Porandubas Políticas

Porandubas nº 75

1/11/2006


RECADOS DE LULA

As primeiras entrevistas de Lula, depois de eleito, começam a dar o tom do segundo mandato. Cordialidade e mais contato com a imprensa – na esfera da comunicação. Desenvolvimentismo/crescimento – na esfera econômica. Abertura do leque diplomático para além das fronteiras dos países do Terceiro Mundo – na esfera de política exterior. Coalizão governamental, a partir do engajamento do PMDB e de 17 a 20 governadores no seio do governo – na esfera política. Aperfeiçoamento e eliminação de distorções no Bolsa-Família – na esfera social. Mais modéstia, menos arrogância, mais abertura, menos empáfia, mais visão de conjunto, menos detalhes, mais cobrança, mais pressa na execução das ações – na esfera do comportamento pessoal.

ASSOBIAR E CHUPAR CANA AO MESMO TEMPO

Na área econômica, os atritos entre as bandas monetarista e desenvolvimentista mostram que o governo continua dividido. O presidente desautoriza Tarso Genro, que pregou o fim da era Palocci – mas, ao mesmo tempo, defende o crescimento e o rigor fiscal. Será complicada a operação de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Teme-se que o lençol seja curto. Puxado cobre a cabeça, mas descobre os pés. O imbróglio na área econômica deverá ser desvendado um pouco mais adiante.

O PT VOLTA À BRIGA

O PT volta-se para uma grande disputa : o comando partidário. Ricardo Berzoini não pediu demissão, apenas licença. Será forçado a sair. Marco Aurélio Garcia quer continuar no cargo de assessor de política externa ou comandar uma embaixada. Luiz Dulci prefere ficar pertinho do presidente. A banda nordestina terá maior espaço, a partir da influência de Jaques Wagner e Marcelo Déda, novos governadores da Bahia e de Sergipe. Sob o empuxo da disputa interna, pode ser que o PT disperse forças no momento de exigir a manutenção de seus espaços no governo.

TUCANOS AFINAM O BICO

O PSDB vai administrar Estados que, juntos, chegam a 51% do PIB. José Serra e Aécio Neves não se incomodaram com a derrota de Geraldo Alckmin. Já abrem conversas com Lula. Alckmin está decepcionado com Aécio Neves, que lhe prometeu engordar os 40% de votos obtidos no primeiro turno. Surpresa: Geraldo perdeu 6% dos votos em vez de ganhar os 20% prometidos por Aécio. Serra começa a alçar vôo em direção a 2010, assumindo o comando do Estado mais forte da Federação. Vai haver bicada de todos os lados. Aécio quer ser a bola da vez e poderá, lá pela frente, entrar no velho PMDB. A conferir.

PFL NO CANTO DO RINGUE

O PFL foi o partido mais derrotado nas eleições. Elegeu um governador, José Roberto Arruda, do Distrito Federal. Fez a maior bancada no Senado, mas o velho PMDB se adianta, coopta três senadores para que Renan Calheiros possa continuar no comando. O partido enfrenta grandes dificuldades. Tem a prefeitura de São Paulo, cujo prefeito Gilberto Kassab, exímio articulador, não tem carisma. O governador Cláudio Lembo, por sua vez, está em fim de mandato. Sobra César Maia, um grande estudioso da política. O prefeito poderá se transformar na estrela maior da constelação pefelista.

DIRCEU TRANQÜILO

Domingo à noite, participei de debates na Rádio Bandeirantes com parlamentares como José Aníbal, Duarte Nogueira, Ricardo Berzoini e Rui Falcão, cada um fazendo a sua análise. Mas havia ali alguém surpreendentemente tranqüilo : José Dirceu. Enfrentou com galhardia as questões colocadas por José Paulo de Andrade. E aventurou-se a olhar o amanhã, quando um gigantesco movimento por sua anistia baterá na Câmara Federal, por meio de uma ação popular com mais de um milhão de assinaturas. José Dirceu está na ativa.

INÍCIO DA CRISE

Lembrei-lhe a articulação que fez, em dezembro de 2002, com o deputado Michel Temer, presidente do PMDB, pela qual o partido em peso entraria no governo. Articulação desfeita por Lula, no dia seguinte ao acordo que daria ao PMDB importantes ministérios. A desconstrução contribuiu para a crise política, porque Lula preferia administrar no varejo e não no atacado. O ex-ministro concordou com a análise. Quando se vê Lula, hoje, fazendo ele mesmo a articulação com o PMDB, a conclusão vem rápida : o presidente aprendeu com quantos paus se faz uma canoa.

MINISTERIÁVEIS

Marta Suplicy vai ganhar um Ministério, possivelmente o de Cidades. Marta poderá ser o trunfo petista para depois de amanhã. Ela saiu-se bem no comando da campanha lulista em São Paulo. Já Delfim Netto poderá ser consultor. O perfil de ministro poderia provocar seqüelas na imagem de um governo que se considera de esquerda. Jorge Gerdau é um nome forte. Mas o Nordeste poderá ter boa participação no ministério.

E A FAMOSA PERGUNTA ?

Afinal de contas, onde está a resposta para a famosa pergunta : de onde veio o dinheiro para a compra do falso dossiê contra os tucanos ? A essa altura, qualquer resposta não fará a mínima diferença. Lula eleito deve se deliciar com o drible que deu nos bicos dos tucanos e pefelistas. O que poderá dizer é : que a Justiça puna os culpados. Mais aplausos para ele. A conferir.

AS PESQUISAS

As pesquisas feitas durante o segundo turno para a presidência da República, principalmente as últimas, acertaram em cheio. Em alguns Estados, como no RN, as pesquisas mostraram uma queda na margem do ganhador. A diferença entre Vilma Faria (PSB) e Garibaldi Filho (PMDB), apontada pelo Ibope como sendo de 10%, na véspera da eleição, foi de menos de 5%.

INTERNET MENOS BARULHENTA ?

Com a vitória de Lula, os e-mails espalhafatosos sobre seu perfil, incluindo as piadas e charges, aliviarão a correspondência. Mas certos olhos observadores e questionadores deverão contemplar o cenário pelos próximos 4 anos. A conferir.

LULA MENOS FALANTE

Seria melhor para todos os ouvidos, se o presidente Lula, em seu novo mandato, falasse menos e agisse mais. Seria bom ver o presidente indo a canteiro de obras, supervisionando ações e programas, cobrando ministros, dando um cala-boca nos bajuladores de plantão.

E MEIRELLES, HEIN ?

Mesmo que continue, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, desfilará com outro figurino. Não será tão independente como foi até agora.

GEDEL COM FORÇA

O deputado Geddel Vieira Lima, do PMDB, foi peça importante para a vitória de Jaques Wagner ao governo da Bahia. Poderia ser o nome do PMDB à presidência da Câmara. Uniria as duas alas do partido. Mas Renan Calheiros, que pleiteia a reeleição no Senado, é o obstáculo. Por isso, Geddel poderá ter uma vaga no Ministério. Se quiser, é claro.

VÔOS PREOCUPAM

Os céus brasileiros estão cheios de aviões. E as greves de controladores de vôo ameaçam dar pane no sistema. Não há mais céu de brigadeiro. A coisa está mais para céu de guerra nas estrelas.

SERÁ QUE DÁ LIGA ?

Mistura de cal com cimento dá liga. E equilíbrio fiscal com crescimento, o que dá ? Essa é a mistura que Lula está fazendo : cabeça de Antonio Palocci, corpo de Guido Mantega, boca de Tarso Genro, dedos de Henrique Meirelles, unhas de Paulo Bernardo e ouvidos de Delfim Netto. Com o sorriso de Dilma Rousseff.

REFORMA POLÍTICA

A reforma política abrirá o capítulo das reformas. O único estatuto que poderá ser consensual é o da fidelidade partidária.

ONDE ESTÁ JUCELINO, HEIN ?

Onde se esconde o médium Jucelino (sem s) Nóbrega da Luz, que registrou no 1º Cartório de Títulos e Documentos, de Londrina, a previsão de que Luiz Inácio Lula da Silva não seria reeleito presidente do Brasil ? Diz-se que o médium previu o desastre do avião da Gol e outros acidentes. E que seria respeitabilíssimo. Curiosidade : quando uma previsão como essa vai para o brejo, como fica a cara do sujeito, hein ? Que desculpas ele tem ? Será que ainda há gente na fila de consulta ?

____________

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Colunista

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.