Ordem na Banca

O sócio preso na rotina que nunca libera tempo para estratégia

A rotina atrapalha o pensamento estratégico? Lara Selem ensina como organizar, priorizar e transformar planos em ação.

28/1/2026

Nenhum sócio começa o ano pensando: “Vou deixar minha estratégia para depois.”

Mas é exatamente isso que acontece, mês após mês, ano após ano.

A rotina jurídica tem um poder gravitacional.

Ela puxa o sócio para dentro de urgências, demandas, prazos, conflitos internos e microdecisões.

Esse movimento consome energia, foco e, principalmente, espaço mental.

O resultado é previsível:

O sócio trabalha sem parar, mas nunca tem tempo para pensar.

O escritório funciona, mas não evolui.

A estratégia existe, mas nunca amadurece.

Os planos aparecem, mas nunca se consolidam.

É o ciclo silencioso que aprisiona escritórios de todos os tamanhos.

A rotina não é o problema. É o único plano que existe.

Se a rotina domina tudo, é porque ela é a única estrutura disponível.

Sem método estratégico, a operação assume o comando.

Sem ritual estratégico, a reunião vira improviso.

Sem tempo reservado, o urgente invade o importante.

E sem visão, o escritório se torna escravo do dia.

O mais curioso é que isso ocorre não por falta de vontade, mas por falta de modelo mental.

O sócio sabe que deveria pensar mais estrategicamente.

Ele só não sabe quando - nem como - fazer isso sem que a operação desmonte.

A pergunta não é “Como criar tempo para estratégia?”.

A pergunta é “como impedir que o dia roube tudo?”.

O espaço para estratégia não vai aparecer espontaneamente na agenda.

Ela precisa entrar antes da rotina, com a mesma disciplina que o escritório tem para prazos.

E o único jeito de fazer isso funcionar para um sócio é dividir o pensamento estratégico em três elementos:

  1. Ambidestria,
  2. Sprints de 90 dias,
  3. Rituais semanais e mensais.

Sem isso, a rotina vence todas as batalhas.

Ambidestria: A engenharia que separa o que é gestão do que é sobrevivência.

O grande erro é acreditar que tudo tem a mesma importância.

Não tem.

A ambidestria organiza a energia em três horizontes claros:

Futuro 1 - Agora

Operação, prazos, equipe, problemas, demandas diárias.

Futuro 2 - Próximo período

Aprimoramento, modernização, novos serviços, reposicionamento.

Futuro 3 - Futuro

Tendências, hipóteses, oportunidades emergentes.

Quando o sócio opera sem essa lógica, tudo vira futuro 1.

E o escritório começa a morrer de presentismo: só enxerga o dia de hoje.

Com ambidestria, o sócio finalmente entende:

  • O que precisa de atenção imediata,
  • O que exige construção,
  • E o que pede investigação.

Isso reduz ansiedade e abre espaço mental real.

Sprints de 90 dias: O hack que destrava foco e execução

O escritório não precisa de mais disciplina.

Precisa de direção trimestral, simples e objetiva.

O sprint estratégico resolve porque:

  • Cabe na rotina;
  • Dá sensação de progresso real;
  • Não exige planejamento longo;
  • Entrega resultado rápido;
  • Cria responsabilidade clara.

O sócio passa a trabalhar com:

  • 3 objetivos;
  • 3 indicadores;
  • 3 entregas-chave;
  • 12 semanas de execução;
  • Rituais de acompanhamento.

A estratégia deixa de ser ideia e vira prática.

Rituais: A blindagem contra o caos

Sem rituais, tudo dissolve.

Estratégia vira intenção.

E intenção não muda escritório nenhum.

O sócio precisa de três rituais simples:

Ritual semanal

30 minutos para revisar o andamento dos objetivos do sprint.

Ritual mensal

1 hora para ajustar o radar de prioridades à luz dos sinais.

Ritual trimestral

Equacionar, decidir, priorizar e redesenhar o sprint.

Simples.

Elegante.

Executável.

A rotina deixa de engolir a estratégia.

O sócio não precisa de mais tempo.

Precisa de mais método.

A verdade é dura, mas libertadora:

Não existe falta de tempo para estratégia; existe falta de sistema que garanta tempo.

Quando o sócio cria:

  • Ambidestria,
  • Sprint,
  • Ritual,
  • Radar,
  • Hipóteses,
  • Foco trimestral,
  • Clareza de papéis.

Ele para de tentar “encaixar” estratégia na semana.

A estratégia passa a fazer parte do motor do escritório.

Escritórios que crescem não têm sócios menos ocupados.

Têm sócios menos dispersos.

É a dispersão, não o volume, que impede a evolução.

Sócios que adotam um sistema de pensamento estratégico conseguem trabalhar o mesmo que antes - só que com mais precisão, mais clareza e mais impacto.

A pergunta certa muda tudo:

“Minha agenda está me levando para onde eu quero que o escritório esteja daqui a 3 anos?”

Se a resposta for não, então a rotina está mandando.

E quando a rotina manda, o futuro nunca chega.

Colunista

Lara Selem é advogada, professora, escritora, conselheira consultiva, advisor e mentora especialista em Gestão Legal, Sociedades de Advogados e Planejamento Estratégico para a Advocacia. É membro da Comissão Nacional de Sociedades de Advogados do Conselho Federal da OAB. Foi presidente da Comissão Especial de Gestão, Empreendedorismo e Inovação do Conselho Federal da OAB (2019-2021). Participa ativamente do Comitê de Administração e Ética Profissional (CADEP) do Centro de Estudos de Sociedades de Advogados (CESA). Membro da Association of Legal Administrators (ALA) desde 2009. Coordenadora científica do MBA Internacional em Gestão de Escritório de Advocacia (Faculdade Baiana de Direito e Gestão). Autora de 20 obras sobre gestão de escritórios de advocacia.

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