Política, Direito & Economia NA REAL

O candidato “X” ganhou as eleições. E daí?

Inspirado em Tocqueville, Francisco Petros reflete sobre a eleição de 2026, polarização, produtividade e o desafio de transformar o Brasil além das urnas.

8/7/2026

Há uma advertência em A democracia na América que continua a assombrar as democracias modernas, especialmente nesses tempos de fake news e “inteligência artificial”. Tocqueville imaginou um tipo novo de servidão: não a tirania ostensiva, sanguinária, teatral, mas um poder tutelar, brando, minucioso, administrativo, que não quebra a vontade dos cidadãos de uma só vez - antes, a enfraquece todos os dias. Esse poder, diga-se, não precisa abolir eleições. Pode até celebrá-las! Pode convocar o povo às urnas, organizar campanhas, transmitir debates, divulgar pesquisas, assegurar a liturgia institucional e, depois, reconduzir a sociedade ao seu lugar habitual: o da expectativa passiva, da dependência organizada, da indignação episódica e da baixa responsabilidade republicana1.

É esse o perigo, digamos, “mais sofisticado”: a democracia continuar a funcionar como procedimento e, ao mesmo tempo, perder densidade como forma de vida pública. Há voto, mas há pouca deliberação. Há alternância, mas há pouca transformação. Há competição, mas há reduzida imaginação histórica. Há aparentes paixões políticas, mas pouca disciplina em torno de verdadeiros interesses nacionais. Há mobilização eleitoral, mas não necessariamente projeto de país. Um deserto de ideias e uma profusão de discursos. 

É nesse espírito que se deve formular a pergunta incômoda diante da eleição brasileira de 2026: o candidato X ganhou. E daí?

A pergunta não é, e nem poderia ser, cínica. É precisamente o contrário. É a pergunta de quem leva a democracia a sério demais para confundi-la com o espetáculo de sua própria repetição. Claro que importa quem vence. Importa se o vencedor respeita as instituições, se tem compromisso com a legalidade, se compreende a economia, se preserva liberdades, se honra a Constituição, se escolhe ministros competentes, se governa com decoro. Entretanto, a pergunta permanece: uma vitória eleitoral, por si só, altera a estrutura profunda de um país aprisionado por baixo crescimento, rigidez fiscal, patrimonialismo, corporativismo, corrupção, crime organizado, educação insuficiente, infraestrutura deficiente, baixa produtividade e reduzida inserção internacional?

Ou será que as eleições apenas redistribuem o comando de uma máquina que, há décadas, administra a frustração brasileira? A pergunta é explícita, mas o sentimento me parece verdadeiramente presente, mesmo que sublinarmente, nos dias de hoje pelos nossos lados.

A eleição de 2026 tende a se apresentar, outra vez, como disputa decisiva entre campos morais e políticos bem antagônicos. Cada lado dirá que representa a democracia, o povo, a responsabilidade, a justiça, a liberdade, a ordem, a inclusão, o futuro. Cada lado acusará o outro de ameaça existencial – e isso pode até mesmo ser verdade! O eleitor será convocado não apenas a escolher, mas a pertencer a um dos lados. Votará menos em um programa do que em uma identidade ou ainda menos em um plano de desenvolvimento do que em uma narrativa de salvação ou vingança.

A polarização tem essa função paradoxal na política atual – os EUA, por exemplo. Ela dramatiza a política como se tudo estivesse em jogo, mas frequentemente impede que o essencial entre em discussão. A política se converte em duelo simbólico. A economia, em apêndice instrumental. A educação, em promessa genérica. A inovação, em slogan e proteção de mercados. A ética pública, em arma retórica contra adversários. Enquanto isso, o país permanece diante de uma pergunta que não admite marketing: por que o Brasil, dispondo de tantas vantagens, cresce tão pouco, aprende tão mal, investe tão insuficientemente e desperdiça tanto? São perguntas singelas, mas bastante necessárias. 

O Brasil não é um país pobre de possibilidades, sejamos bem claros! É um país rico em oportunidades mal organizadas. Tem território continental, matriz energética limpa, biodiversidade extraordinária, agricultura competitiva, cultura admirada, povo trabalhador, criatividade empresarial, capacidade de adaptação, sentimento de felicidade e vocação para a convivência. Poucas sociedades reúnem tantos ativos naturais, humanos e simbólicos. No entanto, poucas parecem tão hábeis em converter potência em adiamento. Estamos realmente deitados em berço esplêndido.

Esse é o primeiro paradoxo nacional: o Brasil parece sempre pronto para dar certo, mas quase sempre encontra uma forma institucional de postergar esse encontro consigo mesmo. Vale até para o nosso futebol, tão ruim por aqui e tão comemorado em campos europeus, com nossos jogadores a desfilar graça e glória, enquanto aqui o show fica para juízes, VAR e CBF. 

Vilfredo Pareto falava da circulação das elites, um conceito nascido da intuição, mas absolutamente verdadeiro. Mudam os homens, permanecem certas estruturas de poder. A cada ciclo histórico, novas lideranças substituem antigas lideranças e novas coalizões ocupam o lugar de coalizões anteriores. As novas palavras dos discursos recobrem práticas antigas. A questão essencial é saber se a circulação das elites significa renovação substantiva ou simples rotação de ocupantes no mesmo edifício.2

No Brasil, a dúvida é absolutamente legítima. Presidentes se alternam. Partidos sobem e descem. Ministros entram e saem. Escândalos envelhecem. Novos escândalos nascem. Todavia, certas engrenagens sobrevivem com admirável vitalidade – permitam-me repetir mais uma vez: a apropriação privada do público, o orçamento como instrumento de sobrevivência parlamentar, o loteamento da administração, a proteção corporativa, a dependência de favores, a resistência à avaliação de desempenho, a baixa prioridade real da educação básica, a dificuldade de punir privilégios organizados e a facilidade de transferir custos difusos à sociedade.

Gaetano Mosca3 diria que toda sociedade é governada por uma minoria organizada. O problema, portanto, não é a existência de elites. Todas as democracias têm elites políticas, econômicas, burocráticas, intelectuais, judiciais, sindicais, empresariais e midiáticas. Ortega y Gasset observou na sua magistral obra A rebelião das massas4 que a decadência das sociedades derivava da decadência de suas elites: o problema é a qualidade dessas elites, sua abertura à renovação, sua submissão ao controle público e sua capacidade de pensar além do próprio ciclo de reprodução. Uma elite pode liderar uma nação, mas pode também parasitá-la com linguagem patriótica, não é mesmo?

Há, ainda, a lei de ferro da oligarquia. Organizações criadas em nome do povo tendem, com o tempo, a produzir dirigentes profissionais, burocracias internas, carreiras próprias, métodos de autopreservação e linguagens de legitimação. Partidos nascem como promessa, envelhecem como máquina. Movimentos nascem como indignação, envelhecem como estrutura. Causas nascem como energia moral, podem envelhecer como mercado de influência.

Por isso, a pergunta “quem ganhou?” deve ser imediatamente seguida por outra: “quem governará o vencedor”?

Governará o programa apresentado ao eleitor? Governará a coalizão parlamentar? Governarão as corporações orçamentárias? Governarão os grupos econômicos com acesso privilegiado? Governarão as burocracias permanentes? Governarão os donos de emendas parlamentares? Governarão as redes regionais de dependência? Governará o medo da impopularidade? Governará a próxima eleição? Acho que o eleitor já perdeu a inocência e quer saber essas respostas. 

A Presidência da República, no imaginário brasileiro, ainda conserva algo de trono plebiscitário. O presidente eleito é tratado ora como salvador, ora como catástrofe. O Brasil real é mais viscoso do que a liturgia presidencial admite. O eleito herda um Estado caro, rígido, fragmentado e frequentemente capturado. Herda um Congresso que se fortaleceu não como centro programático de deliberação, mas como poder distributivo sobre parcelas crescentes do orçamento público. Herda uma federação desigual, uma máquina administrativa heterogênea, uma economia de baixa produtividade, um sistema educacional que falha na base, uma infraestrutura insuficiente e uma sociedade exausta de promessas. Não escrevo sobre nada que não seja visível. 

A democracia como método competitivo de seleção de lideranças já preocupava Schumpeter5, o famoso pensador da economia. O povo não governa diretamente. De fato, escolhe, periodicamente, entre elites concorrentes. Essa formulação é desconfortável porque reduz o romantismo (ou o fracasso) democrático. A eleição não é a manifestação pura de uma vontade geral iluminada. É um mecanismo civilizado de disputa pelo comando do Estado. Importa muito. Porém, não basta!

O erro brasileiro é transformar a eleição em clímax. A noite da apuração é tratada como se fosse o final da história. Na verdade, é apenas o início da prova. A pergunta republicana começa depois do resultado: que interesses serão contrariados? Que privilégios serão enfrentados? Que gastos serão revistos? Que prioridades serão hierarquizadas? Que mediocridades serão recusadas? Que reformas serão sustentadas quando deixarem de render aplausos? Vale dizer que a mudez diante dessas questões é também uma resposta porquanto a realidade é mais forte que mil palavras e aparecerá inexoravelmente.  

A economia, nesse ponto, deixa de ser assunto de especialistas e se torna problema moral da República.

O Brasil vive um nó fiscal que não pode ser tratado como obsessão de financistas, mas como fenômeno tipicamente político. Dívida alta, juros elevados, déficits recorrentes e despesa obrigatória crescente não são abstrações contábeis. São mecanismos concretos de confisco do futuro. Quando o orçamento é consumido por rigidez, indexação, previdência, folha, benefícios mal calibrados, emendas, subsídios, renúncias e juros, o país perde capacidade de investir em infraestrutura, ciência, segurança, defesa, saneamento, inovação e educação de qualidade. Estamos nessa há décadas. 

Dados recentes indicam a gravidade dessa restrição: em maio de 2026, a dívida bruta brasileira alcançou 81,1% do PIB, e a conta de juros em doze meses chegou a 8,48% do PIB! O próprio Tesouro advertiu que, sem novas medidas, as metas fiscais se tornam inviáveis a partir de 2028, pressionadas sobretudo pelo crescimento das despesas obrigatórias. O impasse virá no próximo governo. 

Isso significa que qualquer vencedor de 2026 governará dentro de uma jaula fiscal se nada realmente for feito. Poderá pintar a jaula de vermelho, azul, verde, amarelo, liberal, nacional-desenvolvimentista, social-democrata ou conservadora. Entretanto, continuará sendo jaula se a estrutura fiscal permanecer incompatível com crescimento sustentado.

O país fala muito de responsabilidade fiscal, mas frequentemente evita a pergunta mais difícil: responsabilidade fiscal para quê? Apenas para acalmar mercados? Apenas para reduzir juros? Apenas para cumprir metas? Ou para reconstruir a capacidade do Estado de escolher o futuro? O que realmente se deseja? Se não sairmos desse falatório fiscal-mercadista e “fiscal-emendista” do Congresso, a crise está endereçada. O resto é tergiversação eleitoral. 

A boa política fiscal não é a política da tesoura cega. É a política da prioridade. Cortar mal pode destruir capacidades públicas. Gastar mal pode destruir o futuro. O Brasil conhece os dois erros. Já sacrificou investimento em nome do ajuste e já expandiu gasto corrente em nome da justiça social sem produzir transformação estrutural equivalente. O drama brasileiro não está apenas no tamanho do Estado, mas em sua baixa capacidade de converter gasto em civilização.

Há, portanto, uma pergunta que nenhum candidato deveria evitar responder: qual gasto público emancipa e qual gasto apenas fideliza clientelas?

Essa é a fronteira, digamos, “ética” da economia brasileira. Política social que reduz vulnerabilidade, educa, qualifica, protege e abre portas é investimento republicano. Política social que apenas administra dependência, sem porta de saída, sem avaliação, sem educação, sem inserção produtiva e sem mobilidade, aproxima-se do despotismo suave tocquevilliano: ampara, mas infantiliza, protege, mas captura, distribui, mas não emancipa. Precisamos de uma revisão séria das políticas públicas e isso inclui uma vasta agenda política que pode ser incompatível com a conformação de nossas elites que serão eleitas. 

A crise do crescimento é ainda mais profunda. O Brasil não está apenas diante de uma dificuldade conjuntural. Está diante de uma armadilha. Pode-se chamá-la de “cilada do crescimento”. Não é simplesmente a velha “armadilha da renda média”, embora dialogue com ela. A cilada brasileira é mais específica: o país cresce o suficiente, em alguns períodos, para adiar reformas. Mas, cresce pouco demais para mudar de patamar histórico. Cresce por consumo, crédito, commodities, gasto público, bônus demográfico residual ou ciclos externos. Não sustenta crescimento por produtividade, inovação, educação, tecnologia, competição e integração internacional. Ou seja, estamos fadados a sermos o país do atraso se continuarmos nessa toada. 

É o crescimento que anestesia sem transformar.

A economia avança por alguns trimestres, e a política se declara absolvida. A arrecadação melhora, e a urgência fiscal perde dramaticidade. O emprego reage, e a baixa produtividade desaparece do debate. O consumo cresce, e a educação volta ao rodapé. O câmbio ajuda exportadores, a safra salva o PIB, a China compra commodities, e o país confunde vento favorável com motor próprio. O Brasil cresce porque está ficando mais produtivo ou apenas porque está mobilizando, de tempos em tempos, seus amortecedores naturais? A minha resposta é a segunda parte da pergunta. 

Segundo projeções recentes, organismos internacionais esperam crescimento modesto para o Brasil em 2026: o Banco Mundial projeta 1,6%, enquanto o FMI indicava 1,9% em seu painel de dados e a OCDE também apontava desaceleração para 1,6% antes de recuperação parcial em 2027. Não são números de catástrofe. E exatamente por isso são politicamente perigosos. A catástrofe mobiliza. A mediocridade acomoda.

A cilada do crescimento é a normalização da mediocridade. É aceitar 2% ao ano como destino. É celebrar pequenas acelerações como se fossem arrancadas históricas. É confundir estabilidade com estagnação administrada. É acreditar que um país continental, jovem em energia social, rico em natureza e capaz de produzir ciência, alimentos, energia e cultura para o mundo deva contentar-se com voo baixo.

A pergunta, então, deve ser brutal: o Brasil quer ser uma potência moderna e pacífica ou apenas administrar sua própria grandeza desperdiçada? Essa é a pergunta das eleições! Será respondida, não tenhamos dúvidas!

A armadilha da renda média, analisada pelo Banco Mundial no World Development Report 2024, descreve países que conseguem sair da pobreza, mas não conseguem dar o salto para economias de alta renda, intensivas em inovação, produtividade e sofisticação tecnológica. O relatório enfatiza que a transição exige mais do que investimento: exige absorção de tecnologia e, depois, inovação própria. O Brasil está exatamente diante dessa encruzilhada. Já não pode competir apenas com mão de obra barata – coisa de décadas. Ainda não compete, de modo amplo, pela fronteira do conhecimento. Tem ilhas de excelência, mas não uma estratégia nacional de produtividade.

A consequência é cruel: o país fica caro antes de ficar rico e complexo antes de ficar eficiente. Está excessivamente regulado antes de ficar produtivo e litigioso antes de ficar competitivo. Está deveras envelhecido institucionalmente antes de completar sua modernização social. Sejamos claros para avaliar essa realidade política! 

A educação é o centro dessa tragédia. Nenhum país entra na economia do conhecimento tratando a escola básica como ornamento eleitoral. Nenhum país lidera inteligência artificial, biotecnologia, energia limpa, defesa cibernética, engenharia avançada, semicondutores, agritech e indústria sofisticada com massas de jovens que não dominam leitura, matemática e ciências. A retórica da inovação sem educação básica é apenas vaidade de seminário. No estado mais rico da federação, a enorme inovação foram as escolas cívico-militares. É isso que queremos? 

O Brasil tem universidades importantes, centros de pesquisa respeitáveis, empresas inovadoras e empreendedores notáveis - essa energia está distribuída em ilhas. Falta ponte. Falta escala. Falta coordenação. Falta demanda tecnológica sofisticada por parte de cadeias produtivas nacionais. Falta continuidade. Falta a transformação do conhecimento acumulado em política de Estado.

E aqui se abre outro problema: o desprezo pelo conhecimento. O Brasil discute muito, mas aprende pouco institucionalmente. Políticas públicas raramente são avaliadas com seriedade. Experiências bem-sucedidas não se expandem com disciplina. Fracassos não produzem vergonha suficiente. O improviso é exaltado como “criatividade”. A falta de planejamento é disfarçada de “flexibilidade”. A intuição do líder pesa mais do que a evidência. O grupo político prefere a fidelidade ao mérito. A burocracia teme o erro mais do que busca o acerto. O debate público transforma complexidade em meme. Infelizmente, a mídia transita em meio a esse carnaval se botar o espírito crítico em funcionamento. 

Que país do século XXI pode prosperar desprezando conhecimento acumulado? A pergunta me parece razoável, não?

A infraestrutura revela a mesma deformação. O Brasil natural é abundante - o Brasil construído é insuficiente. Produzimos alimentos em escala global, mas ainda convivemos com gargalos logísticos que encarecem a circulação da riqueza. Temos potencial de energia limpa, mas não necessariamente redes, regulação e política industrial à altura desse potencial. Temos cidades vibrantes, mas marcadas por mobilidade ruim, saneamento desigual, habitação precária e violência cotidiana. Temos mercado interno relevante, mas integração não-competitiva em cadeias globais de valor.

A eleição decide quem falará em nome do país. Decidirá quem reconstruirá suas condições materiais de produtividade? A pergunta está em aberto.

Democracias podem preservar formas pluralistas enquanto decisões relevantes se concentram em círculos restritos de poder. A democracia formal pode conviver com concentração material de influência. Robert Dahl6, mais moderado, preferiu falar em poliarquia: regimes com eleições, competição e liberdades, mas atravessados por desigualdades reais de acesso, voz e influência. Peter Bachrach e Morton Baratz7 acrescentaram uma ideia decisiva: o poder não está apenas em decidir, mas está também em impedir que certos temas entrem na agenda. Quem irá impedir? O próximo presidente? 

Esse talvez seja o ponto mais importante para compreender o Brasil de 2026. O poder não se manifesta apenas no que a eleição discute. Manifesta-se, sobretudo, no que a eleição evita discutir.

Quem falará seriamente sobre produtividade?

Quem dirá que não há futuro sem reforma profunda da educação básica?

Quem enfrentará a captura do orçamento?

Quem explicará que gasto público sem avaliação é uma forma de irresponsabilidade moral?

Quem terá coragem de dizer que crescimento sustentado exige competição, inovação, abertura inteligente, segurança jurídica, infraestrutura, ciência aplicada e estabilidade regulatória?

Quem afirmará que preservar recursos naturais não é obstáculo ao desenvolvimento, mas sua condição de legitimidade no século XXI?

Quem dirá que política externa não pode ser turismo ideológico, mas estratégia de inserção econômica, tecnológica e ambiental?

Quem dirá que a transição energética pode ser a maior oportunidade brasileira desde a industrialização - e também mais uma oportunidade perdida?

Quem dirá que felicidade nacional não substitui produtividade?

A política brasileira tem enorme competência para produzir antagonismos e notável incompetência para produzir consensos estratégicos. Discute-se intensamente o adversário, porém discute-se pouco “o século”. O país entra em transe a cada eleição, mas sai dela sem pacto de longo prazo. Tudo parece urgente, exceto o essencial. Tudo parece inegociável, exceto o futuro. Ironias à parte é algo muito grave.

O clientelismo é parte desse mecanismo. Ele transforma cidadania em dependência personalizada. O patrimonialismo transforma o Estado em extensão de grupos. O corporativismo transforma interesses particulares em cláusulas morais. A fragmentação partidária transforma governabilidade em mercado. E a polarização fornece a cobertura simbólica perfeita: enquanto os campos se acusam de destruir a República, a República vai sendo discretamente apropriada por dentro.

Essa é a ironia amarga: o conflito ideológico pode funcionar como cortina de fumaça para consensos predatórios. Em público, guerra moral. Em privado, acomodação orçamentária. Em público, defesa do povo. Em privado, preservação de vantagens. Em público, indignação contra privilégios. Em privado, exceções, regimes especiais, carreiras protegidas, fundos, emendas, subsídios, créditos dirigidos, barreiras de entrada.

Há, portanto, uma crise ética anterior à crise econômica. O Brasil não sofre apenas por falta de dinheiro. Sofre por falta de espírito republicano. A República exige a separação entre mandato e propriedade, partido e Estado, interesse público e conveniência eleitoral, política social e clientela, regulação e captura, representação e negócio. Quando essas fronteiras se apagam, a democracia continua votando, mas a República começa a adoecer.

A pergunta “o candidato X ganhou, e daí?” é uma tentativa de romper a hipnose eleitoral. Ela recusa a fantasia de que a vitória de um campo resolve o que a estrutura política reproduz. Recusa também a equivalência preguiçosa segundo a qual todos são iguais. Não são! Há diferenças relevantes entre governos, partidos, programas e lideranças. Diferenças relevantes não bastam quando a estrutura que absorve os vencedores é mais forte do que sua disposição transformadora.

A questão é saber se o vencedor será autor de um novo ciclo ou gerente sofisticado da continuidade.

Porque o Brasil, em 2026, não precisa apenas de um presidente. Precisa de uma refundação de prioridades. Precisa trocar a política da presença pela política do resultado. Precisa abandonar a obsessão distributiva de curto prazo e construir uma estratégia de produtividade socialmente inclusiva. Precisa tratar a educação básica como infraestrutura da liberdade. Precisa fazer da ciência e da tecnologia não departamentos, mas linguagem central do desenvolvimento. Precisa transformar energia limpa em vantagem industrial. Precisa proteger seus biomas com inteligência econômica e soberania institucional. Precisa inserir-se no mundo não como espectador ressentido, mas como país indispensável.

O mundo não esperará o Brasil resolver suas ambiguidades. A reorganização global já está em curso: inteligência artificial, minerais críticos, transição energética, segurança alimentar, biotecnologia, defesa digital, cadeias produtivas regionalizadas, disputas comerciais e competição geopolítica. O Brasil poderia ser protagonista em muitas dessas frentes. Logicamente protagonismo não nasce de autoestima. Nasce de capacidade efetiva. E capacidade exige escolhas. Escolhas exigem renúncias. Renúncias exigem liderança. Liderança exige coragem para desagradar.

A eleição de 2026 terá sentido histórico se produzir mais do que vitória. Terá sentido se for capaz de inaugurar uma conversa adulta sobre os limites do modelo brasileiro de reprodução política e econômica. Caso contrário, será apenas mais uma estação na longa viagem nacional entre esperança e acomodação.

Tocqueville temia a sociedade que troca liberdade por tutela. O Brasil corre risco um pouco diferente: trocar transformação por alternância, cidadania por torcida, projeto nacional por administração de clientelas, crescimento sustentado por ciclos curtos de alívio. Não é o despotismo brutal. É a domesticação gradual das expectativas.

O candidato X ganhou. Muito bem.

Agora começa a única pergunta que importa: ele governará o país que existe ou terá coragem de construir o país que ainda não ousamos ser?

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1 TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

2 PARETO, Vilfredo. Tratado de sociologia geral. São Paulo: Ática, 1984. 

3 MOSCA, Gaetano. A classe dirigente. Brasília: UnB, 1985. N.A.: Gaetano Mosca foi um jurista, cientista político e sociólogo italiano, nascido em 1858 e morto em 1941, considerado um dos fundadores da teoria das elites. Ajudou a compreender por que eleições podem mudar governantes sem necessariamente alterar a estrutura profunda do poder.

4 ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

5 SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

6 DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Edusp, 1997  

7 BACHRACH, Peter; BARATZ, Morton S. Two Faces of Power. The American Political Science Review, Washington, v. 56, n. 4, p. 947-952, 1962. N.A.: Aplicado ao artigo sobre a eleição brasileira, Bachrach e Baratz ajudam a dizer algo muito forte: a democracia pode estar funcionando formalmente, com eleições, partidos e competição, mas ainda assim deixar fora da agenda os temas decisivos - produtividade, qualidade do gasto público, privilégios corporativos, educação básica, inovação, reforma do Estado, inserção internacional e crescimento sustentável. Em termos simples: não basta perguntar quem ganhou a eleição; é preciso perguntar quais temas o sistema político permite que sejam realmente discutidos.

Colunista

Francisco Petros Advogado, especializado em direito societário, compliance e governança corporativa. Também é economista e MBA. No mercado de capitais brasileiro dirigiu instituições financeiras e de administração de recursos. Foi vice-presidente e presidente da seção paulista da ABAMEC – Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais e Presidente do Comitê de Supervisão dos Analistas de Investimento. É membro do IASP - Instituto dos Advogados de São Paulo e do Corpo de Árbitros da B3, a Bolsa Brasileira, Membro Consultor para a Comissão Especial de Mercado de Capitais da OAB – Nacional. Atua como conselheiro de administração de empresas de capital aberto e fechado.

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