A transformação digital mudou profundamente a forma como a sociedade se informa, se comunica e forma opinião. Em um ambiente marcado por excesso de informação, disputas por atenção, inteligência artificial e desinformação, o jornalismo profissional se torna ainda mais necessário.
A avaliação foi feita por especialistas durante o painel "Informação em transformação: jornalismo e comunicação no mundo digital", realizado no XIV Fórum de Lisboa.
Mediado pela advogada Paula Mendes, a mesa foi composta por Felipe Seligmann, Flávio Ferreira de Lara Resende, Lara Monteiro, Lilian Tahan, Miguel Matos e Marcelo Lacerda.
Credibilidade em meio à velocidade
Flávio Lara Resende, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e conselheiro do Conselho Consultivo da Anatel, afirmou que a informação hoje circula em tempo real, em múltiplas plataformas, disputando atenção a cada segundo. Segundo ele, redes sociais, plataformas digitais e IA ampliaram o acesso, a diversidade de vozes e a velocidade da circulação das notícias, mas também trouxeram desafios relevantes.
"Vivemos uma era marcada pelo excesso de informação, pela desinformação organizada e pela erosão da confiança pública."
Para Flávio, muitas vezes a velocidade passou a valer mais do que a verificação, e o engajamento mais do que a responsabilidade editorial. Nesse cenário, destacou que rádio e televisão seguem como referências de credibilidade para milhões de brasileiros, com presença em pequenas cidades, comunidades, estradas e momentos de emergência.
O dirigente defendeu que o desafio atual não é escolher entre o tradicional e o digital, mas integrar os dois mundos.
"O futuro da comunicação não será construído apenas por algoritmos, será construído também por instituições capazes de gerar confiança."
Adaptação aos novos formatos
Lilian Tahan, CEO do Grupo Metrópoles de Comunicação, abordou as novas formas de consumir informação. "Não é o fato de consumirem mais ou menos; a diferença é a mudança cultural. O jornalismo em papel continua sendo relevante, mas não é mais a forma como as pessoas consomem informação."
É neste contexto de adaptação que os veículos de comunicação lidam, destacou. "Se as pessoas querem informações mais dinâmicas, precisamos estar preparados para isso".
"Não existe medo da transformação, existe adaptação."
Novo público
Miguel Matos, advogado e criador do portal jurídico Migalhas, também ressaltou a importância da curadoria jornalística em um ambiente no qual todos podem produzir conteúdo.
Ele lembrou que o Migalhas nasceu como veículo 100% digital há quase 26 anos e acompanhou mudanças profundas no perfil do público jurídico e na forma de consumo de informação.
Segundo Miguel, o público do Direito se renovou com o aumento do número de faculdades e de advogados, o que alterou a comunicação no setor.
Ainda assim, destacou que o público jurídico mantém características próprias: cerca de metade da audiência do Migalhas acessa o conteúdo pelo computador, diferentemente de portais em que o consumo pelo celular é predominante.
Miguel também alertou para dois efeitos recentes da tecnologia no campo jurídico: o possível aumento expressivo de ações judiciais com o uso de IA para elaboração de petições e o crescimento de ordens de remoção de conteúdo jornalístico. Para ele, esse movimento preocupa e pode representar retrocesso à liberdade de informação.
IA, busca e remuneração de conteúdo
Marcelo Lacerda, diretor de Relações Governamentais do Google Brasil, afirmou que a forma de acesso à informação está mudando rapidamente. Segundo ele, os usuários passaram a fazer buscas mais intuitivas, multimodais e complexas, impulsionadas pela inteligência artificial.
Ele citou que uma em cada seis buscas já utiliza voz ou imagem e que as buscas por imagem crescem cerca de 40% ao mês. Para Lacerda, a busca deixou de ser apenas uma combinação de palavras-chave e lista de links, passando a responder a perguntas mais longas e específicas.
O representante do Google afirmou que a empresa vê o jornalismo de credibilidade e economicamente sustentável como benéfico para a sociedade, a democracia e os negócios. Disse ainda que o objetivo da plataforma é atuar como ponte entre produtores de conteúdo e usuários, e não reter o público em um ambiente fechado.
Lacerda defendeu que o desenvolvimento tecnológico deve passar pelo uso autorizado e remunerado de conteúdos jornalísticos. Segundo ele, o Google mantém parcerias comerciais com mais de 3 mil organizações jornalísticas no mundo e mais de 170 publishers no Brasil.
Modelo de negócio
Felipe Seligmann, co-CEO do JOTA, afirmou que não é possível discutir a transformação do jornalismo sem tratar do modelo de negócio. Segundo ele, quando a remuneração depende apenas de acesso e alcance, as redações tendem a produzir conteúdos voltados ao maior número possível de pessoas.
No entanto, para veículos especializados, esse não é necessariamente o caminho. Para ele, "falar com todo mundo" pode significar "falar com ninguém".
Seligmann também chamou atenção para a dependência dos veículos em relação aos canais de distribuição. Segundo ele, no início, grande parte do tráfego vinha das redes sociais; hoje, a busca tem papel central, mas esse cenário também deve mudar com a IA generativa. Diante disso, defendeu a construção de canais diretos com o público, como newsletters, menos dependentes de algoritmos de plataformas.
Comunicar é cuidar
Lara Monteiro, diretora institucional da Redevida de Televisão, afirmou que comunicar é também cuidar do público. Segundo ela, a televisão continua sendo companhia e fonte de credibilidade, especialmente para pessoas mais velhas. Lara destacou que 91% dos telespectadores com 60 anos ou mais ainda assistem TV regularmente, embora também consumam informação pela internet e pelo celular.
Para ela, o fato de "todo mundo virar publisher" aumentou a preocupação com a origem e a qualidade da informação. Nesse contexto, defendeu o papel da curadoria humana e da responsabilidade editorial.
Lara afirmou que a Redevida busca "comunicar com rosto", ou seja, com comunicadores reconhecidos pelo público. Também destacou que não é a tecnologia que define o que entra no jornal, mas uma equipe responsável, com nome, sobrenome e direção editorial.