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Entre 11 países, Brasil é o que mais paga a juízes: média é R$ 1 milhão anual

Estudo aponta que mediana brasileira supera o maior valor pago em sete países e que 86,3% dos magistrados e pensionistas receberam acima do teto em 2025.

13/8/2026
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A remuneração dos magistrados brasileiros há anos é marcada por uma diferença entre o subsídio previsto para o cargo e o valor efetivamente recebido nos contracheques.

Ao salário-base podem se somar parcelas indenizatórias, pagamentos retroativos e outras verbas adicionais - muitas vezes chamadas de "penduricalhos" -, o que faz com que a remuneração total supere com frequência os valores formais da carreira.

Em 2025, a remuneração média anual de magistrados e pensionistas analisados chegou a R$ 1,085 milhão, segundo estudo da República.org. O levantamento mostra que essa distância entre o subsídio formal e os valores efetivamente pagos também coloca a magistratura brasileira em posição elevada na comparação internacional.

Divulgado em março de 2026, o estudo comparou a remuneração de magistrados em 11 países e concluiu que o descolamento brasileiro permanece mesmo quando são consideradas diferenças de câmbio, custo de vida e renda da população.

O levantamento reúne dados de Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido. Em vez de simplesmente converter salários pela cotação das moedas, utiliza três critérios: poder de compra, renda mediana nacional e salário mínimo de cada país.

A análise também considera diferentes pontos da distribuição remuneratória, das menores aos maiores valores, para evitar que a comparação fique restrita ao salário de ingresso ou aos vencimentos formais das autoridades no topo da carreira.

Remuneração da magistratura brasileira se distancia dos padrões internacionais em diferentes critérios de comparação, aponta estudo da República.org.(Imagem: Arte Migalhas)

Remuneração média de juízes supera R$ 1 milhão no Brasil

Antes de partir para a comparação internacional, o levantamento analisou a remuneração efetivamente paga à magistratura brasileira ao longo de 2025, com base em dados do Painel de Transparência do CNJ.

Os valores considerados não correspondem apenas ao subsídio mensal do cargo. O cálculo reúne parcelas remuneratórias, verbas indenizatórias e pagamentos retroativos - componentes que, em diferentes situações, podem elevar significativamente o total recebido em relação ao subsídio formal.

No universo de aproximadamente 25,9 mil magistrados e pensionistas, a remuneração média anual foi de R$ 1.085.070. Desse total, 22.347 pessoas receberam acima do teto anual de referência, o equivalente a 86,3% do universo analisado.

Magistratura em 2025. Remuneração média anual chegou a R$ 1,085 milhão; 86,3% dos magistrados e pensionistas analisados receberam acima do teto anual de referência.(Imagem: Arte Migalhas)

Somados, os pagamentos acima do teto chegaram a R$ 12,63 bilhões em 2025.

O levantamento identificou ainda 637 magistrados e pensionistas com remuneração anual superior a R$ 2 milhões. Para integrar os 10% mais bem pagos da magistratura brasileira, foi necessário receber mais de R$ 1,8 milhão no ano.

A situação, porém, não foi idêntica em todos os órgãos. STJ e TSE foram as únicas Cortes analisadas em que a remuneração mediana permaneceu abaixo do teto anual de referência. Nos demais tribunais, a mediana ficou acima desse patamar. No TJ/SP, que apresentou a maior mediana entre os tribunais analisados, a remuneração mediana chegou a R$ 1,79 milhão em 2025.

Poder de compra

Para comparar remunerações pagas em moedas e economias muito diferentes, o estudo converteu os valores para dólares ajustados pela paridade do poder de compra, o chamado PPC.

A ideia é simples: um mesmo valor convertido pelo câmbio pode comprar quantidades muito diferentes de bens e serviços no Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa.

O PPC tenta corrigir essa distorção e colocar as remunerações sob uma mesma régua de capacidade de consumo. O próprio estudo explica que, no caso brasileiro, o fator de conversão utilizado em 2026 indica que US$ 100 em PPC correspondem ao poder de compra de R$ 262.

Mesmo depois desse ajuste, a magistratura brasileira permanece em patamares elevados.

O valor correspondente ao P25 da magistratura brasileira - isto é, o limite superior dos 25% com menor remuneração - já supera o necessário para integrar os 10% mais bem pagos em Alemanha, Portugal, França, Reino Unido, Argentina, México e Estados Unidos.

No meio da distribuição, a diferença se amplia: a remuneração mediana brasileira supera o maior valor pago a qualquer juiz na Alemanha, França, Portugal, Argentina, México, Chile e Estados Unidos.

Ou seja, um magistrado situado no meio da distribuição remuneratória brasileira possui, em termos de poder de compra, uma remuneração superior à do juiz mais bem pago desses sete países.

Entre os 25% mais bem remunerados no Brasil, o afastamento é ainda maior. Esse grupo reúne cerca de 7,4 mil magistrados e, segundo o estudo, recebe acima do maior valor observado entre os aproximadamente 53 mil juízes dos dez países estrangeiros analisados, inclusive autoridades das mais altas Cortes.

No extremo superior, a maior remuneração identificada na magistratura brasileira corresponde, em poder de compra, a aproximadamente US$ 1,2 milhão em PPC. O número não significa que o magistrado tenha recebido US$ 1,2 milhão. Trata-se de uma conversão que coloca os rendimentos dos diferentes países sob uma mesma régua de poder de compra, considerando as diferenças de preços entre as economias.

Segundo o levantamento, esse máximo brasileiro equivale a cerca de 2,5 vezes o maior valor da Itália, Colômbia e Reino Unido; três vezes o da França e do Chile; cerca de quatro vezes o dos Estados Unidos; quase cinco vezes o do México; e seis vezes o de Portugal.

Poder de compra da magistratura. Segundo estudo da República.org, a maior remuneração registrada no Brasil supera, em poder de compra, os valores máximos observados nos demais países comparados.(Imagem: Arte Migalhas)

Renda mediana

A segunda régua abandona os valores monetários e pergunta: quanto a remuneração dos magistrados representa diante da renda típica da população de cada país?

Para isso, o estudo utiliza a renda mediana nacional - o valor que divide a população em duas metades, uma com rendimentos inferiores e outra com rendimentos superiores. As medianas utilizadas pelo levantamento foram obtidas a partir do WID e atualizadas pela inflação de cada país até o fim de 2025.

A comparação permite traduzir os números de maneira mais concreta. Assim, dizer que uma remuneração equivale a 12 vezes a renda mediana significa que o valor recebido em um ano corresponde a cerca de 12 anos da renda anual de uma pessoa situada no meio da distribuição de renda, mantido o mesmo nível de rendimento.

A remuneração dos magistrados brasileiros equivale a múltiplos da renda anual de quem está no meio da distribuição de renda do país.(Imagem: Arte Migalhas)

No Brasil, até a menor remuneração observada entre os magistrados já equivale a cerca de 12 vezes a renda mediana nacional. Esse nível, segundo o estudo, já supera o máximo relativo encontrado nos Estados Unidos, Itália, Reino Unido, França, Portugal e Alemanha.

À medida que se avança na distribuição remuneratória, a distância cresce. Para ingressar no grupo dos 25% mais bem pagos, o rendimento corresponde a aproximadamente 48 vezes a renda mediana brasileira.

No grupo dos 10% mais bem remunerados, são quase 63 vezes a renda mediana. No extremo da distribuição brasileira, a maior remuneração chega a quase 111 vezes a renda mediana nacional.

A medida evidencia que a distância entre a remuneração da magistratura e a renda da população brasileira não aparece apenas nos chamados supersalários: ela se repete em diferentes pontos da carreira.

Salário-mínimo

A terceira régua compara a remuneração dos magistrados ao salário mínimo de cada país. Cada rendimento é relacionado ao piso salarial da própria economia: o valor brasileiro ao salário mínimo brasileiro, o norte-americano ao dos Estados Unidos, e assim sucessivamente.

No Brasil, até a menor remuneração observada entre os magistrados equivale a cerca de 16 salários mínimos. Esse patamar, segundo o estudo, já supera a maior remuneração registrada na magistratura da Itália, Reino Unido, França e Portugal.

No meio da distribuição, a remuneração brasileira chega a aproximadamente 48 salários mínimos. O valor corresponde a cerca de duas vezes o máximo observado no México e nos Estados Unidos, três vezes o da Itália, quase quatro vezes o do Reino Unido, quase cinco vezes o de Portugal e quase seis vezes o da França.

No extremo superior, a maior remuneração brasileira equivale a quase 150 salários mínimos. Nos países destacados na comparação, o máximo chega a cerca de 24 salários mínimos nos Estados Unidos e no México, 16 na Itália, 13 no Reino Unido, 10 em Portugal e 8 na França.

Maior remuneração da magistratura registrada no Brasil equivale a cerca de 150 salários mínimos brasileiros.(Imagem: Arte Migalhas)

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1 Apesar dos resultados, o estudo ressalta que a qualidade e o grau de detalhamento dos dados variam entre os países. Apenas Chile, Estados Unidos e Colômbia dispõem de informações individualizadas semelhantes às brasileiras; nos demais casos, parte da distribuição salarial foi reconstruída a partir de tabelas de vencimentos, número de magistrados por nível e premissas sobre progressão na carreira. Além disso, Argentina, México e Estados Unidos entram na comparação apenas com a magistratura federal. Por isso, os resultados devem ser interpretados considerando essas diferenças metodológicas, já que as bases não possuem o mesmo grau de detalhamento e homogeneidade.

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