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John Morgan pintou rostos populares ao retratar Júri da Inglaterra vitoriana

Em 1861, o artista registrou doze cidadãos reunidos nas Assizes de Aylesbury.

27/2/2026
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Além de habitar códigos e tribunais, a Justiça também se faz imagem.

Em 1861, o pintor vitoriano John Morgan transformou o Júri em protagonista ao retratar doze homens reunidos durante as Assizes realizadas no County Hall, em Aylesbury.

A obra, intitulada "The Jury", foi pintada no próprio local do julgamento e reúne figuras reais da comunidade - identificadas por nome e profissão em placa sob a pintura.

As Assizes eram tribunais itinerantes da Inglaterra, realizados periodicamente em cada condado, nos quais juízes enviados pela Coroa julgavam crimes graves e causas civis relevantes. Funcionavam como sessões solenes da Justiça criminal e civil superior, reunindo magistrados, advogados, autoridades locais e, naturalmente, o Júri Popular. Eram momentos centrais da vida jurídica e política do condado.

O County Hall, por sua vez, era o edifício-sede da administração e das cortes locais - equivalente a um palácio da Justiça e centro cívico do condado.

No caso de Aylesbury, o County Hall situado na Market Square concentrava as principais funções administrativas e judiciais da região.

Retrato de homens comuns

Diferentemente das alegorias clássicas da Justiça, Morgan opta por uma cena concreta.

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Não há deuses, balanças ou espadas, mas comerciantes, açougueiros, advogados, estalajadeiros, um fabricante de seda, um pedreiro. O foco está nos rostos: atentos, cansados, pensativos, concentrados. 

Um dos aspectos mais singulares de The Jury é que os doze homens não são figuras genéricas. Seus nomes e ocupações aparecem registrados em placa sob a pintura, e muitos podem ser identificados em censos e diretórios comerciais da época.

(Imagem: Reprodução)

Fileira superior (da esquerda para a direita):

  • Joseph Ivatts: comerciante de gado. Descendia de uma família de sapateiros estabelecida na cidade desde o século XVIII. Foi descrito pelo Bucks Herald, em 1882, como um "antigo, conhecido e estimado habitante da cidade".
  • Thomas Horwood: procurador de Temple Square. Tornou-se sócio do escritório James and Horwood e acumulou funções como comissário para juramentos, registrador do tribunal do arquidiaconato de Buckingham e secretário do banco de poupança local.
  • William Ezra Eagles: identificado na placa como advogado.
  • Charles Isaac Clark: açougueiro e também proprietário de estalagens. 
  • Walter Batley Rudland: outro managing clerk de escritório jurídico, sendo descrito pela imprensa local como "altamente respeitado".
  • Richard Loosely: moleiro e criador de gado.

Fileira inferior (da esquerda para a direita):

  • Thomas Smith: inicialmente comerciante de carvão e sal, atuava como açougueiro na Walton Street quando retratado. Posteriormente passou a administrar a estalagem Bear Inn.
  • Philip Payne: identificado na placa como comerciante de tecidos (draper). Proprietário de lojas na Market Street e Temple Street.
  • Thomas Wootton: proprietário do Bell Inn, na Market Square. O estabelecimento era descrito como "commercial inn", com aluguel de cavalos e carruagens.
  • Joseph Howard: comerciante de carvão há muitos anos, também negociava tijolos, cal e sal. 
  • James Hobday: gerente de uma fábrica de seda. Posteriormente tornou-se livreiro e papelaria na Market Square. 
  • John Dukes: descrito como pedreiro.. 

Recepção e reconhecimento

Exibido na primavera de 1862 no British Institution, em Londres, o quadro recebeu elogios da imprensa.

O Bucks Advertiser registrou que a obra foi posicionada "na situação mais vantajosa" e celebrada por sua "fidelidade à natureza".

Em 1863, foi produzida uma gravura em mezzotinta da pintura - a primeira obra de Morgan a ganhar reprodução impressa. O sucesso foi tamanho que o artista passou a ser conhecido como "Jury Morgan".

Hoje, a obra integra o acervo do Buckinghamshire County Museum.

Quem foi John Morgan?

John Morgan (1822–1885) foi um pintor vitoriano britânico de grande sucesso no século XIX, especialmente conhecido por suas cenas de gênero - representações do cotidiano, muitas vezes centradas na vida familiar e na infância.

Nascido em Pentonville, Londres, iniciou sua formação artística de maneira prática: foi aprendiz em uma empresa que produzia molduras e mobiliário artístico. Posteriormente estudou na School of Design, em Somerset House, e aperfeiçoou-se em Paris sob a orientação de mestres como Thomas Couture e Paul Delaroche, absorvendo uma técnica refinada e atenção minuciosa ao detalhe.

Por volta de 1860, Morgan estabeleceu-se com a família em Aylesbury, onde viveu até meados da década de 1860.

O censo de 1861 o descreve como "Artist Subject Painter in Oils", ou seja, pintor de cenas narrativas em óleo. Foi nesse período que produziu obras voltadas à vida local, entre elas The Jury (1861) e The Country Auction, consolidando sua reputação como observador atento da sociedade vitoriana.

Sua pintura dialogava com outros importantes artistas do gênero na Inglaterra, como Thomas Webster e William Powell Frith, combinando narrativa, teatralidade e realismo social. Morgan expôs regularmente na Royal Academy, na British Institution e na Society for British Artists (SBA), da qual se tornou membro em 1875.

De saúde frágil (sofria de problemas respiratórios) mudou-se diversas vezes em busca de clima mais favorável, vivendo em Guildford e, posteriormente, em Hastings, onde faleceu em 1885.

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Referência

DISCOVER BUCKS COUNTY MUSEUM. The Jury by John Morgan, 1861. Aylesbury: Discover Bucks County Museum. Disponível em: https://www.discoverbucksmuseum.org/wp-content/uploads/2021/06/The-Jury-by-John-Morgan-1861.pdf. Acesso em: 26 fev. 2026.

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