Durante anos, a inteligência artificial foi tratada na advocacia como um tema distante. Ora romantizada, ora demonizada. Entre previsões de substituição em massa e discursos sobre o fim das carreiras jurídicas, perdeu-se uma pergunta mais simples e honesta: o que a IA já está fazendo, hoje, dentro dos escritórios?
A resposta é menos dramática e mais interessante. A inteligência artificial não está substituindo advogados. Está reorganizando a forma como advogados trabalham.
Da retórica à prática
O debate público sobre IA jurídica costuma oscilar entre dois extremos: o entusiasmo acrítico e o medo institucional. No cotidiano da advocacia, porém, a experiência tem sido outra. A adoção real acontece de maneira incremental, quase silenciosa, impulsionada por uma necessidade antiga da profissão: lidar com volume sem sacrificar qualidade.
A advocacia contemporânea, especialmente em áreas de contencioso de massa, opera sob uma pressão permanente de escala. Milhares de processos, prazos simultâneos, bases documentais extensas e clientes cada vez mais orientados por dados criaram um cenário em que produtividade deixou de ser diferencial e passou a ser requisito mínimo.
Nesse contexto, a inteligência artificial não surge como substituta do raciocínio jurídico, mas como amplificadora da capacidade humana de análise.
IA como infraestrutura cognitiva
Uma forma mais adequada de compreender o fenômeno é tratar a IA como uma nova camada de infraestrutura intelectual da advocacia. Algo semelhante ao que os sistemas de pesquisa jurisprudencial representaram no início dos anos 2000.
Assim como ninguém hoje romantiza a pesquisa manual em bibliotecas, é provável que, em poucos anos, certas tarefas jurídicas repetitivas pareçam anacrônicas sem apoio de automação inteligente.
Entre os usos mais consistentes já observados estão a leitura estruturada de petições e decisões, a identificação de padrões argumentativos, a triagem de documentos em grandes volumes, o apoio à redação técnica com controle de coerência interna e a análise comparativa entre peças processuais.
Nenhuma dessas aplicações elimina o advogado. Todas, porém, deslocam o foco da atuação. Menos tempo em tarefas mecânicas, mais tempo em estratégia.
O impacto real: Menos operacional, mais estratégico
Talvez a maior transformação provocada pela IA não esteja na velocidade, mas na natureza do trabalho jurídico. Ao reduzir o esforço cognitivo dedicado a atividades repetitivas, a tecnologia empurra o profissional para uma zona mais nobre da atuação: interpretação, decisão e responsabilidade.
Isso se reflete diretamente na qualidade das entregas. Escritórios que utilizam IA de forma madura relatam ganhos que vão além da produtividade. Há maior consistência argumentativa, padronização de linguagem institucional e redução de erros materiais, elementos que impactam diretamente risco e reputação.
Existe, portanto, um deslocamento relevante. A vantagem competitiva deixa de estar apenas na capacidade de produzir mais peças e passa a residir na capacidade de pensar melhor sobre elas.
O risco não está na IA, está no uso imaturo
Se a adoção responsável da inteligência artificial traz ganhos evidentes, o uso superficial pode produzir o efeito inverso. A crença de que a IA resolve sozinha problemas jurídicos complexos é hoje um dos principais fatores de risco operacional.
Ferramentas generativas não possuem compromisso intrínseco com verdade factual ou precisão jurídica. Sem curadoria humana, podem reproduzir erros com aparência de sofisticação técnica, um fenômeno especialmente perigoso em um ambiente profissional baseado em confiança e responsabilidade.
Por isso, a maturidade no uso da IA jurídica passa, necessariamente, por três pilares: governança, validação humana e responsabilidade institucional.
Governança significa definir claramente onde a tecnologia pode e onde não pode ser utilizada. Validação humana significa manter o advogado como última instância decisória. Responsabilidade institucional significa compreender que delegar tarefas não significa delegar deveres éticos.
A inteligência artificial não altera o regime de responsabilidade do advogado. Ela apenas amplia o conjunto de ferramentas disponíveis.
O novo perfil do advogado
A difusão da IA também redesenha competências valorizadas no mercado jurídico. Conhecimento técnico permanece essencial, mas passa a conviver com novas habilidades: pensamento sistêmico, capacidade de estruturar problemas, domínio de fluxos de trabalho e senso crítico tecnológico.
Curiosamente, o diferencial não está em saber programar, mas em saber perguntar. Profissionais que conseguem traduzir problemas jurídicos em estruturas lógicas claras tendem a extrair mais valor das ferramentas disponíveis.
Isso explica por que a adoção bem-sucedida de IA não tem sido liderada apenas por especialistas em tecnologia, mas por advogados com forte visão operacional e estratégica.
Uma mudança silenciosa e irreversível
Ao contrário de outras ondas tecnológicas que chegaram à advocacia por imposição externa, a inteligência artificial está sendo incorporada de dentro para fora. São os próprios escritórios, pressionados por eficiência e competitividade, que vêm puxando essa transformação.
Esse caráter orgânico talvez explique por que a mudança ainda não se reflete plenamente no discurso público da profissão. Nos bastidores, porém, ela já é perceptível. Fluxos redesenhados, equipes híbridas, novos critérios de avaliação de desempenho e uma crescente integração entre direito, dados e tecnologia.
Não se trata de uma ruptura repentina, mas de uma reconfiguração progressiva do modo de fazer advocacia.
Conclusão: Ferramenta, não protagonista
A inteligência artificial não inaugura uma era pós-advogado, mas inaugura uma advocacia menos artesanal. O centro da profissão continua sendo humano. Julgamento, prudência, ética e responsabilidade permanecem insubstituíveis.
O que muda é o entorno.
Ao assumir tarefas operacionais e ampliar a capacidade analítica dos profissionais, a IA tende a reposicionar o advogado em um lugar mais estratégico dentro da cadeia de valor jurídica. Menos executor de rotinas, mais arquiteto de soluções.
No fim, talvez a pergunta mais relevante não seja se a inteligência artificial transformará a advocacia, porque isso já está em curso. A pergunta é como cada profissional escolherá se posicionar diante dessa transformação.
Entre o ceticismo paralisante e o entusiasmo ingênuo, existe um caminho mais produtivo: o da adoção crítica, responsável e consciente.
É nesse espaço que a advocacia do presente está sendo construída.