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Migração de haitianos ao Brasil cresceu 75% em 2025; entenda motivos

Em entrevista ao Migalhas, representante da OIM, da ONU, analisa alta nas entradas e aponta mudanças no perfil recente do fluxo migratório.

19/6/2026
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Após 52 anos fora da Copa do Mundo, o Haiti voltará ao torneio e terá o Brasil como adversário na fase de grupos. Fora dos gramados, porém, outro movimento envolvendo o país caribenho chama atenção: a entrada de haitianos em território brasileiro cresceu 79% em 2025, na comparação com 2024, e acelerou no início de 2026.

Dados do Sistema de Tráfego Internacional mostram que foram registradas 17.589 entradas de nacionais haitianos no Brasil em 2025, contra 9.835 no ano anterior.

Em entrevista ao Migalhas, Caio Serra, assistente de projetos da OIM, Agência da ONU para as Migrações, afirma que a alta recente está relacionada à permanência da crise no Haiti, ao endurecimento das rotas migratórias para países do Norte Global e, principalmente, à tentativa de reunião familiar por parte de haitianos que já têm parentes estabelecidos no Brasil.

Dados

Os dados do Sistema de Tráfego Internacional (STI/PF/MJSP), via DAMIGRA BI/OBMigra, indicam uma retomada expressiva da entrada de haitianos no Brasil em 2025 e, sobretudo, no início de 2026.

Em 2024, foram registradas 9.835 entradas de nacionais haitianos no país. No ano seguinte, o número subiu para 17.589, crescimento de aproximadamente 79% em um ano.

A alta foi puxada especialmente pelo segundo semestre de 2025, com destaque para novembro, quando houve 2.825 entradas, e dezembro, com 3.536 - o maior volume mensal da série apresentada.

Já em 2026, apenas nos três primeiros meses, foram contabilizadas 7.888 entradas. O número chama atenção porque, em apenas um trimestre, o total já corresponde a cerca de 80% de todo o registrado em 2024.

A série sugere, portanto, uma intensificação recente do fluxo de nacionais haitianos para o Brasil.

Visto humanitário

Segundo Caio Serra, a retomada ocorre sobre uma relação migratória já consolidada ao longo da última década e meia.

Após o terremoto que devastou o Haiti em janeiro de 2010, seguido por surtos de cólera, aumento da pobreza e agravamento da violência, a crise já existente no país caribenho se acentuou.

Com a atuação da ONU no Haiti, o Brasil passou a figurar como um dos destinos possíveis para nacionais haitianos em busca de trabalho, reorganização familiar e reconstrução de projetos de vida.

Uma das principais respostas institucionais brasileiras ao deslocamento haitiano foi a criação, em 2012, do visto por razões humanitárias. A medida buscou regularizar a entrada e a permanência de nacionais do Haiti, reconhecendo o agravamento das condições de vida no país de origem.

Caio lembra que o protagonismo brasileiro na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, a Minustah, ajudou a criar um vínculo entre os dois países.

A partir desse contexto, segundo ele, o visto de acolhida humanitária abriu uma via regular de entrada no Brasil.

Ele ressalta que a medida surgiu ainda sob a vigência do estatuto do estrangeiro, norma marcada por uma lógica mais associada à segurança nacional. Posteriormente, avalia, a experiência com haitianos serviu de referência para a lei de migração de 2017, de orientação mais vinculada à proteção de direitos humanos.

Reunião familiar e novas rotas

Para o especialista, a alta recente das entradas de haitianos no Brasil tem relação direta com a permanência da crise no Haiti, mas também com mudanças nas rotas migratórias internacionais.

"O Brasil não é um país de destino para a maioria das pessoas do mundo. Ele é um país muito mais 'trampolim', de trânsito, para chegar em outros lugares", afirma.

Segundo ele, historicamente, o destino principal de muitos haitianos eram os Estados Unidos. No entanto, o endurecimento das fronteiras e das políticas migratórias em países do Norte Global tornou esse percurso mais difícil, perigoso e caro.

Nesse cenário, o Brasil volta a aparecer como alternativa. O vínculo estabelecido nas últimas décadas e a presença de uma comunidade haitiana já consolidada no país ajudam a sustentar o fluxo.

"Hoje a gente tem uma comunidade muito forte de haitianos no Brasil, e continua mantendo esse fluxo, porque a situação lá não melhorou, inclusive, até piorou. Eles tiveram assassinatos de presidentes, várias outras crises. Hoje em dia o crime, as gangues, são muito fortes, dominaram até aeroportos. Então, o fluxo de haitianos vindo para o Brasil é o de reunificação familiar: daqueles que ficaram no Haiti com os que estão no Brasil."

Para Caio, esse movimento ajuda a explicar a chegada de grupos por voos fretados nos últimos meses.

"Tem chegado, semanalmente, voos de haitianos, voos fretados, em Viracopos, em Curitiba, em Porto Alegre, em Florianópolis, com visto de reunião familiar."

A dinâmica, segundo ele, tem imposto desafios a municípios que, em curto intervalo de tempo, precisam organizar recepção, documentação, encaminhamentos e atendimento social.

"Esse fluxo está sendo muito desafiador para os municípios, porque, de repente, chegam voos com 150 haitianos. O governo acionou a OIM para dar apoio, tanto na recepção, para fazer um primeiro risk assessment, um primeiro contato, para ver demandas, cadastrar os contatos e, posteriormente, incluí-los em projetos de integração, trabalhar com casos de proteção, quando necessário."

Comemoração do "Dia da Bandeira do Haiti", em Porto Alegre.(Imagem: Evandro Leal/Agencia Enquadrar/Folhapress)

Desafios de integração

A entrada regular, no entanto, é apenas uma etapa do processo migratório. A permanência no Brasil impõe desafios ligados à moradia, documentação, idioma, trabalho, acesso a serviços públicos e integração social.

Caio relata que, em sua experiência anterior no Crai - Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes da Prefeitura de São Paulo, os haitianos estavam entre os principais públicos atendidos. As demandas envolviam regularização migratória, benefícios sociais, moradia e acesso à saúde.

"Em São Paulo, eles residem muito em ocupações e têm um tipo de residência bem precário, com famílias numerosas. Então, eles acessavam o Crai para regularização migratória, para requerer benefícios, para questões de moradia, de acesso à saúde e outras."

A barreira linguística também aparece como obstáculo relevante. Embora o francês seja idioma oficial do Haiti, muitos haitianos têm o crioulo haitiano como língua principal.

"O idioma sempre é uma barreira. Mas é curioso, porque como os haitianos já vêm para o Brasil há vários, muitos já tiveram filhos aqui no país. Alguns deles, então, já são adolescentes ou estão entrando na vida adulta, inseridos no mercado de trabalho e ajudando a família", afirma Caio. 

No mercado formal, a presença haitiana aparece com força em setores que demandam mão de obra, especialmente no Sul do país.

"Eles encontraram emprego, principalmente, na rede de frigoríficos. Tanto que, além de São Paulo, a comunidade haitiana é muito forte em Curitiba, em Santa Catarina, em Porto Alegre. Eles acabaram se deslocando para essa região, porque é uma região que tem demanda de mão de obra."

Gargalo jurídico

Além dos desafios sociais e econômicos, Caio aponta um entrave jurídico no acesso à acolhida humanitária.

Segundo ele, embora o visto humanitário tenha sido uma medida inovadora quando criado, em 2012, e tenha sido renovado ao longo dos anos, mudanças recentes alteraram a forma de acesso a esse instrumento.

Em 2024, o governo editou portaria sobre visto temporário e autorização de residência para fins de acolhida humanitária a nacionais haitianos afetados por calamidade, desastre ambiental ou instabilidade institucional no Haiti.

Em 2025, nova portaria passou a disciplinar a concessão de visto eletrônico para haitianos e apátridas com vínculos familiares no Brasil, para fins de reunião familiar.

O ponto sensível, explica Caio, está na tentativa de vincular o visto de acolhida humanitária ao chamado patrocínio comunitário, modelo pelo qual uma organização da sociedade civil se responsabiliza por apoiar a chegada e a integração de imigrantes no Brasil.

Para ele, embora o mecanismo possa ser positivo ao prever suporte concreto, como moradia, aulas de português e acompanhamento social, a exigência também cria uma barreira prática para pessoas em situação de vulnerabilidade, que passam a depender do referenciamento por uma entidade brasileira.

Caio observa que, até o momento, o programa foi regulamentado apenas para nacionais afegãos. No caso dos haitianos, afirma, ainda não há norma específica que permita a operacionalização do patrocínio comunitário.

Com isso, embora a acolhida humanitária para haitianos exista formalmente, o acesso ao instrumento fica, na prática, inviabilizado. Nesse cenário, a reunião familiar acabou se tornando a principal via regular de chegada recente de haitianos ao Brasil.

"Já faz dois anos e ainda não criaram uma portaria específica para os haitianos entrarem nesse programa. Então, basicamente, a portaria existe, só que é juridicalmente impossível de ser feita, porque não tem nenhum edital, nenhuma outra portaria que regularmente, especificamente para os haitianos. E aí, o que acontece? Já faz quase dois anos que os haitianos não conseguem pedir o visto de acolhida humanitária e só conseguem o visto para vir ao Brasil por reunião familiar, que são esses que estão chegando agora", completa.

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