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Defensora pública e escritora premiada: Conheça Maria Fernanda Maglio

Em entrevista ao Migalhas, autora fala sobre influência da Defensoria em sua obra, processo de criação e importância da literatura na formação jurídica.

22/7/2026
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"Eu não sei que escritora eu seria se eu não fosse Defensora Pública."

Na trajetória de Maria Fernanda Maglio, Direito e literatura não ocupam espaços separados. Um atravessa o outro. A experiência na Defensoria Pública molda seu olhar sobre o mundo; a escrita, por sua vez, transforma vivências, conflitos e inquietações em personagens e histórias.

Defensora pública desde 2007, Maria Fernanda começou a escrever literatura em 2013, aos 33 anos. Antes disso, os livros já faziam parte de sua vida como leitora. A ficção, porém, surgiu mais tarde, quando sentiu que, embora a vida estivesse aparentemente organizada, ainda havia algo que precisava ganhar forma.

"Eu tinha uma sensação de que estava perdendo alguma coisa, de que poderia fazer alguma coisa que não estava acontecendo."

Foi desse desassossego digno de Fernando Pessoa que nasceu a escritora.

Hoje, autora de obras premiadas, Maria Fernanda reconhece que sua produção literária carrega as marcas da atuação jurídica, ainda que seus textos não reproduzam diretamente processos ou casos concretos.

"Primeiro o Direito, depois a literatura e, agora, tudo misturado", diz Maria Fernanda. 

Em entrevista ao Migalhas, ela falou sobre o início na ficção, a influência da Defensoria em sua escrita, a criação de personagens, as referências que marcaram sua formação e o papel da literatura na construção de profissionais do Direito mais atentos à complexidade humana.

Do Direito à literatura

Maria Fernanda sempre teve uma relação próxima com os livros. Lia muito, gostava de literatura e, ainda na escola, sentia prazer em escrever redações. Uma professora de português, de quem guarda boas lembranças, também reconhecia sua facilidade com as palavras.

Nada disso, porém, havia se transformado em um projeto literário.

Antes de escrever ficção, ela cursou Direito, prestou concurso e ingressou na Defensoria Pública. Já era casada, tinha dois filhos e uma carreira consolidada quando começou a questionar se aquela vida, embora estruturada, esgotava tudo o que ainda poderia fazer.

A resposta veio pela escrita.

"Eu comecei a escrever literatura sem nunca ter escrito."

O processo surgiu da percepção de que alguma coisa faltava e de que essa ausência poderia ser preenchida pela criação literária.

Aos 33 anos, Maria Fernanda começou a escrever. Quatro anos depois, publicou seu primeiro livro, "Enfim, Imperatriz". A obra venceu, em 2018, o Prêmio Jabuti na categoria Contos.

A Defensoria e o olhar da escritora

Embora a experiência profissional esteja presente em sua literatura, Maria Fernanda rejeita a ideia de que seus livros sejam simples transposições de casos acompanhados na Defensoria Pública.

Sua escrita, afirma, parte da invenção.

"Eu gosto da invenção, eu gosto de inventar, eu gosto de fabular."

Essa liberdade de criar permite construir personagens, espaços e situações que não precisam corresponder a acontecimentos reais. Ainda assim, nenhuma história surge completamente separada de quem a escreve.

"Tudo o que eu crio veio de mim."

Para Maria Fernanda, isso significa reconhecer que as experiências acumuladas ao longo da vida, inclusive as vividas como defensora pública, influenciam a maneira como ela constrói personagens, escuta vozes e percebe situações de violência e desigualdade.

"Nada do que eu escrevo é baseado em algo que aconteceu, mas, em alguma medida, tudo o que eu escrevo é baseado também na minha vivência como defensora pública."

Em seu romance mais recente, "Lá é o tempo", por exemplo, parte da narrativa é formada por entrevistas feitas por um escritor com pessoas que tiveram contato com um crime ocorrido no passado.

As falas são ficcionais, mas a forma como foram construídas nasceu, em parte, da experiência de Maria Fernanda com a leitura de processos.

A hesitação, a dúvida, as interrupções e o modo como os depoimentos são transcritos ajudaram a dar forma às vozes dos personagens.

"Tudo isso é muito jurídico, jurídico nesse sentido mais prosaico, mais do que é o cotidiano do Direito, o processo real, pessoas existindo no papel do processo."

Da experiência ao conto

A autora recorda apenas uma história diretamente inspirada em um atendimento profissional.

O episódio envolvia uma mulher presa que tinha uma filha e corria o risco de perdê-la por não ter com quem deixá-la enquanto ainda cumpria pena.

A situação acabou transformada em um conto de "Enfim, imperatriz".

Segundo Maria Fernanda, esse é um caso excepcional em sua produção. Na maior parte das obras, a influência da atuação jurídica é mais distante.

As questões sociais, a violência e a vulnerabilidade aparecem, mas não como reprodução fiel de casos concretos.

Essa distância também permite que a autora preserve o espaço da ficção. Em vez de registrar acontecimentos tal como ocorreram, ela parte das marcas deixadas por eles para construir outras histórias.

Ler Direito não é ler literatura

"Você gosta tanto de ler, faz Direito". A frase, ouvida por muitos estudantes antes da escolha profissional, parte de uma associação que Maria Fernanda considera equivocada. Para ela, gostar de literatura não significa necessariamente gostar de textos jurídicos.

O livro técnico, explica, tem outra finalidade, outro vocabulário e outra construção.

"Quem gosta de ler gosta de ler literatura. Você não gosta de ler livro jurídico. Livro jurídico é técnico."

Maria Fernanda faz questão de ressaltar que gosta de Direito, da faculdade que cursou e de sua atuação como defensora pública. Sua escolha profissional, contudo, não veio apenas do interesse pelos livros, mas de um senso de justiça que já a acompanhava.

"Acho que, além desse gosto pelas palavras e pela literatura, dentro de mim sempre tive um senso de justiça muito forte."

Para ela, leitura jurídica e leitura literária não devem ser confundidas nem tratadas como substitutas.

"Acho que não dá para substituir a leitura literária pela leitura jurídica. São duas instâncias totalmente diferentes."

É justamente por serem diferentes que as duas formas de leitura podem se complementar.

Maria Fernanda defende que profissionais do Direito não abandonem a literatura diante das exigências da atividade técnica.

Romances, contos e outras formas de ficção permitem contato com experiências, afetos e realidades que dificilmente cabem na linguagem objetiva de uma petição ou de uma decisão.

Segundo a escritora, esse contato também interfere na maneira como advogados, defensores, magistrados e demais profissionais enxergam as pessoas envolvidas nos processos.

"Isso traz sentido de humanidade para o nosso trabalho enquanto operador do Direito."

Personagens que se revelam

Maria Fernanda também não costuma começar um livro com toda a trama previamente definida.

Seu processo criativo é guiado pela linguagem e pela descoberta gradual dos personagens.

Ao falar sobre André, personagem de "Lá é o tempo", ela contou que a primeira semente surgiu em outra obra "Quem tá vivo levanta a mão". Neste livro, havia um menino com esse nome, de aproximadamente 11 ou 12 anos, estudante de escola pública e com poucos amigos.

Não era exatamente o mesmo André que apareceria depois, mas aquela figura permaneceu em sua imaginação.

"Acho que a semente desse personagem veio daí."

A partir dessa lembrança, o personagem começou a ganhar novas camadas.

"Eu vou sentindo quem é o personagem como se eu estivesse descobrindo e não criando."

A autora compara o processo ao ato de retirar algo que encobre uma pessoa que já existe. A imagem é uma forma de explicar como sente a escrita, embora reconheça que, na prática, tudo é fabulação.

"Como se ele já existisse e meu trabalho como escritora fosse tirando as camadas que estão encobrindo essa pessoa."

A história, portanto, não surge pronta. Ela se desenvolve à medida que é escrita.

"Para descobrir a história, preciso escrever a história."

Maria Fernanda admite que um planejamento mais rígido talvez tornasse o trabalho mais simples e reduzisse os caminhos perdidos durante a criação. Ainda assim, seu método permanece intuitivo.

"Não sei sobre o que vou escrever até que eu sente e comece a escrever."

A linguagem da infância

Entre os escritores que mais influenciam sua obra, Maria Fernanda destaca Guimarães Rosa.

Nascida em Cajuru, no interior de São Paulo, ela reconhece na linguagem do autor mineiro uma sonoridade próxima daquela que ouvia na infância.

Seus avós e as pessoas da cidade falavam, segundo ela, de um modo semelhante ao dos personagens rosianos.

"Guimarães Rosa é quase a linguagem da minha infância."

A aproximação com o autor é, portanto, literária e afetiva.

"Para mim, Guimarães Rosa é o grande escritor e é o escritor que mais me inspira."

Outra referência é Gabriel García Márquez. Maria Fernanda afirma ter lido "Cem anos de solidão" mais de dez vezes e destaca, sobretudo, a atmosfera construída pelo escritor colombiano.

Essa influência apareceu em sua própria obra de maneira inesperada.

Durante a escrita de um dos livros, percebeu que a narrativa havia ultrapassado os limites do real e incorporado elementos mágicos.

"Quando eu percebi, o livro tinha um viés de realismo mágico, tinha uma atmosfera que tinha quebrado o pacto da realidade, que tinha virado uma outra chave, a chave do mágico."

Lygia Fagundes Telles também ocupa lugar importante em sua formação. Maria Fernanda admira a construção dos arcos narrativos, o desenvolvimento dos personagens e a naturalidade com que eles parecem integrar a vida do leitor.

"Eles parecem gente que a gente conheceu, da nossa família."

Maria Fernanda Maglio é defensora pública e autora de obras premiadas, como "Enfim, imperatriz". No Instância Literária, ela fala sobre os encontros entre Direito, linguagem e ficção.(Imagem: Reprodução/Arte Migalhas)

Raio-X das obras


"Enfim, imperatriz"

Livro de estreia de Maria Fernanda Maglio, “Enfim, imperatriz” reúne contos atravessados por relações familiares, violências, desigualdades e experiências femininas. Entre situações cotidianas e acontecimentos insólitos, as narrativas acompanham personagens que enfrentam perdas, silenciamentos e diferentes formas de vulnerabilidade. Publicada em 2017, a obra venceu o Prêmio Jabuti de 2018 na categoria Contos.

179. Resistência

Único livro de poemas da autora, "179. Resistência" tem como ponto de partida o sistema prisional feminino e as histórias de mulheres privadas de liberdade. O título faz referência ao art. 179 da lei de Execução Penal, que trata da aplicação de medidas de segurança. Nos poemas, Maria Fernanda aproxima experiência jurídica e criação literária para abordar encarceramento, maternidade, violência, abandono e resistência. A obra recebeu, em 2020, o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional.

Quem tá vivo levanta a mão

A coletânea reúne contos protagonizados por personagens colocados diante da violência, da morte e da precariedade da vida. Com narrativas marcadas pela oralidade, pela fabulação e por elementos que rompem os limites do real, o livro acompanha pessoas que, mesmo atravessadas por perdas e situações extremas, procuram formas de permanecer e resistir. Publicado em 2021, foi finalista do Prêmio Oceanos em 2022.

Você me espera para morrer?

Primeiro romance da autora, a obra explora a proximidade da morte e os vínculos construídos em torno da espera, da ausência e do cuidado. Com a atenção característica da autora às relações humanas, o livro aborda a maneira como os afetos persistem diante da perda e como aqueles que ficam procuram compreender - ou adiar - as despedidas.

Lá é o tempo

Segundo romance de Maria Fernanda Maglio, "Lá é o tempo" parte de um crime ocorrido no passado e das diferentes versões construídas em torno dele. Anos depois, um escritor retorna à história e entrevista pessoas ligadas ao episódio, em uma tentativa de reconstruir o que aconteceu. Entre depoimentos, memórias, silêncios e contradições, o livro investiga como o tempo transforma os fatos e como a verdade pode assumir formas distintas para cada personagem.

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