz do interesse do incapaz, não à arrecadação estadual, e a recusa de manifestação favorável por falta de quitação restabeleceria, por outro órgão, o obstáculo que a deliberação afastou. O que cabe ao parecer é a exigência de informação sobre a situação fiscal do espólio e sobre a origem dos recursos do pagamento, com atenção ao efeito de multa e juros sobre o quinhão protegido. 7. Conclusão A deliberação do CNJ deve ser acolhida no que de fato decidiu: liberou a lavratura da escritura de uma exigência que, naquele momento e naquele plano, operava como sanção política. Não constitui, todavia, autorização para dispensar o ITCMD na qualificação registral, e a leitura que assim a compreende incorre em ampliação indevida do julgado. A permanência da exigência no registro não é resquício de formalismo, mas decorrência de um complexo normativo federal coeso, formado pelo art. 289 da LRP e pelo art. 134, VI, do CTN, cuja incindibilidade o próprio STF reconheceu ao afastar, na ADIn 7086, a impugnação seletiva de apenas um de seus elementos. O imposto sobre a transmissão causa mortis não foi suprimido pela deliberação; deslocou-se o momento de sua verificação, da esfera notarial para a registral, onde subsiste íntegro o dever de fiscalização. No direito registral, a precisão conceitual é condição de segurança jurídica e de correta distribuição das responsabilidades entre os agentes do sistema. No plano institucional, resta o apelo à uniformidade: os sistemas estaduais de arrecadação e os órgãos que intervêm no procedimento não podem restabelecer, cada qual em seu âmbito, o obstáculo que a deliberação afastou.  ______________ 1 STF, Súmula 70. É inadmissível a interdição de estabelecimento como meio coercitivo para cobrança de tributo. 2  STF, Súmula 323. É inadmissível a apreensão de mercadorias como meio coercitivo para pagamento de tributos. 3 STF, Súmula 547. Não é lícito à autoridade proibir que o contribuinte em débito adquira estampilhas, despache mercadorias nas alfândegas e exerça suas atividades profissionais. 4 CONSTITUCIONAL. DIREITO FUNDAMENTAL DE ACESSO AO JUDICIÁRIO. DIREITO DE PETIÇÃO. TRIBUTÁRIO E POLÍTICA FISCAL. REGULARIDADE FISCAL. NORMAS QUE CONDICIONAM A PRÁTICA DE ATOS DA VIDA CIVIL E EMPRESARIAL À QUITAÇÃO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS. CARACTERIZAÇÃO ESPECÍFICA COMO SANÇÃO POLÍTICA. (ADI 394, Relator(a): JOAQUIM BARBOSA,  julgado em 25-09-2008). 5  STJ, Tema Repetitivo 1074. No arrolamento sumário, a homologação da partilha ou da adjudicação, bem como a expedição do formal de partilha e da carta de adjudicação, não se condicionam ao prévio recolhimento do imposto de transmissão causa mortis, devendo ser comprovado, todavia, o pagamento dos tributos relativos aos bens do espólio e às suas rendas, a teor dos arts. 659, § 2º, do CPC/2015 e 192 do CTN. 6  EMENTA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE CUMULADA COM ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. ART. 1º, § 2º, DA LEI Nº 7.433/1985, ART. 289 DA LEI Nº 6.015/1973 E ART. 30, XI, DA LEI Nº 8.935/1994. DEVER DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES DE FISCALIZAR O RECOLHIMENTO DOS TRIBUTOS INCIDENTES EM ATOS DE SUA COMPETÊNCIA. ALEGADA COBRANÇA ANTECIPADA DO IMPOSTO DE TRANSMISSÃO DE IMÓVEIS (ITBI). INVOCADO O PRECEDENTE FORMADO NO ARE 1.294.969/SP (TEMA Nº 1124 DA REPERCUSSÃO GERAL). AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DE TODO O COMPLEXO NORMATIVO. AÇÃO NÃO CONHECIDA. 1. É firme a linha decisória deste Supremo Tribunal Federal no sentido de que a ausência de impugnação da integralidade do complexo normativo torna o provimento judicial pretendido ineficaz e, por isso mesmo, destituído de utilidade, de modo a afastar a caracterização do interesse de agir da parte autora. 2. Tal ratio aplica-se não apenas na hipótese de identidade mas também conexão ou dependência normativa, a evitar a quebra da organicidade do sistema jurídico. "Não se admitem, em sede de controle normativo abstrato, impugnações isoladas ou tópicas, sob pena de completa desarticulação e desagregação do próprio sistema normativo a que se acham incorporadas" (ADI 2422-AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Pleno, j. 10.5.2012, DJe 30.10.2014). 3. Os preceitos questionados, ao estabelecerem o poder-dever de exigir a comprovação do recolhimento de tributo para a prática do ato notarial ou registral, estão imbricados com a responsabilidade tributária dos notários e registradores. 4. Evidenciada a simbiose normativa, a não contestação do art. 134, VI, do Código Tributário Nacional, que estabelece referida responsabilidade tributária, implica ausência de impugnação de todo o complexo normativo. 5. Ação não conhecida (ADI 7086, Relator(a): ROSA WEBER, Tribunal Pleno, julgado em 21-06-2022, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-126  DIVULG 28-06-2022  PUBLIC 29-06-2022) 7 RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPOSTO SOBRE TRANSMISSÃO DE BENS IMÓVEIS - ITBI. FATO GERADOR. COBRANÇA DO TRIBUTO SOBRE CESSÃO DE DIREITOS. IMPOSSIBILIDADE. EXIGÊNCIA DA TRANSFERÊNCIA EFETIVA DA PROPRIEDADE IMOBILIÁRIA MEDIANTE REGISTRO EM CARTÓRIO. PRECEDENTES. MULTIPLICIDADE DE RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS. ENTENDIMENTO CONSOLIDADO NA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. CONTROVÉRSIA CONSTITUCIONAL DOTADA DE REPERCUSSÃO GERAL. REAFIRMAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AGRAVO CONHECIDO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DESPROVIDO. (ARE 1294969 RG, Relator(a): MINISTRO PRESIDENTE, Tribunal Pleno, julgado em 11-02-2021, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-031 DIVULG 18-02-2021 PUBLIC 19-02-2021). ____________ Referências BRASIL. Lei 5.172, de 25 de outubro de 1966. Código Tributário Nacional. Arts. 134, VI; 151, VI; 185; 192; 206. BRASIL. Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Lei de Registros Públicos. Art. 289. BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Arts. 1.245 a 1.247. BRASIL. Lei 11.441, de 4 de janeiro de 2007. BRASIL. Lei 13.097, de 19 de janeiro de 2015. Art. 54. BRASIL. Lei 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Arts. 654 e 659, § 2º. SÃO PAULO. Lei 10.705, de 28 de dezembro de 2000. Arts. 17, 25 e 32. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução 35, de 24 de abril de 2007. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução 571, de 26 de agosto de 2024. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução 695, de 26 de agosto de 2026. DJe n. 206/2026, disponibilizado em 28 de agosto de 2026. _____________ Jurisprudência BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Pedido de Providências 0008622-24.2025.2.00.0000. Rel. Min. Mauro Campbell Marques. Plenário, 12ª Sessão Ordinária, j. 18 ago. 2026. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmulas 70, 323 e 547. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 394/DF. Relator(a): JOAQUIM BARBOSA,  julgado em 25-09-2008. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 7086. Relator(a): ROSA WEBER, Tribunal Pleno, julgado em 21-06-2022 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ARE 1.294.969 (Tema 1124). Relator(a): MINISTRO PRESIDENTE, Tribunal Pleno, julgado em 11 fev. 2021. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp n. 1.896.526/DF (Tema 1074). Rel. Min. Regina Helena Costa. Primeira Seção, j. 26 out. 2022, DJe 28 out. 2022.
terça-feira, 8 de setembro de 2026

A matrícula como token original

Dados não são informação; informação não é certeza; certeza não é confiança. É a publicidade registral que converte informação em segurança jurídica. Essa cadeia de proposições resume a resposta do Direito Registral ao dataísmo - a crença de que a abundância de dados, processados em velocidade crescente, produziria por si mesma certeza e segurança jurídica. No mercado de tokenização de ativos do mundo real (RWA), essa crença se transformou em hype: o investidor olha a interface amigável do celular ou tablet e confunde a sofisticação do código com certeza de titularidade. Não se confunde. Em 2026, a realidade confirmou o que a dogmática já prenunciava. Uma das plataformas mais conhecidas de tokenização imobiliária do mundo, que prometia "democratizar" o investimento em imóveis residenciais norte-americanos, anunciou a liquidação voluntária de um portfólio estimado em US$ 140 milhões. Milhares de investidores, espalhados por dezenas de países, viram-se desamparados pela própria arquitetura que prometia protegê-los. Mais de setecentos imóveis haviam sido incorporados às ofertas; no litígio de Detroit, os bens passaram à supervisão de um fiduciário especialmente designado pelo juízo local. O caso não é o centro do nosso argumento, mas a confirmação empírica de uma tese anteriormente formulada.1 A cegueira estrutural da blockchain A blockchain assegura a imutabilidade lógica dos dados, mas revela-se estruturalmente incapaz de verificar sua veracidade originária e, por si só, de assegurar a continuidade jurídica das transmissões sucessivas. Esta não se reduz à sucessão cronológica dos sujeitos: pressupõe a sucessividade das titularidades e dos próprios direitos, de modo que cada mutação encontre no registro anterior tanto o sujeito legitimado quanto o direito de que ele pode dispor. É nesse ponto que a técnica registral se articula com a regra de direito material expressa no brocardo nemo plus iuris ad alium transferre potest, quam ipse haberet: ninguém pode transferir a outrem mais direito do que aquele de que dispõe. A sequência informacional pode, portanto, ser íntegra e, ainda assim, juridicamente descontínua. A blockchain aceita e pereniza tanto a verdade quanto a fraude. Não examina a existência, a validade ou a eficácia jurídicas do título, tampouco eventual erro, falsidade ou inexatidão. Aqui se revela o clássico problema do oráculo: a rede valida a coerência interna de seus registros, sem assegurar a congruência entre o dado inserido on-chain e a realidade externa off-chain. No plano jurídico-real, insuficiência sistêmica reclama uma instância institucional capaz de aferir a existência jurídica do ativo, a titularidade e a disponibilidade do disponente e a conformidade jurídica do título e sua congruência com a situação tabular. A continuidade registral pressupõe que o sujeito e o direito que ele pretende transmitir ou onerar encontrem legitimação no estado jurídico anterior. Esta apuração é resultado do juízo de qualificação do registrador - o "oráculo" do sistema de registro de propriedades no Brasil, muito antes de essa figura ingressar no léxico tecnológico. É nesse ponto que a figura do gatekeeper oferece uma analogia funcional com a qualificação registral. Aproximação que não é de identidade estrita: o gatekeeper de Kraakman2 é um terceiro capaz de interromper uma conduta ilícita pela retirada de seu apoio; o registrador, delegatário de função pública, exerce, por dever legal, o controle preventivo da legalidade e da admissibilidade dos títulos ao Registro. Méndez González reconhece essa afinidade ao identificar nos Registros uma modalidade de realização do Direito ex ante (law enforcement). A qualificação registral não se limita à conformidade interna do negócio; abrange o conjunto dos requisitos jurídicos registrais e de ordem pública incidentes sobre as operações suscetíveis de registro. Nessa perspectiva, os gatekeepers são guardiães da legalidade.3 A venda do Viaduto do Chá Retomemos o fio. Já em 2018, num exercício conceitual apresentado no encontro do IPRA-CINDER4 na Colômbia, registrei em blockchain a venda fraudulenta do Viaduto do Chá, bem de domínio público inalienável localizado no coração da capital paulistana. A rede acolheu confortavelmente a alienação de um bem sobre o qual o alienante jamais teve qualquer poder jurídico de disposição.5 O que então parecia apenas demonstração acadêmica encontrou agora sua contraprova empírica: a investigação do Wall Street Journal revelou imóveis vagos e deficitários que "rendiam" 10% a 15% aos titulares dos tokens; identificou vinte imóveis que, segundo os registros públicos, não pertenciam à empresa tokenizadora, embora continuassem abertos a investimentos e distribuições de rendimentos. Em janeiro de 2026, mais de 2.700 carteiras recebiam pagamentos vinculados a esses tokens, fenômeno que, cruzado com os demais elementos da investigação, já sinalizava a fragilidade do lastro. O que a rede registrou fielmente foi, no plano jurídico-real, um "nonada": direitos economicamente referidos a bens que não integravam o patrimônio da entidade que, segundo a própria estrutura da oferta, deveria lastreá-los. Um registro eletrônico, em tese incorruptível, não vale mais do que o seu próprio código. Lessig já advertira que a ausência de regulação estatal no ciberespaço não significa ausência de regulação: o código regula, e os valores que ele incorpora (ou omite) são escolhas de quem o escreve.6 O registro da transmissão na blockchain incorporou a imutabilidade e omitiu a veracidade; o resultado é uma ordem normativa privada que confere eficácia aparente ao nonada jurídico-real. Desancorada de uma fonte institucional de verdade jurídica, a rede pode revelar menos que o próprio silêncio: reveste as transações com aparência de legalidade e fidedignidade. Reconheçamos o ponto frágil do sistema: assegurar que o token efetivamente represente os direitos que diz representar. Tratando-se de ativos do mundo real, são necessários intermediários que validem não só a existência do bem, mas a titularidade de quem o oferta, os direitos que ostenta e a origem da renda. Imago iuris sine substantia O investidor que contempla o código na tela, convencido de deter fração ideal de um imóvel que jamais viu, detém o signo e não a coisa - ao menos no caso da propriedade imobiliária. Mesmo em relação aos direitos reais limitados, de gozo ou de garantia, a tokenização desvinculada do registro carece do intermedium qualificado, o terceiro de fé pública, que garanta o vínculo entre o signo e o objeto. No modelo retratado na reportagem do WSJ, o que se busca adquirir não é o direito real em si, mas um direito sobre direitos descolado do microssistema jurídico-real da propriedade: uma imagem jurídica desprovida de substância jurídico-real. A tokenização à margem do registro rompe a mediação entre signo e objeto pois conserva a representação, dispensa a verificação do objeto e substitui a instância institucional de qualificação por um protocolo que apenas traduz signos com outros signos nos domínios da lex cryptographia.7 Em grande parte das estruturas de tokenização imobiliária, o adquirente do token não se torna proprietário do bem nem titular de direitos reais limitados (usufruto, servidão, direitos de garantia etc.); recebe, em regra, uma posição obrigacional ou societária. Foi exatamente essa a arquitetura do caso norte-americano. Os investidores adquiriam participação em series limited liability companies de Delaware, sociedades que figuravam como titulares no sistema tradicional de recording. A tokenização não substituiu o registro público: apenas lhe sobrepôs uma camada privada e opaca, estranha à lógica dos sistemas registrais de titularidades desenvolvidos nos ordenamentos de tradição romano-germânica. Quando o modelo ruiu, a accountability correu pelos canais tradicionais - registros públicos, juízo com competência territorial, fiduciário nomeado pelo tribunal. O sistema que a plataforma prometia superar revelou-se, afinal, a infraestrutura institucional de garantia e tutela à qual os lesados tiveram de recorrer. A publicidade registral como tecnologia de confiança Como negociar com quem não conhecemos? Nas sociedades hiperconectadas, as transações estendem-se de São Paulo a Madri em frações de segundo, contratos entre perfeitos estranhos, tendo por objeto coisas que nenhuma das partes jamais viu. A publicidade registral não é mera difusão de informações. É publicidade jurídica: cognoscibilidade operada pela engenharia dos registros públicos, revestida de oficialidade, fé pública e de poderosas presunções legais. O oficial de registro não é mero amanuense nem hub de dados; ele é o agente da depuração jurídica dos títulos, o gatekeeper que controla ex ante a legalidade e a admissibilidade do título cuja inscrição produzirá a mutação jurídico-real correspondente. A publicidade registral cumpre a função que faltou no caso norte-americano: não apenas informar, mas qualificar os elementos jurídico-reais e imputar direitos - vincular a coisa ou o direito real a um titular determinado, contra quem incidem as obrigações propter rem, os tributos, as posturas edilícias e a responsabilidade civil. A pulverização econômica entre milhares de detentores de tokens aprofundou a distância entre beneficiários econômicos, gestores e responsáveis pela conservação dos imóveis, configurando uma espécie de absenteísmo fundiário. Todo o estatuto jurídico da propriedade imobiliária pressupõe o contrário: a determinação jurídica dos titulares, aos quais o ordenamento imputa deveres concretos e garante direitos. A função social da propriedade não é cláusula vaga, mas ela é a síntese constitucional dos direitos, deveres e imputações que conformam o estatuto jurídico da propriedade. Concentração, continuidade e qualificação Há, ademais, uma razão técnica. Para que a blockchain funcione como base confiável de titularidades, seria indispensável representar, de forma integrada ao token da propriedade, os direitos reais limitados, bem como ônus, limitações e restrições que sobre ela recaiam. O que a tecnologia promete como desafio futuro, a matrícula brasileira realiza estruturalmente, mediante os princípios da concentração e da continuidade. Os direitos, ônus e restrições que a lei sujeita à publicidade registral concentram-se, em regra, na matrícula; os atos de disposição, por sua vez, devem encadear-se à titularidade inscrita. O pressuposto de um novo registro é a cadeia de titularidades "à vista da qual só se fará a inscrição de um direito se o outorgante dele aparecer no registro como seu titular", como grafou Afrânio de Carvalho a seu tempo. Assim, conclui, "as sucessivas transmissões, que derivam umas das outras, asseguram sempre a preexistência do imóvel no patrimônio do transferente".8 A matrícula reúne, de modo estrutural, várias das virtudes que se costuma atribuir ao token: representação unitária, integridade, oponibilidade erga omnes e, sobretudo, qualificação jurídica preventiva. O registrador, investido de fé pública, filtra impurezas já no ingresso do título, prevenindo conflitos e evitando longas e custosas discussões nos tribunais. O Torrens como antecedente da tokenização registral O Registro Torrens antecipou, em meio cartular, a operação hoje atribuída ao token: destacar da materialidade da coisa uma representação singular de sua situação jurídico-real, apta a circular sob o controle de uma fonte institucional reconhecida legalmente. No modelo brasileiro de 1890, a matrícula era lançada em duplicata; o título entregue ao proprietário fazia prova dos direitos nele especificados, e o extrato da matriz permitia alienar, hipotecar ou onerar o imóvel até fora do lugar de sua situação. Enquanto o extrato permanecia em circulação, a matriz ficava bloqueada para atos concorrentes; as mutações cartulares retornavam depois ao fólio, preservadas a prioridade e a continuidade. Era, pois, uma técnica de mobilização da riqueza imóvel: não fazia circular a coisa, mas a representação juridicamente qualificada do domínio, das hipotecas e dos demais ônus reais. Nesse sentido preciso, o Torrens foi uma experiência avant la lettre de tokenização registral - com uma diferença decisiva: o token cartular não criava sua própria verdade, mas recebia-a do registro público, da autoridade estatal que o reconhecia e da tutela dos tribunais.9 A arquitetura de integração correta não é a da matrícula que se curva à blockchain, mas a da blockchain que assimila a virtude conceitual e estrutural da matrícula. Tivessem os tokens da plataforma norte-americana nascido ancorados num fólio real, com qualificação prévia da titularidade e concentração dos direitos, ônus, limitações e restrições incidentes sobre o imóvel, a emissão de tokens lastreados em imóveis alheios teria sido barrada na porta de entrada. Flauzilino Araújo dos Santos aponta o caminho: submeter a inovação ao império da Lei vigente, fazendo a automação e a liquidação instantânea (atomic swap) operarem em interoperabilidade com a matrícula eletrônica. O eixo é a qualificação registral de algoritmos: padrões de contratos inteligentes previamente depositados, cuja conformidade jurídica seja qualificada pelo registrador, de modo que a automação nasça em harmonia com a segurança jurídica. Há antecedente funcional quase nonagenário no direito brasileiro: o depósito de contratos-tipo de compromisso de venda de lotes, previsto no decreto-lei 58/1937, e seus desdobramentos posteriores na legislação habitacional (BNH) e relativa a parcelamentos e incorporações.10 O horizonte comparado confirma a direção. Em fevereiro de 2026, a Arábia Saudita realizou sua primeira transferência de título imobiliário tokenizado, em integração com o Real Estate Registry. O registro estatal permanece como fonte jurídica da titularidade; o token não o substitui, mas representa digitalmente uma posição fundada no fólio oficial.11 Justiça preventiva versus reparação ex post A objeção de que o colapso seria "mera fraude de gestão" milita contra quem a formula. Se a tecnologia emite, circula e remunera tokens de imóveis que não pertenciam à empresa com a mesma eficiência com que o faria para ativos lastreados, ela não elimina a necessidade da qualificação institucional: apenas a remove, sem nada pôr no lugar. A distinção de fundo separa a justiça preventiva da reparação ex post. Nos sistemas de notariado latino, o agente de fé pública controla, previamente, a legalidade do negócio e autentica a identidade e capacidade das partes. Não se contrata com avatares. No modelo norte-americano de conveyancing, a investigação prévia do título é confiada predominantemente a agentes privados; o title insurance, por seu turno, cobre determinados riscos de vícios pretéritos que escapem a esse exame, deslocando para a reparação ex post as consequências econômicas de sua ocorrência. A crise das hipotecas subprime já mostrara o perigo de fazer circular sofisticadas representações financeiras quando a qualidade do lastro se perde nas camadas da intermediação. A plataforma colapsada foi a reprise de um subprime em miniatura, com fluxos pagos aos investidores apesar da fragilidade e, em alguns casos, da ausência do lastro imobiliário anunciado. Sem qualificação na origem, a promessa de transparência radical produziu opacidade - e a opacidade instantânea é a mais perigosa de todas. Conclusão Flauzilino Araújo dos Santos remata: "a tecnologia não cria domínio; apenas cria registros de informação."12 Realmente, o que constitui, declara, modifica, conserva, assegura a disponibilidade registral e extingue direitos reais no direito brasileiro é a causa jurídica formalizada em título hábil e sua inscrição na matrícula do imóvel. Quando a representação digital se descolou da coisa, restaram aos lesados exatamente as mesmas instituições que a plataforma prometera superar: o tribunal do lugar da coisa, o fiduciário por ele nomeado, os registros públicos. As instituições provadas pelo tempo (e não um mero algoritmo) são as que convertem informação em confiança. A tecnologia deve servir para acelerar a circulação da riqueza imobiliária. Será bem-vinda quando qualificada na origem e ancorada no fólio real. É o Registro de Imóveis, em sua histórica e renovada missão, que confere à propriedade a certeza jurídica necessária à sua plena eficácia. Prudentia iuris não é resistência à inovação. É o alicerce de uma tradição que se regenera em cada tempo e, por isso mesmo, não permite que o fetiche da inovação tecnocrática destrua as instituições jurídicas nem desampare inocentes e defraude seus sonhos. _____ 1. THE WALL STREET JOURNAL. How a $140 million crypto real estate empire fell apart. [Vídeo]. YouTube, jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 7 ago. 2026. Ver também: CRYPTO BRIEFING. Crypto real estate empire collapses as $140 million tokenized property venture enters liquidation. 28 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 24 ago. 2026; MONDRY, Aaron. Crypto real estate company plans to sell over 700 Detroit properties. Outlier Media, Detroit, 16 jul. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 24 ago. 2026. 2. KRAAKMAN, Reinier H. Gatekeepers: The Anatomy of a Third-Party Enforcement Strategy. Journal of Law, Economics, & Organization, v. 2, n. 1, p. 53-104, Spring 1986. À p. 54, nota 3, KRAAKMAN define a figura do gatekeeper: "In this essay, I restrict the term gatekeepers to third parties who can disrupt misconduct by withholding support, and the term gatekeeper liability to legal regimes that impose civil or criminal sanctions on gatekeepers who fail to withhold support". 3. MÉNDEZ GONZÁLEZ, Fernando P. El Registro de la Propiedad y Mercantil como instrumento al servicio de la sostenibilidad - Expert's Corner Report. Copenhague: AEMA, 2002, p. 13 et seq. Do mesmo autor, confira: A Função Econômica da Publicidade Registral. Revista de Direito Imobiliário, n. 55, jul./dez. 2003, p. 147 e 158; ARRUÑADA, Benito. Organização do Registro da Propriedade em Países em Desenvolvimento. Revista de Direito Imobiliário, n. 56, jan./jun. 2004, p. 145. 4. IPRA-CINDER - International Property Registries Association - Centro Internacional de Derecho Registral. 5. JACOMINO, Sérgio. Blockchain e Registro de Imóveis: o contentor e o conteúdo. In: SREI - blockchain registral - Colômbia. São Paulo: Observatório do Registro, 4 maio 2018. Disponível aqui. Acesso em 23 ago. 2026. 6. LESSIG, Lawrence. Code: version 2.0. New York: Basic Books, 2006, p. 5: "That regulator is the obscurity in this book's title - Code. In real space, we recognize how laws regulate - through constitutions, statutes, and other legal codes. In cyberspace we must understand how a different 'code' regulates - how the software and hardware (i.e., the 'code' of cyberspace) that make cyberspace what it is also regulate cyberspace as it is. As William Mitchell puts it, this code is cyberspace's 'law.' 'Lex Informatica,' as Joel Reidenberg first put it, or better, 'code is law.'" Em tradução livre: "Esse regulador é a obscuridade no título deste livro - o Código. No espaço real, reconhecemos como as leis regulam por meio de constituições, estatutos e outros códigos legais. No ciberespaço, devemos compreender como um 'código' diferente regula - como o software e o hardware (isto é, o 'código' do ciberespaço), que fazem do ciberespaço o que ele é, também o regulam tal como ele é. Como diz William Mitchell, esse código é a 'lei' do ciberespaço. 'Lex Informatica', como primeiro a chamou Joel Reidenberg, ou melhor: 'code is law'." A obra está publicada sob licença Creative Commons (CC BY-SA) e disponível aqui. Acesso em: 23 ago. 2026. 7. WRIGHT, Aaron; DE FILIPPI, Primavera. Decentralized Blockchain Technology and the Rise of Lex Cryptographia. SSRN, 10 mar. 2015, p. 28. Disponível aqui. Acesso em: 23 ago. 2026. Ali se anteviu que registros imobiliários em blockchain reduziriam drasticamente a necessidade de intermediários, depositando-se confiança na certeza matemática da tecnologia. O caso aqui examinado inverte a profecia: a matemática assegurou o contentor e perenizou o nonada. 8. CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1982, p. 304. 9. A "matrícula" fez o seu début no direito registral imobiliário brasileiro com o Decreto 451-B, de 31.5.1890, e seu regulamento, o Decreto 955-A, de 5.11.1890. A experiência frustrânea de sua inteira implantação no território nacional previa um título depurado na origem, oponível erga omnes, circulável com segurança jurídica. Era um token antes do seu tempo. 10. SANTOS, Flauzilino Araújo dos. Tokenização imobiliária e o Registro de Imóveis - o Registro de Imóveis na gestão de riscos de portfólios de ativos imobiliários tokenizados no Brasil. São Paulo: Mirante, 2026. Sobre os antecedentes normativos dos contratos-tipo ou contratos-padrão, cf. Decreto-Lei n. 58, de 10.12.1937, arts. 1º, III, e 18, § 2º; Decreto n. 63.182, de 27.8.1968, art. 11, parágrafo único; Lei n. 4.591, de 16.12.1964, art. 67, §§ 1º-4º; Lei n. 6.766, de 19.12.1979, arts. 18, VI, e 26. 11. Sobre a experiência saudita ver: SAUDI ARABIA. REAL ESTATE GENERAL AUTHORITY - REGA. Law of Real Estate Registration, especialmente arts. 1º, 4º e 13. Disponível aqui. Acesso em: 24 ago. 2026. Ver também: SANTOS, Flauzilino Araújo dos, op. cit., p. 79-82. 12. SANTOS, Flauzilino Araújo dos, op. cit., p. 38.
Introdução A crise do modelo econômico baseado exclusivamente na competição e na acumulação de capital tem revelado a insustentabilidade de um paradigma que polariza a sociedade entre vencedores e perdedores. Nesse cenário, a economia solidária emerge não apenas como uma alternativa ao capitalismo, mas como um novo modo de gestão fundamentado na isonomia, na cooperação e na racionalidade substantiva, conforme defende a escola brasileira de gestão social (FRANÇA FILHO, 2008). O Brasil assiste, recentemente, a um movimento legislativo significativo no campo da economia solidária. A promulgação da lei 15.068, de 23/12/14, que dispõe sobre os empreendimentos de economia solidária e cria o Sistema Nacional de Economia Solidária (Sinaes), inaugura uma nova fase no reconhecimento jurídico dessas formas de organização (BRASIL, 2024). Em sequência, o projeto de lei 4.784/26, em 24/7/26, dispõe sobre a criação e funcionamento das Cooperativas Solidárias, visando a promoção social da cidadania e da organização coletiva mutualista (BRASIL, 2026). O presente artigo propõe-se a analisar a natureza jurídica desses entes - cooperativas solidárias, bancos solidários e empreendimentos de economia solidária -, demonstrando que sua essência associativista e não lucrativa demanda o registro no Registro Civil das pessoas jurídicas, em conformidade com o sistema civilista brasileiro. Articula-se, para tanto, a doutrina da economia solidária com os requisitos fiscais aplicáveis às organizações da sociedade civil (OSCs), evidenciando a coerência que deve existir entre a qualificação jurídica, o órgão de registro e o regime tributário dessas entidades. A doutrina da economia solidária e a racionalidade substantiva A economia solidária, enquanto campo teórico e prático, constitui um modo de organização da produção, comercialização, finanças e consumo de produtos e serviços que tem como princípios a autogestão, a cooperação, a solidariedade e a sustentabilidade. Sua construção conceitual resulta da contribuição de diversos autores, brasileiros e estrangeiros, que, ao longo das últimas décadas, edificaram um corpus teórico robusto. 2.1   Fundamentos conceituais: Paul Singer e a escola brasileira A economia solidária fundamenta-se na propriedade coletiva e na liberdade individual, distinguindo-se da empresa capitalista, pautada pela heterogestão e pela maximização do lucro. Paul Singer, principal expoente da doutrina brasileira da economia solidária, conceitua esses arranjos como formas de organização econômica baseadas na autogestão, na cooperação e na solidariedade, nas quais cada sócio possui um voto nas assembleias e o excedente é revertido para o coletivo, e não para o acúmulo individual (SINGER, 2002). A autogestão, núcleo conceitual da economia solidária, baseia-se na administração coletiva dos produtores, em que o poder decisório é distribuído entre os membros. Diferentemente da empresa capitalista, em que a propriedade dos meios de produção confere poder de comando ao capitalista, na empresa solidária, os trabalhadores são simultaneamente proprietários e gestores, praticando a soberania assemblear e a singularidade de voto. Como ensina Singer (2002, p.14). A empresa solidária se administra democraticamente, ou seja, pratica a autogestão. Quando ela é pequena, todas as decisões são tomadas em assembleias, que podem ocorrer em curtos intervalos, quando há necessidade. Luiz Inácio Gaiger (2013) enfatiza a pluralidade de formas que a economia solidária pode assumir, desde cooperativas até grupos informais de produção, destacando que o elemento unificador é a prática da autogestão e da mutualidade. Antônio David Cattani (2003) sustenta que a economia solidária representa não apenas uma alternativa econômica, mas um projeto societário que busca a superação das relações mercantis baseadas na exploração do trabalho. 2.2   A gestão social e a racionalidade substantiva França Filho (2008), ao definir a gestão social, defende que a administração deve ser pensada a partir do espaço público e da governança democrática, distanciando-se da síndrome comportamental das organizações tradicionais. A gestão social expressa a racionalidade substantiva, tendo como direcionamento o interesse público social, em contraposição à racionalidade instrumental que preside as organizações capitalistas. 2.3   Contribuições estrangeiras: Laville, Razzeto e Coraggio Jean-Louis Laville (2010) articula a economia solidária com a teoria da democracia, sustentando que as iniciativas de economia solidária contribuem para a revitalização do espaço público. Luis Razeto (1986), autor chileno, introduz o conceito de "fator C" - o fator de cooperação - como elemento distintivo das experiências de economia solidária. Para Razeto (1986), enquanto a economia capitalista se organiza em torno do fator capital, a economia de solidariedade se estrutura primordialmente em torno do fator cooperação. José Luiz Coraggio (2011) contribui com a formulação da "outra economia" como projeto societário centrado no trabalho e na reprodução da vida. Coraggio (2011, p. 45) ensina que: "La economia social y solidaria no es um sector de La economía, sino um proyecto de acción colectiva (social y política) dirigido a contrarrestar la tendencia del sistema capitalista a desvincular la economia de las necesidades sociales y de los límites de la naturaleza." A natureza jurídica das cooperativas no sistema civilista brasileiro 3.1   A teoria da empresa e a classificação das cooperativas como sociedades simples A natureza jurídica da cooperativa é rigidamente definida pelo ordenamento civilista brasileiro. O parágrafo único do art. 982 do CC (lei 10.406/02) estabelece que, independentemente de seu objeto, considera-se simples a cooperativa (BRASIL, 2002). Fábio Ulhoa Coelho (2003) interpreta esse dispositivo sob a ótica da teoria da empresa, afirmando que as sociedades cooperativas são necessariamente sociedades exercentes de atividades civis, não se submetendo ao regime jurídico empresarial. 3.2   A competência registral: Registro Civil das pessoas jurídicas como órgão adequado O local correto e legalmente competente para o registro dos atos constitutivos das cooperativas é o Registro Civil das pessoas jurídicas. O art. 1.150 do CC estabelece que o empresário e a sociedade empresária vinculam-se ao Registro Público de Empresas Mercantis, enquanto a sociedade simples vincula-se ao Registro Civil das pessoas jurídicas (BRASIL, 2002). Estudo comparado: Economia solidária e natureza associativista A lei 15.068/24 incluiu os empreendimentos de economia solidária como nova categoria de pessoa jurídica de direito privado no art. 44, inciso VII, do CC. O parágrafo 2º do referido artigo estabelece que "as disposições concernentes às associações se aplicam subsidiariamente aos empreendimentos de economia solidária", reafirmando a natureza associativista e civilista desses entes. A lei define, em seu art. 4º, os critérios para qualificação, exigindo organizações autogestionárias cujos membros exerçam coletivamente a gestão e a decisão sobre a partilha dos resultados. O presente estudo compara a teoria da economia solidária e a natureza associativista, demonstrando que o formato associativista, longe de ser inadequado, corresponde à forma jurídica predominante e costumeiramente adotada pelos empreendimentos de economia solidária no Brasil, reconhecida pelos órgãos governamentais como adequada para essa modalidade econômica. 4.1   A predominância do formato associativista nos dados do CADSOL e SINAES Os dados oficiais do Sistema de Informações em Economia Solidária (SINAES), gerido pela Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes/MTE), revelam que a associação é, de longe, a forma jurídica predominante entre os empreendimentos de economia solidária no Brasil. O II Mapeamento Nacional de Economia Solidária, realizado entre 2009 e 2013, identificou 19.708 empreendimentos econômicos solidários em todo o território nacional. A distribuição por forma de organização é a seguinte: Associações: 60,0% dos empreendimentos de economia solidária; Grupos informais: 30,5%; Cooperativas: 8,8%; Sociedades mercantis: 0,6%. Esses dados, confirmados pelo Relatório Técnico Metodológico do ONESC - Observatório Nacional da Economia Solidária e do Cooperativismo, demonstram que 60% dos empreendimentos de economia solidária formalizados adotam a forma de associação (DIEMPREENDIMENTO DE ECONOMIA SOLIDÁRIAE, 2016). O primeiro mapeamento (2005-2007) já havia identificado aproximadamente 22.000 empreendimentos, com percentual similar de associações. O Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (CADSOL), instituído em 2014 e regulamentado pela portaria MTE 481/25, reforça essa predominância. Em sua definição oficial, a portaria estabelece que o empreendimento de economia solidária é a "organização coletiva e associativista que realiza atividades econômicas e cujos membros estejam diretamente envolvidos no alcance do seu objetivo social, exercendo democraticamente a gestão das atividades econômicas e a decisão sobre a partilha dos seus resultados" (BRASIL, 2025). O CADSOL, portanto, reconhece expressamente o caráter associativo como elemento definidor do Empreendimento de Economia Solidária. O decreto 12.784/25, em seu art. 6º, inciso III, reafirma essa orientação ao prever explicitamente que os empreendimentos econômicos solidários podem assumir a forma de "associações destinadas a fomentar a realização de atividades de economia solidária econômicas por seus associados, nos termos do disposto na legislação aplicável" (BRASIL, 2025). Essa previsão regulamentar consagra o formato associativista como uma das naturezas jurídicas legítimas para os empreendimentos de economia solidária, ao lado das cooperativas, cooperativas sociais e grupos informais. 4.2   Pontos de convergência entre a economia solidária e a natureza associativa A análise comparada entre os princípios da economia solidária e as características das associações (arts. 53 a 61 do CC) revela múltiplas convergências que justificam a predominância do formato associativo: Caráter associativo: O art. 52 do CC define as associações como "a união de pessoas que se organizam para fins não econômicos". A economia solidária, conforme definida pela portaria MTE 481/25 e pela lei 15.068/24, tem como base a organização coletiva e associativa dos trabalhadores, nos quais "os próprios trabalhadores são sócios e administram o empreendimento" (BRASIL, 2025). O caráter associativo é, portanto, elemento comum a ambas as figuras;  Singularidade de voto: As associações, por determinação legal, observam o princípio da igualdade de votos entre os associados, independentemente de sua contribuição patrimonial (art. 54, CC). Este princípio é idêntico ao da economia solidária, que exige "a autogestão, com a singularidade de voto dos associados" (art. 4º, inciso I, lei 15.068/24). A coincidência é absoluta: ambas se fundam na democracia direta, na qual cada membro possui um voto;  Assembleia geral como órgão soberano: O art. 59 do CC estabelece que a assembleia geral é o órgão soberano da associação, competindo-lhe deliberar sobre as matérias previstas em lei e no estatuto. Singer (2002, p.14) descreve a empresa solidária como aquela em que "todas as decisões são tomadas em assembleias". A soberania assemblear, portanto, é princípio comum à associação e ao empreendimento solidário; Não distribuição de lucros: As associações, por definição, não distribuem lucros a seus associados, destinando seus recursos integralmente aos objetivos sociais (art. 53, CC). A lei 15.068/24, em seu art. 4º, parágrafo 2º, classifica os empreendimentos de economia solidária como "pessoas jurídicas de fins econômicos sem finalidade lucrativa", estabelecendo que o resultado operacional líquido deve ser destinado à consecução das finalidades sociais, ao auxílio a outros empreendimentos equivalentes e ao desenvolvimento comunitário. Essa lógica de destinação coletiva dos resultados aproxima-se da natureza associativa, na qual os excedentes são reinvestidos nos objetivos institucionais;  Finalidade mutualista e comunitária: A associação, embora não tenha finalidade econômica, pode realizar atividades econômicas acessórias destinadas à consecução de seus objetivos sociais. O empreendimento de economia solidária, por sua vez, pratica "comércio de bens ou prestação de serviços de forma justa e solidária" (art. 4º, inciso III, LES), com a finalidade de promover o desenvolvimento comunitário. Ambas as figuras compartilham a lógica do interesse coletivo sobre o individual; Responsabilidade dos associados: Nas associações, os associados não respondem pessoalmente pelas obrigações da entidade (art. 55, CC), salvo disposição estatutária em contrário. Essa limitação de responsabilidade é compatível com os princípios da economia solidária, que busca proteger os trabalhadores associados sem impor riscos patrimoniais desproporcionais; Vedação à intermediação de mão de obra: O art. 4º, parágrafo 3º, da lei 15.068/24 veda expressamente que sejam beneficiários da Política Nacional de Economia Solidária os empreendimentos que tenham como atividade a intermediação de mão de obra subordinada. Esta vedação é coerente com a natureza associativa, que não admite a redução dos associados à condição de empregados ou prestadores de serviço subordinados. 4.3   A aplicação subsidiária do regime das associações como reconhecimento legal A opção legislativa pelo art. 44, parágrafo 2º, do CC - que estabelece a aplicação subsidiária das normas das associações aos empreendimentos de economia solidária - não constitui uma escolha arbitrária, mas reflete o reconhecimento, pelo legislador, de que o formato associativista é o que mais se aproxima da essência da economia solidária. Essa escolha legislativa encontra respaldo empírico nos dados do SINAES/CADSOL, que demonstram que 60% dos empreendimentos de economia solidária adotam a forma de associação. A interpretação sistêmica do art.44, parágrafo 2º, do CC, conforme proposta por Camargo e Sharp Jr. (2026), como uma "via de mão dupla" de aplicação subsidiária, não exclui a aplicação primária do regime das associações. Ao contrário, esta interpretação parte da premissa de que o regime das associações é a base normativa do empreendimento de economia solidária, podendo ser complementado, supletivamente, pelas normas da sociedade simples quando a natureza econômica da atividade assim demandar. Essa dupla dimensão interpretativa - regime das associações como base, normas da sociedade simples como complemento supletivo - oferece o arcabouço normativo mais completo para o empreendimento de economia solidária, contemplando tanto os aspectos associativos (singularidade de voto, soberania assemblear, não distribuição de lucros) quanto os aspectos econômicos (capital social, distribuição de excedentes operacionais, responsabilidade patrimonial). 4.4   O reconhecimento governamental do formato associativista O reconhecimento do formato associativista como adequado para a economia solidária não é apenas uma constatação empírica, mas uma orientação política consolidada nos órgãos governamentais. A própria Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), desde sua criação em 2003, tem promovido o associativismo como forma prioritária de organização dos empreendimentos de economia solidária como "organização coletiva e associativa" (BRASIL, 2025), confirmando que o caráter associativo é elemento definidor reconhecido pelo poder público. O decreto 12.784/25, ao prever em seu art. 6º, inciso III, que os empreendimentos de economia solidária podem assumir a forma de "associações destinadas a fomentar a realização de atividades de economia solidária econômicas por seus associados", reafirma o reconhecimento governamental da adequação do formato associativista. Esta previsão regulamentar não estabelece a associação como única forma jurídica possível, mas a reconhece como uma das naturezas jurídicas legítimas e adequadas para os empreendimentos de economia solidária, ao lado das cooperativas e grupos informais. A classificação legal do empreendimento de economia solidária como "pessoa jurídica de fins econômicos sem finalidade lucrativa" (art. 4º, parágrafo 2º, LES) corrobora esta interpretação. A aparente contradição entre "fins econômicos" e "sem finalidade lucrativa" resolve-se quando se compreende que o empreendimento de economia solidária exerce atividade econômica (produção, comercialização, prestação de serviços), mas destina seus resultados aos objetivos solidários e comunitários, e não à acumulação capitalista - lógica que é perfeitamente compatível com a natureza associativa. França Filho (2008) e Singer (2002) defendem que a economia solidária constitui um pluralismo econômico no qual o Estado atua como garantidor das condições para a solidariedade. O reconhecimento do formato associativista pelo legislador (art. 44, parágrafo 2º, CC), pelo regulamentador (art. 6º, inciso III, decreto 12.784/25) e pelo órgão cadastrador (portaria TEM 481/25) materializa esse papel do estado, conferindo segurança jurídica aos milhares de empreendimentos que, há décadas, adotam o formato associativo como instrumento de organização da economia solidária. O projeto de lei 4.784/26 e as cooperativas solidárias  O PL 4.784/26 define as Cooperativas Solidárias como sociedades sem fins lucrativos e autogestionárias. Contudo, o projeto atribui erroneamente o registro à Junta Comercial. Para conformidade com o art. 1.150 do CC, é imperativo que o texto seja ajustado para prever o registro no Registro Civil das pessoas jurídicas, preservando a natureza civilista do ente. Enquadramento fiscal e a IN RFB 2.335/26 6.1   Estrutura CONCLA e a IN RFB 2.335/26 Os empreendimentos de economia solidária enquadram-se na Estrutura 3 da CONCLA (Entidades sem fins lucrativos). Este enquadramento é ratificado pela Instrução Normativa RFB 2.335/26, em vigor desde 15/7/26, que padroniza as declarações para dispensa de retenção na fonte e recebimento de doações. A aplicação desta norma aos empreendimentos de economia solidária exige que a "não distribuição de lucros" seja interpretada conforme a doutrina de Singer (2002): os resultados distribuídos não são lucros capitalistas, mas remuneração do trabalho e excedentes da autogestão. O cumprimento dos requisitos do art. 12 da lei 9.532/1997 é essencial para a manutenção da isenção fiscal. Conclusão As cooperativas solidárias, os bancos solidários e os empreendimentos de economia solidária são, por essência e definição legal, de natureza não lucrativa, simples e precipuamente social. Sua natureza, por determinação legal, compete sua constituição e alterações posteriores ao Registro Civil das pessoas jurídicas, conforme o art. 1150 do CC. A interpretação sistêmica do art. 44, parágrafo 2º, do CC deve permitir a aplicação subsidiária do regime fiscal das associações, garantindo a viabilidade econômica e da gestão de capital e a distribuição equitativa de resultados. A conformidade com a IN RFB 2.335/26 e a Estrutura 3 da CONCLA assegura a higidez fiscal necessária para o fortalecimento do pluralismo econômico no Brasil, transformando a escola Paul Singer em um arcabouço jurídico, o que permite a consolidação de uma nova forma de pensar a economia e o capitalismo. _____________ BRASIL. Lei 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Altera a legislação tributária federal e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1997. BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o CC. Brasília, DF: Presidência da República, 2002. BRASIL. Lei 15.068, de 23 de dezembro de 2024. Dispõe sobre os empreendimentos de economia solidária. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. BRASIL. Portaria MTE 481, de 28 de março de 2025. Dispõe sobre o cadastro nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (CADSOL). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2025. BRASIL. Decreto 12.784, de 19 de dezembro de 2025. Regulamenta a Lei 15.068, de 23 de dezembro de 2024, que dispõe sobre os empreendimentos de economia solidária e a Política Nacional de Economia Solidária e cria o Sistema Nacional de Economia Solidária. Brasília, DF: Presidência da República, 2025. BRASIL. Instrução normativa RFB n° 2.335, de 13 de julho de 2026. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 jul. 2026. BRASIL. Projeto de Lei 4.784, de 24 de julho de 2026. Dispõe sobre a criação e o funcionamento de Cooperativas Solidárias, visando a promoção social da cidadania, da organização coletiva mutualista e dos direitos fundamentais de vida digna, conforme especifica. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2026. CAMARGO, João Laudo de; SHARP JR., Ronald. Empreendimentos de economia solidária em sentido estrito: aplicação subsidiária do regime da sociedade simples pura. Migalhas, 2 fev. 2026. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/coluna/migalhas-de-direito-das-organizacoes/448934/empreendimentos-de-economia-solidaria-em-sentido-estrito. Acesso em: 30 jul. 2026. CATTANI, Antonio David. (Org.) A outra economia. Porto Alegre: Veraz, 2003. COELHO, Fábio Ulhoa. Parecer sobre o registro das sociedades simples e cooperativas.  São Paulo, 2003. CORAGGIO, José Luis.  Economía social y solidaria: El trabajo antes que El capital. Quito: Abya-Yala, 2011. DIEMPREDIMENTO DE ECONOMIA SOLIDÁRIAE. 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1 Introdução A realidade imobiliária brasileira frequentemente não coincide com a representação formal constante das matrículas dos imóveis. É comum encontrar no fólio real imóveis registrados em nome de duas ou mais pessoas em frações ideais, embora, há muitos anos, cada coproprietário exerça posse exclusiva sobre determinada parcela perfeitamente delimitada no espaço físico. A planta, os muros, as edificações, os acessos, os cadastros municipais e a própria utilização cotidiana do imóvel demonstram uma divisão material que não foi acompanhada pela correspondente individualização registral. Tem-se, nesses casos, aquilo que a doutrina e a prática registral denominam condomínio pro diviso: juridicamente existe condomínio sobre o imóvel, mas, no plano fático, cada condômino possui e utiliza determinada parcela como se fosse um imóvel individualizado. A situação apresenta especial relevância nas áreas urbanas de Belo Horizonte. São frequentes os imóveis originariamente pertencentes a famílias, adquiridos por sucessão, compra e venda de frações ideais ou outras formas de transmissão, nos quais dois ou mais titulares passaram a ocupar áreas determinadas do terreno. Muitas vezes, a separação material da parte de cada um ocorreu há décadas, mas jamais foi refletida no registro de imóveis. A manutenção dessa dissociação entre realidade física e realidade registral produz consequências relevantes. O proprietário encontra dificuldades para alienar a área que efetivamente ocupa, constituir garantia real, obter financiamento, regularizar edificações, atualizar o cadastro municipal ou transmitir o imóvel a seus sucessores. A estremação surge, nesse contexto, como instrumento de aproximação entre a realidade fática e o fólio real. A estremação tem por finalidade regularizar condomínios pro diviso, permitindo a abertura de matrícula própria para a parcela que já se encontra individualizada na realidade física. O instituto possui característica essencialmente desburocratizante, pois, em vez de exigir a lavratura de escritura pública de divisão, que demanda a participação voluntária de todos os condôminos, ou mesmo a instauração de ação judicial de divisão, caso um ou alguns condôminos não queiram prosseguir com a divisão amigável, permite que a individualização seja realizada pela atuação coordenada do Tabelião de Notas e do oficial de registro de imóveis, demandando a participação ativa apenas do condômino que pretende estremar sua fração ideal e, em menor escala, dos confrontantes dessa parcela, que deverão anuir com o procedimento, mas não precisarão desembolsar valores com responsáveis técnicos, escritura e registro. No âmbito de Minas Gerais, a matéria encontra disciplina específica nos arts. 1.149 a 1.156 do código de normas dos serviços notariais e de registro do estado, atualmente consolidado no provimento conjunto 93/20 do TJ/MG, com alterações posteriores. A questão que merece especial reflexão é a seguinte: é possível realizar estremação quando o condomínio pro diviso é composto por apenas dois condôminos? A dúvida tem relevância prática. Há quem sustente que, havendo apenas dois coproprietários, o procedimento adequado seria necessariamente a divisão, e não a estremação. Essa interpretação, contudo, confunde institutos que possuem pressupostos, finalidades e consequências distintas. O presente estudo pretende demonstrar que a existência de apenas dois condôminos não constitui impedimento à estremação, desde que estejam presentes os demais requisitos previstos no código de normas. 2 A origem e a função da estremação A estremação não constitui modalidade autônoma de aquisição da propriedade. Seu propósito é diverso: trata-se de mecanismo destinado à individualização registral de parcela materialmente determinada de imóvel submetido a condomínio pro diviso. O instituto surgiu na prática registral como resposta a situações em que o condomínio formal não correspondia ao condomínio material. O pioneirismo é atribuído ao estado do Rio Grande do Sul, especialmente a iniciativas de regularização fundiária desenvolvidas pela Corregedoria-Geral da Justiça, entre as quais se destaca o projeto "Gleba Legal", iniciado em 2005. A experiência gaúcha influenciou a adoção do instituto por outras unidades da Federação, inclusive Minas Gerais. A experiência demonstra que a estremação nasceu de uma necessidade concreta: permitir que o Direito registral reconheça uma situação de fato consolidada, sem obrigar o interessado a recorrer ao Poder judiciário quando não existe propriamente um conflito a ser solucionado. É importante, portanto, compreender que a estremação não tem como pressuposto uma controvérsia entre os condôminos. Ao contrário, sua razão de ser está precisamente na existência de uma situação fática consolidada. A parcela não está sendo criada pela escritura de estremação e/ou seu registro imobiliário. Ela já existe materialmente. O que o procedimento busca fazer é permitir que essa parcela, já individualizada no mundo dos fatos, passe a possuir correspondente individualização no mundo registral. A literatura institucional sobre o tema destaca que a estremação permite transformar a parcela faticamente demarcada em matrícula própria, sem exigir a participação de todos os condôminos da propriedade maior, mas apenas daqueles proprietários que efetivamente confrontam a área localizada. Essa característica é essencial para compreender a controvérsia relativa aos condomínios de dois condôminos. 3 Estremação e divisão: Institutos distintos Um dos principais equívocos interpretativos consiste em tratar estremação e divisão como sinônimos. Não são! O CC assegura a qualquer condômino o direito de exigir, a qualquer tempo, a divisão da coisa comum, ressalvadas as hipóteses legais de indivisão. O art. 1.320 estabelece expressamente essa possibilidade. O CPC, por sua vez, disciplina a ação de divisão e estabelece, em seu art. 569, II, que cabe ao condômino a ação de divisão para obrigar os demais consortes a estremar os quinhões. O art. 571 admite, ainda, que a demarcação e a divisão sejam realizadas por escritura pública quando todos os interessados forem maiores, capazes e concordes. A divisão, portanto, é instrumento próprio para extinguir o condomínio, atribuindo a cada condômino uma parcela individualizada, sendo cabível quando há condomínio pro diviso ou pro indiviso, indistintamente. A estremação, por outro lado, parte de premissa diferente. Na estremação, o condomínio já possui uma divisão material fática. O que se pretende é localizar e individualizar uma dessas parcelas no registro imobiliário. Assim, pode-se estabelecer a seguinte distinção: Divisão Estremação Destina-se à extinção do condomínio Destina-se à individualização de parcela já localizada Pressupõe a definição dos quinhões, tanto no condomínio pro diviso quanto no pro indiviso Parte de uma posse localizada e consolidada (condomínio pro diviso) Envolve todos os condôminos Envolve "apenas" os confrontantes da parcela estremada, sejam eles condôminos ou não Pode constituir procedimento judicial ou escritura consensual É procedimento extrajudicial regulamentado pelo Código de Normas Produz a divisão jurídica da coisa comum Regulariza registralmente situação material já existente A própria regulamentação mineira confirma essa distinção ao estabelecer, no art. 1.153, que a adoção do procedimento de estremação não exclui a possibilidade de escritura pública de divisão ou de ajuizamento de ação de divisão, ficando ao interessado a opção, de acordo com as circunstâncias do caso. Se estremação e divisão fossem a mesma coisa, essa previsão normativa seria desnecessária. 4 O fundamento jurídico da estremação A ausência de uma lei federal que discipline expressamente a estremação com essa denominação não significa ausência de fundamento jurídico para o procedimento. A matéria deve ser compreendida dentro do sistema de regularização e individualização imobiliária. O CPC (art. 571) reconhece a possibilidade de demarcação e divisão extrajudicial por escritura pública, desde que presentes seus requisitos. A lei 6.015/1973 também contém instrumentos importantes de regularização das descrições imobiliárias. O art. 213, § 9º, admite que dois ou mais confrontantes estabeleçam ou alterem suas divisas por escritura pública, independentemente de retificação, observadas as exigências legais e urbanísticas. A estremação, contudo, possui conformação própria nos códigos de normas estaduais. Em Minas Gerais, o tratamento normativo é particularmente importante porque o provimento conjunto 93/20 não apenas reconhece o instituto, mas estabelece seus pressupostos, os participantes do ato, os documentos técnicos, a atuação municipal, o procedimento registral e as hipóteses relacionadas a ônus e gravames. Há, portanto, uma verdadeira disciplina administrativa do instituto. 5 A estremação no Código de Normas de Minas Gerais O Capítulo VIII do Código de Normas mineiro é denominado "Da Estremação de Imóveis em Condomínio de Fato" e compreende os arts. 1.149 a 1.156. A análise desses dispositivos é fundamental para a solução da controvérsia. 5.1 Condomínio pro diviso e situação consolidada O art. 1.149 estabelece: "Nas circunscrições imobiliárias possuidoras de condomínios pro diviso que apresentem situação consolidada e localizada [...] a regularização de frações com abertura de matrícula autônoma [...] será feita com a anuência dos confrontantes das parcelas a serem individualizadas." Esse dispositivo contém os elementos essenciais do instituto: existência de condomínio pro diviso; situação consolidada; situação localizada; respeito à fração mínima de parcelamento rural ou à área mínima de lote urbano, tanto na área estremanda quanto na área remanescente da matrícula1; anuência dos confrontantes das parcelas a serem individualizadas, sejam eles condôminos ou não. O ponto que chama atenção é aquilo que a norma não restringe. O art. 1.149 não estabelece número mínimo de condôminos. Não exige três, quatro, cinco ou qualquer outro número de coproprietários. A norma trata apenas de "condomínios pro diviso". Logo, desde que presentes os demais requisitos, o condomínio pode ser constituído por dois, três ou mais condôminos. Essa constatação é decisiva para a questão central deste artigo. 5.2 O prazo mínimo de posse O § 2º do art. 1.149 do Código de Normas do Extrajudicial de Minas Gerais estabelece que a posse do proprietário sobre a parcela pro diviso deve contar com, no mínimo, cinco anos, admitindo-se a soma do tempo de posse dos proprietários anteriores. O §3º simplifica significativamente a prova ao estabelecer que, para comprovação do prazo da posse localizada, é suficiente a declaração do proprietário, corroborada pelos confrontantes. Esse requisito demonstra novamente que a estremação está voltada à regularização de uma situação fática consolidada. Não se pretende criar artificialmente uma divisão. Busca-se reconhecer uma divisão material que já existe. 5.3 Fração ideal não registrada Outro avanço importante introduzido pela regulamentação mineira é o §4º do art. 1.149, com redação dada pelo provimento conjunto 142/25. Admite-se a estremação requerida pelo titular de fração ideal ainda não registrada, desde que apresentados ao Tabelionato de Notas o título de propriedade da fração ideal objeto da estremação e a certidão do registro do imóvel em nome do transmitente. Nessa hipótese, o §5º determina que o título aquisitivo seja registrado conjuntamente com a estremação. A alteração reforça a finalidade de regularização do instituto. 6 Os confrontantes e a desnecessidade de anuência de todos os condôminos O art. 1.150 determina que a localização da parcela pro diviso seja instrumentalizada necessariamente por escritura pública de estremação. O §1º dispõe que é obrigatória a intervenção de todos os confrontantes da gleba a localizar, sejam eles condôminos ou não na área maior. O §2º esclarece que, para fins de estremação, considera-se confrontante o titular de direito real ou o ocupante, a qualquer título, da área lindeira à fração demarcada, integrante ou não do condomínio da área maior. A escolha legislativo-normativa é extremamente significativa. A norma não determina: "deverão comparecer todos os condôminos do imóvel maior". Determina: "todos os confrontantes da gleba a localizar" (sejam eles confrontantes ou não). Essa diferença não é meramente semântica. Ela revela a lógica do instituto. O que interessa ao procedimento é garantir que as pessoas potencialmente atingidas pela localização da parcela tenham ciência e anuam à delimitação. Por isso, um condômino que não confronta a parcela a ser estremada não precisa necessariamente participar do ato apenas pelo fato de ser titular de uma fração ideal da matrícula maior. 7 A questão central: Pode haver estremação com apenas dois condôminos? A resposta é sim! Não há, no Código de Normas de Minas Gerais, dispositivo que estabeleça que a estremação somente pode ocorrer quando houver três ou mais condôminos. A exigência de número mínimo de condôminos seria uma restrição não prevista na norma. E, tratando-se de procedimento de regularização imobiliária, não parece juridicamente adequado criar impedimento que o próprio texto normativo não estabeleceu. 7.1 O argumento de que "dois condôminos devem fazer divisão" O principal argumento contrário parece partir de um raciocínio aparentemente simples: se existem somente dois condôminos, a individualização das duas áreas extinguirá o condomínio; portanto, o procedimento adequado seria a divisão, e não a estremação. O raciocínio, contudo, não é suficiente. Primeiro, porque a finalidade da estremação não depende da quantidade de condôminos. Segundo, porque a divisão exige uma operação jurídica diferente: pretende-se definir os quinhões de todos os condôminos e extinguir o condomínio em sua totalidade. Terceiro, porque a realidade pode tornar inviável ou inadequada a divisão consensual. Imagine-se, por exemplo, um imóvel urbano pertencente a duas pessoas, cada uma com 50% da fração ideal, sendo que: cada uma ocupa há mais de vinte anos uma área perfeitamente delimitada; existem muros separando fisicamente as duas áreas; cada área possui acesso independente; as construções estão integralmente localizadas dentro das respectivas parcelas; as áreas são reconhecidas pelo município; cada condômino exerce posse exclusiva sobre sua parcela; uma das partes deseja regularizar sua matrícula; a outra não pretende realizar imediatamente a individualização de sua parcela. Por que a falta de interesse do segundo condômino em realizar imediatamente a escritura pública de divisão deveria impedir o primeiro de regularizar a situação imobiliária que já existe há décadas? Por que exigir que o primeiro condômino ajuíze ação para divisão somente em razão de o outro condômino não querer ou não poder, naquele momento, fazer a divisão? Não há razão jurídica para isso. 8 O condômino remanescente como confrontante A solução torna-se ainda mais clara quando se observa a estrutura do art. 1.150. Em um condomínio formado por dois condôminos - A e B -, se A ocupa uma parcela perfeitamente delimitada e B ocupa o restante, B é, simultaneamente: Condômino do imóvel maior; e Confrontante da parcela que A pretende estremar. Assim, B participará da escritura de estremação. Não se está, portanto, eliminando a proteção jurídica do segundo condômino. Ao contrário: ele deverá comparecer ao ato precisamente porque sua área confronta a parcela localizada. A diferença está na qualidade jurídica de sua participação no ato. Ele não precisa comparecer necessariamente como alguém que participa de uma divisão integral da propriedade. Comparece como confrontante da parcela localizada, anuindo à identificação de seus limites. Essa distinção é perfeitamente compatível com o art. 1.150, § 1º, do Código de Normas. Carlos Londe relata que, na prática do registrador de imóveis, em apenas uma situação a estremação foi realizada entre dois condôminos e a participação do segundo condômino não foi necessária. Trata-se, é verdade, de situação absolutamente excepcional: imóvel  adquirido por duas pessoas, em condomínio a princípio pro indiviso; na fronteira sul, o imóvel confrontava com um rio navegável e com particulares nas demais fronteiras; posteriormente, uma estrada estadual cruzou dito imóvel e os condôminos resolveram que A ficaria com a parte ao norte da estrada e B ficaria com a parte ao sul da estrada, que confrontava apenas e tão somente com a estrada (estadual) e o rio navegável (também estadual). Durante a qualificação registral, a ausência de anuência do outro condômino foi questionada, tendo sido prestados os esclarecimentos acima e registrada a estremação da forma como apresentada. 9 O fato de o condomínio ser formado por dois condôminos não elimina o condomínio pro diviso Outro argumento que merece ser enfrentado é o de que a estremação pressuporia uma pluralidade maior de condôminos. Não existe tal exigência. O elemento distintivo do condomínio pro diviso não é a quantidade de titulares, mas a coexistência de: Titularidade jurídica em condomínio; e Localização física das parcelas atribuídas ao exercício possessório de cada condômino. Pode existir condomínio pro diviso entre dois condôminos, assim como pode existir entre dez. O número de titulares é circunstância quantitativa e irrelevante para a configuração do condomínio, seja ele pro diviso ou pro indiviso. A característica pro diviso é qualitativa. Por isso, se A e B são proprietários de 50% de determinado imóvel, mas A possui exclusivamente a porção norte e B exclusivamente a porção sul, com divisas materiais consolidadas, está presente a estrutura própria do condomínio pro diviso. Não se pode transformar a quantidade de condôminos em requisito que o Código de Normas não estabeleceu. 10 A estremação como extinção parcial do condomínio e a situação do segundo condômino A questão fica ainda mais interessante quando se analisa que, quando há apenas dois condôminos na matrícula, a estremação não produzirá "apenas" a extinção parcial do condomínio, como ocorre em todos os casos em que há três ou mais condôminos, mas sim a extinção integral do condomínio, pois, tanto na área estremanda quanto na área remanescente, haverá apenas um proprietário tabular. Entretanto, há uma diferença bastante clara e significativa entre a estremação entre dois condôminos e a divisão: nesta, todas as glebas resultantes serão objeto de novas matrículas e serão, de pronto, já devidamente descritas de acordo com todos os requisitos registrais, inclusive a especialidade objetiva, enquanto, na estremação, apenas a área estremada já obedecerá à especialidade objetiva e demais requisitos registrais, ficando a área remanescente pendente de adequada descrição, que só ocorrerá quando seu proprietário pretender praticar novos atos registrais. O art. 1.149 fala em "regularização de frações com abertura de matrícula autônoma". E o art. 1.151 determina que a escritura descreverá apenas a parcela localizada, sendo desnecessária a retificação da área da gleba originária e a apuração da área remanescente, que será necessária apenas posteriormente, quando o condômino remanescente pretender praticar atos em sua matrícula. Esse dispositivo é particularmente importante para afastar a ideia de que todos os condôminos deveriam necessariamente individualizar suas parcelas simultaneamente. A lógica normativa é justamente a possibilidade de localização de uma parcela determinada. Assim, no exemplo de dois condôminos, imóvel localizado em área urbana: A possui 50% da matrícula; B possui 50%; A ocupa uma parcela materialmente determinada; B ocupa o restante; A possui mais de cinco anos de posse localizada; a área de A atende aos requisitos urbanísticos e a de B também; B é confrontante e anui; o Município anui; a planta e o memorial descrevem tecnicamente a parcela. A escritura poderá individualizar a parcela de A. Com o registro da estremação, abre-se matrícula própria para a parcela localizada. A situação registral da área remanescente não será analisada pelo oficial de registro de imóveis no momento do registro da estremação, mas apenas posteriormente, de acordo com os elementos constantes do título e do fólio real, especialmente sob a perspectiva da especialidade objetiva, continuidade e disponibilidade. Em outras palavras, não se pode transformar a eventual necessidade de regularização posterior da parcela remanescente em impedimento automático para a regularização da parcela já perfeitamente identificada. 11 A especialidade objetiva como limite da estremação A possibilidade de estremação entre dois condôminos não significa que o procedimento possa ser utilizado indiscriminadamente. O instituto encontra importante limite no princípio da especialidade objetiva. O art. 1.151 determina que a parcela localizada seja descrita mediante planta e memorial descritivo, acompanhados da correspondente responsabilidade técnica. O oficial de registro deve verificar se a parcela pode ser individualizada de forma segura. Esse ponto é especialmente importante porque a estremação não pode produzir incerteza quanto à titularidade ou localização das demais áreas. A jurisprudência mineira recente demonstra justamente esse limite. Em julgamento envolvendo pedido de estremação, o TJ/MG rejeitou o registro porque a parcela pretendida apresentava dimensão incompatível com a fração ideal constante da matrícula, criando risco de incerteza quanto à propriedade dos demais condôminos. A decisão é importante porque demonstra que o problema não está no número de condôminos. O que pode inviabilizar a estremação é a insegurança quanto à identificação da parcela ou quanto à preservação dos direitos dos demais titulares. Portanto, o exame correto deve ser: a parcela está materialmente individualizada, tecnicamente identificada e juridicamente compatível com a situação dominial? E não: há apenas dois condôminos? 12 O requisito urbanístico No caso dos imóveis urbanos, a estremação não pode ser utilizada para burlar a legislação de parcelamento do solo. O art. 1.149 determina expressamente que seja respeitada a área mínima de lote urbano tanto na área estremada quanto na remanescente. Além disso, o art. 1.151, §3º, estabelece que, nos imóveis urbanos, a escritura pública deve mencionar a apresentação da anuência do município. Portanto, a estremação não é instrumento para criar clandestinamente novos lotes. Ela serve para regularizar uma situação já consolidada, desde que compatível com a legislação urbanística. Essa questão assume especial relevância em Belo Horizonte. O Plano Diretor municipal, instituído pela lei 11.181/19, disciplina o parcelamento, a ocupação e o uso do solo, estabelecendo parâmetros urbanísticos que devem ser observados nos procedimentos de individualização imobiliária. A própria legislação municipal determina que o parcelamento do solo urbano seja realizado mediante loteamento ou desmembramento e que os parâmetros aplicáveis sejam observados conforme as normas municipais. Consequentemente, o fato de a área ser antiga ou de a posse estar consolidada por muitos anos não dispensa, por si só, o exame urbanístico. 13 A particular importância da estremação nos imóveis urbanos de Belo Horizonte A realidade urbana de Belo Horizonte torna o instituto particularmente relevante. Em diversos bairros, encontram-se imóveis originariamente constituídos como uma única área, posteriormente ocupados por diferentes integrantes de uma família ou adquirentes de frações ideais. A situação pode decorrer de sucessões hereditárias; aquisições de frações ideais; doações; partilhas antigas; contratos particulares; ocupação familiar prolongada; transmissões sucessivas de frações ideais; construções realizadas em áreas materialmente separadas. O problema é que a matrícula continua apresentando, por exemplo: "50% pertencente a A e 50% pertencente a B". Na realidade física, porém, ninguém exerce 50% abstratamente do imóvel. A exerce uma área determinada. B exerce outra. Essa situação pode persistir por décadas. A estremação permite que o registro imobiliário deixe de representar apenas a abstração das frações ideais e passe a representar a realidade espacial consolidada, desde que observados os requisitos jurídicos, técnicos e urbanísticos. Isso possui grande importância econômica. Uma matrícula individualizada pode facilitar alienação; financiamento; constituição de garantia; inventário; doação; regularização de edificações; atualização cadastral; obtenção de crédito; transmissão sucessória; valorização patrimonial; circulação formal do imóvel. A própria literatura especializada destaca que a individualização registral favorece a circulação econômica dos imóveis e a regularização de construções e cadastros municipais. 14 O princípio da desjudicialização A interpretação do instituto deve considerar o movimento contemporâneo de desjudicialização. O Direito brasileiro vem ampliando progressivamente a atuação das serventias extrajudiciais na solução de situações que anteriormente dependiam necessariamente do Poder judiciário.  Inventário, divórcio, usucapião extrajudicial, adjudicação compulsória e diversos procedimentos de regularização imobiliária demonstram essa transformação. A estremação insere-se nessa mesma lógica. Quando não há conflito de propriedade e existe uma situação material consolidada, não parece razoável impor ao interessado uma ação judicial apenas porque a matrícula ainda apresenta uma copropriedade formal. O art. 1.153 do Código de Normas preserva a liberdade de escolha entre estremação, divisão extrajudicial e ação judicial de divisão. Isso significa que a estremação não elimina a divisão. Ela oferece uma alternativa juridicamente adequada quando a realidade do caso corresponde aos seus pressupostos e, na prática, a única, quando o condômino remanescente se recusa a participar. 15 Estremação com dois condôminos: análise sistemática A interpretação favorável à estremação no condomínio de dois condôminos encontra fundamento em diversos elementos do sistema. 15.1 Ausência de vedação expressa O art. 1.149 não estabelece número mínimo de condôminos. Logo, não se pode extrair da norma uma proibição inexistente. 15.2 Existência de condomínio pro diviso O requisito essencial é que exista condomínio pro diviso com situação consolidada e localizada. Dois condôminos são suficientes para que exista condomínio. 15.3 Existência de parcela localizada Se cada condômino exerce posse exclusiva sobre parcela determinada, o pressuposto material do instituto está presente. 15.4 Participação do segundo condômino O segundo condômino não é excluído do procedimento. Ele comparece como confrontante da parcela localizada, caso sua área seja lindeira (como normalmente é). 15.5 Possibilidade de regularização sucessiva A norma não exige que todas as parcelas sejam simultaneamente individualizadas. A redação do art. 1.151, ao determinar que a escritura descreva apenas a parcela localizada, impõe a compreensão de que o objeto imediato do procedimento é a parcela que se pretende estremar. 15.6 Distinção entre estremação e divisão A existência de dois condôminos não converte automaticamente a estremação em divisão. Os institutos possuem finalidades distintas. 15.7 Efetividade da regularização Impedir a estremação somente porque existem dois titulares poderia obrigar o interessado a buscar judicialmente uma solução que, materialmente, já está consolidada e não envolve conflito. Essa consequência seria contrária à própria finalidade desjudicializante do instituto. 16 O argumento da "extinção do condomínio" não impede a estremação É verdade que, em determinadas situações, a estremação da primeira parcela pertencente a um dos dois condôminos poderá conduzir, na prática, ao desaparecimento do condomínio sobre o remanescente, mas isso não significa que o procedimento de estremação seja juridicamente inadequado. O que importa é identificar qual ato está sendo praticado. Se A possui uma parcela localizada e busca individualizá-la, o objeto da escritura é a localização dessa parcela. A consequência registral poderá ser a abertura de matrícula própria e a reorganização da situação do remanescente, sem necessidade de apuração do remanescente neste momento. Não se deve confundir "o procedimento poderá produzir a extinção do condomínio" com "o procedimento somente pode ser utilizado quando a finalidade declarada for a extinção do condomínio".  São proposições diferentes. A estremação pode produzir efeitos que ultrapassam a mera localização inicial da parcela, sem perder sua natureza.  _________ 1 Importante mencionar que, para a área estremanda, a verificação de tais requisitos se dá com base nos trabalhos técnicos apresentados, enquanto, para a área remanescente, faz-se um cálculo meramente matemático, retirando-se, por exemplo, da área da matrícula antes da estremação, a área correspondente à fração ideal titularizada pelo estremante - considera-se a fração ideal titularizada pelo estremante, independentemente de eventual divergência entre a área correspondente a sua fração ideal e a área medida e constante dos trabalhos técnicos. Artigo disponível na íntegra.
1. Introdução A lei 11.441/07 representou um marco transformador no sistema jurídico brasileiro ao instituir a via extrajudicial para a realização de inventários, partilhas, divórcios e separações consensuais. O objetivo primordial da inovação legislativa foi a desburocratização e a desjudicialização, garantindo celeridade na resolução de situações jurídicas nas quais não há litígio, além de descongestionar o Poder judiciário. Contudo, a concretização plena da autonomia privada e do exercício do direito constitucional à herança (art. 5º, XXX, CF) e à propriedade (art. 5º, XXII, CF) encontrou obstáculo na prática administrativa de exigir o prévio recolhimento do ITCMD - Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação e a apresentação de CND - Certidão Negativa de Débitos como condição inafastável para a lavratura da escritura pública. Essa exigência, originariamente positivada no art. 15 da resolução CNJ 35/07, transformou, na prática, os tabeliães de notas em agentes arrecadadores indiretos do Fisco. O presente estudo analisa a transição paradigmática promovida pelo CNJ ao alinhar seus provimentos à jurisprudência dos tribunais superiores, vedando o uso de serventias extrajudiciais para a imposição de sanções políticas tributárias e redefinindo o dever notarial sob o prisma da informação e da segurança jurídica. 2. O paradigma do arrolamento sumário e a aplicação analógica ao extrajudicial A discussão sobre a desnecessidade de quitação prévia do ITCMD para a homologação de partilhas encontrou campo fértil no âmbito do processo civil. O STJ, ao julgar o Tema repetitivo 1.074, fixou a seguinte tese vinculante: No arrolamento sumário, a homologação da partilha ou da adjudicação, bem como a expedição do formal de partilha e da carta de adjudicação, não se condicionam ao prévio recolhimento do imposto de transmissão causa mortis, devendo ser comprovado, todavia, o pagamento dos tributos relativos aos bens do espólio e às suas rendas, a teor dos arts. 659, § 2º, do CPC/15 e 192 do CTN. No mesmo sentido, o STF, por ocasião do julgamento da ADIn  5.894/DF, declarou a constitucionalidade do art. 659, § 2º, do CPC/15, assentando que o dispositivo não concede isenção nem renúncia fiscal, mas tão somente posterga a exigência do tributo para a via administrativa competente, preservando hígida a competência tributária dos estados e do Distrito Federal. Embora tais precedentes tenham origem em procedimentos judiciais, a aplicação analógica ao âmbito extrajudicial revela-se irrefutável. O inventário e a partilha, quando lavrados por escritura pública nos termos da lei 11.441/07, constituem atos jurídicos de idêntica natureza civil e efeitos equivalentes aos da via judicial. Trata-se do meio legal indispensável para formalizar a transmissão da propriedade causa mortis, regida pelo princípio da saisine (art. 1.784 do CC), permitindo a regularização patrimonial e a liquidação das dívidas do espólio. Condicionar a lavratura do ato notarial,  instrumento que visa justamente apurar o acervo hereditário, ao prévio recolhimento do imposto causa mortis inviabiliza o próprio exercício do direito dos herdeiros, gerando um bloqueio injustificado e inconstitucional. 3. A inconstitucionalidade da coerção indireta e a doutrina das sanções políticas O STF possui uma construção jurisprudencial consolidada e centenária na vedação às chamadas sanções políticas tributárias, conceituadas como a utilização de meios oblíquos de coerção por parte do estado para compelir o contribuinte ao pagamento de tributos em atraso, contornando o devido processo legal executivo. Essa orientação é sintetizada nas súmulas do STF: Súmula 70: "É inadmissível a interdição de estabelecimento como meio coercitivo para cobrança de tributo." Súmula 323: "É inadmissível a apreensão de mercadorias como meio coercitivo para pagamento de tributos." Súmula 547: "Não é lícito à autoridade proibir que o contribuinte em débito adquira estampilhas, despache mercadorias nas alfândegas e exerça suas atividades profissionais." O caso paradigmático aplicável aos serviços notariais e de registro reside no julgamento da ADIn 394/DF, na qual o plenário do STF declarou a inconstitucionalidade do art. 1º, incisos I, III e IV, da lei 7.711/1988. A Suprema Corte destacou que condicionar o registro imobiliário ou a lavratura de atos à quitação de tributos ofende frontalmente o livre exercício de atividade econômica lícita (art. 170, parágrafo único, CF) e o direito de acesso à justiça para discussão do débito (art. 5º, XXXV, CF). Para o STF, o estado, detentor da prerrogativa de tributar, não pode utilizar atalhos administrativos coercitivos que tolham direitos fundamentais. A cobrança do crédito tributário deve seguir obrigatoriamente a via da execução fiscal (lei 6.830/1980), precedida do devido processo legal de lançamento e inscrição em dívida ativa (art. 5º, LIV, CF). Ao se exigir a quitação do ITCMD ou CND para a lavratura de escritura de inventário, cria-se uma barreira intransponível que impede indefinidamente a regularização de bens, mesmo quando os débitos fiscais estão sendo objeto de impugnação administrativa ou judicial. A medida afigura-se desproporcional e não razoável, uma vez que o Fisco dispõe de execuções fiscais e habilitações de crédito para haver seus valores sem paralisar a vida civil dos cidadãos. 4. A evolução da jurisprudência administrativa do CNJ Acompanhando a evolução hermenêutica das Altas Cortes, o CNJ passou a reformular seu posicionamento em sede de controle administrativo das serventias extrajudiciais: a) Pedido de providências 0001230-82.2015.2.00.0000: O plenário do CNJ reconheceu a impossibilidade de se exigir certidão negativa de débitos para transmissão de imóveis, assentando que tal exigência constituía meio oblíquo de cobrança. Em decisão unânime, o plenário do CNJ, analisou um processo proposto pela união contra a corregedoria do TJ/RJ, que determinou aos cartórios de registro de imóveis do estado fluminense, por meio do provimento 41/13, que deixem de exigir a certidão negativa de débito previdenciária (CND) nas operações notariais. A Advocacia-Geral da União argumentou, no processo, que a cobrança é obrigatória pela lei 8.212/1991. No CNJ, o CNJ, ministro João Otávio de Noronha, relator do processo, deu parecer de que não se pode falar em comprovação da quitação de imposições pecuniárias compulsórias para o ingresso de qualquer operação financeira no registro de imóveis por representar uma forma oblíqua de cobrança do estado. b) Procedimento de Controle Administrativo 0010545-61.2020.2.00.0000: Ao analisar normas do estado do Paraná, o CNJ reafirmou a abusividade da CND compulsória, estabelecendo a distinção essencial entre a exigência como condição para o ato e a solicitação para fins informativos. Para o CNJ, a decisão do STF na ADIn 394/DF e do próprio CNJ no PP 0001230-82.2015.2.00.0000, já é no sentido de vedar que notários e registradores exijam certidões negativas de débitos como condição para lavratura ou registro de atos de registros de imóveis. c) Procedimento de Controle Administrativo 0001611-12.2023.2.00.0000: Pacificou-se nacionalmente que os cartórios não podem negar a prática de atos registrais por falta de CND. Garantiu-se, contudo, a qualificação notarial informativa, cabendo ao oficial cientificar as partes sobre os riscos jurídicos e eventuais débitos. d) Resposta à consulta 0008053-23.2025.2.00.0000, formulada pela ARPEN-PB: CNJ declarou que, para lavratura de escritura pública de inventário e partilha extrajudicial, não pode ser exigida CND. Cabe ao tabelião, contudo, solicitar as certidões para fins informativos, afastando, dessa forma, a sua responsabilidade solidária pela ausência de quitação de débitos tributários. O colegiado esclareceu, nos termos do voto da relatora, conselheira Jaceguara Dantas, que: "É possível e recomendado que os tabeliães solicitem tais certidões para fins informativos, fazendo constar no ato notarial a situação fiscal do espólio, a fim de garantir a transparência, a segurança jurídica e afastar sua responsabilidade solidária, sem que isso represente óbice à prática do ato". e) Pedido de providências 0008622-24.2025.2.00.0000, Requerente  CNB/CF: CNJ reconheceu que a exigência contida no art. 15 da resolução CNJ 35/07, ao condicionar a lavratura da escritura de inventário e partilha extrajudicial à quitação dos tributos incidentes (ITCD), institui uma clássica sanção política tributária, em flagrante desacordo com a jurisprudência consolidada do STF, do STJ e com as decisões plenárias do próprio CNJ. Os tabeliães de notas de todo país devem ser orientados a não mais negar a lavratura de escrituras de inventário com base na ausência de CND ou prévio recolhimento do ITCD, mas devem continuar a solicitar as certidões fiscais do de cujus e do espólio, fazendo constar no ato notarial a informação sobre a existência débitos, para a ciência e segurança de todos os envolvidos. 5. O novo redesenho normativo: Alteração da resolução CNJ 35/07 Portanto, a culminação da evolução no tratamento jurídico dado à matéria ocorreu com o julgamento do pedido de providências 0008622-24.2025.2.00.0000 (Relator ministro Mauro Campbell Marques), promovido pelo Colégio Notarial do Brasil (CNB/CF). O Plenário do CNJ determinou a alteração do art. 15 da resolução CNJ 35/07, afastando categoricamente o recolhimento prévio do ITCMD como condição para a lavratura de escrituras públicas de inventário e partilha. A nova redação aprovada harmoniza a celeridade do ato notarial com o dever de transparência e proteção à arrecadação estadual: Art. 15. A lavratura das escrituras públicas de inventário e partilha não se condiciona à comprovação do prévio recolhimento do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD). § 1º O tabelião consignará na escritura a declaração das partes, devidamente orientadas pelo(s) seu(s) advogado(s) assistente(s), quanto à ciência da obrigação tributária principal e acessória, e sobre a apuração e recolhimento do ITCMD conforme a legislação estadual ou distrital aplicável, mencionando eventuais isenções ou não incidências. § 2º Não sendo previamente recolhido o ITCMD, deverá o tabelião informar a lavratura da escritura pública de inventário e partilha ao fisco, no prazo de 05 dias, ou conforme dispuser a legislação tributária. Com essa alteração, o tabelião de notas assume novamente seu papel vocacional: prestar assessoria jurídica imparcial, certificar a vontade das partes, acautelar os envolvidos mediante informação expressa no corpo do ato sobre débitos pendentes e comunicar incontinenti a Fazenda Pública competente, para que esta exerça a cobrança por meio da execução fiscal. 6. Devem ser analisadas no caso concreto as vantagens e desvantagens em deixar de recolher o ITCMD previamente à lavratura do inventário A alteração na redação da resolução 35/CNJ não importa em isenção, anistia ou exoneração da obrigação tributária, mas tão somente em deixar de condicionar a lavratura do ato notarial à prévia quitação do ITCMD. O contribuinte permanece integralmente obrigado ao recolhimento do ITCMD - Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação, mantendo-se o Fisco com o direito de apurar e cobrar os valores devidos pelos meios administrativos e judiciais cabíveis. Destaque-se que a postergação do recolhimento sujeita as partes aos encargos moratórios legais, como juros e multas de mora, além da perda irreparável de benefícios fiscais concedidos pelas legislações estaduais. No estado de Minas Gerais, por exemplo, o atraso acarreta a perda do desconto de 15% (quinze por cento) concedido sobre o valor do imposto quando a declaração de bens e direitos é apresentada em 90 (noventa) dias contados do falecimento e no mesmo prazo é feito pagamento, conforme art. 23 do decreto Estadual 43.981/05 (regulamento do ITCD)1. No caso de  não haver o pagamento e o estado ajuizar execução fiscal, haverá também a condenação dos herdeiros ao pagamento de custas e honorários advocatícios. A dispensa de comprovação perante o tabelião de notas visa exclusivamente a  desentravar o ato notarial, sem afastar as consequências do inadimplemento tributário. Assim, as partes devem ser advertidas pelo advogado e pelo tabelião desses problemas e incentivadas a recolher o imposto o mais rapidamente possível. Não há dúvida, no entanto, de que podem haver casos em que a lavratura da escritura sem o recolhimento do ITCMD facilitará a alienação de imóveis, o levantamento de valores depositados em conta do falecido, a facilitação do relacionamento entre os herdeiros tendo em vista a extinção do condomínio, entre outras vantagens que as partes deverão avaliar. 7. A alteração da resolução não se aplica ao registro de imóveis Importante ressaltar que a dispensa de comrrovação do recolhimento tributário restringe-se estritamente à fase notarial de lavratura da escritura pública de inventário e partilha, não autorizando o registro no Cartório de Registro de Imóveis sem a efetiva quitação do imposto. A alteração da resolução CNJ 35/07 desatrela o ato do tabelião de notas da exigência fiscal prévia, mas preserva a etapa registral de transferência imobiliária, na qual a legislação tributária e registral aplicável continua a exigir a comprovação do recolhimento do ITCMD (ou a demonstração de sua isenção/imunidade) ou ainda do parcelamento em dia, conforme já decidido pela CGJ/MG2, para a consolidação da propriedade em nome dos herdeiros. Portanto, o título notarial é validamente constituído para fins de apuração patrimonial e liquidação de obrigações, mas o registro perante o Registro de Imóveis competente permanece subordinado à comprovação do recolhimento do imposto. 8. Conclusão A evolução da regulamentação do CNJ sobre a dispensa do recolhimento de tributos como condição prévia para a lavratura de escrituras consagra a primazia dos direitos fundamentais à propriedade, à herança e ao devido processo legal tributário. Ao afastar o art. 15 em sua redação primitiva e adequar a resolução CNJ 35/07 ao julgamento do Tema 1.074/STJ e à jurisprudência do STF contra sanções políticas, o CNJ extirpou uma barreira inconstitucional que fragilizava o instituto do inventário extrajudicial. O novo arranjo estabelece um ponto de equilíbrio eficiente: desobstrui a regularização patrimonial dos cidadãos, preserva a autonomia privada e assegura ao Fisco o conhecimento imediato do fato gerador para a cobrança administrativa ou judicial do tributo devido. No entanto, a alteração exige cautela. O fato de ser prorrogado o recolhimento do imposto não importa em isenção, anistia ou exoneração da obrigação tributária, mas apenas em deixar de condicionar a lavratura do ato notarial à prévia quitação do ITCMD. A regularidade do pagamento será examinada pelo Registro de Imóveis e, havendo atraso, as partes ficarão sujeitas aos  encargos moratórios legais, como juros e multas de mora, além da perda irreparável de benefícios fiscais concedidos pelas legislações estaduais para recolhimentos mais céleres. Em Minas Gerais, se recolhido o imposto depois de 90 (noventa) dias contados do falecimento, os herdeiros deixarão de se beneficiar do desconto de 15% (quinze por cento) concedido sobre o valor do imposto3. ___________ 1 MINAS GERAIS. Decreto 43.981, de 3 de março de 2005. Regulamenta o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens ou Direitos - ITCD. Diário do Executivo, Belo Horizonte, 4 mar. 2005. Disponível aqui. Acesso em: 20 ago. 2026. 2 MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Corregedoria-Geral de Justiça. Decisão 9934, nos autos 0034555-11.2020.8.13.0000. Relatora: Aldina de Carvalho Soares, Juíza Auxiliar da Corregedoria de Minas Gerais e Superintendente Adjunta dos Serviços Notariais e de Registro. Belo Horizonte, MG. Disponível aqui. Acesso em: 20 ago. 2026. 3 Disponível aqui. Acesso em: 20 ago. 2026. MINAS GERAIS. Decreto 43.981, de 3 de março de 2005. Regulamenta o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens ou Direitos - ITCD. Diário do Executivo, Belo Horizonte, 4 mar. 2005. Disponível em: http://http://almg.gov.br. Acesso em: 20 ago. 2026. ___________ BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível aqui.Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Lei 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível aqui. Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 394/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno. Disponível aqui. Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 5.894/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno. Disponível aqui. Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Tema Repetitivo 1.074 (REsp 1.896.515/SP e REsp 1.896.526/SP), Rel. Min. Herman Benjamin, Primeira Seção. Disponível aqui. Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Pedido de Providências 0008622-24.2025.2.00.0000, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Julgado em 18/08/2026. Disponível aqui.Acesso em 20 ago. 2026. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução 35, de 24 de abril de 2007. Disponível aqui.Acesso em 20 ago. 2026. MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Corregedoria-Geral de Justiça. Decisão 9934, nos autos 0034555-11.2020.8.13.0000. Relatora: Aldina de Carvalho Soares, Juíza Auxiliar da Corregedoria de Minas Gerais e Superintendente Adjunta dos Serviços Notariais e de Registro. Belo Horizonte, MG. Disponível aqui. Acesso em: 20 ago. 2026. MINAS GERAIS. Decreto 43.981, de 3 de março de 2005. Regulamenta o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens ou Direitos - ITCD. Diário do Executivo, Belo Horizonte, 4 mar. 2005. Disponível aqui.Acesso em: 20 ago. 2026.
O Direito das sucessões tem passado por grandes transformações ao longo dos últimos anos, como resultado de intensa dinâmica social. Nesse contexto, assume protagonismo o importante e crescente movimento de desjudicialização existente em nosso país. É possível, atualmente, a realização de inventários e partilhas nos Tabelionatos de Notas de todo o Brasil, ainda que exista interessado menor ou incapaz, desde que o pagamento do seu quinhão hereditário ou de sua meação ocorra em parte ideal em cada um dos bens inventariados e haja manifestação favorável do ministério Público, nos termos previstos no art. 12-A, da resolução 35/07 do CNJ - CNJ. Também é autorizado o Inventário extrajudicial mesmo que o autor da herança tenha deixado testamento, desde que haja a expressa autorização do juízo sucessório competente em ação de abertura e cumprimento de testamento válido e eficaz, em sentença transitada em julgado, e obedecidos os demais requisitos do art. 12-B, da citada resolução. Outro ponto de grande importância para o Direito e que também passou a ser permitido, é o inerente à possibilidade de se autorizar o inventariante, através da competente Escritura Pública de Nomeação de Inventariante, a alienar bens móveis e imóveis de propriedade do espólio, independentemente de autorização judicial, observados os requisitos do art. 11-A da resolução 35 do CNJ, incluído pela resolução 571 CNJ, de 26/8/24, medida que defendíamos desde 2022. Nesse sentido, vale a leitura do artigo Escritura de Nomeação de Inventariante e a Venda de Bens do Espólio, Independentemente de autorização judicial, de nossa autoria, publicado no Migalhas, na importante Coluna Migalhas Notariais e Registrais. Um passo significativo nesse relevante e indispensável movimento de desjudicialização trilhado em nossa nação. Outra questão que defendemos, capaz de muito contribuir para o avanço do Direito das sucessões e da desjudicialização em nosso país, objeto deste artigo, diz respeito ao pagamento direto previsto na lei 6.858, de 24/11/1980 aos sucessores do falecido, independentemente de alvará judicial, hipótese na qual nos deteremos. Referida lei dispõe sobre o pagamento, aos dependentes e, na sua falta, aos sucessores, de valores não recebidos em vida pelos respectivos titulares, dispensando o inventário ou arrolamento. Em seu art. 1º, a lei assim preconiza: Art. 1º - Os valores devidos pelos empregadores aos empregados e os montantes das contas individuais do fundo de garantia do tempo de serviço e do fde participação PIS-PASEP, não recebidos em vida pelos respectivos titulares, serão pagos, em quotas iguais, aos dependentes habilitados perante a previdência social ou na forma da legislação específica dos servidores civis e militares, e, na sua falta, aos sucessores previstos na lei civil, indicados em alvará judicial, independentemente de inventário ou arrolamento. § 1º - As quotas atribuídas a menores ficarão depositadas em caderneta de poupança, rendendo juros e correção monetária, e só serão disponíveis após o menor completar 18 (dezoito) anos, salvo autorização do juiz para aquisição de imóvel destinado à residência do menor e de sua família ou para dispêndio necessário à subsistência e educação do menor. § 2º - Inexistindo dependentes ou sucessores, os valores de que trata este artigo reverterão em favor, respectivamente, do fundo de previdência e assistência social, do fundo de garantia do tempo de serviço ou do fundo de participação PIS-PASEP, conforme se tratar de quantias devidas pelo empregador ou de contas de FGTS e do fundo PIS PASEP. (Grifo nosso) O decreto 85.845, de 26/3/1981, que regulamenta a citada lei, por sua vez, dispõe que: Art . 1º Os valores discriminados no parágrafo único deste artigo, não recebidos em vida pelos respectivos titulares, serão pagos, em quotas iguais, aos seus dependentes habilitados na forma do art. 2º.          Parágrafo Único. O disposto neste decreto aplica-se aos seguintes valores:         I - Quantias devidas a qualquer título pelos empregadores a seus empregados, em decorrência de relação de emprego;         II - Quaisquer valores devidos, em razão de cargo ou emprego, pela união, estado, Distrito Federal, Territórios, Municípios e suas autarquias, aos respectivos servidores;         III - Saldos das contas individuais do fundo de garantia do tempo de serviço e do fundo de participação PIS/PASEP;         IV - Restituições relativas ao imposto de renda e demais tributos recolhidos por pessoas físicas; V - saldos de contas bancárias, saldos de cadernetas de poupança e saldos de contas de fundos de investimento, desde que não ultrapassem o valor de 500 (quinhentas) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional e não existam, na sucessão, outros bens sujeitos a inventário. Desse modo, os seguintes valores, não recebidos em vida por seus respectivos titulares, segundo a lei e o seu decreto regulamentador, serão pagos aos seus dependentes habilitados perante a previdência social, em quotas iguais, e, na sua falta, aos sucessores do falecido previstos na lei civil, independentemente de inventário ou arrolamento: - Quantias devidas a qualquer título pelos empregadores aos empregados (falecidos), em decorrência de relação de emprego; - Quaisquer valores devidos, em razão de cargo ou emprego, pela união, estado, Distrito Federal, territórios, municípios e suas autarquias, aos respectivos servidores;  - Saldos das contas individuais do FGTS e do PIS/PASEP;  - Restituições relativas ao imposto de renda e demais tributos recolhidos por pessoas físicas;  - E os saldos de contas bancárias, saldos de cadernetas de poupança e saldos de contas de fundos de investimento, desde que não ultrapassem o valor de 500 OTNs e inexistam outros bens sujeitos a inventário. A lei prevê, nesses casos, que os pagamentos serão feitos aos dependentes habilitados junto ao órgão previdenciário, mediante apresentação de "documento fornecido pela instituição de previdência ou se for o caso, pelo órgão encarregado, na forma da legislação própria, do processamento do benefício por morte", conforme prevê o art. 3º do decreto 85.845/1981. Isso não significa, contudo, que a meação do cônjuge/companheiro sobrevivente e os direitos dos herdeiros poderão ser desrespeitados, pois não se trata de sucessão irregular ou anômala. Filiamo-nos à corrente que entende que as regras previstas na lei 6.858/1980 e em seu decreto regulamentador são de natureza processual, e não de natureza material, não podendo prejudicar, portanto, eventual direito do cônjuge/companheiro supérstite e de herdeiros do falecido. Nesse sentido, merecem destaque as lições do ilustre professor Carlos E. Elias de Oliveira: Temos que, salvo as hipóteses de ausência de herdeiros (§ 2º do art. 1º e o parágrafo único do art. 2º da lei 6.858/1980), o "pagamento direto" das verbas trabalhistas, tributárias e de investimento previstas nos arts. 1º e 2º da lei 6.858/1980 decorre de regra de natureza processual e destina-se a afastar apenas o caminho burocrático dos procedimentos de inventário e de arrolamento para que o dependente habilitado levante rapidamente os valores. Não é por outra razão que a previsão de pagamento direto é prevista na legislação processual (art. 666 do CPC), e não propriamente na legislação de direito material (ou seja, no CC). Nessa esteira, aquele que receber o "pagamento direto", ainda que em sede de processo judicial específico (como no inventário ou em uma ação de procedimento comum proposta pelo interessado), deverá atentar para a meação do viúvo e para o quinhão hereditário dos demais herdeiros. Na prática, isso não é tão simples e muitos - herdeiros e meeiros - acabam sendo prejudicados em razão da falta de clareza e de más interpretações dos citados dispositivos legais. Na verdade, o ideal seria que a referida lei fosse alterada para permitir o saque apenas por parte dos sucessores do falecido, nos termos da lei civil, respeitando-se, inclusive, eventual meação de cônjuge ou companheiro, e não aos dependentes habilitados junto à previdência social, a fim de se evitar que estes sejam beneficiados em detrimento daqueles, o que não se pode admitir! Imagine a seguinte situação hipotética: José faleceu e deixou como herdeiros, João, Maria e Felipe, e, ainda, a sua esposa, Elisa, com quem era casado sob o regime da Comunhão Universal de Bens. Contudo, apenas Felipe está habilitado como dependente junto ao órgão de Previdência. José faleceu durante a tramitação de uma reclamação trabalhista que propôs em face de seu antigo empregador, para quem trabalhou ao longo de muitos anos. Ao término, a reclamação foi julgada procedente, rendendo-lhe o direito ao recebimento de quantia considerável e expressiva. Pergunta-se: Nessa hipótese, ainda que não fosse uma quantia vultuosa, seria justo que somente Felipe, único dependente habilitado junto ao órgão de previdência, tivesse direito ao recebimento das referidas quantias, deixando os demais irmãos, todos filhos do falecido, e a viúva-meeira de mãos vazias? Evidente que não! A bem da verdade, seria um completo absurdo, capaz de ensejar o enriquecimento sem causa por parte do recebedor, o que é vedado em nosso Ordenamento jurídico. Além disso, tal situação, na prática, criaria duas classes distintas de herdeiros, ferindo de morte a isonomia assegurada no art. 5º, caput, da CF/88: os dependentes previdenciários (que sacariam sozinhos as importâncias, sem qualquer divisão com os demais herdeiros e o cônjuge meeiro) e os herdeiros do falecido, que seriam chamados a suceder apenas na falta de dependentes habilitados junto ao órgão de previdência. Situação absurda, que o Direito não pode admitir! Ocorre que isso é mais comum do que se imagina. E são justamente casos assim, como do exemplo acima, que viram litígio e vão parar no (já tão abarrotado) Poder judiciário, e que poderiam ser evitados com uma simples e necessária adequação legislativa. Como já dissemos, a lei 6.858/1980 estabelece regras de natureza processual e não de natureza material. Importa dizer que a ordem de vocação hereditária, prevista no art. 1.829 do CC, deve ser observada, assim como as demais regras do Direito das sucessões, não podendo prejudicar eventuais direitos do cônjuge supérstite e dos herdeiros do falecido. Fica aqui, desde já, a nossa sugestão de alteração, a fim de que a referida lei passe a permitir o recebimento das quantias nela arroladas apenas por parte dos sucessores do falecido, em estrita observância à lei civil, e não mais pelos dependentes habilitados no órgão de previdência, a fim de se evitar inúmeros prejuízos aos herdeiros e a eventuais meeiros. Outro ponto que merece especial atenção é o fato de que a lei ainda prevê que, na falta de dependentes habilitados, os pagamentos deverão ser feitos aos sucessores previstos na lei civil, indicados em alvará judicial, independentemente de inventário ou arrolamento. Essa é a previsão da segunda parte do seu art. 1º, que dispensa, nesse caso, o inventário ou arrolamento, e, também, do art. 5º do decreto 85.845/1981, in verbis: "Art . 5º Na falta de dependentes, farão jus ao recebimento das quotas de que trata o art. 1º deste decreto os sucessores do titular, previstos na lei civil, indicados em alvará judicial, expedido a requerimento do interessado, independentemente de inventário ou arrolamento." Cumpre observar que a referida lei é da década de 80 (pré-CF/88, pré-CPC/15 e pré-movimento de desjudicialização), época em que a realidade social e jurídica era outra. Naquela época, o legislador optou por autorizar, na falta de dependentes habilitados, o saque das quantias, pelos sucessores do falecido, mediante a apresentação de alvará judicial, a fim de se desburocratizar o recebimento de tais importâncias e evitando o processo de inventário. Uma decisão acertada para a época, mas que não faz sentido no contexto jurídico contemporâneo. Afinal, ainda não existia a desjudicialização de procedimentos em nosso país. A realidade era outra, definitivamente! Acontece que o Direito deve servir à sociedade. Por conseguinte, acompanhando o dinamismo social, também deve ser dinâmico, com vistas a dar soluções dignas, seguras e adequadas aos anseios e necessidades do homem moderno, que clama por mais celeridade e economia na realização de atos e procedimentos em seu cotidiano. A citada lei fazia sentido para aquela época, no entanto, ficou superada e carece de adequação legislativa, constituindo caso de anacronismo normativo. Exemplo disso é, também, a previsão do seu art. 2º, que ainda fala em 500 OTNs (obrigações reajustáveis do tesouro nacional), valor de difícil conversão, haja vista a extinção do indexador há várias décadas. O melhor seria, a nosso ver, a estipulação de índice de fácil constatação atual, como, por exemplo, a determinação em salários-mínimos. Convém ressaltar, inclusive, que tramita atualmente na câmara dos Deputados importante projeto de lei (PL 4.402-A, de 2024), de Autoria do Deputado Celso Russomanno, que visa, entre outros pontos, alterar o referido art. 2º da lei 6.858/1980 para estabelecer o valor equivalente até 40 (quarenta) salários-mínimos na data do óbito.  Entendemos que é plenamente viável e assertivo, pois encontra respaldo em entendimento consolidado do STJ acerca da proteção patrimonial mínima (mínimo existencial), sendo, também, adotado pelo art. 833, X, do CPC, como limite de impenhorabilidade. Feitas essas considerações, a pergunta que se faz é a seguinte: na atual conjuntura, é pertinente a exigência de alvará judicial, a fim de que os sucessores do falecido façam o saque de tais importâncias? Entendemos que não! A inexistência de dependentes habilitados junto ao órgão de previdência não altera a natureza simplificada para o recebimento dos valores previstos na lei 6.858/1980. Além disso, a atual exigência de alvará judicial viola o princípio da isonomia, garantido constitucionalmente, criando outra distinção absurda: 1) os dependentes previdenciários, que sacam as importâncias administrativamente; e 2) os sucessores do falecido, que precisam submeter a questão ao Poder judiciário, a fim de obter alvará judicial para o recebimento das importâncias. Com a devida vênia, isso não faz o menor sentido, atualmente. Frise-se que, diante da atual previsão da lei 6.858/1980 e de seu decreto regulamentador, podem ocorrer as seguintes situações para o recebimento por parte dos sucessores do falecido: Saque de tais importâncias, sem a realização de inventário e partilha; Saque de tais importâncias, com a realização de inventário e partilha de outros bens deixados pelo de cujus. No primeiro caso (saque sem a realização de inventário ou arrolamento), em sendo todos capazes e concordes, qual seria a necessidade e a complexidade, na atual conjuntura, a ensejar o encaminhamento das partes ao Poder judiciário para pleitear alvará judicial? Isso vai de encontro aos importantes movimentos de desburocratização e de desjudicialização de procedimentos existentes em nosso país. A exigência de alvará judicial, nesses casos, contraria o espírito de desburocratização do Direito moderno e impõe às partes o ônus de ter que bater às portas do judiciário para pleitear algo que poderia ser facilmente resolvido de forma administrativa! Exigir o acionamento do Poder judiciário apenas para chancelar a partilha de tais valores viola a eficiência administrativa e o acesso rápido a tais verbas, impondo ônus desnecessário aos sucessores do falecido. Além disso, o ordenamento jurídico presume a boa-fé do particular e busca mitigar a interferência estatal nas relações privadas. Se todos são maiores, capazes, concordes e estão no pleno gozo da autonomia de suas vontades, por que onerá-los, impondo-lhes a necessidade de buscar a autorização do judiciário? Melhor seria prestigiar o princípio da autonomia da vontade, assim como os princípios da eficiência, da celeridade de procedimentos e da menor intervenção do estado nas relações privadas. Nesse caso - saque sem a exigência de inventario ou arrolamento -, bastaria, a nosso ver, a realização de Escritura Pública Declaratória de Únicos Herdeiros Com Autorização para Saque das Verbas da lei 6.858/1980, em tabelionato de notas, com a indispensável participação de advogado ou defensor público assistindo as partes, contendo: a) a devida identificação e qualificação de todos os herdeiros e do cônjuge/companheiro supérstite; b) dados de eventual casamento ou união estável do de cujus, regime de bens e eventual Pacto Antenupcial registrado; c) dados de qualificação do de cujus e de seu falecimento, com a indicação dos dados da certidão de óbito; d) declarações, sob as penas da lei, de que são os únicos herdeiros do falecido, bem como acerca da inexistência de outros bens sujeitos a inventário e de testamento; e) eventual renúncia aos valores por parte de qualquer dos sucessores; f) expressa autorização concedida por todos para que um dos herdeiros ou o cônjuge/companheiro sobrevivente saque/receba as referidas importâncias junto aos órgãos/instituições competentes, com a ressalva de que a escritura pública é título hábil ao levantamento dos valores e independe de homologação judicial; g) determinação dos percentuais de divisão entre eventual cônjuge ou companheiro supérstite e os herdeiros do falecido, para a adequada divisão e destinação das quantias recebidas, com a devida identificação das contas bancárias de cada um para depósito; h) expressa menção à Certidão Negativa de Testamento, emitida pelo CENSEC; i) declaração da pessoa autorizada a sacar/receber as referidas quantias, firmada sob responsabilidade civil e criminal, com o compromisso de cumprir fielmente o seu mister (saque das quantias devidas e o rateio entre todos, nos percentuais estabelecidos em lei), e, ainda, a expressa advertência de que eventual falta de repasse imediato pode configurar crime de apropriação indébita (art. 168, CP). O tabelião é, indiscutivelmente, profissional apto a realizar tal procedimento, formalizando juridicamente a vontade das partes, capazes e concordes, e conferindo autenticidade, segurança e eficácia ao ato (art. 1º, da lei 8.935/1994), o que é corroborado com a participação indispensável do advogado, assessorando juridicamente as partes e conferindo a legalidade e a higidez do procedimento. De igual forma, sendo todos os herdeiros capazes e concordes, mesmo que o autor da herança tenha deixado outros bens passíveis de partilha, caso optem pela realização do inventário pela via extrajudicial, não há razão em se exigir que recorram ao Poder judiciário para pleitear alvará judicial para o levantamento das quantias descritas na lei. Se o inventário é administrativo, dever-se-á possibilitar às partes a opção por realizar todos os atos a ele inerentes também pela via administrativa. Pensar diferente seria um verdadeiro contrassenso! Não haverá prejuízo algum a quem quer que seja. Prejuízo existe, data máxima vênia, ao se exigir alvará judicial nessas situações. Nessa última hipótese - saque com a realização de inventário e partilha de outros bens deixados pelo de cujus -, bastaria, portanto, a realização de Escritura Pública de Nomeação de Inventariante, contendo a autorização de todos os herdeiros e do cônjuge/companheiro sobrevivente para o inventariante sacar referidas quantias junto aos competentes órgãos e instituições, à semelhança do que já ocorre com relação ao saque de eventuais saldos bancários em contas deixadas pelo falecido, conforme autorização contida no art. 11, §2º, da resolução 35 do CNJ. Por que submeter as partes - que muitas vezes não dispõem de recursos nem de tempo -, a um pedido de alvará judicial, se estas optarem pela realização do inventário pela via extrajudicial? Pode ser que alguém ainda pergunte:  - Mas e se houver interesse de menor ou incapaz? A resposta é simples: bastaria a participação do ministério Público (em ambos os casos - saque com ou sem inventário), a exemplo do que já ocorre com o Inventário extrajudicial em que participe menor ou incapaz, autorizado atualmente pelo art. 12-A da resolução 35 do CNJ, e a efetivação do depósito das quotas atribuídas ao menor ou incapaz prevista no art. 1º, §1º, da lei 6.858/1980, que não precisaria ser, necessariamente, em caderneta de poupança. De todo modo, parece-nos, hoje, totalmente desnecessária e demasiadamente desarrazoada a exigência de alvará judicial para o saque das importâncias previstas na lei 6.858/1980, principalmente nos casos que envolvam pessoas capazes e concordes, no livre gozo da autonomia de suas vontades. Permitir, assim, o levantamento de tais importâncias por meio dos referidos atos notariais (Escritura Pública Declaratória de Únicos Herdeiros Com Autorização para Saque das Verbas da lei 6.858/1980 - nos casos em que não exijam inventário -, ou Escritura Pública de Nomeação de Inventariante, nos casos em que haja a necessidade de inventário e as partes optem pela via extrajudicial), independentemente de alvará judicial e com a necessária participação de advogado, é, a nosso ver, medida que se impõe e alternativa inteligente e em harmonia com o clamor e o dinamismo social. Além disso, representa decisão consonante com o movimento de desjudicialização existente em nosso país, na medida em que promove paz social com efetividade, previne o surgimento de inúmeros litígios, contribui com o Poder judiciário em sua importante missão de prestar jurisdição com efetividade àqueles que de fato necessitam (casos mais complexos e que contenham litígio), possibilita o recolhimento dos tributos devidos, e, atende, por sua celeridade e segurança jurídica, à dignidade da pessoa humana e à autonomia da vontade. Diante do exposto, propomos as seguintes alterações normativas: Da lei 6.858/1980: para permitir o saque das quantias ali arroladas apenas pelos sucessores do falecido, observadas a ordem de vocação hereditária (art. 1.829, CC), a meação de eventual cônjuge ou companheiro e as demais disposições do direito sucessório, e não mais por dependentes habilitados junto ao órgão de previdência, independentemente de alvará judicial e com a indispensável participação de advogado ou defensor público, por meio de: a) "Escritura Pública Declaratória de Únicos Herdeiros Com Autorização para Saque das Verbas da lei 6.858/1980", nos casos em que haja a dispensa de inventário; ou, b) Escritura Pública de Nomeação de Inventariante, nos casos em que haja a necessidade de Inventário e as partes, capazes e concordes, optem pela via extrajudicial.  Além disso, reforçamos a necessidade de alteração do seu art. 2º, em razão da extinção do indexador ali previsto, para estabelecer o valor equivalente a até 40 (quarenta) salários-mínimos, em substituição à atual previsão de 500 OTNs, conforme proposto no PL 4.402/24, pois encontra respaldo em entendimento consolidado do STJ, acerca do mínimo existencial e, também, no art. 833, X, do CPC, como limite de impenhorabilidade;  Da resolução 35/07 do CNJ: i) para permitir que, nos casos em que caibam aos sucessores do falecido o recebimento das verbas descritas na lei 6.858/1980, estes o façam por meio de: a) "Escritura Pública Declaratória de Únicos Herdeiros Com Autorização para Saque das Verbas da lei 6.858/1980", nas hipóteses em que haja a dispensa de inventário, judicial ou extrajudicial; ou, b) Escritura Pública de Nomeação de Inventariante, nos casos em que haja a necessidade de Inventário e as partes, capazes e concordes, optem pela via extrajudicial, independentemente de alvará judicial em qualquer dos casos e com a necessária participação de advogado ou defensor público assistindo as partes; ii) para permitir, igualmente, o recebimento de tais verbas por meio das referidas escrituras públicas, independentemente de alvará judicial e com a necessária participação de advogado ou defensor público, ainda que haja interesse de menor ou incapaz, hipótese em que deverá haver expressa manifestação favorável do Ministério Público, a exemplo do que já ocorre nos inventários extrajudiciais com incapaz, conforme previsto em seu art. 12-A.  _____________ BRASIL. Lei 6.858, de 24 de novembro de 1980. Disponível aqui. Acesso em: 07 ago. 2026.  BRASIL. Decreto 85.845, de 26 de março de 1981. Disponível aqui. Acesso em: 07 ago. 2026.  BRASIL. Projeto de Lei 4.402-A, de 2024. Disponível aqui. Acesso em: 12 ago. 2026. CNJ. Resolução 35/2007. Disponível aqui. Acesso em: 07 ago. 2026. GUEDES, Anderson Nogueira. Escritura de Nomeação de Inventariante e a venda de bens do espólio, independentemente de autorização judicial. Disponível aqui. Acesso em: 07 ago. 2026.  OLIVEIRA, Carlos E. Elias de. A dispensa de inventário e o pagamento direto (parte 2). Disponível aqui.Acesso em: 07 ago. 2026
Resumo: O provimento 247, de 7/8/26, da Corregedoria Nacional de Justiça, instituiu o Validador Nacional de Selos de Fiscalização dos Atos Notariais e Registrais e criou, em favor de entidade sindical de âmbito nacional, obrigação de repasse de um, dez ou vinte e cinco reais por ato praticado no país. Este artigo examina o ato em três planos. No plano da competência, sustenta que a exação tem perfil material de taxa e foi criada sem lei, em desacordo com o art. 150, I, e o art. 236, § 2.º, da Constituição, com o art. 3.º, III, da lei 10.169/00 e com a jurisprudência do STF que veda destinar receita de emolumentos a entidade de Direito Privado. No plano da proporcionalidade, demonstra que a medida não supera as etapas de adequação, necessidade e ponderação estrita, e que foi editada sem a análise consequencial exigida pelos arts. 20 a 22 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. No plano econômico, projeta a arrecadação a partir de dados públicos de tribunais estaduais, do IBGE e do relatório Cartório em Números, com premissas declaradas, e demonstra impacto anual estimado em setecentos e cinquenta e dois milhões de reais, em intervalo que vai de duzentos e trinta e um milhões a um bilhão e seiscentos e noventa e seis milhões, com efeito regressivo sobre os atos de menor valor e sobre as serventias deficitárias. Conclui com cinco proposições de reformulação. Palavras-chave: Direito notarial e registral. Provimento CNJ n. 247/2026. Selo de fiscalização. Legalidade tributária. Proporcionalidade. Emolumentos. Nota metodológica: todas as decisões judiciais citadas indicam número do processo, relator, órgão julgador, data e fonte de consulta. As projeções numéricas da seção 7 são estimativas construídas sobre dados públicos, com premissas expressamente declaradas, e não se apresentam como estatística oficial. Onde não há dado público consolidado, isso é dito no corpo do texto. 1 Introdução: Os absurdos que nascem de boas intenções Nietzsche advertiu, na segunda dissertação da Genealogia da moral, que a origem de uma coisa e a finalidade que depois lhe é imposta são fatos separados por um abismo. Instituições nascem para um fim, são apropriadas por forças novas, reinterpretadas, reorientadas, e terminam servindo a propósitos que seus criadores não anteciparam nem desejariam (NIETZSCHE, 1998). O aviso não é um exercício de ceticismo estéril. É um método. Quando um ato normativo se apresenta envolto em finalidades irrepreensíveis - segurança, transparência, prevenção de fraudes, interoperabilidade, é precisamente aí que o jurista deve apertar o exame, porque a nobreza declarada do fim costuma funcionar como anestésico da crítica sobre os meios. Hobbes construiu o Leviatã sobre a troca entre liberdade e proteção. O pacto se justifica porque o soberano protege; e, na própria arquitetura hobbesiana, cessa a obrigação de obedecer quando cessa a capacidade de proteger (HOBBES, 2003). A lição atravessa os séculos com uma pergunta simples: quanto se pode cobrar em nome da segurança antes que o preço destrua aquilo que se pretendia assegurar? A segurança não é um valor absoluto. É um bem que compete com outros e que, como todos, se submete a um cálculo de custo. Foucault mostrou que o poder disciplinar moderno não opera pela força, mas pelo registro. O panóptico não precisa de correntes: basta a visibilidade permanente, a inscrição contínua de cada gesto em um arquivo, a possibilidade de que tudo seja verificado a qualquer instante (FOUCAULT, 2014). O aparato disciplinar se legitima porque a vontade de ver parece sempre inocente. Ninguém protesta contra a transparência. E é justamente essa unanimidade que a torna o mais eficiente dos instrumentos de controle. Bauman deu a esse fenômeno a sua forma contemporânea. Na vigilância líquida, o controle deixa de ser uma estrutura fixa e passa a fluir, terceirizado, difuso, alimentado por uma demanda de segurança que nunca se satisfaz: cada camada de proteção revela uma nova vulnerabilidade que justifica a camada seguinte (BAUMAN; LYON, 2013). A insegurança não é o problema que a vigilância resolve; é o combustível que ela consome e reproduz (BAUMAN, 2001). Byung-Chul Han levou o diagnóstico ao limite. A transparência, escreve ele, não é uma virtude, mas uma ideologia. A sociedade que exige transparência total não é uma sociedade de confiança: é uma sociedade de suspeita generalizada. Confiança só é necessária onde o conhecimento é incompleto; onde tudo é verificável e verificado, a confiança se torna supérflua e o que resta é controle (HAN, 2017). Em Psicopolítica, Han acrescenta que o dispositivo contemporâneo não coage: convence. Ele obtém adesão fazendo com que o vigiado sinta que colabora com o próprio bem (HAN, 2018). Reunidas, essas cinco leituras compõem uma advertência precisa, e é com ela que este artigo se abre: justificativas moralmente defensáveis são capazes de produzir arranjos institucionais absurdos, e o absurdo tende a passar despercebido exatamente porque a justificativa é boa. Ninguém é contra a prevenção de fraudes. Ninguém defende selos falsificáveis. Ninguém sustenta que o cidadão não deva poder verificar a autenticidade de um documento. O consenso sobre o fim, contudo, não valida o meio, não dispensa a lei, não afasta a proporcionalidade e, sobretudo, não transforma em constitucional aquilo que a Constituição reservou ao legislador. O provimento 247, de 7/8/26, da Corregedoria Nacional de Justiça, instituiu o VNS - Validador Nacional de Selos de Fiscalização dos Atos Notariais e Registrais. O ato veio acompanhado de reação institucional imediata. A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais e as vinte e sete ARPEN estaduais publicaram nota de posicionamento e repúdio, qualificando a cobrança como confiscatória e como tributo criado sem lei em sentido estrito. Os Operadores Nacionais - ONSERP, ONR, ON-RTDPJ e ON-RCPN - subscreveram nota coletiva de oposição, sustentando que os objetivos declarados poderiam ser alcançados por protocolos abertos sobre a infraestrutura já existente, sem estrutura paralela e sem novos custos às serventias. Este artigo sustenta uma tese em três tempos. Primeiro: a obrigação de repasse criada pelo provimento tem natureza materialmente tributária e, por isso, era matéria de reserva legal, ou, se não for tributo, é algo pior, uma imposição patrimonial compulsória sem qualquer título constitucional e sem as garantias que acompanham a tributação. Segundo: mesmo que se superasse o vício de competência, o arranjo não sobrevive ao teste da proporcionalidade em nenhuma de suas três etapas. Terceiro: o modelo econômico embutido no ato é, para a franja deficitária da rede extrajudicial, inviabilizador, e a demonstração disso não depende de retórica, mas de aritmética sobre dados públicos. Há ainda um ponto que precede todos os demais e que merece ser dito com todas as letras. A função notarial e registral existe para produzir confiança. Ceneviva já observava que a fé pública é o núcleo da delegação e a razão pela qual o Estado transfere ao particular o exercício de uma função estatal (CENEVIVA, 2010); Brandelli situa o notário como o terceiro imparcial cuja intervenção dispensa a prova posterior (BRANDELLI, 2009). Criar uma camada nacional cuja premissa operativa é a de que o selo emitido pelo Tribunal de Justiça competente não basta para atestar a si mesmo é, estruturalmente, um ato de desconfiança institucional do sistema em relação a si próprio. Han descreveria o movimento com exatidão: substitui-se confiança por verificação e, ao fazê-lo, destrói-se o bem que se pretendia proteger. 2 O que o provimento 247/26 efetivamente institui 2.1 O que o ato institui Antes da crítica, a descrição. O objeto precisa ser apresentado sem caricatura. O art. 1.º institui o VNS como plataforma nacional de verificação da autenticidade, integridade, vinculação e situação dos selos correspondentes aos atos praticados pelas serventias extrajudiciais, estruturada sobre banco nacional de dados de natureza pública. O art. 3.º, § 1.º, organiza a informação em três camadas: dados de identificação e validação do selo; metadados do ato ao qual o selo se vincula; e conteúdo do ato. O § 2.º restringe o banco nacional às duas primeiras camadas, e o § 4.º veda ao VNS receber, armazenar ou replicar o conteúdo dos atos. O art. 13 cria o CVNS - Código de Validação Nacional de Selo, numeração de vinte dígitos distribuída em quatro campos: seis dígitos do Código Nacional da Serventia, dois do Tribunal de Justiça, dez de número de ordem sequencial gerado no âmbito da própria serventia e dois dígitos verificadores obtidos pelo algoritmo MOD 97-10 da ISO/IEC 7064:2003. O art. 22 institui o RTE - Registro Temporal de Eventos, encadeamento cronológico e auditável de todos os eventos extrajudiciais relacionados a cada objeto jurídico identificável: matrícula imobiliária, número de ato de registro civil, protocolo notarial ou identificador equivalente. A governança está no art. 4.º. O desenvolvimento e a operacionalização do VNS ficam atribuídos à CNR - Confederação Nacional dos Notários e Registradores, qualificada pelo próprio provimento como entidade sindical de âmbito nacional, condicionados à homologação da Corregedoria Nacional. O art. 20, § 1.º, veda às serventias desenvolver solução destinada a exercer, em âmbito nacional, as funções de validação atribuídas ao VNS. O art. 21 estende a vedação a qualquer pessoa natural ou jurídica, ressalvadas apenas as atividades da CNR. O custeio está no Capítulo VII. O art. 24 estabelece que o sistema não acarretará custo orçamentário direto ao CNJ. O art. 27 fixa os parâmetros de repasse: um real por ato cujos emolumentos sejam de até cem reais; dez reais por ato cujos emolumentos sejam superiores a cem e de até cinco mil reais; vinte e cinco reais por ato cujos emolumentos superem cinco mil reais. O § 1.º esclarece que a base de enquadramento é o valor dos emolumentos do ato que deu origem ao selo de fiscalização estadual. O § 3.º condiciona o repasse relativo a atos gratuitos e isentos à efetiva compensação pelos fundos estaduais. O art. 28 determina que os repasses sejam feitos pelas serventias diretamente à entidade nacional responsável até o quinto dia útil do mês subsequente ao da prática dos atos. O art. 29 autoriza a CNR a utilizar até dois por cento dos recursos arrecadados para despesas administrativas gerais, incluídas - a expressão é do próprio provimento, as relativas ao desempenho de suas atividades finalísticas associativas e sindicais. O art. 37 condiciona a exigibilidade das obrigações à homologação da solução tecnológica e à comunicação oficial da Corregedoria Nacional. Registre-se, em favor do ato, que ele contém salvaguardas relevantes: veda a exploração econômica dos dados pela CNR (art. 25, § 2.º), impõe reversibilidade integral da solução tecnológica (art. 36), exige trilhas de auditoria, relatórios quadrimestrais e proíbe a formação de perfis e a coleta automatizada (art. 8.º, § 4.º). O problema não está na ausência de preocupação técnica. Está na estrutura jurídica e econômica sobre a qual essa preocupação foi construída. 2.2 As manifestações institucionais e o que elas sustentam O provimento produziu, em menos de uma semana, a reação mais ampla que a atividade extrajudicial brasileira registrou nos últimos anos. Três manifestações públicas foram subscritas, e convém examiná-las com o mesmo rigor com que se examina o ato que as motivou - inclusive para apontar onde os argumentos são fortes e onde não são. A primeira veio dos Operadores Nacionais dos serviços registrais: o Operador Nacional do Sistema de Registros Públicos, o Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis, o Operador Nacional do Registro de Títulos e Documentos e de Civil de Pessoas Jurídicas e o Operador Nacional do Registro Civil das Pessoas Naturais. A nota coletiva de oposição afirma a adesão dos signatários à interoperabilidade, à padronização técnica e à segurança jurídica, e sustenta que esses objetivos devem ser alcançados por protocolos abertos e interfaces de integração que conectem as infraestruturas já existentes, preservando os investimentos realizados e evitando sobreposição de sistemas. Formula, ainda, a objeção técnica que este artigo reputa a mais consistente de todas: a validação de um selo de fiscalização não se confunde com a validação do ato jurídico, e a confirmação da autenticidade de um identificador, isoladamente, nada assegura quanto à integridade ou à validade do inteiro teor do ato. Acrescenta que a ausência de uniformidade nacional dos atuais modelos de selo torna a camada nacional de validação um ganho menor do que se supõe. A segunda veio da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais e das vinte e sete ARPEN estaduais. A nota de posicionamento e repúdio desloca o foco para a economia peculiar do Registro Civil: a prestação gratuita, por imposição legal, de atos fundamentais à dignidade humana; a sobrecarga sobre serventias de municípios de baixa densidade populacional, cuja receita é historicamente insuficiente para cobrir custos operacionais básicos; e a dependência estrutural dos fundos de compensação e da solidariedade intercartorária. Daí o argumento central: a imposição de um gravame por ato sufoca a atividade, drena recursos indispensáveis à manutenção dos serviços locais e compromete a capilaridade que evita desertos de cidadania e sustenta o combate ao sub-registro. No plano jurídico, a nota qualifica a cobrança como confiscatória e como tributo criado sem lei em sentido estrito, com violação da legalidade tributária e extrapolação dos limites da competência fiscalizatória e regulamentar do Conselho. A terceira, datada de 13/8/26, é a que altera a natureza do episódio. Subscrita conjuntamente pela Associação dos Notários e Registradores do Brasil, pelo Colégio Notarial do Brasil - Conselho Federal, pelo Registro de Imóveis do Brasil, pelo Instituto de Registro Imobiliário do Brasil, pelo Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil, pela ARPEN-Brasil, pelo Instituto de Registro de Títulos e Documentos e de Pessoas Jurídicas do Brasil e pelos Operadores Nacionais das especialidades notariais e registrais, a nota de repúdio e posicionamento reúne, em um único documento, praticamente todas as entidades nacionais representativas do sistema extrajudicial brasileiro. Não houve dissenso setorial: a manifestação é unânime entre os representados. Seus fundamentos são três, e todos merecem registro. O primeiro é procedimental: as entidades afirmam ter sido surpreendidas pela edição de norma de tamanha abrangência e repercussão sem prévio e efetivo diálogo com a atividade extrajudicial, e sustentam que alterações estruturais dessa magnitude exigem debate técnico amplo, transparência, avaliação prévia de impacto e participação efetiva. O segundo é econômico: a nota registra especial preocupação com o modelo de custeio, que cria incidência financeira diretamente relacionada aos atos praticados, com repercussão significativa sobre a sustentabilidade dos serviços, agravada pelas profundas diferenças econômicas, estruturais e regionais entre os cartórios brasileiros. O terceiro é conclusivo: as signatárias manifestam repúdio à forma como a matéria foi instituída, defendem a imediata revogação do ato e informam estar promovendo análise técnica e jurídica conjunta, com avaliação de todas as medidas institucionais e jurídicas cabíveis. A exigência de avaliação prévia de impacto, formulada em termos expressos pelas entidades, não constitui retórica corporativa. Reproduz, quase literalmente, o que os arts. 20 a 22 do decreto-lei 4.657/1942, na redação da lei 13.655/18, e o art. 5.º da lei 13.874/19 impõem a quem edita ato normativo de interesse geral. O anexo deste artigo procura suprir, na medida do que dados públicos permitem, exatamente essa lacuna. Convergem as três manifestações em cinco pontos: nenhuma delas se opõe à unificação nacional da verificação de selos; todas atacam o modelo de custeio por ato; todas apontam a ausência de diálogo prévio e de avaliação de impacto; todas defendem o aproveitamento da infraestrutura existente; e todas invocam a heterogeneidade econômica e regional da rede como fator que o ato desconsiderou. 2.3 O déficit de participação: Quem não foi ouvido é quem paga Há um traço comum às três manifestações que merece exame autônomo, porque não configura queixa corporativa, e sim vício de procedimento. Todas afirmam a mesma coisa: o ato foi editado sem prévio e efetivo diálogo com a atividade que ele regula e onera. A gravidade do ponto decorre de quem são os excluídos. Não se trata de terceiros interessados ou de observadores do setor. São as entidades que representam a totalidade das especialidades notariais e registrais, que operam as centrais eletrônicas nacionais sobre as quais o novo sistema pretende sobrepor-se, que detêm o conhecimento técnico da arquitetura existente e que, ao fim, suportarão integralmente o custo do arranjo. Quem executa o serviço, quem mantém os sistemas e quem pagará a conta não foi consultado sobre nenhuma das três coisas. A omissão contrasta com a prática que a própria Corregedoria Nacional adota em matérias de menor densidade econômica. O art. 2.º do provimento 149/23 instituiu a Comissão Consultiva Permanente do Código Nacional de Normas - Foro Extrajudicial, órgão criado precisamente para franquear ao setor a participação na formulação normativa. O art. 16, § 5.º, do provimento 213/26, na redação do provimento 243/26, condiciona a mera revisão dos limites monetários de enquadramento tecnológico a estudo técnico e a consulta prévia às Corregedorias dos Tribunais de Justiça. O art. 64-A do Código Nacional de Normas, incluído pelo provimento 211/26, nomeia expressamente as entidades representativas nacionais como interlocutoras institucionais para o credenciamento de fornecedores de papel de segurança. Diversos provimentos recentes registram, em seus considerandos, as deliberações tomadas em pedidos de providências que os antecederam. O provimento 247/26 não registra consulta, não menciona a Comissão Consultiva, não invoca deliberação prévia e não indica manifestação de nenhuma das entidades nacionais. Nada disso equivale a exigir plebiscito para cada ato administrativo. Reconhece-se apenas que o art. 29 do decreto-lei 4.657/1942, incluído pela lei 13.655/18, prevê a consulta pública como instrumento próprio da edição de atos normativos por autoridade administrativa; que o art. 20 do mesmo diploma veda decidir com base em valores jurídicos abstratos sem consideração das consequências práticas; que o art. 21 exige a demonstração da necessidade e da adequação da medida em face das alternativas; e que o art. 5.º da lei 13.874/19, regulamentado pelo decreto 10.411/20, estendeu a análise de impacto regulatório aos atos normativos de interesse geral dos agentes econômicos. A participação, nesse desenho, não opera como cortesia institucional. Opera como método de produção de informação, sem o qual a decisão se toma às cegas. E o custo da cegueira é mensurável. Os dados de que este artigo se vale para projetar a arrecadação, dimensionar o impacto sobre as serventias de menor porte e identificar o descompasso entre o encargo e o regime de diferimento dos emolumentos do protesto estão, em sua maior parte, na posse das entidades que não foram ouvidas - quando não na posse do próprio Conselho, por força do dever de alimentação do Sistema Justiça Aberta imposto pelo art. 136-A do Código Nacional de Normas. Ouvir o setor não teria atrasado o ato; teria evitado que ele fosse editado sem saber quanto custa, quanto arrecada e sobre quem recai. Aqui a metáfora do título deixa de ser ornamento. O Leviatã de Hobbes é uma construção de consentimento: a autoridade se legitima porque os súditos, ao instituí-la, autorizam-lhe os atos. Um poder que decide sozinho sobre o corpo que governa, sem sequer ouvi-lo, não é o soberano hobbesiano - é a sua degeneração. E Han acrescentaria o traço contemporâneo: o dispositivo eficiente é o que obtém adesão; aqui, não houve nem a tentativa de obtê-la. Registre-se, a título de informação institucional relevante, que a Associação dos Notários e Registradores do Brasil, primeira signatária da nota conjunta, já figurou como requerente em ações diretas de inconstitucionalidade conhecidas e julgadas pelo STF em matéria de emolumentos, entre elas a ADIn 3.643 e a ADIn 3.704. A legitimidade ativa para o controle concentrado, portanto, não é questão em aberto. Clique aqui para ler a íntegra da coluna.
No Brasil, o crédito rural constitui um dos mais relevantes instrumentos de fomento ao agronegócio. A sustentação da atividade agropecuária depende, em grande medida, do financiamento concedido por instituições financeiras públicas e privadas, como o Banco do Brasil, o BNDES, entre outras. Os produtores rurais recebem, via de regra, recursos destinados ao custeio, investimento, comercialização, aquisição de animais, formação de lavouras e manutenção da produção, operações que, em razão dos elevados valores envolvidos, exigem a constituição de garantias reais aptas a assegurar ao credor a recuperação do capital emprestado.1 Entre essas garantias destacam-se o penhor, a hipoteca e a alienação fiduciária em garantia. Para os fins deste estudo, contudo, será realizado um recorte epistemológico voltado à análise do penhor rural, em suas modalidades agrícola e pecuária. Essas garantias são formalizadas, em regra, por meio das Cédulas Rurais Pignoratícias, Cédulas Rurais Hipotecárias, Cédulas Rurais Pignoratícias e Hipotecárias, Cédulas de Produto Rural, bem como outros instrumentos destinados ao financiamento da atividade agropecuária.2 Além de sua evidente função econômica, tais garantias possuem relevante dimensão jurídico-registral, que constitui o objeto central desta pesquisa. O penhor rural, por exemplo, não representa mero reforço patrimonial inserido em uma operação de crédito. Trata-se de verdadeiro direito real de garantia que, uma vez constituído e publicizado perante o Registro de Imóveis competente, produz efeitos erga omnes. Seja na modalidade agrícola, seja na pecuária, o penhor rural, uma vez registrado, vincula bens determinados ao cumprimento da obrigação garantida e interfere diretamente na disponibilidade jurídica da base produtiva, da safra ou do rebanho empenhado.3 Por essa razão, a constituição, a modificação, a prorrogação, a substituição e o cancelamento dessas garantias não podem ser compreendidos como meros atos registrais ou averbações acessórias, tampouco como simples formalidades praticadas perante as serventias de Registro de Imóveis. Cada ato registral comunica ao sistema jurídico uma situação jurídica específica, apta a orientar a atuação dos agentes econômicos e a conferir segurança ao mercado de crédito do agronegócio. O presente estudo revela um padrão observado nas serventias de Registro de Imóveis após o registro das garantias constituídas por meio das cédulas de penhor rural. Concluído o registro e liberado o crédito pela instituição financeira, novas cédulas rurais são frequentemente apresentadas para registro, com a finalidade de constituir novos penhores sobre safra presente, safra futura, produção agrícola, rebanho bovino ou outros bens vinculados à atividade rural, sem que as garantias anteriormente registradas tenham sido formalmente canceladas, incidindo, muitas vezes, sobre a mesma área produtiva ou sobre a mesma matrícula imobiliária. Em levantamento realizado nas Serventias de Registro de Imóveis de Regente Feijó/SP e Pirapozinho/SP, constatou-se que parcela significativa das cédulas registradas já se encontra vencida. Sob a perspectiva econômica, é natural que a safra correspondente já tenha sido colhida, que os produtos tenham ingressado na circulação econômica e que os animais tenham sido vendidos, abatidos, mortos ou substituídos. Ainda assim, sob a perspectiva registral, o gravame permanece íntegro. Nos termos da lei de Registros Públicos, enquanto não houver averbação de cancelamento ou ato formal de averbação de aditamento, a garantia real continua a produzir efeitos perante terceiros. Evidencia-se, assim, uma dissociação entre a realidade econômica e a realidade registral, fenômeno que constitui um dos objetos centrais da presente análise crítica.4 No plano obrigacional, é possível que a dívida já tenha sido integralmente adimplida, nada mais sendo devido pelo devedor ao credor. No plano fático, via de regra, a safra já não existe, por ter sido colhida, e o rebanho originalmente empenhado provavelmente foi substituído, alienado ou já não integra o patrimônio do devedor. O plano publicístico-registral, contudo, segue lógica diversa. Enquanto não houver o cancelamento do gravame, o registro continua a comunicar a terceiros a existência de uma garantia real, circunstância evidenciada pela expedição de certidão positiva de ônus do Livro 3 - Registro Auxiliar. Enquanto não cancelado, o penhor permanece produzindo efeitos no plano registral e subsiste como informação jurídica dotada de publicidade. Impõe-se, portanto, apontar três momentos distintos dessa relação jurídica: o vencimento da obrigação, a eventual extinção material da garantia e o respectivo cancelamento registral. O vencimento da cédula não se confunde com a quitação da dívida; a colheita da safra não equivale ao cancelamento do penhor; a substituição do rebanho não se confunde com a averbação da sub-rogação; e a provável extinção econômica da garantia tampouco substitui a indispensável averbação de seu cancelamento.5 Sob essa perspectiva, a baixa das garantias reais do agro deve ser compreendida como averbação extintiva indispensável à higidez do fólio real. Cuida-se, portanto, de comunicação jurídica de natureza extintiva, destinada a informar a terceiros que determinada garantia já não integra a situação jurídica do imóvel ou da base produtiva anteriormente onerada. Quando essa providência deixa de ser praticada, o registro passa a conservar informações que já não correspondem, necessariamente, à realidade fática ou econômica da garantia. Essa permanência artificial do gravame compromete a qualidade da publicidade registral e pode repercutir diretamente sobre a especialidade, a disponibilidade, a prioridade e a segurança jurídica das operações de crédito rural. Pois bem. Se a situação se limitasse a essa dissociação entre a realidade econômica e a realidade registral, talvez pudesse ser tratada como mera imperfeição formal. O problema, contudo, agrava-se quando nova cédula rural é apresentada para registro, constituindo novo penhor sobre a mesma base produtiva, sem qualquer referência à subordinação do gravame anteriormente registrado, permitindo a coexistência formal de penhores sobre safras pretéritas e futuras ou sobre rebanhos antigos e novos, sem que seja possível verificar a subsistência da garantia anterior. A ausência de cancelamento desses gravames transcende a esfera da mera irregularidade formal. Ela pode gerar conflitos de preferência entre credores, impossibilitar a aferição do lastro da garantia, comprometer a determinação do objeto empenhado e produzir publicidade registral contraditória. Compete ao Oficial de Registro de Imóveis preservar a coerência das informações jurídicas publicizadas, garantindo que a publicidade registral cumpra sua função de reduzir a complexidade do tráfego jurídico e conferir segurança às relações negociais. Em outras palavras, a confiabilidade do sistema registral depende da compatibilidade entre as informações constantes do fólio real, sob pena de fragilizar a confiança que dele legitimamente se espera. No âmbito específico do penhor agrícola, o problema assume contornos próprios6. A safra futura, embora constitua bem móvel por antecipação econômica e possa ser objeto de penhor rural, encontra-se necessariamente vinculada a determinada área de cultivo, circunstância que se reflete no Registro de Imóveis mediante averbação-notícia na respectiva matrícula. A lavoura será implantada em imóvel determinado, em área previamente identificada, seja pelo proprietário, seja por terceiro legitimado à exploração da atividade rural, na qualidade de arrendatário, parceiro, usufrutuário, superficiário, comodatário ou sob outro vínculo jurídico que lhe confira a posse ou o direito de exploração da área. Ilustra-se a questão com uma situação simples. Se a safra anterior foi frustrada ou insuficiente, é possível que seus efeitos repercutam sobre a safra imediatamente seguinte. É justamente nesse ponto que reside o problema. Um novo instrumento cedular pode ser apresentado para constituir penhor sobre safra futura, sem que tenha havido a baixa ou qualquer esclarecimento acerca do gravame anteriormente registrado, passando a coexistir, no plano registral, garantias incidentes sobre ciclos produtivos distintos. Nada impediria que a instituição financeira, ao estruturar a operação de crédito, exigisse que a cédula identificasse com precisão a cultura, a quantidade estimada da produção, o período de cultivo e a área específica de implantação da lavoura, permitindo individualizar adequadamente a nova garantia e preservar a especialidade objetiva do penhor. Não é isso, contudo, que normalmente ocorre. Em regra, os instrumentos cedulares limitam-se a indicar, de forma genérica, a área onde será implantada a cultura, sem estabelecer elementos suficientes para distinguir a nova garantia daquelas anteriormente constituídas. Situação semelhante ocorre no penhor pecuário. O objeto da garantia é constituído por animais vivos, naturalmente sujeitos à constante renovação do rebanho. Os semoventes podem ser vendidos, abatidos, substituídos ou adquiridos para recomposição da garantia. O CC admite essa sub-rogação, mas condiciona sua eficácia perante terceiros à correspondente publicidade registral.7 Assim, quando sucessivos penhores pecuários são registrados sem a baixa dos gravames anteriores ou sem a averbação das substituições ocorridas no rebanho, torna-se impossível identificar, com segurança, quais animais garantem cada obrigação, se os bens originalmente empenhados ainda subsistem, se foram regularmente substituídos ou se já se encontram vinculados a outra garantia. Nessa hipótese, a publicidade registral deixa de cumprir sua função de fornecer informações jurídicas confiáveis, passando a conservar registros que, embora formalmente válidos, já não permitem retratar, com precisão, a realidade da garantia. O Registro de Imóveis não se limita a recepcionar e arquivar títulos. Sua função consiste em produzir publicidade jurídica qualificada, apta a comunicar ao meio social situações jurídicas dotadas de eficácia perante terceiros. Cada ato registral representa uma comunicação, destinada a reduzir incertezas e conferir estabilidade às relações jurídicas. Nessa perspectiva, o fólio real não pode ser compreendido como mero repositório de documentos ou simples arquivo histórico de títulos, mas como verdadeiro ambiente de comunicação jurídica eficaz. É justamente sob essa perspectiva que a teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann se mostra particularmente adequada ao presente estudo. Para os autores, a sociedade estrutura-se por meio da comunicação, e não pela simples soma das vontades individuais. O Direito, como subsistema social, também opera por comunicações próprias, produzindo expectativas normativas e estabilizando as relações sociais. Essa construção teórica permite compreender que o Registro de Imóveis exerce função muito mais ampla do que a mera conservação de documentos, pois ele produz comunicações jurídicas dotadas de publicidade e eficácia erga omnes.8 Aplicada ao penhor rural, essa premissa evidencia que, uma vez protocolizado e submetido à qualificação registral, o instrumento cedular deixa de constituir simples informação privada entre credor e devedor. Após sua qualificação e registro pelo Oficial de Registro de Imóveis, passa a integrar o sistema registral como comunicação jurídica pública, apta a produzir efeitos perante terceiros e a orientar o comportamento dos agentes econômicos. Sob essa ótica, a qualificação registral pode ser compreendida como verdadeira etapa de seleção comunicativa, expressão utilizada por Luhmann para designar o processo pelo qual determinadas informações são admitidas pelo sistema jurídico e passam a produzir efeitos. Cumpre, portanto, ao oficial de Registro de Imóveis verificar se o título apresentado é compatível com a legislação vigente e com a situação jurídica já publicizada no fólio real.9 Assim, registrar, averbar, abrir matrícula ou formular exigências por meio de nota devolutiva não constitui atividade meramente burocrática. Trata-se do exercício da função qualificadora atribuída ao registrador, destinada a preservar a coerência das comunicações jurídicas constantes do registro, reduzindo a complexidade do tráfego jurídico e estabilizando as legítimas expectativas dos usuários do sistema registral. Quando o oficial de Registro de Imóveis exige a baixa dos penhores anteriormente registrados, a demonstração de que a nova garantia recai sobre objeto distinto ou a adequada individualização do bem empenhado, não cria obstáculo ao crédito rural. Ao contrário, exerce a função qualificadora que lhe é atribuída pelo ordenamento jurídico, preservando a coerência das comunicações jurídicas constantes do Registro de Imóveis e, por consequência, a confiabilidade do sistema registral, condição indispensável ao adequado funcionamento do mercado de crédito rural, estruturado sobre garantias reais. A legislação registral brasileira reforça essa compreensão ao admitir o cancelamento total ou parcial dos atos registrais mediante título hábil, bem como ao atribuir ao Livro 3 - Registro Auxiliar o registro das cédulas rurais garantidas por penhor. No mesmo sentido, o CC estabelece que a extinção do penhor somente produz efeitos após a averbação de seu cancelamento no registro competente, à vista da respectiva prova. Embora se pudesse cogitar da extinção material da garantia em razão do perecimento da coisa ou do simples decurso do tempo, a disciplina legal afasta a conclusão de que o vencimento da obrigação, por si só, autorize a baixa do gravame. Enquanto não promovida a competente averbação de cancelamento, o penhor permanece produzindo efeitos perante terceiros, no plano dos direitos reais, em razão da publicidade conferida pelo Registro de Imóveis.10 Assim, o presente estudo parte da hipótese de que a averbação de baixa das garantias rurais constitui condição indispensável à coerência da publicidade registral e ao ingresso seguro de novas garantias pignoratícias. Enquanto não promovida a averbação de cancelamento do penhor anteriormente constituído, sua permanência no fólio real interfere na disponibilidade do bem, na definição da preferência entre as garantias, na especialidade objetiva do penhor e, em última análise, na segurança jurídica do crédito rural. Nesse contexto, a nota devolutiva, ou nota de exigência, expedida pelo Oficial de Registro de Imóveis representa o legítimo exercício da qualificação registral, voltado à verificação da compatibilidade do título com a situação jurídica já constante do registro. Longe de constituir obstáculo ao crédito rural, essa atuação assegura a integridade das informações publicizadas e a regular constituição de novas garantias reais. É sob essa perspectiva que se desenvolve o presente estudo. Busca-se demonstrar que a averbação de cancelamento dos penhores anteriormente registrados constitui requisito para o ingresso de novas garantias pignoratícias quando houver identidade ou potencial sobreposição do objeto empenhado, preservando a coerência do sistema registral e a segurança jurídica do crédito rural. _____ BANCO CENTRAL DO BRASIL. Manual de Crédito Rural (MCR). Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 10 ago. 2026. BRASIL. Decreto-Lei nº 167, de 14 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre títulos de crédito rural e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 15 fev. 1967. Disponível aqui. Acesso em: 10 ago. 2026. BRASIL. Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos, e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 31 dez. 1973. Disponível aqui. Acesso em: 10 ago. 2026. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível aqui. Acesso em: 10 ago. 2026. CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis: comentários ao sistema de registro em face da Lei nº 6.015, de 1973, com as alterações da Lei nº 6.216, de 1975, Lei nº 8.009, de 1990, e Lei nº 8.935, de 1994. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. CENEVIVA, Walter. Lei dos registros públicos comentada. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. FERRO JÚNIOR, Izaías Gomes. A publicidade registral imobiliária brasileira, baseada na teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann e a necessidade de adequação à LGPD. 2024. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo, São Paulo, 2024. LUHMANN, Niklas. O direito da sociedade. Tradução de Saulo Krieger. São Paulo: Martins Fontes, 2016. MELO, Marcelo Augusto Santana de. Teoria geral do Registro de Imóveis: estrutura e função. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: JusPodivm, 2023. _____ 1. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Manual de Crédito Rural (MCR). Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 10 ago. 2026. 2. BRASIL. Decreto-Lei nº 167, de 14 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre títulos de crédito rural e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 15 fev. 1967, arts. 9º e 14. 3. Nota dos autores: Vide a bibliografia de Marcelo Melo, In: MELO, Marcelo Augusto Santana de. Teoria geral do Registro de Imóveis: estrutura e função. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: JusPodivm, 2023; CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis: comentários ao sistema de registro em face da Lei nº 6.015, de 1973. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. 4. BRASIL. Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos, e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 31 dez. 1973, arts. 167, 177, 178, 248 a 252. 5. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 jan. 2002, arts. 1.436 a 1.439. 6. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil, art. 1.443; BRASIL. Decreto-Lei nº 167, de 14 de fevereiro de 1967, art. 14. 7. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil, arts. 1.444 a 1.446. 8. LUHMANN, Niklas. O direito da sociedade. Tradução de Saulo Krieger. São Paulo: Martins Fontes, 2016; FERRO JÚNIOR, Izaías Gomes. A publicidade registral imobiliária brasileira, baseada na teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann e a necessidade de adequação à LGPD. 2024. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo, São Paulo, 2024. 9. Nota dos autores: Vide a bibliografia de Afrânio de Carvalho. In: CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis: comentários ao sistema de registro em face da Lei nº 6.015, de 1973. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997; CENEVIVA, Walter. Lei dos registros públicos comentada. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. 10. BRASIL. Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, arts. 167, 177, 178, 248, 249 e 250; BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, art. 1.437.
1 Introdução É comum o negócio de compra e venda imobiliário principiar pelo contrato preliminar e, lamentavelmente, estacionar nele durante um tempo maior que aquele aconselhado pela prudência. Não são raras as hipóteses em que a contratação obrigacional já se aperfeiçoou, o preço foi integralmente quitado e, restando apenas a formalização do título definitivo, o irremediável colher uma das partes. O óbito cria uma barreira à outorga da escritura pública, requisito de validade dos negócios jurídicos que visem à constituição, à transferência, à modificação ou à renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no País, salvo disposição legal em contrário (art. 108 do CC). Então, surge a dúvida sobre quem poderá comparecer ao ato notarial para concluir o negócio anteriormente celebrado. Entre a vontade já formada e o título ainda não lavrado abre-se, então, um breve silêncio jurídico, que precisa ser atravessado sem apagar a história do contrato. Durante muitos anos, a solução frequentemente adotada consistia na obtenção de autorização judicial ou mesmo na inclusão do imóvel no inventário, até pela literalidade da regra instrumental do art. 619, inciso I, do CPC/15. Essa estratégia era utilizada ainda que, no caso do vendedor falecido, o domínio registral permanecesse em seu nome, mas já estivesse limitado pela obrigação de transferir o bem; ou, inversamente, embora o comprador falecido já houvesse adquirido, no plano obrigacional e econômico, o direito à aquisição. A evolução do inventário extrajudicial e da atuação notarial permitiu o desenvolvimento de mecanismos mais eficientes para solucionar essa situação, culminando no reconhecimento da possibilidade de utilização da escritura pública de nomeação de inventariante para conferir poderes destinados ao cumprimento de obrigações assumidas em vida. A nomeação de inventariante com poderes especiais prepara a ponte, e a escritura de compra e venda realiza a travessia. 2 O enunciado 48 da I jornada de Direito notarial e registral A I jornada de Direito notarial e registral aprovou importante orientação interpretativa acerca da matéria. Embora o enunciado não possua força normativa vinculante, oferece leitura técnica persuasiva e coerente com o movimento de desjudicialização. O enunciado 48 estabelece: O inventariante nomeado pelos interessados poderá, desde que autorizado expressamente na escritura de nomeação, formalizar obrigações pendentes do falecido, a exemplo das escrituras de rerratificação, estremação e, especialmente, transmissão e aquisição de bens móveis e imóveis contratados e quitados em vida, mediante prova ao tabelião. A justificativa do enunciado fundamenta-se no conjunto normativo formado pelos arts. 610, § 1º, 618 e 619 do CPC, pelo art. 11 da resolução 35/07 do CNJ, em precedentes do TJ/SP, e na experiência normativa do estado do Rio Grande do Sul.1 O objetivo da orientação é permitir que o inventariante cumpra obrigações já constituídas pelo falecido, evitando que o inventário trate como livremente disponível um bem já comprometido à transferência ou deixe de formalizar aquisição contratada em vida. O acervo hereditário deve espelhar a realidade, e não conservar, como sombra, uma aparência patrimonial já vencida pelos fatos. O cumprimento das obrigações pendentes do falecido é incumbência que fica e deve ser realizada pelos sucessores, conforme tem reiterado a doutrina: A propósito da transmissão das obrigações, merece especial atenção o contrato preliminar. Gerando a obrigação de celebrar o contrato definitivo, obriga os herdeiros do devedor. Ele ainda não constitui o contrato definitivo, mas já é um negócio jurídico perfeito e acabado, que transmite aos sucessores do obrigado o compromisso do de cujus. (PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 24. ed. rev. e atual. por Carlos Roberto Barbosa Moreira. Rio de Janeiro: Forense, 2017. v. 6: Direito das sucessões, p. 45). 3 A evolução normativa da resolução 35/2007 do CNJ A resolução 35/07, editada para regulamentar o inventário extrajudicial previsto na lei 11.441/07, já estabelecia, em seu art. 11, a nomeação de interessado para representar o espólio, com poderes de inventariante, no cumprimento de obrigações ativas ou passivas pendentes. Posteriormente, a resolução 452/22 incluiu o § 1º, autorizando o meeiro e os herdeiros a nomearem inventariante por escritura pública anterior à partilha ou à adjudicação. A evolução interpretativa dessa norma permitiu reconhecer que tais obrigações compreendem também aquelas decorrentes de contratos preliminares, promessas ou compromissos de compra e venda celebrados e quitados em vida, embora ainda pendentes da escritura pública definitiva. Não se cria uma vontade nova, dá-se forma final à vontade que o falecido já havia deixado completa. Posteriormente, a regulamentação nacional foi aperfeiçoada pela resolução 571/2024, que criou o art. 11-A da resolução 35/07 para alcançar a alienação de bens do espólio destinada à obtenção de recursos para o pagamento das despesas do inventário. Trata-se de questão diversa daquela tratada no art. 11, que envolve contratos assinados e quitados em vida. Essa distinção possui grande relevância prática e impede que dois caminhos, embora próximos, sejam confundidos. 4 A incorporação da matéria ao Código de Normas de minas gerais O estado de minas gerais foi além da orientação interpretativa e positivou expressamente a matéria. O provimento conjunto 142/25 acrescentou ao Código de Normas dos serviços notariais e de registro o § 3º do art. 209, estabelecendo que: O inventariante nomeado pelos interessados poderá, desde que expressamente autorizado, efetivar obrigações pendentes do falecido, a exemplo de outorgar escrituras públicas de rerratificação, estremação e, especialmente, transmissão e aquisição de bens móveis e imóveis contratados em vida, mediante prova ao tabelião. Com isso, desapareceram as dúvidas interpretativas anteriormente existentes. O tabelião passou a dispor de fundamento normativo expresso para lavrar a escritura  definitiva quando estiver demonstrado que o negócio jurídico foi contratado em vida; a obrigação se encontrava constituída; a contratação está devidamente comprovada; e o inventariante recebeu autorização expressa dos interessados para representar o espólio. A prova deve ser firme, porque a desjudicialização abre portas, mas não relativiza a segurança jurídica. A solução evita a judicialização de situações que não envolvem conflito, mas apenas o cumprimento de obrigações anteriormente assumidas. Retira-se do judiciário o que não pede sentença e devolve-se ao ato notarial a tarefa de dar forma, cautela e continuidade à palavra empenhada. 5 A disciplina adotada pelo estado de São Paulo Embora a regulamentação paulista utilize redação menos específica, as Normas de Serviço da Corregedoria -Geral da Justiça também caminham na mesma direção. O item 105 do capítulo XIV das normas de serviço estabelece ser obrigatória a nomeação de inventariante extrajudicial para representar o espólio no cumprimento de obrigações ativas e passivas pendentes. Já o subitem 105.1 admite que essa nomeação seja realizada por escritura pública autônoma, assinada por todos os herdeiros, permitindo ao inventariante cumprir obrigações do espólio, levantar valores, reunir documentos, recolher tributos e viabilizar a lavratura da escritura de inventário. Embora não mencione expressamente a formalização de contratos de compra e venda celebrados em vida, a interpretação sistemática das normas, aliada aos precedentes administrativos do próprio TJ/SP, conduz à mesma conclusão adotada pelo enunciado 48, desde que haja prova suficiente apresentada ao tabelião, consenso dos interessados e poderes especiais. Disposições semelhantes constam do Código de Normas do Paraná (provimento 249/2013, art. 700), e do Código de Normas do Espírito Santo, com as alterações inseridas pelo provimento CGJES 11/25 de 20.8.2025, art. 672-A. 6 A jurisprudência administrativa e registral do TJ/SP Antes mesmo da positivação expressa da matéria em diversos estados, a jurisprudência administrativa e registral de São Paulo já havia reconhecido a possibilidade de o inventariante, nomeado por escritura pública e investido de poderes específicos, cumprir obrigações assumidas pelo falecido. No processo 0011976-78.2012.8.26.0100, da 1ª vara de Registros Públicos da Capital, e na apelação cível 0000228-62.2014.8.26.0073, julgada pelo conselho superior da magistratura, assentou-se que a outorga da escritura definitiva de imóvel prometido à venda e integralmente pago em vida prescinde de alvará judicial quando os interessados conferem poderes especiais ao inventariante para cumprir a obrigação e ela está adequadamente comprovada. A orientação parte da premissa de que o inventário não deve tratar como bem livre aquilo que já se encontra vinculado a uma obrigação de transferência. Ao mesmo tempo, possibilita que aquisições contratadas pelo falecido sejam formalizadas para posterior partilha. Não se altera o passado; apenas se impede que a morte deixe incompleta a última linha do negócio. 7 A influência da experiência do Rio Grande do Sul A consolidação normativa gaúcha também exerceu relevante influência sobre a construção do enunciado 48 e permanece, em sua redação atual, como referência expressa sobre a matéria. A Consolidação Normativa Notarial e Registral do Rio Grande do Sul, instituída pelo provimento 001/20, prevê, em seu art. 553, a possibilidade de efetivação do contrato definitivo de compra e venda pelo espólio, como outorgante vendedor ou outorgado comprador, independentemente de alvará judicial, desde que a obrigação tenha sido contratada e liquidada em vida e seja comprovada perante o tabelião. No mesmo sentido, o § 2º do art. 902 autoriza expressamente o inventariante a representar o espólio para dar cumprimento às obrigações assumidas e quitadas em vida pelo de cujus, especialmente mediante a assinatura de escrituras públicas destinadas à efetivação de promessa de compra e venda. A disciplina gaúcha tornou-se importante paradigma para os demais estados, demonstrando que a segurança jurídica pode nascer de um procedimento claro, consensual e documentalmente bem instruído. 8 A necessária distinção entre os arts. 11 e 11-A da resolução 35/07 Questão que merece especial atenção consiste na diferenciação entre duas hipóteses frequentemente confundidas. A primeira decorre do art. 11 da resolução 35/07. Nessa situação, não há novo negócio jurídico. O inventariante apenas cumpre obrigação anteriormente assumida pelo falecido. É o caso da obrigação de outorgar ou receber escritura definitiva decorrente de contratação celebrada e quitada em vida: Art. 11. É obrigatória a nomeação de interessado, na escritura pública de inventário e partilha, para representar o espólio, com poderes de inventariante, no cumprimento de obrigações ativas ou passivas pendentes, sem necessidade de seguir a ordem prevista no art. 617 do CPC. (redação dada pela resolução 326, de 26/6/20) (...) A segunda hipótese encontra-se disciplinada pelo art. 11-A. Aqui ocorre alienação de bem pertencente ao espólio para obtenção de recursos destinados ao pagamento de impostos de transmissão, honorários advocatícios, emolumentos notariais e registrais, outros tributos e despesas da escritura de inventário: Art. 11-A. O inventariante poderá ser autorizado, através de escritura pública, a alienar móveis e imóveis de propriedade do espólio, independentemente de autorização judicial, observado o seguinte: (incluído pela resolução 571, de 26/8/24) (...) Trata-se, portanto, de negócio jurídico novo. Por essa razão, devem ser observados todos os requisitos dos incisos I a VI, entre eles a vinculação do preço às despesas discriminadas, a inexistência de indisponibilidade e a prestação de garantia real ou fidejussória pelo inventariante quanto à correta destinação do produto da venda. Enquanto o art. 11 permite executar obrigação anteriormente existente, o art. 11-A autoriza a prática de ato extraordinário de administração patrimonial. No primeiro, honra-se uma vontade já formada; no segundo, autoriza-se uma decisão nova. As duas hipóteses possuem fundamentos e finalidades completamente distintos. 9 Os reflexos tributários da formalização da compra e venda após o falecimento de uma das partes A nomeação do inventariante e a subsequente lavratura da escritura definitiva para cumprir contrato celebrado e quitado em vida também produzem relevantes efeitos tributários, especialmente quanto à distinção entre a incidência do ITBI - Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis e do ITCD - Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação. Na hipótese em que o vendedor falece após a celebração e a quitação do negócio, mas antes da lavratura da escritura pública definitiva, a transmissão imobiliária conserva natureza inter vivos e se sujeita ao ITBI, nos termos da legislação municipal aplicável. A escritura outorgada pelo espólio, representado pelo inventariante, não constitui transmissão causa mortis do imóvel aos herdeiros, mas cumprimento de obrigação anteriormente assumida pelo falecido. Nessa situação, o imóvel ainda permanece registrado em nome do vendedor, pois a propriedade imobiliária somente se transfere com o registro do título. O domínio formal integra a esfera registral do falecido, mas está limitado pela obrigação de transmitir o bem ao comprador; por isso, não pode ser tratado no inventário como ativo livre e desembaraçado. O espólio, por meio do inventariante, apenas cumpre a obrigação de outorgar a escritura definitiva. Por essa razão, uma vez comprovados a contratação e o pagamento integral, não há transmissão causa mortis do imóvel aos herdeiros nem fundamento para exigir ITCD sobre ele como se integrasse livremente a herança. O conteúdo econômico transmitido será o preço recebido pelo falecido, os bens adquiridos com esses recursos ou outros direitos que ainda componham seu patrimônio na data do óbito. Situação diversa ocorre quando o falecimento é do comprador. Nessa hipótese, o inventariante poderá representar o espólio no recebimento da escritura definitiva, concluindo a aquisição anteriormente contratada pelo de cujus. Nesse caso a transmissão imobiliária decorre de negócio inter vivos e se sujeita ao ITBI, conforme a legislação municipal, mas também haverá a posterior incidência do ITCD sobre a transmissão hereditária do direito ou do bem aos sucessores. Após a formalização da aquisição, o imóvel deverá ser relacionado na declaração de bens e direitos apresentada à Secretaria de estado da fazenda por ocasião do inventário, passando a integrar o monte partilhável. Sobre a transmissão hereditária desse patrimônio aos sucessores incidirá o ITCD, nos termos da legislação tributária aplicável. O bem entra no acervo, mais que memória do contrato, como patrimônio enfim revestido da forma que lhe faltava. Essa distinção evidencia que a escritura pública de nomeação de inventariante não altera a natureza jurídica da transmissão imobiliária originalmente pactuada pelas partes. O instituto apenas viabiliza o cumprimento de obrigação preexistente, preservando a correta incidência tributária e a coerência entre a realidade patrimonial e os bens efetivamente sujeitos à sucessão. A conclusão tributária, naturalmente, pressupõe prova idônea do negócio e deve ser ajustada à legislação do ente competente. Conclusão A possibilidade de utilização da escritura pública de nomeação de inventariante para viabilizar a formalização de contratos de compra e venda celebrados e quitados em vida representa importante avanço do processo de desjudicialização do Direito Sucessório e do Direito Notarial. O direito, nesse ponto, aprende a não deixar que a morte interrompa aquilo que a vontade e o adimplemento já haviam construído. Ao reconhecer que o inventariante pode cumprir obrigações anteriormente assumidas pelo falecido, evita-se a inclusão indevida de bens como ativos livres no inventário, preserva-se a vontade das partes, assegura-se a continuidade dos negócios jurídicos e elimina-se a necessidade de intervenção judicial em situações desprovidas de litigiosidade. A positivação expressa dessa solução no código de normas do extrajudicial de minas gerais, aliada à regulamentação existente em São Paulo, e no Rio Grande do Sul, à resolução 35/07 do CNJ e ao enunciado 48 da I Jornada de Direito Notarial e Registral, consolida um modelo interpretativo que privilegia a eficiência, a segurança jurídica e a efetividade da atividade notarial. A correta distinção entre o cumprimento de obrigações pendentes do falecido (art. 11 da resolução 35/07) e a alienação extraordinária de bens do espólio para custeio do inventário (art. 11-A) é essencial para a adequada aplicação desses institutos, evitando confusões práticas e assegurando que cada mecanismo seja utilizado dentro de sua finalidade própria. A desjudicialização floresce quando a simplicidade vem acompanhada de prova, consenso e prudência. Em síntese, a compra e venda formalizada por inventariante nomeado em escritura pública revela-se solução moderna, segura e compatível com os princípios da autonomia privada, da boa-fé objetiva, da conservação dos negócios jurídicos e da desjudicialização, permitindo que negócios validamente constituídos em vida produzam todos os seus efeitos, mesmo após o falecimento de uma das partes. Além de conferir efetividade às obrigações assumidas em vida, a escritura pública de nomeação de inventariante, seguida do título definitivo, preserva a adequada incidência tributária. O ITBI alcança a transmissão inter vivos decorrente da compra e venda, enquanto o ITCD incide somente sobre os bens e direitos efetivamente transmitidos por sucessão hereditária.  Assim, o ato notarial não reescreve os negócios pendentes, mas acende a luz que faltava para que eles alcancem, com segurança, a plena eficácia. __________ 1 A justificativa do referido enunciado é a seguinte: Justificativa: Art. 11 da Resolução n. 35/CNJ/2007. Arts. 610 (§1º), 618 e 619 do Código de Processo Civil. TJSP: Autos n. 0011976-78.2012.8.26.0100 e n. 0000228-62.2014.8.26.0073. Diante da possibilidade de opção do inventário pela via extrajudicial, os interessados podem, além dos atos de simples administração, especificar atos especiais na escritura de nomeação de inventariante, com o fim de cumprir obrigações pendentes do falecido, analisadas criteriosamente pelo tabelião. Tal solução evitará o arrolamento de patrimônio que não pertence mais ao falecido e possibilitará a concretização de aquisições para posterior partilha. No mesmo sentido a Consolidação Normativa Notarial e Registral do Rio Grande do Sul (Provimento n. 001/2020-CGJ) que, no art. 553, admite a efetivação do contrato definitivo de compra e venda pelo Espólio (outorgante vendedor), independentemente de Alvará Judicial, para cumprir obrigação contratada e liquidada em vida, mediante prova a ser feita ao tabelião e, também, o parágrafo único do art. 902: O inventariante nomeado na forma do caput deste artigo poderá representar o espólio para dar cumprimento às obrigações assumidas e quitadas em vida pelo de cujus, em especial assinar escrituras públicas de efetivação de promessa de compra e venda.
1. Introdução O serviço extrajudicial brasileiro vem se consolidando, ao longo das últimas décadas, como alternativa eficiente e segura ao processo judicial nas matérias de cunho não litigioso. A lei 11.441/07 inaugurou esse movimento ao permitir a lavratura de escrituras públicas de inventário, partilha, separação e divórcio consensual perante os tabelionatos de notas. A regulamentação nacional foi estabelecida pela resolução  35/07 do CNJ. Por muitos anos, contudo, prevaleceu o entendimento de que a participação de menores ou incapazes no inventário extrajudicial era vedada. A doutrina era uníssona nesse sentido, e a disposição legal era taxativa. Com o tempo, decisões isoladas em diversas comarcas do país, aliadas à edição de provimentos estaduais com os mais variados conteúdos, criaram um cenário normativo fragmentado e inseguro. Foi nesse contexto que o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) ingressou com pedido de providências junto ao CNJ (processo 0001596-43.2023.2.00.0000), reunindo diversas demandas similares. O resultado foi a edição da resolução 571/24, de 26/8/24, que inseriu os arts. 12-A e 12-B na resolução 35/07 e regulamentou, em âmbito nacional, o inventário extrajudicial com a participação de menor ou incapaz. O presente artigo analisa os contornos desse novo regramento, seus requisitos, a atuação do ministério Público e os desafios que a prática já começa a revelar. 2. O caminho até a resolução 571/24 Antes da resolução 571/24, a atuação dos tabeliães de notas nos inventários e partilhas com menores ou incapazes dependia de autorização judicial. No estado de São Paulo, a situação era emblemática: diversas sentenças concederam alvarás judiciais ou administrativos autorizando a lavratura1, ao passo que a própria CGJ/SP - Corregedoria Geral de Justiça do Estado de São Paulo, ao ser provocada em suscitação de dúvida, negou provimento ao recurso, entendendo pela vedação legal e normativa2. Alguns estados foram além: o TJ/RJ, por exemplo, editou o Ato Executivo Conjunto TJ/CGJ  6/23, que dispensava a manifestação do ministério Público quando a partilha fosse igualitária em todos os bens. Santa Catarina seguiu caminho mais conservador. Outros estados nada disciplinavam. Essa heterogeneidade normativa demandava solução nacional unificada, que veio com a resolução 571/24. Sobre a alteração abarcada pela referida resolução, é certo dizer que "houve uma ampliação da atuação notarial e uma harmonização do regramento de forma uníssona em todo o país e essa mudança permitiu às partes, mesmo quando haja a participação de menor ou incapaz, a possibilidade de eleger a partilha pelo viés notarial ou pelo judicial"3. 3. Os requisitos do art. 12-A O art. 12-A da resolução 35/07, com a redação conferida pela resolução 571/24, estabelece os seguintes requisitos cumulativos para a lavratura da escritura pública de inventário e partilha com participação de menor ou incapaz: (a) Consensualidade das partes; (b) Presença obrigatória de advogado ou defensor público; (c) Pagamento do quinhão hereditário ou da meação do menor ou incapaz de forma igualitária em cada um dos bens inventariados; (d) Manifestação favorável do ministério Público; e (e) Inexistência de nascituro do autor da herança (§2º). A exigência de partilha igualitária em cada bem é, ao mesmo tempo, a característica central e a principal limitação do novo regramento. Como pontua Giselda Hironaka, aberta a sucessão, o domínio e a posse da herança transferem-se, em condomínio, a todos os herdeiros, sem individualização dos quinhões4. A resolução replica, portanto, o estado de indivisão que já existe no momento da abertura da sucessão, impondo ao menor e ao incapaz um condomínio obrigatório e igualitário com os demais herdeiros. O §1º do art. 12-A veda, expressamente, a prática de atos de disposição relativos aos bens ou direitos do menor ou incapaz. Não é possível, portanto, a cessão onerosa ou gratuita de qualquer fração do quinhão ou da meação do vulnerável dentro da própria escritura de inventário ou por escritura pública de cessão de direitos hereditários. Em sentido diverso, o art. 11-A autoriza a alienação de bens do espólio para pagamento das despesas do inventário, o que a prática já vem reconhecendo: o ministério Público da Comarca de Estrela D'Oeste/SP, por exemplo, autorizou a alienação de cinco imóveis do espólio para custear os tributos e encargos do inventário, determinando a prestação de contas em quinze dias após a quitação (procedimento MP 1599.0000103/20255). 4. A representação do menor ou incapaz O Estatuto da Pessoa com Deficiência (lei 13.146/15) reformulou o sistema de capacidades do CC. Hoje, apenas os menores de dezesseis anos são absolutamente incapazes. Os relativamente incapazes incluem, entre outros, os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos, os ébrios habituais e viciados em tóxicos, aqueles que não podem exprimir sua vontade por causa transitória ou permanente, e os pródigos. O menor absolutamente incapaz deve ser representado pelos genitores na escritura pública; o relativamente incapaz, assistido. Na ausência de poder familiar, exige-se tutor nomeado judicialmente. Para os maiores, há duas possibilidades. A primeira corresponde à situação do interditado, em que o curador é responsável por representá-lo. Por sua vez, a segunda hipótese versa sobre a pessoa cuja capacidade é limitada apenas aos atos de disposição patrimonial, caso em que o juiz nomeia dois tomadores de decisão apoiada para auxiliá-lo na escritura. Em São Paulo, a resolução 2.051/25 do MP/SP, ao alterar a resolução 1.919/24, passou a exigir autorização judicial prévia do juízo de tutelas ou curatelas para que o tutor ou curador aceite a herança em nome do representado, com fundamento nos arts. 1.748, II, e 1.774 do CC. 5. A participação do ministério Público A resolução 571/24 foi silente quanto à forma de atuação do ministério Público. Coube ao CNMP - Conselho Nacional do ministério Público suprir essa lacuna por meio da resolução 301, de 12 de novembro de 2024, que disciplina a atuação do Parquet nos procedimentos oriundos de serventias extrajudiciais. Embora o art. 12-A, §3º, da resolução 571/24, utilize o termo "eficácia" ao condicionar a escritura à manifestação favorável do MP, a interpretação sistemática do dispositivo aponta para a necessidade de parecer prévio à lavratura. O caput do art. 12-A estabelece duas condicionantes cumulativas para a realização do inventário: a partilha igualitária e a manifestação favorável do MP. Tratar o parecer como condição de eficácia posterior fragilizaria o ato, deixando a escritura em estado de incerteza jurídica que poderia comprometer sua utilidade. Destaca-se que a Resolução estadual paulista (resolução PGJ/SP 1.919/24, alterada pela resolução 2.051/25) é expressa ao exigir parecer prévio. Quanto à competência, a norma paulista adotou o critério do domicílio do autor da herança ou do foro estabelecido no parágrafo único do art. 48 do CPC, e não o domicílio do menor ou incapaz. Isso pode gerar situações em que o promotor de justiça competente seja de comarca diversa daquela onde residem os herdeiros vulneráveis, o que exige atenção na prática. O prazo para manifestação do MP, nos termos da norma paulista, é de quinze dias úteis, contados nos termos do art. 219 do CPC. Em caso de exigências, o tabelião terá igual prazo para cumprimento, após o que o MP terá novamente quinze dias para se manifestar. Havendo impugnação, o notário deverá expedir certidão consignando o desacordo e encaminhar o expediente à Vara de Registros Públicos, competente por se tratar de procedimento de natureza administrativa. A norma paulista prevê, no art. 8º, §2º, rol exemplificativo das hipóteses de oposição pelo MP, que incluem, entre outras, partilha que contrarie o melhor interesse do menor, sonegação de bens, fraude ou má-fé e conflito de interesses do tutor ou curador. Nesse sentido, o promotor de justiça da comarca de Itaquaquecetuba/SP determinou, no procedimento MP 1599.0000914/20256, que os veículos do espólio figurassem exclusivamente no quinhão da herdeira maior, por entender que esse arranjo atendia melhor ao interesse do menor, exemplo concreto do exercício de discricionariedade pelo representante do MP na avaliação do caso concreto. 6. Testamento e participação de menor ou incapaz: o art. 12-B O art. 12-B da resolução 571/24 disciplina a hipótese cumulativa de testamento e participação de menor ou incapaz. Além de todos os requisitos do art. 12-A, exige-se o ingresso de ação de abertura e cumprimento do testamento perante o juízo sucessório, sentença com autorização para formalização extrajudicial e respectivo trânsito em julgado. Nesse ponto, a norma representa um retrocesso em relação à prática anterior: antes da resolução 571/24, era comum que o tabelião lavrasse escrituras de inventário com testamentos caducos, revogados ou declarados judicialmente inválidos, desde que realizasse a análise prévia do seu conteúdo. Logo, a alteração da resolução facultou a lavratura extrajudicial de inventário com testamento e que envolva menor ou incapaz, desde que haja permissão judicial, trânsito em julgado e manifestação favorável do representante do MP. Entretanto, regrediu, ao exigir a autorização do juízo sucessório em todos testamentos, até mesmo naqueles caducos e revogados7. 7. Desafios práticos e conclusão A alteração normativa trazida pela resolução 571/24 propiciou um maior acesso à justiça para os menores e incapazes, e permitiu, de forma facultativa, o uso da via notarial para a realização da escritura pública de inventário e partilha de bens. Ressalte-se que ao emancipado já era concebida a forma extrajudicial. Observa-se que a presente resolução alinhou-se aos provimentos mais conservadores, o que acarretou a revogação de todos os demais provimentos liberais. Dessa maneira, constata-se, em alguns aspectos, um retrocesso da norma. Como exemplo dessa rigidez, cita-se a exigência de que a partilha envolvendo menor ou incapaz seja rigorosamente equânime em cada um dos bens. Essa imposição impede que as partes proponham um arranjo patrimonial mais vantajoso e adaptado à realidade do tutelado. Na prática, essa regra gera situações problemáticas: o incapaz pode acabar recebendo, como parte de seu quinhão, bens de difícil gestão para a sua idade ou condição, como um veículo automotor ou até mesmo uma arma de fogo, transferindo-lhe obrigações e responsabilidades civis e administrativas incompatíveis com sua situação. Por fim, aponta-se como retrocesso a exigência de ação judicial para abertura e cumprimento de testamento mesmo quando o ato já foi declarado revogado, caduco ou inválido por sentença. Assim, constata-se que, apesar do avanço ao permitir o inventário extrajudicial com menores e incapazes, a nova norma impôs uma rigidez excessiva, tanto na divisão obrigatoriamente igualitária de cada bem quanto na burocracia testamentária que o próprio notário poderia verificar. Esses desafios práticos exigirão futura flexibilização para garantir, de fato, o amplo acesso à justiça e a proteção dos vulneráveis. __________ BRASIL. CNJ. Resolução 571, de 26 de agosto de 2024. Altera a Resolução CNJ 35/2007. Brasília, 2024. Disponível aqui:  BRASIL. CNMP. Resolução 301, de 12 de novembro de 2024. Disciplina a atuação do Ministério Público em procedimentos oriundos de serventias extrajudiciais. Brasília, 2024. BRASIL. CNJ. Pedido de Providências 0001596-43.2023.2.00.0000. IBDFAM. Brasília, 07 mar. 2023. HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coord.). Direito das Sucessões. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. Moscardini, M. L. B., Salomão, M. C., & Cordeiro, F. M. G. (2026). A nova escritura pública de inventário e partilha de bens com a participação de menor ou incapaz e suas implicações práticas como método de desjudicialização. Revista Jurídica Cesumar - Mestrado, 26, e13623. Disponível aqui.  SÃO PAULO. PGJ/SP. Resolução 1.919/2024, de 18 de setembro de 2024, alterada pela Resolução 2.051/2025, de 25 de abril de 2025. SÃO PAULO (Estado). Ministério Público do Estado de São Paulo (MP/SP). Procedimento MP 1599.0000103/2025. Código no 3ª9cfadd-1dd0-4ª00-8eae-4e5f2c80291f. Comarca de de Estrela D'Oeste, Dra. Fernanda Beatriz Gil da Silva Lopes, Promotora de Justiça. SÃO PAULO (Estado). Ministério Público do Estado de São Paulo (MP/SP). Procedimento MP 1599.0000914/2025. Código no da7caaab-b280-4324-v91f-22f2470eb0d5. Comarca de Itaquaquecetuba, Dr. Joaquim Portela Dias do Nascimento Neto, Promotor de Justiça. SCHREIBER, Anderson; TARTUCE, Flávio; SIMÃO, José Fernando. Código Civil Comentado: doutrina e jurisprudência. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2025. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 57. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023. vol. 2. TJSP/CGJ. Processo 1013891-91.2022.8.26.0037. São Paulo, 24 jul. 2023. __________ 1 Cf., entre outros: Processo 1002882-02.2021.8.26.0318 (Comarca de Leme/SP); Processo 1002024-05.2022.8.26.0457 (Comarca de Pirassununga/SP); Processo 1001194-88.2021.8.26.0549 (Comarca de Santa Rosa de Viterbo/SP). 2 TJSP/CGJ. Processo 1013891-91.2022.8.26.0037. São Paulo, 24 jul. 2023. Ementa: "Tabelionato de Notas - Pretensão de lavratura de escritura pública de inventário e partilha de bens - Herdeiro incapaz - Vedação legal e normativa - Qualificação notarial negativa - Recurso não provido". 3 Moscardini, M. L. B., Salomão, M. C., & Cordeiro, F. M. G. (2026). A nova escritura pública de inventário e partilha de bens com a participação de menor ou incapaz e suas implicações práticas como método de desjudicialização. Revista Jurídica Cesumar - Mestrado, 26, e13623. Disponível aqui.  4 HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coord.). Direito das Sucessões. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. p. 8. 5 SÃO PAULO (Estado). Ministério Público do Estado de São Paulo (MP/SP). Procedimento MP 1599.0000103/2025. Código no 3ª9cfadd-1dd0-4ª00-8eae-4e5f2c80291f. Comarca de de Estrela D'Oeste, Dra. Fernanda Beatriz Gil da Silva Lopes, Promotora de Justiça. 6 SÃO PAULO (Estado). Ministério Público do Estado de São Paulo (MP/SP). Procedimento MP 1599.0000914/2025. Código no da7caaab-b280-4324-v91f-22f2470eb0d5. Comarca de Itaquaquecetuba, Dr. Joaquim Portela Dias do Nascimento Neto, Promotor de Justiça. 7 Moscardini, M. L. B., Salomão, M. C., & Cordeiro, F. M. G. (2026). A nova escritura pública de inventário e partilha de bens com a participação de menor ou incapaz e suas implicações práticas como método de desjudicialização. Revista Jurídica Cesumar - Mestrado, 26, e13623. Disponível aqui.
Os textos aqui indicados e comentados pertencem a um momento decisivo da história recente do registro imobiliário brasileiro. Foram escritos e apresentados no ano de 1996, quando a informática deixava de ser simples ferramenta periférica das serventias e passava a interpelar o próprio modo de organização da informação registral. Já não se tratava apenas de substituir máquinas de escrever, agilizar a expedição de certidões, calcular emolumentos ou de manter índices auxiliares. A questão que então se anunciava era mais funda: em que medida a mudança do suporte poderia repercutir sobre a estrutura mesma do sistema registral? Duas culturas: Do papel ao dado A pergunta conserva atualidade porque a história da informatização dos registros públicos não se confunde com a história da aquisição e do uso massivo de computadores. Esta é, quando muito, a sua superfície visível, o estrato aparente de uma transformação que vinha de longe. Por baixo dela movia-se outra história, mais complexa: a da passagem de uma cultura documentária, moldada pelo papel, pelo livro, pela ficha, pela lavratura de textos, pela assinatura autógrafa e pelo arquivo físico, para uma cultura informacional, em que os dados circulam, se recombinam, se integram e se oferecem à publicidade por meios até então desconhecidos. Essa transição não era, nem poderia ser, apenas técnica. Como sustentado há trinta anos, o registro devia ser lido também sob a ótica do Direito do Consumidor e da transparência dos serviços públicos delegados, de modo que a modernização revelasse resultados eficazes, como certidões inteligíveis, úteis e acessíveis ao cidadão comum. A tecnologia deveria servir para romper a opacidade do jargão técnico, sem empobrecer a precisão jurídica; deveria abrir a linguagem do registro à compreensão social, sem dissolver a sua gramática própria. A certidão, afinal, não é ornamento burocrático. É a forma pela qual a situação jurídica do bem se torna cognoscível e confiável socialmente. O fundamento essencial do registro de imóveis é a segurança jurídica, e ela não deve modificar-se pelo advento de novos meios tecnológicos. De fato, a tecnologia, nesse quadro, não deveria desempenhar um mero papel coadjuvante no processo administrativo. É instrumento poderoso, mas ambivalente: pode ordenar melhor o serviço, conferir-lhe escala, regularidade e transparência; ou, quando mal compreendida, projetar e cristalizar, ao modo de homologação (homós = mesmo, igual, semelhante, comum e logos = razão, relação etc.), limitações ontológicas em novos meios. O computador tanto pode iluminar a estrutura de um sistema quanto maquiar a sua desordem. A modernização sem teoria costuma ser apenas aceleração do equívoco. Fortaleza, 1996: A arquitetura é dos registradores É esse o sentido dos trabalhos e apresentações aqui republicados. Em Algumas linhas sobre a informatização do registro imobiliário, apresentado em 1996 no XXIII Encontro dos Oficiais de registro de imóveis do Brasil, em Fortaleza,1 procurava-se demonstrar que a informática poderia ser uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento dos serviços registrais e notariais, desde que antecedida por uma ponderada reflexão teórica, conceitual e técnica. O texto não propunha a adoção deste ou daquele sistema, nem se deixava seduzir por fornecedores, programas, plataformas ou promessas de ocasião. O que ali se reclamava era outra coisa: que os próprios registradores assumissem a responsabilidade pela modernização de sua instituição, sem delegar a terceiros a definição de sua arquitetura informacional. A advertência não era retórica. Àquela altura, a experiência concreta das serventias já permitia perceber um percurso, que se tornou típico, da informatização dos cartórios brasileiros. Primeiro automatizaram-se rotinas administrativas: cálculo de custas, protocolos auxiliares, relatórios financeiros. Depois vieram os processadores de texto, especialmente nos setores de certidão. Em seguida, a informatização dos indicadores pessoal e real que migrariam para bases de dados, inicialmente mantidas em ambientes externos e, mais tarde, incorporadas no processo interno das serventias, com acesso em tempo real. Cumprida essa etapa, a pressão tecnológica voltou-se para a entidade que singularizava o registro imobiliário inaugurado pela lei 6.015/1973: a matrícula. A tentação da matrícula digital Foi nesse ponto que a discussão ganhou densidade. A chamada matrícula digital surgia, para muitos, como a solução mais tangível e evidente. Era, em boa medida, sintoma do fenômeno que Evgeny Morozov viria mais tarde a denunciar como "solucionismo tecnológico": a inclinação de traduzir problemas jurídicos complexos em dificuldades meramente operacionais, supostamente domesticáveis pela eficiência técnica, pela estruturação de dados, por plataformas ou por algoritmos. Digitalizar as fichas, armazená-las em discos óticos (a expressão foi consagrada em lei: art. 41 da lei 8.935/1994), desenvolver mecanismos de busca, dispensar ou relativizar os antigos indicadores real e pessoal - até então organizados em fichários, à maneira dos sistemas Kardex - tudo isto, para muitos, parecia esgotar o problema. Assim estávamos. Tudo parecia simples, rápido, moderno. Mas o moderno, quando não se submete a exame escrupuloso e crítico, rapidamente se converte em fetiche tecnológico. A tecnologia tende a apresentar como avanço aquilo que pode ser apenas reprodução especular de um modelo moldado por paradigma anterior. O rádio, durante algum tempo, foi pensado como telégrafo sem fios; o cinema demorou a libertar-se do teatro; a televisão, do cinema. Também o registro corria o risco de conceber o meio eletrônico como mera cartolina luminosa no écran de microcomputadores. Permitam-me um adendo: ainda hoje vivemos esta fase especular... Metafólio ou fólio real eletrônico? Daí a crítica, reiterada nos textos e exposições de 1996, à digitalização da matrícula concebida como simples conversão eletrônica do antigo suporte em papel. A objeção não se dirigia à informática, mas ao seu uso limitado e condicionado por modelos organizativos que já davam sinais de exaustão. Converter a matrícula em imagem, submetê-la ao reconhecimento óptico de caracteres e depois pesquisá-la como texto corrido não estruturado (plain text) não significava constituir um verdadeiro fólio real eletrônico. Representava, antes, criar um metafólio caro, complexo, redundante e conceitualmente equivocado. O problema não estava no scanner, no disco óptico ou no computador; estava na ilusão de que a substituição de um suporte por outro equivaleria à reformulação do próprio sistema. Essa distinção era, e ainda continua sendo, essencial. A matrícula em papel, tal como se consolidou entre nós, traz consigo marcas históricas de sistemas anteriores. A forma narrativa, as expressões de encadeamento, a sucessão textual dos atos, a dependência de leitura linear - tudo isso respondia às condições materiais de sua época. Transpor tal conformação para o meio eletrônico, sem discriminar o que ali é juridicamente relevante e o que pertence apenas à retórica do suporte, seria desperdiçar as possibilidades próprias da informática. O fólio real eletrônico, se viesse a existir com relevância técnica e institucional, haveria de ser uma entidade nova. Não uma fotografia da ficha; não uma imagem nobre do velho assento; não uma tela para simular o papel. Deveria articular dados estruturados, indicadores, plantas, confrontações, vínculos cadastrais, imagens, históricos, certidões e níveis diferenciados de informação. Essas camadas poderiam refinar a publicidade formal do registro, desde que submetidas à lógica jurídica da inscrição. O risco estaria sempre em inverter a relação: fazer da inscrição um apêndice do banco de dados, quando o banco de dados deveria ser instrumento da inscrição. Qualificação não é algoritmo A preocupação de fundo era preservar a natureza do registro imobiliário como instituição jurídica, não como simples repositório de dados e documentos. O registro brasileiro não é arquivo passivo de títulos, documentos, dados - nem coleção de imagens, nem banco indiferenciado de textos. É sistema de inscrição, em que a qualificação registral opera a depuração jurídica do título, separando o que tem transcendência real do que permanece no plano obrigacional, circunstancial, acessório ou meramente narrativo e informativo. Por isso, o uso da informática deve auxiliar tanto a qualificação quanto a publicidade, a conservação e a gestão, mas não pode substituir o juízo jurídico do registrador por rotinas opacas de algoritmização do processo registral. Esse ponto merece insistência. O título apresentado ao registro chega carregado de intenções, cláusulas, referências, circunstâncias e resíduos documentais. A qualificação não é ato mecânico de recepção, tampouco simples conferência formal. É operação jurídica de filtragem institucional. O registrador lê o título à luz do sistema legal, do próprio historial tabular, e extrai o que deve ingressar no fólio real com eficácia perante terceiros. Se não compreendermos perfeitamente a operação de transformação midiática, corre-se o risco de reduzir o processo de registro a mero algoritmo ou, como hoje percebemos: agente de IA a substituir o Oficial no seu mister essencial. Essa posição dialogava com uma tradição internacional já amadurecida nos congressos do IPRA-CINDER. Desde Buenos Aires, em 1972, e Madri, em 1974, firmara-se a compreensão de que mecanização, microfilmagem, reprografia e informática deveriam ser concebidas como meios instrumentais, subordinados aos princípios substantivos do sistema registral. A técnica poderia racionalizar o trabalho, melhorar os índices, facilitar a reconstrução do acervo, favorecer a publicidade e abrir caminho para integração com cadastros; mas não poderia suplantar a qualificação, a fé pública e a lavratura da inscrição e constância formal do assento redigido e firmado sob responsabilidade do registrador. O poder de dação de fé pública é indelegável. Essa linha de congruência com a doutrina internacional serviu de contraponto a certas improvisações nacionais. Aliás, era o que propugnava o registrador Elvino Silva Filho, que teve o privilégio de redigir e ver aprovadas as conclusões (Comissão III) do I Congresso Internacional do CINDER (hoje IPRA-CINDER).2 São Paulo, 1996: A lição da microfilmagem O texto que se segue - A microfilmagem, a informática e os serviços notariais e registrais brasileiros - foi apresentado no transcurso do I Simpósio Nacional de Serviços Notariais e Registrais, realizado em São Paulo em setembro de 1996.3 Ali retomamos o debate por outro ângulo. A microfilmagem aparecia ali não como peça de museu tecnológico, mas como experiência histórica útil. Sua implantação fora precedida de discussão normativa, definição de requisitos técnicos, debate sobre segurança, preservação, indexação e valor probatório. Havia, portanto, um conceito a recolher: antes de introduzir tecnologia em serviço público de segurança jurídica, é preciso fixar padrões, procedimentos, responsabilidades e efeitos legais. A microfilmagem mostrava que a inovação podia ser assimilada sem destruir o sistema. A informática exigiria prudência ainda maior, justamente porque sua capacidade de reestruturar o sistema era mais profunda e radical. Revelava a potencialidade disruptiva que poderia desfigurar o sistema registral brasileiro. A prudência, convém insistir, não era simples recusa ou resistência irracional às novas tecnologias. Não se defendia uma atitude conservadora, nem uma nostalgia do papel. Ao contrário. A crítica à digitalização mimética vinha acompanhada da percepção de que a integração dos serviços era inexorável. Já se experimentavam, na cidade de Franca (SP), serviços pela internet, banco de dados jurisprudencial, informações ao usuário, solicitação de certidões e acompanhamento da tramitação de títulos. Os cartórios de notas também começavam a se inter-relacionar com os registros imobiliários. O horizonte que se abria já nos revelava: interconexão e comunicação remota, integração entre serventias, intercâmbio de informações e atendimento mais eficiente ao cidadão. Tudo isto foi agitado nesses encontros realizados há décadas. Mas justamente porque esse processo era inevitável, não poderia ser conduzido aleatoriamente. A fala proferida no Simpósio Nacional da Anoreg-SP insistia na necessidade de constituir uma comissão de registradores, com participação de especialistas em informática, para estudar o Tema e apresentar diretrizes à categoria. Não se pretendia uma "estatização branca" da tecnologia, nem a exclusão da iniciativa privada. O que se pretendia era estabelecer paradigmas mínimos, regras comuns, critérios de segurança e homogeneidade procedimental. Um serviço público nacional não poderia transformar-se em arquipélago de soluções locais, cada qual prisioneira de seu fornecedor, de sua linguagem, de seus formatos e de seus interesses. Mais tarde (1997), buscaríamos o apoio da academia para o estabelecimento de padrões mínimos e recomendação de boas práticas para a informatização do registro de imóveis. Firmaríamos convênio com a Fundação Vanzolini (POLI-USP) e dali resultaria o primeiro documento orientativo para os Oficiais de Registro.4 Entre a inércia e o deslumbramento Esse ponto talvez seja o mais importante para o leitor contemporâneo. A informatização do registro imobiliário brasileiro nasceu tensionada entre dois riscos opostos. De um lado, a inércia corporativa, sempre pronta a invocar a segurança jurídica como sinônimo de estabilidade e para justificar a permanência de rotinas já percebidas como superadas. De outro, o deslumbramento tecnológico, que confunde velocidade com segurança, imagem com informação, acumulação de dados com publicidade jurídica. Os textos desta quadra recusam ambos os extremos. A tradição registral não é obstáculo à modernização; é precisamente o critério que permite distinguir modernização verdadeira de simples aparato fetichista. A experiência posterior mostrou que muitas das questões ali levantadas permaneceriam em aberto por décadas: validade jurídica do documento eletrônico, assinatura eletrônica, acesso remoto, interoperabilidade, segurança de bases de dados, conservação de acervos, padrões nacionais, relação entre registro e cadastro, publicidade registral em meios eletrônicos e limites de acesso a informações pessoais. O vocabulário mudou; as tecnologias também. Saíram de cena os discos ópticos, os modems, os sistemas isolados e certas promessas ingênuas do OCR. Entraram redes de alta velocidade, centrais eletrônicas, certificados digitais, bases interoperáveis, serviços em nuvem e novas preocupações com proteção de dados. Mais recentemente, somaram-se a esse quadro as ferramentas de busca semântica, a automação documental e a IA agêntica. Mas o núcleo do problema permaneceu: quem modela o ato registral modela, em larga medida, a própria publicidade jurídico-real. No limiar do registro eletrônico Daí a atualidade desses textos. Eles não devem ser lidos apenas como documentos de época, mas como advertência metodológica com vistas à reformulação dos processos registrais. Mostram que a informatização não começou com uma lei, uma central, um provimento ou uma plataforma. Começou antes, no esforço de compreender que o registro é uma tecnologia jurídica de organização da confiança e da segurança jurídica. A informática veio somar-se a essa tecnologia anterior, não apagá-la. O desafio era, e continua sendo, fazer com que o novo meio realize melhor os fins permanentes da instituição: segurança, autenticidade, eficácia, cognoscibilidade, conservação e serviço à cidadania. Há, nessa perspectiva, uma lição que talvez tenha sido insuficientemente percebida. O registro eletrônico não se mede pela ausência de papel, mas pela qualidade jurídica da informação que oferece. Não basta suprimir fichas, digitalizar livros, converter imagens ou interligar bases. A questão decisiva é saber se a publicidade eletrônica permite desvelar a situação jurídica do imóvel, com maior segurança, menor ambiguidade e maior responsabilidade institucional. O meio digital não redime, por si só, a confusão conceitual. Em certos casos, apenas a torna mais veloz, replicável e talvez mais difícil de corrigir. Também por isso o Tema da publicidade merece cuidado. A publicidade registral nunca foi simples exposição indiscriminada de dados. É publicidade juridicamente qualificada, construída para proporcionar meios de cognoscibilidade de situações jurídico-reais, não para alimentar mercados paralelos de informação que vicejam à sua volta. A integração eletrônica amplia o alcance do registro, mas também exige delimitação de finalidades, controle de acessos, rastreabilidade, preservação de acervos e responsabilidade sobre o tratamento dos dados. A abertura do sistema deve caminhar com a consciência de seus limites. A transparência não pode degenerar em dispersão; a eficiência não pode obscurecer a garantia e a segurança jurídica. Vistos em conjunto, os artigos de 1996 compõem uma espécie de limiar. De um lado, encerram o ciclo da mecanização, da microfilmagem e da informática como aparato ancilar. De outro, anunciam o ciclo do registro eletrônico, da integração sistêmica e da publicidade formal em meios digitais. Foram escritos no instante em que o registro imobiliário brasileiro, diante do abismo tecnológico, poderia dar um passo, retroceder ou mudar de rumo. A escolha proposta era clara: não recusar a máquina, nem convertê-la em fetiche. É preciso compreendê-la no contexto institucional. E, compreendendo-a, submetê-la à razão jurídico-registral. ________ 1 O texto foi escrito por mim e apresentado no evento por Ary José de Lima e Kioitsi Chicuta. Coube a mim a tarefa de estruturar o texto e indicar rotas para o desenvolvimento do registro de imóveis eletrônico. Vide. Palestra proferida no dia 16/8/1996 no transcurso do XXIII Encontro dos Oficiais de registro de imóveis do Brasil, Fortaleza - Ceará. Sérgio Jacomino, Ary José de Lima e Kioitsi Chicuta. Há extratos de vídeo do evento registrados no YouTube.  2 Carta de Buenos Aires - Comissão III - Conclusões. 2/12/1972. O documento foi firmado por Elvino Silva Filho (Brasil); Oscar A. Salas Marrero (Costa Rica); Fernando Muñoz Cariñanos (Espanha); Francisco Vázquez Fernández (México); Iván Escobar Fornos (Nicarágua) e Raúl R. García Coni (Argentina). Secretário: Ernesto Emilio Calandra. 3 Vide I Simpósio Nacional de Serviços Notariais e Registrais - São Paulo, realizado entre os dias 11, 12 e 13/9/1996, no Centro de Convenções do Hotel Transamérica. Evento promovido pela Associação dos Serventuários de Justiça do Estado de São Paulo, Associação de Notários e Registradores de SP e Escola Nacional da Magistratura. JACOMINO, Sérgio. A informática e os serviços notariais e registrais brasileiros. Palestra proferida no dia 11/9/1996. Acesso no YouTube. 4 JACOMINO, Sérgio. Registro Eletrônico - Fundação Vanzolini. Dossiê. São Paulo: Círculo Registral, 2017. Disponível aqui. 
Hoje, ao acessar o portal justiça aberta do CNJ para o envio semestral de dados, deparei-me com o impacto do provimento 213/26: uma avalanche de novas declarações e exigências documentais. A sensação é de que, a cada nova norma, nossa real função de garantir a segurança jurídica torna-se secundária. A lei 8.935/1994 determina expressamente que os serviços notariais e registrais são destinados a garantir a publicidade, autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos. A mesma lei prevê que a atividade deve ser prestada de modo eficiente e adequado, características estas que deveriam ser corolário do próprio poder delegante.   Entretanto, o Brasil é reconhecidamente um país que desconfia de si próprio. Por essa razão, editam-se leis e normativos fiscalizadores ad nauseam, por vezes impondo restrições e obrigações ainda mais severas aos próprios órgãos de controle. Essa hiperregulação, reiteradamente apontada por especialistas financeiros como uma das facetas mais deletérias do chamado "Custo Brasil", que define o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, econômicas e jurídicas que comprometem a competitividade do país, especialmente no mercado internacional, traz sufocamento para o setor atingido, que passa a verter os investimentos que deveriam centrar-se na produção para a adequação legal (compliance cost). É inegável que as normas de conformidade são essenciais para o regular funcionamento do setor produtivo, entretanto o excesso de regras, não raramente inócuas sob o ponto de vista finalístico, retida do setor atingido a potência necessária para o avanço e desenvolvimento, sufocando a capacidade de operação da empresa. Ou seja, ao invés de ordenar uma atividade, gera-se justamente o efeito oposto, tornando o negócio insustentável diante da perseverante insegurança jurídica decorrente desse manicômio regulatório. Sob o ponto de vista da atividade notarial e registral, o excesso regulatório transforma uma função essencial de segurança jurídica em um gargalo operacional. Como os cartórios operam sob delegação do Poder Público, a submissão a um emaranhado de provimentos locais e nacionais sobrepõe regras e inviabiliza a eficiência do serviço. A superprodução normativa experimentada pela atividade notarial e registral nos últimos anos decorre, principalmente, de um vigor legiferante da Corregedoria Nacional de Justiça e das Corregedorias Estaduais nunca antes observado. Consiga-se, no entanto, que grande parte desses atos normativos emergiu da coragem dos órgãos censores, refletindo a atuação de um Poder Judiciário vivo, prospectivo e atento às mudanças sociais, culminado em ganhos e avanços fantásticos e indiscutíveis para a sociedade. Por outro lado, quando o objeto da norma é a regulação da atividade em si, humildemente e data maxima venia, existe um paradoxo. A "experiência do balcão", que carrega em si o DNA da eficiência, por vezes, é solenemente ignorada em detrimento a condutas inéditas e quase sempre impraticáveis. E aqui vale o dogma consagrado pelo direito civil: quando o objeto se mostra impossível, a obrigação é inexistente. Esse cenário tem provocado o abandono progressivo da atividade notarial e registral brasileira. Esse fenômeno não atinge a minoria que detém capacidade financeira para custear grandes estruturas corporativas - com setores dedicados de contabilidade, recursos humanos e tecnologia -, mas sim a maioria dos delegatários, que veem a subsistência da atividade severamente inviabilizada. Esse abandono manifesta-se em três vertentes críticas. Primeiramente, a imposição de novos modelos normativos exige adequações que geram custos frequentemente insuportáveis para as pequenas delegações. Para cumprir as metas regulatórias, os titulares veem-se forçados a remanejar recursos de outras áreas essenciais, o que resulta no sucateamento das infraestruturas física e tecnológica das serventias. Em segundo lugar, constata-se o comprometimento da pessoalidade. Diante do acúmulo de exigências administrativas, o titular afasta-se de sua função precípua - a própria razão de ser da delegação pública - para converter-se em gestor de infindáveis obrigações acessórias. Por fim, consuma-se o abandono da atividade em si. A sobrecarga de responsabilidades civis e administrativas, desacompanhada da necessária sustentabilidade econômico-financeira, desidrata a atratividade da carreira e ameaça a própria continuidade dos serviços extrajudiciais na maior parte do país. O estreitamento dos limites da atividade notarial e registral, provocado por uma hipernormatização, acabou por mitigar a independência funcional consagrada pelo art. 28 da lei 8.935/1994. A liberdade de buscar a melhor solução jurídica para o cidadão foi substituída por negativas defensivas, motivadas pelo fundado receio de sanções e responsabilizações decorrentes de divergências interpretativas. Em termos metafóricos, nossas prerrogativas institucionais sofrem um processo gradual de "derrogação", caminhando para a "revogação total" sob o peso de um modelo normativo e fiscalizatório que se mostra, por vezes, insensível.
Na primeira parte deste estudo sustentei, pela genealogia do bordereau e pela lição nonagenária dos contratos-tipo, que o provimento 228/26 não sepultou o título. Ao definir o extrato como instrumento auxiliar - apto a subsidiar, jamais a substituir, a qualificação registral - e ao preservar íntegro o poder/dever de o oficial examinar o título sempre que a legalidade o reclame, o regulador reafirmou, em linguagem de hoje, aquilo que a nossa tradição sempre soube e conservou. Vamos seguir com a análise do ato normativo da Corregedoria Nacional com as considerações abaixo. O que se pediu e o que se proveu - a consulta pública e o provimento 228/26 Para medir o acerto do provimento 228/26 não basta ler o que ele dispôs; é preciso confrontá-lo com aquilo que se pediu que dispusesse. A regulamentação dos extratos não nasceu em gabinete silencioso: foi precedida de consulta pública (processo SEI 05164/21), a que acorreram as entidades do mercado imobiliário e financeiro com os seus róis de pretensões. Entre as contribuições, destaca-se a da ABRAINC - Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, que apresentou dez sugestões numeradas para a regulamentação do registro por extrato e da assinatura eletrônica. É documento franco, tecnicamente bem armado - e por isso mesmo precioso: nele o modelo se confessa por inteiro.1 A sugestão 6 é o coração de sua pretensão. Propunha-se que o oficial qualificasse o título e realizasse o registro exclusivamente a partir dos elementos constantes do extrato, "sendo vedado o exame da íntegra contratual" - ainda que apresentada para fins de conservação -, quanto a aspectos de forma, de assinatura ou de conteúdo.2 Leia-se outra vez, que vale a pena: não se pedia apenas a suficiência do extrato; pedia-se a proibição de o registrador olhar o contrato que estivesse, eletronicamente, sob os seus olhos. Não bastava dispensar a qualificação do título - cumpria interditá-la, o que contraria frontalmente a própria letra do texto legal (art. 6º, § 1º, I, "a"): o oficial "qualificará o título pelos elementos, pelas cláusulas e pelas condições constantes do extrato eletrônico". E a justificativa? A de sempre, agora armada de estatística: como menos de 2% das alienações fiduciárias registradas resultam na perda do imóvel - cancelando-se as demais pelo pagamento -, o escrutínio prévio seria inutilidade onerosa. E se o extrato exprimir mais do que conste no contrato - dívida maior, juros que as partes não pactuaram, condições que afrontam o consumidor -, os excessos, admite-se singelamente, poderão ser eventualmente corrigidos pelo decurso do tempo ou pelo escrutínio que se dará, nos raros 2% dos casos, no ato da execução, em matéria de defesa na via judicial. Eis a segurança jurídica reprogramada como contencioso diferido: a qualificação, expulsa da porta do registro, é reconvidada a entrar pela janela da due diligence, do litígio ou do leilão - precisamente o momento em que o devedor já não discute cláusulas: entrega uma procuração a um advogado ou as chaves de sua moradia. E, no interregno, o sistema de publicidade registral segue a proclamar o que a vontade das partes não consagrou. O raciocínio seduz pela simplicidade de seus termos e pelo apoio estatístico. Vale para o mercado, mas não para o adquirente singular que eventualmente se veja na obrigação de litigar em juízo para defesa de seus direitos. Eis a questão central do debate: para quem o registro de imóveis afinal existe e serve? Certamente para a garantia dos direitos e interesses da sociedade - especialmente dos adquirentes da casa própria pelo SFH/SFI, a massa indiscutível dos negócios objeto de registro - e, via de consequência, do próprio sistema de crédito imobiliário. É preciso olhar com atenção o que se declara: apenas 2% das alienações resultam em perda. Qual seria a porcentagem se historicamente o registro não desempenhasse o seu papel? No limite e ao cabo, poder-se-ia concluir - como consectário lógico da argumentação deduzida - que o registro de imóveis é, afinal, uma instituição perfeitamente dispensável já que seria possível precificar os 2% de sinistralidade ou patologia jurídica, confiando-se somente no comportamento regular do mercado e de intercâmbios interpessoais. A verdade é que o argumento prova demais: é precisamente porque o dano é potencial - a perda da propriedade, da moradia, a ocorrência de litígios e controvérsias - que a prevenção barata na porta vale mais que a correção ruinosa na via judicial ou na execução; ninguém desativa o para-raios porque o raio é improvável. Calha perguntar: para que existem seguros de títulos nos EUA - já que ali o registro se limita a arquivar documentos, sem qualificá-los? Para vender, em apólice, a segurança que o sistema não presta. O notice registration não elimina o custo do escrutínio: desloca-o - da qualificação registral a cargo de um oficial público para a due diligence privada, do registro para o seguro de título, da prevenção para o contencioso, do exame de legalidade ex ante, para a reparação judicial ex post. O consumidor troca a garantia institucional por uma pretensão indenizatória. Entre pagar o prêmio da apólice a um agente segurador ou entregar a qualificação a um oficial público, o sistema brasileiro fez a sua escolha em 1846 - e a experiência norte-americana da titulação privada não deu ao mundo razões para invejar a escolha contrária. Em face das provocações, o CNJ decidiu corretamente nos pontos mais sensíveis da controvérsia. Vejamos, panoramicamente: Pediu-se a qualificação exclusiva pelo extrato; proveu-se o extrato como instrumento auxiliar, apto a subsidiar a qualificação (art. 210-A). Pediu-se a vedação do exame da íntegra; proveu-se o arquivamento da íntegra do instrumento, em cópia simples, para os bens imóveis - na serventia, em regra (art. 210-E, I), acrescida, nas hipóteses do inciso II, da pasta própria do emitente, "sem prejuízo do arquivamento no registro de imóveis". A primeira descende do art. 6º, § 1º, III, da lei 14.382/22, dispositivo vetado e restaurado pela derrubada do veto: o próprio Congresso, instado a escolher, escolheu o título; a pasta própria do emitente, por sua vez, descende do inc. IV, incluído pela lei 14.620/23. Proveu-se, ainda, a faculdade de o oficial exigir a íntegra, a qualquer tempo durante a qualificação, sempre que necessária (art. 210-I, caput e seu § 3º). Aqui, porém, é preciso ajustar o foco no detalhe da própria lei. O inc. IV do § 1º do art. 6º da lei 14.382/22 dispõe que os extratos produzidos pelos legitimados "poderão ser apresentados ao registro eletrônico de imóveis, e as referidas instituições financeiras arquivarão o instrumento contratual ou título em pasta própria". O "poderão" faculta o uso do extrato; o "arquivarão" impõe a pasta própria; quanto à entrega da íntegra do instrumento ao registro, a lei silencia. Foi nesse silêncio que se enxergou uma dispensa implícita: para os títulos do inc. IV, o instrumento repousaria exclusivamente nos arquivos do credor - o título que não chega, contra o que nos insurgimos desde a primeira hora. A leitura não resiste à boa hermenêutica. Os incisos de um mesmo parágrafo são disposições coordenadas - entre eles não há relação de regra e exceção que o texto não institua - e iluminam-se pelo caput e pelos parágrafos do artigo a que servem. Entre os comandos dos incs. III e IV não há incompatibilidade alguma: um cuida do acompanhamento do extrato (a íntegra, em cópia simples, ao registro); o outro, da custódia do original (a pasta própria do credor). Deveres de custódia com objetos e depositários distintos cumulam-se, não se excluem - e, sem incompatibilidade, não há falar em derrogação, nem convocar a especialidade, que só socorre onde há conflito. Nota bene: quando o § 1º quis facultar ou excepcionar, disse-o com todas as letras - a facultatividade do arquivamento para os bens móveis ("o requerente poderá, a seu critério, solicitar", inc. II) e a exceção do tabelião de notas (inc. III, restaurado pela derrubada do veto). O silêncio do inc. IV, cercado de exceções expressas, não é eloquente: é apenas silêncio. Todo o conjunto normativo do art. 6º deve ser iluminado à luz de uma exegese integrativa. O caput manda receber extratos "para registro ou averbação de fatos, de atos e de negócios jurídicos" - títulos materiais (art. 167 da LRP e art. 1.245 c/c parágrafo único do art. 1.275 do CC), devidamente instrumentalizados (art. 221 da LRP). O inc. I, "a", conserva o título como objeto da própria qualificação ("o oficial qualificará o título...") - ponto sobre o qual voltaremos. E o § 2º, ao dispensar a atualização prévia da matrícula, ressalva os dados imprescindíveis à "subsunção do objeto e das partes aos dados constantes do título apresentado" - a indicar que, também na via do extrato, um título haverá de ser apresentado. Ler no inc. IV o título que não chega ao Registro seria fazer um inciso satélite eclipsar o eixo em torno do qual gravita o artigo inteiro. Pode-se argumentar que a confusão terminológica que a lei consagrou (extrato = título) salva a interpretação exceptiva. A lei 14.382/22 integra-se num sistema do direito civil e o sistema não aboliu o registro do título. O provimento 228/26 desfez a ambiguidade salvando o sentido com base na boa hermenêutica. O art. 210-E, II, reproduz a "pasta própria" do emitente, mas acrescenta o que a lei não dissera: "sem prejuízo do arquivamento no registro de imóveis". Vale dizer: cumulam-se as custódias, não se substituem - o original no arquivo do credor e no próprio registro Imobiliário, a servir aos interessados que sempre poderão solicitar certidão do instrumento registrado e arquivado (art. 18, in fine, da LRP). É mais um lance, e dos mais expressivos, em que o regulador, provocado a sepultar o título, preferiu conservá-lo. Nem se objete que o provimento teria exigido o que a lei não exige: ele explicitou o que do conjunto legal já se extraía e condicionou o uso de uma via excepcional, no âmbito da competência regulamentar (art. 7º, VIII, da lei 14.382/22). A instituição que não quiser a via indicada sempre poderá apresentar o próprio título diretamente (art. 4º, § 3º, do próprio provimento). A vigilância, ainda assim, não é dispensável. A cláusula "sem prejuízo" comportaria, em tese, leitura enfraquecedora - a de mera ressalva de um arquivamento facultativo na serventia. Cumpre rechaçá-la com a leitura atenta do art. 210-E, I e II, conjugando-se com a genealogia legal que se acaba de expor. Além disso, tal interpretação da cláusula devolveria o instrumento fundamental aos arquivos de uma das partes contratantes - em regra a mais forte -, enfraquecendo a inteira cognoscibilidade da situação jurídica e a tutela do consumidor (princípio da informação + publicidade jurídica) que historicamente caracterizam o registro imobiliário brasileiro. Não há, em nosso sistema, a abstração da causa do sistema registral alemão. Nesta interpretação, a informação relevante deixaria de estar imediatamente disponível no fólio real para depender de requerimento dirigido a agente privado, parte interessada na operação. E nenhuma ITN poderá consagrá-la: a matéria excede a padronização técnica e operacional a que as instruções se confinam (art. 210-C, § 5º, do CNN; art. 228-AD, § 4º, provimento 229/26). A advertência tem lastro doutrinário: ainda ao tempo da MP 1.085/21, Claudia Lima Marques e Bruno Miragem debruçaram-se sobre este aspecto (entre outros): o registro por extrato com informações parciais impede o exame de legalidade próprio da qualificação registral, inclusive o controle das cláusulas cogentes e abusivas do CDC. A facultatividade do arquivamento da íntegra obsta o acesso do consumidor ao conteúdo do contrato de adesão e põe em risco a própria integridade do instrumento, conservado exclusivamente com o fornecedor. Além disso, a dispensa da assinatura eletrônica qualificada amplia os riscos de erro e fraude e a fragmentação do procedimento dispersa os regimes de responsabilidade até então concentrados no art. 22 da lei 8.935/1994, com assento constitucional (art. 236, § 1º), fragilizando o direito básico do consumidor à efetiva prevenção e reparação de danos (art. 6º, VI, do CDC).3 Pediu-se que a declaração unilateral do apresentante desonerasse o oficial de qualquer responsabilidade; proveu-se a repartição que já conhecemos: o emitente responde pela fidelidade, o oficial pela legalidade (art. 210-N). Pediu-se ainda que incorporadores e loteadores pudessem apresentar extratos das vendas de seus próprios empreendimentos - o credor a emitir o resumo da garantia constituída em seu favor, mas o art. 210-B não os contemplou. Pediu-se, enfim, que a conformidade ao leiaute bastasse; proveu-se que a conformidade técnica não gera presunção de veracidade, validade ou registrabilidade, nem vincula o juízo jurídico do oficial (art. 210-C, § 4º). E o próprio provimento cuidou de lavrar, na cláusula final do art. 4º, § 3º, o que bem se pode chamar o atestado de vida do título: cumprido o cronograma da massificação, permanece "assegurado o direito de apresentação do título por meio eletrônico integral ou físico". Nenhuma ITN, cronograma ou meta poderá converter o extrato em canal exclusivo. Nem se diga que a consulta pública foi estéril para os seus proponentes. O provimento acolheu o que a contribuição tinha de operacional - o leiaute padronizado, os campos obrigatórios, as próprias declarações de responsabilidade do emitente, que o art. 210-M reproduz em substância, expurgada, porém, a cláusula de desoneração do oficial.4 Acolheu-se a técnica; recusou-se a tese. Uma objeção previsível Antecipo a objeção, que virá de ambos os flancos. Os arautos do "eficientismo econômico", advogando a redução do Direito a mero instrumento de maximização da eficiência econômica, dirão: se o oficial pode exigir o título a qualquer tempo, nada se ganhou - o extrato converte-se em etapa a mais - um bis in idem -, e a prometida celeridade morre na prenotação. Dirão, do lado adverso: se o extrato nada vale sem o título, então para que serve? - duplicou-se o trânsito, eis tudo. As duas objeções, simétricas e contrárias, padecem do mesmo vício de perspectiva: medem extrato e título pela mesma régua, como se disputassem o mesmo posto. Não disputam. A chave é, uma vez mais, a repartição do art. 210-N: a fidelidade é mera declaração unilateral do emitente; da legalidade do negócio jurídico (título em sentido material e formal) cuida o oficial. O extrato serve à máquina - ao fluxo, à prenotação, à estrutura de dados, à infovia; o título serve ao juízo - à qualificação registral, que leiaute algum substitui. Onde há divisão de trabalho não há duplicação. E nunca é demais relembrar: a máquina enxerga ambas as peças como dados; a congruência entre elas, a máquina (IA) pode confrontar as peças, apontar incongruências e acelerar a conferência; o juízo de admissibilidade registral, porém, permanece pessoal, jurídico e indelegável. E há mais: o tempo do exame, que a objeção supõe superior, com as novas tecnologias despenca. O que ontem exigia horas de leitura atenta pode hoje realizar-se em minutos, por processo endo-registral baseado em ferramentas de IA. Recebido o título - nato-digital ou digitalizado -, a IA, operando no interior da própria serventia e sob a estrita regência do oficial, lê o instrumento, extrai os dados juridicamente relevantes e gera, ela própria, a estrutura: um extrato de conferência, rebatido, campo a campo, contra o extrato do emitente, o título e contra a matrícula. Convergentes e congruentes que sejam os dados, o fluxo segue célere para a validação humana; divergentes, acende-se o alerta que orienta o aprofundamento da qualificação. A estrutura deixa de ser um pressuposto que o mercado visa fornecer como insumo para tornar-se um produto que o próprio registro gera: o extrato do emitente vale como hipótese; o título, como objeto inscritivo; a estrutura endo-registral, como resultado da qualificação. Ultrapassada essa barreira, o resultado converte-se em objeto do registro estruturado. Se a máquina extrai do título a própria estrutura extratada, esvazia-se o derradeiro argumento pela dispensa do título: não se poupa trabalho algum suprimindo a fonte de que a estrutura se origina. De quebra, dissolve-se aquele nódulo informacional de estruturação intermediário que, vimos, encarece e torna redundante o trânsito entre os agentes do crédito e as serventias - subsistindo, por certo, o canal institucional de recepção pelo Serp (art. 210-C, § 3º): no processo endo-registral, o dado nasce onde será qualificado, gerado sob estrita vigilância e curadoria do próprio oficial. Por fim, aqui se desvela o que sempre esteve à vista: o próprio ato de registro é um extrato. Desde 1865 o oficial colhe do título os elementos de transcendência real e os traslada às colunas do antigo Livro 4. Sempre se registrou por extrato, em colunas, a partir de um título.5 A questão é esta: quem extrai o que e de quê. O extrato que consuma a inscrição é peça endo-registral - lavrada pelo registrador, a partir do título, sob qualificação e coberta pela fé pública -, não o resumo unilateral de quem tem interesse na operação e pode até mesmo capturar o agente da inscrição, malferindo sua independência. O extraneus ao órgão registral propõe; o oficial do registro extrai, qualifica e inscreve. Vejamos a partir de outro ângulo. Extrair, aqui, não é simplesmente transcrever: é interpretar. O que se acha no registro é eficaz erga omnes; não o que se acha no título - menos ainda no extrato. E, para lavrar o assento, o oficial exerce atividade criadora que ultrapassa, muitas vezes, a literalidade do instrumento, atenta à vontade real das partes. É o próprio CCl que o ordena: "nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem" (art. 112) - o princípio da primazia da intenção, ou da vontade real, que a doutrina consagra. Ora, o extrato exógeno é, por construção, literalista: campos estruturados capturam a letra do negócio estereotipado, jamais a intenção que a anima. Decidir o que, do título, tem transcendência real - e como se traslada ao fólio - é juízo hermenêutico, não mera transposição de dados; e esse juízo releva, ainda mais, o papel do registrador. Mas a mesma máquina pede vigília, e aqui a advertência de Manoel Valente é preciosa - e subscrevo-a. A estruturação do extrato não é neutra: "padronizar significa tornar comparável por padrões pré-definidos; tornar comparável significa tornar treinável".6 A mesma infraestrutura de dados que celebra a interoperabilidade constitui, em potência, uma base de treinamento algorítmico - e "datifica" não só o negócio, mas o próprio comportamento decisório do registrador. Daí o risco que Valente nomeia com felicidade: a fossilização hermenêutica - a inteligência treinada no passado tende a estabilizar o passado como modelo do futuro, convertendo o majoritário em recomendação e pauta, e estas em expectativa de conformidade. O consenso algorítmico jamais se confunde com juridicidade; a qualificação exige plasticidade interpretativa, prudência e sensibilidade ao caso concreto - atributos que nenhuma abordagem estatística reproduz. Trata-se de um juízo próprio e indelegável, isto é, ele atua de modo jurídico-prudencial, pois não copia servilmente os dados do título, mas produz o documento precedido de um juízo jurídico - a qualificação.7 Em suma: o registrador examina o caso concreto, julga e impera o registro - decide a inscrição ou a denega. O juízo prudencial sobre o singular é indelegável e insubstituível: ninguém pode ser prudente por outro - nem o emitente, nem o regulador, nem as partes. Fixa-se, pois, a fórmula, que é a de Valente e é também a do provimento: a IA assiste; nunca substitui. O algoritmo pode confrontar extrato e título, apontar inconsistências, aparelhar o exame - o extrato de conferência de que falamos é a planilha de qualificação que Afrânio de Carvalho anteviu há décadas, agora dinâmica.8 O que não se admite é que o algoritmo "impere" o registro ou decida a sua denegação: o deferimento automatizado, o score qualificatório, a recomendação vinculante degradariam a prudentia iuris em pauta estatística, e o registrador, em validador passivo - precisamente o que o provimento veda ao blindar, em redundância deliberada, o juízo do oficial (arts. 210-C, § 4º; 210-K; 210-O, § 2º; 210-Q, § 4º). Conclusão O percurso pode agora recolher-se a poucas linhas. O extrato não é novidade: é o bordereau redivivo, que a própria França reputou frágil demais para sustentar a propriedade e que, entre nós, jamais passou de apoio auxiliar de um registro que sempre exigiu o título. O título é o suporte material da inscrição; suprima-o e desnatura-se o sistema de inspiração romana que ilumina o Direito Civil brasileiro. O padrão previamente qualificado tampouco é novidade: os contratos-tipo, quase nonagenários, conviveram décadas com o título sem jamais o suplantar. O direito posto não destoa: o dirigismo contratual comete ao oficial o controle de cláusulas que só o título revela. E a prova dos nove veio da própria regulamentação: instado a vedar o exame da íntegra, o CNJ proveu o contrário - arquivamento da íntegra, exigência do instrumento, juízo do oficial desvinculado da conformidade técnica. A fórmula que tudo resume já foi dita e convém repeti-la, porque é simples: o título comporta o extrato; não é por ele substituído ou subsumido. O extrato acelera, estrutura, pavimenta; o título instrumenta, funda, garante. O emitente responde pela fidelidade da translação de dados; o oficial, pela legalidade. E a máquina - que lê, confere, estrutura e alerta - trabalha a serviço do juízo, nunca em seu lugar. Não substitui o agente que delibera, julga e decide o caso concreto. Dados não são informação; informação não é certeza; o extrato é dado - o instrumento, título. O extrato retornará; é do seu feitio - a história registral o condena ao eterno retorno. Que encontre, a cada regresso, o que encontrou agora: um sistema que sabe acolhê-lo como serviçal sem coroá-lo senhor. Assim, o cartório do futuro não será o do homem e do cão. Será o do jurista, cercado de ferramentas tecnológicas que leem e conferem para que o homem faça o que só ele pode fazer: julgar e decidir. Bem lido o direito posto, o extrato não sepulta o título. Nunca pôde fazê-lo. Por sorte o agente regulador não foi seduzido por vãs promessas e ilusões veiculadas como meros slogans de propaganda oficial. _________ 1 ABRAINC - Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias. Sugestões para a regulamentação da Lei 14.382/22: registro por extrato e assinatura eletrônica. Contribuição apresentada à Corregedoria Nacional de Justiça (processo SEI 05164/2021), publicada no sítio do CNJ. Disponível aqui. 2 Sugestão 6 (Qualificação do título a partir do extrato), enunciado [1] e notas explicativas ns. 37-41 - onde figuram a invocação do art. 6º, § 1º, I, "a", da Lei 14.382/2022, a estatística dos 2% e a admissão de que o vício de consentimento do extrato "venha a ingressar no fólio real". 3 Parecer de Claudia Lima Marques e Bruno Miragem sobre a MP 1.085/2021, lavrado em resposta a consulta do Colégio Notarial do Brasil - Conselho Federal e Seção São Paulo (Porto Alegre, 2/5/2022). V. tb. dos mesmos autores a versão sintética A raposa e o galinheiro: a MP 1.085/2021 e os riscos ao consumidor: Disponível aqui.  4 Compare-se o art. 210-M, I e IV, do CNN (red. provimento 228/2026) com a Sugestão 1, nota explicativa n. 7, i-ii, da contribuição da ABRAINC: as declarações são substancialmente as mesmas; suprimiu-se, porém, a desoneração do oficial de qualquer responsabilidade pelas inconformidades, que lá se propunha. 5 V. art. 28 do Decreto 3.453/1865. Note-se a distinção: transcrição das transmissões não é transcrição verbo ad verbum do título - o próprio Regulamento facultava às partes, além da transcrição colunar, a "transcripção verbo ad verbum" (art. 273). As colunas que recebiam os núcleos de informação achavam-se estruturadas no art. 269 do mesmo Regulamento - requisitos de tal modo essenciais que a sua falta acarretava a nulidade radical da transcrição, "ainda que os extractos sejão sufficientes" (arts. 278 e 279). Note-se que a estruturação se fazia internamente. A mesma arquitetura se encontra hoje no art. 176 da LRP. 6 FIGUEIREDO NETO, Manoel Valente. Por uma base ética de treinamento da IA no Registro de Imóveis brasileiro: salvaguardas necessárias. 2026 (no prelo). Do autor colho ainda a "captura procedimental integral" e a datificação do comportamento decisório do registrador. 7  DIP, Ricardo. Registro de imóveis (princípios). Descalvado, SP: Editora Primus, 2017. p. 118. (Série Registros sobre Registros, 1). 8 CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1982, p. 372: os extratos deveriam ser feitos "para preparar as inscrições, como documentos anteriores", dando versão abreviada dos títulos. Afrânio anteviu, por desenvolvimento lógico da estrutura do extrato e o registro colunar, a planilha de qualificação - ferramenta do exame de legalidade, não seu sucedâneo.
quarta-feira, 22 de julho de 2026

O extrato não sepulta o título - parte I

Dados não são informação. Informação não é certeza. O extrato é dado; o instrumento, título. Introdução - o eterno retorno do extrato Há institutos que a história registral parece condenar ao eterno retorno. O extrato é o mais teimoso deles. Oriundo de matrizes francesas, adaptado na lei belga, transplantado ao Brasil de modo hesitante em meados do século XIX, condenado por Lafayette como uma perfeita inutilidade e por Lysippo Garcia como peça boa apenas para pejar os cartórios e fornecer pasto às traças, o extrato foi abandonado com o advento do CC de 1916. Eis que ele retorna numa nova sazão sob o pálio da modernidade do sistema registral (art. 6º da lei 14.382/22), redivivo como núcleo operativo do SREI - Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis. Não é de hoje que observo atentamente o ciclo de renascimento e morte do instituto. Há mais de uma década sustento que os novos extratos nada mais são, afinal, do que a revivescência dos antigos bordereaux do século XIX. A crítica a eles dirigida não se inaugurou com a reforma legal de 2022 nem tampouco com a recente regulamentação promovida pela Eg. Corregedoria Nacional de Justiça. É importante demarcar a anterioridade da crítica, porque com isso se desarma, de saída, a suspeita de reação meramente episódica e apaixonada ao texto dos atos normativos recentemente baixados (provimentos CNJ 228 e 229, de 16/6/26). A arqueologia do extrato - a reconstituição genealógica que reata o bordereau francês aos espécimes redivivos - publiquei-a em 2010, portanto doze anos antes do advento da lei 14.382/221; desde então reitero a crítica à substituição do título pelo extrato, com constância e sob variadas formas.2 O que os civilistas do Oitocentos combatiam era o extrato que se revelou o filho de seu próprio tempo, concebido no contexto do regime hipotecário decimonômico; o meu esforço foi outro - mostrar que a mesma estrutura regressa com roupas novas, sob o manto panglossiano da economicidade, racionalidade, eficiência e multifuncionalidade. A cada nova geração esta curiosa espécie ressuscita para logo a sepultar com epitáfios que a seguinte, distraída, ignora. Um eterno retorno. Entretanto, há diferenças entre os extratos franceses, belgas e brasileiros e o atual. O que apresento à discussão não é mera questão terminológica ou pauta de homologação de modelos ultrapassados, mas questiono a justificativa, encomiástica e quase panfletária, que embala o discurso de modernização do sistema registral brasileiro - ao preço de sacrificar princípios que são consubstanciais ao nosso sistema. A reforma da LRP inoculou elementos exógenos à tradição do nosso Direito, como veremos. O modelo de extratos que nos revela a lei 14.382/22 é disruptivo e representa uma profunda mudança de paradigmas. Importado de outras matrizes de direito, tem nome, origem e autoria confessados: não é o bordereau do sistema francês; não é a "minuta duplicada" que se insinuou no decreto 482/1846 (art. 12 e 22), tampouco os extratos previstos na reforma de Nabuco (1864-5), nem os que figuraram nos decretos de Rui Barbosa (1890); nem mesmo os contratos-tipo ou padrão recentes; o novo extrato abeberou-se de fontes menos tradicionais: o Notice Registration, propagado mundo afora pela UNCITRAL (United Nations Commission on International Trade Law), assumido por nós como panaceia para atualizar e modernizar o sistema registral pelos mais renomados comentadores da recente reforma da LRP.3 Não se pode dizer, como dizem os doutos, que estes formulários correspondem aos extratos da legislação brasileira. De fato, não. E veremos o porquê. Sob o influxo deste admirável mundo novo do registro digital, o nosso sistema registral abalou-se com uma reforma que, na prática, pretendeu rebaixá-lo: de um sistema de inspiração romana, de registro de títulos (impropriamente denominado registro de direitos)4 a mero registro de documentos. Pior ainda: a registro baseado em meras indicações eletrônicas. A reforma buscou consagrar o esvaziamento do elemento mais importante e consubstancial do sistema registral brasileiro: a qualificação jurídica. A iniciativa não prosperou tout court em razão das aparas que o próprio CNJ opôs à época das discussões vestibulares do projeto. Convertido que fosse o ofício imobiliário em mero birô de dados algoritmizado, as nobres funções jurídicas esvair-se-iam, reduzido o registrador a validador passivo de fluxos de dados estruturados, by design, por terceiros interessados. Neste cenário, o profissional do direito abdicaria do poder/dever de qualificação jurídica e o vácuo seria "naturalmente" preenchido por terceiros, na consideração de que sempre haverá uma diligência prévia seja pública (notarização) ou privada (due diligence, title search, seguro de título) para acautelar os contratantes em face de eventuais acidentes na execução dos negócios jurídicos relativos a bens imóveis. Contra esse minimalismo jurídico e dataísta sustentei, sempre, a mesma tese - singela na formulação e grave nas consequências: os extratos podem acompanhar, mas não podem substituir o título, sob pena de converter o próprio registrador em peça meramente funcional e dispensável no grafo de informações e dados registrais coordenados por um hub informacional (plataforma do ONR). Adaptando a clássica boutade, talvez anônima e popularizada por Warren Bennis: o cartório do futuro terá apenas um homem e um cão: o homem para alimentar o cão, o cão para impedir que o homem toque nas máquinas. Pois é chegado o momento de reexaminar o problema com a serenidade do tempo transcorrido e à luz dos atos normativos recentemente editados. Provimento do CNJ - o acerto dogmático A Corregedoria Nacional de Justiça, ao regulamentar a matéria, resistiu à pretensão de converter o extrato em canal exclusivo e sucedâneo da qualificação registral dos títulos - conquanto tenha acolhido aspectos operacionais relevantes -, recusando-se a endossar e regulamentar um idílico "registro de imóveis eletrônico" apresentado como panaceia para todos os males (reais ou imaginários) do sistema.5 Convém, desde já, deslocar o foco para a ribalta, atentos à cena que se desenrola na regulamentação da lei. Há dois provimentos contemporâneos, de 16/6/26: um visa disciplinar e regular o ecossistema do Serp - o Sistema Eletrônico dos Registros Públicos, instituído pela lei 14.382/22 para interligar as serventias, viabilizar o registro eletrônico dos atos e promover a interoperabilidade das bases de dados; o outro, visa ao instituto do extrato. O núcleo da questão aqui agitada não está no provimento 229/26, mas no 228/26. É sobre este que nos debruçaremos, tendo presente que aquele estrutura o ecossistema do Serp e estabelece os limites materiais das ITN editadas pelo ONR, inclusive no que respeita à qualificação registral. Lido sem o açodamento da aprovação da lei, o provimento 228/26 não sepulta o título: ao contrário, define o extrato como instrumento auxiliar, apto a subsidiar (não substituir) a qualificação registral, veículo de "organização informacional", que só pode constituir base suficiente para o exame do título nas hipóteses expressamente previstas em lei (art. 210-A, caput e parágrafo único, I). Vale dizer: a base deve ser o sistema e seus princípios e o direito posto, e não os anseios de parte da doutrina ou do establishment corporativo-governamental. Trata-se de instrumento auxiliar e de apoio ao processamento eletrônico de títulos. Disso decorre que a qualificação registral continua a ter por objeto o título, e não o extrato que eventualmente o acompanha. Há nítida convergência entre os textos por mim veiculados no curso da última década e os atos baixados pela CN do CNJ. Tentarei demonstrar o papel que a lei 14.382/22 e o provimento 228/26 poderão ter no processo registral, deitar um olhar na genealogia do bordereau e por fim reavivar Temas de dogmática jurídica. Pretendo demonstrar que o extrato não sepulta o título. E que, bem compreendido o sistema criado, o envio do extrato com o título não é capitulação à burocracia nem complacência com a ineficiência operacional, mas solução inteligente que concilia a celeridade do trânsito de dados em infovias coordenadas pelas plataformas com a certeza do direito. Enfim, não é necessário o sacrifício da segurança jurídica pela supressão da qualificação registral no altar da racionalidade econômica - sacrifício que alveja o veio primordial que, desde 1846, dá ao nosso registro a sua natureza e a própria razão de ser. ___________ 1 JACOMINO, Sérgio. Os novos extratos e os antigos bordereaux do registro francês (2010, ampliado após a Lei 14.382/2022, Disponível aqui. as lições de Lafayette (Direito das cousas, 1877, v. II, p. 256) e de Lysippo Garcia (O Registro de Immóveis - A Transcripção, 1922, p. 337). 2 JACOMINO, Sérgio. Extratos, títulos e outras notícias (in NALINI, José Renato (org.). Sistema eletrônico de registros públicos. Rio de Janeiro: Forense, 2023, p. 369-385). V. série "Assinaturas eletrônicas e a Lei 14.382/2022", partes I-III (cartorios.org, 2023). 3 Fábio Rocha Pinto e Silva reconhece que os "formulários registrais (registry notices)" da Lei Modelo da UNCITRAL (2016) correspondem ao que no Brasil se denominou extratos, e arrola, entre as práticas incorporadas à MPV 1.085/2021 e posteriormente à Lei 14.382/2022, a qualificação dos títulos apresentados por extrato apenas a partir dos elementos do extrato (art. 6º, §1º, I, "a"), sistema cujo núcleo, tal como ele o transcreve de Castellano, dispensa a cópia do contrato e prescinde do escrutínio do registrador. Cf. SILVA, Fábio Rocha Pinto e. Comentários aos arts. 1º e 2º. In: ABELHA, André; CHALHUB, Melhim; VITALE, Olivar (orgs.). Sistema Eletrônico de Registros Públicos: Lei 14.382/2022 comentada e comparada. Rio de Janeiro: Forense, 2022, p. 7. A conclusão do ilustre jurista não é correta. O extrato da tradição do direito brasileiro é muito diferente dos formulários da UNCITRAL. O traslado do modelo é um claro índice do afobamento com que se buscou transportar o notice registry para cá: "Já era noite quando o Ofício 196/2022 do Senado chegou à Câmara, e o Relator, Deputado Isnaldo Bulhões Jr., apresentou prontamente o relatório relâmpago (Parecer Preliminar de Plenário 3) votando pelo acolhimento das alterações promovidas pelo Senado". Tratou-se de verdadeira blitzkrieg empreendida por alguns setores do Governo Federal aliados a grupos de interesse bem representados. A expressão é bastante reveladora e integra a apresentação encomiástica que se fez do diploma legal em ABELHA, André; CHALHUB, Melhim; VITALE, Olivar (orgs.). Op. cit., p. XVII. 4 Ricardo Dip adverte, com razão, que a expressão registro de direitos, decalcada da americanização da linguagem, é imprópria: "nosso registro é registro de títulos e não de direitos" - registro de causas materiais aquisitivas que só se convertem em direito real pela inscrição constitutiva. Cf. DIP, Ricardo. A Lei 14.382 e o registro da permuta de imóveis (conclusão). Boletim Eletrônico INR, Opinião, n. 3042 (www.inrpublicacoes.com.br, 2024). O sistema brasileiro é um sistema de registro de títulos de índole causal - o título em sentido material é a causa remota (o negócio causal, fonte obrigacional); o registro é o modo (causa próxima), que consuma o direito real, com efeitos constitutivos (em regra) e presunção juris tantum (titulus et modus adquirendi) -, distinto tanto do modelo abstrato alemão quanto dos sistemas de mero arquivamento (recording of deeds). A dicotomia registration of rights × recording of deeds provém do debate comparado e da análise econômica dos registros - difundida nos estudos do Banco Mundial (Doing Business) -, onde se contrapõem os registros de titularidades aos meros repositórios de documentos e às soluções de titulação privada, como o MERS norte-americano. Cf. ARRUÑADA, Benito. Institutional Foundations of Impersonal Exchange. Chicago: University of Chicago Press, 2012; ARRUÑADA, B.; GAROUPA, N. The Choice of Titling System in Land. Journal of Law and Economics, v. 48, 2005; MÉNDEZ GONZÁLEZ, Fernando P. Fundamentación económica del derecho de propiedad privada e ingeniería jurídica del intercambio impersonal. Cizur Menor: Civitas/Thomson Reuters, 2011; NOGUEROLES PEIRÓ, Nicolás. A função econômica do registro imobiliário. Boletim IRIB em Revista, n. 325, 2006. 5 Um passeio às reportagens impulsionadas pelo governo, após a sanção da Lei 14.382/2022, nos revela o cenário de entusiasmo que contagiou os agentes de mercado e de alguns registradores. "[A Lei 14.382/2022] efetiva o Sistema Eletrônico dos Registros Públicos (Serp) para modernizar e unificar sistemas de cartórios em todo o País e permitir registros e consultas pela internet." E segue: "Segundo o governo, o Serp deve 'desburocratizar' o acesso a documentos, hoje espalhados por diferentes cartórios, e reduzir custos." Portal da Câmara dos Deputados. Acesso. "Registro Eletrônico de Imóveis (SERP): A Modernização dos Cartórios e a Segurança Jurídica Digital." Ou ainda: "[.] não apenas uma atualização tecnológica, mas uma verdadeira refundação dos processos de publicidade e eficácia jurídica no Brasil." Site: Jusbrasil. Acesso. "O Brasil dá um passo importante na desburocratização do mercado imobiliário, na desjudicialização, e caminha para ter um dos melhores sistemas de registros públicos do mundo." CNN Brasil. Acesso. Há muitos outros exemplos. Artigo completo disponível na íntegra 
A Constituição da República erige o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa à condição de princípios processuais fundamentais. Sua função é assegurar que os titulares de direitos e interesses postos em litígio tenham oportunidade real de participar da relação processual, conhecer o que se processa, produzir provas e influenciar, legitimamente, a decisão a ser proferida. Como observa Nelson Nery Junior, a constitucionalização do processo civil não representa um novo ramo do direito processual, mas um ponto de vista metodológico a partir do qual as garantias fundamentais passam a condicionar a própria validade do processo - entre elas, com destaque, o contraditório. Sem contraditório validamente estabelecido - isto é, sem que as partes legítimas figurem nos polos da demanda - não há falar em ampla defesa, tampouco em devido processo legal. Essa é a regra geral, e dela decorre outra, igualmente cara à segurança jurídica: a de que as decisões judiciais produzem efeitos, em regra, inter partes. Quem não participou da lide não deve, como consequência lógica, sofrer os efeitos da sentença, ainda que transitada em julgado. Os atos registrais operam em lógica semelhante, mas como efeitos distintos. Diferentemente do processo judicial, cujas decisões vinculam as partes que dele participaram, os atos praticados no Registro de Imóveis produzem efeitos erga omnes. É essa amplitude que impõe às decisões judiciais, quando se pretende que ingressem no fólio real, o dever de observância das regras de segurança jurídica que regem todo o sistema registral - os chamados princípios registrais. Ao se lhes conferir a publicidade do registro, tais atos deixam de produzir efeitos restritos às partes e passam a valer diante de todos. A necessidade de citação dos titulares de direitos reais Em qualquer ação real ou pessoal reipersecutória - e a usucapião é o exemplo mais recorrente no cotidiano registral - impõe-se a participação, na lide, dos titulares dos direitos em debate. A razão é simples: se assim não fosse, os titulares do domínio ou de quaisquer outros direitos reais inscritos na tábula registral não teriam oportunidade de defesa - no caso da usucapião, de contestar a existência da posse alegada ou sua natureza - e poderiam, a despeito de completa ignorância sobre a existência de ação em curso, perder o domínio do bem ou o direito que regularmente constituíram. Esse resultado não encontra abrigo no sistema jurídico pátrio. Vale destacar que essa exigência não é afastada pela natureza originária da aquisição por usucapião. A aquisição da propriedade pela usucapião decorre, é certo, da independência em relação a qualquer vínculo jurídico antecedente de direito material entre o titular do domínio e o usucapiente. Mas essa inexistência de relação jurídica antecedente de direito material não tem o condão de dispensar a exigência constitucional-processual de que se estabeleça, por meio do devido processo legal, uma relação jurídico-processual entre titular do domínio e usucapiente. São planos distintos: a ausência de vínculo de direito material não desobriga o cumprimento do rito processual voltado a assegurar a participação de quem sofrerá os efeitos da sentença. Por isso, a aquisição originária - fundada no exercício da posse ad usucapionem e no preenchimento dos requisitos legais respectivos - depende de que a alegação de sua existência se submeta a contraditório válido e a ele subsista. A pretensão do autor deve passar pelo crivo da verossimilhança, o que significa proporcionar, efetivamente, ao titular do domínio a oportunidade de contrapor-se aos fatos alegados. Sem isso, o titular não pode ser privado da propriedade sobre o imóvel. Na doutrina processual, Fredie Didier Jr. situa essa exigência no plano do contraditório substancial - não basta a mera ciência formal do processo; é preciso assegurar à parte afetada real possibilidade de influenciar o convencimento do julgador antes de proferida a decisão. Quando a sentença atinge diretamente a esfera jurídica de quem não integrou a relação processual, o vício transcende a nulidade relativa e compromete a própria formação do litisconsórcio necessário, categoria à qual a doutrina processual tradicionalmente reconduz o proprietário registral na ação de usucapião. O princípio da continuidade como equivalente funcional do contraditório No âmbito do registro de imóveis, os princípios constitucionais-processuais encontram equivalente funcional no princípio da continuidade. Se, no processo civil, o contraditório se estabelece quando as partes legítimas ocupam os polos ativo e passivo da relação processual, no registro predial o título - para ser qualificado positivamente - deve trazer em seu bojo a participação, ou a manifestação de vontade, do titular do direito que será transmitido, extinto ou modificado. É esse elemento que o registrador verifica ao aplicar o princípio da continuidade a títulos de origem judicial: apurar se o titular do direito perseguido na demanda figurou no polo passivo e se foi regularmente citado ou intimado - ou seja, se houve oportunidade de tomar conhecimento da ação e dela participar. Não se trata, aqui, de negar eficácia administrativa à coisa julgada. Essa vedação decorre da própria CF/88, ao definir os princípios que regem o processo judicial - tradição que remonta, na sua essência, à Carta de João Sem Terra, de 1215. O que se afirma é outra coisa: não constando dos autos informação de que o titular do direito real de propriedade figurou no polo passivo do feito e que foi regularmente citado, não há como qualificar positivamente o título judicial, dada a flagrante inobservância do contraditório, que no plano registral equivale à inobservância da continuidade. A doutrina especializada em direito registral é uníssona quanto à centralidade desse princípio. Afrânio de Carvalho, em obra clássica sobre o sistema instaurado pela lei 6.015/1973, já assentava que o encadeamento sucessivo das inscrições - cada titular derivando seu direito do titular anterior, regularmente inscrito - é o que confere ao registro a segurança e a confiabilidade que lhe são próprias, de modo que a ruptura dessa cadeia compromete a própria função do sistema. Ricardo Dip, em sua obra "Registro de Imóveis (Princípios)", aprofunda essa leitura ao tratar a segurança jurídica e a publicidade registral como finalidades que informam todo o conjunto de princípios do registro, entre eles a continuidade - não como formalismo do registrador, mas como instrumento de tutela de quem confiou na publicidade do fólio real. Os limites da citação editalícia genérica Um ponto sensível nessa análise diz respeito à citação ficta. A possibilidade de citação editalícia genérica - de "interessados", como autoriza a lei processual - não se destina a suprir a ausência de citação pessoal quando o titular do direito de propriedade é perfeitamente identificável e identificado no registro imobiliário. A citação editalícia genérica de réus "ausentes, incertos e desconhecidos" tem função residual: viabilizar ações em que eventuais interessados não foram identificados, nem são ordinariamente identificáveis. Não se presta, contudo, a substituir a convocação daqueles dotados de legitimidade ad causam certa, determinada e identificada, sob pena de comprometer a regular constituição do contraditório e, por consequência, a ampla defesa. Não é juridicamente possível ignorar a existência do titular de direito real regularmente inscrito no registro de imóveis. Ao inscrever-se no sistema de segurança jurídica disponibilizado pelo Estado, essa pessoa se torna publicamente identificável - inclusive para que, em ações reais e pessoais reipersecutórias, seja prontamente localizada e chamada a integrar a lide. Descumprida essa lógica basilar, o título judicial não pode ter ingresso no fólio real. É exatamente esse o entendimento consolidado na obra de referência sobre a matéria. Benedito Silvério Ribeiro, em seu "Tratado de Usucapião", identifica o titular constante do registro como o "proprietário tabular" e destaca que a citação de quem figura no álbum imobiliário é obrigatória, por se tratar de pessoa certa e presumidamente proprietária, cuja ausência de convocação caracteriza vício apto a comprometer a validade da sentença. O autor situa expressamente essa citação no plano do litisconsórcio necessário, cuja falta pode acarretar a nulidade do processo - entendimento que dialoga diretamente com a exigência, aqui sustentada, de que a citação pessoal do titular do domínio, quando possível, não pode ser suprida por edital genérico. O tratamento pela jurisprudência e por normas de serviço A matéria não é nova nos tribunais nem na atividade normativa dos órgãos correcionais da Justiça. O STJ, ao julgar o REsp 1.432.579-MG (relator ministro Luis Felipe Salomão, julgamento por maioria em 24/10/17), assentou que, na ação de usucapião, é indispensável a citação do proprietário e de seu cônjuge constantes do registro de imóveis - e dos demais compossuidores e condôminos - na qualidade de litisconsortes necessários, sob pena de a sentença ser absolutamente ineficaz, inutiliter data, por se tratar de nulidade insanável. No mesmo sentido, iniciativas normativas de órgãos correcionais têm buscado uniformizar o procedimento de levantamento de informações sobre pessoas a serem citadas nas ações de usucapião. A Ordem de Serviço 01/16, editada pelos juízes de Direito Titular e auxiliares da 1ª vara de Registros Públicos da Comarca de São Paulo, é ilustrativa: à luz do CPC, atribui à parte autora o ônus de apresentar, de forma clara e concisa, o rol dos citandos - com suas completas qualificações - abrangendo os titulares de domínio e os confrontantes tabulares indicados pelos competentes registros de imóveis, os confrontantes de fato, os antecessores na posse, quando requerida a accessio possessionis, e eventuais ocupantes ou possuidores do imóvel usucapiendo. A mesma norma reserva a citação editalícia à hipótese de esgotamento das diligências pessoais e à convocação de eventuais interessados não identificados, jamais como substituto da citação pessoal de quem é identificável. Conclusão A qualificação registral de títulos judiciais oriundos de ações de usucapião não pode prescindir da verificação de que o titular do domínio constante da matrícula foi regularmente citado no processo que deu origem à sentença. Trata-se de exigência que não decorre de rigor formal do registrador, mas da própria arquitetura constitucional do processo: o princípio da continuidade registral nada mais é do que a tradução, no plano da publicidade e da segurança jurídica erga omnes, das garantias do contraditório e da ampla defesa. Quando a citação pessoal é possível e não se realiza - sendo suprida por edital genérico que não se destina a esse fim -, o vício não se convalida pelo trânsito em julgado, e o título correspondente não reúne condições de ingressar no fólio real, tal como reconhecido pela jurisprudência do STJ e pela normatização correcional sobre a matéria. _____________________________ CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis: comentários ao sistema de registro em face da Lei nº 6.015/1973. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil, v. 1: Introdução ao Direito Processual Civil, Parte Geral e Processo de Conhecimento. 28. ed. Salvador: JusPodivm, 2026. ISBN 9788544270516. DIP, Ricardo. Registro de Imóveis (Princípios). Série Registros sobre Registros. Descalvado: Editora Primvs, 2017-2018, tomo  III: Lepanto, 2019. NERY JUNIOR, Nelson. Princípios do Processo na Constituição Federal: processo civil, penal e administrativo. 12. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. 475 p. ISBN 9788520371268 RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de Usucapião. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, 2 v. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.432.579-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/10/2017. SÃO PAULO. Corregedoria Geral da Justiça. 1ª Vara de Registros Públicos da Comarca de São Paulo. Ordem de Serviço nº 01/2016.
Ao julgar o REsp 2.173.311/PE (2ª turma, maio de 2026; art. 185 do CTN; empresário individual; fraude à execução tributária; alienação de imóvel sem ônus na matrícula)1, o STJ - evidenciou uma fratura entre dois regimes de publicidade. De um lado, a publicidade registral imobiliária, fundada na matrícula, na cognoscibilidade e na confiança do terceiro; de outro, a publicidade fiscal-administrativa da dívida ativa, que, embora pública em sentido tributário, não se projetou sobre a matrícula do imóvel nem possui, no tráfego imobiliário, a mesma força comunicativa do fólio real. O registro Imobiliário, como se sabe, é o local formalmente destinado à busca das informações sobre imóveis. Com essa decisão, o STJ traz tensão sistêmica no tráfego imobiliário, ao permitir que uma informação externa ao fólio real produza efeitos dominiais contra terceiro adquirente. Ao analisar o caso concreto, tem-se que um adquirente, ao comprar um imóvel em 2017, realizou os procedimentos necessários a qualquer transação imobiliária. Consultou a matrícula atualizada, obteve certidões vinculadas ao CPF do vendedor e não encontrou qualquer elemento indicativo de constrição, averbação premonitória, indisponibilidade, penhora, ação real, ação reipersecutória ou ônus fiscal inscrito no fólio real. Entretanto, existia uma dívida tributária existia, mas vinculada ao CNPJ da microempresa ou da atividade de empresário individual, e não ao CPF do mesmo, muito menos qualquer indício de notícia sobre o fato inscrita na matrícula do imóvel. O STJ reconheceu a fraude à execução com fundamento no art. 185 do CTN -, na redação dada pela lei complementar 118/05.2 A Corte Superior utilizou-se do fato do crédito tributário ter sido inscrito em dívida ativa antes da alienação, somada à inexistência de reserva patrimonial suficiente pelo sujeito passivo, o qual gera presunção de fraude à execução, tornando a boa-fé do adquirente irrelevante, porque a presunção do citado artigo do CTN é tratada como absoluta, exceto se o devedor reservou bens ou rendas suficientes ao pagamento integral da dívida.3 A decisão pode estar tecnicamente alinhada à jurisprudência tributária tradicional do STJ. Fato é que, o entendimento da Corte, pós LC 118/05, a inscrição em dívida ativa basta para configurar a presunção de fraude na alienação de bens pelo sujeito passivo. Entretanto, revela insuficiência sob a ótica informacional e sistêmica-registral. Esta situação traz algumas reflexões. O antagonismo sistêmico. Valorizou-se uma informação não integrada ao sistema registral imobiliário, com consequente enfraquecimento da confiança produzida pelo mesmo.4 O acórdão privilegia a proteção prioritária do fisco e faz prevalecer uma comunicação fiscal externa ao fólio real em detrimento da comunicação registral. O resultado de tal decisão traz consequências, não apenas ao caso em exame, mas pelo poder que a Corte tem, poderá balizar futuras decisões juntos aos Tribunais de Justiça dos estados, e em juízos de primeiro grau. Oras, todo o sistema registral imobiliário brasileiro se baseia na matrícula, e fato é que a matrícula estando formalmente "limpa", sem ônus ou quaisquer restrições impeditivas de alienação, deixa de ser considerada suficiente para orientar a conduta do adquirente diligente, atingindo o núcleo da publicidade registral. Marcelo Salaroli de Oliveira conceitua publicidade como: "consiste em assentos tecnicamente organizados, destinados a promover o conhecimento, por qualquer interessado, da situação jurídica dos bens imóveis, cujo efeito, no mínimo é a presunção inatacável de conhecimento".5A matrícula estava sem qualquer constrição. O decidido gera consequências.Transforma a dívida ativa em fator de risco extrarregistral, verdadeiro fator oculto de instabilidade dominial. Se a dívida tributária inscrita em dívida ativa não constava da matrícula, não estava vinculada ao CPF do alienante nas buscas feitas pelo comprador e aparecia apenas no CNPJ da atividade empresarial individual, o adquirente não tinha caminho informacional razoável para detectar o risco pelo sistema registral. A inscrição em dívida ativa pode ser suficiente para determinados efeitos tributários e processuais, mas sem sua averbação ou registro, conforme o caso, não se converte automaticamente em publicidade imobiliária. A publicidade fiscal e a publicidade registral pertencem a searas comunicativas diversas. A primeira organiza a relação entre fisco e sujeito passivo, já a segunda orienta terceiros no tráfego jurídico imobiliário. A ausência de integração entre esses circuitos é precisamente o ponto de tensão do caso em tela. Analisando o inteiro teor do acórdão, constata-se que o STJ não ignorou a lei 13.097/156, uma vez que a parte recorrente a invocou expressamente, mas não conheceu da matéria por ausência de prequestionamento, aplicando a súmula 211/STJ.7A crítica, portanto, não se dirige ao funcionamento técnico do filtro recursal em si mesmo, mas sim ao efeito sistêmico de sua incidência, uma vez que a controvérsia registral permanece sem decisão material, embora dela dependa a definição dos limites de confiança na matrícula imobiliária. Convém lembrar que a súmula citada é datada de 1998, muito antes da alteração legislativa que se impõe com os efeitos da concentração dos atos na matrícula (art. 54 e ss. da lei 13.097/15). Assim, a concentração dos atos na matrícula foi deslocada para um óbice processual, sem exame material de sua relação com citado artigo do CTN. Esse deslocamento, embora tecnicamente compreensível no plano recursal, merece reflexão acerca da questão registral, ou seja, pode uma informação fiscal não integrada ao fólio real produzir, contra terceiro diligente, efeitos práticos equivalentes aos de uma constrição publicizada? Nesse contexto, a inscrição em dívida ativa opera como fator oculto de instabilidade dominial, não como ônus real em sentido próprio, mas pelos efeitos que produz sobre a aquisição imobiliária. A situação remete à própria razão histórica da criação dos registros hipotecários brasileiros na década de 1840, voltados a combater a insegurança das hipotecas ocultas.8 Esta discordância não se dirige à existência da proteção do crédito tributário, mas à extensão da diligência exigida do adquirente, que deixa de consultar apenas a matrícula e as certidões usuais e passa a ter de reconstruir a vida fiscal, empresarial e patrimonial do alienante, inclusive por vínculos entre CPF e CNPJ que não aparecem no fólio real. Percebe-se que se for assim, terá o adquirente tarefa de consultar praticamente todos os fiscos estaduais também (senão os municipais, como débitos de ISSQN, por exemplo). A lei 13.097/15 foi criada justamente para reforçar a ideia de que situações jurídicas capazes de afetar a aquisição, a modificação ou a extinção de direitos reais sobre imóveis devem ser levadas à matrícula para serem oponíveis a terceiros. Sabe-se que ela não elimina todos os riscos extrarregistrários, mas altera a expectativa do mercado imobiliário, uma vez que o terceiro teve incremento em sua confiança no fólio real e, em tese, "deveria" poder confiar na matrícula, salvo hipóteses legalmente excepcionadas nos arts. 54 e seguintes da própria lei 13.097/15. Deve-se voltar a análise para outro viés, e não apenas sob o olhar protetivo-fiscal, mas na forma pela qual a informação fiscal é tornada oponível no tráfego imobiliário. No caso examinado, entretanto, o acórdão não decidiu materialmente se a regra da concentração da matrícula incide ou não sobre a fraude à execução tributária. A controvérsia foi conhecida apenas parcialmente, porque o STJ entendeu que o Tribunal de origem não havia examinado o art. 54 da lei 13.097/15, nem mesmo após os embargos de declaração, razão pela qual optou pela incidência da súmula 211/STJ.9 A disrupção sistêmica permanece, pois, se a pendência para a razão exclusiva do fisco prevalecer, mesmo quando o terceiro consultou a matrícula e nada encontrou, seria necessário explicitar, em decisão de mérito, por que a presunção tributária absoluta constituiria exceção à concentração matricial. Daí surgem alguns questionamentos. A regra da concentração da matrícula incide ou não sobre a fraude à execução tributária? O art. 185 do CTN constitui exceção material à lei 13.097/15? A inscrição em dívida ativa, sem averbação na matrícula, é comunicação suficiente para atingir terceiro adquirente de imóvel? A condição de empresário individual autoriza presumir que o comprador deveria pesquisar o CNPJ empresarial, mesmo quando a matrícula nada indicava? O adquirente terá de consultar todos os fiscos estaduais? Essas perguntas permanecem sem resposta ao questionamento relativo ao direito material, bem como ao direito formal. Em matéria tributária, essa é uma leitura conhecida, visto que, após a LC 118/05, a fraude prescinde da prova de má-fé do adquirente, conforme prevê o CTN. Contudo, no plano registral, a boa-fé não é apenas estado psicológico. Ela é também boa-fé informacional.10 A boa-fé do adquirente deve ser compreendida como dado sistêmico, e não apenas subjetivo, entretanto, a decisão parece tratá-la como dado e elemento subjetivo, irrelevantes. A presunção sistêmico-registral construída pelo direito registral imobiliário brasileiro está fundada na matrícula11. A legislação brasileira vem reforçando mecanismos de concentração, cognoscibilidade e confiança registral, aproximando a matrícula de uma fonte privilegiada de orientação do tráfego imobiliário.12 Se o estado organiza um sistema imobiliário, altera seguidamente a legislação para privilegiar os efeitos da concentração dos atos na matrícula e atribui fé pública às certidões, não pode, depois, afirmar que a informação decisiva estava em outro sistema, sem conexão registral. A boa-fé, nesse caso, deveria ser lida como confiança legítima na comunicação oficial produzida pela matrícula expedida pelo oficial de registro de imóveis. A confiança do adquirente não deve ser compreendida apenas como crença subjetiva, mas como expectativa jurídica por um meio formal de comunicação, estipulada pelo Códex Registral: a matrícula do registro de imóveis.13 O sistema, portanto, já dispõe de instrumentos aptos a traduzir a informação fiscal em comunicação registral, como averbações de constrição, indisponibilidade, penhora ou notícia da execução. Basta um comando do juízo às circunscrições ou comarcas imobiliárias, que, em caso de existência de bem imóvel registrado em nome da pessoa executada, será averbado tal situação, publicizando-a. Mesmo se não tiver imóvel algum em circunscrição ou comarca no Brasil, quando o executado adquirir um bem imóvel, esta constrição judicial será imediatamente averbada. Se tais mecanismos existem, a ausência de sua utilização não deveria ser transferida integralmente ao terceiro adquirente diligente.14 Pode-se argumentar que o empresário individual não possui personalidade jurídica distinta da pessoa física. Em termos patrimoniais, sim, pois não há separação patrimonial plena entre a pessoa natural e a atividade empresarial. Entretanto, reputamos que esse argumento não resolve a disrupção sistêmica informacional. Uma coisa é afirmar que o patrimônio pessoal responde pelas dívidas da atividade empresarial. Outra é dizer que o terceiro adquirente de imóvel, ao consultar uma matrícula sem ônus e certidões pessoais sem apontamentos, deve suportar a perda do bem por dívida inscrita apenas em referência ao CNPJ da atividade empresarial do alienante.15 Ressalta-se, nesta linha de raciocínio, a diferença entre responsabilidade patrimonial e oponibilidade informacional. A responsabilidade pode e deve existir; já a oponibilidade ao terceiro adquirente deve exigir publicidade registral adequada. No caso de imóvel, essa publicidade adequada passa pela consulta à matrícula, sobretudo pós lei 13.097/15. O que tal situação revelou? Uma disfunção sistêmica, porque preserva a autoridade formal do precedente tributário, e deixa sem exame material a incidência da concentração matricial. ______ 1 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (2. Turma). Recurso Especial n. 2.173.311/PE. Relatora: Ministra Maria Thereza de Assis Moura. Julgado em: 12 maio 2026. Publicado no DJEN/CNJ em: 15 maio 2026. 2 BRASIL. Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966. Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Código Tributário Nacional. Art. 185. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 27 out. 1966. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172compilado.htm. Acesso em: 3 jul. 2026; BRASIL. Lei Complementar n. 118, de 9 de fevereiro de 2005. Altera e acrescenta dispositivos à Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966 - Código Tributário Nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 9 fev. 2005. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp118.htm. Acesso em: 3 jul. 2026. 3 BRASIL. Supremo Tribunal Federal (Tribunal Pleno). Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 5.886/DF. Relator: Ministro Marco Aurélio; redator para o acórdão: Ministro Roberto Barroso. Julgado em: 9 dez. 2020. Diário da Justiça Eletrônico, Brasília, DF, 5 abr. 2021. 4 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (1. Seção). Recurso Especial n. 1.141.990/PR. Relator: Ministro Luiz Fux. Julgado em: 10 nov. 2010. Diário da Justiça Eletrônico, Brasília, DF, 19 nov. 2010. Tema 290/STJ. 5  OLIVEIRA, Marcelo Salaroli de. Publicidade registral imobiliária. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 15; 6  BRASIL. Lei n. 13.097, de 19 de janeiro de 2015. Dispõe, entre outras matérias, sobre a concentração dos atos na matrícula imobiliária. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 20 jan. 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13097.htm. Acesso em: 3 jul. 2026. 7 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 211. Inadmissível recurso especial quanto à questão que, a despeito da oposição de embargos declaratórios, não foi apreciada pelo tribunal a quo. Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, 1998; BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (2. Turma). Recurso Especial n. 2.173.311/PE, 2026. 8 BRASIL. Lei n. 317, de 21 de outubro de 1843. Fixa a despesa e orça a receita para os exercícios de 1843-1844 e 1844-1845. Art. 35. Cria o Registro Geral das Hipotecas. Coleção das Leis do Império do Brasil, Rio de Janeiro, 1843; BRASIL. Decreto n. 482, de 14 de novembro de 1846. Estabelece o regulamento para o Registro Geral das Hipotecas. Coleção das Leis do Império do Brasil, Rio de Janeiro, 1846. 9 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (2. Turma). Recurso Especial n. 2.173.311/PE, 2026; BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 211, 1998. 10 ALMEIDA, Carlos Ferreira de. Publicidade e teoria dos registros. São Paulo: Almedina, 2022. p. 223-225. 11 PASSARELLI, Luciano Lopes. Teoria geral da certidão imobiliária: o princípio da publicidade na era do registro de imóveis eletrônico. São Paulo: Quinta Editorial, 2010. 12 BRASIL. Lei nº 13.097, de 19 de janeiro de 2015. Arts. 54 e seguintes.   13 PASSARELLI, 2010. op. cit. p. 143 et seq. 14 BRASIL. Lei n. 13.097/2015, art. 54. 15 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (2. Turma). AgInt nos EDcl no Recurso Especial n. 2.124.039/PE. Relator: Ministro Marco Aurélio Bellizze. Julgado em: 13 ago. 2025. Publicado no DJEN em: 19 ago. 2025.